fevereiro 17, 2006
Cartoons
Um amável leitor enviou-me via email um conjunto de cartoons, alusivos aos eventos mais actuais. O humor ultrapassa opiniões, não tenho dúvidas. Um desses irresisto a colocá-lo aqui, até por razões pessoais.

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fevereiro 10, 2006
Bertina, a Pintora
[Um texto de Paola Rolleta, a quem muito agradeço esta oferta ao Ma-Schamba. Publicado no Savana, edição de 27.01.2006.]
Bertina, a Pintora

Energia imparável é o comentário mais óbvio que se pode fazer quando se fala de Bertina Lopes. Uma exposição em Rimini a inaugurar no próximo dia 4 de Março, uma outra em Roma em meados de Maio, e outros mil projectos em carteira desta senhora das artes plásticas moçambicana que nasceu no final dos anos 20 do século passado.
Um texto de um jornal deve ser justificado por um acontecimento especial, um “gancho” como se diz na gíria. O gancho para esta pequena homenagem a esta grande mulher foi-me dado há algumas semanas quando, neste semanário, foi publicado um artigo sobre o fundador do jornal “Tribuna”, João Reis, recentemente falecido. Reis era proprietário de uma loja de livros de arte, discos de música clássica e jazz, jogos de sociedade, reproduções de quadros, a Poliarte, que estava nas arcadas no Prédio EMOSE, na baixa de Maputo. João Reis apoiava os jovens artistas locais, e organizava exposições de pintura. Justamente em 1956, Bertina participou pela primeira vez com os seus quadros numa exposição colectiva faz agora cinquenta anos. O que justifica estas linhas.
A mãe dos pintores moçambicanos

(Olhos brancos de farinha de milho, 1965, óleo sobre tela)
Na história da pintura, muitas vezes o seu nome é posto ao lado da mexicana e grande artista, Frida Khalo. Duas vidas certamente diferentes, mas com traços comuns muito fortes, e sobretudo com qualidades pictóricas e humanas muito peculiares.
É chamada por toda a gente Mama B. Mãe foi de dois filhos, o Virgílio e o Eugênio. E foi considerada a mãe dos pintores moçambicanos todos. É Bertina Lopes, a artista luso-moçambicana que vive há quarenta anos em Roma, com Franco, seu marido italiano. Proibiu-nos de chamá-la apenas moçambicana. Não quer. “Nas minhas veias corre sangue português, do meu pai, e sangue africano, da minha mãe. Desde sempre queria que todos me chamassem luso-moçambicana, só nos últimos anos consegui ter reconhecido esse meu direito”, afirma com um brilho malandro nos olhos negros marcados com uma linha de kajal.
“Ela é mãe e pai das artes plásticas moçambicanas”, disse-nos Malangatana. “Foi das primeiras a exprimir as inquietações na sociedade portuguesa. Levantava problemas sócio-políticos sem fazer com que a pintura se tornasse panfleto. Quer gostassem quer não da pessoa, todos ficavam impressionados por ela como criadora. Porque era fácil compreender a sua obra, caracterizada – ainda hoje - por uma forte expressividade. Talvez não gostassem dos títulos (por exemplo, Grito grande, Olhos brancos de farinha de milho) que ela escolhia para as suas obras, mas sentiam a obra na carne e na alma.”

[Bertina Lopes com José Craveirinha e Rui Nogar; fotografia de Ricardo Rangel]
Voltou a Lourenço Marques em 1953, depois de uma temporada em Lisboa onde foi estudar Belas Artes. Voltou e começou a dar aulas de desenho na Escola Técnica General Machado. Eram os tempos de Craveirinha, Noémia de Sousa, Rui Knopfli. Casou com o poeta Virgílio de Lemos, o pai dos seus filhos. “ Embora com carácter diferente, muitas vezes os quadros pareciam ilustrações dos poemas do Virgílio e vice-versa”, diz Malangatana.
Embaixada paralela

(Como um grande amor [autoretrato com o marido], 1967, óleo sobre tela)
Bertina recebe na sua casa-atelier todos os “palopes” que passam pela capital italiana. O terraço, com vista fabulosa dos telhados de Roma inclusive da Basílica de São Pedro, tornou-se uma espécie de “embaixada paralela”. Todos deixam a sua assinatura, nas paredes, repletas de homens políticos, artistas, músicos, enfim de toda a gente que por lá passa.
Um pedaço dos palopes em território neutro, a Itália. Está lá o poema que lhe dedicou Graça Machel, a flor de Joaquim Chissano, o charuto de Mário Soares, os agradecimentos de Carlos Veiga… e todos os outros que passaram e passam por lá a tomar um “espumantinho erótico”.
Bertina conta anedotas, sorri à vida, leva tudo com a ligeireza sonhadora dos grandes artistas e fala uma língua que é só dela: o “bertinês”, uma mistura de português e italiano, como a definiu o escritor italiano Carlo Levi. Quando fala, usa sempre um tom baixo e arrastado, como se tivesse sempre que traduzir não apenas as palavras mas aquilo que sente na alma: as reacções agressivas - que são uma caractéristica dela - se apagam logo graças ao sorriso de menina brincalhona e das boas maneiras de senhora requintada.
Bertina é uma pessoa generosa. “No meio artístico e social de Moçambique é carinhosamente chamada Mama B”, escreveu Joaquim Chissano, “porque nela está corporizado o mito e a essência do nosso ser colectivo, o modelo e exemplo a seguir pelas novas gerações, a fonte inesgotável de inspiração nos nossos esforços de reconstrução e desenvolvimento nacional, de consolidação da tolerância e reconciliação, de trabalho árduo por um futuro melhor, em que estejam garantidos o pão, a paz, a harmonia e o bem-estar para todos.”
O antigo presidente de Moçambique esqueceu de dizer que Mama B é assim chamada também em Itália onde conta com 57 “filhochos”, (filhotes). A pena dela é que apenas uma traz o seu nome. “Bertine era a mulher do médico que me fez nascer. Mas como era um nome estrangeiro o governo não deixou registar o nome. Os meus pais decidiram então me chamar Bertina.”
