abril 17, 2006
Bicicletas
No A-Sul notícia sobre a intenção da câmara municipal de Almada de proceder (em "cooperação") à divulgação das bicicletas em Angola e Moçambique [até dando bicicletas velhas]. Palavras para quê?
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abril 15, 2006
Os colonialistas: a tribo branca da África Oriental
No Combustões está a ser colocada uma série de textos sobre os colonos (confesso que prefiro esta denominação, menos carregada de pressupostos ideológicos) em Moçambique, um conjunto de memórias familiares do bloguista: 1, 2, 3, 4.
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abril 05, 2006
Cooperação portuguesa com África
Como (quase) sempre sobre cooperação portuguesa em África só no Bloguítica se pode escutar eco.
A acompanhar, com múltiplo interesse. Ou seja, múltiplo ponto de vista.
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março 17, 2006
Monty Python na RTP-África
passo agora pela sala, meia-noite e 2 ou 3 minutos, por lá esquecida está a tv ligada, enquanto busco entre-livros o raio do comando para a desligar atento na entrevista que decorre na rtp-a. Uma já não-rapariga de peruca (chamam-lhe extensões para disfarçar o emperucar típico de algum bas-fond) entrevista um senhor grisalho da ar bem composto, cuja gravidade repousada o faz refastelar no sofá. Cancro da próstata é o assunto, percebo-o, e o "senhor doutor" decerto médico. A careca pergunta-lhe (e é isso que me faz levantar os olhos e ir perceber o que se passa) se a masturbação tem algum efeito na prevenção contra o cancro da próstata. O respeitável médico, lá do fundo do sofá, apruma o olhar de menosprezo, aquele ar profundo do sábio, ajuizador mas daqueles das punições meramente morais, e deixa-lhe, até enfastiado, um "não, a masturbação é uma forma fictícia de prazer sexual" ...
Abençoada seja a tv do Estado, assim a lembrar-nos o demoníaco desperdício de Onan. Cantemos pois ... ou ouçam, os que o podem fazer.
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março 16, 2006
No Avatares do Desejo sobre a nostalgia daquela África.
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novembro 27, 2005
Lusofonia
De um colega amigo de passagem por Lisboa recebo um email contando dos seus afazeres. Aqui transcrevo uma parcela, talvez significativa. E, note-se, despreconceituosa. Eu fico-me com o sorriso. Ei-la:
Ontem fui a uma coisa chamada "Ciclo de Reflexão Lusófona" que se realizou na Assembleia da República (auditório do Edifício Novo). Oradores Assunção Anjos (embaixador de Angola e presidente do conselho superior do referido ciclo), Ernâni Lopes (presidente), Júlio Corrêa Mendes (vice-presidente), André Jordan (brasileiro), Natália Carrascalão - antiga deputada na ass. da rep. que esteve em Timor - Francisco Knopfli, Luís Fonseca da CPLP e Diogo Freitas Amaral para encerramento. Infelizmente não fiquei para as três últimas apresentações ( ...) . Quase me esquecia, a conferência foi aberta por Jaime Gama.
Tema da conferência: "30 anos das independências dos PALOP. O papel estratégico da CPLP: da descolonização à construção do futuro". O "ciclo" pretende-se uma oorganização da sociedade civil, mas posso adiantar que é algo sério, pessoas interessantíssimas e com reconhecimento no DR como associação (DR III Série, nº 266 de 12 de Nov de 2004). Ernâni Lopes apresentou um documento que se chama: "Nos 30 anos das independências, 30 teses sobre a lusofonia". O documento apresenta alguns pontos interessantes. Veja as teses sobre o que é a lusofonia divididas em 4 componentes: a) formal: língua portuguesa, b) antropológico: construção/elaboração secular de uma matriz histórico-cultural, c) geopolítico: conjugação de vontade dos Estados Lusófonos para reforçar o poder à escala global, d) sociológico: sentimento popular de identidade interna e indentidade nacional de unificação pelo Estado e pela língua.
Isto já vai longo, erá só para dar algumas dicas depois de ter visto no blog as suas reflexões sobre a lusofonia.
Confesso que fiquei impressionado com as apresentações. Acredita que não foi mencionado outro país nas apresentações de fundo (Ernâni Lopes e Júlio Mendes) que não fosse Angola, Angola e mais Angola... Em vez de se chamar ciclo de reflexão da lusofonia deveria se chamar ciclo de reflexão de estratégias para "assaltar"/investir em angola. Vou parar por aqui antes que isto se transforme num tratado
Adenda: Paulo Gorjão teve a gentileza de aqui deixar o discurso de encerramento desta conferência, proferido pelo Ministro de Negócios Estrangeiros português, cujo tom e teor é distinto do reconhecido pelo meu amigo - frise-se que este mesmo dizia não ter assistido ao encerramento. "Angolocentrismo" no restante ambiente? Fica a hipótese. Mera.
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novembro 11, 2005
Há mais gente com memória (II)
Ainda sobre isto. Quando Paulo Gorjão ecoou as declarações de Freitas do Amaral que agora recorda propunha a discussão desta questão: Dito isto, a posição de Freitas do Amaral deveria ser discutida muito a sério..
Na altura ia colocar algo mas cortei. Já aqui o disse, sendo um modesto cooperante não opino sobre a política portuguesa em África [1. "cautelas e caldos de galinha"; 1. (ex-aqueo) é um absurdo o Estado pagar a alguém para trabalhar no estrangeiro (ainda que mero professor) e esse alguém criticar publicamente (ainda que em mero blog) a política que o Estado prossegue].
Ainda assim. Um recentramento na África da CPLP é uma insistência no bilateralismo (mesmo que articulado com pólos, EUA ou UE). O bilateralismo enfraquece, tem dias contados. Nem falo do pós-nacionalismo, mas é óbvio que as questões se discutem e executam multilateralmente. Ser parceiro, ainda que secundário ou intermediário, não será reforçado no futuro por via de projectos bilaterais.
Mais. Um recentramento na Áfica da CPLP assenta na "naturalização" de uma relação passada. E reforça o "complexo imperial", ao nível das concepções. Urge "pós-colonizar" Portugal. Será isso o cosmopolitismo. É isso o futuro. E a economia de recursos não é argumento contrário. Pelo contrário, quanto mais "economizarmos" menos economizaremos.
Publicado por jpt às 12:47 AM | Comentários (0) | TrackBack
novembro 10, 2005
Há mais gente com memória
Ler, com muita atenção. As ilações a retirar para quem sobre isto pode opinar.
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novembro 08, 2005
Memórias da guerra colonial em Moçambique
Adamastor, um blog de memórias da guerra colonial em Moçambique. Fiz uma breve visita. Coisa rude. A exigir regresso.
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novembro 07, 2005
Alegre e Moçambique
Há alguns dias o meu total espanto diante da RTP, um episódio da visita de Armando Guebuza a Portugal. Também nisso reparou o Luís Carlos Patraquim, na sua coluna "A Esquina do Tempo" que envia de Lisboa para publicação no Savana.
