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Ma-Schamba: Portugal Politico Arquivos

março 29, 2006

Não tenho blogado sobre política lá no meu país.

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fevereiro 21, 2006

Já o terei dito, o Tugir é um exemplo máximo de como se pode blogar partidariamente alinhado e ser também livre: isso honra-os, concorde-se ou não. Houvesse mais gente assim.

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fevereiro 11, 2006

Da crueldade

Cruéis, meramente cruéis, Jcd e Paulo Gorjão, dois pesos pesados do bloguismo político português, atacam Vitalino Canas devido às suas declarações sobre o "caso caricatural". Não me parecem acertadas essas abordagens. Explico-me, ainda que consciente que em texto maçudo, longo e descritivo, e talvez apenas auto-interessante, coisa memorialista, até de intensidade incompreensível para quem não a viveu.

Lembro Vitalino Canas em Maputo. Em 1998 aqui aconteceram as primeiras eleições municipais, às quais a Renamo, então no zénite da sua influência política, se recusou a comparecer, alegando manipulações alheias. Eram então tempos de uma paz ainda recente, não tão sedimentada, de uma ciclicidade eleitoral ainda incipiente, até inóspita. Enfim, era notória a tensão política. Subitamente, uma semana antes das eleições, o então Secretário de Estado da Presidência Vitalino Canas surgiu em Maputo, no intuito de lançar um livro do qual tinha sido autor/coordenador (ainda que tal não seja explícito no livro). Entenda-se, Canas foi durante algum tempo aqui professor cooperante na UEM, tendo participado nos estudos de ordenamento jurídico da descentralização administrativa, modelo municipalista. Foi nesse sentido que surgiu esta muito digna obra colectiva, sete autores incluindo dois ministros moçambicanos, "Autarquias Locais em Moçambique. Antecedentes e Regime Jurídico" (Lisboa/Maputo, sem editor, 1998)

fe08_001.jpg

Mas, e é esse o ponto, naquele clima de tensão e contestação eleitoral o surgimento de um membro do governo português, a uma semana das eleições, numa actividade destas não podia deixar de ser entendido como um apoio eleitoral explícito. Enfim, intromissão. Certo que com alguma elegância poderia ter sido remetido (e bem remetido) para um diferente âmbito, a expressão de um apoio português (e internacional) à democraticidade eleitoral e ao modelo municipalista, ainda para mais este então pouco entendido pela população quanto às suas virtualidades. Enfim, algo supra-partidário, nem que fosse retórica de solidariedade internacional. [Sobre esse apoio, a exportação municipalista, que vincou a cooperação portuguesa nos anos 90 e seus efeitos, inclusivamente ao nível de redes, isso seria motivo para texto de out-blog].

Mas tal avisada abordagem, "de Estado", logo se desvaneceu. Aqui chegado Canas, em total efervescência, de imediato proclamou à RTP, numa entrevista que ficou conhecida como o "3 em 1", glosando o então conhecido anúncio de um "shampoo": "como membro do governo português sou neutro; como militante do PS apoio a Frelimo; individualmente apoio a Frelimo" - o "eu sou da Frelimo" ficou-se em conversas pessoais, diziam-me.

Constrangimento, claro, dos patrícios mais atentos que cá viviam. Num, e explicito, "se isto corre mal, os custos que estas coisas terão no futuro", pois "e o gajo na altura em Lisboa, não é nada com ele". Talvez postura erradas as nossas, e comparo-me, se eu que cá vivo, mero professor mas com contrato com o nosso Estado, nem em blog confesso hipotéticas preferências aqui, como foi possível aquilo? Mas, repito, talvez entendimentos errados os nossos, pois ele lá nas coisas da alta política e nós muito rasteirinhos, na nossa vidinha.

Bem, lá se lançou o livro, no meio do constrangimento nosso, mas que havia de se fazer, o homem tinha gosto pessoal naquilo e era do governo. Político manda, funcionário funciona, e nós, povo, paisajamos. Ainda sorri, triste, no logo após-cerimónia, com os dizeres de um gente lá do alto cá, companheiro num "ficar para trás" no mão-dada daqui, "isto não era necessário". Mas era um gosto pessoal, que fazer?

E daí lá se avançou para aquele que até foi o motivo "oficial" da tal viagem. Comemorando-se então o 10 de Junho Canas representou o governo nas festividades. Na véspera do dia das comunidades avançou parte da comunidade para jantar com S.Exa no Hotel Rovuma. Por "parte da comunidade" entenda-se o creme do pastel, prontos para ouvir mensagem governamental em tempos, naquele final de milénio, de reaproximação, convulsa é certo, de países e economias, muita conversa e alguma uva. Eu, emprego oblige, lá estava.

Que viria dizer o secretário de Estado do Primeiro-Ministro a esta gente? Dizer-nos? Ainda para mais um homem de alguma vivência recente aqui? Que ideias para aqueles momentos de tensão política mas também de reânimo das relações entre países? Era o ano "gâmico" (1998) e o consul (então um tipo decentísimo e competentíssimo, um Senhor de trabalho) leu o texto vindo de Lisboa e seguiu-se-lhe o então sua excelência.

Avançou para aquela plateia, notoriamente constituída por quadros de empresas então aqui instaladas, que era tempo de bastante movimento nesse sentido, gente em comissão 2/4 anos que sempre se quer trampolim para o regresso mais tarde ou mais cedo; e portugueses de cá, algo como "comendadores" e "proto-comendadores", e suas descendências já, gente de décadas senão mesmo nascimento aqui, cruzando o ocaso de Portugal aqui e sua guerra, boiando no comunismo depois, emagrecendo ao "tempo do carapau e repolho", sobrevivendo à guerra civil e ainda encontrando modos de reaprenderem a economia mercantil que aí está, dura também. Sempre de longe a olhar Portugal, até com desconfianças, fundamentadas ou não isso é outra coisa. Ao qual regressam se nos seus finais, e apenas se filhos e netos para lá partidos, e sempre nesse regresso apressando a morte ainda que esta já então próxima.

E diante de tal plateia logo vieram os apelos/conselhos, decerto bem pensados pois até escritos: o primeiro, explícito e sonante, "não regressem", pois Portugal precisa de nós aqui, seguindo-nos com atenção e solidariedade. No intra-mesas sorrisos dos quadros expatriados num "isto não é para nós, é para os outros, os velhos". E semicerrares nos "outros", esses da tanta tarimba, do tão escaldados, logo em vários "quem é este caralho para nos dizer para não voltar?", e alguns destes bem vizinhos do meu bacalhau. Depois, outro conselho, o final, uma pérola: "organizem-se politicamente, associem-se nesse sentido, participem na vida política do país". Então já foi coisa de inter-mesas, esgares partilhados, "de onde saíu este tipo?". Os portugueses a participarem na vida política, associados? Em Moçambique? Em 1998? Um membro do governo a dizer-nos isto? E nós, todos decerto, a imaginarmos a bronca que seria. Eu à mesa, emprego oblige repito, a desculpá-lo na ironia "o gajo pensa que está em Newark", a incentivar à eleição de um senador ou governador lusodescendente, decerto a desejar imitar as kennedyces dos irlandeses, geração a geração.

Logo saímos dali. Elevadores abaixo e depois em múltiplos "mais um tolo! só nos mandam disto!", dos risos tão habituais mas sempre entristecidos, ainda que soltos em gargalhadas. E eu, entre apertos de mão e combinações de "onde é que vamos agora beber um whisky?" a negar isso, num "não, não, caramba, não são todos assim". Pois, por mais que às vezes pareça o contrário, os gajos não são todos iguais. Pois, e garanto, naquele nível nunca encontrei tão fraquinho.

E é desta memória, já bem antiga, de Vitalino Canas, pobre homem, que retiro o desacordo com os tais bloguistas. O homem é assim. Cumpre-nos apenas solidariedade. De ateu. Ou, em sendo cristão, caridade.

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fevereiro 08, 2006

Espero não ofender ninguém, com elos ("links") desapropriados a sensibilidades alheias.

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O outro dia era a Isabel Pires de Lima.

Publicado por jpt às 09:56 PM | Comentários (0) | TrackBack

janeiro 11, 2006

O Azeite&Azia fez o favor de associar o meu Portugal, colocado ali em baixo, a este Países Imperfeitos, colocado no Agridoce, e onde se ecoa texto de António Barreto. Obrigado.

Publicado por jpt às 08:32 PM | Comentários (0) | TrackBack

janeiro 10, 2006

O comboio muito rápido

Jcd como Jcd. 100 bloguistas destes e construía-se um império (intra-fronteiriço, intra-fronteiriço ...). Mas como não fica Portugal socialista com o "comboio (rápido) descendente".

Publicado por jpt às 12:46 PM | Comentários (0) | TrackBack

janeiro 08, 2006

Portugal

[modificado e completado, pois encontrei o recorte do texto referido]

O melhor texto sobre Portugal que li durante o ano passado não foi nenhum "ensaio" de café de filósofo conceituado. Nem post brilhante de bloguista talentoso. Foi, imagine-se, um editorial do jornal Público, abaixo transcrito.

Está lá tudo sobre o país que é. Não nos surpreendamos, um país há vinte anos inundado de ajuda pública ao desenvolvimento, vulgo cooperação (isso que em Portugal é eufemisticamente chamado de "fundos estruturais"), só se pode corromper. A gestão de riqueza não-produzida é mais passível de corruptora do que a de riqueza produzida, nem que seja porque esta "tem donos", tem quem a controle. (A bem dizer a dita "riqueza não-produzida", a tal APD, é produzida diplomática e politicamente e paga-se, mas isso é complicar-me o argumento). Os ignorantes muito falam da corrupção em África e bem podiam exercer o espírito comparativo a ver se abrem os olhos.

Esse texto jornalístico, esse "Joaquim Pina Moura", mostra o país. E mostra, ao limite do essencial a essência do PS. Moldado desde a sua legalidade na gestão patrimonial dos bens públicos, na apropriação partidária (e por essa via também pessoal) dos bens sociais. Blindado por essa figura cuja biografia monográfica urge fazer para perceber esta II República, o anterior vitalício Provedor. Orientalizado em Macau. E crismado no guterrismo, ante um país espantado, saído de uma laranjização corrupta do país (com Cavaco, apesar de muitos pensarem que "apesar de Cavaco". Eu acho que "até com Cavaco".) e julgando que ia para melhor. Mas não indo. Bem pelo contrário.

E agora com avatares. De Guterres, óbvio. Socrates foi o homem do PS, do verdadeiro PS, desse que qualquer homem de bem abominará, se assim se entender. De Pina Moura, até por analogias político-biográficos. Está aí, aeroportizando. Essa gente "anda aí". No poder. E não há como ser gente de bem e teclar por eles, fechando a honra e vendendo os olhos. O respeito democrático, o respeito pelas diferentes opiniões, cessa diante da aldrabice. De quem rouba. E de quem defende.

Em alguns blogs (no Da Literatura, no Portugal dos Pequeninos) discute-se agora a minudência do Teatro Nacional. Não posso deixar de sorrir diante da indignação ingénua. Pois o "socialismo", o "ps" é "isto". Um a um, passo a passo, canto a recanto, coisa enorme ou quasi-nadas. "Está-lhes na natureza", como na piada do escorpião. Na realidade está na mundivisão dessa gente, que nada é natural neste mundo de homens. Gente acantonada, vivendo da fidelidade, da submissão, de "favorismo" em "favorismo". Assim. E está também, está fundamentalmente, em quem lhes aperta a mão, apesar de ...

A merda toda é que acima de tudo a culpa é, sei-o bem, minha.

[abaixo transcrição do texto]

Joaquim Pina Moura.jpg

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dezembro 15, 2005

Soares vs Alegre

Doeu ver como dois velhos amigos e companheiros, grandes símbolos do meu Portugal democrático, chisparam raios e coriscos. Mais uma desilusão. Nada é para sempre, nem mesmo a amizade. Tantas cumplicidades, tantas batalhas para, na dita idade da sabedoria, tudo se esfumar. É triste!
MS

Publicado por jpt às 05:40 PM | Comentários (15) | TrackBack

Soares vs Alegre

Doeu ver como dois velhos amigos e companheiros, grandes símbolos do meu Portugal democrático, chisparam raios e coriscos. Mais uma desilusão. Nada é para sempre, nem mesmo a amizade. Tantas cumplicidades, tantas batalhas para, na dita idade da sabedoria, tudo se esfumar. É triste!
MS

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Mário Soares abusará um pouco ao repetir-se na denominacão "Caixa Geral dos Depósitos"?

(isto não é uma declaracão de voto).

(MS)

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novembro 21, 2005

Os 4 macaquinhos

Há dias referi uma pobre e triste peça de propaganda política acoitada no blog pró-presidência de Mário Soares.

Na altura referi, para além do mau-gosto explícito, a pobreza de conhecimentos do bloguista em causa. Eis o comprovativo em forma de imagem:

Cimg2037.jpg

[autoria de mestre Upinde, entretanto falecido]

Publicado por jpt às 02:55 AM | Comentários (0) | TrackBack

novembro 17, 2005

Noblesse oblige

["adendei"]

Via Adufe chego ao sítio onde o governo português está a divulgar os estudos técnicos que fundamentam a sua decisão de construir novo aeroporto. Algo a que se tinha comprometido realizar durante o mês transacto. Talvez também pelo impacto que a Micro-causa a isto dedicada JPP decidiu avançar e que também aqui ecoei.

Noblesse oblige, se o governo se comprometeu a divulgar e o está a fazer quem o exigiu que o refira e publicite. Sobre as críticas, voluptuosas acho, a quem exigiu esta divulgação ver o citado texto no Adufe. [adenda: e, caso interesse, também por lá botei nos comentários. O que ali começa a ser hábito]

Publicado por jpt às 08:44 PM | Comentários (4) | TrackBack

Se eu votasse

votaria neste texto. Presidencial.

Publicado por jpt às 10:33 AM | Comentários (0) | TrackBack

novembro 14, 2005

Um contributo.

Publicado por jpt às 09:37 AM | Comentários (0) | TrackBack

novembro 01, 2005

Outros que questionam

Outros que questionam.

Publicado por jpt às 05:49 PM | Comentários (0) | TrackBack

Lembrando uma Micro-Causa

[Maputo, 01.43 h, 1.11.2005; a olhar Portugal, 11.43 h, 31.10.2005, hora de Lisboa]

Lembrando esta micro-causa: o governo português comprometeu-se a divulgar na internet durante o mês de Outubro os estudos prévios que sustentam a opção pelo novo aeroporto da Ota e pela construção do TGV. Esses que agora serão "actualizados" por novos estudos.

Irão os serviços governamentais colocá-los na internet nestes últimos 17 minutos do mês que por lá ainda restam? Ou poderemos concluir que a decisão foi tomada sobre critérios políticos e não sobre os anunciados estudos técnicos? Poderemos concluir que mero voluntarismo?

Publicado por jpt às 01:46 AM | Comentários (0) | TrackBack

outubro 26, 2005

Aquela coisa de que estamos à espera

Falar daquela coisa de que estamos à espera antes da meia-noite de 1 de Novembro é, muito obviamente, uma excitação juvenil. O sorriso será muito maior, e muito mais triste também, se só nesse momento. Um postal sorriso triste nessa meia-noite. Mas não antes.

Publicado por jpt às 01:30 AM | Comentários (0) | TrackBack

O Grau Menos Muitos da Argumentação

(assim tipo Bloguítica).

Das presidenciais portuguesas não digo. Aliás, já disse: não voto. Se votasse não votaria em Manuel Alegre. Nem desgosto, é mais por causa daquele livro "CHE" (Caminho, 1996):

A serra está em nós. Começa
em certas noites no nosso próprio quarto
irrompe subitamente sobre a mesa de trabalho
pode aparecer à esquina
em plena rua

...

Inútil discutir estratégia ou táctica.
Inútil saber se entre a serra e a cidade
há ligação ou não.
O que importa é o impulso que vem de dentro
subir a uma montanha dentro de si
olhar em frente e dizer:
"Sejamos realistas
exijamos
o impossível"

...

Há uma possibilidade de Che em cada um

...

De todos os guerrilheiros
ele é o único insepulto
nem sequer se sabe se ressuscitou
ao terceiro dia.
Não está em parte nenhuma
o que significa que pode estar em toda a parte


Não critico a poesia, quem sou eu. E nem por esse guevarismo o afasto. Do que está no poema, dessa "serra", quem me dera subi-la, vivê-la. Não é por isso. É mesma coisa de geração, Che é-lhe como a tantos coisa ícone, símbolo de melhorar, mudar, rasgar. Pena que "inútil discutir estratégia ou táctica", porque é mesmo isso que é útil. Ícone dele, ajudar-lhe-á a sentir e pensar, ele e alguma da gente dessa era. Eu venho depois, minhas coisas ícones foram mais Kiff the Riff, Rust Never Sleeps e o Lou Reed a chutar-se em palco, serras outras ou se calhar não. Eu não me chutava, mas estes guevaristas e os alter-guevaristas de agora também de guerrilheiros só quando saem do sofá em excursão a Porto Alegre (Viva PT, viva Lula): estamos na mesma?

Nem tanto, pelo menos com Alegre. Ele ainda no Guevara e eu não me imaginando aos 50 e tal anos a escrever loas aos chutos alive. Coisa de arranjar novos ícones, talvez. Ou de me desiconizar. Toda a diferença. Uma serra de diferença.

****

A propósito de quê o arrazoado? É que ao ler a ordinarice no A Praia (sem elo, momento higiénico) deu-me uma urgência de Alegre a Presidente. E lembrei-me da história dos colos de Santana Lopes. Que isto das ordinarices, e eu sei-o bem que as pratico e quem cá vem sabe-o bem, quando se têm são mesmo propositadas. Que gaffe, isso é outra coisa.

Diante desta gente o que há é uma cordilheira de diferença. Não de nascença. É mesmo na vida.