Bertina à medida que a idade avança não deixa de ensinar a arte de viver com o sorriso apesar da dor, a arte da curiosidade, da generosidade, e sobretudo a grande arte de não se levar demasiado a sério, a ironia, e a arte e o prazer da convivência natural e social.
Ela nunca esqueceu de onde veio, nunca esqueceu a luta do seu povo e a luta dela ao lado, embora geograficamente distante, da sua gente. No ano passado foi madrinha de uma exposição de artistas deficientes, “Abaixo o cinzento”, para angariar fundos para o DREAM, o programa de luta contra o SIDA levado a cabo pela Comunidade de Santo Egídio em Moçambique.
“Nunca se divorciou do seu país”, comentou Malangatana. A lembrança faz parte da sua obra de arte e da sua vida. “A minha casa era, desde a minha chegada a Roma, o ponto de encontro dos refugiados, dos exilados”, e recorda como ela, na época da ditadura era “deportada” enquanto a irmã mais velha era deputada nas Nações Unidas.
Entre outros, em 1991 Bertina recebeu o Prémio Mundial “Carson” da Raquel Carson Memorial Foundation de Nova Iorque pelo seus méritos artísticos e humanitários e pela sua fidelidade às origens africanas embora no contexto de uma refinada esperiência pessoal internacional.
Jazz inspirador

(Fanisse era minha avó [de um poema de José Craveirinha], 1967, collage e óleo sobre tela)
Uma das fases mais recentes da pintura da Bertina tem o jazz como elemento inspirador. As telas de Bertina a quererem ser partituras de jazz, como um símbolo activo da síntese mais ambiciosa e qualitativamente elevada, entre diversas culturas e etnias, jogadas no harmonioso signo de uma arte já livre de qualquer exagero nacional-cultural e político.
A força da pintura e da escultura (particularmente interessante aquela que dedicou ao antigo presidente e amigo Samora Machel, Quem nunca morre e de tudo se lembra, é o povo) vivida entre dois continentes, reside neste seu “estar fora”, num espaço pictórico totalmente autónomo das escolas e totalmente dentro da vida, percorrendo o espaço “para encontrar um espaço para África”. Grande capacidade da artista de absorver e metabolizar escolas e tendências sem nunca prescindir das suas raizes e da sua personalidade.
Mas a sua terra natal não se lembra tanto dela como ela se lembra de Moçambique. Há vários anos que não é organizada uma exposição da obra dela. Há pelo menos um banco que possui muitos quadros de Bertina, talvez a maior exposição permanente da artista nesta cidade. Infelizmente não está à vista de toda a gente. Malangatana acha que era tempo de Moçambique organizar uma.
Caleidoscópios
Luciana Stegagno Picchio escreveu que “a própria aventura do informal, que Europa e América enfrentam a nível puramente cerebral e visivo ou mesmo apenas gestual, é vivida por Bertina, africana de Europa, como recuperação de gestos e signos que em África, antes que em qualquer lugar, o tempo tinha isolado e mudado em metáforas: o nó, a rede, o olho, a serpente, o totem.”
Já passaram muitos anos das primeiras pinturas figurativas, repletas de grandes olhos de africanos chocados com a violência do mundo. E passaram também alguns anos dos “totem” repletos das cores fantásticas da liber-tação. Passou também a fase espacial.
No século XXI, Mama B de Maputo, de Lisboa, de Roma, tem como motivo criativo a difusão da cor, quase violenta, em telas sempre maiores, caleidoscópios de cores brilhantes, úteros luminosos e fortes onde se vê nítida a vida e a alegria de viver.
Adenda (Jpt): Sobre Bertina Lopes consultar aqui, aqui ou aqui.
As seguintes (pobres) reproduções são minha opção para ilustração no blog, retiradas do catálogo 9 Artistas de Moçambique, Maputo, Museu Nacional de Arte, 1992, e entretanto substituídas pelas imagens originalmente colocadas no artigo.

("As Luzes e as Chaminés das Fábricas", 1988, óleo sobre tela)

("Mafalala", s/d, óleo sobre tela)

("Os Três Momentos", 1991, óleo sobre tela)

("Raíz Antiga", 1988, óleo sobre tela)
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fevereiro 01, 2006
Mais um email, d'amiga:
“He knows nothing and thinks he knows everything. That points clearly to a political career”
George Bernard Shaw (1886-1956)
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À Espera dos Bárbaros
O meu amigo fc, com o qual gostaria de me encontrar um dia em Moçambique e até de caminhar até à Ilha, enviou-me, estava eu nela, este ....
À espera dos Bárbaros
O que esperamos nós em multidão no Forum?
Os Bárbaros que chegam hoje.
Dentro do Senado, porque tanta inacção?
Se não estão legislando, que fazem lá dentro os senadores?
É que os Bárbaros chegam hoje.
Que leis haviam de fazer agora os senadores?
Os Bárbaros, quando vierem ditarão as leis.
Porque é que o Imperador se levantou de manhã cedo?
E às portas da cidade está sentado,
no seu trono, com toda a pompa, de coroa na cabeça?
Porque os Bárbaros chegam hoje.
E o Imperador está à espera do seu Chefe
para recebê-lo. E até já preparou
um discurso de boas-vindas, em que pôs,
dirigidos a ele, toda a casta de títulos.
E porque saíram os dois Cônsules, e os Pretores,
hoje, de toga vermelha, as suas togas bordadas?
E porque levavam braceletes, e tantas ametistas,
e os dedos cheios de anéis de esmeraldas magníficas? E
porque levavam hoje os preciosos bastões,
com pegas de prata e as pontas de ouro em filigrana?
Porque os Bárbaros chegam hoje,
e coisas dessas maravilham os Bárbaros.
E porque não vieram hoje aqui, como é costume os oradores
para discursar, para dizer o que eles sabem dizer?
Porque os Bárbaros é hoje que aparecem,
e aborrecem-se com eloquências e retóricas.