"Em compita para serem recebidos pelo dirigente moçambicano estiveram os candidatos presidenciais portuguesas. Mário Soares e Cavaco Silva relevam [sic] o sentido estratégico das relações Portugal/África e depois Portugal/Moçambique, Portugal/países da CPLP. Com o inédito do protesto de Manuel Alegre apontando o dedo à falha do protocolo de Estado. Reivindicou uma amizade antiga e o princípio de que, em democracia, não há vencedores antecipados. O presidente moçambicano virou centro de disputa entre os candidatos lusos. Manuel Alegre também queria ser recebido. Guebuza estava no centro de uma visibilidade que os "presidenciáveis" portugueses exigiam. É uma espécie de eixo que se desloca, inclina." (Savana, 4 Novembro 2005)
Talvez um pouco forçado o tom com que traça o facto. Mas também eu notei esse "espécie de eixo que se desloca, inclina". Pelo menos naquela polémica sobre a retórica protocolar - e forma é conteúdo. Não que venha mal, acho até um projecto interessante, o "multipolarismo". Interessante não, necessário. Um projecto a fazer.
Mas é (foi) óbvio que não era disso que Manuel Alegre falava, não era esse redesenhar o seu objectivo. Pois se fosse o caso tê-lo-ia explicitado, uma linha de pensamento, um futuro. Nada disso, ali apenas o queixume do minuto de televisão, do "panache" cutucado. Episódio mero impensamento, mero autocentramento, mera cabotagem fluvial. Por mais que este episódio seja marginal ao correr português do lá em Portugal, que lhes seja até invisível, esta foi óbvia demonstração da pequenez política de Alegre.
Publicado por jpt às 03:28 PM | Comentários (0) | TrackBack
Sobre Cahora Bassa José Medeiros Ferreira escreve. Mas entre o enigmático e o abstruso. Pois não é apenas "mais um acordo" o que se assinou. Mas, e o que será mais interessante, não se percebe exactamente o que reclama aos "rigoristas das finanças" - que critiquem o acordo? Ou que (hoje) critiquem a construção da barragem? Mais estranho ainda, o que é que uma reflexão sobre Cahora Bassa terá a ver com o Euro-04 de futebol?
[Esta breve nota estaria mais apropriada nos comentários do Bicho Carpinteiro mas aquilo tornou-se um sub-mundo (os comentários, não o blog)].
Publicado por jpt às 02:17 AM | Comentários (1) | TrackBack
abril 13, 2005
Textitos perdidos
Nestas andanças entre ma-schamba velho e novo, entre template novo e mais novo, perdi dois textitos, absolutamente irrelevantes (ou seja, ainda mais que os outros): apaguei-os no velho e não os tinha no novo. Só isso. Este nota é para quem tenha notado a sua ausência. Um era sobre bola, o outro sobre a Guiné-Bissau. Não estou para os tentar reescrever.
Mas um deles tinha uma espécie de delenda cartago est privado: os soldados guineenses do exército português foram massacrados após a independência, apesar de um acordo explícito entre Estados para a salvaguarda dessa tropa. O então presidente da república luís cabral (sem maísculas, claro está) vive em Portugal (com maíscula?) desde então. ino ieira (sem iniciais), então comandante supremo, viveu em Portugal (com maíscula?) estes anos. ieira ainda foi ostracizado mas luís (sem apelido) ainda recolhe tença.
Depois queixam-se que os EUA não aceitam o tribunal de Haia? Esse onde luís deveria apodrecer os seus últimos anos. Com tal vazio em casa queixam-se os militantes da justiça por imbecilidade? Por ignorância? Por distracção? Ou é mesmo só desonestidade?
Publicado por jpt às 06:26 PM | Comentários (3)
março 20, 2005
David Borges
[via Abre-Surdo]
A saber da saída de David Borges da RDP-África. A lamentá-lo, pois David Borges é peça incontornável desse projecto. E homem de voz crítica (voz metafórica, que literalmente tem uma belissima voz radiofónica) e sabedora. Uma raridade no meio jornalístico português que olha África - e, sem facilitismos, também uma raridade na própria RDP-África.
O Abre-Surdo aventa que David Borges terá sido afastado. Espero que não. Mas não descreio. Acima de tudo fica daqui do Maputo a nota. Se quiserem a homenagem, a um bom e avisado profissional. Que sempre deu prazer e saber ouvir, cá de tão longe.
Publicado por jpt às 05:24 PM | Comentários (3)
janeiro 24, 2005
Sobre vistos de entrada em Portugal
ocorre-me perguntar, na sequência da entrada abaixo (mera associação de ideias).
Política de imigração e de vistos? Que fazer? Porque é que é tão difícil para os moçambicanos obter um visto de entrada em Portugal? Quando a emigração moçambicana para Portugal é tão reduzida (o moçambicano emigra para a África do Sul. Os poucos que iriam para a Europa não procuram Portugal na sua maioria, e os que procurariam entram na categoria "brain drain", e a esta não se fecham portas em lado nenhum, como bem sabemos).
E falo de dificuldades também de gente costumeira por lá. Estudantes, ex-estudantes, lusodescendentes, empresários, artistas (então artistas plásticos a viajarem para exposições é um cabo dos trabalhos, sei-o bem), professores (idem), jornalistas (idem). E, claro, dos que não são costumeiros mas até poderiam vir a ser.
Schengen, a União Europeia? Decerto que é isso, um poderoso obstáculo às nossas relações privilegiadas, lusófonas, não será assim? A U.E., nisto malévola, a prejudicar as relações portuguesas com África. Invejosa do nosso luso-tropicalismo, perdão, afecto lusófono.
Sendo assim por que será que as pessoas vão às embaixadas nossas vizinhas, onde é tão mais fácil e rápido obter vistos? Para logo voarem para Lisboa. Da qual regressam a sua casa, quando acabado o que tinham para fazer.
Pois, vistos dados por países europeus relapsos nestas questões, sem a experiência de vagas de imigrantes, dirão. Claro, Espanha, Holanda, França.
Aberrante.
Dirão logo, os vistos não são coisas de programas de partidos, nestes estão coisas mais vastas, englobantes, orientadoras, "estruturantes" (bela palavra, comovedora até). Claro, já imagino por lá, a "bold" até o "apoio ao desenvolvimento do ensino da língua portuguesa", o "reforço da cooperação multilateral na CPLP", "a coordenação do apoio à internacionalização das empresas portuguesas". E coisas assim.
Claro, Espanha, Holanda, França....
Adenda: isto, ressalvadas todas as diferenças, parece saído de um post do Super-Blasfémias (e com a deselegância do sem ligação). Não, talvez apenas o mesmo molde. Ou será o inconsciente colectivo?
Publicado por jpt às 11:55 AM | Comentários (8)
Política Externa Portuguesa em África
Surpreendem-se (sei que retoricamente) os companheiros do Bazonga da Kilumba sobre a exiguidade e superficialidade das referências à política externa africana nos programas dos grandes partidos portugueses.