Publicado por jpt às 12:59 AM | Comentários (0) | TrackBack

outubro 24, 2005

"O professor de Boliqueime"

Totalmente de acordo com o Walter Rodrigues, bloguista insuspeito de tendências cavaquistas, na sua crítica aos que invectivam "o professor de Boliqueime". Cito-o: "...essa expressão tem de implícito racismo social e sobranceria pequeno burguesa urbana pretensamente (mas só pretensamente) cosmopolita.".

Lembro-me da minha já velha irritação com tais arrivistas, disfarçados de "esquerda": aqui e aqui

Publicado por jpt às 02:04 AM | Comentários (3) | TrackBack

outubro 21, 2005

Cavaco Silva Presidente?

Pois...

Jornal da Tarde, RTP-África, 22.10.2005. Vitalino Canas*, porta-voz do Partido Socialista comentando anúncio da candidatura de Cavaco Silva à Presidência da República:

" ... não ficou claro o que o Pres ....ââ ... Professor Cavaco etc., etc."

(*declaração de interesse: se há alguém na política portuguesa por quem eu nutra um "ódio de estimação" é exactamente Vitalino Canas, ecos de uma absurda visita a Moçambique. Mas afianço que hoje isso não me perturbou a audição)

Publicado por jpt às 06:29 PM | Comentários (0) | TrackBack

abril 13, 2005

Portugal no seu melhor

Um post favorito do meu blog político favorito. Imperdível.

Publicado por jpt às 06:24 PM | Comentários (1)

fevereiro 10, 2005

O jornal Público pasquinou

Ao inventar o apoio de Cavaco Silva ao Partido Socialista o jornal "Público" não errou. O jornal "Público" pasquinou.

Pessoas honradas não escrevem num pasquim. Sobre nenhum assunto.

Será interessante ver quantos colaboradores ou jornalistas se retirarão do pasquim. Até então não têm credibilidade na indignação. Porque colaboracionistas.

Publicado por jpt às 04:41 PM | Comentários (9)

fevereiro 03, 2005

Não percebo (outra vez)

Como acabei de dizer cá para mim é assim. E para esta rapaziada, como será? Afinal não tão grave? Via Jaquinzinhos, no seu mais que muito melhor.

Lá o meu país ficou uma mistura de Comboio Fantasma e Casa de Espelhos, desses ambulantes de província. Fora de moda, claro.

Publicado por jpt às 01:36 AM

fevereiro 02, 2005

Não percebo

Cá para mim é assim. Mas não percebo razões para o incómodo desse(s) para quem "a ética da República é a lei". Terá explicação? [texto abaixo transcrito]

Público
1 Fevereiro 2005

Ultrapassados "limites indesejáveis" em democracia
António Guterres insurge-se contra "boatos e rumores" na campanha


O presidente da Internacional Socialista, António Guterres, insurgiu-se hoje contra o recurso a "boatos e rumores" na campanha eleitoral e advertiu que poderão estar a ser ultrapassados "limites indesejáveis" em democracia.

António Guterres falava antes de um almoço em Lisboa com o ex-primeiro-ministro francês Lionel Jospin, com o secretário-geral do PS, José Sócrates, e com o ex-comissário europeu António Vitorino.

O ex-primeiro-ministro não especificou nem a fonte nem o alvo dos "boatos" e dos "rumores", mas salientou que "é necessário dar à vida política a dignidade que ela merece".

"É um péssimo serviço à democracia que se faça uma campanha pelo boato ou pelo rumor. Seja pelo que for, seja contra quem for, isso é irrelevante", declarou o ex-primeiro-ministro.

Guterres considerou ainda que, na presente campanha eleitoral, "estão a ultrapassar-se limites que são indesejáveis" e referiu que nas eleições de 20 de Fevereiro "está em causa saber quem vai governar Portugal".

"Espero que os portugueses dêem uma maioria absoluta ao PS", reiterou Guterres, antes de se referir ao ex-primeiro-ministro francês Lionel Jospin como "uma personalidade que marcou a história do socialismo na Europa".

Publicado por jpt às 03:42 PM

janeiro 31, 2005

João César das Neves no seu Melhor (II)

Abaixo usei este título para disfrutar o desvendar público da hipocrisia política lá pela lusa esquerda baixa. À falta de melhor retomo-o para sublinhar (que já nem é desvendar) a bandalheira política lá pelo luso centro alto: a história dos colos de PSL é inenarrável.

Como é que um tipo (medianamente) decente consegue votar nesta gente? Haverá algum bloguista que me elucide sobre a alquimia intelectual necessária? Ou calar-se-ão, envergonhados?

Em bom português, ganda nojo!!!

Publicado por jpt às 01:40 AM

janeiro 29, 2005

Comme il faut

Os políticos portugueses bem traduzidos em bloguês.

Publicado por jpt às 08:41 PM | Comentários (1)

janeiro 26, 2005

Críticos do Ma-schamba...

Ao longo do tempo tenho recebido via email, via comentários, ou até (suprema honraria) via posts alhures, algumas críticas às minhas botaduras políticas. As quais acato, claro está. E agradeço, quem critica visita, dá-se ao trabalho de clicar para aqui.

No coração dessas críticas está a minha mania de igualar os políticos portugueses, de os "achar todos iguais". Como disse acato as palavras, mas não concordo, não penso isso. E tenho aqui um belo exemplo para o provar, um patrício político que muito aprecio.

Então cito o jornal Público, edição de hoje, a propósito da distribuição da fotografia do PM português por todas as juntas de freguesia. Nesta edição se ecoam as palavras "[D]O social-democrata que encabeça Rebordãos, em Bragança, tem ainda menos papas na língua: "A foto foi para o arquivo, como as dos outros [anteriores primeiros-ministro]. Eles se quiserem mostrar-se que venham cá". Grande homem!

Sem ponta de ironia.

Rodapé inquiritivo: o meu dicionário não tem, no prontuário não me desembrulho, o visitante Ortógrafo Ortodoxo desapareceu, que hei-de fazer quanto ao plural de "primeiro-ministro" que tenho tanto de certeza como de desagrado sonoro?

Publicado por jpt às 06:38 PM | Comentários (9)

Feiticeiros ao Teclado

Cá de longe, e apesar da conubial e festejada aliança tv com satélite, não se alcançam esses debates televisivos entre os homens-cabeça dos partidos portugueses. Curioso, persigo os ecos de tais contendas neste campus blogus.

Fico-me à deriva. Pelos dextrímanos sei desse campeão Portas destroçando o vil Louçã, para logo de seguida, voraz e com desarrincanço, enviar arriba abaixo o velho Jerónimo. Noutras paragens, daquelas canhas, louvam-se a acutilância de Louçã, qual Átila devastador de Portas (apesar dos [a]pesares...), e ainda a rochosa presença de Jerónimo, afinal ele mesmo qual arriba. E estamos ainda nos começares dos andares. Deix(t)o-me pois a imaginar futuras lendas e narrativas.

Apraz-me a companhia de tanto velho feiticeiro, queridos colegas, e comove-me ver emergir esses recém dotados para estas artes do influir, assim sabendo-as imorredoiras. Sim, creio nesta eficiência,

jn19^001.jpg

mas não sendo conservador, ciente do pequeno algo que vai mudando, muito me entusiasma o uso destas novas técnicas nas nossas maneiras,

Keyboard.jpg

hoje de tecla em tecla criando imagens e palavras condizentes, tão filhas dos nossos desejos, logo instalando-as em ecrã luzidio. E, saibam, será assim o mundo como nós o sonhamos, o queremos, sob esses para quem "trabalhámos". Contra outros, protegidos por esses "falsários", meros charlatões, gentes sem poderes que apenas amesquinha a nossa profissão.

Publicado por jpt às 05:37 PM | Comentários (2)

janeiro 23, 2005

A engolir o cepticismo

A engolir o meu cepticismo aqui vertido, referindo estes textos no Avatares do Desejo, no Os Tempos que Correm e, muito em especial, no A Natureza do Mal.

Adenda: um comentário do leitor Mário Cordeiro no Abrupto resume e mata a questão.

Publicado por jpt às 12:09 PM | Comentários (12)

janeiro 22, 2005

Poderes mágicos do Ma-schamba? Ou mera empiria?

Poderes mágicos do Ma-Schamba? Ou mera empiria?

Há um mês escrevi, e há muito que o penso, este texto lembrando o futuro (a curto prazo) do meu país. Hoje fizeram-lhe um elo [link] [texto abaixo transcrito].

É o pós-folclorismo.

Portas Admite Entendimentos com Socialistas
Público
Sábado, 22 de Janeiro de 2005

No mesmo debate em que ouviu Francisco Louçã recusar-lhe o direito de falar sobre aborto por não ter filhos, o líder do CDS, Paulo Portas, admitiu ter entendimentos com o PS, desde que seja para defender "valores fundamentais", como a política de defesa ou de relações externas.

""Vamos ler a vontade dos portugueses. Em princípio o PS tem os seus aliados naturais e não está à espera que o seu aliado natural seja o CDS-PP, mas há valores essenciais que eu defenderei sempre", disse Paulo Portas, para quem "a política de defesa ou internacional não podem ficar dependentes do PCP ou do Bloco de Esquerda", pois estes partidos defendem a saída de Portugal da NATO e são contra o Tratado de Constituição da União Europeia.

Portas, contudo, fez questão de salientar que "o CDS tem um aliado natural que é o PSD", enquanto os "aliados naturais" do PS são o BE e o PCP

Publicado por jpt às 10:27 AM

janeiro 21, 2005

João César das Neves no seu Melhor!

Eu sei que prometi a mim mesmo não maschambar política portuguesa, que me torna ácido, me cansa e, acima de tudo, me desblogueia. E há tanto teclado nisso, e ainda bem que a política é dos cidadãos e não dos mandarins, para quê mais um, ainda por cima agricultor incompetente.

Mas ao ler notícia sobre o debate entre Portas (Paulo) e Louçã [abaixo transcrito parcelarmente, corte para demonstrar o que interessa] não pude deixar de gargalhar mudo, esta é deliciosa. O Prof. Francisco Louçã a falar assim? Ajoujado aos preconceitos, o "quem não é bom pai não é do Benfica?".

Até dá vontade de ir clicar o bloguismo BE, decerto a esta hora almoçal já estão cheios de críticas ao reaccionarismo do homem. Iradas. Indexadoras. Denunciando o "discurso de direita", afinal esse antanho lá no âmago.

Ou talvez não, que isto de ir ao fundo não cabe no "girismo". Adivinho silêncios, que não serão hipócritas, serão sim naturais naquele vazio.

"Quer ser califa no lugar do califa?". Então Má Sorte, é o que se deseja.

Urghh...que gente!

Debate televisivo entre líderes do Bloco de Esquerda e do CDS/PP
Portas e Louçã travaram debate aceso a propósito do aborto e da banca

Lusa
O líder do CDS/PP, Paulo Portas, e o dirigente do Bloco de Esquerda (BE) Francisco Louçã travaram ontem à noite um debate aceso na SIC Notícias, com troca de acusações a propósito do aborto e da banca.

No final do debate, que durou cerca de uma hora, Paulo Portas acusou o BE de não defender o direito a nascer e Francisco Louçã reagiu, argumentando que o líder do CDS/PP "não tem direito a falar de vida".

"Há uma vida que tem o direito a nascer ou não, de acordo com o BE não tem, de acordo connosco tem", disse Paulo Portas, para justificar a posição do CDS/PP a favor do "actual quadro legal" que penaliza o aborto com pena de prisão de até três anos.

"Não me fale de vida, não tem direito a falar de vida", interrompeu o dirigente do BE.

"Quem é o senhor para me dar ou não o direito de falar?", protestou Paulo Portas, levando Louçã a responder: "O senhor não sabe o que é gerar uma vida. Eu tenho uma filha. Sei o que é o sorriso de uma criança".
....

Publicado por jpt às 01:24 PM | Comentários (9)

janeiro 13, 2005

Jorge Sampaio

Todos os velhos se repetem, geração após geração, "já não há respeito", "já não há valores", a lenga-lenga do "ó tempo volta para trás" mas desafinada.

A "Política Real" é a "Política Real" e há que saber viver com isso, ainda que com alguma parcimónia. Mas isto existe, até é cartografável.
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Jorge Sampaio fez-se político contra uma ditadura. Fez-se político numa era de luta pela defesa do direito à auto-determinação dos povos. Ao lê-lo hoje digo "já não há valores", "já não há respeito". Envelheci, eu? Rejuvenesceu, ele? Não sei. Mas já não há valores, já não há respeito.

Não há dúvida, fui eu que envelheci. E mal de mim, a dor dos velhos não é só a idade, é a de acabarem sós.

Publicado por jpt às 08:19 PM | Comentários (6)

janeiro 04, 2005

Ano novo, blog novo?

Vinha eu de férias, todo pimpão, anunciar que para as eleições portuguesas de já daqui a bocado apoiaria o MPT. Um bocado por ecologia, um bocado à falta de melhor, um bocado apesar da tontice que lá lhes li um dia sobre uma tal de "lusofonia".

E afinal chego e deu-lhes uma de "Verdes"? Abaixo, abaixo.

Males que (me) vêm por bem. Por um lado pois nunca abdiquei da minha mesinha de voto, ali à D. Aleixo Corte-Real, pelo que não votarei. Por outro lado "Ano novo, blog novo?" e, com esta ajuda, vou-me prometer um blog livre de política lusa. Sei-me (auto)mentiroso. Mas ainda assim, a ver vou...

Publicado por jpt às 04:05 PM | Comentários (2)

dezembro 01, 2004

Dia de futuras eleições (a seguir)

Ironia, dia de eleições aqui e de anúncio de eleições em Portugal. Impeliu-me à escrita, um Dia de Futuras Eleições inútil. Pois muito melhor (o que é natural) escreveu José Manuel Fernandes [abaixo transcrito, a ligação é perecível] dizendo exactamente o que eu quis então dizer.

Muito mais do que eu quis ou conseguiria dizer aqui está o melhor do blogoportugal de hoje (ontem).

Que Venha a Boa Moeda
Por JOSÉ MANUEL FERNANDES
Público
Quarta-feira, 01 de Dezembro de 2004

Em Julho a justificação de Jorge Sampaio para a designação de Santana Lopes como primeiro-ministro tinha duas componentes: uma de reafirmação das virtudes e das regras do parlamentarismo; outra de recordação de que poderia utilizar a qualquer momento a "bomba atómica" que possui, a de dissolução da Assembleia da República. Foi o que ontem fez. De forma absolutamente coerente com a sua forma de agir e pensar e com o que tem vindo a dizer ao país.

Jorge Sampaio sabe que, hoje como em Julho, há no Parlamento uma maioria parlamentar que sustenta o Governo. Mas também sabe que a simples existência dessa maioria não é suficiente para assegurar uma governabilidade estável. Ou seja, o Presidente deu a oportunidade a Santana Lopes de provar que estava à altura de ser primeiro-ministro - este encarregou-se de provar que não estava.

Em Julho ter dissolvido a Assembleia teria sido uma decisão política "ad hominem", legítima mas com fragilidades. Em Novembro, após tudo o que se passou, aquilo que se temia e para que o próprio Sampaio avisara passou a ser uma decisão lógica.

Nestes quatro meses o primeiro-ministro começou por encarregar-se de demonstrar que ele próprio era um foco de instabilidade política, prometendo num dia o que desprometia no seguinte, atrapalhando os seus ministros - incluindo os que eram competentes e esforçados - e demonstrando, para quem tivesse dúvidas, que vive dos jornais, pelos jornais e para os jornais. Conseguiu desestabilizar a coligação governamental, criando uma enorme tensão no seu interior pois o desastre anunciado para que estava a conduzir o PSD levou à revolta das bases que, mesmo submetidas à vontade do "capo" eleitoral, não deixaram de manifestar ruidosamente o que pensavam no recente congresso do partido. Conseguiu criar um clima de cortar à faca em todos os órgãos de comunicação onde o Estado tem, directa ou indirectamente, uma presença, umas vezes por vontade própria, outras por declarações acéfalas de alguns ministros, por fim fazendo com que todos passassem a vigiar todos e a desconfiar de todos. Tentou inverter o discurso político sobre o estado da economia, criando um clima contrário à consolidação orçamental, a obsessão do anterior Executivo e que ele deliberadamente incumpriu. Criou um tal clima de desconfiança e falta de coerência sobre o que nos poderia surpreender no dia seguinte que até muitos empresários que, em Julho, se tinham manifestado a favor da não dissolução começaram a perceber que qualquer outra solução era melhor que esta orquestra dirigida por um maestro que em vez de música criava ruído à sua volta.

Desta forma, sistemática e persistente, Santana Lopes foi incumprindo os pontos que Jorge Sampaio considerara essenciais, na sua comunicação de Julho, para reconduzir a maioria. Mas o mais grave, a gota de água que terá por fim feito Jorge Sampaio perceber que não era mais possível "aguentar" o Governo sem se tornar, de uma forma irreversível, cúmplice dele, foram os desconchavos do último fim-de-semana. Primeiro, descobrir que o primeiro-ministro não tinha qualquer escrúpulo em invocar o seu nome para manter no Governo alguém contra sua vontade. Depois, que havia gente no Governo que num dia jurava servir o país com lealdade e, no final da semana, acusava o núcleo central do Executivo de deslealdade, batendo com a porta. Pelo caminho ler um artigo de Cavaco Silva deixando cair, de vez, o líder do seu partido para, logo a seguir, ver o primeiro-ministro utilizar uma cerimónia de Estado - uma inauguração - para lhe responder, fazendo uma lamentável rábula sobre bebés, incubadoras e estaladas. E, por fim, entender que Santana estava cego, surdo e mudo a todos os seus avisos.

Não fazia parte dos planos de Jorge Sampaio interromper a legislatura a meio. Até porque está empenhado em algo que sente ser fundamental para o país e para a Europa - a boa realização do referendo sobre o Tratado Constitucional e a vitória do "sim" - e sabe que uma eleição conturbada pode comprometer esse objectivo. Mas já não era possível continuar a ser ele a alimentar o bebé na incubadora: talvez salvasse o bebé, mas o país ia-se afundando. Por isso utilizou a "bomba atómica". Não era mais possível continuar a sustentar um Governo que se autodestruía vorazmente, comprometendo pelo caminho o futuro de todos nós.