Porque, subitamente, começa um mal-estar,
e esta confusão? Como os rostos se tornaram sérios?
E porque se esvaziam tão depressa as ruas e as praças,
e todos voltam para casa tão apreensivos?
Porque a noite caiu e os Bárbaros não vieram.
E umas pessoas que chegaram da fronteira
dizem que não há sinal de Bárbaros.
E agora, que vai ser de nós sem os Bárbaros?
Essa gente era uma espécie de solução.
(Constantino Cavafy, trad de Jorge de Sena)
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dezembro 20, 2005
A Morte de João Reis
Pinto Lobo, leitor amigo do Ma-Schamba, envia-me nota biográfica de João Reis (o cujo aqui referi), escritor, editor, jornalista, personagem de referência na vida cultural moçambicana, muito recentemente falecido. Ei-la:
João Salva‑Rey, pseudónimo literário de João Correia dos Reis, natural de Lisboa, fixado em Moçambique, Lourenço Marques, desde Janeiro de 1937 até finais de Dezembro de 1975. Na capital moçambicana concluiu os estudos secundários, e iniciou curso universitário, cuja licenciatura acabaria em Lisboa (F.L.L.). Foi docente do ensino técnico, e mais tarde Administrador da Imprensa Nacional de Moçambique onde inaugurou uma Livraria pública para coincidir com o lançamento do Livro também de sua responsabilidade e autoria, Datas e Documentos da História da Frelimo.
Iniciou‑se no jornalismo (desportivo) no jornal "Eco dos Sports", passou depois a repórter, e, sucessivamente, a redactor desportivo, crítico de teatro e de cinema, redactor e chefe de redacção do Jornal Guardian, além de colaboração vária em outros jornais e revistas. Organizou (em duas sessões) um sarau de poesia por ocasião das Festas da Cidade (de L. Marques) em 1959, do qual sairia também, por sua iniciativa, e edição da Poliarte (da qual era sócio) um disco "Poetas de Moçambique", com a inclusão de Reinaldo Ferreira, José Craveirinha, Rui Knopfli e Rui Nogar. Organizou, com Reinaldo Ferreira e Antero Sobral e outros, o Círculo de Iniciação Teatral de L. Marques. Único fundador, e único proprietário do diário A Tribuna, em 1962, para o qual reuniu colaboradores como José Craveirinha, Rui Knopfli (de quem editou o "Reino Submarino"), Eugénio Lisboa, Orlando Mendes, Adrião Rodrigues, Luiz Bernardo Honwana (de quem editou o livro "Nós matámos o cão tinhoso"), Mário Sampaio, Domingos de Azevedo, Rui Martins, Rui Nogar, Teresa Sá Nogueira, F. Carneiro, e outros - jornal de que voluntariamente abdicou por interferências estranhas à orientação política até então seguida. Preso pela PIDE em 1964. Funda, igualmente sozinho, o semanário O Jornal, em 1966, que se extinguiria em 1975. Responsável pela 2.ª edição, autoria do prefácio e posfácio da obra de etnologia "Usos e Costumes dos Bantus" do Prof. H. Junod (1975). De regresso a Portugal, ingressou no Instituto Nacional de Saúde Ricardo Jorge, e depois na Faculdade de Letras de Lisboa, onde desempenhou funções de assistente de História (1978/1987). Em Macau desde 1988, onde foi igualmente assistente universitário e colaborador de jornais, da Revista do Instituto Cultural de Macau, e da Revista Macau. Editor da Colecção Cultura Portuguesa do Mar (da Mar-Oceano Lda). Regressou a Lisboa em 2004.
Obras & Artigos Publicados:
- Kufemba (1ª ed.) – Lourenço Marques – 1972
- Kufemba (2ª ed.) – Lourenço Marques – 1974
- A Saga Otomana – Lourenço Marques – 1974
- Datas e Documentos da História da Frelimo – Maputo – 1975
- Kufemba (3ª ed.) – Lisboa – 1977
- Alimentação e Saúde do Atleta – Lisboa – 1983
- A Empresa da Conquista do Monomotapa – Lisboa – 1985
- Desporto Alimentação e Saúde – Lisboa – 1988
- Polémicas de Eça de Queiróz (5 vol.) – Lisboa – 1986/1988
- Trovas Macaenses – Macau – 1991
- Introdução à História da Literatura da China – Macau – 1991
- Memória das Armadas da Índia – Macau – 1991
- Fortalezas Portuguesas do Oriente – Macau – não publicado
- As Igrejas portuguesas do Extremo Oriente (não publicado)
- O Livro de Tao – Macau – 1997 (mais três edições)
- Os 81 Capitulos de Lao Zi – Macau - 2004
- Um Macaense de Trás os Montes 3 Vol. Macau 2004
(Joaquim Morais Alves)
Na Revista do Instituto Cultural
-Ensaio sobre Malangatana Ngoenha e a sua Pintura (1996)
-Manuel Godinho de Erédia e a Descoberta da Austrália (1997)
- O Livro de Lao Zi (1999)
Na Revista Macau
- Macau e o Tratado de Tordesilhas (1998)
- A História do Victor (Marreiros)
Colaboração diversa em jornais de Macau
- Kufemba – 4a Edição – Maputo 2005 (no prelo)
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novembro 27, 2005
Lusofonia
De um colega amigo de passagem por Lisboa recebo um email contando dos seus afazeres. Aqui transcrevo uma parcela, talvez significativa. E, note-se, despreconceituosa. Eu fico-me com o sorriso. Ei-la:
Ontem fui a uma coisa chamada "Ciclo de Reflexão Lusófona" que se realizou na Assembleia da República (auditório do Edifício Novo). Oradores Assunção Anjos (embaixador de Angola e presidente do conselho superior do referido ciclo), Ernâni Lopes (presidente), Júlio Corrêa Mendes (vice-presidente), André Jordan (brasileiro), Natália Carrascalão - antiga deputada na ass. da rep. que esteve em Timor - Francisco Knopfli, Luís Fonseca da CPLP e Diogo Freitas Amaral para encerramento. Infelizmente não fiquei para as três últimas apresentações ( ...) . Quase me esquecia, a conferência foi aberta por Jaime Gama.