Apesar do tudo não deixa de surpreender (não retoricamente). Não deveriam os partidos do poder ter algo mais sobre o exercício do poder?
Um sorriso amigo para eles, os bazongueiros claro está. E este é um assunto a regressar, claro.
Adenda: tal como pedi no Bazonga, será que alguém me poderá enviar os endereços dos tais programas políticos?
Publicado por jpt às 11:32 AM | Comentários (3)
janeiro 12, 2005
Ainda a deslocação do ministro a STP
Continua a polémica sobre a visita de Morais Sarmento a S. Tomé e Princípe, com tons diversos (p.ex.), decerto que também animados pelo pedido de demissão por esta causa e por um auto-desculpabilizador comunicado que francamente ... demonstra que não há mínima visão do que está em jogo. [notícia abaixo transcrita, dado ligações serem perecíveis]
Sei que me repito (a maldita idade) mas tenho pena desta vertigem, a do campanhismo (estou-me a auto-censurar, a primeira versão era "a da pequena política").
Tenho pena. A cooperação portuguesa é frágil, a política africana portuguesa é deficitária (atenção, não inverter os termos, não é de falta de recursos que falo). Uma das grandes causas disso é a excessiva descentralização da cooperação, a sua irracionalização, a sua "pelourização". Tudo isso causado por uma tradição colonial que teima em sobreviver [já o disse] mas também em vaidades ministeriais e estratégias de afirmação dos organismos sub-ministeriais, muito ciosos nos seus "departamentos de cooperação".
Um acontecimento destes, em si nada particular, dados os seus ecos públicos poderia ser aproveitado, poderia alimentar uma nova visão de regime sobre a cooperação. Que a subordinasse em exclusivo, e efectivamente, ao Ministro dos Negócios Estrangeiros e ao Secretário de Estado dos Negócios Estrangeiros e da Cooperação.
Esta não é uma visão franciscana, nem crítica, nem tampouco jocosa. É, e perdoem-me a arrogância do "saber de experiência feito", um desejo de eficiência. E é uma visão que se quer patriótica.
[palavra difícil esta última, ai a história recente. Mas em não havendo "paisótica" e não significando "nacionalista", aqui vai como traduzindo um modesto desejo do bem comum]
Adenda: haverá melhor exemplo da desorientação na política africana de Lisboa do que este novo capítulo, em que o ministro da Economia [esqueça-se o actual nome "giro" do ministério] Álvaro Barreto publicita o desconhecimento do interesse da GALP em STP, explicitando-se desinformado. E o MNE nada dirá, pois grande diplomata. Tri-repito-me, tudo isto é o padrão, o mero costume. Um amadorismo vaidoso, nada mais.
Política 12-01-2005 - 07h55
De acordo com um comunicado oficial distribuído hoje de madrugada
Viagem de Morais Sarmento a São Tomé custou 65.200 euros
Lusa
Os custos da deslocação do ministro Morais Sarmento a São Tomé e Príncipe ascenderam a 65.200 euros, enquanto os apoios concretizados ou anunciados são superiores a 1,375 milhões de euros, segundo um comunicado oficial distribuído hoje de madrugada pelo gabinete do ministro.
O comunicado recorda o programa da visita - entre 6 e 11 de Janeiro -, o seu enquadramento e os custos da deslocação de Morais Sarmento e respectiva comitiva, no total de sete elementos, cuja realização tem sido criticada pela oposição, que acusa o ministro de ter gasto mais de 80 mil euros para fazer férias, considerando que a viagem não se justificava.
Em causa está, sobretudo, uma deslocação à ilha do Príncipe e o facto de no dia 8 de Janeiro, sábado, não ter havido qualquer acto no programa oficial da visita, que o ministro aproveitou para participar num programa de mergulho.
Santana Lopes recusa pedido de demissão de Morais Sarmento
Morais Sarmento revelou ontem à noite que pôs o seu cargo à disposição do primeiro-ministro, no regresso de São Tomé, mas que Pedro Santana Lopes lhe tinha reiterado a confiança, pelo que se mantinha em funções.
A nota distribuída hoje de madrugada refere ainda que a visita esteve inicialmente agendada para Junho e Julho do ano passado, não se tendo realizado nessa altura por impossibilidade de agenda de Morais Sarmento.
A nova data para a visita foi marcada para Janeiro, por "reiterado interesse" do Governo de S. Tomé, indica a nota, que confirma que o dia de sábado, na ilha do Príncipe, não teve qualquer ponto de agenda.
Além disso, acrescenta, o encontro previsto com o Presidente de São Tomé, na segunda-feira, acabou por não se realizar devido ao facto de a viagem do Príncipe para São Tomé ter sido feita por via marítima, dado que as condições climatéricas impediram a ligação aérea.
Para a viagem Lisboa-São Tomé-Lisboa, em ligação directa, a nota refere que foi inicialmente considerado o recurso a um dos Falcon da Força Aérea (com um custo de 45 mil euros), tendo-se optado pelo aluguer de um avião particular devido à indisponibilidade do Falcon.
Segundo o comunicado, o aluguer do avião à empresa que apresentou o preço mais baixo, a Heliávia, custou 63.200 euros, enquanto a estada da comitiva em São Tomé e Príncipe orçou os dois mil euros.
Quanto aos objectivos da visita, a nota realça a cooperação, sobretudo no domínio da comunicação social (RTP,RDP e Lusa), da cultura e da exploração petrolífera.
A comitiva integrava também quatro elementos do gabinete de Morais Sarmento, um administrador da RTP e um administrador da Galp.
Publicado por jpt às 05:10 PM
janeiro 10, 2005
Cooperação para o Desenvolvimento
É no Blogquisto que leio o eco da deslocação do ministro Morais Sarmento a S. Tomé e Príncipe. Muito desagradável, não só pelas despesas públicas que possibilitam as actividades paralelas inclusas (mesmo que estas sejam pessoalmente custeadas). [Adenda: neste caso particular há uma interrogação que todos fazemos mas que Paulo Gorjão explicita em termos pessoais, e cuja resposta é muito melindrosa, talvez até devastadora].
Mas acima de tudo pela imagem de displicência que transmitem ao interlocutor. Para mais o à vontade com que os responsáveis políticos deixam transparecer essa imagem displicente significa também uma desvalorização desses mesmos interlocutores, um "pouco importa a opinião deles"! E não nos enganemos, tudo isso é apreendido, todo esse "turismo político-administrativo" causa ruído nas relações. Reduzindo o impacto político positivo das relações de cooperação para o desenvolvimento. Ou seja, para além de incorrecto é um mau serviço ao país.
