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Ma-Schamba: Roupa Velha Arquivos

maio 09, 2006

Livro em blog

Amigos (e por o serem) dizem-me há já alguns anos que eu bote um livro. A idade acumulada implicaria um livro de memórias, óbvio. E por isso tentei o futuro mono, mas não pegou. Um editor torceu o nariz, o outro estaria pronto para o fazer mas por coisas da amizade, que o dinheiro não lhe abunda. Nem distribuidor, o que ainda é pior. Que o taco ainda se partilharia, vaidades próprias, sempre me ficaria opúsculo para ofertar às visitas, importuná-las a pedir opiniões aquando no já toldado do entre-whiskies. Agora a imagem dos caixotes repletos, cá em casa e na do editor-amigo, essa ainda é mais desagradável do que pagar a conta. Nada!

Assim quase esgotado o mercado editorial deixo-me de coisas e, já que afinal tenho uma editora própria, faço-lhe edição de autor. Abaixo, em vários fascículos, dado que os textos não cabem todos numa entrada, está mais ou menos o que entraria no tal burro. Se chegasse a livro de papel teria mais uma meia dúzia de textos, que nunca reescrevi. E assim ficarão. Quanto ao que aqui vai acho que tudo estará já metido nos arquivos do Ma-Schamba, ainda que haja coisas reescritas. Dois ou três textos fi-los para o blog mas o resto, mesmo que seu contemporâneo, são-lhe independentes.

Estas conversas de memórias, de Moçambique e algumas lá de fora, levariam e levam o título de "Ao Balcão da Cantina" (Maputo, Editorial Ma-Schamba, 2006). O preço é em clics, está visto. Espero que alguém aprecie.

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Ao Balcão da Cantina: lista

ÍNDICE

1. Uma Epígrafe à Conversa

I. Um Imigrante em Moçambique

2. Aforismo
3. Um Estrangeiro na Zambézia
4. A norte, as mangueiras...
5. O Apito
6. Macaneta
7. Natal em Pemba
8. Uma Cerveja no PiriPiri

9. Um Velho
10. Um Símio em Calções

11. A Árvore e o Lixo
12. O Guiar
13. Provérbio
14. As Cores na Véspera do Eclipse

15. Na Aldeia
16. Mambas Desventurando

17. A Idade e a Ignorância

18. Ha Ngonhama Ya Mbangu Lowô
19. Gente-de-Ninguém?
20. Engravatar
21. Um Emigrante de Sucesso

22. Excertos de Pai
23. Professor. Mero?
24. Natal em Maputo
25. As Estradas do Niassa

26. Longe do Niassa
27. Na Missão
28. O Curto Conto de Fadas

29. Cofiós
30. Mil Desculpas
31. A Idade
32. Che Guevara na Feira Popular

33. Cervantes na Minha Mesa (e com pitada de Calvino)

34. Dia dos Namorados
35. Água de Coco
36. (Afinal) em Terras do Juiz Lynch

37. Chapéu
38. Idade?
39. Power Point
40. Da Correcção em Coisas do Género: episódio 1


II. Um Emigrante em Moçambique

41. Um Jantar em Maputo
42. Fragmentos de Lusofonia

43. Harmonia Lusófona
44. Mensagem
45. As Férias do Emigrante

46. Doutores

47. Usos e Costumes: apropriação ritual de comestíveis

48. Comem os Dragões Caju?
49. Olivais
50. As Viúvas
51. Conversa hermafrodita

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Ao Balcão da Cantina: fascículo 1

1. UMA EPÍGRAFE À CONVERSA


Esplanada de fim de tarde, essa afamada dos escritores, as cervejas partilhadas com ídolos do antes, um do atletismo, o outro do basquetebol. Súbito, lance de três pontos de Morgado, desses cesto-a-cesto, beleza tal que nem lhe confirmarei os passos da dicção, num lesto lembrando o poeta Vinicius, coisa momento abruptidoce:

Senhor
Tende piedade também do técnico de farmácia
Que queria ser doutor
E não o é

Obrigado, poeta-cantor, pela tua solidariedade. E também a ti, velho poste, por esta tua memória, arguta.


(Maputo, 2003)



I. UM IMIGRANTE EM MOÇAMBIQUE



2. AFORISMO


Que chova, quando e quanto seja bem-vindo.


(Montepuez, Dezembro 2003)



3. UM ESTRANGEIRO NA ZAMBÉZIA, DURANTE AS CHEIAS


De Quelimane ao rio Chire quase vai um dia. Dois camiões atolados há já meio dia vedam a estrada, rodeados de uma meia dúzia que tapa todas as irreverentes opções. A surpresa de aqui encontrar um mui recente ministro português, por ora em mais tropicais das suas agriculturas, agitando uma simpatia enérgica no querer-se motor do desentupimento. Neste contraste com a minha displicência, alimentada a Rothmans, sinto os determinismos psicológicos, pois há quem tenha o dom do poder e outros, como eu, olhamo-los, e quase sempre de viés. Após algum tempo esperando que milho e madeira desçam das viaturas sento-me num tronco em conversa com um indo-descendente, o qual logo me diz, assim avizinhando-se-me, dos seus dez anos comerciando entre a Moita, o Laranjeiro e a Costa da Caparica. Ao meu “porque raio voltaste?” solta um “e que sentido tem aquela correria?”: frase curta pela qual tornas tão óbvio, Adam, que não é esse cofió nem o Ide desta semana que nos separam! Num quase murmúrio, algo envergonhado da impaciência que o tornou mãos-largas, conta-me que, farto da espera, pagou 400 mil meticais para que se descarreguem os camiões. E no entretanto da conversa, estes, logo que menos pesados, recebem o primeiro impulso e saem calmamente das suas covas.

Rio-me de mim, qual psicologia, qual poder do Grande Homem Branco: “É a economia, estúpido!”.

Um padre na estrada, desses de décadas de mandioca e feijão com bicho, guerras, água morna, falhanços, malárias, um trabalho insano e eterno, que fazem este ateu sentir-se um pouco mais pequeno do que já é. Irritado, o velho! Narra o episódio do padre italiano que morreu há dias, arrastado nas cheias ao tentar levar doentes ao hospital. E do seu colega partindo em busca do corpo, irregulares caminhos, margens lamacentas, atolado vezes sem conta, o cansaço sem desespero da gente de fé. E do seu regresso, ainda sem sucesso, onde a polícia o multa em um milhão de meticais, que isso de nas buscas ter caído a chapa da matrícula…até pode ser verdade mas não apaga a ilegalidade.
Determinismos culturais? Tradição, culto dos mortos, ritos prescritivos, enterro lá no lugar dos antepassados? Que idealismo, “é a economia, estúpido!”.

Perto de onde era o batelão do Chire, pequena travessia por roldanas esgaçadas a pulso, é agora uma infindável planície de água, bordejando a aldeia Pinda. As primeiras casas distam 50 metros planos do rio. Felicidade pela inesperada presença de Ventura, o meu motorista, pastor da igreja evangélica que aí professam. Numa pobre capela de pau-e-pique uma breve e alegre oração conjunta. Faço um apelo, procurando-me veemente, a que partam para zonas mais altas, pois as chuvas a oeste e as descargas da barragem vão aumentar, afiança-o toda a lógica sob esta chuva, insiste-o, e com permanência, a rádio que nos acompanha. “Que sim”, já o administrador o veio avisar, mas ali não lhe sobrará crédito, não vislumbram qualquer razão para o seguir, até porque nas cheias de 1978 as águas não ultrapassaram aquela velha árvore acolá, guardiã da secura a 20 metros da povoação, bem apontados. Empirismo puro, para racionalista aprender! Intercedo junto de Ventura para que os convença. Responde que não o fará, aquela gente não tem tecto noutro sítio e as suas machambas estão ali. Para onde irão?

Fatalismo, inconsciência? Mais uma vez, “é a economia, estúpido!”.

Para trás ficou Quelimane, onde a beleza das mulheres até magoa. Elas assim provando que a mistura das gentes é bela e faz belo. Nas esplanadas da cidade vou indagando como vivem as meninas que passam. Inquietação com estranho âmago, vejo-o agora. Esse de uma dor menor diante de uma prostituta não tão bela. Imoral moralismo! Que não, dizem-me, mesmo sendo ali porto isso não é mais generalizado do que noutros lugares por esse país todo, e quem sabe?, no mundo todo. Mas avisam, até cúmplices cutucando-me com a ironia, que muita rapariga procura um marido que a tire dali. Recordo o meu já antigo Primeiro Dia de Mafra, esses tempos de torna-soldado, com o longínquo aspirante Boieiro aos berros, qual vedeta de Hollywodd, apelando à nossa rusticidade, ameaçando-nos que entre nós os piores classificados iriam parar às ilhas “de onde virão casados”. E bem lembro o frémito de horror que percorreu o ainda informe pelotão, imaginando o casamento com uma açoriana.
É o mesmo, a troca do isolamento geográfico por outros isolamentos. Neste combate à lonjura, “é a estúpida economia” dos afectos, estúpido!

Gurué, verde montanhoso na falsa beleza da monocultura. Modernos rumores de futura indústria de capulanas bem nas nascentes do Licungo, logo imagino todas essas tintas navegando até ao Índico, dando de beber às gentes, colorindo a Província. “É a economia, estúpido!”. Avaria madrugadora, marcho durante horas provando o envelhecimento. Uma moto passa e há-de voltar já liberta da pendura, um jovem que me transportará para a cidade. À proposta de lhe “pagar o combustível” o jovem extensionista rural de Mocuba ri-se e diz-me “ó seu estúpido, nem tudo é economia”, prenunciando que um dia o hei-de safar algures. Obrigado Felix dos Santos, pela boleia e pelo alívio.

Por todos estes sítios se encontram europeus, aqui logo no quasi-patrícios, coisas da alvura da pele. Cooperantes, velhos cooperantes, ex-cooperantes, neo-cooperantes. Ali e acolá um comerciante, até um empresário. Tal como no sul toda essa gente vamos partilhando algumas garrafas e, nesse esvaziar, a opinião que a actual cooperação não ajuda o futuro do país, que algo tem de mudar, e é de veteranos esta arenga. Estarão eles enganados, tal como os moçambicanos que de o concordarem até já estão fartos de doadores? Sem respostas nestas noites distritais, lembro-me do meu pai, saudades talvez, e trunco as palavras que também são dele: “a democracia é o alcatrão e a electricidade!”.

Mas vai-se dizer isso, arriscar os empregos de expatriado ou os clientes de dolar no bolso? Deixar andar, “é a economia, estúpido!”.

Risonhos, vêm centenas de homens na estrada. Logo paramos e procuro saber do que se trata e do entusiasmado aglomerado ouço, espantado, um coro de “Maharishi”. Desde há alguns meses há por ali cerca de 1700 jovens que meditam 4 horas diárias em troco de 270 mil meticais mensais, meio ordenado mínimo nacional. Pasmo, que raio, receber para meditar! Meros resquícios cristãos, a noção de que o transcendente exige pagar ao intermediário com o(s) espírito(s). E porquê assim, porque não o contrário? De facto, “é a economia, estúpido”, como tirar os homens do trabalho, arrastá-los até este templo maticado de meditação, sem os compensar quando estão ali no limiar da economia de subsistência? Nesta curva de estrada lembro os que ainda agitam o ídilio de uma agricultura tradicional, coisa de “comunidade”. Pudessem esses ver aqui como ela, afinal, se desnaturaliza, tão claro é que todo este meditar em busca de novos equilíbrios mostra desiquilíbrios bem anteriores. E talvez tudo isto possibilite outros sincretismos, renovações, transformações, talvez. Por eles, coisas bem locais. Pois a mentalidade, essa “economia, estúpido”, coisas feias e bonitas, agradáveis ou não, está aí omnipresente. É deixá-la ir, e ainda bem que auto-meditada.

Tenho que partir, mas a vontade é quedar-me por lá! Fica a esperança no sucesso desta ideia. Repito-me, se aliada ao “alcatrão e electricidade”, parece bem mais promissora que tanto “desenvolvimento” semi-importado.

A norte, onde o Zambeze só dá o nome à província, o Alto Molocué, pequena vila dividida por este rio. Vizinho da pequena ponte o Fotógrafo Soares, “fotografia tipo B.I”. Não resisto, desço as escadas, minto-me de colega e peço para fotografar. O velho fotógrafo, com o caudal em casa, dá-se à imagem junto dos seus. Proponho que saia dali, é visível que as águas vão subir. Calmamente aponta umas frágeis canas, habitual limite do rio, e às quais decerto em breve este retornará pelo que não vê necessidade em partir. Respeito, mudo a conversa, responde-me que o negócio vai normal, mas que não chega para sonhar nova casa de tijolo. Ficará acompanhado da família, feita dique moral. De novo, “é a economia, estúpido!”.

A casa desabará meia hora depois, a água cobre a ponte. Lembro o padre e, aqui inútil, corro a cruzá-la rumo ao Maputo, à Inês. E à notícia da morte de C. Geffray, esse nada tão velho sábio. Fica este país, agora desprovido de longínquo e magoado saber, mais pobre. Porque nem tudo, estúpido, é economia.

(Quelimane/Maputo, Março 2001)



4. A NORTE, AS MANGUEIRAS


Lá a norte, mesmo no Cabo Delgado, as mangueiras estão já ajoujadas. Mas tarda a chuva, e disso tão temerosos estão os donos. Por isso apenas nós, os vindouros, as aliviamos dessas mangas assim de doença.




(Pemba, Dezembro 2003)


5. O APITO


À Augusta Coutinho, que me apresentou o Pereira

Vocês conhecem o Vicente Pereira? Está em Maputo há uns anos, veio como delegado da A.J. Costa Construções e depois passou para administrador da Construtora Mafrense e nessa altura, já com melhores condições, lá conseguiu convencer a mulher, a Piedade, a vir juntar-se-lhe acompanhada das duas filhas. Vivem aqui na Polana, ali à Rua da Argélia, numa vivenda geminada com um bonito jardim, aquele com a mafurreira na esquina, lindissima. É uma bela casa, aliás isso era condição para a mulher vir, que lá em Pero Pinheiro a família não está nada mal instalada, no género deles é certo. O Pereira é um tipo decente, algo casca grossa quando bebe o seu copo a mais mas tem boa fama na empresa, naquele jeito insulto enraivecido logo seguido da palmada nas costas, um bom fundo é isso, e assim conhecem-no um gajo justo, nunca ninguém disse que roubasse, e o trabalho vai sendo feito a contento. A apontar-lhe só isso mesmo, o ser um exaltado, um sanguíneo com o coração na boca, espero que não se venha a prejudicar por isso, este mundo não está nem para fraquezas nem para franquezas.

Conheci-o há uns tempos, num desses almoços de domingo em que por aqui se juntam os casais e desde então encontramo-nos para beber um copo ou visito-o quanto estou sozinho, e é melhor assim pois a Piedade fica mais à vontade no tu que partilho com o marido, ela finge que não mas faz cerimónia com a Inês, atrapalha-a a doutora. Gosto de lhes frequentar a casa, conversa simples em mesa farta, a rapaziada das construtoras tem sempre os nossos vinhos, o pior ainda são as bagaceiras lá da terra que se têm de beber senão é uma ofensa. É um bom ambiente, solto, uma família simpática que gosta de receber, mas não qualquer um, pois são gente arguta, aliás a mulher ainda o é mais, acho eu. As miúdas estão bem educadas e dão cor à casa, rondam os quinze anos e já devem andar por aí a partir uns corações. Não há dúvida, o Pereira é um tipo de família, vê-se no seu orgulho com os rebentos e no carinho bigodudo com que trata todo aquele harém. Terá a sua gaja de quando em vez mas isso não o distrai dos seus.

Na sexta-feira passada apanhou-me solteiro, a Inês tinha ido ao Chokwe nas cooperações, e muita questão fez em que eu fosse jantar lá a casa, um bacalhau trazido de Malelane, insistência à qual não me fiz rogado. Como convidados esperava o Vitorino, também sozinho pois a mulher está em Lisboa, o pai mal de saúde, e ainda o Abreu, sempre só ao jantar, este deixou a família em Lourosa e é por cá mouro de trabalho e de putas. Chegámos todos antes do dono da casa, o que não nos atrapalhou pois ali estamos todos à vontade, a Piedade lá serviu o meu gin e as cervejas deles, e logo encetou a sua conversa de mãe, desfilando os progressos do filho mais velho que ficou em Lisboa entregue aos avós e ao Técnico e o rosário de preocupações com os crimes que vão acontecendo na cidade, que a assustam mais por causa das suas raparigas, agora numa idade em que as não consegue reter em casa, aliás nessa mesma noite tinham ido para uma festa em casa de uma amiga, a filha do Borges, os quais confesso que não conheço, ao que parece ele é mais um desses bancários que por aqui vão abundando.

Nós a sossegá-la nos elogios às filhas e lá chegou o Pereira, a desculpar-se do atraso, mas eram as complicações de última hora, nem tempo havia para um banho, ainda insistimos que o fosse tomar, ninguém estava com pressas, mas nem pensar nisso, "lavo antes a alma com um whiskizito e pronto". E bem precisada de alguns afagos lhe estava ela, via-se nesse cansaço de sexta-feira feito exaustão em quem trabalha aos sábados, pois os prazos das construtoras não estão para grandes repousos. Era óbvio, não estava nos dias dele, logo começou por protestar a ausência das filhas, em surdina defendida pela mãe, e não tardou a despejar os problemas, esta nova lei de obras públicas que ensarilhou ainda mais a vida das empresas estrangeiras, mais as complicações no hotel que estão a construir e bem atrasado está, mas isto não acompanhei com detalhe porque estava na sala de jantar com a Piedade que me fica sempre bem fingir que ajudo as donas da casa, e era ainda uma série de material urgentissimo que primeiro se atrasou em Durban e agora nunca mais se conseguia desalfandegar. Aproveitando um breve silêncio ainda tentei mudar a disposição, a puxar a conversa para a bola, mas ali diante de três benfiquistas tão sofredores a conversa não pegou.

Estávamos nisto e ei-lo estancado, a protestar com os vizinhos, que barulheira aquela! Realmente à chegada eu também tinha reparado na algazarra que ia na casa ao lado, mas nem comentei o assunto, poderia parecer indelicado, nunca se sabe. Ora ele é que não se calou, "mas que raio", começou, "o que é que se passa?". A mulher foi-o acalmando, que deixasse, ainda nem nove horas eram, e numa sexta-feira, era só preciso um pouco de paciência. Mas paciência não é o forte do nosso amigo, em especial naquele dia, e aquela também me pareceu questão antiga da casa. Entretanto lá se compôs a coisa, aliás foi aqui a influência do doutor, eu próprio, pus a Dulce Pontes a cantar um bocadito mais alto que o normal, e para escorropichar o aperitivo brindei aos nossos sucessos e à boa converseta à mesa, que os vizinhos já se calariam e tanto os camarões como o vinho verde fresquinho nos esperavam: "vá lá, Vicente, para a mesa, ou queres matar à fome os convidados?", sabendo bem que quando lhe chego ao nome próprio ele se desvanece.

Mas à mesa, e apesar da competência do cozinheiro, logo voltou à baila o assunto vizinhança, o Abreu, imprudente, foi perguntar quem eram. Ao lado vive uma família moçambicana, o tipo é Director Nacional, parece que das estradas ou coisa assim, ninguém tinha confirmado, casado com a D. Felismina, senhora simpática e prestável, afiançou a Piedade. Nem são maus vizinhos, defendia ela temendo alguma tempestade, gente educada, o problema é o barulho que por vezes fazem, as portas que sempre batem, conversas mais noctívagas, a música nas noites de fim de semana, mas nada de muito grave. "E a barulheira nas manhãs de domingo", frisava o Pereira, isso sim grave, as únicas em que ele pode não madrugar. O pior é serem imensos, nem se sabe bem quantos, estas famílias enormes, "coisas desta gente que só um antropólogo é que compreende, não é assim ó doutor?", ainda lhe saíu uma ironia o que na altura até pareceu bom sinal, e nem se percebe como é que lá cabem todos, é o Director, mais os filhos e os seus velhos pais, mais dois ou três irmãos e cunhados e respectivas proles, e as visitas que vão e vêm. Enfim, uma confusão, e ainda por cima não é nada seguro, dificulta o controle, os guardas da casa confundidos com tanto movimento, sem saberem quem é quem.

Bem, o Abreu redimiu-se e teve artes de mudar de conversa, umas maledicências de patrícios, histórias mais ou menos picantes sobre um alentejano que por aí apareceu, essas cenas de import-export e quejandas, coisas de matrecos já dizemos nós, como se tivessemos gerações de África, incomodados com os recém-chegados. Mas súbito a gritaria aumentou, percebia-se "ai, ai, pai não nos faças isso", e pedidos parecidos. Acho que a dúvida foi de todos "querem ver que o Director está a dar porrada nas filhas?", "ou na mulher?". E aquilo continuava, "ai que eu morro, ai, ai", e então a Piedade afiançou que era a voz da D. Felismina, a esposa do Director. E surpresa ficou, pois o homem não é desses, pessoa tão calma, afável, nunca ela tinha ouvido tais histórias nas conversas de vizinhas ou de cozinha, mas também "hoje é sexta-feira, dia dos homens, querem ver que o gajo já está bêbado a estas horas?", e o Pereira então não estava a ser ilógico apesar dos desmentidos da mulher. Deu-me para apaziguador, ainda fui dizendo para se esquecer o assunto, a comida não estava nada má, e em breve os vizinhos se calariam até porque se havia discussão em família tão extensa alguém havia de por água na fervura, no que concordou o Vitorino com um “hé pá!, eles que são pretos que se entendam".

Acho que foi isso que rebentou o Pereira, "nem pensar nisso, estou farto disto, estes pretos não respeitam nada!". A Piedade, algo enfastiada com o tom, levantou-se para ver como estava o bacalhau "e peço ao Lucas para ir saber o que se passa", e foi o pior, que era o que faltava "estou em minha casa, e agora mando o cozinheiro resolver-me os problemas", e enquanto a mulher foi à cozinha ficou ele para ali a resfolegar, "foda-se que não aguento mais, estes gajos lixam-nos a vida, e nem em casa descanso....não, não vou jantar com esta barulheira, estou em minha casa, vou lá calá-los" e, súbito, arrancou danado em direcção aos vizinhos. A Piedade voltava da cozinha, com o Lucas cozinheiro atrás com o bacalhau entre mãos, ainda o chamou mas só ouviu um ameaçador "tá calada, não te metas nisto que é coisa de homens", e lá foi ele com a mulher no encalço num "ai meu Deus, espera ... que te desgraças" e nós, claro, abandonámos a mesa e seguimo-los, meio hesitantes, cá fora ainda vimos o Pereira, enérgico, a tirar o apito ao guarda enquando voava pela porta aberta dos vizinhos, seguido pela mulher. "Vai fazer merda" murmurou o Vitorino que o conhece bem melhor do que nós, de outras aventuras ainda em Portugal.

E aí corremos também nós, entrámos casa adentro, o guarda atrás, o Lucas também mas já sem o bacalhau, e ali deparámos com o Pereira bem plantado no meio da sala apinhada, dobrado sobre o apito, estridente, afogueado, com tudo o que tinha dentro dele a sair-se pelo silvo, impondo o silêncio alheio, e toda aquela família, ainda maior do que o imaginado, estupefacta a olhar para ele. E após aqueles longos segundos de apito, uma autêntica eternidade, saíu um silêncio compacto sobre a casa, e aí ouvimos a Piedade, ali de costas para nós, já dentro da sala, falando serenamente rodeada de dezenas de olhares petrificados: "D. Felismina, o meu marido está a apitar contra os maus espíritos. Sabe?, na nossa terra quando morre alguém apitamos sempre para os afastar", e aí lá se levantou com custo a dita, mamana mesmo, interrompendo o pranto com "ai, vizinha, muito obrigado, muito obrigado, vizinho", e o Pereira esgotado, hirto no meio da sala, olhando abismado para a Piedade, lívido, silencioso, apito na mão desmaiada, e a recém-viúva "não pare, não pare, continue, por favor, apite", ao que a Piedade, heróica, a sossegou pois "já não é preciso mais, minha amiga, já se apitou o suficiente, eles já partiram", "acha, acha mesmo?", ainda duvidou a boa senhora e a nossa comadre que pronto, "os nossos sentimentos, logo que soubemos viemos com estes amigos só para saudar", e que estávamos todos à disposição para o que fosse necessário, e a mão dela conduzindo as costas do marido para a saída, para onde seguimos acompanhados pela D. Felismina atravessando aquela cortina de gente espantada, e antes que a incredulidade se levantasse já estávamos na rua, no portão, a entrar em casa, e só aí a Piedade conseguiu articular, "vê se te acalmas homem, nem sempre hei-de estar atrás de ti", "mas porque raio é que não me avisaste antes" ainda foi ele resmungar, e nós nada, que não era connosco, "pois estava o Lucas, a acabar de me dizer que o Director morreu esta tarde, e tu a sair que nem o Diabo". Caramba, "foste apitar na sala do defunto"...

Ainda levou um tempo para que eu me lembrasse de fumar um cigarro e depois, sangue-frio do Lucas, passámos ao bacalhau já requentado, comido mas não saboreado ao som do carpir vizinho.

(Maputo, Setembro 2001)


6. MACANETA


Domingo de Macaneta, calor mesmo sério mas a tão necessária sombra das árvores está disponível o suficiente, que tão poucos usaram hoje o batelão para a vir concorrer. Torrar um pouco e ainda mais na água, um aqui raro mar chão que reforça o caldo salgado a disfrutar.

Depois o habitual almoço, para mim a garoupa ainda nova, espreguiçados de costas para o mar num bem defronte da foz do Inkomati, o horizonte do rio ainda curvo numa modorra toda brilhante, é imensa aquela calmaria à sombra a desmanchar-nos as atenções, uma quase sesta de delícias.

Na cabana ao lado uma meia dúzia de meus patrícios e suas senhoras, cinquentões já avançados eles não tanto elas, em meandros de avantajada patuscada. Gente do por cá, caras conhecidas, aquelas dos breves acenos quando cruzamos. Mas são tantos os seus comes que nem lhes resta tempo para irromper naquele nosso silêncio.