Tema da conferência: "30 anos das independências dos PALOP. O papel estratégico da CPLP: da descolonização à construção do futuro". O "ciclo" pretende-se uma oorganização da sociedade civil, mas posso adiantar que é algo sério, pessoas interessantíssimas e com reconhecimento no DR como associação (DR III Série, nº 266 de 12 de Nov de 2004). Ernâni Lopes apresentou um documento que se chama: "Nos 30 anos das independências, 30 teses sobre a lusofonia". O documento apresenta alguns pontos interessantes. Veja as teses sobre o que é a lusofonia divididas em 4 componentes: a) formal: língua portuguesa, b) antropológico: construção/elaboração secular de uma matriz histórico-cultural, c) geopolítico: conjugação de vontade dos Estados Lusófonos para reforçar o poder à escala global, d) sociológico: sentimento popular de identidade interna e indentidade nacional de unificação pelo Estado e pela língua.
Isto já vai longo, erá só para dar algumas dicas depois de ter visto no blog as suas reflexões sobre a lusofonia.
Confesso que fiquei impressionado com as apresentações. Acredita que não foi mencionado outro país nas apresentações de fundo (Ernâni Lopes e Júlio Mendes) que não fosse Angola, Angola e mais Angola... Em vez de se chamar ciclo de reflexão da lusofonia deveria se chamar ciclo de reflexão de estratégias para "assaltar"/investir em angola. Vou parar por aqui antes que isto se transforme num tratado
Adenda: Paulo Gorjão teve a gentileza de aqui deixar o discurso de encerramento desta conferência, proferido pelo Ministro de Negócios Estrangeiros português, cujo tom e teor é distinto do reconhecido pelo meu amigo - frise-se que este mesmo dizia não ter assistido ao encerramento. "Angolocentrismo" no restante ambiente? Fica a hipótese. Mera.
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novembro 21, 2005
A propósito da matéria que por aqui (e não só) grassa, o leitor amigo FC enviou-me este contributo. Precioso.
"Desciam pela rua de asfalto esburacado
e passeios com falta de ladrilhos
os pés chapinhavam nas lamaças
com sapatilhas para a cabotagem.
Subiam com a falta de botões
as camisas puídas e às manchas
mal presas nas gangas desbotadas.
O mesmo aro cromado nas orelhas,
uma roda de arame enferrujado
no pulso saindo duma camisola
bordada, à moda, com uns alfinetes.
Bem que vinham de mal comer,
que não tinham aonde ir dançar
e queriam foder tudo. E foram."
(Joaquim Manuel Magalhães, Os Dias Pequenos Charcos, Ed. Presença)
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novembro 05, 2005
Jornais Velhos: João-Maria Vilanova
Leio (o JL de 28 de Setembro, p 26) artigo de Pires Laranjeira (de quem recordo excelentes lições aqui, nos idos de 97 ou 98, não garanto, que o tempo passa) sobre o recentemente falecido poeta João-Maria Vilanova. Esse sobre o qual António Jacinto Pascoal aqui deixou texto.
No cruzamento dos textos fica a curiosidade em conhecer as "Poesias" (Caminho, 2004). Que aqui não chegaram, coisa a resolver depois.
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outubro 20, 2005
O Restaurante Tugga (Londres) no Sunday Times: resposta
E aqui fica a resposta de Pascal Monteiro de Barros, residente na pérfida Albion, ao texto de AA Gill sobre Portugal e o restaurante Tugga publicado no Sunday Times .
(Confesso-me curioso sobre se esta carta terá sido publicada, o sítio do jornal não o indica).
Dear Sirs,
I am only now replying to AA Gill's "TableTalk" article in the Sunday Times on August 21. If you find this letter too politically incorrect for your readership, please forward it to Mr. Gill.
The article in question was about Tugga, a Portuguese restaurant on the King's Road. I have never been to Tugga, although I know one of the owners. It is of no consequence what AA Gill writes about the restaurant. What I
found objectionable was Mr. Gill's comments about Portugal.
As a Portuguese who chose to live and educate his children in England, I feel both extremely proud to be Portuguese and to live as a guest in this great country. My comments are therefore aimed at the particular breed of
smart-ass-pseudo-amusing weasel that Mr Gill exemplifies, certainly not the traditions, people and institutions which make Britain a peerless nation.
True to Type, Mr. Gill opens by saying that he has never been to Portugal, which of course gets him off the hook. How uncool would it be to criticize a country if you had actually been there. Plus, Portugal is a largely white, mostly catholic, funny little old-fashioned country, and guess what, an ex-colonial power to boot! All of a sudden, it's open season! You can be a smart-ass, make fun of dignified people without even offending the average Times reader, all without ever having visited the country - Excelente! I wonder if AA Gill's quick wit takes quite so many liberties agains slightly more "ethnic" peoples.
AA Gill makes a few historical references which I would like to address.
1. Portugal is indeed "England's Oldest Ally", something it Portugal is quite proud of. In the age of AA Gill and co. this is of course a laughable matter.
What AA does not know, is that this alliance almost never was. Indeed, had King Joao I and his court been met in England by the late-medieval equivalent of the smart-ass-pseudo-amusing weasel-restaurant critic; a group consisting mainly of jesters, male prostitutes, deserters, pickpockets and thieves, they might have been less impressed with their future ally. The King of Portugal would not have married the formidable Philippa of Lancaster, their son Henry the Navigator would not have been born, and The treaty of Windsor would not have been signed. Four centuries later, Wellington would not have landed in Portugal during the bleakest hours of the Napoleonic wars, and begun England's "Reconquista" (look it up, AA) of Europe.