Por tudo isso é que agora, como em Julho, Sampaio agiu de acordo com o melhor da sua consciência e fiel aos seus princípios. Possam agora as eleições que se seguem conseguir o que Cavaco sugeria no seu artigo do passado sábado: que a moeda boa seja capaz de afastar a moeda má.

Publicado por jpt às 02:48 PM | Comentários (1)

Dia de futuras eleições

Já por aqui o disse várias vezes, sou eleitor do PR (e LNT se isto não chega para acabar com esses rótulos "a la" não sei que mais lhe diga), e muito apreciei o que fez ao empossar este governo português.

Fez então bem Jorge Sampaio defendendo o sistema político parlamentar. Se a tendência é a marketização da política, via pessoalização, então que se combata esta defendendo o espírito do regime. Onde escrevo "espírito" claro que significo "razão". Uma dita "esquerda" irracional e incompetente clamou, furibunda, pela negação do sistema político. Mandando às malvas (digo, mandando à merda) qualquer respeito por valores que sempre anunciou seus.

Jorge Sampaio fez então actuar as regras do sistema (as quais, é certo lhe abriam outra hipótese). Mas acima de tudo fez então actuar o espírito do sistema. Teve a dignidade de não agir por presunção política.

Jorge Sampaio fez agora actuar as regras do sistema (as quais, é certo lhe abriam outra hipótese). Mas acima de tudo fez agora actuar o espírito do sistema. Teve a dignidade de agir por avaliação política.

Poderia ter previsto, poderia ter pré-avaliado? Acho que sim, PSL não é flor que se cheire. Mas decerto que com deficit de legitimidade, devido ao preconceito que lhe estaria subjacente. E acima de tudo, seria uma pré-avaliação pessoalizada, contrária ao espírito do sistema político.

A Jorge Sampaio não lhe perdoarão os partidos à esquerda a decisão primeira. Nem tampouco lhe perdoarão os restantes partidos a decisão segunda. E, ainda que flutuando estrategicamente, não lhe perdoarão os fazedores de opinião e os jornalistas de todos os lados. Bem como a maioria do mundo bloguista, dos vários quadrantes [acabo de sair do Blasfémias onde alguns comentários são absolutamente execráveis, ainda assim saudados por alguns blasfemos, em vero delírio barnabaico]. O homem ficará sozinho face aos condutores actuais da opinião pública.

Por isso mesmo vou gostar de olhar para a evolução das sondagens da sua popularidade nos próximos meses. E estou certo que face a estas virão todos esses sábios (e blogosábios) políticos afirmar que o povo não só é povo como é ignaro e impávido. Além de povo, claro está.

Publicado por jpt às 03:23 AM | Comentários (6)

novembro 26, 2004

Buttiglione mais ainda

Ao meu texto Rodrigo Moita de Deus dedicou uma nota. Respondo, já atrasado, até fora de moda, que isto de dialogar com blogs colectivos é difícil, ainda para mais se atentarmos na azáfama que vai no Acidental.

Sobre Buttiglione pouco poderei avançar. Acho que a questão é política e não religiosa mas isso já foi escalpelizada até ao queixo, para quê insistir? Concordo com RMD que muitos políticos separaram a religião do exercício do poder (e alguns até em termos absolutos, infelizmente, que há sempre uns mandamentos que conviria não esquecer). E nada tenho contra gente de fé a exercer o poder: o maldito "motor de busca" não me dá acesso às minhas falas de ateu, mas não me vejo numa "condição ateia" face à política (ou a outra coisa qualquer). Mas desconfio de quem se vê numa condição religiosa face ao poder. Mas lá está, isso não é sinónimo de um religioso no poder.

RMD citou Guterres e eu resmunguei. Diz ele que embora católico pouco praticante também se teria ajoelhado face ao Papa. Nem contesto. Eu próprio, ateu não baptizado comporto-me de modo diferente, mais grave, diante dos padres - sorrio ao exemplo, mas ainda há meses, jantando cá em casa com um padre bom amigo, homem especial de décadas aqui, saíu-me um "porra" ou "merda" qualquer, tão habituais me são estes, mas então fiquei atrapalhadissimo, a pedir-lhe desculpa, e o homem a rir-se num "ó zé, deixa-te disso".

Mas eu não escrevi resmungo por António Guterres se ter ajoelhado diante do Papa. Eu escrevi resmungo porque António Guterres, primeiro-ministro da minha República, se ajoelhou diante do Papa. O que é totalmente diferente. E inadmissível.

Finalmente, e regressando a Buttiglione, apenas porque ele é a fonte desta questão sobre o papel dos católicos na política. Lamento que ninguém que dele se sinta próximo tenha por aqui passado para responder à minha irónica pergunta, serão as viúvas piores mães?

Mas insisto, agora sem ironia: a minha mãe enviuvou muito jovem, com três filhos. Assim viveu cerca de dez anos. Foi má mãe para os meus irmãos? Conviria trazerem-me a teologia para mo explicar. E um viúvo, a criar robots [robots na teologia?]?

Deixemo-nos de coisas, Buttiglione é apenas um ultramontano, anacrónico. De moral execrável. E não é o facto de se escudar numa "condição católica" que lhe apaga esse negrume, moral e intelectual (essa impiedade?). Ou seja, não serve para ser base de uma reflexão sobre as ligações entre a religião católica e a política.

E mais não digo, que se RMD já teme parecer beato também eu já entrevejo o anti-cristo no espelho.

Publicado por jpt às 03:14 AM

novembro 20, 2004

Blogar

é liberdade, dizer um bocado o que nos vem à cabeça. Não um emprego ou negócio, não mais do que expressar opiniões e gostos. Um espaço de liberdade, repito. Descomprometido.

Escrevi para aí uma lenga-lenga implicitando que há uma responsabilidade social na blogoescrita: milhares de caracteres para dizer o óbvio. Mas que não seja ela fundamentalista. Que isto do blog em blog não é escola de virtudes. Borregue-se aqui o que não se borrega out-blog.

Mas ainda assim. É por FNV, cujo recente regresso ao blogando foi óptimo acontecimento, que dou de ecrãs com esta prosa de Ana Gomes:O "Kroes" da Comissária Nelly, lê-se Cruz. Será que tanto talento empresarial não se explica por costela de antepassado judeu/cristão novo português, como é marca de boa parte da elite holandesa (quem ficou a perder fomos nós!) ?.

Lido à letra, assim citação desencaixada, apenas pré-conceitos históricos, até despropositados, de quem esquece Espinoza (ainda que ostracizado pelos seus) ou nem a divulgação de Le Goff leu. Informações e memórias contextualizadoras e complexificadoras destes pré-conceitos.

Mas se não lido à letra, se contextualizando este recuperar da imagem de uma tendência colectiva (imanente) do judeu para o comércio e usura (no texto implicita-se o mercenário), é óbvio que não são pré-conceitos são explícitos preconceitos, desvalorizadores. Indutores de atitudes. Agitados ao vento por mera política. E pequena.

Ainda que neste espaço descomprometido só posso lamentar. Sem repúdio, que está calor demais para tais fluxos. E lamentar também que quem isto (re)agita seja embaixadora da minha República.

Este Ma-schamba gentio é também quixotesco (imbecil, é isso). E diante disto dá-lhe para a "atitude", decerto nada importante: apesar de cidadãos como MMLM ou VM a ligação com o Causa Nossa é apagada. Porque há limites. Ainda que em blogs.

E só para que não digam que isto é sharonite aguda, sobre esta trama este Ma-schamba não só gentio como ateu tem este norte, que descobriu no Estaleiro: Arafat foi o rosto visível de uma causa que todos nós consideramos justa." (Cardeal José Policarpo).


ADENDA: o Lutz comentou, discordando e considerando-me rigoroso em demasia. Talvez. Tentei colocar resposta mas não consigo inserir o comentário - o próprio Ma-Schamba a revoltar-se com o exagerado "rigor"? A ganhar vida?

Devido a essa resistência técnica ponho aqui o quereria colocar nos comentários, mas só é explícito lendo o que lá foi anteriormente comentado.

"1. Meu caro, não misturemos o que não é de misturar. Uma coisa é a política, em que Brandt tinha mais do que razão. Outra coisa é isto do blogar. Diferentes em grau e natureza. Se há algo que eu possa comparar com o blogar é não a política mas sim o "conversar". E não converso com isto.

2. Rigoroso? Se estas afirmações estivessem num blog encimado com o Infante D. Henrique, a cruz de cristo ou outro símbolo "muito Estado Novo" o que se diria? Se fossem num blog num político conhecido de um partido de direita (há-os, escuso-me à deselegância de citar nomes) o que se diria?

3. Nem acho anti-semitismo perigoso. Acho mero reflexo preconceituoso (nem me passa pela cabeça que a senhora se ponha a perseguir indivíduos). É apenas, e lendo o post é óbvio, anti-barrosismo. Pequena política fazendo apelo "a tudo o que vem à mão" (à cabeça) - Brandt não tem a nada a ver com isto, e estarás de acordo.

4. Não é uma cidadã qualquer a brincar aos blogs. É deputada, foi dirigente política e, mais do que tudo, foi (e voltará a ser?) Embaixadora do meu país. Representou e representará a República, até simbolicamente (com a bandeira à porta, não esqueças). Este ecoar público de preconceitos rasteiros è inadmissível. Se quiseres, conspurca a minha bandeira.

5. o causa nossa não precisa da ligação para nada. Tem gente fantástica? tem, mas também não tem ninguém que se tenha demarcado do tom - e há blogs colectivos onde isso acontece. Mas isso não é da minha conta, cada blog como cada qual
abraço"

Publicado por jpt às 02:06 PM | Comentários (4)

novembro 17, 2004

É o avisado WR que

É o avisado WR que chama a atenção: a política como elemento racionalizador tendente ao bem comum? a política como elemento racionalizador defendendo interesses particulares?

Agora vou ali ao nyamussoro, saber quem ganhará as eleições de Dezembro.
Vou no meu carro, velho, mas em primeira mão.

[Texto do Público reproduzido abaixo, pois as ligações são perecíveis]

Alto Astral
Por JOSÉ VITOR MALHEIROS
Terça-feira, 16 de Novembro de 2004

"Eu quero que o país vá subindo no seu astral!" Estas palavras de Santana Lopes, proferidas do púlpito no discurso de encerramento do último congresso do PPD-PSD-PSL, são o que se chama um grito de alma. Não é "Cogito ergo sum", nem "I have a dream", mas cada nação produz o que produz. No nosso caso é mais bolos.

Não fique preocupado, se não souber ao certo o que é "o astral". Uma breve consulta ao "Dicionário da Língua Portuguesa Contemporânea" da Academia das Ciências de Lisboa explica que a expressão (para além de querer dizer "relativo aos astros" quando é usada como adjectivo, mas não é isso que interessa) vem da teosofia e do ocultismo e descreve o "plano intermediário entre o físico e o espiritual, povoado de almas e espíritos, só observado pelos videntes e hipnóticos" ou a "parte fluida do ser humano, intermediária entre o corpo físico e a alma". Claro que a expressão vem do Brasil, onde, ainda segundo o DLPC, quer dizer "disposição de espírito" ou "humor". De onde vem este significado? Você tá bobo, cara? De astro mesmo, né? Todo mundo sabe que humor e amor é coisa de astro, são eles que ficam colocando a gente nesse plano ou no outro e sobem ou baixam o astrau da gente. Não sabia mesmo? Santana sabe.

Outro primeiro-ministro poderia ter falado de brio, de projecto, de ânimo, de sonho, de ambição, de futuro, de trabalho, de empenhamento, de desafio, mas Santana sabe falar ao povo na sua própria língua e saiu o astral!

Mas não se pense que saiu por acaso. O astral presta-se mais à banha da cobra do que o projecto e até do que o sonho, porque o astral não depende nem do trabalho (lagarto, lagarto), nem do desejo, nem sequer de nós. Só depende dos astros, dos deuses, dos alinhamentos siderais, dessa coisa etérea que é a coisa nenhuma. Nem é preciso querer, astral é astral, acontece à gente sem a gente querer. Além de que o astral é sentimental ("Me liga!"), tem a ver com destino, com coisas escritas nos céus com pozinho de estrelas e não exige nenhum mas nenhum esforço. Astrau é assim mesmo! Como se faz para melhorar o astral? Incríveu! Você não sabe? Relaxe! Nada melhor para o astrau! Não sabe como? Beba uma caipirinha. Duas!

O astral é ainda melhor do que a Nossa Senhora de Fátima (Paulo Portas foi definitivamente ultrapassado), porque é mais moderno, não fere susceptibilidades e não acarreta nenhuma obrigação. A Nossa Senhora é uma mãe severa que persevera, mas o austral é uma boa. A Nossa Senhora estava bem para os tempos de austeridade, mas a austeridade já era. Agora é o astral.

Desvendado o astral percebemos melhor o novo símbolo do PSD-PPD-PSL: é um satélite a ser colocado em órbita, em direcção aos astros, uma espécie de guerra das estrelas, mas para criar alinhamentos de Mercúrio com Vénus, para fortalecer o astral. Será que José Sócrates já percebeu que a sua ideia das novas fronteiras acaba de lhe ser roubada mesmo debaixo do nariz?

Depois do astral já percebemos porque é que a palavra de ordem do primeiro dia do congresso era "verdade" e a do segundo dia "confiança". É que, quando se prega a verdade, o povo pode ficar com ideia de que tem direito a alguma coisa e até pode começar a fazer perguntas, mas com a confiança não há riscos. Confie! Não pergunte, não diga, não duvide! Suba o astral! Relaxe. Deixe tudo na mão do PSLPSDPP. Beba mais uma caipirinha. Me liga!

Publicado por jpt às 09:44 AM

outubro 12, 2004

Blog Parlamentar

A propósito do blog do parlamentar português Carlos Rodrigues, e sem me querer armar em censor e em moralista. O homem, arqueólogo amador decerto, decidiu homenagear a FLAMA. Até teria piada se fosse aqui no weblog ou no blogspot ou afins.

Mas ao usar os meios meios informáticos do Parlamento, da República, para o fazer não estará a pisar o risco? Claro que é deputado, politicamente inimputável. Mas isto não transgride nenhuma lei? É legítimo usar os meios da República para defender organizações separatistas?

Quanto ao bom senso, enfim, vindo de onde vem...hoje no telejornal Jardim subindo para cima do elefante disse tudo. E votei eu nestes merdas...

Publicado por jpt às 02:55 AM | Comentários (1)

outubro 08, 2004

Sobre Marcelo

já tinha escrito, com ligação ao Blasfémias. Foi a 22 de Setembro [bom dia para antevisões, o outro post de então também está muito actual].

Publicado por jpt às 01:36 AM

setembro 01, 2004

O Barco e o resto

O emigrante também assiste. E pergunta-se, preocupado à distância. Se numa coisa destas o governo do meu Portugal vai para este despautério como reagirá caso surja alguma coisa realmente séria?

Que tudo corra bem é o meu desejo. Porque caso contrário é óbvio que estes não o aguentam.

Maldito destino este, o do "Atrás de mim virá...".

Publicado por jpt às 02:14 AM

julho 26, 2004

vício? ou um "a mim ninguém me cala"?

Pós-post, depois de uns dias a dizer que não valia a pena. Mas não resisti, há gente (e seus apoiantes) que não merecem o silêncio.

[É uma fala de etnógrafo]

1. Sempre me irritou a auto-imagem (reconfortante) da superioridade da esquerda (até quando me pensava como sendo de esquerda).:

- Superioridade intelectual: "Antes de mais, não considero que um intelectual exista sem ser "de esquerda". É certo que há pessoas que escrevem livros e que pertencem à direita. Mas para mim, não basta que um homem faça funcionar a sua inteligência para que seja um intelectual. Neste caso, não existiria já qualquer distinção entre um manual e os homens que lêem..." (J.-P. Sartre, O Escritor não é Político?, D.Quixote, 1971) - [é um mero exemplo, até arqueológico pois hoje pouco se lê o homem. Deste género abundam os exemplares.];

- Superioridade moral [não tenho o célebre A Superioridade Moral dos Comunistas, de Cunhal, não posso partilhar trecho elucidativo]. A afirmação da superioridade moral dos mais ou menos M-L, dizendo-se dedicados à causa radical da minoria maioritária dos desapossados da terra, dos pauperizados. Esta já não me irrita tanto. Crescido que fui no tempo de Xiaopings, Polpots, Brejnevs e seus clones é indignação para a qual já dei, em tempo útil.

Mas também a superioridade dos mais ou menos Sociais-Democratas, dedicados à estranha causa do "bem comum", como se a sociedade fosse um caldeirão de alquimista ou mera "sopa de pedra" (o "diálogo não-optativo" como paradigma). Que hoje não se legitimam moral e politicamente por defenderem "explorados" mas porque se vêem como equidistantes aos pérfidos "interesses": eles são a razão, aquela que se quer ordenadora dos egoísmos alheios, colectivos e individuais. É o fio de prumo, moral e político, cuja independência induz justiça social.


2. Acredito na necessidade e bondade da Ajuda Pública ao Desenvolvimento (vulgo cooperação). Porque as disparidades são gigantescas. Inenarráveis mesmo.

É uma obrigação moral. Como não ajudar populações que em média vivem menos de 40 anos? Em subnutrição crónica? Pejados de doenças facilmente debeladas? Com taxas de nados-mortos e de mortalidade infantil astronómicas?
Que significariam conceitos de "civilização", "humanismo", "desenvolvimento", ou até de "complexo judaico-cristão" se se negasse esta necessidade?

É uma obrigação ecológica. Um dos factores de destrução radical dos ecossistemas é absoluta pauperização de centenas de milhões de pessoas.