Nada de novo, atenção! Entre tantos outros casos similares a que aqui assisti recordo um particularmente acintoso, ocorrido há alguns anos. Um outro ministro, tão sonante então como o é hoje Morais Sarmento, que aqui chegou com sua comitiva na quinta-feira, descansou, reuniu, sexta de manhã seguiu para Bazaruto, segunda à tardinha voltou, jantou intra-muros, terça rerreuniu e logo regressou a Lisboa via Joanesburgo. Quem cá estava, acompanhando claro, questionado sobre o sumo da coisa nem sorriu no "não veio cá fazer nada". E não tinha vindo. É um entre tantos casos, entenda-se, trago-o porque deste me lembro do calendário. Talvez por também me lembrar do ministro, dos meus tempos de Faculdade de Direito, onde ele falsificava os resultados de votações de braço no ar às moções que propunha. A Ministro (por enquanto) chegou ele! E ao Bazaruto, já agora.
Mas há um outro ponto sobre estas visitas ministeriais aos países africanos da CPLP surgidas ao abrigo de projectos de cooperação. E é esse o mais importante. É que elas são politicamente descabidas. Não têm qualquer justificação. Entenda-se: os projectos de cooperação para o desenvolvimento são uma actividade de política externa. É natural que para a sua realização os diferentes organismos do Estado sejam convocados. Mas o seu acompanhamento político deve, naturalmente, realizar-se através do ministério que se ocupa da política externa, pelo que todos os outros ministros estão a mais. As suas únicas visitas justificáveis são as decorridas no âmbito de reuniões multilaterais, e esses são casos muito raros, e, vá lá, enquadrando visitas de Estado do PR ou do PM para avaliações mais globais de perspectivas futuras.
Entenda-se, este vai-vem ministerial nas ex-colónias, este acompanhamento in loco das tarefas que os "seus" serviços realizam/"cooperam", nada mais é do que um resquício do Império, como se a sua tutela ainda se estendesse até África.
É um resquício gastador. É (e veja-se os casos referidos) um resquício indecente. Mas acima de tudo é um resquício anacrónico, tardo-colonial, portanto politicamente negativo e nada diplomático, pois também assim percebido pelos parceiros.
Urge crescer.
Publicado por jpt às 12:33 AM | Comentários (3)
novembro 22, 2004
O Problema dos Palop
Excelente memória a do Abre-Surdo, a recuperar o excelente e sempre actual O Problema dos PALOP de Miguel Esteves Cardoso.
Publicado por jpt às 11:06 AM
agosto 28, 2004
"Regressados"
Em boa hora o Canto do Xirico recupera um artigo de 1995 de Fernando Dacosta sobre os "retornados".
Ao (não)discurso sobre o regresso de África sempre o achei como o grande silêncio de um país que muito se desenvolveu nesses anos subsequentes. Mudanças e desenvolvimento sempre (e bem) atribuídos à democracia e à integração europeia. Mas nos quais o peso da disseminação de quase milhão de pessoas com experiências e horizontes tão mais vastos decerto teve uma importância extraordinária.
Foi já por aqui, contactando alguma gente da minha geração por ora regressada a África, que passei boas conversas partilhando as suas recordações desses tempos de meninice, eles então feitos "retornados". Epopeias familiares. Pouco contadas ainda.
[Se até hoje, quando antevemos o regresso, a ser planeado, desejado, estruturado, calmo, ficamos transidos, aterrorizados, com o que nos esperará, imagine-se o abismo que terá parecido o torna-viagem de então]
Fernando Dacosta, no artigo transcrito, refere uma tese de mestrado de então, da autoria de Ana Simões SottoMayor de Almeida, intitulada "O luto no retorno dos portugueses das ex-colónias africanas". Terá passado a livro? Haverá literatura sobre este assunto? Pois a mim parece-me que, 30 anos depois, continua o silêncio do esquecimento.
Um agradecimento pela memória ao vizinho Canto do Xirico, um blog espaçado que merece o olhar atento às suas actualizações.
Publicado por jpt às 11:25 AM | Comentários (2)
agosto 21, 2004
Futebol e estrangeiro
Tem toda a razão Almerindo Marques quando afirma "É preciso eliminar o lugar comum de que o futebol é serviço público".
Apenas gostaria de lembrar dois factos. Há milhões de emigrantes e de lusodescendentes que adoram ver os jogos de futebol, e que os vivem também como paliativo às constantes saudades. Durante décadas não viram os jogos, ouviram-nos. Mas de há anos a esta parte passaram a vê-los. Somos animais de hábitos e de amores. Habituámo-nos a ver, semanalmente, esses nossos amores clubísticos. Agora retiram-nos essa possibilidade. Não é isto um deficit induzido?
E uma outra questão. Por mais que custe aos téoricos e aos práticos da "lusofonia" o grande traço que vai amigando Portugal e os povos antes colonizados é o futebol. Acompanhado apaixonadamente. Semanalmente.
Que me perdoe Almerindo Marques, ao que consta excelente administrador da RTP e lúcido desfutebolizador do país. Concordo, e por mais que lhe vá sentir a falta, que "dar futebol aos emigrantes" não seja "serviço público".
Mas o actualizar de mecanismos de alguma identidade e afectividade comuns com povos distantes, e cujas relações com Portugal são complexas e não tão afectivas como os "lusófonos" gostam de imaginar, é indiscutivelmente uma acção de política externa. E isso é serviço público. Indubitavelmente.
Não acredito na inexistência de possibilidades tecnológicas que permitam a transmissão dos jogos da Superliga na RTP-África e na RTP-I para o estrangeiro, impedindo a sua retransmissão no território português, assim garantindo os legítimos interesses comerciais da concorrente TVI.
Julgo que para isso bastará alguma sensibilidade para assuntos de política externa. E, já agora, algum apreço pelos emigrantes
Publicado por jpt às 04:23 PM | Comentários (2)
julho 26, 2004
vício? ou um "a mim ninguém me cala"?
Pós-post, depois de uns dias a dizer que não valia a pena. Mas não resisti, há gente (e seus apoiantes) que não merecem o silêncio.
[É uma fala de etnógrafo]
1. Sempre me irritou a auto-imagem (reconfortante) da superioridade da esquerda (até quando me pensava como sendo de esquerda).:
- Superioridade intelectual: "Antes de mais, não considero que um intelectual exista sem ser "de esquerda". É certo que há pessoas que escrevem livros e que pertencem à direita. Mas para mim, não basta que um homem faça funcionar a sua inteligência para que seja um intelectual. Neste caso, não existiria já qualquer distinção entre um manual e os homens que lêem..." (J.-P. Sartre, O Escritor não é Político?, D.Quixote, 1971) - [é um mero exemplo, até arqueológico pois hoje pouco se lê o homem. Deste género abundam os exemplares.];
- Superioridade moral [não tenho o célebre A Superioridade Moral dos Comunistas, de Cunhal, não posso partilhar trecho elucidativo]. A afirmação da superioridade moral dos mais ou menos M-L, dizendo-se dedicados à causa radical da minoria maioritária dos desapossados da terra, dos pauperizados. Esta já não me irrita tanto. Crescido que fui no tempo de Xiaopings, Polpots, Brejnevs e seus clones é indignação para a qual já dei, em tempo útil.