2. Brasil did indeed secede from Portugal. Not so unlike America's secession from England. Except that in the former case, the process was peaceful, and left behind two countries with huge cultural affinities. Brasil is the greatest living tribute to Portugal's colonization, as the largest integrated multi-racial nation in the world. In the latter case, the 2nd largest standing army in the world was defeated (twice) by barefoot irregulars, leaving behind two nations that, under the guise of the "special Relationship" barely understand, and don't really like each other.
Maybe AA Gill has not been to Brasil, so he is entitled to his opinion.
The pivotal point in Mr. Gill's incredibly well-structured argument, delivered with nonchalant ascerbic wit, is that Portugal is the perpetual loser country, the ugly sibling to its larger neighbor Spain. As he inimitably puts it "...doomed to be the mini-me Espana." Now there is a novel idea.
I adore Spain, and some of my best friends are Spanish. It is an incredible country, one of the greatest. In fact, "Modern" Spain certainly has a lot more cultural integrity that "modern" England. Actually, Portugal is nothing like Spain. Of course it is difficult to discern, having never been there. AA Gill has problably rarely left the King's Road.
His pivotal point must be a nagging personal truth for Mr. Gill, that strikes uncomfortably close to the mark. Perhaps He is the perennial ugly duckling compared to his beautiful girlfriend, "The Blonde". Or on a professional level, he must have an inkling that the "all-expenses-paid-wisecracking-irreverant restaurant critic-cum parasite" is also the mini-me of writing, the mini-me of journalism, and the mini-me of most other respectable professions. Unless, of course, one admires people who earn their living accepting free meals, to later insult their hosts, in order to amuse.
In fact perhaps Mr. Gill is incensed against Portugal simply because he has never been there. He has yet to see the magic of the place, simply because no one has ever paid his ticket there, which is a sorry excuse not
to have visited. I am sure we could arrange it.
Summer 2004 would have been a good time for him to visit, to observe some of England 's finest destroy half the Algarve while their small children watched, encouraging their dads. Or a few days later, when Sven-Goran, Becks, Posh and the rest of the A-listers and footballers wives watched, as a much smaller country outplayed them in the 1/4 finals of the Euro. Of course, in the age of AA Gill and "Modern" England, the press clamoured: "We Wuz Robbed!!!" and people just went back to drinking themselves into a stupor, intermittently smashing windows.
As I look at his airbrushed picture in the Article in the Sunday times, a thought occurs to me. Maybe Mr Gill gets his dark handsome looks from some Portuguese sailor who visited England long ago. After all, there have been
many advantages to being "England's Oldest Ally". He really should angle for his next restaurant or golf junket to take place in my fantastic country. All he needs now is someone to pay for the trip.
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O Restaurante Tugga (Londres) no Sunday Times
Um amigo enviou-me uns textos deliciosos, tanto que não resisto a colocá-los. Um texto no Sunday Times (21.08.05), no qual o crítico gastronómico AA Gill se dedica a destroçar Portugal e, a esse propósito ou vice-versa, o restaurante londrino Tugga. Um outro, resposta de Pascal Monteiro de Barros, residente naquelas paragens. Há ainda um terceiro, da autoria de José Preto da Silva, delegado do ICEP em Londres, que aqui não transcrevo, dado que também institucional. Mas nesse (obrigatório) registo é também uma bela peça.
Começo pelo princípio, eis o Table Talk de AA Gill em 21 de Agosto último [abaixo transcrito]::
I've never been to Portugal, so my prejudices about the salty Iberian appendix are unsullied and uncorrupted by acquaintance. It is with a disinterested authority, therefore, that I can say Portugal is Belgium for golfers, a place so forgettable that the rest of us haven't even bothered to think up a rude nickname for it.
Portugal is Britain's oldest ally - like that keen exchange student your mother forced you to be nice to, and who turned up in paperweight glasses and national costume. It's also the only colonial power that was given independence by its own colony. Brazil told Lisbon it would just have to stand on its own two feet now, because, frankly, being seen out with it was getting embarrassing. Portugal's colonial reputation was for being overfamiliar with the folk they were ripping off. In fact, there is a theory that the Portuguese only got an empire as a desperate attempt to get laid.
The world is dotted with plain mates on double dates, countries that are gawkier, hairier, shyer, goofier and less entertaining than their friends. Their main purpose is to make the next-door neighbour look good.
Obviously, there's Canada, which is the ugly friend of America. New Zealand is the dingo date for Australia. Ulster is the foul-gobbed psycho with a neck tattoo out with lyrical, literate, craicing Eire. But how depressing must it be to be the forgettable one out on a date with Spain? It's a Ladyshave assault course.
Portugal has been doomed to be the mini-me España. It's Spain that's famous for sailors and discoverers, when, in fact, the Portuguese were better and braver at it. Spain got fascism and Franco; Portugal just got some bloke called Salazar, but nobody noticed. Spain got bullfights, flamenco, Penélope Cruz and Real Madrid; Portugal got golf courses, porto, gout and domestic servants. Name three famous Portuguese who weren't sailors. Or three of your favourite Portuguese dishes. Okay, so there's bacalao (salt cod), those little custard tarts and, erm, another one of those delicious little custard tarts.
One of the problems with the communal, back-slapping, one-for-all-and-all-for-France Europe is the rock-on relativism (by the way, Portugal is in the EU, isn't it?). We're all supposed to be uniformly good and nice and attractive. We're supposed to believe that everyone's sense of style is equal, that their pop songs are jointly joyous and that everyone's domestic cookery is equally, salivatingly moreish. So in EU-topia, the food of Greece is as wonderful as Italy's, although there's always the proviso that it has to be really, really well made. How many people do you think there are who can make Greek food taste good? Very few. And they're all Turks.
In gallant little Portugal, the food is well meaning and pretty dreadful. And before you say anything, no, I've never had it well made, because I've never found anyone who can be bothered to make it. Salt cod, of course, can be fantastic, but one swallow doesn't make a cuisine. Then there are all those things made with chickpeas. The Portuguese are very fond of pulses, bobbing like buoys in soups of old fatty fat.