Súbito um deles impõe-se, mas em tom nada desiludido, até nós chega um vibrante “Não há dúvida, os melhores frangos são os da Guia ...os melhores frangos do mundo”, repete-se no enfatizar, e ainda que logo de todos receba uma muda anuência insiste, não vão restar dúvidas em algum incréu, em que "não há nada como os frangos do Teodósio, o Teodósio do Rei dos Frangos", uma intimidade de nome próprio que o prova por lá cliente assíduo, e até voraz, pois culmina no anunciar que “chego a comer dois frangos”.

Surpreendo-me a sorrir, tanto frango até me despertou a sonolência, que raio de sentir, ali bem no Inkomati, ainda résteas de mangal, e tudo tão luzidio no nosso defronte, e o homem a regressar à Guia, num não sair lá de casa. Também à Inês não lhe escapa enquanto ri baixinho um “esta é deliciosa...regista-a para as tuas tralhas..”. Sim, lembro-a, mas afinal sem qualquer malícia, eram-lhe apenas as saudades, coisas de todos nós. Ali no Inkomati as saudades da churrascaria do tal teodósio...a cada um o seu mundo próprio.

E, pensando bem, devem ser mesmo bons os tais frangos. Só podem mesmo ser.



(Maputo, Março 2004)


7. NATAL EM PEMBA


Custa dizê-lo assim, mas há já dez anos, acertam-se hoje, Coetzee, bom homem e cristão desses de me achar ali sozinho, pois no dito “mato” entre “eles”, carregou-me à aurora para aqueles quase 300 kms até aqui, cidade praia, praia cidade, então talvez o encanto do quase abandono visto modorra.

Neguei-me pouco e vim, uma sede feita de saudades de geleira, nem foi o fastio de xima e conservas, e tanta essa sede que nem me discuti de onde lhe vinha aquele “sozinho”. E depois aqui mesa farta de natais deslocados, desconhecidos em acidente de encontros, fingimentos de natal, fingimentos de família, mas nisso tudo muito verdadeira a alegria. E também patrício, dizendo-se regressado e assim afinal daqui, mas pouco pouco, que lhe está esse pouco nos trejeitos, e talvez por isso em ares de força, e até amuo, por coisas de saia vizinha, coisa pouco-natal, evitei eu, pois se nunca desse modo quanto mais no aqui e agora de então, evitei eu e também a dona. Natal tempos de rodar assim.

Natal de empapar, e isso lembro. Noite de ir longe, de imortal ainda, até surpresa o sem-fundo, aquele caminho todo. Noite em tempo de construir modos, esse constante “to jump”na fala, deixá-la em pinotes, em abruptos passos, sem dó da aflição alheia, do sem-saber como ali vizinho, coisas do não (me) deixar certezas, do nunca hesitar. Noite natal nessas noites do sem medo e do sem dono.

Nisso tudo noite de Natal, meia-noite, de saltar correndo para o quase-sopa, assustando o banhista vizinho, este clamando-se aflito de mim, que noite de natal, meia-noite, mas ali pescador em faina de redes. Noite assim, afinal, de não-natal.



(Maputo, Dezembro 2004)



8. UMA CERVEJA NO PIRIPIRI


A lembrar o meu irmão Artur

A gastar mais uma tarde sento-me no inabalável Piri-Piri, a vendedora de castanha traz-me o prato suficiente, vem a Amstel habitual para o dr. Texeira, o sol bonito de Dezembro a despedir-se por hoje, aqueles livros que percorro legitimando a preguiça e de cujas páginas nada recordarei quando chegado a casa. Vazias estão ainda as mesas, à minha direita dois clientes palradores vão invectivando as muitas belezas que passam, à esquerda outros dois, estes apenas entre eles. Como sempre vou-me deixando perder no crescente bulício do fim do dia, hora de todos saírem para a vida, verdadeira ou falsa já é assunto de cada um.

Brusco irrompe um tiro, fugaz como é sua natureza, surpreendendo o barulho da avenida. Balanço com o estampido, como se fosse o próprio alvo. Depois, com algum vagar julgo eu, levanto-me para confirmar o ocorrido e mesmo defronte, do outro lado da rua, no meio da venda de batiks, ainda vejo o fumo da arma. Um silêncio esbateu-se sobre a avenida, por ora parecendo parada. Algo incrédulo interrogo-me à direita para os agora mudo palradores ”isto foi um tiro, não foi?”, e eles só acenos, que se lhes secou a verve, então repito-me para a esquerda, aí patrícios de olhos abertos e circulantes, e “hé pá, sim...foi um tiro, se calhar é melhor sentar-se...”, pois só eu estou em pé.

Entretanto lá vai surgindo um par de polícias, correndo bem devagar para a ocorrência, de onde vendedores e arrumadores não arredaram, e alguns guardas de chamboco caído também se aproximam. Tudo isto sem qualquer pressa pois o assunto há-de ser conversado durante algum tempo, e não se chegando a qualquer exactidão sobre o acontecido tudo findará assim mesmo, o que não deixa de estar certo pois o atirador há muito que partiu e ninguém foi atingido.

Nisto o empregado já se arrisca à esplanada, mas diz-me que de nada se apercebeu, não vá a confirmação que lhe peço ser de mau agoiro. Face ao seu silêncio resta-me ironizar para os patrícios, “hé pá, isto é desagradável, ainda se morre na esplanada!”. E, que fazer?, remato num encolher de ombros verbal, “Olhe, traga-me mais uma Amstel...e amendoins”, e fico-me, nem sequer a remoer.

Só depois, e talvez porque a nova cerveja me refresca, é que me apercebo que não é natural toda esta minha indiferença. E para mais com estes recentes assaltos a gente conhecida, alguns agora mortos, outros para sempre aleijados, e outros ainda, sorte sua, apenas de bolsa aliviada. Deixo-me então a resmungar entredentes, e com os impropérios alumia-se-me a memória.

De súbito sinto que cheguei a Moçambique há já muitos anos, tantos que percebo agora não ter sido só eu que encaneci anafado ao lado da Inês, zangas tão passadas que agora até aí vem uma nova alguém, e que é tão bem-vinda. Nisso fui mudando, para além dos dolares no banco, que nem tantos assim, também nas andanças, nas gentes conhecidas e até nalguns patrícios que sofri. Mas, e só hoje reparo, também o anfitrião envelheceu, e apenas por distracção isso me pode surpreender.

Quando cá cheguei os tempos eram outros, uma jovem paz a caminho de eleições. Mas era ainda um país violento para o recém-chegado, a pouco perceber apesar dos olhos bem abertos. Nessa altura aboletei-me numa casa sita na avenida lenine, toponímia que recebi com um sorriso aberto cuja ironia aumenta hoje, habitando há anos uma outra resistente, a engels. Esperando partir rumo a um Norte para mim totalmente desconhecido passei as primeiras noites ouvindo sucessivas rajadas de tiros mesmo ali em baixo.

Nesse tempo as metralhadoras eram usadas pela polícia, instalada nas suas barreiras ali defronte, entre os nossos prédios e o chamado "complexo dos russos", um enorme bunker-sobrevivência que também me fazia sorrir. Todas as noites mal começavam os disparos o meu irmão, que entretanto também mudou com o tempo, morreu-se, lá se postava na varanda a observar os eventos na minha companhia, comentando os despistes, as prisões, os espancamentos, com a calmaria de quem tinha visto muito mar e muita terra. Eu ia fumando, postado ali a seu lado e montando o ar de irmão mais novo, é certo, mas também com alguma estrada atrás de mim.

Para os dias, e como estrangeiro em terra estranha, procurei o melhor balcão da cidade, onde sempre se conhecem as pessoas que se devem conhecer. Aquele que me indicaram foi este mesmo, o do Piri-Piri, restaurante esplanada ao cruzamento das avenidas ricas, o qual não só surgia como instituição local mas também brilhava na ausência de uma verdadeira concorrência. Porque mesmo se então a cidade fervilhava de estrangeiros instruindo a paz, a sensação era de que o dinheiro não abundava, tanto escasseavam os sítios onde o gastar.

Essa foi uma época em que eu era andarilho e caminhava as longas avenidas para terminar os dias entremeando cerveja e castanha, deixando-me meter conversa para que me explicassem onde estava, sem recurso a investigadores ou livros. Depois regressava a casa, sempre evitando o anoitecer, não por causa do que me diziam de indizíveis perigos pois para isso bastava-me o que ia vendo do alto do décimo andar. Foram esses cuidados que me impediram de assistir ao célebre assalto ao Piri-Piri, acontecimento que correu mundo e que veio a entrar na mitologia da cidade. Num final da tarde, que aqui é já o princípio da noite, coisas da geografia, irrompeu um bando aos tiros pelo restaurante, ataque com toque de "western", ferindo assim uma boa meia dúzia de clientes e matando dois, um dos quais refugiado atrás do já citado balcão. Caixa roubada, e pobre colheita ao que constou, puseram-se os assaltantes em fuga, deixando a cidade em polvorosa, que isto das zonas burguesas serem atacadas amplifica sempre, e muito, o ruído, ainda para mais quando há baixas estrangeiras entre os consumidores.

Lembro agora a minha apreensão nesses momentos, ainda assim muito relativa. Havia alturas em que resmungava desiludidas conjecturas sobre o quão acolhedor deveria ser o meu destino, lá no mato, sendo a zona nobre da capital assim tão animada. Mas o mais das vezes ficava-me descansado, não por qualquer laivo de inconsciência, mas é certo que um tipo dos Olivais vai sempre relativizando a violência a que assiste, ainda para mais nessa época, saído da agitação de Hillbroad, das matanças no Bophuthatswana, e de viver o absurdo na queda de Gkozo, lá pelo Ciskei. Um encolher de ombros de neófito armado em veterano, um "são cenas de África...", e estava tudo dito, alguns cuidados e toca a andar.

De qualquer modo não estava imune à excitação, tiros são tiros, mortos são mortos, e assim tudo tão evidente não deixava de me ser novidade. E havia mais! Corria que, fora do alcance dos meus olhos, nos “bairros de caniço”, que é como aqui as gentes da baía chamam à cidade de Maputo, também aumentavam os crimes. Aí, diziam-me e nunca o confirmei, a própria população tinha organizado eficazes esquemas de vigilância e justiça. Com um para mim surpreendente relativismo moral, nacionais e estrangeiros anuíam na competência da “técnica do pneu”, que por lá amíude ia sendo executada, pois o flagrante delito até o ordálio dispensava.

Mas o que mesmo me surpreendia era a azáfama com que família e desconhecidos comentavam tais assuntos, pois se saídos de uma guerra civil pensava-os mais habituados a semelhantes episódios. Querendo-me analítico, ia matutando que por mais terrível que tivesse sido a guerra esta cidade intra-muros tinha passado algo incólume, pelo menos esta gente com que me cruzava, que por aqui as geografias sociais são bem mais delimitadas do que na minha terra. Decerto por isso tanto estranhariam todos aqueles tiroteios.

Aqui e ali todos coincidiam nas explicações para tais desabituais acontecimentos. Às barreiras policiais viam-nas como procurando guerrilheiros infiltrados com suas armas, prontos para a sublevação pós-eleitoral. E era desses mesmos que provinha o crime dos “bairros”, dessa gente do mato ignorante da vida industriosa das urbes, então aqui deslocados e procurando sobreviver pela pilhagem própria à guerra. Mas, e recordavam-mo, essa bandidagem tinha ainda uma agenda política como bem o mostrava o assalto às zonas ricas, a de destabilizar a capital, fazer descrer na paz e no germinar da democracia. Sabendo-me das antropologias, alguns afirmavam as divisões étnicas, seculares conflitos agora irmanados na cidade. E sempre alguém lembrava o regresso dos soldados, desmobilizados ainda sem nada, traumatizados quantas vezes, habituados a anos de receber ou tirar, e tantos deles “tratados” para nada recear, todas essas vacinas imortalizantes.

Assim sendo, naqueles dias eu estaria a assistir ao estertor final da guerra. Às dores de parto de um país pacífico e democrático misturadas com a ânsia nervosa face às eleições das quais era o país virgem, verdadeiro e assustador rito de iniciação. Tudo o que então se passava, toda a excitação que o rodeava era política. A política tudo explicava!

Em breve lá segui para Norte, para um mundo feito por uma gente pacífica tão pobre como dizem que diz a Bíblia, a viver das sua pequena machamba, feliz com uma paz que não encerra nem rapinas nem minas, e que a deixa ir até à estrada comerciar o tão pouco que tem. E face a isso logo esqueci sem mais dúvidas todas aquelas citadinas questões.

De curva em curva, eis-me agora aqui. Nestes anos fui assistindo a alguns assaltos, mas onde os não há? Fui gozando uma pacífica cidade, sem muito me interrogar, burguês na calmaria do meu bem-bom. Por isso de repente, enquanto pago a conta, reparo no envelhecimento do meu caro anfitrião, de novo violento, tiroteios desabridos na própria rua, mas agora sem motivos políticos, atávicos tribalismos ou quejandas respostas, nada que fale do futuro do país.

Apenas ladroagem, criminosa, assassina. O conflito seco e duro do “dá cá” - mais irracional e inesperado do que qualquer outro. E velho como o mundo.

Hoje janto mal. E penso em Mavalane.


(Maputo, Dezembro 2001)




9. UM VELHO


Ao Sérgio e à Isa, a agradecer o caminho

Lá perto de Boane, naquele cruzamento sede de dumba-nengue, estanco diante de um camião ali em lenta inversão de marcha, na berma da estrada um velho instruindo a manobra, complicada pela abundância pobre das bancas serpenteantes. Aproveito e peço-lhe a confirmação "por favor, o caminho para a Ponta do Ouro é por aqui?", que não quero perder-me por areais desconhecidos de quem usa o avião a apressar o fim de semana.

Que "Sim", responde-me o velho, alongando o braço bem para longe "é ir a direito até ao cruzamento e então virar à esquerda, não há que enganar, lá há-de ver que depois é só continuar sempre mais em frente", e haveremos de chegar. Sei também que, bem mais a sul, algures terei que acompanhar o rumo dos postes de electricidade mas isso já não lho pergunto, ainda estamos longe e decerto que por lá outrém mo indicará, de modo que eu não venha a confundir.

Agradecimento cumprido aproveito a pausa do ponto-morto para acender mais um cigarro, mas eis que o velho torna, um passo atrás, nenhuma entoação especial, apenas para melhor esclarecimento, "filho, é seguir em frente, mas não é para virar na primeira à esquerda, é só na segunda, na estrada de alcatrão", e torna a partir, abandonando um breve aceno.

Esfumaço e sinto-me a sorrir, a reparar naquele tão normal que nem se ostenta, ali nem sorrateiro nem explícito neste “filho” tão tipo mas neutral. Sem esse “patrão” urbano ou a sua sequela “chefe”, nem tão pouco esse ”branco” mais rural e que nunca percebemos se substantivo se adjectivo desqualificativo. Ou esse “pai” ou até “papá” quase cantado, esse mesmo como se de simulacro de carinho se tratasse, que os velhos do mato têm para me oferecer, tão desajustados do invertidos que surgem. Mas agora, aqui, apenas, muito apenas, a minha idade do “filho” que me põe no meu lugar (por enquanto, por enquanto, que o tempo está a voar...), digna de natural que é.

Posso agora partir, todo atrevido no meu fór bai fór, e o velho, terminada a manobra do camião decerto lá irá caminhando para Boane, que isso não está ali a contar entre nós. Como nunca deveria contar.

Para o meu lado comento um "reparaste?", e que sim, "tão raro, não é?", diz a Inês. Tão raro que tanto tempo passado, e já bem conhecido o caminho da praia, ainda me lembro do pequeno episódio.



(Ponta do Ouro, Setembro 2001)



10. UM SÍMIO EM CALÇÕES


Ao Zandamela, já ido e que então lhe achou ritmo

Após o jantar uma ida nocturna à farmácia, ali à da Clínica Cruz Azul em plena Baixa de Maputo, qualquer coisa que a Inês se esqueceu de levantar, felizmente nada de grave, uns achaques triviais. Mas já estava fechada, desde as 8 horas, a ver se não me esqueço para não repetir. Percorro então, acima e abaixo, a Karl Marx em busca de uma farmácia de serviço mas hoje não é o dia destas. Avanço para a vizinha Samora Machel, à farmácia Tunduro, aquela entre a Cervejaria Galé e o célebre Scala, mas também a esta encontro fechada. Já perdi tanto tempo nestas andanças que paro e vou à montra ver a escala de serviço, apesar de ser noite e Baixa, que também não se devem exagerar os perigos, já por cá estou há tempo suficiente para me deixar acreditar nisso.

Mas nem percebo bem qual é a farmácia que está de serviço, reparo que não estou certo da data d’hoje, que tonto, ou envelheço?. Regresso ao carro e, bolas, ali plantado à porta um tipo, maior do que eu, entre o pedinte e o ameaçador, já percebi que não me quer dar o espaço todo para entrar pois postou-se de modo a que eu, no esgueirar-me lá para dentro, lhe terei que dar as costas. Então se é assim, e ainda ele não disse nada, já lhe estou a empurrar um “sai lá daqui pá” no estômago, mas ele afinal não é de meias medidas e saca a naifa. Passo-me, mas passo-me mesmo!, empurro-o outra vez, filho da puta, a porta do carro, entretanto já aberta, quase nos separa o suficiente para que com o meu passo atrás ganhe eu tempo e espaço. Com a irritação tiro o cinto, que lhe hei-de foder as trombas, grande cabrão, a sacar-me de uma faca, quem julga ele que é, mas... estúpido, gordo, a noite estava tão boa (agora mudou, claro) que estou para aqui de calções, e como estes vão já apertados estou sem cinto, dizem-me ambas as mãos, ali apalpando em vão e logo irritadas com o dono.

Recuo mais um pouco, até ao para-choques, e arranco numa saraivada de insultos, que nenhum dos seus antepassados, mesmo os que ele nem imaginava ter, se safa. E grito, grito-lhe os impropérios, ele estancado, indeciso, para ali a olhar para mim, a naifa também parada na mão, os molwenes no meio da avenida calados, e parece que dele pouco cúmplices. No passeio, rente às escuras montras vem subindo um pequeno homem, num modesto mas digno fato e gravata de funcionário, o qual sem se afastar muito da parede lá participa com um “deixa lá o homem, que chatice, deixa lá o homem”. Eu, enquanto isso continuo a vociferar tudo o que ali me vem à cabeça, mas é este socorro subtil também feito espelho que mo faz compreender, sou ali um símio em calções aos urros e pulos, aflito, esbracejando, passo à frente passo atrás, diante da fera, até a assustar. Esta, constrangida, avalia que já perdeu o momento do salto e cede às arrecuas, devagar, enquanto se rejuvenesce como que por magia a querer-se menino de rua, num “só estou a pedir mil” esganiçado e agora surpreendente, enquanto a arma lhe desliza para o bolso, isso sim acriançando-o em definitivo.

É tal a raiva que saio dali directo, rugindo ainda, mais até do que o escape de competição deste Kia “Champ” da Inês, à esquadra vizinha, lá no Museu da Moeda, onde de rajada arrasto do descanso um carro patrulha que faço atravessar a rua em busca do faquista. Aí regressado, agora escoltado, ainda vejo o “angolano”, como lhe irão chamar os molwenes, a escapar-se pelas ruínas, já monumento, do Prédio Pott. Pronto, nada mais posso fazer, estou para ali a destilar o fel mas também a marcar pontos, lembrar-se-ão do branco de barbas, carro CD, que se chateia a sério. Ganhar espaço, acho eu, se calhar certo, se calhar errado. O polícia concorda, num “o senhor já pode ir para a casa”, vai-me reformando, ele conhece o assaltante, hão-de persegui-lo mas o pior, e lamenta-se, é serem menores todos estes ladrões, mal são presos logo algum juíz os liberta. Mas que volte eu no dia seguinte, a ver em que é que deu tudo isto.

Passam dois ou três dias, e de manhã manhã, antes das aulas um duplo café ali no Nautilus, a ver se os bacharéis adormecem menos ao meu rame-rame. E saio rápido, a pressa daquela hora, mas já é sina minha, ou será da cor, lá me vem um gajo chatear, “dá-me dinheiro, hoje vais dar-me dinheiro”, a história de sempre, que me está a guardar o carro, moedas que mais não são do que a portagem de utilizar um bocado da rua que ele decidiu ser seu. Eu não dou, continuo contra a privatização da terra. Mas este já vem aviado, a empurrar-me até ao “tá quieto, pá, não me chateies”, que não o convence, eu ali à mercê dos perdigotos do sacana, a bêbedo não cheira, e aquela hora também seria difícil, o cambalear excitado parece-me o de outras andanças, mas nem vou perder tempo a medir-lhe as pupilas, que seja “herói por um dia” até ao dia em que rebente, desde que não me chateie. Mas hoje decidiu fazê-lo, agarra-me, largo-me, segura-me a porta, ameaçador no “dá-me dinheiro!, vais ver!, dá-me dinheiro!”, e em fechando-lhe eu o carro, põe-se aos murros à chapa e ao vidro. E fá-lo também escorado no seu grupo, todo ele sorrindo ali na esquina, como sempre.

Que raio de começo de dia. E ainda para mais à porta de casa, aqui é o meu terreno de pasto do todos os dias, ladeando a família. E é mesmo por esta que isto não vai ficar assim, saio dali mais uma vez para a esquadra, aquela vizinha ao fundo da Nyerere. Pois já que me acordam as noites com os gritos dos presos, da porrada que lhes dão, que me aturem agora. E aí, enquanto chamam alguém para me acompanhar, lá me vão desabafando de novo que não vale a pena, prendem-nos e são menores, no outro dia serão soltos pelo juíz. Tenho que confessar, quando me dá estas raivas, caem-me as sociologias todas, estou-me um bocado nas tintas para as desgraças alheias, e o abandono das crianças, e a falência da família, e a crise económica, e a globalização, etc. e tal, tudo isso que põe os putos na rua a roubar e a matar. E por isso estão os polícias ali a carpir, e eu a interromper, cruzamos lamentos, tudo bem mas já fui assaltado cinco vezes, e dá-me para reagir, sei lá é o meu mau feitio, que assim a frio bem sei que se deve dar tudo, impensável resistir, e seguir como se nada fosse, e por este andar um dia destes ainda um há cabrão que me fila, e lá se vai um antropólogo, até liberal, até crítico, até já foi de esquerda, mas nesse dia hão-de-se estar cagando nisso. Bem, este choradinho todo não lhes fiz eu, mas insisto no que é que posso fazer?, assim a sublinhar a impotência do pobre cidadão, a ver se lhes acicato o ânimo, estúpido, nem a pergunta tem resposta, nem me parece que os ânimos deles precisem de grande acicate, a julgar pelas histórias que se contam e pelos berros nas traseiras lá de casa.

Aí, um dos agentes para, calmo, até amistoso, e corta-me a verve num “há muita gente por aí que já comprou uma destas” e vai apontando a pistola, ali descansando na mesa da entrada. Eu sinto os olhos a arquear, os meus claro, e sai-me com um meio sorriso “Hé!, isso não, não vou dar um tiro em alguém por causa de uma carteira”, mas com isto num instante passei de indignado a displicente, percebo-o, e ele também. Talvez por isso sinto que tenho de me justificar, que quem usa arma deve estar pronto para matar, nunca só para assustar, como se ele que vive com uma no cinto não o soubesse, e que para tal não estou disposto. Ele encolhe os ombros e remata “olhe, há muita gente que pensa diferente”.

Bem, eles lá saem atrás e eu, boleia dada, sigo à minha vida. Ao volante. A repetir-me, como se fosse para outros, que um polícia, com a naturalidade do assim como quem não quer a coisa, me aconselha a arranjar uma arma para que me defenda eu próprio e aos meus. Já vou mais calmo, claro, o breve Índico à direita também ajuda, e tudo isso puxa-me o literato, que nesta manhã sai-me na forma do “que faço eu aqui?” de poeta, que isto assim também é demais, resmungo ainda.

E lembro-me do meu irmão, dobrado o Cabo de Cinquenta, comandante aqui convertido à cabotagem de terra, conforme o dia saía-lhe irónico ou triste o sorriso à conversa do regresso a Portugal, e assim a deixar-se por cá rebentar de porão em porão. E, já com ele, transformo a poetice matutina num “que farei eu aí?”. Pois podem estas picadas estar em mau estado, bem embrenhadas, que sempre iludem em deixar-se andar, nem que seja com a tal catana na mão, desbastando-as.

E aula.



(Maputo, Dezembro 2002)



11. A ÁRVORE E O LIXO


Vai resmungando a colega, verve imparável, inapelável, jorra-se-lhe a alma desiludida a transformar a curta boleia em bíblico lamento sobre o seu país, maldizendo-lhe passado recente e destino, parece-lhe eterno este último. Não há dúvida, distraio-me eu, o mundo tal e qual vai sendo arrasta-lhe o ânimo e nessa solidão assim construída quer-me a ela algemado neste agora, procura anoitecer-me este sol de meio-dia que ali me inunda, reflectido na baía, essa meu constante horizonte.

Falhou-lhe o futuro, afinal, a ela e a tantos outros, esses que tanto e tudo almejaram. Conheço-lhes a maldição, também mo aconteceu mas, modesto, disso as causas e culpas aceito-as só minhas, pois curtos eram os sonhos, que arquitecto de futuros ou engenheiro de presentes nunca me imaginei.

E enquanto vai ela remoendo, justificando-se até, olho o mar recortado em acácias, por ora tão vermelhas, belas ainda que também abandonados depósitos deste lixo sempre esquecido. E, ápice de inspiração, salvo-me da solidariedade que ali me é exigida num mero, e até cansado, “ouça, sou estrangeiro, só cá estou porque quero”, e como me riposta apelando ainda assim a um olhar crítico sublinho-me, acompanhando-me num apontar o ali tão à frente, em “ouça, sou estrangeiro, eu olho a árvore, você olha o lixo” que se quer, e torna, definitivo.

E cada um foi ao seu almoço.


(Maputo, Novembro 2003)



12. O GUIAR


O guiar longo tem isto, o deixar-me pensar livre e rápido mas consistente, ao ritmo do motor. Um pensar atalhos imprevistos, picadas daquelas rudes, semi-destinos ali abruptos, em rectas ou curvas atrevimentos tantas vezes e, sem que eu o queira, até derrapagens ditas maus feitios. E que nunca se me rebente um pneu no entretanto...