É uma obrigação política. Global, pois o combate à pobreza ajuda a paz regional. Reduz (previsivelmente) as migrações. Desenvolve as relações internacionais, políticas, diplomáticas, culturais e, não esquecer, comerciais.

Mas também nacional. Pois Portugal comprometeu-se a fazer crescer a percentagem do seu PIB para a APD [0,7%, 0,8%?]. Ainda que não cumpra esse compromisso, aí acompanhando grande parte dos países da OCDE.
E porque no âmbito das suas relações externas, em especial com os PALOP, a "cooperação" pode ser forte instrumento de política externa, se eficientemente conduzida. Portanto válida para os interesses nacionais, nos países onde se coopera mas também na própria UE, afirmando-se como polo de diálogo internacional.


3. Há iluminados que negam a validade da "cooperação". Porque a vêm como donativos para regimes de cleptocracias corruptas. Para essa gente abaixo do Sahel tudo é similar, negro. Não aprenderam nada com a história. De tal forma que nem percebem o presente.

Esquecem que os regimes não são todos iguais, ainda que todos sejam criticáveis (é da ontologia do poder o ser criticável). Que Angola não é África do Sul. Que Zâmbia não é Libéria. Que Tanzânia não é Quénia. Que Botswana não é Zimbabwe. Que Gana não é Burundi.

Esquecem que os regimes são todos criticáveis, ainda que nem todos iguais. Que a corrupção é endémica às sociedades modernas. As mais industrializadas. As menos.

E esquecem que as cleptocracias não são apenas africanas. Há-as por aí. E houve-as. De cleptocracia terratenente basta ir ler o More, nas nossas origens. Ou reler toda a história dos EUA e Austrália, aqui misturado com genocídio. Ou a história irlandesa. Ou a história dos nossos queridos irmãos brasileiros (onde com Lula aumentou o abate da floresta virgem). Ou a cleptocracia terratenente estatal russa. Que agora mudou, pois já não é estatal. [Um povo que insulta Eduardo dos Santos mas que se orgulha com o Chelsea é um povo de imbecis]. E tantos outros casos. Antes e hoje.

Mas abaixo do Sahel é tudo negro. Para os iluminados. E para alguns outros também.

Esses iluminados, e seus pares, esquecem também que de "crise" em "crise" vivem numa sociedade de espantosa abundância, que lhes é segura pelo contrato social entre riquissimos, ricos e remediados: as sociedades "ocidentais". Gente que come muito. Literalmente. Mesmo que tenha os seus salários congelados dois anos, coitados...Ainda assim obesos. É um contrato social. E a lutazinha que vai havendo é pela distribuição dos respectivos quinhões intra-muros.

[Porque vem isto? É a fala de um etnógrafo]


4. Na "crise" política portuguesa sai o poeta/ficcionista Manuel Alegre a candidatar-se. Cantando, sendo, a "esquerda", aquela social-democrata, socialismo democrático, o que seja. A independente dos interesses malévolos. A da justiça social (mesmo que só fabiana). Aquela a quem ninguém cala, lutando contra a mercantilização da política, o "tvísmo", a "imagem". O vácuo. A heroína dos povos.

A seu lado apenas uma pessoa, ali simbólica. Maria de Belém Roseira, a ex-ministra de saúde. Ela também a esquerda solidária, independente. Franca. De conteúdo. Eles o inverso da decadência alheia. O inverso do vácuo, da imagem. Da alienação, da heroína dos povos.

Há alguns anos Maria de Belém Roseira esteve em Maputo como Ministra. Veio então com uma comitiva de 30 e tal pessoas (!?). Jornalistas de jornais de referência. Que fimdesemanaram na Inhaca "tudo tratado pelo dr. X", um comitivo aqui em representação de indústria farmacêutica.

Maria de Belém contactou com este sistema de saúde. Paupérrimo. Mas estruturado ainda assim. Defeituoso. Mas de pé. Corrompido? Talvez, mas acima de tudo subremunerado. Um mundo muito para lá de Dickens. Mas um mundo, não um caos.

[Um mundo que me diz muito, não só por solidariedade. Também pelo kms a pé em busca de quem me explicasse ser mera sarna aquilo que não conhecia e aterrorizava; que me sossegasse diarreias quando sanguinolentas; que me acalmasse quando esses outros sangues se rebelavam por outros orifícios; que me desiludisse das doenças mortais que afinal não tenho; que me acordasse dos delírios da malária - um mundo de Dante, o qual nós, brancos ricos, vivemos como breve e acidental interregno, apenas paliativo até à clínica particular da "cidade grande", mas vivêmo-lo juntos a quem o tem como horizonte definitivo]

Maria de Belém, a esquerda independente, corajosa, sem que ninguém lhe tivesse pedido foi a Nampula (com os 30 e tal comitivos, jornalistas pré-Inhaca inclusos), acompanhada pelo ministro moçambicano. Sem que ninguém lhe tivesse pedido afirmou, confirmou, discursou que iria dar 1,5 milhões de contos para reabilitar o Hospital Provincial de Nampula.

Maria de Belém colheu fotos disso. Não se coíbiu à gentileza moçambicana. Foi descerrar a cerimónia de entrega de uma frota de ambulâncias ao Ministério de Saúde em Nampula. O representante holandês, o doador, nem queria acreditar e lá se esforçou por aparecer na foto. Acho que conseguiu. Os jornalistas pré-Inhaca fotografaram, e narraram.

A mim disseram-me aqui, sete meses depois: "pois, desde que apanharam o avião nem mais um telefonema". Nunca mais disseram nada. Prometeu, em nome de Portugal, uma ajuda ao hospital da capital provincial, da província mais populosa, onde se vive em condições terriveis de saúde. E, em nome de Portugal, nunca mais disse nada.

Depois, quando lhe tiraram o ministério da saúde, ainda protestou, que queria que lhe criassem o Ministério da Cooperação. Só para ela, decerto devido a este tipo de pergaminhos.

(os iluminados dirão que não tinha nada que oferecer o dinheiro português. Nem discuto. Mas então não o dizia. Não o prometia em meu nome. Acompanhada pelos representantes das farmacêuticas. E pelos jornalistas pré/pós Inhaca. A fotografarem e a narrarem).

Eu não tenho liberdade de sentir vergonha do meu país. É uma violência sobre mim, não é uma liberdade.

Maria de Belém e os seus são a esquerda independente, a trova do vento que passa, a justiça social democrática, o combate aos interesses escondidos. O conteúdo. A superioridade moral. E, até, a superioridade intelectual.

Pois, cá debaixo do pedestal, diante deles eu sou só um cão...mas um cão que de pecadilho em pecadilho ainda tem honra suficiente para a apalavrar junto ao que escreve. E para se envergonhar dessa gente. Para os desprezar, ainda que eles se digam superiores. "Eu seja ceguinho" se não os desprezo. "Eu seja ceguinho" se os esquecer.

[há uns anos, aquando das terríveis cheias de 2000 em Moçambique, o Público colocou uma carta de leitor minha, apelando à ajuda. Em Portugal a esquerda superior no poder demorava a reagir às imagens da RTP-África, à espera de não sei o quê (sei muito bem, demorava à espera da associação com a UE, para que fosse mais visível a intervenção portuguesa, e para que surgissemos como motores dessa ajuda). Já aí fui o tal cão envergonhado. Fica essa carta abaixo, para qualquer interessado]

TIMOR E MEIO DEBAIXO DE ÁGUA

Um Timor e meio levado pelas águas e tanto tardamos a acordar. Porque não havia o complexo de culpa como despertador? Ou porque não havia um ciclo imperial para, sonâmbulos, fecharmos? Daí chegam os jornais e o rosário de críticas. Percebe-se a raiva da impotência. Praguejemos então, juntos!

Com efeito o Infulene, o Maputo, o Inkomati, transbordaram há já um mês. Há quanto tempo publicou o "Público" o triste lamento do Nelson Saúte? Ontem saíam botes holandeses para a zona de Marracuene. Lamento, a ajuda é sempre bem vinda, mas as águas já baixaram, já há gente na praia da Macaneta - as gentes do mundo são bem estranhas, provou-o o frenético Carnaval nesta baixa de Maputo.

Claro que os governos reagem às televisões. Horrível? E se elas não existissem, que fariam os governos? Talvez nada. O estranho é que a RTP-África acompanhou o desaguar. Será que a água filmada pela equipa da RTP não é tão assustadora como a da BBC? Ou será que ninguém vê a RTP-África - o que explicaria esse inprojecto?

Tarde chegou a ajuda de emergência! Mas chegou, urge deixar o praguejo e planear uma rápida e futura ajuda na reconstrução, efectiva, realista e desinteresseira. Diz o Ministro que "Não somos uma potência global" e di-lo com muito acerto. É que logo no aeroporto de Mavalane as memórias do Império impregnam a nossa administração pública. Incluam pois a frase na cartilha das delegações.

Que fazer?, a velha questão. Só prometer o possível, em termos de financiamentos e recursos humanos. Óbvio? Só para quem não conhece a prática do Estado português em Moçambique, a falta de respeito e, acima de tudo, a falta de auto-respeito das missões palradoras. Neste momento a fraternidade com Moçambique exige um Estado burguesmente decente e honesto. Nada mais! Até porque, por maior que seja o desespero local, e talvez ainda mais por isso, quem não se dá ao respeito não é respeitado.

Para começar pode o Ministério da Saúde avançar de imediato com o milhão e meio de contos para o Hospital de Nampula e para o projecto de cooperação na saúde em Gaza (sim, é a agora célebre Xai-Xai) que a senhora ministra aqui prometeu (sem que ninguém lhe tivesse pedido tal) em Julho passado, rodeada dos seus trinta e tal comitivos. Como me diz um amigo da área da saúde "desde então nem mais um telefonema". Só esta piada da Sra. Ministra significa mais do que toda a ajuda de emergência por nós entregue!

PS1. Em Julho acontecerá em Maputo a cimeira da CPLP. Será um bom momento para frente a esta baía cremarmos o sonho de Aparecido de Oliveira. É que se nem agora funcionou...e, pior, ninguém reparou!
Sairemos então da baía, para lá da Inhaca, deixando ao mar as suas cinzas. Xanana poderá fazê-lo, nesta terra tão mais fraterna para os seus, nunca aqui escondidos detrás de tapumes ou de ministeriais agendas cheias.

PS2. Quem não se dá ao respeito não é respeitado! E quem não respeita os seus mais velhos ainda pior! E Mário Soares é o mais velho da nossa II República, goste-se ou não. Deixar desrespeitá-lo "Por um Punhado de Dólares" significa que o nosso Estado não é nem decente nem honesto, pelo que o atrás escrito prescreve.

Maputo, 7 de Março de 2000


Publicado no Público de 9 de Março de 2000

Publicado por jpt às 06:28 PM | Comentários (30)

julho 13, 2004

Fábula política

[ainda para o LNT]

Por imprensa e blogosfera portuguesa encontro, nos últimos dias, uma verdadeira escatologia. O país moribundo, o "vinte e cinco de abril" morto, o futuro comprometido, a nação traída, a democracia rasgada. Gente chorosa, alquebrada, suicídio de blogs, enfim, uma ladaínha. As carpideiras soltaram-se, e não há quem lhes ponha cobro.

Imbecilidades? Um bocadinho. Mas compreendo-as. Já passei pelo mesmo. Vou contar (o Ma-schamba está-se a tornar numa Autobiografia Oficial antes de tempo, publicada em fascículos. Enfim, mania das grandezas).

Quando Guterres atirou a toalha para o chão, perdão, para o pântano, rejubilei. Estava farto dos nenúfares na boca e do lodo nos pés. E enregelado.

O meu amigo Zé Filipe, que estava cá de férias, lembrar-se-á bem dessa noite de autárquicas, a cada um dos baronetes que vinha gemer a derrota gritávamos como se fosse golo. E a partir das tantas da manhã íamos acordar a Inês, para que viesse ela ver a cara dos bichos, na hora da derrota (o Gomes, a alegria quando o Gomes foi barranco abaixo, até o capachinho lhe parecia descolado).

O João Soares, o que nos rimos apesar de lisboetas (ok,ok). Arrogante imbecil, deitou fora a Câmara - se Santana Lopes chega à Câmara, trampolim para PM a culpa é dele, que lhe ofereceu a dita cuja por menos de 800 votos. Agora ninguém se lembra, mas com o Vasco Lourenço como director de campanha, o Vasco Gonçalves a anunciar o fascismo, idem para o Cunhal, mas que raio é que estava o tonto à espera? Deitou fora por incompetência e ainda anda por aí, a dizer-se pro-califa.

Bem e lá se foi o Guterres. O PS entrou em concílio (literalmente, não esquecer). A Inês voou para Lisboa, o meu amigo Zé Filipe voou para a Ilha e Cabo Delgado. Eu fiquei sozinho uns dias em Maputo, que ia seguir para o Niassa. Nesse entretanto um dia chego a casa, cansado, ligo a RTP-África (estava mesmo cansado) e no telejornal anunciam quem seria o mais que provável próximo nº 1 do PS e, então ainda se pensava, muito provável Primeiro-Ministro.

Fiquei transido, fiquei devastado. Era o pior de tudo, a expectativa da perfídia étnica, do mais puro e abjecto tribalismo no poder, da ascensão do compadrio radical, corrupto e incompetente. O desrespeito total pela cidadania. Coisas sabidas, e de perto.

Levantei-me do sofá, alquebrado como nunca tinha estado desde as porradas que levei na tropa. E assumi uma decisão racional. Esqueci o modesto jantar caseiro (estava em casa sozinho, nada de luxos) e fui até ao Rodízio Real, o mais caro e mais requintado restaurante de Maputo. Fui lá ganhar ânimo, gastar dinheiro para revigorar a alma. Debati-me com um naco de carne, saboreei lenta e solitariamente um Esporão regular que aqui assume preços de hidromel. E convoquei o carrinho das espirituosas, sabendo que no Maputo de hoje é ali o único sítio onde sabem aquecer um balão de aguardente. Aquecidos que foram alguns regressei a casa. Mais animado. Mas ainda aterrorizado. E com a decisão tomada.

Logo que em casa telefonei a dois amigos, feitos aqui. Gente de alguns galões lá no partido do LNT [está a ver, não sou assim tão fundamentalista]. "Estás cá, pá?" foi o que cada um à sua vez logo me disse, surpresos pelo inopinado. "Náááda!!", balbuciei, também a cada um deles. "Estou a telefonar por causa disso do PS! Se vocês escolhem esse filhodaputa para chefe entrego o meu passaporte aqui no consulado. E para visitar os meus pais vou até Badajoz e eles vão lá ter comigo. Não entro mais nessa merda de país". Os gajos riram-se, à vez já o disse. E um deles, sacana, desarmou-me, lesto no "ó zé, não vale a pena, podes entrar com o BI".

Fiquei-me. E não há outro termo para o definir. Fodido!

Bem lá passou um dia, e afinal não foi bem assim, mudaram de chefe proposto. Ao novo chefe, impoluto dizem-no, ainda o vi na televisão no último sábado de campanha eleitoral: manhã em Bragança com Armando Vara; de tarde em Matosinhos com Narciso Miranda (na lota?).

E depois perderam as eleições. Que alívio.

E ainda não fui a Badajoz.

Publicado por jpt às 02:48 PM | Comentários (3)

Os efeitos da retórica

Os efeitos da retórica são estranhos. Quais serão os mecanismos que fazem actuar? Que critérios agridem ou bajulam? Porque e como reagimos à sua presença?

Nestas férias semestrais em pleno inverno ríspido tenho lido muito. E nada me desagradou tanto como ver o nome do meu PR acrescentado de um segundo apelido (Jorge Branco Sampaio?).

Como factor de óbvia desvalorização, a criar uma situação de afastamento, por infamiliaridade. Como se Sampaio tivesse mudado de nome, de personalidade. Como este desusado apelido simbolizasse algo da sua personalidade só agora conhecido, desvendado. Como a sua descoberta significasse também a da falsidade do indivíduo

Pela manipulação do nome um atentado moral.

Há gente muito estúpida.

Publicado por jpt às 01:19 PM | Comentários (2)

julho 12, 2004

Ainda a política (e não é só a portuguesa)

A visitar como sempre o excelente Quartzo, Feldspato & Mica (huf). Para chocar com texto, presumo que uma colaboração de leitor.

Cito trechos (é melhor ler todo, que isto de seleccionar excertos arrisca sempre a manipulação), porque condensam uma série de arrazoados que por aí pululam em nome da democracia, mas que são objectivamente anti-democráticos.

1. "Temia, além disso, o sempre propalado argumento da "estabilidade", usado a torto e a direito por alguns opositores da Democracia Participativa sempre que a sede de poder económico e político se sobrepõem ao interesse nacional..."

Já aqui escrevi (não lembro quando) que a adjectivação da democracia normalmente deriva da recuperação, explícita ou implícita, da velha noção comunista de "democracia formal", siamesa da "democracia burguesa". Fiquemos pois a saber do que se trata.

A democracia exige participação. E há poderosas forças sociais que tendem para a redução dessa dimensão. A qual não se esgota em eleições. Há pois que melhorar a participação, potenciar a cidadania.

O que nos divide é uma questão de hierarquia. Quem concorda que uma democracia participativa é fundamentalmente representativa, que implica uma delegação, ainda que efectiva e activamente controlada.

Ora a representação passa fundamentalmente por legislaturas de quatro anos. Não como dogma. Mas como padrão. E essas são representação e participação. Não é por se votar de dois em dois anos que a participação aumenta.

Ora nestes discursos "participativos" surge, sistematicamente, a desvalorização, a subalternização, da representação face à participação. Aquela deficitária face a esta quanto a legitimidade. E sem que se conceptualizem quais os critérios dos "agentes participativos", e suas "modalidades de acção". Bruaaa, sim. Mas um ruído aconceptual perigoso, porque exclui, porque define os "movimentos sociais correctos", os que têm o direito à palavra - pergunte-se a estes "teóricos" qual o papel dos "espoliados do ultramar", dos "heráldicos nacionais", dos "bloguistas neo-fascistas", das "associações de famílias", das "movimentos cabeça-rapadas", dos sindicatos não-comunistas, etc, e logo lhes recusarão legitimidade participativa, mergulhando-os no "caldeirão adversário", grupos ilegítimos porque manipulatórios.