Mas também a superioridade dos mais ou menos Sociais-Democratas, dedicados à estranha causa do "bem comum", como se a sociedade fosse um caldeirão de alquimista ou mera "sopa de pedra" (o "diálogo não-optativo" como paradigma). Que hoje não se legitimam moral e politicamente por defenderem "explorados" mas porque se vêem como equidistantes aos pérfidos "interesses": eles são a razão, aquela que se quer ordenadora dos egoísmos alheios, colectivos e individuais. É o fio de prumo, moral e político, cuja independência induz justiça social.
2. Acredito na necessidade e bondade da Ajuda Pública ao Desenvolvimento (vulgo cooperação). Porque as disparidades são gigantescas. Inenarráveis mesmo.
É uma obrigação moral. Como não ajudar populações que em média vivem menos de 40 anos? Em subnutrição crónica? Pejados de doenças facilmente debeladas? Com taxas de nados-mortos e de mortalidade infantil astronómicas?
Que significariam conceitos de "civilização", "humanismo", "desenvolvimento", ou até de "complexo judaico-cristão" se se negasse esta necessidade?
É uma obrigação ecológica. Um dos factores de destrução radical dos ecossistemas é absoluta pauperização de centenas de milhões de pessoas.
É uma obrigação política. Global, pois o combate à pobreza ajuda a paz regional. Reduz (previsivelmente) as migrações. Desenvolve as relações internacionais, políticas, diplomáticas, culturais e, não esquecer, comerciais.
Mas também nacional. Pois Portugal comprometeu-se a fazer crescer a percentagem do seu PIB para a APD [0,7%, 0,8%?]. Ainda que não cumpra esse compromisso, aí acompanhando grande parte dos países da OCDE.
E porque no âmbito das suas relações externas, em especial com os PALOP, a "cooperação" pode ser forte instrumento de política externa, se eficientemente conduzida. Portanto válida para os interesses nacionais, nos países onde se coopera mas também na própria UE, afirmando-se como polo de diálogo internacional.
3. Há iluminados que negam a validade da "cooperação". Porque a vêm como donativos para regimes de cleptocracias corruptas. Para essa gente abaixo do Sahel tudo é similar, negro. Não aprenderam nada com a história. De tal forma que nem percebem o presente.
Esquecem que os regimes não são todos iguais, ainda que todos sejam criticáveis (é da ontologia do poder o ser criticável). Que Angola não é África do Sul. Que Zâmbia não é Libéria. Que Tanzânia não é Quénia. Que Botswana não é Zimbabwe. Que Gana não é Burundi.
Esquecem que os regimes são todos criticáveis, ainda que nem todos iguais. Que a corrupção é endémica às sociedades modernas. As mais industrializadas. As menos.
E esquecem que as cleptocracias não são apenas africanas. Há-as por aí. E houve-as. De cleptocracia terratenente basta ir ler o More, nas nossas origens. Ou reler toda a história dos EUA e Austrália, aqui misturado com genocídio. Ou a história irlandesa. Ou a história dos nossos queridos irmãos brasileiros (onde com Lula aumentou o abate da floresta virgem). Ou a cleptocracia terratenente estatal russa. Que agora mudou, pois já não é estatal. [Um povo que insulta Eduardo dos Santos mas que se orgulha com o Chelsea é um povo de imbecis]. E tantos outros casos. Antes e hoje.
Mas abaixo do Sahel é tudo negro. Para os iluminados. E para alguns outros também.
Esses iluminados, e seus pares, esquecem também que de "crise" em "crise" vivem numa sociedade de espantosa abundância, que lhes é segura pelo contrato social entre riquissimos, ricos e remediados: as sociedades "ocidentais". Gente que come muito. Literalmente. Mesmo que tenha os seus salários congelados dois anos, coitados...Ainda assim obesos. É um contrato social. E a lutazinha que vai havendo é pela distribuição dos respectivos quinhões intra-muros.
[Porque vem isto? É a fala de um etnógrafo]
4. Na "crise" política portuguesa sai o poeta/ficcionista Manuel Alegre a candidatar-se. Cantando, sendo, a "esquerda", aquela social-democrata, socialismo democrático, o que seja. A independente dos interesses malévolos. A da justiça social (mesmo que só fabiana). Aquela a quem ninguém cala, lutando contra a mercantilização da política, o "tvísmo", a "imagem". O vácuo. A heroína dos povos.
A seu lado apenas uma pessoa, ali simbólica. Maria de Belém Roseira, a ex-ministra de saúde. Ela também a esquerda solidária, independente. Franca. De conteúdo. Eles o inverso da decadência alheia. O inverso do vácuo, da imagem. Da alienação, da heroína dos povos.
Há alguns anos Maria de Belém Roseira esteve em Maputo como Ministra. Veio então com uma comitiva de 30 e tal pessoas (!?). Jornalistas de jornais de referência. Que fimdesemanaram na Inhaca "tudo tratado pelo dr. X", um comitivo aqui em representação de indústria farmacêutica.
Maria de Belém contactou com este sistema de saúde. Paupérrimo. Mas estruturado ainda assim. Defeituoso. Mas de pé. Corrompido? Talvez, mas acima de tudo subremunerado. Um mundo muito para lá de Dickens. Mas um mundo, não um caos.
[Um mundo que me diz muito, não só por solidariedade. Também pelo kms a pé em busca de quem me explicasse ser mera sarna aquilo que não conhecia e aterrorizava; que me sossegasse diarreias quando sanguinolentas; que me acalmasse quando esses outros sangues se rebelavam por outros orifícios; que me desiludisse das doenças mortais que afinal não tenho; que me acordasse dos delírios da malária - um mundo de Dante, o qual nós, brancos ricos, vivemos como breve e acidental interregno, apenas paliativo até à clínica particular da "cidade grande", mas vivêmo-lo juntos a quem o tem como horizonte definitivo]
Maria de Belém, a esquerda independente, corajosa, sem que ninguém lhe tivesse pedido foi a Nampula (com os 30 e tal comitivos, jornalistas pré-Inhaca inclusos), acompanhada pelo ministro moçambicano. Sem que ninguém lhe tivesse pedido afirmou, confirmou, discursou que iria dar 1,5 milhões de contos para reabilitar o Hospital Provincial de Nampula.
Maria de Belém colheu fotos disso. Não se coíbiu à gentileza moçambicana. Foi descerrar a cerimónia de entrega de uma frota de ambulâncias ao Ministério de Saúde em Nampula. O representante holandês, o doador, nem queria acreditar e lá se esforçou por aparecer na foto. Acho que conseguiu. Os jornalistas pré-Inhaca fotografaram, e narraram.
A mim disseram-me aqui, sete meses depois: "pois, desde que apanharam o avião nem mais um telefonema". Nunca mais disseram nada. Prometeu, em nome de Portugal, uma ajuda ao hospital da capital provincial, da província mais populosa, onde se vive em condições terriveis de saúde. E, em nome de Portugal, nunca mais disse nada.