Neste quase ontem, a terminar semana sem mais, num ir até longe dei-me conta de mim guiando nessa via dos quase amigos do hoje em dia, coisas caminhos mais acontecidas a quem se viajou, assim deixado distante dos cúmplices lá do quando jovem, essa gente amigos que, ainda que nos custe, podem cansar, até afligir de idade, e assim aborrecer, mas nunca trair, como poderiam...? se tão verdadeiros do antigos que ficámos.

São estas as coisas de quem, aqui e ali, reconfortou ontens em mesas alheias, as do come mas mais as do bebe, deixando-se demorar um pouco naquelas sentadas por quem par vai (a)parecendo, afinal talvez apenas porque vindo lá de onde viemos. E só depois lembrar, se calhar aprender, que origem não é sítio, nada disso, e nem sequer o olhar limpo o é, nestes tempos de tanta lente escondendo o mesmo mesmo.

Assim, indo nestas memórias péssimas estradas, sinto-me a cair nas covas, direcção até empenada, pneus já derrapados, óleos desperdiçados, travões pouco-pouco, uma agilidade esquecida. Tudo isso no saber esta paisagem, a de que afinal dos “nossos” não estão só aqueles dos melhores. Parecer-lhe-á o caminho tão difícil, daí o tanto medo que não chegue o quinhão de estrada que lhes coube? Ou talvez vão mesmo só com o outro medo, o medo que o “dono”, lá no caminho, nem a todos venda o diesel, racionando-o, preterindo-os no adivinhando-lhes o afã.

São estas as avarias para as quais não há seguro, e que o houvesse, pois decerto seria então a franquia demasiado elevada. Destas têm-me sucedido no ano a ano. Minha pura distracção ou as artérias já rijas a demorarem reacções? estupidificado eu ou já no quase-doença, aquela do final ali, já ferro-velho? Pois como explicar este assim, tantos anos de carta e tão iludido na estrada?

Paro no caminho, em Malelane que é quase lá. Um novo Rothmans exigido e, já agora, o café de malga em casa de madeirenses e, ainda, o jornal “lá de cima”, novas do jone e do mundo mais vasto visto por olhos mais abertos. Tudo isso ali no escaparate ladeado de revista tão colorida, essa National Geographic da minha juventude, esta (sinal dos tempos) número de geografia cósmica, um especial astronomia. Logo, menino, lhe cobiço tanta cor, tanta galáxia chegada agora, e nem hesito, trago tudo aquilo para a minha mesa onde me deixo distrair, gole a gole página a página mergulho nas estrelas, de imediato regressando-me a um tão novo.

Tenho ainda que voltar à estrada, aquele trecho final. Chego-me ao carro, este musso já velho, meu burro de Sancho Pança, nem mais. E, então, mas só então, sorrio ao que trazia na bagageira, todas estas mossas, todos os riscos, mesmo as peças já ausentes, afinal tão pequenos tudo isso. Caminhos de nada, todos nós. Tão mesmo que só merecemos sorriso, para quê algo mais sob este céu?, ainda para mais o céu hoje que me ficou tão mais perto, em tantas fotos tantas cores. Todas elas assim a nadearem aqueles medos alheios, gente perdida no bulício.

Sigo. Em estrada muito melhor.




(Maputo, Maio 2004)



13. PROVÉRBIO


Quem tem heranças tem temperanças.



(Maputo, 2004)


14. AS CORES NA VÉSPERA DO ECLIPSE


É o que acontece ao viver em país iluminado não só por todas estas cores tropicais mas ainda por poderosos espíritos, segundo os bardos locais, ou por relapsos deuses, a acreditar no real. Pois só em tais paragens um eclipse solar determinaria dia feriado para colectiva homenagem aos astros intercalados.

Nessa véspera abandono-me em esplanada dos escritores onde me surpreendem com louvores a lowrys e celines, algo que por aqui nunca tinha escutado. Loas logo partilhadas e que estendemos nas cervejas, que tais assuntos puxam a sede, a minha e a dos presentes literatos, desses que a voz burguesa vem resmungando de incoerentes. Pois também aqui, como por todo o lado, a incoerência é sentida como se falsidade fosse.

Entre bebidas havemos de evoluir, que as palavras são como as castanhas de cajú e a lógica um enigma, da celinada para as vantagens da circuncisão, apenas aparente paradoxo, que aqui se trata da bantu e não tanto da judaica! É-me deliciosa a veemência com que alguns de imediato afrontam e vituperam esse prepúcio que deixaram na tenra infância. Mas logo, sábio, o mais velho desvaloriza a questão, numa bela lição sobre diferenças entre as gentes que sigo e aplaudo, aliviado na minha dupla condição de antropólogo não circuncisado.

Assunto rematado e continuando tão díspar conversar posso enfim decifrar os meus desaires profissionais. Confessa um poeta vagabundo ter encomendado trabalho feiticeiro contra mim, apenas por despeito, di-lo agora, alguma irritabilidade minha o terá ferido. E assim impiedoso ceifou as minhas ambições, tão fracas que cederam às imprecações. De média mac mahon em média 2M sabê-lo-ei arrependido de tal acção, o que creio sincero pois a conta não está a meu cargo. Hoje, aliás ultimamente, vai dizendo que sou um preto branco, "este texeira", diz já ébrio, "enganou-nos, branco preto". O mesmo mais velho, o da mesa e das letras locais, repete a sua autoridade resmungando o desinteresse destes argumentos coloridos. Vozes afirmam-no, repito-me, incoerente. Pois não é por essas que o deixarei de saudar, entrecruzando-nos cervejas quando fazemos calhar.

Já noite parto, algo atrasado e um pouco turvo, para um repasto português, eis uma bela patrícia a aniversariar, ocasião festiva para juntar um pequeno Portugal local. Um mundo burguês que aqui vive fechado, cercado e cerceado, gente num país que nem se lhes abre nem tão pouco fazem abrir. Casais deslocados e uns poucos solitários sempre suspeitos, convívios cruzados tecendo amizades frágeis ao canibalismo da crítica, esse tão próprio à clausura. Pois se é certo que de traços diferentes se faz o mundo bem difícil se torna reencontrá-los no entre nós, aqui aparentes tão iguais nesta distância de casa. E tanto assim o é que logo em mútuos maldizeres nos cruzamos, enquanto não se chega aos actos mesmo, crendo que todo esse fel possa ser o cimento das muito desejadas (e retemperadoras) hierarquias, tão confusas ficam estas desde a passagem do Equador, sempre promotor como o é este, se cruzado na direcção correcta.

Lá chego "a mais a minha senhora", e logo justifico a mesa bem de canto que me é destinada dando boçais pares de beijos, castos e cândidos é certo, nas faces das senhoras presentes, aquelas que se querem, e dizem, habituadas a um único e esquivo roçar. Pois por cá, como na mãe pátria, não é fino quem o diz mas sim quem é parco em beijoquices, e não estou para aqui a falar em quenturas noctívagas. E lá ficamos com os que então julgamos nossos à mesa, também nós ancorados nesta nossa pequena diferença. Gauchisme...incoerência nossa?

Rezam as crónicas que a burguesia colonial bebia e bem, fazemos nós os possíveis por honrar os antepassados, e nisso sim, apenas nisso, refazendo um lusófono Império. E deste modo, em esplanada bem menos celiniana que a anterior, mas nem por isso menos lowriana, arrasta-se dignamente o aniversário até à madrugada. Deixam-me aí exercer a verve, corrosão liberta pelos líquidos que a cruzam, até se me toldar a língua, equivalente pouco canoro da dor de voz, eclipse sonoro pouco notado pelos presentes, uma indiferença que não deixa de me ferir.

Avançamos então até à Bagamoyo, a Rua Araújo como teimam cúmplices os boémios de todas as gerações, eu acompanhando um casal desavindo, acicatado nas garrafas havidas. Acotovelamo-nos na antecâmara de dançaria, mas logo cedemos ao ímpeto de um cabeça rapada na sua urgência do ruído frenético. Meio cavalheiro, meio maçado, mas nada prudente, oponho-lhe o braço embrulhando o protesto. Certo de que na noite todos os gatos são pardos esqueço-me minoria étnica, logo mo lembra um redondo "vai para o caralho, ó filho da puta", lembrança que acompanha a de estar eu bem velho para violências nocturnas, se é que há idade para isso, sempre elas me pareceram meras paixões frustradas, quando não erecções incometidas.

Mas enquanto penso isso são os milhares de anos de mediterrâneo que brotam, essa cultura marialva do não virar a cara, e é ela que responde "vai tu!, tem calma e espera como os outros". Não será o tom, é mais a minha cor que o ofende, este não é poeta vagabundo di-lo o comprido "ó branco filho da puta, eu mato-te já, já viram este branco de merda, filho da puta, eu mato este branco!", assim não só rude mas a colectar apoio geral. Caramba, não tenho mesmo idade e paciência para isto, "ó pá, se tens uma arma dispara, senão vai à merda e cala-te" a ver se o homem se cala, mas ele quer mesmo é matar-me à pancada. É tudo uma breve bruma na noite, logo interrompida por um dos apinhados, as mãos nos meus ombros, com um "senhor adido", confunde-me ele de algures, "vamos lá para dentro que isto já está muito quente", enquanto me leva ao balcão.

Súbito está o nosso grupo festivo reordenado, nos apertos procuramos mais um copo, são anos a mais de noites para nos irritarmos com estes episódios. Mas eis que regressa o rapado, continua a querer matar-me, sempre lhe vou dizendo que lá fora será melhor, mas ele vai e vem consoante os andares da maré dançante. Entreolhamo-nos entre nós, os que ainda semicerram olhares claro, sinto-me velho e só, é quando me falta a paciência que o noto mais. E assim e por isso nos retiramos, num fingir do calmamente, a tentar uma saída airosa que se aparente a orgulho couraçado.

É já dia no Índico, eclipsada a véspera do eclipse, sozinho ao volante vou matutando. Em terra de dólar cada vez mais radioso, uma gente cada vez mais sem nada, o quase paradoxo no assombro da vida deste povo. Serei eu um dia o procurado pelos esfomeados, fartos de o serem? Ou será esse jovem cabeça rapada, celular e bmw, óculo escuro na noite, escondido do mundo daqui que trata como patrão no seu apartheid caseiro, e odiando o mundo de lá, que raro lhe chega ao Maputo, ambos tão maiores do que ele?

E lembro num cocktail, aquele procurador, óbvio rural no modo como comprova o in vino veritas, tão feliz no informar-me que em casa dele "os criados tratam-me por patrão, o meu pai era criado dos colonos e era assim que os tratava, eu exijo o mesmo".

Apago o cigarro, vou dormir para a Engels, apropriado nome para a zona da burguesia maputense. Mas à porta de casa ainda invectivo o guarda, que com alguém tenho que descarregar tudo isto, pois estou farto desta porcaria espalhada no jardim, é trabalho dele impedir que esses vagabundos da encosta venham revolver e escolher o nosso lixo.

Subo, enfim! Decerto fica ele a pensar que estes brancos, tão liberais, nem o lixo deles partilham.

Incoerentes?


(Maputo, Setembro 2001)


15. NA ALDEIA



A José da Cruz, nyenye

Há quase dez anos que aqui não chegava, longe e difícil que o é minto-me, envelhecendo no acomodado e desinteressado que me fui ficando. Vim a indicar o caminho e estranharam pois lembro-o, nervoso, de aldeia em aldeia, curva a curva, colina a colina, e até os rios, apesar de estes não estarem que ainda não choveu este ano, enquanto exclamo aos belos da paisagem que já nem julgava esquecidos.

Aporto de surpresa, como avisar?, saio no bazar aterrorizado que não me lembrem, pois se nem ali? Mas logo me rodeiam, aleluia pelo alívio, e é reconhecimento feito de espanto. Cheguei também temeroso, a estrada toda a remoer as mortes a que terei faltado, e é assim mesmo, que a cada “o velho... está?” logo me dão um “esse morreu...!”, e eu sigo “e o velho.. está cá?” para me repetirem “esse morreu...!”, e não desisto no insistir “então e o velho...?”, “também morreu!”, “e a velha...?”, “qual?...aquela lá? Foi morrer à aldeia...”, “e a velha...?” “hum, também morreu...”, ainda que neste ou naquele haja dúvida sobre quando e onde. E nesta sucessão há até sorrisos doces a embrulhar tudo aquilo que partiu, e tantos foram que me chega, mudemos de assunto, fiquemos entre nós, os que cá estamos, por enquanto, é claro.

Mas o meu mano ainda está, lá no “arame” dizem, esse que não só é vedação como também dá o nome à moribunda empresa, pois o algodão cada vez devolve menos. Hão-de ir chamar? Claro que sim, logo sai alguém para isso, mas atrasado pois a Cruz já chegou que um branco goooordo está a precisar dele. Enquanto isso carrego as grades de cerveja e as garrafas de aguardente que trouxe do distrito para o terreiro dele, a cunhada ali desavisada ajoelha-se quando chego - como podemos, quando poderemos, mudar o mundo disto? - imponho-lhe os beijos que logo se tornam risos, beijos que o mano e o velho Kalamo quando ali chegados me ensinarão ser por cá também coisas de entre-homens (áfinal??), e bem repenicados no pescoço por sinal. Antes que se beba levam-me a visitar algumas velhas viúvas ali vizinhas, do mettho delas já só percebo os sorrisos da lembrança e “fotografia”, até alguém vai entre risos rebuscar nas arcas o seu velho, ainda ali tão presente, de súbito trazido de volta nas fotos que há tanto mandei, “lavadas” que foram lá na Nação.

Entretanto apressou-se a chegar o hiena, para que eu saiba que não veio a suceder ao tio, enganámo-nos ele e eu em tais cálculos, decerto que essa sede, ainda hoje tão viva, lhe foi fatal às ambições. Depois, e até com alguma pompa, chegará aquele que foi meu intérprete, então jovem, hoje já não tanto e ainda menos pois elevou-se – sim senhor - a “autoridade comunitária”, lídere dizem-no. Rio-me num “Ich, você subiu, Albino!”, riso sem malícia que lhe desmonta um pouco a pose, mas não há ofensas nisto que não lhe abaixo o alto a que subiu. Pois o grupo, entretanto crescendo, aceita-me no brincar, ganhei o direito quando todos lhe éramos mais velhos e ele quase menino. E isso mesmo apesar de ali mergulhado em tamanhas rivalidades, dessas que apelam a cuidados de diplomata. “Há problema em virem até aqui?” perguntei antes a Cruz, sentados naquela casa de genro de chefe tradicional, terreno por demais marcado para juntar facções há anos zangadas, e ele próprio sabendo que amanhã lhe repetirão acusações e zangas de ter andado “a gingar com o branco”, naqueles meus tempos, e agora até outra vez. Mas “Nada!, hão-de vir...!”, soube logo ele, sorrindo devagar, e estava certo, vieram os amigos de antes...

E as histórias dos tempos já antigos acompanham as primeiras cervejas mornas, são-me repetidos os velhos que partiram no entretanto, comungamos nas memórias mais jocosas sobre cada qual. E chegaremos ainda aos suaves lamentos do como a vida por ali corre ou sobre como ela não anda, e isso depende de quem está agora a falar, mas tudo se finge num relativo “vakani-vakani”, um pouco-pouco mais ou menos, que agora é momento de festa, e inesperada, não é para grandes protestos. E, nem que seja por isso, há também todas essas coisas boas, quem está está bem, vivo, famílias crescendo, e eu envergonhado e com pena, não trouxe a fotografia da minha sorte que logo pediram, saudando a sua notícia. Pois também dou notícias minhas, que vou bem, e todos riem do óbvio, do gordo que estou, destes quase trinta quilos que pus em cima, sinal tão claro de bem-estar, saúde, beleza até. E riem também por esta mulher que hoje me acompanha e que digo não ser a minha, pois claro “a esta ainda não conhecíamos”, riem-se cúmplices, com a ironia inventando-me, entre acrescentos, um passado atrevido que vale mais risos de entre-homens e o qual não nego, até agradado, estou já bêbedo, do jejum, dos kms, das Castles tão gordas e tantas, desta toda terra vermelha.

Mas ainda nem acabámos as cervejas, as aguardentes ali à espera por abrir e temos que abalar, o motorista já impacientado e nada encantado, pois as ordens, tão repetidas, vetam-nos a noite, essa que está aí e há muito. É então de partir mesmo que ali ao lado vizinho, perto, perto, estejam os sons de dança, que foi mais pelos tambores que percebemos os inícios da noite, bem mais do que pela luz que se pôs a escassear. É isso, temos mesmo que ir. Ainda que as aguardentes estejam por começar.

A tudo isso resmungo um falso Ok, enquanto vou fintando o tempo em todas estas demoras de partir que aumentam sem vergonha, que estou já bêbedo, do jejum do dia, dos kms tantos, das Castles tão gordas, desta toda terra vermelha. Então, ali entre os vagares, peço uma fotografia, aquela de todos nós agora, e juntamo-nos sorrindo à espera de um flash que não há-de sair, recusa súbita e nunca anunciada, ele que tanto me tem acompanhado até hoje. E nisso sinto de rajada, num forte de primeira vez, o arrepio da morte, profundo, cortante, inopinado. Ali a dizer-me, explícito no quase gritado, a fazer-me sentir, mesmo cruel, que esta fotografia, esta memória, já não se devesse ter, já não é pertença à minha história, um capítulo excessivo, como se o meu lugar já ali não fosse.

Já disse, estou bêbedo, do jejum do dia, dos kms tantos, das Castles tão gordas, desta toda terra vermelha. Estou bêbedo e gelado no arrepio, mas ainda me invento sorridente a maldizer o raio da máquina, que sempre me pintei mais rijo do que o que sou, ali a falhar quando não devia, e tento insistir repetindo o fracasso, e finjo a grandeza num “paciência, fica no coração”, abandonando-me até à próxima visita, e prometo-me entre beijos e nos abraços. Mas o hiena, ainda que ele, e por isso já cambaleando, sabe, soube. E sabe também que eu percebi. Há-de sair comigo, a acompanhar até lá quase ao carro, é também ele que faz a despedida, num até breve, até à próxima que os seus olhos de já velho desmentem no então constante baixarem-se. E neste por dizer nos ficamos, vou morrer antes de ali voltar, e sei-o enquanto parto, na noite.



(Maputo, Dezembro 2003)



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Ao Balcão da Cantina: fascículo 2

16. MAMBAS DESVENTURANDO


Diz o coro de rádios, tão tristes como os guardas seus donos, “Mambas 0 - Guiné-Conacry 4”, notícia a anoitecer este belo sábado à tarde.

Lá no estádio, e não me custa a imaginar, cabisbaixa o público entristecido, sofre o Monstro Sagrado ali todo só, tantos anos a passarem sem sucessores.

Súbito, do povo em lágrimas salta um jovem, voa de heroísmo, corre, artista, até às redes guineenses e, lesto, arranca aquela agulha que o keeper francófono ali escondera, maligna guardiã da baliza almejada (e assim tão pouco alvejada), no tecer de invioláveis barreiras, invisíveis cattenacios, sobrenaturais “liberos”.

Júbilo, Machava, júbilo! O feitiço desvendado, traiçoeiro apoio (falso como essas mais nórdicas e químicas drogas?), ilegalidade mágica, maldades de lá, prejuízo e dor de cá... E haviam de vê-lo, ao povo então em coro, mais gritando do que se sucessivos golos fossem. No frémito da ira, da justiça, da liberdade ao mérito. Porque ali desnudada a perfídia estrangeira, secretas malfeitorias, a agressão do vindouro.

Ai, estas coisas africanas, ignorâncias obscuras, crendices de antanho que não conseguimos ultrapassar. Atavismos populares, laivos de criancice que teimam em não crescer.

Depois, logo, logo...dizem os mesmos rádios, “Mambas 3 - Guiné Conacry 4”!

Áfinal??


(Maputo, Dezembro 2003)


17. A IDADE E A IGNORÂNCIA


Está aqui porque é para o Jaime Santos

A idade não me fez arrogante, como a tantos. Arrogante fui-o. E depois veio essa tal idade, sempre crescente, a rodear-me de espelhos, postados por todo o lado, circundantes, a mostrarem-me. Implacáveis...

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Com a idade deixei de ler as introduções dos livros, passo directo ao autor. Para resumos faço os meus, para interpretações basto-me a mim. Erro, erro, mais um dos vários.

Mostra-mo o Jaime Santos, a partilhar o whisky comigo, rouba-me um Gellner que trouxe a passear, bibelot apenas, neste ofício de ambulante reclamação de estatuto, e lê a primeira frase do "Prefácio do Editor". "Porra" arrasta ele, "grande frase", "hum" digo eu, envergonhado de descobertas alheias em coisas minhas. Pois cita ele, diseur ainda para mais, o tal Moore editor a abrir a cena: "A ignorância tem muitas formas e todas elas perigosas".


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A idade não me fez arrogante, como a tantos. Arrogante fui-o. E depois veio essa tal idade, sempre crescente, a rodear-me de espelhos, postados por todo o lado, circundantes, a mostrarem-me. Implacáveis...


(Maputo, 27 Abril 2004)


18. HA NGONHAMA YA MBANGU LOWÔ


Para a Conceição Branco

No final do século foi quando começaram a chegar. Nessa altura parecia-lhes já arrumada a longínqua casa e, se bem que ninguém o clamasse à boca cheia, muitos acreditavam que estava de novo chegado o momento de romper mundos, ditando-lhes alhures alguns rumos.

Logo abundaram pela cidade. Afável a baía e ondulante o clima poucos arriscavam nortes ou interiores. Eram gentes de bem e de mal ou mesmo de nem tanto, armados de poucos ou grandes anseios que nenhum lhes diminuía o afã, uns apenas em novo ensaio, uns outros já em últimas e até desesperadas tentativas. A alguns acompanhavam-nos as mulheres, famílias a reclamarem o destino, mas muitos arribavam sós, cedo e com azáfama procurando filhos na terra como se viessem eles a ser âncora neste porto, assim tornando-o abrigo seguro. E em todos a sensação da mudança feita na distância, mas isso é da natureza humana, o sentir o andar como se fazer fosse.

Nessa época também eu cheguei, a empresa a oferecer-me boas condições pois necessitavam de alguém para as relações públicas, artes que constava serem incipientes por estas paragens. Por lá perdido no meio do pelotão nem hesitei, aproveitei e saltei, deixando a mulher mal disposta em casa. Resmunguei-lhe, não sei bem porquê, que “navegar é preciso e mais qualquer coisa” e vim aos dólares.

Lembro que esses eram tempos até de turistas, quantos recém-casados a fingirem um desflorar em terras exóticas, como se o verde local lhes viesse a fertilizar as alianças, perpetuando-lhes os apetites e os gozos. Com eles se cruzavam, já mais cansados, os romeiros da saudade aqui vindos a lamber feridas, cheirando uma terra à qual teimavam em chamar sua, indecisos se paraíso ou inferno. Tinham-lhes já passado, pelos menos então, quaisquer raivas antigas, não que a emoção os aclarasse, seriam antes os ares índicos e talvez o alívio de terem chegado ao chegar, que isso de sobreviver é difícil e não para todos.

Com azáfama também se apresentavam os governantes, deles havia constante trânsito, dizia-se que para criar clima pois era de consenso ser já tempo de se cicatrizarem velhas feridas, então chamadas equívocos. E tão enleante era o ambiente que amiúde chegavam administradores e proprietários, ágeis a desenhar lucros em rápidas e agitadas incursões. E logo rodas de convívio sortido, aquelas onde se ia fazendo o bem olhando a quem, animavam restaurantes e prostíbulos, exultantes nos comentários à última visita, à reunião havida, ao negócio encetado, ao investimento do mês, à parceria delineada, aos rumores das novidades. Tal como se tudo isso a todos pertencesse, como se o seu brilho dourado a todos alumiasse.

Lamentos havia-os, mas eram mais os resmungos devidos aos surpreendentes inesperados do dia a dia. E também os das famílias, queixas da alguma insegurança então que fora do casulo e da falta de locais de convívio legítimo. Mas nisso eram mais as senhoras, desde logo cansadas de sofrer os confortos da criadagem e dessa árdua tarefa de resguardarem os maridos dos ânimos dos patrícios aqui solteiros, por opção ou geografia, sempre estes desinquietadores das calmarias conjugais.

Foi pois com alegria geral que se soube da aquisição do Cine-Teatro da cidade, sítio invejado ali à rua da presidência, dizia-se que há anos pelo Estado desusado. Era o agrado com mais um feito da comunidade, mas mais ainda a expectativa do entretenimento em vidas que corriam monótonas, distracções inclusive com coisas “muito nossas”, postais da terra a mitigar saudades. Lesto foi o alindar da sala, a maquinaria a chegar de fora e a juntar-se a estofaria e limpezas, para que tudo pudesse brilhar no que veio a ser uma agitada inauguração, rara ocasião então aproveitada por quem pôde para provar elegâncias. Também eu fui convocado para a gala, apesar de recém-chegado já me sentia alguém na cidade, um director, quando entrava nos restaurantes havia até quem se levantasse, por vezes pagavam-me as contas na noite e, inclusive, já me tinha sido possível corresponder a um ou outro favor.

Rápido se tornou o Cine-Teatro palco do bulício da cidade no hábito generalizado da sessão de cinema intrometida no quotidiano e prestando-se a falsos acasos, encontros ditos ocasionais pois bem se sabia os dias certos em que cada um ali se apresentava entre o irrisório de filmes. Pelo fastio da vida e no gozo da recente notabilidade fiz-me presença assídua, as estreias semanais, os concertos de beneficência e até as inúmeras conferências onde se discutiam futuros e obrigações do país. Além disso a minha administração, sempre atenta à imagem, instruiu-me a que fosse eu pródigo em patrocínios pois estes sempre nos iriam dar bom nome na praça, cativar boas vontades locais, “deles e nossas” sorria-me o Administrador Delegado, e tudo isso me impunha lugar cativo nos eventos.

E assim me fui sentindo amigo da casa, bem-vindo nas portas para mim tornadas gratuitas e nos sorrisos abertos do pessoal, gente ali estabelecida há muito, alguns ainda dos idos coloniais, que as compras ao Estado sempre trazem o trabalho de antanho, aqueles que sentem a casa como sua e que nem pensam em partir, ainda para mais dali, com tanta falta de empregos e sendo estes nada duros, abrigados de chuvas e imponderáveis.