2. "Santana Lopes formará um governo sem a legitimidade do eleitorado, apoiado por uma coligação que apenas foi sufragada pelo voto na eleições para o Parlamento Europeu, sofrendo uma estrondosa derrota"


2. A coligação no poder não tem legitimidade porque não foi votada. Esta é uma falsidade radical. Houve umas eleições, e do quadro parlamentar estruturou-se um governo de coligação. Situação não original em Portugal. Situação recorrente nas democracias parlamentares. Situação normal. E legítima.

Há dias citei uma afirmação do inefável Prof. Fernando Rosas, que ecoava esta noção, a da ilegitimidade do governo poque não tinha sido votado como coligação.

[Confesso aqui o meu desconforto. Alguns dos meus melhores amigos em Maputo são colegas próximos e bons amigos de Rosas, renomado historiador. E dele dizem maravilhas como pessoa e académico. Mas, honestamente, para um homem da sua cultura este tipo de afirmações só pode indiciar duas abordagens, e que nunca de incompreensão: doença (não estou a ironizar, nem lha desejo) ou uma profundissima desonestidade intelectual. Eu voto nesta segunda hipótese, apesar dos meus amigos.]

Compreendo que gente do BE e do PCP considere as vantagens de ir a eleições coligado: o BE como coligação de partidos de ideologia totalitária e de exclusão socio-política, o PCP como obreiro de uma falsa coligação, hoje pura inércia, em tempos procurando o velho frentismo, signo de liderança.

Mas parece óbvio que não é essa coligação pré-eleitoral a única forma politica e institucionalmente legítima de coligação: dizer o contrário é pura desonestidade. Ou imbecilidade. Para quê repeti-la? Porquê continuar a acreditar que a desonestidade é uma arma política eficaz? Porque continuar a acreditar que a imbecilidade é uma arma política eficaz?

Porquê este elitismo sociocêntrico, esta pequena burguesia letrada que se acha tão distante de um qualquer "povo" que considera que a sua retoricazita o poderá enganar. Que ainda pensa que o ser "letrada" o distingue desse "povo"?
Quando ele é ela, nada mais, que isto mudou para além dos livros. E não lhe compra argumentos made in china. Nem fancaria maoísta, nem fancaria neo-capitalista.

Publicado por jpt às 12:29 PM

julho 11, 2004

Acerca do extra-blogs

(voltando à velha questão do papel do intelectual na sociedade)

aqui referi o respeito intelectual que tenho por Augusto Santos Silva. O sociólogo é um mestre.

Mas não é por esse a priori que muito apreciei este texto [abaixo transcrito]. Do melhor extra-blog sobre o momento do meu Portugal. Texto analítico e prospectivo. Límpido. Educado (no sentido amplo da palavra). Entenda-se, "urbano". Não desvairado. Não obscurantista.

Os imbecis anti-intelectuais - esses que abundam sob a palavra chic, a verve escorreita e o preconceito hábil, não conseguem compreender que é isto que se espera de um intelectual. Alinhado ou não (que tem ele todo o direito de alinhar, se assim o entender). No nosso campo ou não.

Os imbecis intelectuais também não o conseguem compreender.

Como Se Deve Enfrentar Santana
Por AUGUSTO SANTOS SILVA
Público
Sábado, 10 de Julho de 2004

[O] cronista escreve sem saber, mas é possível que o leitor já saiba qual é a decisão do Presidente da República. Ao cronista, duas coisas parecem certas: viveremos proximamente um clima de campanha eleitoral - mais breve se as eleições forem convocadas para o Outono, mais longa se for empossado um novo Governo; e a liderança política da direita está nas mãos do par formado por Santana Lopes e Paulo Portas. À frente de um Governo gerado pela mesma maioria parlamentar ou de um bloco eleitoral, Santana constitui o adversário do momento para um campo social e político bastante amplo.

Ora, perguntam muitos, e alguns com angústia: como se deve enfrentá-lo, a ele que tem fama de imbatível em manipulação e propaganda? A sua conjugação com Portas não representa apenas uma dada linha política dentro do mesmo regime, mas sim a possibilidade de uma mudança significativa na natureza institucional e na qualidade democrática do regime. Contudo, também é certo que, puxando o "PPD-PSD" para ainda mais perto do PP e impondo-lhe uma lógica populista, Santana aliena parte importante do centro político português. Perderá deste lado muito mais do que o que ganha no outro.

Não duvido de que Santana e Portas são campeões do populismo e, por isso, ameaçam realmente a qualidade institucional e democrática da república. Populismo quer dizer demagogia infrene, exploração das emoções, primarismo ideológico, culto quase messiânico do líder, cumplicidade activa com a comunicação social tablóide, espectacularização da política, atenção exclusiva ao curto prazo, desprezo pelas regras institucionais. É preciso não deixar o povo nas mãos dos populistas, mas não é menos necessário confrontar o povo com uma alternativa não populista, claramente distinta, claramente enunciada.

O que implica, a meu ver, alguns cuidados. Não se pode cair no erro de seguir ou imitar os populistas, na imagem e no estilo: o original ganha sempre à cópia, o emulado ao emulador. Não se poderá fulanizar demasiado o combate político e muito menos atacar "ad hominem" pela via da diabolização: primeiro, os Berlusconis agradecem a promoção que esse tipo de ataques lhes garante e são mestres na autovitimização; segundo, a reacção histérica e a arrogância intelectual não são antídotos, mas vitaminas do populismo. Não se pode responder ao adversário de hoje com as palavras e as atitudes de ontem: os eleitorados castigam severamente as apreciações desproporcionadas, do tipo "regresso ao fascismo", e quem fala, por exemplo, em "resistência ao avanço da extrema-direita" ou exagera o "fulgor" e a "projecção mediática" dos seus caudilhos coloca-se implicitamente, à partida, na posição de acossado e perdedor.

A linha de conduta para enfrentar Santana Lopes parece-me, pois, óbvia. Não subestimar a sua capacidade e influência, mas recusando-lhe qualquer hipótese de colocar o debate no registo histriónico que ele adora. Não dar por adquirido qualquer desenlace do combate político que se avizinha, cortando cerce todas as cenarizações mais ou menos fantasiosas sobre o dia seguinte, que só dispersam e malbaratam energias preciosas para o próprio dia. Ser moderado, falando não para os "santanistas" e na sua linguagem, mas para as pessoas e nos seus problemas, e falando com equilíbrio e convicção tranquila.

Se for esta a linha, não percebo por que se há-de sobrevalorizar a dimensão do par Santana/Portas. Desde logo, pertence-lhes o ónus da crise política. Só há crise e só há eleições antecipadas ou Governo de precária legitimidade política porque Durão Barroso desertou, rasgando um compromisso que assumira e reiterara, e tomando uma decisão que, à luz dos seus próprios critérios, configura uma fuga à responsabilidade.

Depois, é Santana que responde pelo legado de dois anos de Governo da direita. Por mais piruetas que queira fazer, é ele que agora representa a coligação e é sobre ele que recaem as consequências do juízo político que os portugueses têm de fazer sobre o que é esta direita a governar. Nesse sentido, por mais festanças que agora prometa, Santana é a cara da crise. A sua posição é dilemática: se assumir o legado, pagará por ele; se romper com o legado, pagará por mais uma demonstração das cambalhotas que são a sua imagem de marca.

O que se compara são as qualidades dos programas, das equipas e das pessoas, para o exercício efectivo da governação - não para as capas de revistas ou os estúdios de televisão, mas sim para dirigirem o Estado, responderem pelo país e realizarem obra em favor das populações. Ora, conhecem-se as ideias de Ferro Rodrigues, mas quais são as de Santana? Conhecem-se as virtudes e os defeitos dos rostos do centro-esquerda para as diferentes áreas políticas e sectoriais, mas quem são os "santanistas", quem há neles de relevante para lá dos homens de mão e das mulheres em pose? Onde está a obra de Santana Lopes, há 25 anos na política, mas sem uma iniciativa que tenha marcado positivamente os lugares por que passou? Qual é a sua obra: a revista no teatro nacional, a plantação de palmeiras na Figueira ou as ilusões desfeitas e os buracos por tapar em Lisboa? Levou alguma coisa até ao fim, mostrou estabilidade política e emocional em algum lado, manteve alguma coerência em coisa alguma?

Eu sei que, na hipervalorização de Santana operada por críticos não menos devotos que os seguidores, espreita a mal disfarçada inveja pelo "animal político" - pela luz dos holofotes, pela sedução pessoal, pelo à-vontade na polémica e no combate, até pela desfaçatez. Mas duvido que esta atitude, realmente influente no campo político-mediático, tenha grande repercussão na generalidade das pessoas. O que estas querem saber é que soluções concretas, práticas e razoáveis lhes são propostas, para sair da profunda crise de meios e de esperança em que as mergulhou o Governo mais desastrado da democracia constitucional portuguesa. E intuem que isso é o contrário da fantasia, do sorriso fácil, do "glamour" das festas e das revistas.

Como se enfrenta melhor Santana? Pois não lhe passando muito cartão. Antes falando com sentido de responsabilidade para as pessoas, de modo a que elas percebam o que estará em jogo nas escolhas que serão chamadas a fazer, se e quando o forem. Para dizer numa frase e para o caso de a saída ser a antecipação de eleições: não se trata de evitar que Santana ganhe, trata-se de ganhar.

Publicado por jpt às 11:23 PM

julho 08, 2004

Longa citação

Terminado o Euro-04, aglutinador que foi, e grande diversão acima de tudo. Prestes a terminar a "crisesita" política portuguesa, espantosa que foi, e grande discussão acima de tudo. Está, portanto, chegada a hora de terminar as férias do Ma-schamba. (Aeroporto Internacional de) Mavalane no horizonte, e regresso a Moçambique, um olhar para aqui. Até que enfim, confesso o stress que Lisboa sempre me causa, apesar do gosto, das saudades, da família e amigos. E dos queijos e vinhos. Assim sendo despeço-me de patrícios, vizinhos, familiares. Maputo, de novo, para mais uns largos meses.

Como recado último, se mo permitem, deixo uma longa citação, recolhida num blog do qual cada vez gosto mais (até tem valentes discussões entre o colectivo autoral). Citação que é diagnóstico e terapêutica. Da lavra de um homem que deve estar tanto à esquerda como eu, talvez que apenas com sotaque ligeiramente diferente: o já afamado Dr. Besugo, um dos melhores teclados que por aí anda, no corrosivo, no iconoclasta. Bem haja, sô dôtor!

O relatório clínico completo encontra-se aqui. Para os impacientes transcrevo o receituário: Se eu fosse Presidente da República, independentemente de ser de esquerda ou não, independentemente de toda a lógica da "virtual politik", decidiria que a coligação formaria novo governo e acabaria o seu ciclo de poder legitimado. Porque Portugal é onde nós vivemos e, embora não aprovando grandes fatias do projecto governativo em curso, nós queremos ver onde isto vai dar no tempo que lhes resta. E porque, sejamos honestos: se o povo português não sabe que se vota em partidos, em ideias, em programas, se cuida que se vota em líderes partidários, está em muito boa altura de o aprender. É que é importante saber para que se vota e em que se vota, que votar é importante. Se não é, para as próximas eleições também vou para a praia, que é agradável se estiver bom tempo." [meu itálico]

Depois desta ida ao farmacêutico sigam, sff, ao ervanário e adquiram o saber sobre os v(n)ossos futuros anos (décadas?).

Entretanto eu segui para Maputo. Qualquer coisinha em que vos possa ser útil, à disposição. Por aí tratem-se, sff.

Publicado por jpt às 12:36 PM

julho 03, 2004

Pergunta de algibeira

Algum blogosférico, historiador ou mais velho, se lembrará de uma antiga e espantosa teoria política, o "terceiro-mundismo", da qual alguns dos seus representantes em Portugal ainda são "conselheiros"?

Publicado por jpt às 10:55 AM | Comentários (1)

julho 01, 2004

Irritação

Na minha visita (quasi-)diária ao recomendável Daedalus dou-me com um novo cartaz/dístico/faixa/imagem [escolham, mas para quê o piroseira de chamar "banner" a estes in-doors?] mobilizadora de manifestação contra um "golpe".

A autoria não é do F. Curate. Tal como muitos que por aí correm, ecoados de blog-em-blog, é de um blog estalinista-trotskista célebre, o Barnabé. Mas a essa gente de origem assassina, sanguinária, nazi, não faço ligação, não visito, nem comento, mesmo que embrulhem a sua desonestidade moral de coração fascista na arrogância chic. Só me espanta o eco que têm. Porque eles estão para lá do Rubicão. E, ainda hoje, querem-no atravessar. Porventura já não com exércitos. Agora, mas por enquanto apenas, com circos. Porque eles são, também, o ovo da mamba. E não consigo compreender tanta gente a chocá-los.

Bem, irritei-me ao teclado e fui noutro caminho. Volto ao tonto dístico. Para aqui deixar o que por comentei: pois não anda a dita "esquerda" há anos a reclamar contra o populismo futeboleiro? E agora usa-o, nestas coisas TÃÃÃO GIIIRÁS?

É apenas uma amostra da sua falsidade. Não de contradição retórica. Mas sim da essência intelectual. Moral.

Porque raio de distracção se acarinha isto?

PS. A acabar esta irritação e a seguir para este texto onde se cita um crasso exemplo da desonestidade intelectual no mundo da mamba. Não é um erro, nem um dislate. É essência.

Publicado por jpt às 02:27 PM | Comentários (2)

junho 30, 2004

Não está

nada mal o Aviz. Novas eleições darão três meses para PSL se vitimizar, imparável.

(Re)ganhando os votos dos hojes desiludidos e/ou irados. De alguns deles pelo menos. De todas elas, quase certo.

E eu? Felizmente voto nos Olivais, nunca mudei morada de recenseamento. Dia de votos é ida à Fernando Pessoa, domingo calmo, almoço em casa dos pais, ida ao café, algumas caras conhecidas, se calhar até amigos no mesmo. Depois, gente do ontem na mesa de voto, até aqueles abraços entre votantes. Depois cervejinha no café, já com os velhos amigos, tudo no mesmo reprise. Jantar ainda em casa dos pais, e até a família a congregar-se.

Que pena. Estarei em Maputo. Pelo menos não terei que votar. Se caso disso.

Publicado por jpt às 04:21 PM

junho 28, 2004

Premonição?

Ou análise?.

Enfim, a ganhar crédito neste a posteriori. Por muito que custe a quem o costuma menosprezar.

Publicado por jpt às 12:23 PM | Comentários (1)

junho 27, 2004

Claro como a água cristalina: e fica tudo dito

"Para o qual eu quero um governo que pense em Portugal em primeiro lugar, que não se importe de perder as eleições, se estiver convicto que políticas difíceis são vitalmente necessárias. Não quero uma comissão eleitoral uninominal (ou binominal) que fará tudo apenas com um fito: ganhar as próximas eleições. Porque esse será o seu programa não escrito."

+

"Em todo o correio recebido, registo esta frase de John Lydon dos Sex Pistols, enviada por João Santos Lima: "Have you ever had the feeling you've been cheated?"

até porque

"Ou seja: Santana Lopes formaria um governo do PSD, mas com base num programa inteiramente diferente daquele que o «quadro parlamentar actual» validou, aprovou e defendeu. Eu sei que é o mesmo partido. Mas é outro partido".

[não há nada melhor do que um post-insónia para aclarar ideias]

Publicado por jpt às 02:57 PM | Comentários (1)

Um beco? Ou um beco!

Neste Ma-schamba escrevo demais sobre política portuguesa, não era nada disto que eu pretendia quando desmatei. Talvez desvio profissional, antropólogo mais virado à política (local). Talvez porque emigrante espantado ao de longe.

Volta e meia prometo a mim mesmo inflectir e escrevo-o aqui, para que as visitas me cobrem em forma de um "cala-te, pá!". Ainda há pouco mo prometi de novo, um último post sobre política, a propósito de uma troca de galhardetes com o socialista, mas simpático, LNT do Tugir.

O que me faz regressar não é a moral, uma mera irritação contra essa partidocracia tendencialmente cleptocrática. Pois acredito que a corrupção política e social pode servir (ou pelo menos coexistir) com processos de desenvolvimento, até extraordinários: os casos pós II Guerra Mundial do Japão e da Itália serão canónicos.

O que me produz estas jeremiadas é a evidência de que aí a representação política se tornou apropriação: apropriação de recursos económicos e de recursos políticos. Botei-o aqui há bem pouco, a propósito da aprovação da constituição europeia. Mas irrita-me sobremaneira o facto dessa cleptocracia ser incompetente.

Esta apropriação dos recursos políticos, este "esquecimento" de ser o poder político uma representação serve de mecanismo de acumulação. E de reprodução. E isso é tão evidente que o marxismo espontâneo dos jornalistas ignorantes crismou acriticamente os políticos de "classe política" (o que passou para o discurso vulgar). Os escribas não retiram a conclusão das patacoadas que escrevem, mas não há dúvida, se assumirmos o discurso marxista, em Portugal os políticos tendem a ser uma "classe". O que é ilegitimador.

Reprodução de uma camada política que não produz o desenvolvimento possível em Portugal. [para quem vê Portugal "por um canudo televisivo" é interessante reparar que, na política, o conceito "modelo de desenvolvimento" surge recorrentemente apenas na linguagem de Carvalho da Silva - o que sendo aqui um elogio ao nº 1 da CGTP é também um drama para o país, que assim não se pensa sistemática e constantemente].