Depois, quando lhe tiraram o ministério da saúde, ainda protestou, que queria que lhe criassem o Ministério da Cooperação. Só para ela, decerto devido a este tipo de pergaminhos.
(os iluminados dirão que não tinha nada que oferecer o dinheiro português. Nem discuto. Mas então não o dizia. Não o prometia em meu nome. Acompanhada pelos representantes das farmacêuticas. E pelos jornalistas pré/pós Inhaca. A fotografarem e a narrarem).
Eu não tenho liberdade de sentir vergonha do meu país. É uma violência sobre mim, não é uma liberdade.
Maria de Belém e os seus são a esquerda independente, a trova do vento que passa, a justiça social democrática, o combate aos interesses escondidos. O conteúdo. A superioridade moral. E, até, a superioridade intelectual.
Pois, cá debaixo do pedestal, diante deles eu sou só um cão...mas um cão que de pecadilho em pecadilho ainda tem honra suficiente para a apalavrar junto ao que escreve. E para se envergonhar dessa gente. Para os desprezar, ainda que eles se digam superiores. "Eu seja ceguinho" se não os desprezo. "Eu seja ceguinho" se os esquecer.
[há uns anos, aquando das terríveis cheias de 2000 em Moçambique, o Público colocou uma carta de leitor minha, apelando à ajuda. Em Portugal a esquerda superior no poder demorava a reagir às imagens da RTP-África, à espera de não sei o quê (sei muito bem, demorava à espera da associação com a UE, para que fosse mais visível a intervenção portuguesa, e para que surgissemos como motores dessa ajuda). Já aí fui o tal cão envergonhado. Fica essa carta abaixo, para qualquer interessado]
TIMOR E MEIO DEBAIXO DE ÁGUA
Um Timor e meio levado pelas águas e tanto tardamos a acordar. Porque não havia o complexo de culpa como despertador? Ou porque não havia um ciclo imperial para, sonâmbulos, fecharmos? Daí chegam os jornais e o rosário de críticas. Percebe-se a raiva da impotência. Praguejemos então, juntos!
Com efeito o Infulene, o Maputo, o Inkomati, transbordaram há já um mês. Há quanto tempo publicou o "Público" o triste lamento do Nelson Saúte? Ontem saíam botes holandeses para a zona de Marracuene. Lamento, a ajuda é sempre bem vinda, mas as águas já baixaram, já há gente na praia da Macaneta - as gentes do mundo são bem estranhas, provou-o o frenético Carnaval nesta baixa de Maputo.
Claro que os governos reagem às televisões. Horrível? E se elas não existissem, que fariam os governos? Talvez nada. O estranho é que a RTP-África acompanhou o desaguar. Será que a água filmada pela equipa da RTP não é tão assustadora como a da BBC? Ou será que ninguém vê a RTP-África - o que explicaria esse inprojecto?
Tarde chegou a ajuda de emergência! Mas chegou, urge deixar o praguejo e planear uma rápida e futura ajuda na reconstrução, efectiva, realista e desinteresseira. Diz o Ministro que "Não somos uma potência global" e di-lo com muito acerto. É que logo no aeroporto de Mavalane as memórias do Império impregnam a nossa administração pública. Incluam pois a frase na cartilha das delegações.
Que fazer?, a velha questão. Só prometer o possível, em termos de financiamentos e recursos humanos. Óbvio? Só para quem não conhece a prática do Estado português em Moçambique, a falta de respeito e, acima de tudo, a falta de auto-respeito das missões palradoras. Neste momento a fraternidade com Moçambique exige um Estado burguesmente decente e honesto. Nada mais! Até porque, por maior que seja o desespero local, e talvez ainda mais por isso, quem não se dá ao respeito não é respeitado.
Para começar pode o Ministério da Saúde avançar de imediato com o milhão e meio de contos para o Hospital de Nampula e para o projecto de cooperação na saúde em Gaza (sim, é a agora célebre Xai-Xai) que a senhora ministra aqui prometeu (sem que ninguém lhe tivesse pedido tal) em Julho passado, rodeada dos seus trinta e tal comitivos. Como me diz um amigo da área da saúde "desde então nem mais um telefonema". Só esta piada da Sra. Ministra significa mais do que toda a ajuda de emergência por nós entregue!
PS1. Em Julho acontecerá em Maputo a cimeira da CPLP. Será um bom momento para frente a esta baía cremarmos o sonho de Aparecido de Oliveira. É que se nem agora funcionou...e, pior, ninguém reparou!
Sairemos então da baía, para lá da Inhaca, deixando ao mar as suas cinzas. Xanana poderá fazê-lo, nesta terra tão mais fraterna para os seus, nunca aqui escondidos detrás de tapumes ou de ministeriais agendas cheias.
PS2. Quem não se dá ao respeito não é respeitado! E quem não respeita os seus mais velhos ainda pior! E Mário Soares é o mais velho da nossa II República, goste-se ou não. Deixar desrespeitá-lo "Por um Punhado de Dólares" significa que o nosso Estado não é nem decente nem honesto, pelo que o atrás escrito prescreve.
Maputo, 7 de Março de 2000
Publicado no Público de 9 de Março de 2000
Publicado por jpt às 06:28 PM | Comentários (30)
junho 02, 2004
"Mundo Português" (epílogo?)
A propósito de um dos meus "resmungos de estimação", parafraseando um dos grandes momentos do MEC, o Marco Oliveira, outro bloguista olivalense (já somos pelo menos 3, "onde quer que se vá encontra-se um gajo dos Olivais", dizíamos assim confiantes, lembras-te L.E.?) teve a bondade de me enviar este email:
No sábado fui à feira do livro. Eu e minha esposa. Eu lá ia com a mochila às costas, para carregar a livralhada. A certa altura deparei com o José Rodrigues dos Santos a dar autógrafos do livro qualquer. Não tinha ninguém à volta dele de modo que abordei o gajo.
- "Sabe tenho uns amigos lá em Moçambique que ficam chateados quando o telejornal termina com a frase 'Boa Noite a todo o mundo português!'"
- "Mas eu nunca digo isso"..., respondeu logo ele.
- "Pois não. É um colega seu... Mas para os moçambicanos dá a impressão que todos temos tiques colonialistas... Se puder dar o recado ao seu colega..."
- "Com certeza...", sorrindo.
E foi assim. O teu recado foi entregue.
******
Obrigado Marco. A ouvir vamos...
Publicado por jpt às 11:46 PM | Comentários (4)
abril 30, 2004
Descolonização: ainda e ponto final parágrafo
Nestes últimos meses em Portugal falou-se de descolonização. Também no bloguismo isso soou.
Cada vez menos acredito em sínteses. Cada vez mais acredito em complicações. Ainda mais em matérias como estas, onde tantas "certezas" existem. Ainda para mais em matérias como estas, que para muitos de nada valem a não ser como barro para moldar o presente.
Então, e face a tantas "certezas" e tão pouca importância do assunto, para quê continuar a falar, para quê procurar "complicar", desvendar?