Nisso fui crescendo amizade com a gerente, uma conterrânea meio balzaquiana aqui encalhada saberia deus porque razões que nunca lhas perguntei. Por ela pude confirmar que corria bem o negócio, e nesses bons augúrios cedo se rumorejaram expansões, velhos cinemas lá pelos nortes, “tudo para reconstruir” claro, mas também diferentes arrojos, jornais, revistas, até um canal de televisão. E com a fronteira tão vizinha ali para sul, sonhavam-se outros passos cuja ambição excitava até os clientes.

Foi então passando algum tempo, imperceptível como é este sempre que se agita. Nesse curso certo dia dei conta que os olhos da gerente vinham mudando de cores, iam indo num caleidoscópio, uns dias acordavam azuis, noutros castanhos, para logo voltarem ao verde, seguiam ao preto, e não tinham nisso descanso. Essas deambulações incomodaram-me mas hesitava, como alertá-la sem lhe despertar preocupações? E era caso sério, apenas ela não atentava no ocorrido, os próprios funcionários se inquietavam, ali bem expostos a tais miríades de cores. Isso adivinhei nos seus silêncios, que deles não poderia esperar que me dedicassem confissões ou preocupações, branco doutor que era e para mais da própria gerente amigo. No passar dos dias ainda questionei o antigo responsável Nhamtumbo, ali sempre informal influência, mas o velho, mirrado, largou-me um vago sorriso sem denúncias de grande interesse, e apenas anuíu em concordar em que era aquilo bem estranho, num “ai senhor doutor, são estas coisas modernas, nunca tinha visto...”.

Tendo-me deitado a matutar sobre toda aquela situação súbito compreendi que os próprios filmes iam piorando, uma selecção de segundas escolhas, coisas de decadência prenunciada, mas mesmo dessas vinham agora as cópias riscadas ou mesmo cortadas, enquanto o novo projector se afirmava cada vez mais renitente ao trabalho, e até o gerador se tornava menos solícito, sempre pronto a interromper sessões. E, cúmulo, mesmo as chuvas quando se abriam tomavam conta da sala, há pouco tão orgulhosa. Com tudo isto ia o negócio decaindo, ainda sem reclamações da sede nem murmúrios na clientela, se bem que esta cada vez mais esparsa. Seriam apenas os percalços tropicais?, interroguei-me, então ainda mais intrigado com o arco-íris na mulher. Mas calei-me, nada comentei, pois não eram assuntos da minha competência, e a vida de cada um é de cada um.

Finalmente algum espelho terá sido clarividente, que dos acontecimentos lá se apercebeu a gerente. Inquiriu e para o esclarecimento das causas ter-lhe-ão valido algumas solidariedades femininas, após as quais veio ter comigo, que da vizinhança tinha feito poiso para lhe ir distribuindo alguns conselhos de modo a que capinasse ela a vida. Ao que lhe afiançavam tudo aquilo, desvarios cromáticos e mecânicos, silêncios e vazios, se devia ao facto do antigo responsável ser leão, e ter entretanto redobrado as suas felinas actividades. E, pasmada o dizia, sendo isso do conhecimento geral dele fugiam os clientes, temores redobrados nas falsas noites que o cinema fingia, todas aquelas imagens de sonho tornadas assim fábricas de pesadelos.

“Que fazer com o leão?” angustiava-se a gerente. Despedi-lo, e de imediato, foi a minha proposta, mas ela a retorquir-me que o não poderia fazer, não tinha para isso justa causa, ao que ainda opus “e que raio de lei do trabalho é esta, se ser leão não é justa causa para despedimento?”, quem protegeria os direitos das vítimas? Mas ela, aflita, a negar-se, nem pensar em despedir o leão, isso implicaria recurso para o tribunal e como poderia ela reportar à lisboeta sede “despedi o funcionário tal que é leão”, não haveria de ser compreendida, haveria um espanto, multiplicado na distância, cresceria a desconfiança e decerto seria também ela dispensada.

Mas apesar dessa discordância insistia ela na minha opinião. Assim instigado alertei-a para a necessidade de inverter o rumo das coisas, trabalhar a opinião pública, pelo que lhe propus uma campanha publicitária que torneasse alguns dos malefícios sem que fosse muito explícita, pois era delicado o problema. Aventei então uma reprise, “O Rei Leão”, delícia da meninada grande, apresentação emoldurada por anúncios afiançando que era esse “ha ngonhama ya mbangu lowô”, o ronga para “o único leão deste lugar”. E que entretanto ao outro leão fossem dadas férias, direito de todos e matéria que não levantaria quaisquer reparos. Assim talvez se reduzissem as suas acções, avisado ele da compreensão alheia, assustado até, e com isso regressasse o público.

Mas em breve constatei que se a afluência do público tinha aumentado um pouco, da serenidade do olhar da gerente não havia melhoras. E passo a passo foram regressando, implacáveis, as outras incongruências. Para mais pouco tempo depois aportou um director, aqui deslocado para estudos de expansão pois as más notícias ainda não tinham soado na sede. Mas não lhe era longa a estadia e, súbito, uma manhã cedo fui chamado pela vizinhança, apelo urgente que chegara a revolução!

Acorri, solidariedade de imigrados, para me defrontar com um pé de vento que era também de guerra, os funcionários aglomerados e recolhendo a solidariedade transeunte, dezenas de pessoas protestando à porta e acotovelando-se em indignação curiosa. Tudo isto coroando a presença de dois polícias, ali deslocados para defesa dos trabalhadores. Lentamente iam eles agitando um papel reportando a queixa entretanto apresentada, e o qual oscilava em alternância entre director e gerente, estes já cônscios da importância da situação não só pela agitação colectiva mas sabedores de que é por aqui sagrado o papel, pois quando lhe chegam ao corpo os problemas já não têm estes retorno possível. Apesar disso pareciam os agentes disponíveis para uma resolução amigável do assunto, sem particulares incidências ou relatos e porventura com modesto e privado reconhecimento. Mas a população é que não o aceitaria, exigindo eficiente e rápida resolução da questão apresentada.

De mim se esperava um conselho avisado e de imediato me deram conta do conteúdo da queixa. Ali, num português duvidoso mas de cuidadosa dactilografia, erguia-se o auto acusador, expressando a angústia dos funcionários. Nele se denunciavam as ímpias actividades do antigo responsável do pessoal, aquele velho Nhamtumbo, algo de irrefutável pois os queixosos com ele tinham sonhado, indício certo dos ataques que vinha ele desenvolvendo contra os seus colegas

Encarei o acusado, ali entrecoberto num canto, ainda mais mirrado do tão enrugado que estava, o fundo dos olhos encovados mais distantes do que o habitual, como que refugiando a alma bem num âmago que se queria inacessível. Confrontei-o com as acusações e ele, no tom assustadiço do encurralado, a negar “nada, senhor doutor, eu não fiz nada”. E eu a impor-me, alguém tinha que o fazer e já não seriam os meus dois patrícios, ali descabelados, “mais velho, que anda você a fazer, a querer matar os colegas?”, que vergonha aquela, que teria ele a ganhar com isso, trabalho havia para todos, para quê aquela maldade, e ele já pouco negava, desistindo-se num fastio raivoso “se eles o dizem!, senhor doutor, mas eu não fiz nada”.

Arrastava-se a situação, os polícias ali também desprovidos de atitude, e a gerente aflita, ainda para mais com o director tão incomodado com tudo aquilo, nada preparado para um sublevação popular à porta do seu Cine-Teatro. Urgia fazer uma limpeza, foi a minha única opinião, “vocês têm que chamar alguém de fora para sarar isto”, e ela anuindo entre o compreensiva e o assustada, e, avancei eu, para uma situação tão grave como esta impunha-se chamar um especialista de Inhassoro, zona desses mais poderosos, e o qual logo diria se havia ou não feitiços e decerto se encarregaria de os anular.

O director não desviava os olhos, julgo que avaliava da minha franqueza, mas logo lhe irromperam as dúvidas, até agrestes: “Você está a falar a sério?”, e eu encolhendo-lhe os ombros, insistindo que seria a única coisa a fazer, ao que ele logo se impôs, determinado na sua autoridade e ultrapassando qualquer concordância da sua subordinada, que “era o que faltava, andar agora a recrutar magos para nos resolver as questões”.

Ainda entreolhei a gerente, se bem que não me recorde qual era a cor dos olhos dela nesse dia. Mas então esvaziava-se ela diante do chefe, agora ali a afirmar-se, seria ele a resolver a contenda. E logo me voltou a antiga azia com gente desta, que não há continentes de permeio que os afaste, tão cheios de si mesmos, e amaldiçoei a diarreia que não se lhe chegava, que é sempre com ela que se lhes reduzem as certezas. Assim, e à laia de desistência, fui-lhe dizendo que tudo aquilo era com ele, tinham-me pedido opinião, estava dada e pronto, e concluí numa insistência já inútil “vocês têm aqui um problema laboral, se o quer resolver chame o curandeiro e verá como tudo acalma”.

Cresceu então o director, a reforçar a sua magreza, franzindo ainda mais a cara rósea destes recentes trópicos, aquele eterno casaco azul bem vincado e abandonado pelos ombros. “Ó Teixeira”, chegou-se-me ele ao apelido a modos que a sinalizar a gravidade do momento, que nem sequer aí tínhamos chegado, ali sem “doutores” que é certo tal não se usar entre homens da mesma idade e, julgava ele condescender, do mesmo estatuto, “nem pense nisso, nunca farei tal coisa”. Aí fui lesto, abandonei-lhe um ok despedindo-me daquela conversa sobre a qual se centravam todos os circundantes olhos, enquanto ele, convicto e sonoro, rematava para todos nós em jeito de justificação e já em nome da Companhia “nós também viemos para mudar este país!”.

Ainda levantei as mãos, rendido, e dei-me à saída deixando toda aquela turba a resmungar foradentes a situação, mas não sem deixar a Nhamtumbo uma última invectiva, que estava ele com sorte, mas que deveria parar com aquilo, tinha sido descoberto, nada ganharia com o assunto. E do assunto nada mais ouvi, algum acordo deve ter sido feito, falsos silêncios acredito.

Pouco depois o director regressou à base, que esgotado estaria o motivo da sua visita. E em breve partiu a gerente, já cansada não tanto da terra mas mais de estranhas ameaças, gentes que lhe irrompiam casadentro de arma na mão, nunca se soube se verdadeiras se falsas, que por outros nunca foram vistas, mas que para ela existiam é certo.

Passaram-me alguns anos e com eles me foram crescendo novos interesses, responsabilidades e companhias. Fui ouvindo dizer que o Cine-Teatro se esvaziava, e quando me arriscava a passar perto da porta bem notava que os cartazes iam sendo cada vez mais antigos e desconhecidos, ali postados no reforçar de um ar de abandono que, súbito, fazia até o folclore das gentes da cidade.

Hoje, com a família já bem longe, enviada à frente no prenúncio da nossa nova etapa, e a casa no vazio de qualquer comodidade próprio à véspera de partida, o fastio da solidão levou-me ao refúgio do cinema. Cruzei, até cerimonioso, o silêncio da porta, preservado com cuidado pela pouca meia dúzia de clientes, ali todos um pouco com ar de engano. E logo agarrei a parca companhia de um café enquanto procurava nos muitos empregados, em desuso por ausência de quem servir, alguma cara conhecida com quem trocar mero cumprimento que fosse. Mas nada, ninguém do “meu tempo”, todos aqueles trabalhadores tinham partido, já não havia ali alguém para me reconhecer.

Súbito, saindo da sala ainda iluminada, lanterna desligada na mão, sorrindo-me um "boa noite, senhor doutor" o velho Nhamtumbo. Não resisti, entre o aliviado e o contente dei-lhe também um quente "hé, senhor Nhamtumbo, ainda está aqui?" e ele a acenar o óbvio, "então e os outros, foram-se?", e ele, seráfico e ainda mais mirrado, a anuir imóvel e longínquo, abandonado num sorriso mudo. "Só ficou você, Nhamtumbo?!", e ele nada sem negar, "áfinal?!" não pude deixar de rir-lhe, agora com ele solidário.

Saí para a rua, uma noite estrelada, destas daqui, a casa oca e a falta de sono, tudo apelava para que perseguisse a madrugada. Mas, estranho, tive pudor em gastar esta minha última noite índica em passeios solitários, tão desencaminháveis são esses. E de qualquer modo amanhã estarei já, e de vez, recomeçando vida em Luanda. Essa onde, agora, somos tantos os patrícios recém-chegados, decerto a animar bares e a (re)desenhar futuros, afinal não-índicos.





(Lisboa, Agosto 2002)



19. GENTE-DE-NINGUÉM?


Há muito que tombou a noite, hoje um pouco molhada. Intervalei-me da festa, apresentei-me voluntário para suprir a (in)esperada escassez de gelo (e dos meus cigarros), coisa de envelhecido, recuo estratégico, a querer-se elegante, diante da simpatia daquela jovem e tão bem apessoada quasi-doutora, cujo monopólio da dança com este mais velho se estreitara já até aquela fronteira em que nos sonhamos gente-de-ninguém. Por isso vou aqui e, já algo distraído com as minhas coisas, sigo veloz (até demasiado, sabê-lo-ei em breve) avenida acima, numa via de quase nada.

Súbito, todo indiferente ao semáforo que ali é norte, um machibombo viola o longo verde meu horizonte. Recobro-me lá desse meu mundo, e num assim mais lento divido-me, a minha esquerda ao manípulo, claro que atrasada no estancar do carro, e o pensar direito sem hesitar na opção, antes seguir directo, galgar aqueles bons dois palmos de cimento (imortal?) acolá a fingirem-se rotunda.

Ao embate, rude, logo logo a traseira do meu amigo decide apoiar-me, ombrear-me num lesto lento atravessarmo-nos por ali adiante. E assim seguimos como que planando, num malfadado acaso directos contra um outro machibombo, este calmo a chegar-se em meu sentido contrário (claro, se o verde está para nós ambos!). Agora impotente, sei-me a deslizar para a sua frente e ouço-me, sentido, convicto, desperdiçado, um “Foda-se!, vou morrer”. E sei bem as quem de imediato me brotam na cabeça, me surgem aos olhos, ali comigo mesmo, numa hora de partida.

Mãos de ouro, sozinhas claro, pois decerto então apartadas de mim. E depois carro arrumado (e em que estado!), o gelo entregue, mais uns pés de dança, até para aliviar. E hei-de chegar ao descansar. Para aí, num muito muito devagar me deixar ficar no olhá-las, a uma e depois a outra, no cada uma do seu dormir. A olhar essas alguém que estiveram naquele meu fim. Esse que ainda não foi.


(Maputo, Abril 2005)



20. ENGRAVATAR


A Carolina já está com 22 meses, como tudo isto passa a tão a correr!

Domingo ontem brincava ela no quarto de vestir enquanto eu me aperaltava para uma recepção, por cá o primeiro-ministro do meu país, acompanhado de grande e ilustre comitiva. Ali estou sensível ao convite-convocatória, como qualquer modesto contratado a prazo o sente, não vá o diabo tecê-las!. E até aliviado, ainda que fiel à lenga-lenga do fingir fastio, essa em que (quase)todos escondem o alívio de estarem listados, que mais vale o convite, para intra-muros simular recusas, do que nem se saber que cá andam.

Bem, mas isso é conversa do depois. Antes mesmo, ali estava eu no atraso do ainda em tardios preparativos, em frenéticas camisa branca, cuecas e meias, e lá termino, tão desabituado, o novelo de gravata. Nisto a Carolina, lá do baixo dela, abre os olhos todos espantados à tal gravata, antes nunca vista pois claro, e explode numa enorme gargalhada. Linda!, que hei-de lembrar para sempre...Como hei-de lembrar-lhe o óbvio, porque inocente, ridículo que assim deitou ao engravatar.

***

Horas depois um amigo encontra-me, por ali ainda circulando de fato escuro e gravata, e há-de perguntar, ainda que mais sisudo, "estás doente?...hum... cheira-me a comitivite".



(Maputo, 31.3.04)



21. UM EMIGRANTE DE SUCESSO

Sei que o faço de um modo abrupto mas eis-me aqui a anunciar-vos, meus caros amigos, a minha enorme transformação: tornei-me, agora mesmo, um emigrante de sucesso. Pois acabo de ganhar o totobola moçambicano, obtendo um rotundo e certeiro “treze” acompanhando-o com seis “dozes”, tudo isto produto de uma cuidada, e até sábia, aposta múltipla.

Confesso-vos que ainda de talão na mão, agitando-o enquanto (re)confirmo os felizes resultados, num entre-frémitos de excitação, até juvenil, e comoção, pois também esta adveio, vi-me equiparado em matérias de espírito aventureiro a todos esses meus patrícios, estes filhos de povo de emigrantes, que vão sendo bafejados pelas sortes do jogo na fracção da imensa lotaria americana, lá pelos cafés de New Bedford, ou até mesmo beijados pelo engenho, em plena gestão do “bicho” carioca.

E logo então, pois claro, confundi tais impressões imaginando-me também de regresso à minha particular Lisboa, algo a fazer em grande, é da festa de então que aqui falo, sonhando-a já. É certo que será subtil, pois a discrição burguesa a comandará, mas em grande mesmo assim. Ou seja, refinada festa, refinado regresso. E, é claro, penso o deixar-me por lá ficar, quem sabe se desta vez de vez, gozando a modorra dos rendimentos no entre-família e terra própria. Ou, pensando melhor, oscilando no entre cá e lá, que bem sei da experiência alheia, o regresso sempre angustia, o por lá tão difícil de reassumir, coisa do pouco espaço e acanhada gente ou vice-versa, ninguém mo consegue explicar.

E também, nesta catadupa de sentimentos, me larguei a pensar o futuro, adivinhando a minha imagem de então, condimentando-a com algum romantismo, minha felicidade e vaidade, já ouvindo os meus vizinhos desse próximo devir comentando à minha passagem, aos meus dizeres, “este é o Zé Flávio ... o ZéZé ... o dr. (Pimentel) Teixeira ... meu amigo ... muito meu amigo ... meu conhecido ... é colega ... ex-colega ... foi meu vizinho ... é-o agora ... o meu tio (ou mesmo tio-avô) ... é aquele que enriqueceu ao jogo lá pelas Áfricas”. “Foi-se para lá nas culturas e regressou rico!”, dirão ainda, assim em muito aumentando a curiosidade alerta dos respectivos interlocutores, estes sem o saberem mas sequiosos de tais caminhos, os caminhos de quem dobra o destino a seu bel-prazer, “culturas de quê?”, interrogar-se-ão os tais interlocutores, projectando-se já na peugada de tal sina, ao que os meus rematarão, até irónicos, “não, não me fiz perceber, foi-se para lá nessas culturas das letras, intelectuais e artes, coisas assim, parece que até foi professor e em tempos funcionário”, e nesta aparente contradição, nestes quase desentendimentos, todos assim culminarão meus sequazes, pois deste modo ficará para sempre garantida uma profunda dúvida sobre a lisura deste meu percurso, por isso mesmo engrandecendo-o.

Ah, as dúvidas ... que melhor coroar deste meu sucesso económico, que maior aura, do que gerar algum negrume sobre o meu enriquecedor passado africano?

Logo logo, mero minuto mesmo, após este meu sucesso, esta minha absoluta vitória, fui rodeado de amigos, congratulando-se eles com o acontecido, e até a mim chegados prenhes de conselhos, aqui e ali escorregando em ironias benfazejas, enfim, avisos de prudência. Prudência no caminhar pessoal, para que não me deixe eu cair na dissipação imoral, desvarios plurais, mas também prudência pelos perigos que tão inopinada riqueza se divulgada me fará correr por estas paragens. Enlevado como estou, ainda sentindo o irreal deste minha nova condição de bafejado pelo destino, tais conversas fazem-me regressar aos meus modelos de memória, conradianas cores, perigos inimigos e indizíveis, perfídias de súbitos falsos amigos, todos eles aqui conluiados com seus espíritos protectores, todos eles sequiosos, ardendo nas brasas da ânsia, tudo isso perigando-me.

Mas um perigo é também este deixar correr sensação e imaginação. Pois decerto que perigos novos se escondem neste meu novo, e desconhecido, caminho. Mas não poderei reduzir todo um passado a esses conluios do destino. Amigos tive, amigos os tenho e, mesmo agora rico, amigos terei. Esses mesmos já feitos conselheiros, irónicos já o disse, mas também sinceramente em cuidados. Não os renegarei por tal. Ainda que reconheça a inveja irrompendo nestes discursos, a inveja devida ao meu novo estado, provocada por esta minha futura liberdade, a liberdade do ter. Reconheço-a, e aceito-a, recusando que venha ela poluir a minha opinião, o meu afecto, pelos que me rodeiam. Pois há que viver com ela, saber domá-la.

E para isso me ajuda esta minha verdade. Creio que cada um alcança o sucesso que merece, creio que há nisto do ser alguma ordem, alguma causa, mesmo que não a ordem predeterminada da predestinação radical. Mas há, sob este aparente e falso acaso, a recompensa do mérito próprio, o sucesso é-nos por este proporcionado. E é nestes caminhos do reconhecimento do mérito de cada um que se afirma algo de justiça no mundo, ainda que tantas vezes escondido sob o manto da dor e infelicidade. Acredito que sim, o mérito, por mais fluído ou desconhecido que se apresente, está aí ao alcance da nossa vista, e assim se traduz nas felicidades ou desventuras, facilidades ou problemas com que nos defrontamos, cada um com seu quinhão, o quinhão justo.

Por isso mesmo espero que todos os que me são queridos aceitem essa ordem, que a mim me transformou agora, recebida que foi, e inopinadamente, a minha parcela de mérito destino. E espero que, com mais ou menos ironias ou conselhos, saibam os meus queridos reconhecê-lo, a este meu mérito, aceitá-lo e a mim agora assim simbolizado, traduzido. E, já agora, festejá-lo, forma de assim todos o partilharmos. Sem que eu o dissipe mas, por via da festa, aspergindo os que me rodeiam, apoiam e querem.

Aceitemos, aceitem vocês como eu o aceito, comovido e entusiasmado, mas também humilde, esta minha medida de destino, esta minha métrica de mérito. Aceitemos o que a vida nos dá, pois é isso prova de que aceitamos aquilo que fizemos da vida, portanto aquilo que merecemos.

Paro, contabilizado que já está o meu festejado e ainda festejável quinhão, o meu prémio de jogo, paro então já eu contabilizado, avaliado. Talvez agora, contas feitas, resmungando um por que não emigrei eu para Caracas, EUA, o Brasil, Macau? Por que não persegui eu, ou os antepassados Pimentel Teixeira, a aventura amazónica, os baleeiros do leste americano, a àrvore das moedas orientais? Enfim, destinos, esses que moldam nossos andares.
Continuo a fazer os tais planos, enlevado ainda nestas imaginações que vos narrei aqui mesmo. Na modorra pachorrenta e burguesa que me enche a alma nestes últimos anos calculo o prémio que me coube, assim pesando-me na lotaria da vida, neste totobola do mérito. Quedo-me pelos 65 000 meticais, um quase quase 3 dolares ao câmbio de hoje. Nem sorrio, que não é momento disso, mas sim momento apenas de aceitar. É noite, avanço até à varanda, a deixar-me a fumar, olhar a baía toda nesse seu falso negro da noite que não lhe esconde todo aquele azul que tão bem sei habitá-la. E ouço o coaxar sem fim das noites quentes no jardim. Tudo isso que vale bem os pequeninos 3 dolares ganhos. Ou ... e hesito na dúvida... será isso mesmo, afinal, o prémio?




(2002)



22. EXCERTOS DE PAI


8 de Abril de 2004

Aprendo-o contigo, vendo-te aos saltinhos no meu colo, risos contínuos num abrir de olhos ao mundo, balbuciando gritinhos “avião”, agora tua palavra quase única, essa que diz o esse que te leva a mãe. A primeira vez que se vê um avião a levantar voo é algo de extraordinário, esfuziante. Inesquecível, mesmo que nunca te vás lembrar disso.


9 de Abril de 2004

Fim do dia já, carrego-a ao colo e ela entra divertidissima aos berros (n)"o popó do papá!!!" "o popó do papá!!!" "o popó do papá!!!", que a fala vai começando. O "guarda", recebida a "quinhenta", diz sorridente "o patrão sabe cuidar do moral da criança" (sic, juro).

"Vamos a ver, vamos a ver", digo eu, deliciado apreensivo. Vamos a ver, nestes dias que se seguem, nestes anos que se seguem.


10 de Abril de 2004

Madrugada e eu durmo...

"Papá, cocó" "Papá,cocó" (risos)
"Papá, cocó" "Papá, cocó" (risos)

"Papá, cocó" "Papá,cocó" (risos)
"Papá, cocó" "Papá, cocó" (risos)
(acordando eu, estremunhado) "Tens cocó?"

"Papá, cocó" "Papá, cocó" (risos)
"Papá, cocó" "Papá, cocó" (risos)

e (abrindo ainda mais os olhos)

"Mamã?!", "Mamã?!"
"Vovó!", "Vovó"
"Mamã?!" "Vovó"

***

Um antropólogo diria, qual tese: o primado da fisiologia e das relações de parentesco.


11 de Abril de 2004

Quem te ensinou todos esses "não..." à roupa que te escolho, no ensonado da manhã? Quem te ensinou esses risos e palminhas às jardineiras cor-de-laranja, às t-shirts rosas, e a tudo isso de adolescente?

E ... Quem te ensinou as festinhas na minha cara enquanto te corto as unhas das mãos? Quem te ensinou a apaixonar-me?


12 de Abril de 2004

Esse "auga" "auga" "auga" repetido à exaustão, a de beber, a do banho, a da piscina, a da chuva, e a tão gritada em palminhas quando é a da "praia" "praia" "praia", essa da baía que te rodeia, esse "auga" que se tornou agora em pleno fim-de semana "acqua" "acqua" "acqua".

Invertes a etimologia...?


13 de Abril de 2004

Pic-nic de Páscoa, cascata da Naamacha. Assustas-me até, de onde vem esse não olhar para tantos outros meninos, esse querer da água, esse não medo das pedras que te dão um chão de escorregar, esse andar andar que me estoira breve breve...de onde vem esse não olhar para tantos outros meninos, esse querer da água, esse não medo das pedras...