Reprodução de uma camada política que não é o suficientemente capaz. E aqui discordo do Aviz: "Convém perceber que há uma diferença essencial entre “governar” e “gerir”. Gerir com bom-senso, qualquer burocrata, contabilista ou jovem diplomado pode fazer, com maior ou menor competência.". Pois acho que nem esse mínimo exigível, essa gestão de bom-senso, é assumida, realizada. Pois o bom-senso é bem escasso. E alimenta-se das implicações dos actos e dos constrangimentos da representação política. Nem isso é cumprido.

[como mero exemplo desta ausência de bom senso narro, de memória e sem documentos para o ilustrar, um episódio de há anos: o primeiro secretário de Estado da Indústria guterrista exarou um despacho que, para ser cumprido, exigiria a nacionalização da empresa a que se destinava. Foi demitido? Foi para um curso de formação? Nada, continuou, jovenzinho rosita, nos seus 28 aninhos de imbecilidade a andar para a frente]

Este deficit de representação não só coincide como também implica um deficit de competência. O país está melhor, muito melhor do que há décadas. O discurso miserabilista é intelectualmente miserável e factualmente falso. Mas podia estar muito melhor. E é isso que dói.

Esta presumível mudança de primeiro-ministro é sinal absoluto dessa ausência de consciência do que é, na essência, a representação política. Um contrato, um contrato a cumprir de boa-fé. Rompida a boa-fé torna-se ilegítimo esse contrato. Ora não há boa-fé quando a política se torna mecanismo de apropriação privada de recursos públicos e de recursos sociais. E o mesmo quando se torna apropriação partidária desses mesmos recursos. [o que é óbvio com todas as trafulhices de financiamentos partidários via câmaras e concomitantes "impedimentos" judiciários]

Esta violação da representação política, da boa-fé presente no contrato explicita
Uma ruptura em que os representantes não se revêem nos representados. E não vice-versa.
. Estes são traços do sistema político, não do partido A ou B. É o modus vivendi.

Neste contexto os socialistas vão surgir contestando a substituição anunciada. Que é legal, constitucional. A mim surpreende-me. Pela sua radical hipocrisia. Ora a hipocrisia mina, nega, a boa-fé que é o âmago do contrato político entre representantes e representados.

Escrevi, a propósito do que acho ser um escândalo anticonstitucional, o dos
constrangimentos à liberdade de voto dos deputados
, uma ilegalidade que deveria levar a tribunal todos os lideres parlamentares dos últimos anos: Estranho essas vontades, pois parece-me que são nessas votações que se levantam questões centrais quanto à adesão a determinados valores: concepções de vida, de vida em sociedade, de limites fundamentais da acção do Estado, etc. (mas poucos etcs.). Ora é nessas questões que se pressuporia que houvesse uma radical homogeneidade intra-partidária. Ou seja, que os partidos fossem constituídos por pessoas que partilham um pequeno mas fundamental quadro de valores que as unisse para lá das normais (e salutares) distinções nas perspectivas do exercício político corrente.

Acredito que isto seja pacífico. Se não o é então o que serão e para que servirão os partidos políticos?

Ora António Guterres, então incontestado lider do PS, disse há 3/4 anos uma frase lapidar, letal. Acossado pela degenerescência do seu exercício político informou-nos que para ele, Primeiro-Ministro, "a ética da República é a lei". Ora esta ideia, este valor, é de uma profundidade imensa, tem que ser integrada no "pequeno mas fundamental quadro de valores" que unem os membros de um partido, na forma como conceptualizam a acção política, como conceptualizam a própria sociedade.

Então nenhum [negrito, sublinhado, maísculas, repetido, gritado: nenhum] socialista contestou essa perspectiva. Esse valor tornado âncora do exercício político.

Esta mudança de primeiro-ministro, se assim acontecer, mina a credibilidade, mina a legitimidade da representação política. Mas é legal. Os socialistas não têm qualquer argumento para a contestar. É legal. Donde para os socialistas esta mudança é ética. Estão prisioneiros dos valores que afirmaram em uníssono.

Se a negarem, se a contestarem, demonstram radicalmente que mentiram e calaram, desavergonhadamente, quando no poder. Ou que estão agora a mentir, desavergonhadamente.

Melhor, demonstram que a cleptocracia partidária ultrapassa partidos. E que argumenta apenas ao correr dos ventos. Sem princípios. Sem honra. Sem legitimidade.

E que estamos, politicamente, num beco! Estaremos?

(insónia dominical, para além de pruridos formais)

Publicado por jpt às 09:56 AM

Um beco? Ou um beco!

Neste Ma-schamba escrevo demais sobre política portuguesa, não era nada disto que eu pretendia quando desmatei. Talvez desvio profissional, antropólogo mais virado à política (local). Talvez porque emigrante espantado ao de longe.

Volta e meia prometo a mim mesmo inflectir e escrevo-o aqui, para que as visitas me cobrem em forma de um "cala-te, pá!". Ainda há pouco mo prometi de novo, um último post sobre política, a propósito de uma troca de galhardetes com o socialista, mas simpático, LNT do Tugir.

O que me faz regressar não é a moral, uma mera irritação contra essa partidocracia tendencialmente cleptocrática. Pois acredito que a corrupção política e social pode servir (ou pelo menos coexistir) com processos de desenvolvimento, até extraordinários: os casos pós II Guerra Mundial do Japão e da Itália serão canónicos.

O que me produz estas jeremiadas é a evidência de que aí a representação política se tornou apropriação: apropriação de recursos económicos e de recursos políticos. Botei-o aqui há bem pouco, a propósito da aprovação da constituição europeia. Mas irrita-me sobremaneira o facto dessa cleptocracia ser incompetente.

Esta apropriação dos recursos políticos, este "esquecimento" de ser o poder político uma representação serve de mecanismo de acumulação. E de reprodução. E isso é tão evidente que o marxismo espontâneo dos jornalistas ignorantes crismou acriticamente os políticos de "classe política" (o que passou para o discurso vulgar). Os escribas não retiram a conclusão das patacoadas que escrevem, mas não há dúvida, se assumirmos o discurso marxista, em Portugal os políticos tendem a ser uma "classe". O que é ilegitimador.

Reprodução de uma camada política que não produz o desenvolvimento possível em Portugal. [para quem vê Portugal "por um canudo televisivo" é interessante reparar que, na política, o conceito "modelo de desenvolvimento" surge recorrentemente apenas na linguagem de Carvalho da Silva - o que sendo aqui um elogio ao nº 1 da CGTP é também um drama para o país, que assim não se pensa sistemática e constantemente].

Reprodução de uma camada política que não é o suficientemente capaz. E aqui discordo do Aviz: "Convém perceber que há uma diferença essencial entre “governar” e “gerir”. Gerir com bom-senso, qualquer burocrata, contabilista ou jovem diplomado pode fazer, com maior ou menor competência.". Pois acho que nem esse mínimo exigível, essa gestão de bom-senso, é assumida, realizada. Pois o bom-senso é bem escasso. E alimenta-se das implicações dos actos e dos constrangimentos da representação política. Nem isso é cumprido.

[como mero exemplo desta ausência de bom senso narro, de memória e sem documentos para o ilustrar, um episódio de há anos: o primeiro secretário de Estado da Indústria guterrista exarou um despacho que, para ser cumprido, exigiria a nacionalização da empresa a que se destinava. Foi demitido? Foi para um curso de formação? Nada, continuou, jovenzinho rosita, nos seus 28 aninhos de imbecilidade a andar para a frente]

Este deficit de representação não só coincide como também implica um deficit de competência. O país está melhor, muito melhor do que há décadas. O discurso miserabilista é intelectualmente miserável e factualmente falso. Mas podia estar muito melhor. E é isso que dói.

Esta presumível mudança de primeiro-ministro é sinal absoluto dessa ausência de consciência do que é, na essência, a representação política. Um contrato, um contrato a cumprir de boa-fé. Rompida a boa-fé torna-se ilegítimo esse contrato. Ora não há boa-fé quando a política se torna mecanismo de apropriação privada de recursos públicos e de recursos sociais. E o mesmo quando se torna apropriação partidária desses mesmos recursos. [o que é óbvio com todas as trafulhices de financiamentos partidários via câmaras e concomitantes "impedimentos" judiciários]

Esta violação da representação política, da boa-fé presente no contrato explicita
Uma ruptura em que os representantes não se revêem nos representados. E não vice-versa.
. Estes são traços do sistema político, não do partido A ou B. É o modus vivendi.

Neste contexto os socialistas vão surgir contestando a substituição anunciada. Que é legal, constitucional. A mim surpreende-me. Pela sua radical hipocrisia. Ora a hipocrisia mina, nega, a boa-fé que é o âmago do contrato político entre representantes e representados.

Escrevi, a propósito do que acho ser um escândalo anticonstitucional, o dos
constrangimentos à liberdade de voto dos deputados
, uma ilegalidade que deveria levar a tribunal todos os lideres parlamentares dos últimos anos: Estranho essas vontades, pois parece-me que são nessas votações que se levantam questões centrais quanto à adesão a determinados valores: concepções de vida, de vida em sociedade, de limites fundamentais da acção do Estado, etc. (mas poucos etcs.). Ora é nessas questões que se pressuporia que houvesse uma radical homogeneidade intra-partidária. Ou seja, que os partidos fossem constituídos por pessoas que partilham um pequeno mas fundamental quadro de valores que as unisse para lá das normais (e salutares) distinções nas perspectivas do exercício político corrente.

Acredito que isto seja pacífico. Se não o é então o que serão e para que servirão os partidos políticos?

Ora António Guterres, então incontestado lider do PS, disse há 3/4 anos uma frase lapidar, letal. Acossado pela degenerescência do seu exercício político informou-nos que para ele, Primeiro-Ministro, "a ética da República é a lei". Ora esta ideia, este valor, é de uma profundidade imensa, tem que ser integrada no "pequeno mas fundamental quadro de valores" que unem os membros de um partido, na forma como conceptualizam a acção política, como conceptualizam a própria sociedade.

Então nenhum [negrito, sublinhado, maísculas, repetido, gritado: nenhum] socialista contestou essa perspectiva. Esse valor tornado âncora do exercício político.

Esta mudança de primeiro-ministro, se assim acontecer, mina a credibilidade, mina a legitimidade da representação política. Mas é legal. Os socialistas não têm qualquer argumento para a contestar. É legal. Donde para os socialistas esta mudança é ética. Estão prisioneiros dos valores que afirmaram em uníssono.

Se a negarem, se a contestarem, demonstram radicalmente que mentiram e calaram, desavergonhadamente, quando no poder. Ou que estão agora a mentir, desavergonhadamente.

Melhor, demonstram que a cleptocracia partidária ultrapassa partidos. E que argumenta apenas ao correr dos ventos. Sem princípios. Sem honra. Sem legitimidade.

E que estamos, politicamente, num beco! Estaremos?

(insónia dominical, para além de pruridos formais)

Publicado por jpt às 09:56 AM

junho 26, 2004

Entrada (vulgo post) paradoxal?

Grande azáfama lá pela santa terrinha.

a) o sistema político português permite, com toda a legitimidade, que se mude de primeiro ministro. Os eleitores votam em partidos, segundo opção programática, elegem deputados ao orgão máximo (Assembleia de República). Esta propõe governo ao Presidente da República. Ponto final parágrafo.

b) algum esvaziamento político-ideológico, alguma inércia de cidadania e uma imensa e intensa comercialização (marketing) da política, levou a uma gradual pessoalização das eleições. Mas só ignaros e preguiçosos acham que estão a votar no candidato X. Votam, e deviam sabê-lo, num determinado partido (ou coligação).

Para quê tanto barulho? Tanto espanto, tanta virgem ofendida?

c) Quando em 1999, aos 35 anos, farto do guterrismo então ainda ascendente, votei pela primeira vez na vida no PSD achei-o por bem para o meu país e também que estava a envelhecer naturalmente (ainda que um pouco depressa): "conservador (só) aos 40" é o batido lema.

Mas apesar disso, tanto em 1999 como em 2001, e apesar de todos os socialistas, todos os queijos limiânicos, todos os cunhados de Primeiro-Ministro, todos os narcisos e gomes no governo, toda a italianização do país, nunca mas nunca teria votado no PSD se Santana Lopes fosse o seu Presidente e óbvio candidato a primeiro-ministro. É que "ele" há limites...

d) paradoxo?

e) sei que sou só um voto. Mas serei o único?

Publicado por jpt às 05:33 PM | Comentários (4)

junho 09, 2004

Último post sobre política portuguesa (e por isso longo)

Há dias deixei aqui um confuso texto. Para descentrar o Ma-schamba da política portuguesa. Porque esta não me faz bem, irritações a potenciar saudades. Para estas já me bastam e sobram os velhos pais, a pequena família por lá, e a (meia?) dúzia de amigos que lá me restarão, esses que têm a maldita qualidade de serem insubstituíveis.

Sem política é o lema (falhado) deste blog. Imaginado para tentar olhar o que me rodeia, falar disso se me tocar, calar-me se nada me soar (o melhor/menos mau estará mesmo na ARCA "Roupa Velha", para quem tiver paciência para texto longo).

Para mais em Portugal não faltam blogs políticos. Decerto mais entendidos, mais habilitados, mais informados. Para quê rivalizar ou complementar?

Mas LNT do Tugir ripostou, o que obriga à resposta, por elegância e porque houve algumas incompreensões.

1ª - a ideia de que me centrei na "corrupção" como centro da vida política aí. Ora eu falei em “inintelectualização” "Mas nestes dias de futebolês e asneirada o que surge nem é a imoralidade/amoralidade. É mesmo a inintelectualização. Falta inteligência.", uma degenerescência: Porque é que uma sociedade incomparavelmente mais rica, mais educada, mais desenvolvida, mais vivida do que a de algumas décadas atrás expulsa da política a inteligência?”.

Sim, acho que o actual patrimonialismo é uma causa deste processo, mas não A Causa (o que é isso de monocausalidade?). Porque manieta a racionalidade política. Porque leva ao recuo de alguma elite (política/intelectual e [mais do que tudo] moral, que também a há) desta actividade.

Diante das eleições europeias o Presidente tem que lamentar o teor do debate. V. Moreira aponta temas cruciais não abordados. J. Pacheco Pereira lamenta a resistência ao debate europeu (eu acho que os jornalistas são sistema político, mas isso é para outros textos), e desvaloriza (literalmente) os políticos mais trauliteiros.

Tudo isto após uma alteração à ordem constitucional que passou quase em silêncio no país do Euro e da Casa Pia, e que até este mísero emigrante resmungou um Representação ou Apropriação?.

O que é isto? Mediocridade ou maquiavelismo? Eu voto mediocridade, hoje. Mas não só! Voto também muito engenho, muita corrupção. Não inteligência, mas muita esperteza, para seguir a distinção popular.

Porque referi o caciquismo no poder local V., LNT critica-me "O poder local é o elo por excelência dos cidadãos com os seus representantes. Porque mais próximo, porque mais acessível, porque mais comunitário... Não o vejo como apropriação partidária dos recursos públicos. Se o for, tem de ser punido, como tudo o que é usado em fins diversos daqueles para que foi criado".

Tirando a palavra "comunitário" (porque pejada de pressupostos moralistas/igualitários) concordo em absoluto. E, imagine LNT, até por razões profissionais, em demanda de processos que desenvolvam a “accountability” dos sistemas estatais.

Mas também acho que há décadas que não há política estrutural de controle desse poder local. E porque em seu torno se montam núcleos que "formatam" os partidos nacionais, devido às suas características organizativas. Calados
aquando da gestão do poder (o recente congresso do PSD, os últimos do PS, são meros exemplos), aquando da "estabilidade", em frémitos noutros momentos.

Em suma, V. LNT valoriza o poder local como ferramenta fundamental. Também eu. Mas teoricamente. O meu ponto é a sua prática, des-controlada. E, creio com veemência, desejavelmente des-controlada.

Mas não só, pois a nível central/nacional esta deriva se vem impondo. Como mero exemplo, porque para si decerto insuspeito, chamo este texto. Pois acho que a sempre dita sacrossanta "separação de poderes" é falsa, e que a praxis do sistema jurídico é siamesa do político, interdependentes. Absolutamente.

[E por isso, leigo embora nessas coisas jurídicas, custa-me crer que seja possível um dia fazer a História da III República sem perceber quem foi e porque foi o Procurador-Geral da República, e porque eterno. E como foi, se houver verdadeiros arquivos...]

2: "Recuso entrar na perigosa conversa de que todos os políticos são maus, incompetentes e perigosos. Na política, na advocacia, na medicina, na antropologia, na sociologia e em todas as outras ciências ou profissões, existe o bem e o mal, o competente e o incapaz, o sério e o corrupto."

Discordo totalmente da associação que faz com outras profissões. Para o político não tenho Ordem, Sindicato, Deontologia. O político não é uma profissão como as outras. E a sua legitimidade é-lhe alheia, não como as outras. Ou vamos começar a votar para todas as outras funções sociais? Há uma especificidade. Radical. De acesso, de legitimação, de função social, de âmbito de alcance. Um profissional serve-me, não me representa. O político serve-me e (repito, e...) representa-me.

Mas mais: não considerei todos os políticos corruptos. Isso é minar um argumento, LNT!. O que disse é que os há. E que as confederações de interesses têm capacidades organizativas para vincularem os partidos nacionais às suas agendas. E que os partidos precisam dessas articulações, nem que seja para seu auto-financiamento e reprodução na esfera do poder.

3. Diz ainda V. "A política, local, nacional ou internacional é uma forma nobre de servir, é um meio ao alcance de todos, repudiado por muitos que preferem não se envolver para poderem livremente comentar, e prescindem do seu dever de participação na comunidade por comodismo. Primeiro abdicam da participação na construção de soluções e acabam como abstencionistas delegando nos outros o poder das escolhas em que, por sua vontade, se não revêem."

Concordo com o início e já aqui, em diálogo consigo, o afirmei (ponto 3).