I'm sure if you're born to it, it reminds you of your grandmother's beard and your mother's mop bucket. Portuguese food is heaven if you're Portuguese. But if you come to it with a mild hunger and a choice, it's just a sort of Spanish, but without the shrieking. Dinner of the Dons always seems as if it's therapy to cope with the sensory, religious and emotional overload of being Spanish. Portuguese food, on the other hand, is more your necessary ballast and seasick ammunition for discovering Tierra del Fuego - or being the live-in couple for a rock star in Sussex.
Tugga is a new Portuguese restaurant on a stretch of the King's Road that is filled with barn-like grub bars, vaguely themed by country - Italy, Spain, Mexico, Thailand.
Their decor and menus are more style indicators than authentic gastronomic experiences. The King's Road has always been a notoriously difficult place to find anything decent to eat, at least, anything that wasn't at school with your sister. Most of the clients who trawl up and down here in the evening are up from boarding school, clogging the pavement as they do intense and romantic things on their mobile phones.
I love watching young people on phones; they come alive. Face to face, they're mumbling stroke victims, with all the elegant body language of a beanbag. But give them a handset, and they prance and pose like Margot Fonteyn laying an egg and orate like Hal at Agincourt.
Tugga is just another in this series of dark rooms, which, I suspect, do most of their business in the bar. The best thing about this one is the wallpaper of gaudy flowers that looks a bit like they've skinned a dead BA aeroplane tail and glued it to the wall. The Blonde says this particular paper is very fashionable at the moment and comes from Scandinavia. Jabberwocky food is now expanding into jabberwocky environments. You get food from Lisbon, wallpaper from Stockholm, wine from Chile, water from Fiji, music from Ibiza, waiters from Poland and a bill from the Cayman Islands.
The menu is short and Iberian, starting off with the Portuguese version of tapas, which is very like the Spanish version of tapas, but without the thumbscrews. This includes that pata negra ham that just is Spanish. The best I can say about Tugga is that it's trying to improve the general food of the area, while providing a base for the coveys of public-school children who have been at a loss for a summer camp since Pucci's, the famous virginity brokerage, closed down.
This is laudable, but, sadly, this Atlantic-rim food is never going to be fashionable or trendy. And it's not terribly well made. The ham was sweaty and sliced too thick. The salt cod, which ought to be the signature dish, was bland and resistant to swallowing. The chickpea mush was really not edible for pleasure.
Tugga is going to have a hard time competing with its pounding, tequila-slamming, chip-and-dip, youth-ogling, short-skirted neighbours.
But then, for Portugal, that's a familiar story.
(SUNDAY TIMES, August 21, 2005)
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setembro 27, 2005
Um sorriso, para variar

(bela T-shirt)
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agosto 09, 2005
João Vário
António Jacinto Pascoal regressa ao Ma-Schamba, agora ofertando um texto sobre João Vário, poeta cabo-verdiano. Como é seu costume A. J. Pascoal dedica-se a peneirar autores de identidade escusa.
Confesso o até agora secreto desejo (a la Borges?) - eu não conheço Pascoal, o cujo simpaticamente partilha textos sobre poetas de identidade semi-secreta e cujas obras desconheço por completo. Um dia descobrir que estes poetas não existem. Tal como o próprio Pascoal.
****
Negando-me (?) esse labirinto A.J. Pascoal chama-me a atenção para um texto de sua autoria colocado no Estudos Sobre o Comunismo, dedicado a Álvaro Cid, chamada que aqui partilho.
Eis o texto sobre João Vário...
Para Exemplo (Coevo) de João Vário
ao Rui Guilherme Silva, com estima
E assim o corpo seja bom para a sua Meca
mais próxima que é o engano
JV, Canto Primeiro, Livro 9
João Vário (heterónimo de João Varela) é Timóteo Tio Tiofe e outros, autor de uma série (de 12 volumes, para já) de livros poético-narrativos, todos intitulados de uma forma análoga – o substantivo «Exemplo», seguido de adjectivo (Geral, Relativo, Dúbio, etc.). No caso, só conhecemos o volume 9, Exemplo Coevo, editado em Agosto de 1998, em Cabo-Verde (Praia), com o alto patrocínio do Ministro da Cultura, numa edição conjunta do autor e Spleen-Edições.
Para melhor percepção do poemário, o autor dá-nos algumas pistas de leitura (que não são migalhas), fundamentais aliás, numa nota introdutória em jeito de prefácio – elucidativo a tal ponto, que o autor parece aí querer dilucidar aquilo que era esfíngico para o leitor. O labirinto de referências e a pretensa erudição do autor, em domínios como a pintura, escultura, arquitectura, literatura, etc., não parece confiná-lo a uma caboverdianidade existencial (ele próprio a si refere como o da «vida de ilhéu e de cidadão do mundo»). Doutro modo: parece-nos quase impossível que João Vário seja «o cabo-verdiano tipo», a menos que a diáspora lhe tenha proporcionado vivências e referentes enciclopédicos – e parece que sim, pois consta ter vivido em cidades como Antuérpia e Estrasburgo, em países como Angola e Portugal. Diríamos que João Vário, múltiplo em facetas como no nome, que a si mesmo se refere no poemário, é um produto de um tempo de circulação abundante da cultura mundial (sobretudo a ocidentalizada), possível apenas numa circunstância de vida feita fora das ilhas e já, ao que parece, na emergência da Internet.
O ano de 1937 (o do seu nascimento, em analogia ritualista com o de um Cristo), para que aponta a sua obra, simboliza o início de uma das maiores ignomínias da humanidade – com holocausto à vista – e os valores a que Vário se refere (bom senso, generosidade, coragem, inteligência, perdão), bem como as premissas do bem e do mal, o sofrimento, a verosimilhança, o destino, perseguem a ponderação daquilo que a humanidade possa ainda conter de humano.
Não é possível ler Vário sem coordenadas culturais altamente refinadas, e sem o propósito do seu preâmbulo: o de armadilhar o leitor, conferindo-lhe a sensação de ser detentor de referentes. Vário joga em vários tabuleiros: sobretudo no da verosimilhança. Querendo ser verosímil, mostra que não é verdadeiro. Oculta, pois, a sua identidade. É, como Pessoa, vários. Vário.