Abril de 2005

A Carolina está quase com três anos (!!!), menina dos seus pais, claro. Nos últimos tempos a sua constante afirmação e preocupação é o tamanho: "eu sou grande!!, eu sou grande!!!, eu sou grande!!!, na-nana-nana, na-nana-nana", o que é uma delícia. "Eu-sou-grande-com-a-Sacha", "eu-sou-grande-com-o-Pedrinho", "eu-sou-grande-com-a-Nadine", "eu-sou-grande-com-a-Catarina", um "com" que é, obviamente, o seu modo de "em comparação" [e ouça-se que não está nada errada]. Afirmações ternurentas, e até algo falsas, mas o que interessa o tamanho real para estas coisas? Ainda para mais quando o sabe, sabe disso da estratégia, do falsear.

Pois "o pai é grrrraaande"", repete, mas também sabedora do que tudo isto é, pois "a mãe é pequenina!", risonha, gozona. "A mão do pai é grrrraaande", arrasta, em especial no banho, e muito mais em especial quando lhe lavo o rabinho e o pipi [a partir de que idade é que estas intimidades se tornam de mau tom??]; "a mão da mãe é pequenina" repete então, dentinhos de coelho a abrilhantarem ainda mais (como se fosse possível) o sorriso.
["Eu sou grande!!!" acabo de ouvir ali no jardim, onde brinca com os amigos]

Que imagens deliciosas. Que recordações fantásticas. Deste amor, o único infinito e inquestionável, que se tem pelos filhos crianças (Como será amar um filho crescido e gabirú??).

Outubro 2005

fungando, fungando, fungando "Não consigo", "não con-sssigo", "consegues...vê, vê como é", fungando, fungando, fungando "não con-sssigo, não con-ssigo", "consegues, vê, faz lá assim", sim, um assim de madrugada tão longa, e ela fungando, fungando, fungando "não con-sssigo", "tás a ver!!!?? Viva, viva ... ranhoca ... viva a Carolina ... ranhoca" e ela, rindo, linda, rindo na madrugada "ranhoca, ranhoca, ranhoca".
Hoje a Carolina aprendeu a assoar-se. Viva!, viva!, ranhoca!!!, ranhoca!!! Viva a Carolina!!!
E eu, tanta representação de céptico aqui aos “vivas” com isto. Recentro-me? Recentro-me, que a Carolina já se assoa, é o acontecimento do dia. O Acontecimento ...


1 de Março de 2006

Lição de português

Eles a saírem de casa, manhãzinha, para a escola:

Papá (ao volante): Hoje sonhaste com alguém?
Carolina: Não ... sonhei sozinha!
Papá (oops): Tá bem, tá bem ... (e sonhaste o quê?
Carolina: Coisas de princesas.)
Dezembro 2005
Filha (de súbito): Xinhor ... Dôtor...
Papá: O quê?
Filha (sorrindo): És xinhor ... dôtor?
Papá (sorrindo muito): Sim..., sou xinhor dôtor??
Filha (sorrindo ainda mais): És Zé ....... Flávio?
Papá (continuando): Sim, sou Zé Flávio.
Filha (toda sorriso): .....Teixeira?
Papá: Sim, Teixeira: José Teixeira.
Filha (sorriso mais que toda. E já arqueando sobrancelhas ou imaginação do "papá"?): És todos??
Papá (rindo, claro): Sim, sou todos esses.

Abril 2005

Um filho é um ditador. Confisca o último e até único natural direito, o direito ao suicídio.



23. PROFESSOR. MERO?


À conversa com um amigo professor, vai-me ele questionando,

- Ainda não percebi por que é que quando me encontro com bancários de bancos deficitários, reformados em idade activa, médicos de hospitais-morgue, vendedores (directores, claro está) de empresas arrombadas, publicitários de publicidade, diplomatas de países em desuso, jornalistas anónimos, funcionários de estados ineptos, todos eles me perguntam, amáveis, interessados, e até solidários, num quase mão no ombro: “Então, estás só a dar aulas?”


(Maputo, 2004)


24. NATAL EM MAPUTO


Em cada Natal há mais natal em Maputo. Pois, em cada Natal, o tal da “paz”, “felicidade”, “amor entre os homens”, “todos os dias que um homem quiser”, “criancinhas”, “etc. e tal”, há mais gente apinhada por aí fora, um trânsito voraz nas avenidas mas também a querer-se escapulir por ruas e ruelas, que os buracos destas são agora esquecidos na pressa das compras - ai, quando maputo tinha poucos carros!, que sossego, que saudade ... -, tanta gente até chorando os preços mas a encher o Fajardo, o Bazar Central, que esses vi eu e os outros só acredito, o Alto Maé encrespado de compradores de última hora, bem como lá na Baixa, e por todas essas bancas de rua, estas sempre o olho no cliente o olho no polícia, dumba-nengues no prontos à fuga, provando bem provado o nome correcto, e lá no fundo da Luthuli o fantástico Ayob Comercial, nós em filas ao sol esperando vez para entrar, ali a comprarmos as tralhas chinesas, maravilha de marketing essa baixa de preços em época de ponta. E, veja-se, até os prédios shoppings agora com visitantes feitos compradores, uma festa, uma festa, mesmo as iluminações do Natal vão surgindo, isto está a caminho de moderno, cidade fazendo-se grande.

É verdade, chegou o horror do consumismo, a estragar o que deveria ser, o que antes foi, o espírito da quadra, as velhas “boas festas” da família apenas em concórdia, essa coisa do despojamento. E tão estranho o é aqui, terra de tantas dificuldades, tantas privações que nos cruzam e nada mudas, ainda que nós tão surdos. Um paradoxo, amoral até, coisas da inconsciência.

É, é o isto que se vai ouvindo, e mais ainda nos intervalos das compras, entre os nós, gente de cá ou não, estes com restos de alguma consciência, a qual criámos no hábito, no nosso nunca não-natal, e nisso crescemos sempre mais sabendo, já nascemos Natal, fazêmo-lo antes do Natal, depois do Natal, e até no Natal, somos estes nós esses que o fazem “todos os dias que um homem quiser”. Por isso, porque o sabemos ser e assim viver, lamentamos, desgostosos, esse povo da cidade, certo é que coitado povo por tal o ser. Esse que assim se distrai, neste corropio das compras, das coisas, a querer-se, a fazer-se, a imaginar-se tão mais rico, tão nós no fundo. E nesses desejos de cópias, sempre inconseguidas diga-se, gerando tão maus hábitos, esses do ter, do gastar, coisas decerto não para eles, pelo menos não assim. E pior do que tudo, gerando os hábitos do ser, diferentes daquilo que são. A quererem-se quase como nós. Natalizados.


(Maputo, Natal 2003)



25. AS ESTRADAS DO NIASSA


Ao Zé Filipe Verde, que não podia vir

Entre Congerenge e Mandimba são 40 kms a subir via oeste, todos entre milho, mato e tabaco, tendo pela frente, intrometidas no caminho para o sol, essas montanhas Malawi. Mas se se estiver a fugir do norte, rumo a oeste também, é ainda mais bela a rota, coisas de descer para as montanhas. Venha-se de onde vier é sempre má a estrada, boa para cautelas e vagares, os quais vão demorando o entranhar desse horizonte azul acastanhado. Convém viajar cansado, pois ali quanto maior for a exaustão mais cada um vai acreditando nos seus deuses, se os tiver, ou pelo menos na felicidade, se daqueles estiver privado. Como se algo fosse existir lá em Mandimba.

Mas não, talvez alguns ídolos quanto muito. Água nos canos, a surpresa por a haver onde é, e electricidade. Abençoada, que ainda refresca as cervejas, e que vai deixando a roufenha discoteca a céu aberto, as ténues luzes chamando milhentos mosquitos, "pagas uma bebida, tio?", putas de fronteira neste ermo, "claro, mana", "pagas também à minha prima?", "vá lá, uma rodada", Castles que são aqui um elixir de velhice, meninas pesadas, tão cansadas já andam elas nestas noites, "vieste viver aqui, tio?", e eu envelhecendo com elas, "vá lá, bebe a cerveja", até que algum assimilado venha dizer para não incomodarem o senhor doutor, que raio sempre são putas de ermo, sem ver que já são fronteiras do meu carinho. "Que andamos a fazer às sobrinhas?" pergunto a um velho chefe de aldeia, e ele a lamentar-se, essas mulheres que não respeitam os ensinamentos, fogem da machamba, vão-se vender nos mercados, os homens que compram, e todos aceitam, "é a democracia", conclui desiludido. "Não será a machamba?", não lho pergunto eu, ou não será tudo a mesma coisa?, respondo-me agora que já ouvi esses jovens, secos, "os nossos estudos acabam no capim!".

Num coito da estrada um colega gringo, quatro anos bem mais a sul em programas de luta contra a doença, resmungando que é uma batalha perdida, que ninguém se protege, são os velhos hábitos e a pobreza, e agora tudo isso reforçado pelo brotar destas igrejas cristãs, elas próprias crescendo, uma vera explosão, tudo isso também devido ao pavor desta praga, uma nova morte toda-poderosa, pastores pastoreando contra o fumo, o álcool e as camisinhas, o pacote de pecados. Nem interessa se as estatísticas são exactas ou exageradas, seja como for passeamo-nos por aqui dizendo-nos a desenvolver este mundo, por ora feito de mortos-vivos. É ele mesmo que fala, não o alcool da desilusão, uma mera coca-cola na mão, nega que qualquer campanha valha como prevenção, nada disso está a funcionar e, súbito, desgringa-se todo, que o que resta fazer é distribuir tudo grátis esses novos medicamentos por toda África, é a única forma de aguentar isto até se chegar à cura. "E há dinheiro?", provoca o cínico, eu mesmo, e ele de filho-da-puta para cima sobre os gajos do Banco Mundial, a insistirem na prevenção porque isso dos medicamentos lhes sairia caro, mesmo que os indianos se ofereçam para os fazer três vezes mais baratos do que as nossas (dele) indústrias. "Caro?, tanto como uma guerrazinha no Afeganistão", vai acabando ele e o nosso tempo. Que tenha cuidado, se continua com este tralálá ainda o expulsam lá do midwest dele.

Quero surpreendê-lo com novidades aqui do Niassa sobre o assunto, onde a população crê que a doença se apanha mesmo é através das camisinhas, vem nesse líquido que as lubrifica. Bem racional é esta visão, o empirismo do agricultor, pois se antes delas chegarem, antes de por todo aqui serem espalhadas, não havia doença como não lhes atribuir a praga? Encolhe os ombros, lá mais a sul também há a mesma crença, e todos as evitam. O que fazer?, ele vai pagando os novos medicamentos, caros de mil dolares/ano, a dois amigos moçambicanos, outros colegas dele também o fazem: antes as más consciências tinham o seu pobrezinho privativo, agora passaremos a ter o nosso doentezito só nosso. Mas poderemos fazer algo mais do que trocar alguns anos de vida alheia pelo lugar num céu qualquer?

Avanço, saio da terra batida nacional e logo, logo, começam os verdadeiros problemas, como andar por aqui? No Maputo todos, changanas ou expatriados, aconselham cuidados vários com as doenças do Niassa, evitar a água, fugir aos pântanos e rios, às noites e canaviais, que trazem malárias e bilharziose, e outras maleitas. Mas quem assim avisa terá por aqui passado?, como seguir os conselhos se de imediato nos atolamos, e este ano ainda mal começou a chover? E são horas dentro de pântanos, riachos, da lama, e todos a empurrar, sorte que sempre vai chegando o povo, e assim se juntam as dezenas de homens necessários para que se possa avançar mais um pouco, gente tão isolada que ainda pronta a uma ajuda fácil. Por aqui não há carros a passar, não é apenas o estado das estradas que o diz, são mesmo os condutores, é óbvio que não andam por aqui, tão desabituados que atolam em sítios onde nem mesmo eu me ficaria.

Numa aldeia peço água para lavar toda esta lama. Acorre o intérprete "não vá ao poço", e eu ofendido "claro que não", "achas que sou parvo ou quê?", mas isso já não lho digo. Que raio de ideia, um estranho a ir para o poço local é mesmo pedir problemas. Mas logo ele se desculpa. Que o ano passado por aqui houve uma epidemia de cólera, "sim, eu sei, foi terrível". E claro, logo vieram os prestáveis socorristas, prontos a sensibilizar a população para cuidados variados. Então, ali em Marrupa, um patrício meu, "decerto cooperante", resmungarei, se de ong se de Estado não mo sabiam dizer, mal chegou onde os aldeões morriam de borrados correu a fotografar o poço, para pôr no relatório ou mostrar à mulherzinha isso nunca saberei. Claro está que, envenenador, foi bem batido, directo para o hospital. Mas quem manda estes idiotas?

Paro, devagar, numa aldeia Yao, coisas de antropólogo e dos seus velhos livros, lembrando um tipo que andou por aqui há muito tempo a ver e a escrever bem, esse Clyde Mitchell. E há bem menos anos também passaram uns evangelistas ambulantes a projectar filmes sobre a bíblia, como se a imagem em movimento viesse a ser mais forte que o islão local. Enquanto os meus parceiros tratam dos seus afazeres encosto a uma sombra, logo rodeado de dezenas de crianças como por aqui sempre acontece, curiosos pois a gente da minha cor não tem aparecido. Olhos bem abertos vão eles murmurando e, de repente, sai uma gargalhada entre os meus acompanhantes, "que foi?", pergunto, e eles com sorrisos do tamanho do mundo a dizerem-me que ali julgam que pareço "iesso", "o quê?", que os miúdos me acham igual a Jesus. Nem preciso do espelho para saber que o meu riso de ateu sai estúpido de ternura.

Se já a cidadezinha é recôndita o que não dizer destas perdidas aldeias, tudo isto longe do mundo que mexe, dos seus andares e conflitos, este um outro mundo parecendo desprovido de informação e saberes. Em cada sítio logo visito os pobres mercados, o piscar do olho à economia local, a sentir como se é por ali. Por todo o lado à minha passagem raros são os apelos ao negócio que pouco há para vender, e sempre me seguem os mesmos rumores, a mesma ironia espantando o espanto da minha presença, e a qual deixo correr nas minhas costas, o que dizer? Só na noite me confrontam ostensivamente com ela, entrando em casa soa no escuro o grito provocador: "Bin Laden, Áfinal,... você está aqui!?". A globalização?

Uma sede administrativa, mais de trinta casas de alvenaria, quase todas abandonadas porque propriedade dos Caminhos de Ferro de Moçambique, que prefere arruiná-las a cedê-las. Ou será que a população as despreza, tão preferindo o pau-e-pique? Uma delas é a cantina, vazia, de Saíde Jonasse, avantajado machambeiro em região de gente esquálida, mais gordo até do que eu, um barbudo muçulmano de olho em todos estes meticais que me dou ao trabalho de transportar. Entro para almoçar, pôs-nos a melhor toalha, um plástico com uma fotomontagem berrante de colorida. Encimada pelo horizonte de Manhattan está uma praia tropical, coral e palmeiras, uma estranheza made in Japan, "calamidade" decerto, e da qual desconhece o conteúdo. Divertido, pelo absurdo do estampado, e por ver o ignorante orgulho com que me põe a rija galinha sobre as falecidas "Torres Gémeas", digo-lho e sai em alvoroço, lá na cidade já tinha ouvido falar do assunto. Ainda duvida, mas depois pede-me uma fotografia, não lha posso negar, sentado, o cotovelo pousado no coral tropical, a mão nas torres que já não o são.
A galinha do dia seguinte já a como no tampo de madeira.

O Chitengue, breve afluente do Lugenda, uma pequena picada que o bordeja, estreito caminho de andarilho ou, quanto muito, de bicicleta. Entre o canavial e o bananal um sol de tarde moribunda inunda o amarelo dos frutos enquanto faísca nos charcos. No caminho, barrada pelo carro, surge uma muito bela mulher, chapéu de sol arco-íris como é aqui usual, capulanas garridas ocres e amarelas. Não resisto a roubar-lhe a beleza exótica, todas aquelas cores enroladas em bananas luzidias, mas mal abro a porta, com a sequiosa máquina fotográfica a fugir-se-me ao tiracolo, logo ela foge, corre desabrida até que a percamos de vista, aos gritos "é a morte, é a morte!!", traduzem rindo os meus companheiros. Serei assim tão feio? que espelho fui aqui encontrar, do físico ou da alma não me apercebi. Um pouco à frente encontramo-la já acompanhada por um homem, e todos a sossegam, desfaço-me em desculpas. Aí, diante dos elogios à sua beldade, digna-se a pousar agora fazendo-se sedutora e eu, nu de tontos pruridos, saio contente com o estereótipo apanhado, como se meu antepassado fosse.

Marchamos para a aldeia Namicoyo, ladeando um riacho, o capim abraçando a picada, e como sempre que se trata de andar vou ficando para trás. Lá à frente, escondidos por uma curva, os meus acompanhantes cruzam um grupo vindo das machambas, percebo-o pelos inúmeros "salaama" que se trocam. Quando avisto o velho que marcha à frente da sua gente saúdo-o, mas ele estanca sem aceitar este meu "salaama", agride-me num "aqui não há salaama", e eu sem perceber, "aqui há fome, ouviu", diz-me em português, "agora há fome!". Eu, institivamente, abro os braços algo aparvalhado pela investida, como que reclamando a minha inocência, desculpando-me desta fome que ele anuncia, tal como se tivesse quaisquer divinos poderes sobre essa chuva que chegou meio tarde para o milho, e ele insiste, "há fome, vá dizer isso", e eu a ver-me, estúpido, de braços e olhos abertos. Nem lho respondo, mas que tenho eu a ver com o clima?, o "fazedor de chuva" quanto muito é ele ou o seu chefe, nunca eu. Dá-me as costas, e lá vai com a família, deixando-me a resmungar a minha óbvia impotência, mas que raio, maior do que a dele.

Nas estradas campos e campos de tabaco, é aqui que se faz o que me vai matando. Para obterem um pouco de dinheiro os camponeses cultivam-no e descuram o milho, que o trabalho não é elástico e tem limite. Depois, lá mais para a frente, logo antes da época da colheita, gastam esse pouco dinheiro para comprarem, então bem caro, o milho que precisam para comer. Custa gerir o equilíbrio das culturas, o das reservas e ainda mais o das expectativas. Ah, e é aqui impossível gerir o equilíbrio dos preços pagos pelas companhias, ditados por uns tais de mercados mundiais. Enfim, lá vão eles, quase sempre a perder, dir-se-ia, se não parecesse cinismo.

Assim sendo há que organizar e trabalhar melhor, e para isso lá se chamam os tipos do Desenvolvimento, e eis-me aqui aos dolares. Hoje acompanho um regente agrícola, gente do sul, estudos no estrangeiro, saberes complexos. Jovem ainda, barriguinha quase tanta como a minha, mas um rabo maior, o que lhe garante um S de cintura mais vincado que o meu. Caminhamos uma manhã pelas machambas a par dos seus cultivadores. Contente, frenético, talvez até por minha causa, vai protestando com a falta de qualidade das culturas, o mau trabalho, a fita métrica saindo-lhe amíude do bolso de trás, quase tão rápida como as suas palavras, medindo a incorrecta separação entre as plantas, invectivando a uma melhor organização, e os camponeses sempre aceitando as suas opiniões, ele sorridente, rápido, pedagógico, o seu S mexendo-se mais rápido do que todos nós.

Simpático, partilhamos um cigarro, enquanto lamenta a incapacidade dos camponeses, que este sistema não funciona, nem conseguem articular as produções nem aumentar a produtividade. E para isso é necessário investir, resumindo, há que privatizar a terra para que haja investimento, crescimento. Ainda lhe pergunto se esta gente terá capacidade de o fazer e de o gerir, e ele sorri, veterano já, "Nada, estes não conseguem", e enquanto eu procuro saber o que lhes acontecerá nesses privatizados dias, logo feitos os sem-terra daqui, ele nada diz pois já partiu, a fita métrica de novo aberta entre o feijão-boer, provando numérica e metricamente o erro feito por este homem, o qual com ele vai concordando apoiado num imenso sorriso, acenando a sua anuência, em outra língua, é certo, num outro ritmo está claro. E ali, no magnífico face às colinas, esvazio-me de crenças, mas sem qualquer desesperança.

Por falar em Desenvolvimento alguém passou por Mezito e ofereceu uma moageira a um outro alguém a quem chamou "comunidade". Entretanto houve alguns problemas e a aldeia decidiu afastar os dois moleiros. Fez-se reunião da população e indignados ficaram os acusados, ainda para mais porque o guarda não seria despedido. E do afastamento deste seu colega não prescindiam, como se a vergonha do castigo fosse maior se não fosse este universal. Mas não foi esse o entendimento colectivo e, vingativo, logo ali um moleiro ameaçou publicamente o guarda, como se fosse este o delator das queixas ali patentes, rogando-lhe um "não passas deste ano, hás-de morrer em breve". Mas João Bitong não se cuidou do feitiço, ficou no seu posto, que ainda lhe rende algum e será menos pesado do que o dia-a-dia de machamba, e desta se ocuparia a sua mulher. Pois em breve, no regresso a casa, foi atacado por bicho estranho, ouvi dizer que leão-homem, mas ele nega, era antes uma mistura de leopardo e lobo, este último animal por sinal aqui inexistente. Sorte dele, conseguiu lutar com esta fera encomendada e fugir-lhe para a sua aldeia, mas agora desfeado já sem nariz e boca, tal como o vim encontrar meses depois. Grave a situação, logo sete homens o transportaram até ao régulo, de onde viria a seguir para o hospital onde ficaria vários meses, entre vida e morte. Mas logo nessa noite o bicho, vingativo, assaltou e feriu todos esses sete homens, só sendo apanhado quando sorrateiro penetrava em casa do chefe, aí sendo morto pela população e logo queimado.

Vou falar com Bitong e os outros, que me contam a história, pormenores lancinantes de terror e sofrimento. Fotografo as feridas, ouço os vários intervenientes, como negar a homologia das versões? Prova provada do feitiço, não chega a observação? Ou arvorar o racionalismo contra a empiria? E então regresso, detectivesco, ao moleiro "o que lhe aconteceu"? Pois foi decidido nada fazer, esperar o regresso de Bitong, meses lá na distante Lichinga, sarando uma cara agora irreconhecível. Mas no entretanto alguém, não se sabe quem, não se conteve em vingar a beleza e saúde de sinistrado, e logo o dito moleiro morreu na machamba, ele a desmatar e de uma árvore que abatia caiu-lhe na cabeça um forte ramo, fulminando-o. Espantoso, por aqui nunca nada de semelhante tinha acontecido, nunca se tinha ouvido. Fico-me com esta prova de feitiço, para mim chega, para lá da teoria.

Mas também me hei-de lembrar, que raio de projecto de desenvolvimento que no seu mau desenho criou um monstro, provocando mortos e feridos entre quem tanto queria ajudar. Metáfora? Será mesmo?

Passo pelas aldeias, peço para falar, marca-se o dia e a hora, hei-de regressar sempre atrasado, devido às conversas arrastadas e às tais estradas que demoram. Mas as gentes esperam, esperam, prontos para falar, para assistir ao meu rápido voo para depois ir dizer como se organizam eles. Certo que estão prontos para dizer o que querem dizer, e lá vamos para o jogo de os levar a dizer o pouco mais, xadrez puro. Mas jogando com quem esperou horas, paciência de agricultor, apenas para falar comigo.

Por vezes sou esperado por dezenas de pessoas, como se entrevistam 150 pessoas todas juntas, à espera de uma "brigada" do qual sou brigadeiro e soldado? Não há dúvida, escondido por esta cor, engano à chegada, criam-se expectativas, quantas vezes não esperam que apenas venha perguntar, mas sim que chegue com instruções, benesses, convocatórias para trabalho ou, mais do que tudo, distribuir as sementes que faltam, que faltam sementes aos agricultores. Sinto-me não um investigador, mas mais um desiludidor. Enfim, não há dúvida que para estes trabalhos é fácil ser antropólogo em África, eles esperam. Mas homem, ser homem, é fodido.

Lá mais para a cidade outros falam, os das actuais ou antigas administrações, alguns transitados para as ongs ou empresas, outros nos seus negócios, gente arrastada para aqui e que ficou, por escolha e mulheres, vinte anos e mais numa terra onde se sentem livres e em casa. Parvo, pergunto a um manhambane "o que faz você tão longe da sua terra?", e levo por medida grande, "ora, bolas, e você?", e calo-me, rindo. São estes que contam histórias mais antigas, de quando tinham sido jovens, tempos em que chegavam cheios os aviões e camiões cheios, largando as pessoas nas empresas agrícolas, nas aldeias, porque por alguma razão decididas como improdutivas, e toca a transformar esses citadinos em machambeiros, custe o que custar. Mas às vezes, porque não havia sítio planeado para os deixar, ou apenas por fastio, deixavam-nos no meio do mato, grupos de gente lá da cidade, perdidos, depois desaparecidos sem rasto, "pasto de leões". Porque não contam essas histórias?, digo, entre goles, "para quê?, ninguém quer ouvi-las...", abandonam-nas eles.

E bebemos mais um whisky, bebamo-lo, que chega de neo-realismo.



(Mandimba/Maputo, Março 2002)



26. LONGE DO NIASSA


O Niassa é deslumbrante. É-me dogma dito assim, e já o pus por aí numas quaisquer tralhas escritas. A última província moçambicana que cheguei a conhecer, ali aterrado cheio de expectativas, todas elas tecidas durante anos de conversas no “ouvir dizer” sobre tais paragens, míticas para todos, terra por vezes símbolo do belo, noutras apenas do longínquo misterioso – e quanto de mistério há constantemente afirmado -, e quantas outras até do horror, e então bem merecidas. E em tantas delas afirmando somente o impossível, como se este tivesse terra própria. Confesso agora, no depois, todos esses olhares, ainda que tão diferentes, me parecem estar a olhar bem. Mas para mim fica-me o olhar deslumbrado, e quão difícil é o deslumbre em terra a que se chega já cheio de expectativas, quase sempre estas defraudadas pelo real nunca tanto como as memórias de uns e a imaginação própria. Terra essa que de tão mesmo até o seu defeito letal, esse de interior alheio ao oceano, resolveu de modo doméstico, construindo para seu próprio uso o mar necessário, guardando-o depois num entremontanhas a que chamou lago.