Mas há um ponto em que discordo radicalmente. E como dogma. O voto e a participação cívica é um Direito e não um Dever. Senão estariam consignados enquanto tal na lei. E não estão! O não-jurista questiona-se, onde está o dever se não há sanção? E não me convencem obrigações morais: pois aqui apelo a um PM da III República: "A moral da República é a Lei".

Mais, como tal, a não participação não retira nenhum direito fundamental. E como tal não retira o direito à critica. Em momento nenhum. E qualquer tentativa de sinal contrária, mesmo que o habitual argumento que V. utiliza é de uma inadmissível inadequação à Lei, e portanto à moral. Mesmo que irónica é anti-democrática, entenda. Ainda que alimentada na vergonhosa e ritual expressão de ilegalidade que os vários PRs e outras autoridades repetem, inconscientes da mediocridade de raciocínio, de que temos o dever de ... Temos o direito de! Parágrafo final sobre a matéria, indignado já por três décadas de políticos ignaros repetindo esta imbecilidade sem que ninguém lhes abra a constituição ou o dicionário.

Mas V. refere isto atendendo à minha expressão de desprezo pelo estado das coisas. Repito-lhe o cerne do meu argumento: o desprezo não é pela dita corrupção (que é obviamente parcelar); não pelo patrimonialismo. Nem mesmo pela degenerescência intelectual. Disse-o a propósito de uma teatralização supra-hipócrita, que se vai repetindo, que se vai potenciando. O exemplo escolhido da troca de elogios públicos entre António Guterres e Sousa Franco, anos após tamanhos dislates públicos (e privados) entre ambos. O exemplo podia ser outro qualquer (DB vs PSL; DB vs PP, etcs).

A tese, caro LNT, é que esta supra-teatralização hipócrita sobre o humus do patrimonialismo craxiano que Portugal vive mina a representatividade do sistema político. Mina a democracia. O corolário da tese é que o grande inimigo da democracia é o inimigo interno. E esta, como sabe, é uma tese dramática porque autofágica. E, queira V. ou não, o vírus dessa doença não se chama JPT, abstencionista ou preguiçoso. Chama-se, com sotaque português, Betino Craxi.

Finalmente, meu caro blogoamigo, falemos de coisas mais comezinhas. Já foi V. atropelado por apparatchiks? Rosas, rojos, laranjas, verdes às pintinhas, rainbows, brancos ou negros?

Porque, tal como a vida não é um blog também não é (só) política! E formas múltiplas e criativas de participar no destino de um país são extra-políticas: profissionais, associativas, caritativas/solidárias, sei lá. Olhe à sua volta LNT, e veja, mas veja bem, quantos de nós abstencionistas, fomos atropelados nessas comezinhas coisas do viver por venais, medíocres, imbecis mas participativos indivíduos cuja legitimidade lhes advém pura e simplesmente de uma conexão qualquer, mas qualquer mesmo, com um partido qualquer.

Há outros grupos de interesses, também condenáveis? Sim. Mas isso não justifica nada! Nada mesmo. Muito pelo contrário, obriga a que, pelo menos, na política isso não surja.

"O raio do homem hoje está rude" dirá V. Talvez, mas deixe-me que lhe diga. Depois de tanto desmando socialista, mas tanto caramba, quis crer que algo melhor viria aí, "que para pior já basta(va) assim"! Mas com uma semana espantosa, de manobras nos organismos de regulação (contrariando em absoluto as tendências europeias, portanto sem qualquer justificação que não seja a mais tacanha das partidocracias) e com este final na Judiciária no Porto...olhe, nem sei que lhe diga. Isto já não vai para melhor no meu tempo de vida. E eu fico-me, estrangeirado. E (bis) isso custa.

E que fique claro, o fel que está para aqui neste mugir não é com o tugir. Antes o fosse, antes o fosse...

Até breve, mas que seja mais apolítico o esgrimir. Qu'isto também cansa

JPT

NOTA: o TUGIR cita a constituição, explicitando que o voto é aí considerado um dever cívico. Retiro portanto a expressão "sem que ninguém lhes abra a constituição ou o dicionário". Apenas. O resto mantenho. Farto até de três décadas de políticos que me dizem ser o voto um dever. Quanto é um direito. E, mais do que tudo, farto de políticos (e seus apoiantes) que analisam as coisas de uma forma nos dias (que lhes são) bons e de uma forma diferente nos dias (que lhes são) maus. Chega.

Publicado por jpt às 01:57 AM | Comentários (1)

junho 08, 2004

Um blog também pergunta

Um blog é também um instrumento para fazer perguntas.

Acho que pela Europa há um esvaziamento político. Velhas divisões prescreveram. Novas não terão surgido (ou não compraram orgãos de comunicação, pelo que não se ouvem). Pelo meu rincão idem, até mais. Estou, é claro a falar de democratas, aqueles que gostam de democracia representativa, não dos que apelam à democracia dos "movimentos sociais" (quais? perguntava há tempos um sábio inquiridor, e tão inteligentemente o fez), esses para os quais "representação" é mero novo nome para o velho "formal". Desta "democracia formal" os mais novos não se lembram, aqui vos fica a memória de que era a alcunha da democracia que os fascistas ambidextros usavam.

Daí que as velhas divisões reestabeleceram-se usando polos americanos. O que dantes era a esquerda europeia agora é quasi-"democrata" (e antes não gostava dos gringos), o que dantes era a direita europeia agora é mesmo-"republicana" (e antes não gostava dos gringos).

Empobrecimento? Hollywood? Sei lá, vou vivendo em África.

Mas há uma pergunta que me aflige. Toda a gente no meu país fala em despesa pública, em gastos estatais. Os "euro"-republicanos odeiam o Estado, apupam o despesismo; e gostam de Bush o despesista-mor. Os "euro"-democratas adoram o Estado, exigem a despesa; e gostam de Clinton, o poupador-mor. Mas mesmo assim são muitos veementes, assertivos. Por vezes até mal-criados com os outros.

Em suma, alguém me consegue explicar isto? Alguma visita bondosa deixa aí comentário para que possa eu sossegar este meu não-saber como pensar?

Publicado por jpt às 07:19 PM | Comentários (5)

Teste americano: penúltima posta política

Q: O Presidente da Internacional Socialista diz que não pensa em regressar à política activa [Forum sobre a Europa, campanha eleitoral PS. Via TV].

R:
a. A Internacional Socialista morreu.
b. "A Social-Democracia nunca existiu" (ver bibliografia).
c. É um político que mente.
d. O bloguista é estúpido

Publicado por jpt às 10:44 AM | Comentários (1)

junho 05, 2004

Política em Portugal

Pus aqui um desestruturado texto, procurando com ele encerrar a atenção sobre a política portuguesa no Ma-schamba.

Porque não me faz bem, potenciar saudades com irritações. Para aquelas já me bastam e sobram os velhos pais, a pequena família por lá, e a (meia?) dúzia de amigos que lá me restarão, esses que têm a péssima qualidade de serem insubstituíveis.

Fugir às políticas é também lema deste blog. Imaginado para tentar olhar o que me rodeia, falar disso se me tocar, calar-me se nada me soar.

Para mais em Portugal não faltam blogs políticos (todos podem ser políticos, uma questão lá da Antiguidade). Decerto mais entendidos, mais habilitados, mais informados. Para quê estar rivalizar com eles ou complementá-los?

Larguei o fel, e pronto! Mas LNT do Tugir ripostou, articulada e assertivamente. De tal modo que me obriga a ensaiar resposta, o silêncio seria deselegância. E porque me parece que deixei algumas incompreensões.

Acima de todas, uma. A de que eu escrevi sobre a "corrupção" política. E que a vejo como cerne da vida política. Ora não é esse o aspecto. Eu escrevi sobre a "inintelectualização" da vida política. A sua decadência. E vejo a corrupção de parcela da vida política como causa dessa decadência. Por isso a referi.

Diz LNT, em preâmbulo, que teve que imprimir o texto para o entender, tão incompreensível se apresentou. Aí concordo. Mas era uma fuga, não uma tese (fraca justificativa).

Cansado, vou recorrer a citações de LNT para contra-argumentar e explicitar. Cito longamente, que esse truque de "picar" frases para as descontextualizar não é para mim. Das separações exigíveis espero que não desvirtuem o que não o merecerá.

1. "O poder local é o elo por excelência dos cidadãos com os seus representantes. Porque mais próximo, porque mais acessível, porque mais comunitário. Tem de ser dotado de meios que lhe permitam actuar e resolver os problemas das populações que o elege. Não o vejo como apropriação partidária dos recursos públicos. Se o for, tem de ser punido, como tudo o que é usado em fins diversos daqueles para que foi criado. (LNT)

Tirando a palavra "comunitário" (que abomino, porque cheia de falsos pressupostos moralistas e igualitários) concordo em absoluto. E imagine, LNT, até por razões profissionais.

O que considerei é que, durante décadas, não houve uma política estrutural de controle do poder local. [não tenho nenhum file no meu computador cheio de provas, mas será preciso abrir um blog para botar o imenso desconchavo português nessa matéria? Em todos os partidos?]. Ou seja, as evidentes malfeitorias não têm sido punidas com a pertinência que seria de exigir. A nível local e não só [acho aliás que recentes acontecimentos em torno do folclórico "Apito Dourado" o indiciam. Chamo a sua atenção para o que está escrito aqui. São apenas exemplos]. Acho também, e admito que possa estar errado, que não se poderá fazer uma história política da III República sem se olhar atentamente para os arquivos, para a acção e para a missão do Procurador-Geral da República eterno (se houver arquivos consistentes).

Disse-o porque acho serem as formas organizativas dos maiores partidos favorecedoras do peso estrutural das organizações concelhias, e portanto das interacções entre os complexos político-económicos em torno das câmaras, na condução dos destinos partidários. Calando-se aquando da gestão do poder (o recente congresso do PSD, os últimos do PS, são meros exemplos), imprimindo as suas influências noutros momentos. E sendo factor da degenerescência da vida política nacional. Não por causa do Poder Local, sim por causa da realidade do "poder local". Um factor, não O factor.

Digo existirem formas de apropriação partidária dos recursos sociais. Porque nem todos os políticos são pessoalmente corruptos. Mas todos os partidos têm que se financiar. Porque todos apelam e reproduzem clientelas. Mas também porque o exercício do poder é considerado como passível se instrumento de apropriação privada ou colectiva de recursos. LNT, não vou aqui escrever atoardas sobre presedis notoriamente integrados em esquemas de enriquecimento ilícitos. Não tenho provas, seriam calúnias pois então. Mas existem e muitos. E, era esse o meu ponto, reproduzem-se ao longo dos anos com o beneplácito das suas direcções nacionais que, quantas vezes, deles precisam, deles dependem. E se isto não é verdade, não vale a pena continuar a ler.

Pois V. considera que teoricamente o poder local é um instrumento fundamental na gestão da coisa pública. Também eu, nada arauto do Terreiro do Paço. Mas também acho que a prática não corresponde a esse ideal. E, em suma, é muitas vezes estruturante dos destinos partidários globais.

2."Recuso entrar na perigosa conversa de que todos os políticos são maus, incompetentes e perigosos. Na política, na advocacia, na medicina, na antropologia, na sociologia e em todas as outras ciências ou profissões, existe o bem e o mal, o competente e o incapaz, o sério e o corrupto."

Também não considerei todos os políticos corruptos. Aliás o meu texto procurava ser um descentramento na questão da corrupção, dos desmandos, do moral. O desprezo a que aludi não provinha da hipotética corrupção. Mas sim de uma falta de princípios no estabelecimento da comunicação com os eleitores, com a população. O meu desprezo é simétrico. Não porque me roubam, mas porque me desprezam com os seus iniquos teatros, vazias e mal-criadas afirmações.

Discordo completamente é na associação que faz com as profissões. Claro que há bom e mal, competência e incompetência nas outras actividades. Mas são de outra ordem. O político não é uma profissão, não há Ordem, não há Deontologia, não há Código. Vota-se neles, provêm de várias áreas, entram e saem. Ou vamos começar a votar para o sociólogo da Câmara, para o médico do Hospital, para o polícia do bairro? Peço desculpa, mas aqui há um desvio conceptual. A grelha de análise é (tem que ser) diferente. Um profissional serve-me, não me representa.

3. "A política, local, nacional ou internacional é uma forma nobre de servir, é um meio ao alcance de todos, repudiado por muitos que preferem não se envolver para poderem livremente comentar, e prescindem do seu dever de participação na comunidade por comodismo. Primeiro abdicam da participação na construção de soluções e acabam como abstencionistas delegando nos outros o poder das escolhas em que, por sua vontade, se não revêem."

Concordo com o início e já aqui, em diálogo consigo, o afirmei (ponto 3).

Mais, acho que Portugal muito se desenvolveu nas últimas décadas. Enriqueceu, melhorou. Pelo fim do Império, que canalizou o investimento social para o país; pela democracia (bem em si, mas também instrumento de desenvolvimento); pela intervenção de centenas de milhares de retornados, a abrirem novos polos económicos; pela integração europeia. E, claro, também pelo trabalho dos políticos, de um sistema político que, com erros e falhas é certo, integrou todo este processo e o direccionou.

Mas que parece em decadência. A minha questão é o do porquê desse esvaziamento.

Aqui temos uma discordância. O voto e a participação cívica é um Direito e não um Dever. Senão estariam consignados enquanto tal na lei. E não me convencem obrigações morais: pois aqui apelo à mais vergonhosa expressão que um PM da III República proferiu "A moral da República é a Lei".

Mais, a não participação não retira nenhum direito fundamental. Nenhum. E portanto não retira o direito da crítica.

Para além disso há várias formas de participar. Posso ter uma participação política como profissional? Acho que sim. Ou até como amador (p.ex. como bloguista). Talvez de modo profíquo do que enquadrado num partido político. Sobre estes deixei aqui um ponto, já há meses: acho-os feridos de inconstitucionalidade. E o "comboio descendente" vai rindo sem saber porquê.

Depreendo que para si a única forma de ter direito a opinião sobre os assuntos é

http://jornal.publico.pt/2004/06/05/Nacional/P69.html


Jorge Sampaio Apela ao Debate em Torno das Questões Europeias
Por LUSA
Sábado, 05 de Junho de 2004

O Presidente da República lamentou ontem que o debate da campanha eleitoral esteja afastado das questões europeias e escusou-se a comentar o anúncio de boicote em Canas de Senhorim, sublinhando que conhece "demasiadamente bem o dossier". "Conheço demasiadamente bem o dossier para fazer qualquer comentário", disse Jorge Sampaio aos jornalistas, durante um passeio no eléctrico de Sintra.

O líder do Movimento de Restauração do Concelho de Canas de Senhorim, Luís Pinheiro, anunciou ontem que mais de três mil habitantes subscreveram um abaixo-assinado a enviar ao Presidente da República anunciando o boicote e responsabilizando Jorge Sampaio pelo "descalabro da vida pública" local. A 31 de Julho do ano passado, o Presidente da República vetou a lei-quadro da criação dos municípios, impedindo a elevação a concelho de Fátima e de Canas de Senhorim, que tinha sido aprovada pela Assembleia da República.

Quanto à sondagem SIC/RR/Expresso ontem divulgada e que aponta para uma abstenção de 56 por cento nas europeias, o Presidente da República reconheceu que esse é um dado que "se sabe que existe". "Temos é que fazer todos os possíveis para que as pessoas vão votar, mas para isso é preciso que saibam a importância que tem o Parlamento Europeu", afirmou.

Jorge Sampaio lamentou ainda o facto do debate político da campanha eleitoral estar muito centrado na política interna e pouco na política europeia: "Em todos os países há uma componente de debate interno muito acentuada. Está a ser difícil passar do debate da política interna para a política europeia, o que é pena porque estamos a caminho de decisões que nos vão afectar no dia a dia", disse.

"Não há ainda a nível europeu um espaço que sirva para que as pessoas se apercebam que fazem parte de uma grande comunidade de Estados e que está a votar para algo que nos representa a todos", acrescentou.

Publicado por jpt às 01:20 AM

junho 03, 2004

Des-encanto, des-ilusão? Real-ismo? Ou idade-ismo?

[jeremiada desgarrada (se calhar ilegível, mas que se dane isso): Ou, ensaio para libertar o Ma-schamba da política portuguesa, de uma vez por todas]

Por vezes, "ele há dias", em que leio Portugal e me sinto um "estrangeirado". E isso custa.

A futebolada nacional sublinha-me isso: "o cartão amarelo", "a força portugal"! E a mescla "tãããão giiiiirá" trostkoestalinista.

E, agora, pior que tudo, mais horrível, mais vergonhoso, e tudo isso sublinhado pela indiferença futebolizada de todos em vez da indignação geral, do ostracismo moral e político que seriam merecidos e exigíveis numa democracia consciente, a
candidata comunista
para quem o Iraque de Saddam era uma democracia ainda que os próprios comunistas fossem aí abatidos (Ou voltámos ao Komintern?).

Há muito que se afirma a imoralização/amoralização da política aí. Sobre isso já aqui entrei em suave contenda com o simpático socialista Tugir, na qual tive que constatar pública derrota (mas não convencimento).

O meu argumento então, nada original, resmungava o peso determinante do complexo concelhio/camarário/imobiliário nas vidas partidárias, uma pérfida alquimia. Uma República partidocrata subordinada ao lema do "Todo o poder aos poderes locais". A via para a apropriação partidária dos recursos públicos (seria melhor dizer recursos sociais). Grave, gravissimo, e como dizia há pouco Vasco Pulido Valente (perdi o aonde) prenhe de sidonismos - interessante como esse esclarecido artigo não teve tanto impacto como a sua escatológica intervenção no "Portugal Positivo"! Quando muito mais profundo. Sem querer ser escatológico, foi-o realmente, ameaçando-se prenúncio.

Mas nestes dias de futebolês e asneirada o que surge nem é a imoralidade/amoralidade. É mesmo a inintelectualização. Falta inteligência. Talvez não esperteza. Mas falta "massa crítica" (pirosa expressão). Aos oradores. Aos assessores, esses que escrevem discursos, esses que deveriam ser batedores e não carregadores.