E é também patrício de Eça, na ironia: que verdade, então?
Referindo-se à «Paixão Segundo S. Mateus», Vário elege – e excelente escolha – a ária nº 47 (a do pedido de perdão de Pedro, cantada, curiosamente, por contralto) como uma das mais sublimes (nalguns casos, essa ária corresponde à nº 39, «Erbarme dich, mein Gott»), porém, é difícil escolher entre tanto assombro – talvez nos pudéssemos atrever a aventar a purificação de José como, entre todas, a mais bela – é a ária nº 65 ou 75 (noutras versões), intitulada «Mache dich, mein Herze, rein», quando José pede para enterrar Jesus, e toda a tensão se esvaneceu, sobrando um tempo-sem-tempo, que é o tempo pós-pathos (o que lembra o célebre Opus 11 de Barber). Mas Vário socorre-se de Bach para propor o tema do perdão e considerar que não há outra saída para a humanidade, apesar do mal – também assim se parece poder ler em «Cello Concerto», de um jovem poeta português, Daniel Duarte.
Fica a pergunta: quid est Vário? Porquê «exemplos»? Obras exemplares, no sentido didáctico e moralizador, de postulado punitivo? Ou apenas a dimensão ontológica na reflexão sobre a condição humana? E porquê o exagero da enumeração (por vezes, no limite da referencialidade banal, como de faits divers)?
Obra críptica, por certo, matizada de teor messiânico, a atestar pelas várias alusões a S. Paulo (Coríntios, II – 3), que se pressente ainda na malha do discurso, como em «Onde está o sábio? Onde está o escriba?», ou na condenação da sabedoria, em favor da «loucura» da mensagem de Cristo. Seja como for, reveladora da ética cristã, na sua mensagem desconcertante, que privilegia a cegueira do perdão contra tudo, numa extrema lucidez de loucura.
Depois, a sagração artística de 1937 (como na criação do mundo, acto genésico), como se também o poeta se quisesse coligir no conjunto da obra dessa colheita, não esquecendo a devida vénia dos mestres do real quotidiano (a crer que sim), pelo lado pseudo-científico de Vário.
Certo é que Vário não busca o Graal da verdade, mas o copo rude da verosimilhança. Não ser, mas parecer ser. Afinal, aquilo que incorpora, à maneira de Mutimati ou do recém falecido João-Maria Vilanova.
A sua linguagem, a do poemário, recorda o estilo neobarroco e vertiginoso de Craveirinha, embora muito mais hermética, simbólica e erudita – um coevo património que mal se vislumbra. Aparentemente, e segundo o registo catafórico do título, um olhar sobre a contemporaneidade, onde Deus («imprevisível vigilância/ da azáfama tutelar») parece esquecido dos homens. Ao estilo bíblico, Vário incorpora narcisicamente a figura de Cristo, nascido de Bia, sua mãe (Maria Delgado), e parido ao sétimo dia de Junho. Em estilo majestático de plural retórico.
Mitificando-se, Vário percorre o ano de 37 como se do início de uma certa era cristã se tratasse, evocando de forma memorialista, e por contraste, as grandes obras da altura e a génese da «besta apocalíptica». Jerusalém ignóbil é agora a Europa das «lutas intestinas» e fratricidas, cujos cavaleiros parecem fazer retornar um tempo de trevas. Ao invés, «as ilhas ocidentais» (Cabo-Verde) lembram uma Belém, paraíso perdido, num mundo voraz. Vário concebe o século XX como o mais vil da história da humanidade, porque a consciência e a imoralidade andam ombro a ombro, como o discernimento e o mal, de que sai vitorioso Caim. A Europa, continente de uma certa consciência moral, parece confinada ao paradoxo insanável da resolução do problema entre bem e mal. Tudo o que é genial surge, afinal, do sangue de Abel. A obra criadora, a mais bela, não se esquiva à ignomínia sobre que se constrói, e o que pare o sublime é capaz do atroz. Nesse dilema, parece-nos ouvir o eco de uma qualquer voz de um «Velho do Restelo»: «Ah a piedade é a pior das atrocidades!/ Homem, que pacto te pôs o fogo nos ouvidos/ e te espetou a alma nessa figueira estéril?».
O discurso opta sempre pela colagem ao bíblico e à linguagem de Cristo (alter ego de Vário): «Era o tempo da criação do campo/ de concentração de Buchenwald (…)»; «Em verdade, em verdade, quase tudo ignoramos (…)»; «Em verdade, em verdade, toda a vida/ vale o espaço do pão que não foi amedrontado»; «Tal está escrito, está escrito»; «mas quem nos poderá atirar aprimeira pedra». Usa da enumeração e socorre-se da estrutura sintáctica discursiva e reflexiva, sem quebras de verso – a opção é a narrativa. Não deixa de haver um alocutário, provavelmente o leitor ou, quem sabe, os juízes das culturas dominantes da época – como se o poeta recriasse o discurso retórico e sujeito a tribuna. Por entre sínteses de factos desse ano, Joe Louis aparece como uma curiosa alusão à obra de outros poetas africanos, embora não mereça qualquer destaque, naquilo que se pode considerar um resumo de efemérides do ano, sem conotações ideológicas, muito embora Vário vá insinuando preferências: «Porém, nós citamos Seferis, Ungaretti, Neruda». Percebe-se que o mundo é «vago e triste», percorre um destino inquebrantável e o sujeito anula-se perante o decurso da história e dessa «travessia da dor», onde prevalece a arbitrariedade. O homem é também um «bicho da terra» camoniano, através do qual «é a alma que vende/ mais barato todas as coisas». Sublinha-se a dificuldade do poeta em criar cumplicidades com o mundo, de que se afasta eticamente, não condescendendo face a Deus («a preguiça do destino»), porque crê que «a terra é toda a nossa esperança». Irremediável destino. Insanável, não fora a confiança de Vário no poder do homem em usar da sua mansidão, de restringir a vingança e de aplacar a cólera: para Vário, só a autenticidade do homem o redime, sem hipocrisia e sem ornamento. È preciso perdoar, considera, mas sem que o perdão seja espectáculo. Exactamente a linha teorizadora de Daniel Duarte, em «Cello Concerto».