E todo este meu encanto sem lhe ter chegado à reserva natural!!, dizem-me que verdadeira reserva, floresta ainda, local inóspito assim protegido. Lá resistente e até livre. O belo, dizem. Arrependido, num total superlativo, lembro-me da única vez que dele estive próximo e com o algum tempo e dinheiro para chegar ao até lá. Precisaria então de dois dias de estrada, pois a chuva deixara-se cair naquele seu modo dali. E, é claro, de mais dois dias para regressar. A somar aos que lá ansiava passar. Deixei-me pensar, e como quase sempre, decidi mal, na crença de que me era quase impossível por causa de uns entretanto esquecidos compromissos, coisas do nada a que importamos. Prescindi, em suma, num utópico “fica para a próxima”, esse que nunca vem.

Estas são memórias que sempre regressam quando, aqui na distante Nação, ouço sobre o futuro da reserva, o quanto ela precisa do mais turismo, esse ainda tão pouco, e assim a precisar de crescer. Dito única defesa possível contra a praga humana, esse nós voraz, coisas de paradoxo nada aparente. Nessas mesas de discussão ecoa o dilema, como manter a reserva com a sua população, essas vinte mil pessoas no seu duro dia-a-dia de machambeiros itinerantes, por isso na sua luta contra o mato, e aqui e ali caçadores quando tal é possível? Alguns “powerpointam” a necessidade de deslocar toda essa gente. E como não concordar, como não o susto diante daquele modo das queimadas e abates das machambas, de todo aquele carvão vegetal estrada fora, ajoujando as gingas sob os seus sacos? Diante da caça e pesca, ainda que artesanal, que aqui não falo dos ilegais, por isso mesmo sempre dito “outros”, se “tanzanianos” “congoleses” ou “ruandeses” depende de quem conta sobre tais gentes do tão longe ali fazendo modo de continuar. E, já agora, como não o susto lembrando as pessoas vivendo mano-a-mano com as “feras”, ainda para mais estas até erráticas, em especial quando tomam o gosto ao erro.

“Reasssentar”, esse eufemismo? Reassentar onde há lembrança desses “aldeamentos” a la Vietname, aqui importados nos tempos do pré-desespero português? E tanta memória das seguintes “aldeias comunais” aquando do país novo – ainda que, e que me desculpem os com certezas, no andar por aí se vejam tantas delas ainda tão habitadas? Reassentar, esse eufemismo? Talvez, mas a fazer ganhar os reassentados, “taco” para tanto, senão ele há-de voltar, pode demorar mas há-de voltar. E como assim, se tanto falta o tal “taco”. Reassentar, esse eufemismo? Apesar do sim, apesar do ecológico, não deixo de lembrar coisas da história antiga, antes gentes aliviadas de boa terra para que esta apascentasse o gado, hoje o gado do turismo.

Ou fazer conviver, gentes e animais e flora, recuperando o que sempre foi? Mas um sempre foi que sempre foi mudar, consumir. Muitos o dizem, chamam-lhe “integrar”, esse eufemismo, coisa de um como que irmandade. E até se diz, enriquecer a população com o tal de turismo, esse que há-de vir, animando este, respeitando aquela. Fazê-la utente mas também guardiã. Um mundo “integrado”, esse eufemismo. É quando aqui chego, quando aqui se me solta a adesão, que me lembro de uma velha história então contada por um ex-amigo, que a sabe de presença.

Há alguns anos o governador da província visitou a reserva, ali em campanha de sensibilização, desejando-se mobilizador das populações para que preservasse esta fauna e flora. E para isso sublinhando os futuros ganhos com o turismo, se o meio fosse respeitado. Certo dia, numa aldeia recôndita, realizou-se mais um encontro, até comício, ali gente gente que acorrera das distantes vizinhanças. De novo discursou o governador, um longo entusiasmo, a arte da mobilização popular, e a lembrança das tais futuras benesses brotadas das plantas e, sobretudo, dos animais. No fim, e já depois dos aplausos e vivas, levantou-se um velho, um desses velhos velhos mesmo, até já trôpego, pedindo licença para intervir, era uma questão que, com respeito, queria apresentar. E assim fez, perguntando para uma não-resposta:

“Excelência, quer ser governador de gente ou governador de leão?”.


(s/d)



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Ao Balcão da Cantina: fascículo 3

27. NUMA MISSÃO


Há dez anos (já?) cheguei a Moçambique para ir andando em direcção norte, boleias muitas, chapas e os ditos machibombos, a mochila às costas de então.

Fiquei-me em Montepuez. Uma malako no restaurante do João, tempos em que não havia electricidade daí que cervejas várias e quentes para ganhar embalo, o embalo para a árdua tarefa de roer o bicho, uma noite no Geptex onde, vá lá, havia água no balde. No dia seguinte visita à administração, “para saudar”, como já aprendera, e informar ao que vinha, e logo avançar à procura de aldeia onde viver. De preferência junto a estrada com carros, pois então ainda temia que a malária se pegasse fulminante. Mas antes, porque era obrigatório, visitei a célebre missão, padres holandeses há décadas no distrito.

Fui aí bem recebido, mas apenas pelo que era o último dos residentes, os outros três missionários, velhos, tinham morrido recentemente. Todos de cancro, “se calhar contagioso”, ironizou o padre assim logo cativando-me, homem alto, rijo nos seus cinquentas, bem-humorado, como se, fé à parte, ali desafiasse dor e morte por via daquele fugaz sorriso, atrevimento decerto. Lamentou não me poder ser de grande utilidade, pois só tinha chegado há dois anos, ainda nem falava bem o macua, desconhecedor da região, afirmava, dado o recente que ali era, um “recente” só mesmo ideia brotada desse “tempo” longo das missões, sempre contado em décadas ou séculos, coisa que sempre nos esmaga, meros humanos, individuais, sem deuses por detrás, e portanto condenados à mera passagem, seja ela qual seja. Chegara este depois de quase uma vida, décadas de Zâmbia (ou Malawi, já não estou certo). Os seus colegas já mortos, esses sim, tinham passado muitos anos aqui e, lamentou-o, então sem ironia, esses sim teriam sido benéficos à minha ânsia de informações.

Foi buscar as cervejas, até quase frias do gerador, e discorreu sobre macuas e macondes, sobre o fim da guerra, coisa recente nesse então, e o regresso de refugiados, ainda a decorrer. Tudo ali na varanda, mosquiteiros remendados, mobília rude, casa pobre como sempre o são as missões. E por todo o lado velhas bolas de futebol a remendar e equipamentos puídos. Surpreso indaguei o que era tudo aquilo, riu-se bem lá do fundo, e explicou-me o seu trabalho. A evangelização fazia-a pelo futebol, tinha organizado equipas de jovens em cada aldeia, transportava as equipas de miúdos no velho 4X4 da missão, e o campeonato lá se realizava: “a minha missão terminará quando Montepuez tiver uma equipa na I divisão nacional”, sorria, até tímido, como se esse semi-sonho fosse quase pecado. Tal como eu, a perceber-lhe o norte, pela estrada da transmissão da ideia de entreajuda, da comunidade, do espírito de equipe, da competição saudável, tudo isso em tempos tão difíceis e de necessária reconstrução. E, talvez até mais, rasgando ainda um bocado de horizontes aos meninos aldeões. Já agora, mas quase um apenas já agora, ligava-os à missão, à sua fé católica, num “a Bíblia vem depois!” que me abanou os preconceitos de ateu, e pouco dado a proselitismos de qualquer espécie.

Surpreendi-me, com este original e mesmo algo heterodoxo ali plantado. Até pelo tom. Disse-lho e aí sim começou a falar, naquele tom irónico da desilusão que vamos aprendendo com a vida, quando a vivemos. Invectivando os erros da igreja católica em África, resmungando com um Vaticano tão cheio de certezas mas sem nada perceber das realidades, assim incapaz de perseguir os objectivos propalados. Ainda hoje o ouço, certeiro, eu cujo Vaticano é outro mas tão semelhante nas certezas enfatuadas, e decerto ainda mais descarado nas irresponsabilidades retóricas.

E lá seguiu ele, criticando o Papa e sua hierarquia, assinalando-lhes toda a rigidez. Sem perceberem os diferentes locais e o como neles trabalhar, ainda que com séculos de experiência de evangelização. Sem olharem com olhos de ver e saber os sincretismos, ainda para mais vivendo numa fé católica ela feita de sincretismos outros, aqui apenas a exigirem serem actualizados. Incapazes de actuar na pobreza radical tão ricos se tornaram. E exemplificava com a atitude face à poligamia, que tanta gente afasta da igreja, e já me falava da Sida, num país então pouco alerta e onde falar do que o sexo implica era (e é) tão tabu, que os refugiados estavam a chegar carregando-a, avisava.

Confesso agora, e confessei-a então, a minha estupefacção. Ateu, ali recém-chegado e a escutar um discurso daqueles. Quase à saída, talvez já em pé, e já esquecido do que ali me tinha levado, afinal informações sobre a região, confessei-lhe um “nunca pensei encontrar aqui um discurso destes”. Riu-se, olhos brilhantes, rematando como se tudo justificasse “I’m a dutch!”.

Nunca mais o vi, procurei-o algumas vezes quando regressava a Montepuez mas sempre o desencontrei, decerto ele nas suas andanças futebolísticas, picada em picada, pelado em pelado, aldeia em aldeia, naquele seu “A Bíblia vem depois!”.

Todos estes anos passados fui até lá. Perguntei por ele, revisita que se me impunha. Alguém, até atrapalhado, constrangido, disse-mo já partido, que tinha saído à pressa há coisa de dois anos. “À pressa?”, lamentei, logo lembrado do tal cancro (“se calhar contagioso”), “estava doente?”. Mas não, da saúde não se queixou, teve de partir pois havia já muitas queixas de pedofilia. “O Qué?”, recusei, sem poder acreditar, monumental mácula em tão bela memória, decerto que boatos, influências dessas notícias do mundo lá fora, que agora todos o são, não pode ser mais que uma moda. Mas não, justificou-se o então interlocutor, infelizmente não era moda, queixas muitas, tantas e já não tão surdamente repetidas que a própria hierarquia o mandou embora.

Fiquei-me, e ainda aí estou, na minha desilusão. As belas ideias, a bela palavra. E, afinal, homem como os outros. Como nós.



(Maputo, Março 2004)


28. O CURTO CONTO DE FADAS

Ao Francisco José Viegas, que o provocou

Era uma vez um homem que perguntou a uma mulher:

- Quero casar aquela?

Ela respondeu:

- Aquela? Não. É magra. Aquela outra é melhor.

Ele respondeu:

- Tá bem.

Ela disse:

- He!, anda casar meu marido.

Daí estes, e ainda mais outras, viveram. Ele de ela em ela enquanto sim. Depois não.

Fim.



(Novembro 2005)



29. COFIÓS


Sala acima e sala abaixo, corredores entre corredores, isto quando fugido ao gabinete, são assim os dias de universidade. Mesmo que distraível no andar rápido tive que me dar conta, pelo dia-após-dia, das novas formas em matérias do tapar a cabeça, um cada vez mais os alunos de cofió ou similares, as alunas até alongando os arrendados, alguns destes de tão assim já quasi-parecendo os naperons da sala de visitas do semi-burguesote lá na minha terra (diluídas heranças moçárabes?), enfim vestimentas nesta dimensão coisa nova e tão estranha, até pelas memórias que me causam, as quais assim entrando-me vista adentro nem sorriso me retiram.

E deste modo tanto desvalorizando, fazendo até esquecer, as agora tornadas antigas boinas de operário, da iconografia dos meus meridianos, lenda até. Essas de pala à frente, em espasmos de cinéfilo a lembrarem-me o cinema francês quando este o era, boinas que até há tão recentes dias proletarizavam, cuidadosamente, a aparência da futura intelectualidade deste país. Atenção, por deveres de elegância, que decerto já não seria a ideologia a trazê-las aqui, a essas boinas, duvido que as saibam tapa-carecas tão importantes. Pois nesta geração quem conhecerá tais menires da revolução mundial?

Bem, divago. O que é certo é tanto rendilhado supra-capilar me levou ao espanto e daí, quiçá teológico, à indagação se não seria tudo isto uma prova, bem expressa, da expansão do islamismo, este cada vez mais visível ainda que as estatísticas oficiais não o confirmem?

Ouvindo-me, em pequeno círculo, a interrogação até descuidada, logo, lesto, um jovem assistente, desses que ainda mantêm vínculos de geração, interesse e humildade com os estudantes, se aprestou a desenganar-me. Que não, não se trata de religião, nestas vestes olhamos mesmo para uma nova moda. E nisto embrulha a afirmação, num sorriso concedendo, antropológico até, a causa: "foi o 11 de Setembro!".


(Maputo, Dezembro 2003)


30. MIL DESCULPAS


Madrugámos hoje para não perder tempo. Ontem comprei roupas brancas, a minha mulher já as tinha, acho-as mais apropriadas para isto. O meu sobrinho é que não veio, a mãe dele não deixou, e como não tem papas na língua disse-me logo que não quando fui lá pedir-lhe para que o rapaz nos acompanhasse, que era só o que faltava!, que eu nem tinha o direito de lhe pedir isso.

Assim viemos os dois, chegámos à Baixa de manhãzinha, e começámos logo que não há tempo a perder, fomos primeiro às ongs nacionais que por aqui estão instaladas, e depois subimos à Sé para falar com o senhor prior, havemos de descer a avenida para chegar à mesquita velha antes do meio-dia, e ainda temos as empresas, que são quase porta sim, porta sim. No caminho falamos com os transeuntes, e a todos dizemos ao que vimos, que lamentamos muito, que estamos arrependidos, que nem tínhamos pensado bem no assunto, que talvez nem tenha sido por mal, mas que enfim, pedimos muita desculpa por os termos escravizado, e pedimos ainda mais desculpa pelo colonialismo, que se calhar até foi pior nem que seja por mais recente.

Sou mais eu que falo, a minha mulher tem estado calada, ela nem queria vir, penso até que já se quer ir embora, mas eu insisti muito e ela veio só para me acompanhar, acha que eu não ando bem, sente-me um bocado deprimido, ainda não percebeu se são os quarenta anos a chegar, ou o meu emprego que não corre bem, se estou cansado de estar por aqui, se calhar até acha que arranjei uma outra, mais novinha, mas está enganada, ando é a matutar nestas coisas do mundo, que é bem complicado, e antes estava distraído.

É uma pena, as pessoas não estão muito avisadas, nos escritórios não nos recebem, adiam-nos reuniões para um depois incerto, insisto e digo ao que venho e torna-se mais difícil, mas não desisto, peço desculpas às secretárias, aos contínuos, aos guardas, e depois eles até são simpáticos e trazem-nos à rua, amáveis, e chamam as pessoas que passam para que nos ouçam, mas cá fora também nem todos nos aceitam, os homens fogem dos abraços, as mulheres protestam comigo, dizem-me atrevido, os miúdos, esses vão gozando connosco, mas é normal, são ainda inconscientes, até já está uma boa mão cheia atrás de nós, mas não percebo o que dizem, falam em ronga e changana, e eu peço muita desculpa mas ainda não aprendi as línguas daqui, é uma falta de respeito, prometo que começo amanhã, ainda hoje à tarde se não estiver muito cansado.

Encontro o Salimo, um libanês meu conhecido, mas diz-me que não acha piada nenhuma, que estou a gozar com ele, e lá continua, mal humorado, um homem de negócios, e o Akbar, um paquistanês amigo, também recusa as minhas desculpas, e diz-me para ter juízo, o Ferreira veio ter comigo, saíu do Banco quando lhe disseram que eu estava cá em baixo, e também o Bacelar que ainda aí está, ia a passar de carro, ambos a perguntarem se havia algum problema, mas não os percebo, não querem vir connosco pedir desculpas, eles que até são uns tipos óptimos, não estão sensibilizados para o assunto, deve ser isso.

A polícia pediu-me a identificação, foi uma chatice, esqueci-me dos papéis em casa, mas lá perdoaram quando lhes pedi desculpa, duplas desculpas neste caso, apesar de a princípio julgarem que estava a brincar. Foi um erro não trazer os documentos mas vim sem a carteira, pois só depois é que poderei vir entregar dinheiro para me ressarcir da nossa brutalidade, e parte hei-de dar às ongs que são a sociedade civil, outra parte às igrejas nacionais, e aqui não ligo às diferentes crenças, todos partilham um Deus comum, não é?, só não vou dar à Igreja Universal do Reino de Deus, parece que são muito aldrabões, e a outra parte hei-de dar aos pedintes, mais aos velhos e aos aleijados, coitados. Será um problema com as pessoas com quem vou falando, bem que lhes peço as moradas para depois lhes ir entregar, pessoalmente, o dinheiro, mas não mas dizem, desconfiam. Eu explico que não o posso dar de imediato, não estou muito abonado agora, mas estou à espera de uma consultoria para a U.E. e prometo que depois irei distribuir os euros que receber, ou os dolares, não interessa. Mas nem assim...

Parece-me que ao princípio acharam estranho, mas agora já não, continuo a pedir as desculpas, há ainda tanta gente a que não pude falar, aliás cada vez há mais gente que me quer perdoar, vejam lá a quantidade de pessoas aqui em redor, e sei que estão a gostar da nossa atitude, vejo-o nos sorrisos, ouço-o nos risos, é uma pena a minha mulher ter-se ido embora, bem insisti para que ficasse mas preferiu voltar para casa com a Isabel que apareceu por aqui com a Cristina, compreendo pois estava muito comovida, até chorava, ela é muito sensível.

Eu agora vou até ali à Fortaleza, onde tenho que pedir redobradas desculpas, sítio do tão antigamente, e também hei-de ir até à estação, e peço desculpas pelos mortos da I Guerra, essa que trouxemos para cá, e fico contente por outros se me estarem a juntar, chegaram os Fernandos, bons amigos, mas afinal só querem assistir, mas sempre é solidariedade, comunhão, penso que as pessoas em redor também o vão sentir.

A rapaziada minha amiga que está por aqui acha que já pedi desculpas de mais, que já chega, convidam-me para almoçar, ou talvez uma cervejinha, mas hoje não é dia disso, ainda há tanta gente para abraçar, fico contente com esta delegação, vieram do Núcleo de Arte, ah, os amigos pintores, ainda bem que vieram, peço-vos desculpa, estão vocês a ver?, tão bem aceites foram, Mestre dê aí mais um abraço, lamento muito...Ir até ao núcleo ver as novas obras, agora mesmo?...é pá, obrigado pelo convite, é uma honra, e é sempre um prazer, irei amanhã com todo o prazer, mas hoje não, desculpem-me, tenho que ficar por aqui, na Baixa...olha as meninas da feira, vou pedir desculpa, estas continuam a ser escravizadas, colonizadas, não Jaime, não estou perturbado, não me aconteceu nada, então que cara é essa meus amigos, só estou a fazer o que o meu governo quer fazer, há-de mandar fazer, o nosso governo somos nós, não somos?, é apenas preciso ter coração grande... Ó Ana, que é isso, não aconteceu nada aqui ao Teixeira, dá cá um abraço de desculpas, mais um beijo, lamento muito, já agora diz-me um poema.

Vejam como a cidade é pequena, afinal todos nos encontramos, até cá está o motorista da minha mulher, o Lopes, ó Lopes vem cá, tu és um velho colono, vem também pedir desculpa, que dizes? Vieste buscar-me...? ...chamam-me? quem?, problemas que só eu posso resolver ...? nada, quem sou eu ... não resolvo nada... a sério, ó pá! ó Bacelar não me empurres, ó Fernando não me agarrem, Jaime, está quieto, ó Lopes não me leves... não há problema nenhum, só quero pedir desculpa, é pá! larguem-me, vejam o pessoal a aplaudir, eles estão comigo, não me tirem daqui, não têm direito, eu estou bem, porra vocês estão a magoar-me, só quero dizer que lamento, pedir desculpa, desculpa. Vejam, eu tenho razão, todos a acenarem, a rirem, estão-me a compreender. Ò pá, que raio de amigos fui arranjar, deixem-me...

********************

Ok, ok, estou mais calmo, vamos lá ao Rodízio, comer bem também alivia, mas é para atacar valentemente no carrinho das aguardentes, não é?? Pagas tu Fernando?, porreiro, que não trouxe a carteira, estou à espera de umas consultorias, já vos contei?? sim!? desculpem lá, repito-me, é da impaciência.

Aperitivo? um gin duplo, mas abra já um Esporão reserva para respirar, tinto claro... O qué? ... o mercado mundial? ó pá, sobre isso não é para pedir desculpas, não é para falar nisso, eu cá sigo os passos do meu governo, as ideias do Estado, esse no mais tarde ou mais cedo, que é mostra do muito respeitinho, era o que faltava. Desculpas dessa coisa do mercado mundial? Nada, isso é coisa para daqui a umas décadas, outros que as peçam, lá na altura...

Qué?...afinal não estou assim tão maluco? Mas é claro que não...também vocês têm cada ideia!

Sim, sim, Massinga, queremos rodízio para todos, e bom apetite.



(a propósito da Conferência Mundial Contra o Racismo, organizada pela ONU, Durban, Setembro 2001)


31. A IDADE


Sim, a Idade! Já não se aproxima, pelo contrário, chegou até sorrateira, acampou, capinou, arroteou, feita “dona da terra”, e agora aí está, semeada, pujante, encanecida. Sei-o hoje, primeiro quase sem surdina....Uma pausa longa neste calor de Dezembro, um refresco de meio de tarde, deixando-se disfrutar, langores em esplanada nada habitual, a angústia de hoje a aqui desenfiar-se dos “olás, como vais” de sempre, neste ali à frente da já ruína casa do “ANC”, metáfora tão óbvia de tempos primeiros aqui, mas ainda mais dos de hoje. Enfim, eu descansando-me devagar, até acoitado, e, súbito, um outro cliente, para mim desconhecido, abala e no atravessar para o passeio saúda-me, até respeitoso, que isso o percebo pelo tom do seu “boa tarde, senhor doutor”.

Estremeço, enquanto agradeço retribuindo. Estremeço? Como não? se me é imutável o espelho, quero-o assim, protejo-o assim, esse onde me amiúdo, onde jamais encontrei algum reflexo de um qualquer alguém que assim possa ser saudado, um desconhecido de bairro boatardando-me num caminhando para o reverente. Foi, sei-o, tremor mais ao som do que ao dito, uma angústia brotada (e neste hoje sublinhada) no tom ouvido. Ali a aquecer-me (ainda mais) a coca-cola.

Sendo assim fujo dali, fujo de ancião, fujo do respeito alheio. Encalorado de novo, parto às minhas obrigações do dia, as finais, estas agora familiares. Uma breve passagem pela loja-armazém de brinquedos chineses, no longe do fundo da Luthuli, num carregamento destas pechinchas alegria dos meninos, e eis-me na direcção da Baixa, essa nova baixa tão tipo sul-africano, assim a baixaram os donos daqui. É a minha Carolina que lá está, em aniversário de amiguinho, melhor dizendo dois anos faz o já namorado Martim, e eu pai ali a encontrar a família. Aproximo-me, aquilo que mais não é do que uma mísera bomba de gasolina com o obrigatório pula-pula onde gritam algumas dezenas de miúdos, entre refrescos, óbvios pulos, batatas-fritas, choros e gritos, mães embevecidas e pais fotógrafos, e tudo já está exausto e eu ainda estou a chegar. E é então, aí no degrau da porta, que a menina primeira, dois anitos também ou talvez mesmo menos, vendo-me chegar com o saco dos presentes, o singular para o rapaz e mais toda a tralha para a minha menina, coisas do “já agora...”, mas essa menina primeira dizia eu, vendo-me chegar deixa no gume da estridência gritada desses seus dois anos e com a infinita sinceridade da idade o aviso, em total êxtase: “Mãããããe, o Pai Natal!!”

Segue-se a gargalhada geral, sim a terrível, indiscutível, crueldade dos adultos, esses sim monstros, e a essa hei-de, heróico, responder cópia do sorriso e até laivos de ironia. Até poder regressar ao meu esconderijo. Aí sim, esmagado.



(Bilene, Abril 2005)


32. CHE GUEVARA NA FEIRA POPULAR


Para o Francisco Noa

Hoje uma saída nocturna, uma incursão nesse afinal não mito daqui, o “sexta-feira, dia dos homens”. E, para mim, algo tão raro nos tempos actuais, e nunca o imaginaria assim há alguns anos. Combinámo-nos ali à praça da OMM, o meu amigo quer-me apresentar a um bar quase novo, até “complexo” ao que parece, local de companheiro seu e dele visita prometida e já muito adiada. Ali o encontrarei, um aperitivo e “depois se verá” quais as nossas paisagens para conversa e maldizeres.

Sou o primeiro mas nem espero, coincidência pontual, ei-lo ali. A apresentar-se numa das suas t-shirts estampadas com o tal Che Guevara, elegâncias nele até tardias, conquistas de recentes viagens do turismo académico, este sempre, e por mais óbvio que pareça ser o destino, coisas do bazarismo político. Não lhe perdoo estas vestes da ironia, bem sabe ele que abomino esse neo-ícone, em tempos de qualquer coisa facistóide e assassina, agora a querer-se dietético, “light”, fresco de uma moda assim muito alter, alterglobalização chamam-lhe até, em óbvios requebros. Não lhe perdoo, já disse, reajo à óbvia provocação, tal como o faço sempre que me invade a casa em propósitos semelhantes, que hoje não é a primeira afronta risonha. E daí o meu imediato “Foda-se, meu cabrão, agora fazes-me andar aí na rua com um comuna”. E ele a rir-se, é mesmo de propósito, a invectivar-me “que queres, é a revolução necessária!!”, a cutucar o tuga reaccionário, mesmo que para ele branco simpático, qual negativo do Sidney Poitier, a modos que branquinho bonzinho. E assim nos ficamos, nos obrigatórios insultos, a marinarem coisas de uma amizade.

É nisto que já estamos no tal aperitivo tornado vários, pois gente algo conhecida a surgir à mesa e por isso conversa vária, às vezes mole outras nem tanta, como é assim nestes assins. Depois lá chega o nosso “e agora?” e eis-nos a jantar na Feira Popular, fieis ao que aqui vai vigorando, isso de que, apesar do outro tudo, “para restaurantes não há como os portugueses” – e é aqui que lhe lembro a expressão que ouvi ao Rangel, mas que me diz ser de Samora, essa pérola do “só não descolonizei o estômago”, devaneio que logo nos dá para a teorização, nele deformação profissional, em mim prosápias de provocador: se há lusofonia o que ela é mesmo é gastronómica....e futebolística, acrescentamo-nos de rajada.