Não há dúvida, há que simplificar, abreviar. Mas como se de tão difícil síntese? Opte-se. Opte-se por uma versão.
Vá aqui, e se quiser consulte ainda aqui. Depois passe por aqui.
É certo que não estão a falar dos mesmos factos, das mesmas épocas históricas. Nem do mesmo mundo, diria. E também que não escrevem na mesma língua.
Mas acredito que o leitor consiga fazer uma analogia e, ainda, seja minimamente poliglota.
Leia e opte. Porque não há conciliação possível.
Estou a falar de qué? Descolonização? Não, isso já era. Agora é coisa séria...estou mesmo a falar da minha ética. E de Razão.
Opte, porque não há ponte possível. E saiba, que é em momentos como estes, até pequeninos, que sabemos, que provamos, que o universalismo é impossível.
Pois "eles" (sejam lá quem forem) não nos (e nós quem somos?) querem compreender. E nós (idem) também não os (aspas) compreendemos.
Vale-me às vezes ser "nós" às vezes ser "eles"! Mas há limites: bem burgueses os meus, os da decência. E, neste caso como noutros, são "eles" apenas e radicalmente indecentes.
Nada mais, tudo isso. E cansam. Enjoam, até. Mas atenção, "estes eles" nunca se enjoam. Mascam...
Adenda: um posteiro veio à liça chamando-me eliptico, querendo chave. Então lá vai, qual antropólogo:
Era uma vez um antropólogo conhecido que escreveu algo como (e vai de memória): "bárbaros são aqueles que acreditam na existência de bárbaros".
Eu sou um bárbaro. Desses.
Publicado por jpt às 12:52 AM | Comentários (3)
abril 19, 2004
Da descolonização
Em plenos 30 anos do 25 de Abril o regresso à descolonização é normal. Sobre isso já desabafei e até (semi)botei.
Na semana passada Almeida Santos falou sobre a matéria, anunciando ainda um livro. Será interessante ler a sua versão, enquanto participante activo. Também Mia Couto publicou um artigo sobre o assunto [obrigado ao leitor "Mossuril" pelo pronto envio].
Ambos os textos têm interesse ainda que não avancem novidades ou leituras originais. Principalmente por integrarem algo que deveria ser óbvio. O final do colonialismo foi provocado, e portanto a análise da sua história tem que integrar as práticas de quem contra ele combateu.
Em Portugal o discurso traumático continua. A procura de culpabilização de políticas ou de individualidades não passa de uma leitura autocentrada do processo de então. Autocentrada e orfã de Império. O entendimento do final do colonialismo tem que o encarar como fruto de uma luta local e dos apoios que recebeu. Aliás também o 25 de Abril o foi, dito e redito que está o facto dos militares se terem revoltado contra a situação profissional/pessoal/política que uma guerra anacrónica lhes tinha causado, bem como ao país.
Não se trata de apagar as múltiplas perspectivas que havia então em Portugal sobre a questão. Trata-se de não encerrar a leitura do processo nessas dinâmicas. De certa forma é uma questão de português: Portugal não "fez" a descolonização, "aconteceu-lhe" a descolonização. Tivesse esse facto histórico inultrapassável sido planeado e discutido alguns anos antes outra formulação (linguística, refiro) seria possível.
Ainda hoje se fala muito de "culpa" (até Almeida Santos recupera a palavra, sacudindo-a de si próprio) e até de "traição". Sendo um bocado demagógico, reconheço, apetece perguntar:
- a grande vaga de povoamento colonial ocorreu nos anos 50 e 60. Após a independência das colónias europeias na Ásia, durante e após a independência das colónias europeias em África. Quem "traíu" os futuros "espoliados do Ultramar", de quem é a "culpa" dos seus destinos? Quem os convenceu que era um projecto para a vida, quando era óbvio que não o podia ser? Ou quem, à direita ou à esquerda, pró-soviético, pró-rodesiano ou pró-no meio, muito pouco podia fazer num mundo que já há muito tinha mudado?
Extra: em vez dessa bafienta elaboração de "culpas" e "traições" tão mais interessante estudar aprofundada e extensivamente o efeito social dos retornados no Portugal de 70. Tanto se fala do impacto da democracia, e depois da CEE/UE. E tão pouco do abanão que essa mole humana vinda de outras práticas terá tido aí no rincão.
Publicado por jpt às 03:53 PM | Comentários (3)
fevereiro 10, 2004
(Des)Colonização
A "polemicazita" sobre a descolonização deslocou-se para o mundo blog. No colectivo Mar Salgado gerou-se uma polémica interna, em reacção a um texto algo irreal ali colocado por V. Lobo Xavier, no qual se defende liminarmente o colonialismo português.
Acredito que o teor desse texto esteja vinculado a dois factores: a um reflexo da polémica partidária que lhe é anterior; a um profundo desconhecimento do seu autor sobre o assunto que aborda. E, talvez, a um desejo de cutucar aqui e ali. O texto vale o que vale, as respostas que recebeu em casa própria servem para o ultrapassar. E, provavelmente, VLX terá curiosidade em se informar um pouco melhor sobre a matéria, agora que escreveu sobre ela, agora que se cumprem trinta anos sobre os processos de independência das colónias portuguesas.
Não é portanto sobre esse texto que venho escrever. Mas sim sobre um outro do mesmo Mar Salgado, de Nunes Vicente. Uma posição crítica à do seu parceiro, lúcida. Mas onde ainda se retira "O Regime pode ter feito uma colonização menos brutal...", um traço recorrente na leitura do colonialismo português, e quase sempre conjugada com algum luso-tropicalismo, ainda que básico (não neste caso). Ideia baseada em alguns lugares comuns, frágil, preconceituosa.
A leitura da história e a realização da historiografia são actos políticos. Por isso não me pode surpreender que as perspectivas políticas surjam tão arreigadas quando se fala de Portugal em África. Mas o império acabou há já trinta anos, e não há apenas trinta anos. Para quê continuar a falar do colonialismo entricheirados em aparentes campos político-partidários?
O regime colonial era de uma brutalidade terrível. Não apenas pela violência política mas fundamentalmente pela sobrevivência quase até ao seu final de mecanismos violentos de exploração do trabalho local . Sobrevivência que não está ligada a qualquer "maldade" nacional (o que é isso de "maldade"?) mas à própria estrutura económica portuguesa, incapaz de desenvolver mais rapidamente outras formas de incentivos à produtividade.
Está isso narrado, contado, analisado (ainda que não em demasia). Basta ler, olhos abertos e despido de alguns preconceitos serôdios, anacrónicos.
Olhar para isso, saber isso, nada deveria ter a ver com as perspectivas políticas que se defendem para a sociedade de hoje. Saber o passado apenas. Saber mais sobre um Portugal ainda recente. E despirmo-nos dessa ganga de ignorância que de retemperadora nada tem.
Pois senão o coro de discursos sobre o regime colonial e sobre o seu evidente corolário, a descolonização, possibilitarão o reavivar de uma velha ideia tantas vezes apregoada: a de que a esquerda é mais "intelectual", "sábia" do que a direita. Ideia tão preconceituosa, irreal e anacrónica como as acima lamentadas.