Vário exige uma purificação da alma, um encontro genesíaco com o bem, que está plasmado na constituição genética dos homens, e para o qual foram gerados. Aproxima-se de uma lógica cristã, sem supremacias, sem ruído, e sem visibilidade. O bem é invisível, comedido. O valor da «pietas» é-lhe caro, não com um sentido vulgar, mas provido de silêncio e autenticidade, única forma de contrariar o «apocalipse esperto», que se foi aninhando no quotidiano e até na nossa consciência.
Vário desperta-nos para a resistência ao mal, ao desconcerto do mundo, através da fórmula da «posta de alívio assado, o favo do bem». Não há, segundo ele, outra forma de contrapor algo ao mal, senão o bem. Sob pena de ser outro mal – a sua continuação. Vário é paladino da reconciliação dos homens, evitando todo o tipo de caridade falsa ou intenção panfletária. A sua sobriedade moral exige esforço e contenção, mas pureza de sentimentos e carácter nobre: amar o outro. Mesmo o algoz. Sem contrapartidas. E ainda que se seja «vítima do fogo». Será possível amar, sem ser ridículo? – propõe Vário. Ridículo é quem não crê na genialidade humana, uma forma de amar sem o dizer. Bartok e a sua obra é apenas um exemplo de que a salvação dos homens é possível. Segundo a contrição.
Vário desdobra-se e remete Bessie Smith para o seu sósia, Timóteo Tio Tiofe, ironizando. Eis que fenece o canto primeiro.
O segundo canto permite suster alguma ilusão utópica inicial e revelar o descrédito sobre os homens. Vário, mais pessimista, julga-se fora da história, incapaz de um comprometimento pragmático que permita entrar nela para a modificar: «vamos ficando pelos arrabaldes do tempo». É um homem amargurado o predicador do discurso, alguém que já conhecia os resultados dos oráculos. Ainda assim, a esperança é palavra do seu vocabulário (perseverámos; avançámos), como se o recuo não fosse possível para quem acredita, ainda que desiludido. Ainda que as obras pareçam ruir (as grandes obras dos homens), haverá sempre o «arrojo do perdão». Provavelmente a expressão poética que sintetiza a obra de Vário (ele chega ao arrojo de «o amor do próximo», p. 46). Essa singularidade.
Canto terceiro: o dilema entre a genialidade do homem e a sua capacidade de manifestar o mal persiste (neste discurso altamente maniqueísta de joio e trigo. P. 56) – «Nós ficamos, mas eles, os nossos melhores mortos,/ por onde andarão que não vêem como o que nos envelhece (…)». Vendida a alma, pouco resta aos homens, e tudo é irreparável. Vário coloca-se no lugar de Cristo: ter nascido foi em vão? Não, desde que em busca da verdade ou da «impaciente justiça da razão». O sofrimento torna-se lateral. Em Vário, o plano ontológico de perseguição da identidade humana («vasculhando a sua sombra») é fulcral e consonante com a «praxis do bem». Por vezes, querer saber-se o que se é, pode ser uma falácia: para Vário, chega a ser um jogo que Deus nos impõe (p.56) – esse mesmo Deus que não fez com que «a ternura fosse o mar prometido». Neste canto terceiro, a consciência da ilusão faz-se maior. João Vário sabe que percorreu um caminho em que andou «às cegas atrás da bem-aventurança». Que foi puro demais e que com isso viu o engano da sua vida. Que Deus é um tarado. Que o mal é perene e a generosidade do mundo é impotente (p. 59). Que noutros tempos se fazia «da ternura o escudo». Que ninguém, sozinho, é paladino e pode alterar a história. Que a decepção é um facto. Que a beleza é a única unidade revelada – coloca, Vário, portanto, o belo acima do bem, a estética por sobre a ética. Que o bem e o mal parecem desaguar no estuário como vindos do mesmo rio, como se disso fosse feita nossa medida: extirpar o mal seria, de certo modo, acometer o bem. Por outras palavras: o bem não vive sem o mal.
Por certo, o canto terceiro, o mais derrotista de Vário. Uma vez que não tem lugar para a ambiguidade, pois, como indica, o extermínio não permite qualquer ambiguidade. Aparentemente, o pacto com a esperança foi abandonado. Vário capitulou, porque deixou de acreditar na generosidade e na esperança, como sustentáculos do bem. Lugar ainda para se perguntar onde essa humanidade que Levi questiona em «se isto é um homem»: «que é homem isto que lemos». Vário capitulou porque acha que o mal está bem organizado, os homens são volúveis e fracos, a terra é «pequena e molesta» e que o «dever essencial da esperança» é «lavar a alma».
O discurso memorialista termina num epílogo ao jeito assertivo. A esperança é arredada, o perdão não redime. E para se chegar à bem-aventurança, o caminho crê-se ser o da solidão. Nada mais amargo e desconcertante. Mas talvez razoável, porque a razoabilidade foi, há muito, ultrapassada. Porque «a verdade começou a ser/ uma infeliz inauguração, um incerto medicamento». É que o mal é poderoso. Para Vário, nada o cura, nem o tempo, nem a compaixão, nem a beleza.
Perante o mal ficamos sozinhos. Só a solidão o pode tentar enganar. Eis a pior das notícias. Apocalíptico cenário este dos tempos modernos, do exemplo coevo. Onde a alma está perdida e o corpo vai ao engano.
Magnífico poeta, o João Vário. E como os magníficos, terrível.
António Jacinto Pascoal [Mestrando em Literaturas e Culturas Africanas de Língua Portuguesa, Universidade de Coimbra]
Arronches, Julho de 2005
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julho 24, 2005
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[Bonanza no México 1986]
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