Enfim, lá avançamos o nosso jantar, bera diga-se, a injustificar o apreço universal pela tasca lusa, entre os tais maldizeres, as políticas que sempre vão mal, como é de sua natureza ou das nossas manias não sei, a eterna uma ou outra mulher do “ai se pudéssemos”, o “como está ele...?” sobre parcos amigos, trabalho e trabalho, livro ali e livro acolá, vá lá, para nos darmos o toque. “E agora?”, digestivos digeridos, “e agora?” Discoteca? bar? jazz? mas já?, se avançámos tanto que nem meia-noite é, e há que gozar a noite, arrastá-la. “Agora?”, e sou eu que desafio, “já que estamos aqui no portão então vamos passear na feira”, sei que ali uma miséria felliniana mas ao qual atribuí encanto, talvez mesmo por isso, no domínio da insensibilidade, sei-o, a do mais querer olhar.

E lá vamos, em vagares, a esmoer os pavorosos jantares, um par de quarentões, eu oscilando a rotunda barriga, nítido tuga desses matrecos até recém-chegados, ele escondendo a sua na brilhante t-shirt guevarista e, nem que seja por esta, óbvio “estrutura” local, deste modo a rejuvenescer-se com velhas ideias, a esquecer-se do hoje. E nisso caminhamo-nos para além do Coqueiro, o zambeziano quase fronteira, que o império não-familiar começa por aí, é-nos um passeio a demorar a decadência da decadente Feira, mais fechadas as barracas restaurantes, vazias as discotecas-bordéis. Mas isso é o do todas as vezes por aqui, que esta sempre parece pior do que antes. Mas continua, impávida e, portanto, decerto lucrativa.

Nisto do ir andando cruzamos duas raparigas, jovens, bonitas, bem postas como se dizia antes do nosso tempo, que nos saúdam, sorrisos largos, e mais a mim, num “boa noite, como estás?”, ao que respondo, simétrico, em palavras e sorriso mas continuando a andar, nisso decerto menos afável. Mas uma delas, mais decidida, avança e interrompe-me, os dois beijos lestos, sempre ditos “beijinhos”, a surpreender-me, e eu no arquear de sobrancelhas “Nós conhecemo-nos?”, a interrogar-nos, que isto de ser professor, e algo distraído ainda para mais, traz constantes surpresas. Mas que “sim, conheço-te do Piri-Piri, costumo ver-te lá”, “ah”, sossego, a aferir o registo e então deixo-lhe o meu melhor gentil “então boa noite, obrigado, até à vista”, um adeus que é logo barrado num ainda mais simpático “Vocês não querem companhia?” e nós, sempre sorridentes, num coro de “não, obrigado, não é preciso”, e eu acrescento, para não lhes ferir as susceptibilidades, e já agora também para auto-justificação, a explicar a recusa, “somos amigos, viemos só passear”, que isto não é por causa delas, não é desprezo, não senhora, ao que a mais primeira, à tal reclamação de amizade, confirma “sim, eu sei, costumo ver-vos juntos no Piri-Piri”, e aqui já está a inventar, reunir ambiente, numa insistência do oferecimento. E eu a repetir-me, no sorriso e no “não estamos a precisar”, as meninas que não levem a mal, somos só amigos a ver passar a noite, e esta mais atrevida logo num “oh!!” duvidoso, que melhor companhia poderemos nós esperar mais à frente?

O meu parceiro decide intervir, decerto sabedor que é mais este branco que as acicata, mais dados aos dolares fáceis somos nós, ao que se diz e deve ser verdade. E que por isso ser-lhe-á mais fácil resolver aquele nada impasse, apenas coisa de gentileza bem-disposta, do continuar a andar sem desagrados, do sempre tratar bem as mulheres, ainda para mais neste aqui, “sabes, é isso mesmo, somos amigos, estamos só a passear”, o que até é, e mais pelo tom, um agradecimento a tão simpática oferta.

Mas nessa sua insistência vem ele mudar o ambiente, a brotar um gelo no olhar da rapariga, aquela mais provocante, súbito um diálogo entre ambos, eu de imediato de fora, estrangeiro excluído, “São amigos? Claro, vê-se! É por isso que andas com a cara dele na t-shirt?”, ao que ambos estancámos, um abismo de surpresa, deliciosa para mim, nem tanto para ele agora rubro (sim, rubro) de espanto, e ela a avançar, agora ácida, o desprezo à solta “E tu não tens vergonha? Não tens vergonha de andar com essa t-shirt”, e eu, até cruel, já me estou a rir, ele com um embaraço gigantesco, tentáculos na voz, sem mesmo balbuciar, o que poderá ele dizer?, e eu, malévolo, a sublinhar, “é isso mesmo ... somos amigos, eu é que lhe fui eu que lhe ofereci esta minha t-shirt, ele gosta de mim e usa-a”, e o meu amigo, ali desgraçado, resmungando (a implorar-me o silêncio?), a necessitar de uns passos à frente para também ele se poder rir desse seu Che Guevara, afinal na sua terra, às suas vizinhas, ícone coisa tão outra.

Ainda nos estamos a rir, gargalhadas, quando entramos na primeira porta, refúgio mesmo. E eu já com a esperança que se tenha perdido aquele altercomunista, voltemo-nos burgueses. Aliás, a noite está aí, é certo que assim voltaremos.



(Maputo, Junho 2005)


33. CERVANTES NA MINHA MESA (E COM PITADA DE CALVINO)

[A propósito da efeméride corrente, o centenário da edição do D. Quixote, uma pequena historieta, dessas sem qualquer moral a poluir.]


Há anos, um bom par já, acampei em mesa de letras e alguns líquidos também. Aqui aprendi que as palavras são como as castanhas de caju, e foi nesse frenético andar que fomos afinal saltitando até à literatura portuguesa, são estes os riscos de partilhar fins-de-tarde com académicos até renomados. E nisso fui eu, e sem o querer pois ali mais preocupado com o meu dessedentar, logo ali promovido a representante da cultura minha nacional, coitada, coisas de passaporte, pois claro. Eu bem que o percebi, mal começaram os encómios e reparos aos escritores, em particular a esses novos, olhares e baforadas de cigarros desviaram-se mais sobre mim à espera de concordâncias e anuências, como se estas, e logo as minhas, valessem de algo nisso que é mais dos gostos, acho eu. Plantei-me no silêncio, nesses silêncios esconsos dos "hum, hum...", “pois!”, "sim, sim", mas ainda mais dos jogos de sobrancelhas e meneares, ainda que estes másculos assim o espero. Isto a ver se tudo passava, saindo eu incólume. Mas logo me irromperam, enérgicos na exigência da sentença, sorridentes impiedosos num "E que achas do José Riço Direitinho?", ele ali a ser elogiado, e nada pouco. Eu, até quase aflito, lá tive que confessar, abatido, naquela voz rouca do perdão apelado, "he pá, nunca o li", e era apenas constatação, fraco leitor eu, sem nesga de acinte, jurei-o.

Mas o tom de nada me serviu, isto desgraçou-me, o relapso ignorante foi logo sentenciado num “Nunca leste o Riço Direitinho?!!!”, verbal num conviva, gestual em todos os outros, rictos de zanga desiludida adivinhei, insistência nos “como é possível?!”, e logo o coro, um pouco desirmanado é certo, “o Riço Direitinho é fundamental, Teixeira”. E eu ali no sorriso falso a tentar tirar importância ao caso, mas tinha brotado um vulcão de nada de simpatias, a rapaziada encarnara-se jurados implacáveis. Acho que o que me salvou foi mesmo o ror de whiskies já antepassados, súbito empurrando-me para o desabrido num “olha que caralho! Sim, nunca li o Riço Direitinho, e depois? E vocês (sei lá de que manga fui buscar o trunfo) leram o D. Quixote? Sim, já leram o Cervantes? He, he, não se esqueçam, reparem bem que esse também foi meu compatriota...já o leram, vá?!”. Não há dúvidas, ele há rasgos, magnífica jogada, um silêncio agora alheio, risos até, “nada, nada”, “hé pá, não li, não senhor” e por aí de negativas, essas feitas um espelho de "tens razão". Eu, então já magnânimo do safo que estava, quebrei o assunto, não me lembro exactamente mas conhecendo-me como me conheço devo ter resmungado um sorridente mas repetido “vão-se foder” pedindo nova rodada, articulando as literaturas do gin tónico, do whisky e da 2M, e aqui sem hierarquias de saberes, em especial se condimentadas com o tal já referido caju, amais chamussa ali ou acolá.

Minto, claro, esta historieta vai com tanta moral que quase se torna fábula, assim animalizando-me. Então, conforme aos cânones, lá vai a súmula moralista: no dia seguinte, meio escondido, lá fui procurar Riço Direitinho no Maputo, já que tão elogiado. Saíu-me um único, o “Breviário das Más Inclinações”, que vim a ler com agrado. E assim protegendo-me de futuras e tão implacáveis mesas.


(2005)



34. DIA DOS NAMORADOS

Maputo de noite cheia, azáfama quasi-noctívaga de trânsito como se hora de ponta, essa que agora chegou, desmaputizando o “meu” maputo, queixas só suaves com o "semaforismo" ausente, todos os restaurantes cheios mesmo aqueles que nunca, rosas muitas em mãos compradoras e outras já nas receptoras, casais (até os tristes) bem vestidos acompanhando-se, é o dia ... esse que apareceu há meia dúzia de anos, sei-o bem, acompanhei a instalação. A mim sobra-me aula nocturna, a primeira do ano, turma ausente, apenas uma aluna, senhora já, sorrindo à total ausência (merecida, merecida) à ritual "apresentação", caloiros relapsos. Dou-lhe um mito, o primeiro mito universitário porventura, os "dez minutos académicos" (5, 15, não depende isso do narrador?), depois "vamos lá embora" que haveremos de recomeçar. Que ontem foi dia de "namorado amador", profissional tem o resto da vida, hei-de biliar. Ainda beberei café no caminho da casa, mesa de canto em restaurante apinhado no meio dos tais comensais emparelhados, meros cinco minutos roubando-lhes bocados, mesa a mesa. Nem uma mão na mão, nem tampouco mão na perna (quem bem procurei, indiscreto até indelicado), nem o rápid passar mão na cara, essa festa palavra assim linda, nem afago no cabelo, nem beijo qu'isso seria demais ainda que dos castos. Estão só ali, falas poucas, levaram-nos a jantar e ele foram. Saio, noite de dia do namorado reformado. Também já vou assim?


(Fevereiro 2006)


35. ÁGUA DE COCO

Ao Miguel Bidarra (MB), lesto a saber sair de um café quente demais

Uma recepção diplomática. À conversa quatro senhoras de diferentes países, como nesses ambientes é evidência, costume e até obrigação, ali a sociedade expatriada, com suas coisas e quês no dia, mais misturada no local pelos anseios das noites. Uma delas, jovem nela e no aqui, pois ainda recém-chegada, disserta entre o animada e o (muito) aliviada sobre esse último ano que viveu em Nairobi. Cidade terrível afiança, qual a Joanesburgo que por cá todos (des)conhecemos e tememos, uma Nairobi terra de crime constante, estrangeiros aterrorizados e os locais também, vidas encerradas em bunkers os que as podem, os tantos outros talvez ainda mais aflitos, desprovidos que estão dos exércitos de mão para lhes proteger coisas e famílias.

E é nessa memória, tão recente, que lhe nasce todo aquele o “ha!” que arrasta, nele se repousa, rejubila até, com toda esta diferença, este estar em Maputo, local de segurança, tanta calma que se entranha, tudo isto nada típico das capitais africanas, esta vida aprazível, suave de clima, suave de gente. E logo todas as outras com ela concordam, também aliviadas, refrescadas (quem diria?), pelo que o destino lhes está a reservar para estes inícios da idade mais ponderada.

Mas naqueles “sim-sim” outras lembranças lhes foram avivadas, coisa de fazer brotar breve pausa no convívio, assim como se cada uma se pusesse a conversar consigo própria, até indelicadeza em tais momentos, excessos de fra(n)queza quebras da etiqueta para momentos diplomáticos. E, como se para quebrar tal nesga de imprevisto silêncio, logo enceta uma das visitas, “Bem tudo isso é verdade .. mas ainda assim o outro dia fui assaltada na F. Engels (“na Engels??!!” quase-a-interrompem, a surpresa tida de coisa assim em tão pacato e belo local de embaixadas), estava a passear com os meus filhos e, para me roubarem a mala, empurraram-me pela ribanceira abaixo, foi terrível, o susto e a queda, e o pior ainda foi os pequeninos em pânico, a tudo assistindo". E logo outra, como se a calar o frémito do susto, muito mais do que em concorrência de aventuras desgraciosas, desabafa "a nós assaltaram-nos a casa para nos roubar uma mobília que tínhamos acabado de comprar, alguém que a viu chegar (ou até mesmo o próprio que a vendeu, se calhar), o meu marido não estava em casa e eu já muito grávida dos gémeos. E ainda assim espancaram-me violentamente". O horror do episódio pede silêncio, mesmo reflexão, até porque a pobre sabe bem quem a mandou assaltar, apenas este narrador se exime de o reproduzir, e tão importante é que tudo piora, tanta beleza desvanece. Mas logo outra – e a esta conheço melhor, minha mais que intíma – remata “pois, e há dias estava no café, o Nautilus, aquele da esquina da Nyerere, conhecem?, em pleno sábado de manhã, e assaltaram a casa de câmbios defronte, mesmo do outro lado da rua, foi um tiroteio de meia hora, mortos e feridos, só assaltantes morreram três ali mesmo, e nós todos no chão, outros fechados na casa de banho, as balas a voarem casa dentro, dois dos clientes feridos por balas perdidas, um terror...”.

Afinal afinal ... a desatarem-se coisas assim, memórias quase-esquecidas de coisas do tão de hoje? Mas desabafos feitos, esconjuros claro, entreolham-se as senhoras, ali em em plena recepção com conversa tão pouco diplomática, coisas do verdadeiro dia-a-dia. De súbito lembradas que tanto vivem o seu quotidiano, tanto o vestem, que até esquecem tudo isto, até se sentem seguras. E depois disto servem-se de mais um gin, "fraquinho, s.f.f.", um vinho branco talvez, e acompanham com uma ou outra chamussa, e regressam à “cooperação”, ao “desenvolvimento”, pitada de “good governance” e, imagino, hão-de abordar “gender issues”.

São rijas estas nossas mulheres, nossa sorte, nossos amores. Mas, pensando bem, não haverá também por aqui algo que as adormece, que este assim faz esquecer, coisas-pormenores torna. Será isso a sempre tão falada água de coco?



(Maputo, 18.3.04)


36. (AFINAL) EM TERRAS DO JUIZ LYNCH


Era uma missão internacional aqui, a olhar o desenvolvimento e a política grande. Recebidos os bastantes participantes, convocados os escassos estrangeiros residentes, lá nos reunimos para o necessário “briefing”, momento de sempre acertar pormenores e pormaiores do por aqui, um escrutínio até detalhado, assim a aferir essa futura quinzena por todo o país. No final, e como mera nota de rodapé, veio o aviso, esse do universal “o seguro morreu de velho”. Entre o qual lá chegou coisa dos cuidados na estrada, que se algum de nós atropelasse alguém logo deveria fugir, procurando a esquadra mais próxima, aí informar e, se possível, organizar socorros. Atitude nada estranha disse-se, necessidade atribuída ao hábito local, tal como em outros países africanos, de linchar os condutores, e até os passageiros, envolvidos nestes acidentes. Perigos ainda maiores quando as vítimas eram crianças e mais efectivos nas regiões rurais, caminhadas por gentes com diferentes hábitos rodoviários e também menor crença nas autoridades judiciais, até pela sua relativa ausência.

Naquele entre-nós, a “comunidade internacional” no terreno, insurgi-me. Talvez, reconheço, porque então já mais do que enfastiado com o enciclopédico, por supra-minucioso, seminário dito “briefing”, coisas do meu mau-feitio até epidérmico. Ali senior residente, algo até de estatuto poist então, e usando tom de voz apropriado a tal condição, duvidei de tais situações, resmunguei sobre tal visão mitológica de uma África homogénea, sustos de quem ainda lhe vê o “horror” da “selva”, assim apelando às literaturas antigas, excelentes que sejam. Enfim, antropologizei(-me). E nisso continuei, presumo que até emocionado, cutucando com a escassez de ambulâncias, e esta mais no campo, dali saltando até à responsabilidade, a da entreajuda, do socorro imediato. Enfim, moralizando(-me). Finalmente, e embalado pela melodia das minhas palavras, lá culminei, demagogo, considerando surpreendente que nós, missão internacional tão responsável, nos propussemos a tais insensibilidades.

Só depois, já fora da sala, refrescado no ar até fresco desse dia, esvaída a minha impaciência sempre chegada com as longas minudências alheias, me deixei a sorrir sobre tamanho ditirambo, eu que nem sou de muito me empolgar em defesas de bons-sentimentos, mais a dar-me a iras por coisas nadas. Diante de mim anuí, aquilo até parecia coisa de moçambicano, desagradado com tais imagens da sua gente em bocas estrangeiras. “Estou a moçambicanizar-me”, sorri-me como se desculpando-me a mim mesmo, um deslize apenas, ou a minha eterna mania da contradição, essa carreira abortada de advogado do diabo?

Lá se passou a dita missão sem novidades de maior, e logo depois, lestos, correram os meses. Nisto, ontem mesmo, uma segunda-feira matinal, telefonou-me um colega amigo, em aflição de abatimento, a solicitar ajuda, necessidade até mais psicológica do que outra qualquer, como empolar os meus préstimos de estrangeiro a alguém daqui mesmo? Pois, balbuciava-me ele ao telefone, na véspera atropelara, e mortalmente, um homem. Um azar, adivinhei-lhe quando a ele me juntei no breve que me foi possível, ouvindo-o no triste relato do acontecido, ele em hesitações até incomodadas, pruridos de respeito, a evitar sublinhar a óbvia bebedeira bamboleante, distraída e errática do entretanto falecido. Pois se este já assim para quê referir-lhe as fragilidades finais?

Mas lá narrou o episódio, catarse, e assim também caminho de calma. Na hora de jantar do domingo, o final de fim-de-semana, o regresso a casa nas avenidas do grande Maputo, interrompido pelo alheamento pedonal da sua vítima, o pobre homem ali logo falecido, coisa do imediato. Ouvi o seu susto, a sua dor, trauma mesmo, ainda mais nele, jovem, a primeira vez da morte perto, que há sempre uma primeira vez, até para esta que para todos será a última vez. E, disse-mo e eu imagino-o, ali só diante dessa morte, assustado e até arrependido, neste arrependimento do amaldiçoar passar no sítio errado à hora errada, como se tivessemos nós momentos certos para este nosso andar. E de imediato telefonando socorros, ainda que sabendo-os tardios pelo já sem-vida alheio. Pois nesse quase-logo, nessa espera, logo foi rodeado pela multidão exaltada, ali comparecida no após ocasião, lesta no tomar partido, sempre o do mais fraco, agora decididamente mais fraco pois já morto, tal como imediata no julgar e actuar, pronta a executar a voz e a razão do povo, a morte do condutor, agitando a lei da total reciprocidade, “mataste, morrerás”. Veio também a sorte, essa mão amiga do “às vezes”, e nesse minuto de desamparo e desatino naquela avenida secundária passou um outro carro e, apesar do breu já noite, ali vingou o olhar cúmplice de automobilista, arriscando a paragem para a salvadora boleia, arrancando o meu amigo da turba assassina.

Depois, algo depois, já resolvida a questão, guiando no meu regresso a casa, não deixei de me recordar daquela minha acalorada intervenção, feito sábio empírico e moralista diante da então até atrapalhada missão internacional. Palavras erróneas, como sempre o acalorado arrisca. E o moralista, claro está. E ali fui pensando, ainda que então de atenção redobrada ao volante, sobre estes Lynchs locais. Esses que, mesmo sem leituras apressadas, me surgem como gritando este enorme abismo entre uma população desapossada e todos os seus (ainda poucos) patrícios que, pelo menos, partilham da benesse de uma viatura, se sua propriedade ou não pouco importa, ela um extraordinário signo de distinção, de elevação, algo que logo os torna diferentes do imenso mundo pedonal. Até mesmo oponentes. Assim gente de um outro mundo, quase sobrenatural, e portanto gente culpada de imediato. Diferenças? Hierarquias? Estratificações, dizem os doutores? Mais do que tudo um rasgão neste mundo, mas ainda não uma cicatriz, ainda apenas uma chaga, a chaga não mediada, não desinfectada. Dolorosa. As purulências da incompreensão de tudo isto? Ou da compreensão?



(Maputo, 2004)


37. CHAPÉU

Ufano, lá vou eu em plena Nyerere com o meu chapéu novo (trazido chapelaria Azevedo Rua, ao Rossio), até sonho de jovem, este de me chapear. E, garanto, surpresa!, desde que chegado assunto de conversa constante, o instrumento mais polissémico que já me honrou, de esquerdista a boer tudo me assenta bem desde então, redobradas atenções sobre a minha cabeça, sorrisos e cumplicidades sublinhadas. Soubera eu e há muito que me houvera coberto. E nisso lá vou, repito-me, mais seguro de mim mesmo. Mas à porta do banco, eu uma mão a abri-la outra de cartão já a assomar, o sorridente guarda Alfa nem hesita: "Lá dentro tem que tirar o chapéu". Espanto-me, estupefacto mesmo, e enquanto me descubro, coisa do sempre no debaixo de tecto, ouvida nos avós e, no muito depois, impingida na tropa, ainda consigo sorrir ao dizer-lhe, quase pergunta, "guarda, v. está a mandar-me tirar o chapéu?", e ele que sim, que lá dentro, "cá dentro" já, tenho que o fazer. "Mas isso é questão de educação, nisso v. não pode mandar nos clientes" mas já nem é conversa, ele continua a sorrir e a confirmar o "é assim", o sorriso e o assim de uma autoridade convicta. Que lhe virá, talvez, daquela pobre farda que ele tão imagina.
Ainda assim fico-me na fila do ATM, ao dinheiro do fim-de-semana. Nem surpresa é, acabrunhado, chapéu nas mãos, "paisano". O cliente da frente, brasileiro, murmura solidário um "ele mandou-lhe tirar o chapéu?" e trocamos esgares.
Depois saio para a cacimba quase chuva, fria hoje. Nyerere abaixo, milhões no bolso. E chapéu na mão ...



(Outubro 2005)



38. IDADE?

Ali às portas do Pérola, o “Pérola de Maputo” a nova “montra dos tugas” destes tempos, logo na chegada, apresenta-se o dito Philip, talvez Filipe não sei, como sempre carregado de dvds legitimamente piratas, meu fornecedor habitual, coisa de telemóvel dado, cartão de visita e tudo, que o negócio vai-lhe florescendo, flibusteiro do “informal” como tantos. "Vendeste-me um dvd estragado", resmungo-lhe, "não há problema tio, quero-te satisfeito, troco já, qual era?", "esse da guerra dos mundos" "tenho aqui", "e também já tenho aquele que a senhora encomendou" "qual? o quê?", "este aqui, para a menina", ah, o madagáscar, "tá bem, quanto é?" "aquele preço de sempre, já sabe". Estou a pagar, ele aproximado no receber, e mais cúmplice que sempre baixa a voz entre-sorrisos, ainda que nós ali sozinhos, "e não está a precisar daqueles filmes para idade avançada?". "Ixe, ainda ... ". Filho-da-mãe, ali na gentileza do dealer do porno e a chamar-me velho.




(Nov 2005)


39. POWER POINT


São já vários os anos, e nem tão poucos, que este meu amigo vem passando nas artes e ofícios do desenvolver, até comércio dizem-no agora, um modo honesto e empenhado de ganhar a vida, sim senhor, ainda que haja quem a este negue méritos, se cinismos ou invejas ou ambos não sei, apenas acompanho. Hoje mesmo, talvez pelo calor de esplanada que nos arrasta o tempo e lhe extrema (deito-me a adivinhar) o fastio, de súbito deixa subir, e fala-o, um inédito cansaço com toda essa indústria de projectos e planos integrados, seminários de apresentação, discussão e avaliação, planificações intermédias e globais, consultorias e termos de referência, amais sumários executivos, acções de capacitação e cursos de formação, dossiers e tantos mais, ainda que tudo debruado a per diem, e talvez mesmo por causa destes últimos. Fala-o, a esse cansaço, pois quase no levantarmo-nos da mesa, conta já paga até, enceta as despedidas num, como se viesse a propósito, “Este meu país”, corolário dele, “é um país em power point”.


(Maputo, Janeiro 2005)



40. DA CORRECÇÃO EM COISAS DO GÉNERO: episódio 1


Sempre lembro aquela jovem colega. Espanhola de Estado mas de muito autonómica vontade. Algum tempo, e não tão pouco o foi, aqui colegámos, ela mergulhada nas questões do género, gente fruto do seu tempo, o este, mas como não o sermos? Feminista rija, quase até mais não. E digo-o agora pois lembro-a sempre ríspida na conversa, até nos actos. Coisas do radicalismo e juventude, diziam alguns, aqueles que nos rodeavam. E eu a negá-los, a pensá-las ao contrário, às tais coisas, sabendo-as a prometerem um crescendo com a idade que lhe aí vinha. E também entrevendo naquela toda rispidez um mais desprezo por mim e pelos meus, não só homens mas ainda por cima piores-que-meros colonialistas pois seus descendentes, e assim sendo não apenas míseros conservadores pois gente de antanhos deploráveis. Enfim, adivinhava-lhe, e sem minha argúcia particular, desgosto particular por nós, coisas exploratórias, se antes então sempre. E tudo isto misturava-se com não pequeno toque de má-educação, esse mesmo que há quem pense ser o tal já dito radicalismo, ainda que eu o acredite pacientemente elaborado, coisa portanto feita de educação.

Não se pense que a desgostei, bem pelo contrário. E talvez por isso toda esta memória. Com ela fui-me descobrindo no beneplácito sempre devido às mulheres bonitas, ainda que neste caso algo mitigado pela minha ocasional impaciência. Mas também reforçando-se na pequena, ainda que muda, perversão, essa do agrado a quem o recusaria se lhe compreendesse a origem, maldades machistas confesso. E beneplácito esse logo redobrado no prazer que sentia quando a via invectivar de conservadores (e até de reaccionários) os meus colegas, em especial se patrícios por cá de passagem, tremelicando-lhes as belas auto-imagens de pensadores críticos e, até, radicais. Desmontando-as até, por vezes.