Finalmente, e um pouco marginal a isto. Surpreende-me que um partido do governo, que o seu chefe parlamentar, usem a descolonização e a crítica radical aos regimes subsequentes como arma de política interna. Penso que foi Telmo Correia que disse quase isto "O dr. Mário Soares provocou e teve resposta apropriada".
Isto é de uma ligeireza absoluta. Porque pode prejudicar as relações entre Estados - e portanto são atitudes desprovidas de Razão de Estado. Porque pode prejudicar os interesses portugueses e as comunidades aqui imigrantes. Se fossem discursos integrados numa opção governamental de ruptura ou esfriamento com estes regimes não seriam ligeiros e seriam até legítimos (ainda que passíveis de discussão). Mas não é esse o caso. Assim são atitudes de dirigentes políticos tornados apenas ruído nas relações. E portanto ligeiras. E ligeireza em política é incompetência.
Publicado por jpt às 12:55 AM
fevereiro 06, 2004
A descolonização?
Questiúnculas em Lisboa sobre a descolonização [meros reflexos de outras coisas, parece-me].
Mas mantenho-me fiel ao lema, que há poucos apontamentos me obriguei a relembrar: não me irritar. Ainda assim surpreende-me que se possa discutir a (des)colonização sem se discutir a colonização - parece-me um erro de lógica.
Mas com tanto lugar-comum apregoado é nítido que falam de si próprios e não tanto das realidades que invocam. Para falar delas bem que podiam ler [nota pessoal: ao escrever isto ando décadas para trás, estou igualzinho ao meu pai]. E, já agora, mergulhar no Companhia de Moçambique, coisa tão séria, e nada utilizável para pressas tonitruantes. Depois sim, podiam vir botar os discursos que quisessem, talvez mais informados
Mas apesar do lema, não resisto a botar opinião sobre a descolonização:
e porque não tê-la feito uns dez ou quinze anos antes?
e, afinal, quem é que fez a descolonização? Não, não, não estou a perguntar se foi o sr. dr. a ou o sr. dr. b. É mais tipo se foi por aí ou por aqui que se fez.
[desabafo: que raio de país é o meu, entalado entre ultramontanos bolorentos e patrimonialistas fundamentalistas]
Publicado por jpt às 07:21 PM
dezembro 23, 2003
Saddam, o TPI, e já agora as tropas coloniais
Não se assustem, não vem aí “a minha opinião sobre tudo aquilo”. Apenas aproveitar o assunto para lembrar algumas incoerências na lusa pátria.
Bem, o homem foi preso, os americanos foram um bocado ordinários, não havia necessidade de lhe mostrar os dentes hirsutos, JPP teve mais do que razão [situação em que ameaça tornar-se monótono]. Por aí toda a gente falou, berrou, blogou. Logo veio o “julguem-no”, alguns saddamianos a ruminarem-lhe uma pena de morte, outros nem tanto, todos mais ou menos a opinarem sobre quem o deve julgar, os iraquianos (esses a prazo, os que estão agora mais no poder e que vão acabar mal, coitados) ou uma tal “comunidade internacional”.
Ora é aqui que a minha porca torce o rabo, e nem me estou a ligar ao tal homem, tantos a pensarem sobre o assunto devem chegar a uma conclusão suficiente. Ouço e leio aí à esquerda que Saddam deve ser julgado pelos iraquianos (quais? que efectiva legitimidade tem a actual nebulosa próxima do poder) ou pelo TPI. Mas este seria difícil pois os americanos não aderiram, o que demonstra a sua malvadez. Até concordo. À direita (aqui de longe ainda não compreendi o que é a tantas vezes escrita “nova direita”) encolhem os ombros, não apreciam lá muito o TPI, se calhar porque os americanos não gostam (causa suficiente para muitos pensares), e lá vão apoiando os tais actuais iraquianos, sobre os quais dirão dentro de algum tempo os maiores impropérios. [Lembram-se como a euroesquerda delirou com Khomeini, para depois...?]
Volto à esquerda portuguesa e ao seu apreço pelo TPI. E (já cheguei ao ponto) coloco-me uma questão. Nos anos 60 e 70 Portugal recrutou tropas africanas nas três guerras em que esteve envolvido. Larguissimos milhares. Com as independências essas tropas tiveram destino diverso.
Em Angola predominou o pragmatismo, a guerra contínua impeliu ao seu recrutamento. Em Moçambique houve uma reintegração pacífica, por vezes apoiada em cerimónias públicas, estatais ou aldeãs, na vida civil, sendo certo que muitos vieram depois a integrar as forças militares estatais ou da renamo, por via de recrutamento e, decerto, pelo apelo do ethos militar. Mas em ambos os países predominou o desejo da reintegração e no Moçambique, sem o constrangimento imediato da guerra, a sageza estatal de uma pacificação pós-colonial.
Na Guiné-Bissau ocorreu o contrário. As tropas que tinham sido arregimentadas pelo Estado português foram dizimadas (e após acordo entre os países para as salvaguardar), processo em que talvez tenha interferido uma dimensão étnica. Isto decorreu durante o consulado de Luís Cabral, ainda que muitos apontem também responsabilidades de Nino Vieira. Enfim, não afirmo culpas. Não sei se foi o presidente Cabral ou o futuro presidente Vieira (ou os dois) que, bem diferentemente dos presidentes Neto e Machel, massacraram os seus conterrâneos recrutados pelo Estado colonial.
Só pergunto à tal esquerda, para que serve aderir ao TPI e depois albergar Cabral em casa? Que faz ele envelhecendo no meu país, esse que tanto grita contra Saddams e Suhartos? E depois Vieira, mesmo que aqui com a desculpa que o seu exílio terminou a guerra, pois porque não foi ele para o Senegal, por exemplo?
E a direita, velha ou nova, pomposa no seu desejo de comemorar os trinta anos do 25 de Abril atribuindo reformas aos antigos soldados do ultramar, como quer e diz Portas, enquanto a reboque retira a descolonização da Constituição? O acto em si talvez seja meritório, a República arregimentou gente para uma guerra estúpida, agora compensa-a na velhice. Mas é óbvio o prazer revanchista, ultramontano que brota deste pacote “comemorativo”, de patrioteiro armado em patriota, aparentando justiça desideologizada, como se isso existisse.
Mas seja, elegemos este poder (sim, eu elegi), levamos com o seu melhor (apreciando) e com o seu pior (protestando). Mas recompensar a tropa colonial, homenagem pública e financeira, e deixar Cabral e Vieira, envelhecendo calmamente em nossa casa? E os outros soldados, os massacrados? Não contam? Porque eram “guinéus”? Não eram eles também “soldados do Império”? Para que vale então ser patrioteiro?
Hum, cheira-me a racismo à direita, a hipocrisia à esquerda. Ou vice-versa. E vice-versa.
Publicado por jpt às 04:13 PM