Talvez devido a essa inversão ande tanta asneira no ar: a um carregador exige-se fidelidade, debaixo da carga; a um batedor pede-se lealdade, lá à frente solitário-solidário.

Porque é que uma sociedade incomparavelmente mais rica, mais educada, mais desenvolvida, mais vivida do que a de algumas décadas atrás expulsa da política a inteligência?

Da política! Porque não do resto. "Ele" há gente. Rui Curado Silva deu-nos um belo texto sobre as não-eleições europeias. O por ora ditirâmbico João Tunes oferece-nos um excelente elo a esclarecido artigo de Augusto Mateus.

Há gente, repito. Mas que se passa aí?

Roubalheira dessa cacicada? Sim, gente enriquecida com a Ajuda Externa (disfarçada em fundos estruturais), mas sempre lestos na crítica aos "pretos ladrões". Gente e partidos enriquecidos num sistema que se esqueceu de prever o final do mandato do Procurador-Geral da República. Puro "Cabritismo" como aqui se diz: "o cabrito come onde está amarrado".

Mas acima de tudo um teatro imoral, imoral de cacofonia. Cujos actores, cujos encenadores, cujos dramaturgos (se os há, se os há) só julgam legítimo e eficiente porque desprezam o eleitor, a população, sua memória e inteligência. Porque me desprezam a mim. E porque o desprezam a si, leitor de blogs, leitor bloguista.

Não porque todos sejam ladrões, nada disso. Mas porque se vêm belos ao espelho, a tesão do poder, em espasmos de arrogância em seu torno. Assim conspurcando-nos.

Antropólogo, creio na heurística da história de vida. E da etnografia.

Daí que narre um pequeno episódio, recente. Não só sobre os socialistas. Mas a partir de socialistas também sobre socialistas. Dedico-o, com simpatia, ao blog amigo Tugir, [acabo de ver que me enviou uma prenda musical, cruzámos lembranças], bem como aos outros blogs assumidamente socialistas que me têm elado nos últimos dias. Elos que agradeço. E que retribuo.

Dedicatória sem ironia. Sem acinte. Apenas porque poderá esclarecer o que nos divide muito melhor do que qualquer texto estruturado que para aqui ensaie. Então aí vai, sem requebros de forma:

Coisa de uma semana atrás. Mais ou menos a ver o telejornal (RTP-África). Surge a notícia de um qualquer Forum sobre a Europa, campanha eleitoral do PS. Guterres e Sousa Franco no palco, o primeiro (rabiando as questões presidenciais) cumulando o segundo de elogios, este idem no vice-versa.

Alguém, ali ao lado, diz-me "estás a ouvir?" e eu distraído com o movimento "hum, hum". Insistem-me, agora alertando-me, "mas estás a ouvir? mas estes tipos não andaram a dizer o pior um do outro? e agora estão para ali assim?", e eu "já nem lhes ligo" e, súbito, Alguém irrompe num brutal, ríspido "estas tipas são umas putas!". Assim mesmo. No feminino, como nós, os rudes, fazemos para incrementar o desprezo. Um Alguém que conheço para aí há uma dúzia de anos e a Quem nunca lhe tinha sequer ouvido a palavra "P...". Apenas por vezes aquele "zééé" arrastado, tangível crítica quando a língua se me desbraga.

Ali, face à TV, a irromper o desprezo. Incontido. Apartidário. Moral. Político. O desprezo. Tanto que me fez parar.

Que fazer?, diria Lenine, esse mongol sanguinário. Que fazer diante deste "teatro imoral, imoral de cacofonia" (bis)? Uma teatralidade cuja convicção provém do desprezo para com a plateia? E à qual, caro LNT não há CVs rutilantes que limpem.

Aos quarenta anos só aprendi uma coisa: nunca votar em ninguém que (fora de campanha eleitoral, claro está) nos aperte a mão sem nos olhar nos olhos, dizendo o seu nome se for a primeira vez. Como os homens fazem! Não só não voto como o mando, mesmo que mudamente, para a puta que o pariu. Ou, mais literário, um "hei-de cuspir-vos na campa"! A eles. Só a eles. Nunca a quem neles acredita. Pois muito respeito os amantes da nobre arte do Teatro.

Conhece V., leitor amigo que até aqui chegou, algum desses? Eu conheci dois. Não está mal. Já posso dizer que não é ontológico...

E (A PARTIR DE) AGORA ALGO COMPLETAMENTE DIFERENTE....

Publicado por jpt às 03:06 AM | Comentários (1)

Des-encanto, des-ilusão? Real-ismo? Ou idade-ismo?

[jeremiada desgarrada (se calhar ilegível, mas que se dane isso): Ou, ensaio para libertar o Ma-schamba da política portuguesa, de uma vez por todas]

Por vezes, "ele há dias", em que leio Portugal e me sinto um "estrangeirado". E isso custa.

A futebolada nacional sublinha-me isso: "o cartão amarelo", "a força portugal"! E a mescla "tãããão giiiiirá" trostkoestalinista.

E, agora, pior que tudo, mais horrível, mais vergonhoso, e tudo isso sublinhado pela indiferença futebolizada de todos em vez da indignação geral, do ostracismo moral e político que seriam merecidos e exigíveis numa democracia consciente, a
candidata comunista
para quem o Iraque de Saddam era uma democracia ainda que os próprios comunistas fossem aí abatidos (Ou voltámos ao Komintern?).

Há muito que se afirma a imoralização/amoralização da política aí. Sobre isso já aqui entrei em suave contenda com o simpático socialista Tugir, na qual tive que constatar pública derrota (mas não convencimento).

O meu argumento então, nada original, resmungava o peso determinante do complexo concelhio/camarário/imobiliário nas vidas partidárias, uma pérfida alquimia. Uma República partidocrata subordinada ao lema do "Todo o poder aos poderes locais". A via para a apropriação partidária dos recursos públicos (seria melhor dizer recursos sociais). Grave, gravissimo, e como dizia há pouco Vasco Pulido Valente (perdi o aonde) prenhe de sidonismos - interessante como esse esclarecido artigo não teve tanto impacto como a sua escatológica intervenção no "Portugal Positivo"! Quando muito mais profundo. Sem querer ser escatológico, foi-o realmente, ameaçando-se prenúncio.

Mas nestes dias de futebolês e asneirada o que surge nem é a imoralidade/amoralidade. É mesmo a inintelectualização. Falta inteligência. Talvez não esperteza. Mas falta "massa crítica" (pirosa expressão). Aos oradores. Aos assessores, esses que escrevem discursos, esses que deveriam ser batedores e não carregadores.

Talvez devido a essa inversão ande tanta asneira no ar: a um carregador exige-se fidelidade, debaixo da carga; a um batedor pede-se lealdade, lá à frente solitário-solidário.

Porque é que uma sociedade incomparavelmente mais rica, mais educada, mais desenvolvida, mais vivida do que a de algumas décadas atrás expulsa da política a inteligência?

Da política! Porque não do resto. "Ele" há gente. Rui Curado Silva deu-nos um belo texto sobre as não-eleições europeias. O por ora ditirâmbico João Tunes oferece-nos um excelente elo a esclarecido artigo de Augusto Mateus.

Há gente, repito. Mas que se passa aí?

Roubalheira dessa cacicada? Sim, gente enriquecida com a Ajuda Externa (disfarçada em fundos estruturais), mas sempre lestos na crítica aos "pretos ladrões". Gente e partidos enriquecidos num sistema que se esqueceu de prever o final do mandato do Procurador-Geral da República. Puro "Cabritismo" como aqui se diz: "o cabrito come onde está amarrado".

Mas acima de tudo um teatro imoral, imoral de cacofonia. Cujos actores, cujos encenadores, cujos dramaturgos (se os há, se os há) só julgam legítimo e eficiente porque desprezam o eleitor, a população, sua memória e inteligência. Porque me desprezam a mim. E porque o desprezam a si, leitor de blogs, leitor bloguista.

Não porque todos sejam ladrões, nada disso. Mas porque se vêm belos ao espelho, a tesão do poder, em espasmos de arrogância em seu torno. Assim conspurcando-nos.

Antropólogo, creio na heurística da história de vida. E da etnografia.

Daí que narre um pequeno episódio, recente. Não só sobre os socialistas. Mas a partir de socialistas também sobre socialistas. Dedico-o, com simpatia, ao blog amigo Tugir, [acabo de ver que me enviou uma prenda musical, cruzámos lembranças], bem como aos outros blogs assumidamente socialistas que me têm elado nos últimos dias. Elos que agradeço. E que retribuo.

Dedicatória sem ironia. Sem acinte. Apenas porque poderá esclarecer o que nos divide muito melhor do que qualquer texto estruturado que para aqui ensaie. Então aí vai, sem requebros de forma:

Coisa de uma semana atrás. Mais ou menos a ver o telejornal (RTP-África). Surge a notícia de um qualquer Forum sobre a Europa, campanha eleitoral do PS. Guterres e Sousa Franco no palco, o primeiro (rabiando as questões presidenciais) cumulando o segundo de elogios, este idem no vice-versa.

Alguém, ali ao lado, diz-me "estás a ouvir?" e eu distraído com o movimento "hum, hum". Insistem-me, agora alertando-me, "mas estás a ouvir? mas estes tipos não andaram a dizer o pior um do outro? e agora estão para ali assim?", e eu "já nem lhes ligo" e, súbito, Alguém irrompe num brutal, ríspido "estas tipas são umas putas!". Assim mesmo. No feminino, como nós, os rudes, fazemos para incrementar o desprezo. Um Alguém que conheço para aí há uma dúzia de anos e a Quem nunca lhe tinha sequer ouvido a palavra "P...". Apenas por vezes aquele "zééé" arrastado, tangível crítica quando a língua se me desbraga.

Ali, face à TV, a irromper o desprezo. Incontido. Apartidário. Moral. Político. O desprezo. Tanto que me fez parar.

Que fazer?, diria Lenine, esse mongol sanguinário. Que fazer diante deste "teatro imoral, imoral de cacofonia" (bis)? Uma teatralidade cuja convicção provém do desprezo para com a plateia? E à qual, caro LNT não há CVs rutilantes que limpem.

Aos quarenta anos só aprendi uma coisa: nunca votar em ninguém que (fora de campanha eleitoral, claro está) nos aperte a mão sem nos olhar nos olhos, dizendo o seu nome se for a primeira vez. Como os homens fazem! Não só não voto como o mando, mesmo que mudamente, para a puta que o pariu. Ou, mais literário, um "hei-de cuspir-vos na campa"! A eles. Só a eles. Nunca a quem neles acredita. Pois muito respeito os amantes da nobre arte do Teatro.

Conhece V., leitor amigo que até aqui chegou, algum desses? Eu conheci dois. Não está mal. Já posso dizer que não é ontológico...

E (A PARTIR DE) AGORA ALGO COMPLETAMENTE DIFERENTE....

Publicado por jpt às 03:06 AM | Comentários (1)

abril 24, 2004

Representação ou apropriação?

São até das mais institucionais as vozes que se espantam: veja aqui e aqui os últimos moicanos. Índios envelhecidos que julgam que isto ainda se trata lá na tenda a fumar umas cachimbadas e a falar bem. Gente do passado, ultrapassada. E até um pouco senil.

Pois o silêncio que envolveu esta revisão é tonitruante e significa uma coisa: morreu a ideia de democracia representativa em Portugal. Morreu de doença, dessa maleita de desprezo que os parlamentares têm por quem os vota.

O senhor eleitor, entretido com a bola e a bola, mais a bola e as bolas, merece evidentemente o desprezo. Também doente é certo, mas não de alienação como se pensou em tempos, confirma-se que é imbecilidade mesmo.

Publicado por jpt às 12:16 PM | Comentários (1)

abril 13, 2004

Eleições presidenciais

Em alturas de Abril, de trinta anos de democracia no meu país, venho lembrar um aspecto anti-democrático do sistema político que vigorou até há pouco. (1) Por um lado para lembrar a tantos escatológicos do país que a democracia se vai enriquecendo, e esta mudança é um clarissimo sinal disso. (2) Por outro para fazer uma declaração antecipada de voto.

(1) Desde Abril durante décadas violou-se o princípio de igualdade de cidadania, uma prática anti-democrática devida a (afinal infundadas) querelas partidárias: os emigrantes não tinham direito a voto nas eleições presidenciais. Felizmente isso terminou, mas é bom não o esquecer para não mitificar os sentimentos democráticos, para se perceber quais os, por vezes ímpios, caminhos a que a partidocracia pode descer. E também é bom não o esquecer para se perceber que, afinal, a democracia vai melhorando, como é de sua essência, e que os discursos catastrofistas não têm sentido que não seja o da pequena estratégia.

(2) E já que os emigrantes podem votar anuncio aqui o meu voto. Tenho por Pedro Santana Lopes o imenso respeito devido a quem foi presidente do Sporting Clube de Portugal. Ainda que o não coloque no altissimo patamar devido ao Senhor João Rocha ou ao Dr. José Roquette.

Toda a imprensa o aponta como presumível candidato às futuras eleições. E a própria retórica de PSL o indica.

Votei no PSD nas duas últimas eleições legislativas.

Li no Expresso que

"A transferência do actual hipódromo do Campo Grande para o «pulmão de Lisboa», que está a ser negociada com a Câmara, visará desafectar aquela área da capital para projectos urbanísticos. Recorde-se que, nos últimos anos, o Parque de Monsanto tem vindo a servir de moeda de troca para investimentos imobiliários, dando abrigo a instalações localizadas na cidade e deixando áreas livres para a construção civil. Assim, está em curso a instalação da Feira Popular dentro do perímetro florestal, depois dos cortes praticados pela CRIL, pela construção do pólo universitário ou pelos «avanços» de condomínios privados, como a Quinta de Santo António, em Caselas.

Assim venho aqui afirmar, ajuramentado, que caso o dr. Pedro Santana Lopes se candidatar nas próximas eleições presidenciais votarei em qualquer outro candidato. Seja ele quem for.

Até mesmo no eng. António Guterres.

Publicado por jpt às 01:41 PM

abril 07, 2004

Voto em Branco?

Não sei se para os outros. Mas para quem já se deslocou três ou quatro vezes à escola Damião de Góis (ter-lhe-ão mudado o nome entretanto?) para votar em branco é reconfortante ler este excelente artigo de Vital Moreira:


Além disso, o voto em branco é uma maneira perfeitamente democrática de exprimir descontentamento político, designadamente a rejeição das opções eleitorais em presença e a crítica dos "défices democráticos" existentes. Deste modo, ele é susceptível de uma função democraticamente virtuosa, a saber, um alerta contra o "mal-estar democrático" ou "crise da representação democrática", ideias que constituem um lugar-comum em muitas análises das democracias contemporâneas e que se traduzem na crescente taxa de abstenção, no desinteresse pelos partidos políticos, na hostilidade larvar contra os políticos, no apoio a forças populistas, etc. Ora essas análises não relevam de nenhuma posição antidemocrática, mas sim, pelo contrário, de uma preocupação em relação à qualidade da democracia e à sua redução a um ritual de selecção periódica dos dirigentes políticos, por mais importante que esta seja.

Votar em branco ainda significa utilizar instrumentos democráticos (justamente o voto) para mostrar uma posição política...

Atenção. Digo-o excelente e reconfortante. Não legitimador. Pois ilegítimos são os intérpretes que têm desvalorizado o voto branco.

Acrescento que não concordo com a desvalorização efectiva dos votos nulos. Numa população tão maioritariamente alfabetizada (iliteracia é outra coisa, como sabemos) e já com bastantes eleições no currículo não se pode considerar o nulo como falho. Até porque os eleitores mais passíveis do falhanço devem engrossar os abstencionistas, especulo. Seria interessante uma análise aos votos nulos, procurando entender se resultam de erros ou de efectiva recusa das propostas em compita. Não sei se a lei o permite, mas é uma curiosidade minha.

Ah, nos últimos largos anos tenho votado explícito. Não sei se bem, mas optei. Não estou aqui na onda literária.

Adenda: no mesmo Público o colunista José Vitor Malheiros diz que "O problema do voto em branco é a sua utilidade. O voto em branco consciente, de alguém que recusa todas as opções que lhe colocam na bandeja e que clama pela possibilidade de outra escolha é exactamente igual ao voto em branco analfabeto, ao voto em branco imbecil e ao voto em branco enfastiado.".

Sempre me irritaram os imbecis que apelam ao voto útil.

Publicado por jpt às 01:15 AM | Comentários (2)

fevereiro 03, 2004

Ler o jornal na net (adenda)

[evidente ligação ao apontamento anterior]

Há uma semana, irritado, escrevi aqui:


"A ministra do ensino superior (ou alguém lá no estaminé) pede a lista nominal dos grevistas - isto ultrapassa todo o imaginável, tudo...;"


A ministra demitiu quem se julga acima de tudo. É de Ministra. Passou-me a irritação.

Publicado por jpt às 07:12 PM

janeiro 27, 2004

Ler o jornal na net

Nada a ver com nada, mas como se sente o emigrante quando à noitinha vem ler os jornais da santa terrinha? Que dia...

1. A ministra do ensino superior (ou alguém lá no estaminé) pede a lista nominal dos grevistas - isto ultrapassa todo o imaginável, tudo...;
2. A ministra da justiça (ou alguém lá no estaminé) viola a lei e incorre (em abstracto) em pena de prisão - isto já é imaginável, até muito;
3. O ex-presidente da câmara da Guarda parece que sempre vai preso - isto é que é totalmente inimaginável;

Publicado por jpt às 06:54 PM

dezembro 30, 2003

Personalidade do ano (Portugal)

A (euro)deputada comunista Ilda Figueiredo.

Tendo afirmado "O Iraque é uma democracia", referindo-se ao regime que eliminou fisicamente os comunistas iraquianos, ergueu-se como a nova face da renovação comunista (ala radical?).

Publicado por jpt às 04:44 PM