É a imagem desses seus apogeus de “correctismo”, plenos de afã, que mais me vão regressando, excertos de memórias, trechos que me trazem sorrisos. Neles abunda no regresso um que verdadeiro arquétipo.Certo dia em conversa conjunta referi a "minha mulher", não me lembro a que propósito, o que seria difícil pois tal é-me hábito, constante que ela me é. Fulminou-me, um esgar mortífero, o desprezo vincado, a contraposição ridicularizadora sob voz bem aguda "tua mulher? pertence-te? compraste-a?" e eu, a imaginar-me a cara espantada (por esta nem dela esperava) ainda ali a matizar "ouve lá, ela também diz "meu marido"" mas isso já nem lhe interessava, nem ouviu, tão na raiva contra a incorrecção, o verme machista, burguês patrimonialista que eu ali era.

Lembro-me imenso dela. Aliás, estão sempre a lembrar-me dela, surge-me, lesta, em entre-textos vários por aí fora. Por vezes, em silêncio, solidário, até brindo ao homem dela. Perdão, ao "homem que vai estando junto dela" ou lá o que seja.



(Maputo, Novembro 2005)




II. UM EMIGRANTE EM MOÇAMBIQUE


41. UM JANTAR EM MAPUTO


Ao Fernando Veloso, amigo e co-comensal

Já passaram muitos anos, mais até do que deviam, desde o jantar que agora recordo. Eram tempos outros aqui, eu ainda quase-chegado, nos quais se apregoava o “regresso dos portugueses”, dizer então por tantos ecoado, um isso talvez aspirado lá na minha longínqua terra e por cá decerto muito resmungado. Mas tudo era, e no acima de tudo, coisa de grande exagero, cá e lá, lá e cá. E já na altura o era fácil adivinhar, quanto mais sabido o é no hoje então futuro.

Nesse durante, entre o corropio de conversas e aviões, aportou a Maputo uma célebre jornalista patrícia, vinda a reportar o tal regresso, os caminhos havidos e os já brilhos. Não era raro este tipo de visita, parecia até tipo o trabalho, dir-se-ia agenda colectiva, alguns a tinham precedido outros a perseguiram, teores e tons tão iguais. Mas rara era, mesmo, a muita fama agora companheira de viagem. E também a grandeza do jornal acolhedor. Assim sendo, logo que fora anunciada a iminente chegada, foi a visita esperada, comentada em murmúrios, nas antevisões da sua presença, até preparativos de obséquios, alindamentos generalizados. Sonhos até de ficar na fotografia. Ou, pelo menos, no texto.

Nessa breve estadia coube-me um seu jantar, este mesmo que aqui recordo, eu procurando não borrar imagem própria, ainda que apenas entremeando um conjunto de individualidades moçambicanas, bem pensantes todos elas, onde pontificavam jornalistas, médicos renomados, escritores, professores, guias de movimentos sociais, qual corte geológico na aqui elite nacional. Alegrei-me, com tal painel ser-me-ia fácil não ser notado, julguei. O objectivo do repasto era explícito, que à (boa) mesa refogasse ambiente amigo, que durante a degustação, palato acalmado, os renomados locais pudessem ecoar o quão bom aqui se considerava esse tal nosso regresso e, até, quais os anseios que este vinha colmatar. Decerto esperava o anfitrião, e também o desejava eu, que fosse amigável o diálogo, sublinhado pelo informal do ambiente, positivas as conclusões mesmo que transparecendo, aqui e ali, alguns “mas...”, esses “mas...” obrigatórios em conversas francas e inteligentes. Mas “mas...” minúsculos, com certeza.

No entanto o futuro, mesmo esse do curtissimo prazo, é aberto, caminho minado. E, mal-grado as expectativas, e tamanha planificação, aconteceu despiste! Nunca soube exactamente o que tal provocou, males do repasto não terá sido, apreciável a cozinha, impecável a garrafeira, cavalheiro o “dono da mesa”. Tudo terá sido, talvez, despoletado por tanta fama à mesa, a própria da jornalista mas também a do seu jornal, súbito, no decorrer da conversa, ali brotado, sonhado, desejado, como caixa de ressonância, e poderosa, microfone óptimo para ecoar as não tão óptimas vontades no por cá, o agitar do “nem pensar” no regresso, mesmo que matizado, aos tempos antes. Enfim, o jantar foi qual caixa de Pandora a abrir-se, velhos estigmas e novos desconfortos a saírem das travessas da conversa, e a cada prato a azedar ainda mais. No fundo, ainda que rodeados de résteas de elegância nos trajes e modos alheios, ali ouvíamos um tonitruante “suca”.

Sobre os portugueses aqui presentes, esses nossos patrícios (e talvez nós mesmos, comensais), só malfeitorias e perversões se afirmavam. E se um dos convidados dizia “expulsem-nos” logo outro gritava, ainda que à mesa, “matem-nos” para de imediato alguém lhe somar um rubicundo “esfolem-nos”. E nisso tudo, não-descansados, ainda e já em pleno estertor se ouviria um “queimem-nos”. Eu, remexendo o prato, cada vez mais para o vazio, lá ia achando aquilo tudo uma catarse e, já agora, também uma provocação, lamentando-me de ali ter caído. Pois não era só a fama lusa, nem o microfone português, era também, e talvez o mais de tudo, o ser a jornalista a aparência da nossa elite, tão perto ali à mesa, a ser bombardeada, alvo de hipérboles, ainda que denotativas, reafirmações, talvez anacrónicas mas incisivas. Isso ia resmungando eu, ainda que me tentasse distrair de tudo aquilo, divagando-me debaixo da mesa a cavar buraco onde me escondesse de tudo aquilo.

De súbito a jornalista, constrangida e decerto estupefacta com tamanhas opiniões, tão contrárias ao seu esperado encanto mútuo, interrompeu-as, enfática, aqueles ênfases de face e tão sotaque arrastados: “mas... (um “Mas” Maísculo, este) vocês não gostam de nós...?!?!”, “depois de tudo o que fizemos por vocês!”.

Confesso que após esta de nada mais me lembro. Abdiquei da sobremesa, mergulhei para o tal buraco e tapei-me.




(Maputo, Dezembro 2003)


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março 14, 2006

As viúvas

Na morte de Slobodan Milosevic, cuspindo-lhe na campa.

As viúvas


Um ninho de águias, Tesanj. Cognome de lá, não meu chavão, talvez coisa de tempos de um turismo que naquele então nem pensar. Certo que já era paz, musculada ainda, de músculos sempre retesados por comboios de tropas internacionais em constante desfile. Não num showing the flag, nisso andávamos nós, que para elas o trabalho era mesmo o showing the force. Uma paz assim ainda de mata-bichar ouvindo da vala comum descoberta na véspera e a não querer ir ver “que não é o meu papel” “e abutre não vou”. E também assim ainda coisa de minas de quando em vez a rebentar levando alguns, até de “nós”, meros passantes, e nisso sabê-las num esconsas para não-histórias aos netos, mesmo sendo parceiro de quem, afinal?, não sabe ler mapas e por isso ouvir, súbito, um “We’re lost!!” em terra batida, “We?, caralho, We?, agora? militar de merda!!...” sem o dizer pois para quê? nórdicos duns cabrões, ainda que a este a cagança loura lhe morra neste dia, agora mesmo, e num foda-se de cóboi à antiga, e repetindo quesefodas de homem de hoje, decidir, agora chefe, que quem segue o caminho do sol há-de lá chegar - “driver, follow the fucking sun!”, que é tão fácil o inglês quebrado unindo tanta origem junta -, chegar até a essas garrafas que quando vazias, e ainda para mais tantas, tão espelho são do nosso medo de afinal meninos. Tenros.

Mas paz, acima de tudo e talvez por esse tudo mesmo, de gente montanhesa de braços abertos, em abraços de urso feitos de muita aguardente, e obrigatória, comida sempre a deles, e muita, e antes durante e depois cigarros alcatrão, muitos, todos, e nem pensar em retribuir. A darem o pouco daquela época, a exigirem dar o pouco de então. Coração grande como o tal abraço, gente respeitando-nos mais do que os nossos espelhos o fazem, e dizem-no, porque ali estávamos, naquele “ali” do qual sabiam eles bem mais do que o saberíamos nós. Gente então de “entidades” diziam-lhes e diziam, coisa de meia dúzia de kms montes acima e abaixo da “bósnia” à “sérvia”, e sem querer, uma curvita ou outra apenas, e logo na “croata”, e caminho à frente mais ou menos o mesmo “puzzlar”, labirintos de lugarejos naquilo. E eu, entre o nós, olhando-lhes as “fronteiras” sem as ver, gente quente como nunca sentira, naqueles abraços de urso matando-se por uma moita a mais, carreiro a menos, terra pouca, montanha apertada, montículos de pedras, árvores, riachos talvez, vegetação nada mais do que noutras línguas é capim. Caralho ... Matando-se muito por coisa pouca, diria alguém de fora. Disse-o. E se das terras não víamos as diferenças entre as gentes também não, talvez, talvez do tempo curto por lá, nem um Verão inteiro foi. Nem da língua, essa com tantos nomes para a mesma. Nem dos comes, esses que já disse muitos, nem da tal sempre aguardente. Nem tampouco da moeda marco de mão-em-mão, aquele marco se calhar muito causa daquilo tudo fui-me repetindo.

Gente parecida, repito, curto visitante. Uma jovem intérprete, claro, que os mais velhos, os da minha idade já então sorria eu, de estrangeiro só alemão e nunca o russo (e a este muito nunca). Muçulmana, num assim como as minhas sobrinhas, mesma idade e tudo, até se calhar os modos, ali fugida da cidade maior, lá da planície. Bonita dos dezassete anos, maquilhada em tons estranhos de escuros, cinzentos e roxos acho que lembro, sensação que me era de guaches, e eu a estranhar aquele exótico sem poder adivinhar que aquela menina saída da guerra e agora montanhesa me avisava as cores da lisboa do ano seguinte. No sol de fim de tarde chama-me um casaco vermelho na ponte de Tesanj, como não ir?, um cigarro mal fumado de ainda indeciso, ambos em pequena conversa e eu a estragar (de propósito?) o flirt, ou talvez mero devaneio, num regressar ali mesmo “aren’t you the same?”, e ela juro que estremece, depois olha por sobre a ponte, para além do rio, e sorri-me, de súbito num lento sorriso já da minha idade, “Na cidade, na minha turma”, ainda menina de liceu a menina, “na minha turma éramos trinta e três. Trinta éramos filhos de casais mistos. E não sabíamos...” Não é agora que me vou perguntar se assim era ou do como, resta-me a imagem do absurdo. Fico só, na ponte de Tesanj com aquele casaco vermelho rutilante, pois ela, entretanto, foi algures. Logo regressa, e se não atira a cabeça para trás não importa pois eu invento-lho. Não a beijo, acho-me ridículo, e é despropositado, ainda não tenho idade para lhe beijar a testa. E onde mais o poderei, agora? Assim? Depois, seguimos devagar cidade abaixo e eu deixo-a no café dos jovens, um dos três barzecos da cidade. Talvez se vá divertir, não o posso adivinhar, perder-se entre os seus, não repetir conversas estafadas, não seguir as curiosidades dos outros. Velhos ou estrangeiros. Ambos?

Eu sigo, para um dos outros dois cafés-bares. Locais de encerrar dias, e bem cedo, na companhia do patrício da missão. Poucas falas alheias, ou mesmo nenhuma, a tal língua que não partilhamos. Acenos sim, até sorrisos. Mas mais pouco, talvez um “hi”, que é “ái”, aqui e acolá. Beber um pouco e ficarmos no comentar, no ver. Ver o também pouco de vilória que nos rodeia, da gente nela. E no suave gostar, terra de mulheres muito, mas mesmo muito bonitas, e ali em costume de saírem sozinhas, grupos de raparigas, muitas e belas. E de, entre os sorrisos, passarem a olhares aos quais não tens coragem de desviar os olhos. “Muçulmanas?” ainda me comentou o patrício, surpreso no início. “Haa ... nada... primas...”, hei-de ter replicado. Os dois em devaneios, como não?, mas acantonados no recém-casados que somos, e ali muito pouco-pouco, rindo-nos até de nós próprios, a parábola das nozes e dos dentes. Como não, diante de tanta mulher livre, em terra de tão poucos homens. Mas de noite em noite conhecemos gente, e faz-se mesa, as cervejas são língua franca, sabêmo-lo bem. Sorte nossa, entre três ou quatro tipos um deles, uma mão estropiada, fala um inglês, mau, até pior do que o nosso, mas vai traduzindo para todos a alegria de ali estarmos. E de bebermos. Lá para o meio, e isto por causa das tais raparigas que hoje, como nos outros dias, enchem o bar, hei-de perguntar afirmando, se isto de tanta mulher só não será por causa da emigração, terra de montanha os homens seguem ao estrangeiro, não? E ele que sim, para a Alemanha principalmente. E, e nisto até sorri, mostra-nos a mão sem dedos e vai dizendo, “Mas também houve a guerra. Eu combati num pelotão de homens aqui de Tesanj, fui ferido e fui o único que sobrevivi”. Nós ficamo-nos, nem gagos, mas vá lá que hoje não é momento de lutos, uns goles logo e mais umas cervejas, entre histórias da terra, um passado que faz vontades de falar, vontades de ouvir. E de rir, claro.

Eu, entre a música e os copos, ainda sobrevoo a conversa e olho as raparigas, ali divertindo-se. É meu o sobressalto, talvez só meu. São-me agora viúvas. Viúvas solteiras.

Hei-de beber demais.

[14.3.06]

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novembro 22, 2005

Homofobismo?

Nos tempos em que fui jovem andava por lá o costume de se mostrar a muita "macheza" (o que então era hetero, nem valerá a pena lembrá-lo). Coisa de baixa classe mas não só, também os então "queques", a classe média a querer-se alta. Nestes mais finos o macho era-se nos botãos da camisa desapertados, desvendando os pêlos do peito sonhados matagal e, fundamental, o cordão, se de ouro era um "must", que os adornava e iluminava (aos pêlos, claro). Sofriam os glabros. Discriminados, acontecia-lhes até raparem-se na esperança de incrementos futuros. No pessoal mais povo estes cuidados no trajar vinham juntos às calças justas, enrelevando a genitália, bem aconchegada, a cuja lhes exigia com grande afinco carinhos constantes sob forma de coçadura. Nesse caminho tempos depois chegou, acho que lá do Brasil, a moda da tanguinha, o quase fio-dental para homem barrasco aquando na praia. Dizem, que isso era mais lá pelas caparicas onde o povo se associava, eu isentei-me. Repugnado com a areia partilhada e, claro, fiel ao calção largo no quando e onde.

A rapaziada então era livre, ria-se dessas merdas, mais das dos forcaditos filhos-família do que das dos "ciganos", que destes ainda se tinha o respeito do não querer levar umas lambadas. Quem se apresentava nestes preparos logo levava com o labéu do "chulo", fosse-lhe o papá doutor ou estivador. Atributo que mais tarde estendemos aos que nos carros sentavam as mulheres nos bancos de trás, assim montando velozes o célebre "carro de chulos", arquétipo Ford Capri.

E nestes rodeios lá se fez o nosso pudor, coisa da boa-educação, coisa ensinada. Entenda-se, no carro a menina sentada ao nosso lado, sempre e não só para os melos. Nos trajes a camisa apenas com um botão desapertado e no abaixo-do-cinto a folga, algo indeterminada, que permitisse o implícito às potenciais interessadas, avaliadoras. Falo de coisas sérias, constantes, em despontando as penugens, em descobrindo-se protuberâncias, logo alguém o notaria, no entre-sarcasmos, "hé pá, tens cá tantos pêlos" quando não o ainda mais explícito "ó seu xuleco...". E se nos surpreendia alguma aflição epidérmica lá pelo baixo-ventre logo vinha o "olha a micose". Humor? Nada, o sarcasmo a mostrar como usar o corpito. Ou, de outra forma, que há sítio para tudo, até para as coceiras. Chamámos a isso liberdade. E usámo-la.

Vieram anos e novos trajares. Em muitos mais do que tudo maiores cintos, que as protuberâncias a folgar são agora as do ventre e não as abaixo. E as testas cada vez mais altas, até-à-nuca até. Nos outros, os que chegam, a moda foi mudando. A macheza à mostra multiplicou-se. Coisa agora homo, entenda-se. Os tiques os mesmos. A genitália relevada, os troncos apresentados. Novos tempos e vontades? Nada, coisa de velhas modas e da mesma barrasquice, nem mais.

Mudanças? em nós, no medo do sarcasmo, no "tem que ser" o que me impingem. Vou andando, quando lá, murmúrio para mim, "granda xulo" ali e acolá, mas enfim. Repito, murmúrio para mim mesmo, que já não é tempo para criticar outros, há que aceitar tudo e todos. Senão ... mal-visto e mal-quisto.

Há tempos, no por lá, fui ao doutoramento de colega e amigo. Nós, a claque, informais. Gente da ciência social, mestres de duplipensar correcto (nem todos, nem todos), coisa até do estatuto profissional, que tudo isso parece vir das leituras certas em tempo certo. Acolheram-nos candidato e participantes, dito júri, rídículos, quais curas medievais. Livre ainda, disse-o, aos que conhecia. Sorriram-me, até críticos daquilo, mas no "que queres?, são as normas" e logo na coimbrã coimbra. Enfim, mostrando-se, ainda que ali expectantes em dia de festa, livres para olhar o ridículo de vestes e poses. Sabendo do seu porquê. E até parecendo que sempre assim atentos. Mas não, mas não...

Depois das loas e incensos devidos ao vencedor avançámos aos comes e bebes de fim de tarde. Uns já desfardados outros mantendo-se no informal, nisso umas dezenas. A animar, que festa de doutoramento é momento. Fiquei-me um pouco de fora, anos cá fora, já muitos que não conheço ou não se interessam. Entre-copos estou ali com dois colegas, a fazer novas velhas conversas, e, súbito, avança um já não jovem, no cumprimentando-os. Todo ele justinho, claro, e a camisa aberta até ao umbigo, os tais (poucos) pêlos em radical anúncio.

"Quem é este paneleiro?" perguntei logo que ele saíu. "Éh pá, lá estás tu" dizem-me os colegas, no serem correctos. "Foda-se! Estou o quê?", "ah, estás a desatinar...", "estou a desatinar o quê? quem é este gajo?" "fulano, de tal", "ah, que paneleirote!". (Sor)risos, "não mudas", "não mudo?" (a irritar-me) "foda-se, isto é maneira de estar vestido? Aqui? Para afirmar o quê, aqui?"?", "ok, ok", "ok, ok o caralho, e se fosse eu a aparecer assim?" "ok, ok, é ridículo". E eu a calar-me, porque estamos a beber, a repetir as tais velhas conversas, as que não se concluem, as de amigos mesmo. E assim não me apetece o tal mal-visto e mal-quisto. Mas, ainda assim, hei-de continuar a dizer uns palavrões valentes. Pôrra ... onde está aquela liberdade? A de olhar o ridículo? O do ordinário.

Adenda: há comentários quase-post. Meus e alheios.

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outubro 20, 2005

Mini-conto

Simpático, o Francisco colocou a minha versão de conto mínimo.

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outubro 11, 2005

Eco em Lisboa

O Vitor Sousa narra as suas andanças por Itália e anuncia que assistirá a uma lição (haverá outra palavra para este caso?) de Umberto Eco em Pisa, e lá irá o bloguista de Pêndulo de Foucault debaixo de braço ao autógrafo.

E do que um tipo se lembra. E, ainda para mais, neste contexto até memórias nada cultas, diga-se. Eco esteve em Lisboa em 1983/4, acho que por alturas do Nome da Rosa. Houve uma sessão na Faculdade de Letras, aquilo foi uma romaria, lá fui eu também, a avançar sozinho desde o Iscte. Recordo um auditório, grande, cheio que nem um ovo, gente por todo o lado, nós putos claro, ali para ver o nome grande, um calor enorme a crescer logo no antes da coisa. Tudo tão abarrotado que fiquei quase à porta, lá em cima, em pé, a ouvir mais ou menos, mas mais para o menos. Ali junto um grupo de meninas das Letras, uma delas girissima, daquelas menina mesmo, e nem me ponho com poetices para a recordar, basta e sobra o menina mesmo, girissima, tanto que também então a provocar-me um "olha ... deixa-me estar aqui". E num pequeno depois empurram dali, "deixa passar" dacolá, "cuidado, pá!" aqui, "calma, porra!" ali, e foi um logo entre o esgar enfastiado com aquilo tudo e o(s) entre-sorriso(s) do falso "paciência!" até ao "isto assim não dá, nem vale a pena...", e o Eco ainda mal tinha começado a falar e nós também, conversa mais para um logo "e se fossemos embora daqui?", sem as outras meninas lá da turma claro, ditos mais dela, juro, sinceramente, se bem me lembro.

Bem, esta se calhar não é de blog, mas caramba, é o único Eco que tenho para contar.

E também convém não esquecer, ser puto é porreiro. Melhor dizendo, foi...

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agosto 21, 2005

Adriano Alcântara no Xiphefo

Não é a primeira vez que no Eclético se ecoa a poesia de Adriano Alcântara. Um gosto particular da MP pois, ainda que aqui de longe, não me parece que este seja poeta muito afamado.

E sempre que o leio lembro-me de como o conheci. E de como gostei e o invejei. Eu tinha chegado aqui há apenas alguns meses. Certo dia um futuro amigo disse-me que em Inhambane iria ocorrer uma festa, a comemoração do já décimo aniversário de uma associação cultural local, da qual eu já tinha ouvido falar, ainda que muito vagamente.

Foi pretexto imediato, eu não conhecia Inhambane, terra dita belissima, e sendo as comemorações num fim-de-semana fiz-me convidado. Ou seja, apareci. Para muito gostar da cidade, coisa que ficou. Das praias sim. Mas muito da cidade, o que é outra coisa. E também da tal associação cultural, uma tal de

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que então ia gerindo um centro cultural, coisa pequena mas boa, onde música, algum teatro, artes plásticas iam acontecendo. E convívio, sítio para jogar bilhar e beber uns copos. Coisas estas últimas fundamentais, que sem elas nada ocorre. Espaço crucial naquele Inhambane, e talvez seja preciso conhecer a terra para perceber tamanha importância em sítio de modorra e de desacontecimentos.

Mas o coração do Xiphefo era uma revista literária, mais dada à poesia, aberta ao exterior mas acima de tudo aos poetas locais, um grupo centrado em Momed Kadir, Guita Jr, e nos então já migrados Artur Minzo e Danilo Parbato. Ia então no décimo ano, nessa altura comemorativa editavam o número 19. Era assim, desde 1987, desde esses tempos duros da guerra, do isolamento, que em Inhambane um grupo de geração foi publicando uma revista literária, coisa assim como o que a célebre Charrua foi em Maputo, mas esta muito mais episódica. Espantoso. Épico até. Ou por outras palavras, um verdadeiro Xiphefo (lamparina).

Foi nessas comemorações que encontrei Adriano Alcântara, tinha vindo para tal, convidado pelo grupo. Então leitor em França (Poitiers? Bordeaux? não recordo bem) Alcântara tinha aqui sido nesses tempos de guerra (mais ou menos entre 1986-1988) professor de liceu cooperante, período no qual agitou aqueles jovens manhambanes, provocando essa geração. Os frutos dessa provocação estavam ali. A comemorarem-se. E com a grandeza da memória, a do terem chamado o tipo professor de então.

Lembro-me de o encontrar algo vagueando, eu num "então como está?", e ele, já um bocado velho, para aí com a idade que eu tenho agora, olhos abertos a sorver uma terra largada há quase 10 anos, num "isto mudou muito" de quase irreconhecimento e eu a pensar um "claro, deve ter mudado, e tu também". E lembro-me também de deixar para a minha mulher um "porra, este deixou aqui marca. Que mais é que um gajo pode querer na vida?".

A marca Xiphefo continuou por mais uns anos, recordo ainda de em Janeiro de 1998 lá ter visto o José Mucavele tocar no dia comemorativo dos 500 anos de Vasco da Gama em Moçambique, espectáculo até de madrugada. E do Mucavele me dizer, à mesa do melhor restaurante da cidade, o "Maçaroca", que não tocava na cidade desde 1979, há vinte anos já - o quão grande o país tinha sido nos anos de aperto. E de nos anos seguintes ter recebido mais revistas, assistido ao lançamento dos livros do Momed Kadir, do Guita Jr. Depois deixei de ter notícias, coisa normal, foi um grupo de geração, de duração longuíssima, é natural que se tenha ido esbroando. Trocado por homens a fazer coisas.

Se alguém conhecer o Adriano Alcântara, talvez a MP, digam-lhe que em Maputo está um Teixeira que o cruzou em Agosto de 1997 em Inhambane e que muito gostou desse tipo que por aqui andou em tempos

"...
coreografando vadios e mágicos
do orgulho da vida
o único bailado possível:
a obsessão de não ter dono
"

(Genética Obsessão, no Xiphefo, 18, Inhambane, Mai/Jun 97, p.15)


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julho 27, 2005

Aforismo de minha autoria dedicado ao aforismo do Lutz - quem tem heranças tem temperanças.

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julho 24, 2005

Velhas Gavetas. Qual Margerin na Gruta do Venâncio.

gruta do venancio aka margerin.jpg

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Velhas Gavetas. Gruta do Venâncio.

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Velhas Gavetas. Gruta do Venâncio.

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Velhas Gavetas. Motel Casablanca.

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Publicado por jpt às 05:01 PM

Velhas Gavetas. Vinte anos (pan-pan, tu vens cá?).

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Publicado por jpt às 04:53 PM

Velhas Gavetas. Um pouco menos straight.

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Publicado por jpt às 04:44 PM

Velhas gavetas. O futuro em 2003.

projeccao para 2003.jpg

Publicado por jpt às 05:28 AM

Velhas gavetas. Cromo da Bola.

bonanza no mexico.jpg

[Bonanza no México 1986]

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(Já) Velhas gavetas.

pes.jpg

"Even your's footprints are unforgettable".

Publicado por jpt às 04:32 AM