maio 09, 2006
Género

"Que não duvideis, por um lado, de que há espíritos do género masculino, mas duvideis, por outro lado, que os haja do género feminino mais parece fantasia do que dúvida razoável. E se for essa a vossa opinião, ela seria mais conforme, afigura-se-me, à imaginação do vulgar, que estabeleceu que Deus é do género masculino e não do feminino."
[Baruch de Espinosa, "Carta LIV, Setembro de 1674", Baruch de Espinoza, Hugo Boxel, Sobre Espectros e Espíritos, Lisboa, Teorema, 2005, pp. 25-26]
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abril 28, 2006
"Political or military commentators, like astrologers, can survive almost any mistake, because they more devoted followers do not look to them for an appraisal of the facts but for the stimulation of nationalistic loyalties. And aesthetic judgements, especially literary judgements, are often corrupted in the same way as political ones."
[George Orwell, "Notes on nationalism", In Defence of English Cooking, Penguin Books, 2005, p. 12]
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Latim

É óptima a existência destas edições populares dos clássicos. São relativamente baratas, acessíveis à compra (encontram-se, são distribuídas). E assim permitem aos populares ler tamanhas palavras. E, mais do que tudo, recomendarem-nas, emprestarem-nas, recortarem-nas e assim passá-las aos populares mais novos.
Têm defeitos nas notas de rodapé? Referências bibliográficas incompletas? Notações exóticas? Citações incompletas? Revisões parece-que-inexistentes? Terão, mas é por isso que são populares. Letra pequenina e lombada frágil? Sim, mas são populares.
O que me irrita são as não-traduções. Não é a primeira vez que aqui venho com latinices semelhantes. Não consigo entender a inexistência de tradução (que seja entre parêntesis, que seja em rodapé, até mesmo no fim do livro) das citações em latim. Durante muito tempo pensei que fosse sinal de distinção. Género quem aqui vem (o aqui são as ilustres colecções) tem que saber latim (e alemão, também sofre do mesmo mal). Pensei assim bastante tempo, chapéu na mão, respeitoso e humilde diante do saber de quem edita ou traduz tão grandes pensadores. Ainda que paradoxo, então as colecções populares não serão para nós, populares? Já letrados no hoje-em-dia do progresso mas não em latim (ou, repito, em alemão)? Mas enfim, de paradoxos está o mundo cheio. Ainda assim isto irrita-me, e cada vez mais.
Como mero exemplo, nesta "Carta Sobre a Tolerância" as duas siglas, bem significantes, que integraram a edição original, anónima, surgem

pelo menos 3 vezes, nas introduções e no texto. Em nenhuma delas são traduzidas, tal como várias outras citações. Porquê? Nós, populares, não podemos saber o conteúdo exacto e total do livro? Há dimensões que serão só para iniciados?
Repito, isto é mania geral, não apenas neste livro. Tradutores altaneiros? Editores elitistas? Vice-versa?
Talvez não. Pois estas são traduções de edições traduzidas. E quando nessas edições base (normalmente em francês) algum excerto em latim foi traduzido também aqui o surge em português. Portanto a imperscrutabilidade do latim não é um dogma (aliás neste caso está-se a traduzir um original latim, mas enfim). E na única tradução do latim para português (ainda que mediado pela tal tradução francesa, ainda assim) em todo o livro o jeito é este:
"Não tinha ele tomado como divisa o pensamento atribuído a Santo Agostinho: In necessariis unitas, in dubiis libertas, in omnibus caritas" (na necessária unidade, na dúvida liberdade, em todas as coisas caridade)" [meu sublinhado]. [versão wikipedia, para quem tiver curiosidade]
Confirme-se. É um pequeno erro (ainda que invalide uma ideia). Até pode ser de revisão. Mas denota bem, o restante latim deste(s) livro(s) não é traduzido porque é desconhecido. E não se solicita trabalho complementar. O latim a seco não é sinal de distinção. Afinal somos todos populares, posso entrar. E ponho o chapéu na cabeça.
Mas e os mais-novos, como lhes traduzir as latinices avulsas? E, principalmente, como não os deixar assustar diantes dos excertos (quase)incompreensíveis?
[John Locke, Carta Sobre a Tolerância, Edições 70, 1996, (tradução de João da Silva Gama, revista por Artur Morão)]
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abril 24, 2006
O Regresso dos Soldados
"I spent the years 1922-7 mostly among men a little older than myself who had been through the war. They talked about it unceasingly, with horror, of course, but also with a steadily growing nostalgia."
[George Orwell, "My Country Right or Left", In Defence of English Cooking, 2005, p.4]

[Ricardo Marques, Moçambique. O Regresso dos Soldados, D. Quixote, 2005]
Ricardo Marques é um jornalista do Correio de Manhã, de Lisboa. Neste livro narra a sua viagem a Moçambique como acompanhante-cronista de um pequeno grupo de antigos soldados da guerra colonial/de libertação (que o nome varia conforme quem lê), um grupo heterógeneo - há notícias de outras visitas de grupos nascidos na própria guerra, antigas companhias ou regimentos. É um do Maputo ao Rovuma, melhor dizendo, do Maputo a Mueda, então palco-mor de guerra. Nele se revive o corolário da nostalgia desses antigos soldados, hoje (quase)reformados, na sua esmagadora maioria regressando pela primeira vez onde combateram na juventude. A resolução de algo que faltava, o uma vez mais, o reviver onde tiveram o medo. Talvez por isso mesmo a longa urgência desta mais uma vez, repassar onde se passara amarfanhado. Mas onde também ganharam afecto à terra, às pessoas. Essas contradições que fazem rica a vida. Para estes quase-velhos é, nota-se, uma necessidade o regresso, a visita. Uma última vez, explicitamente para muitos, implicitamente para quase todos.
Mas o livro é também a memória das impressões de então cruzada com as de hoje, tornando-o assim pequeno documento para entender a visão que os soldados tinham, e iam criando, do Moçambique onde guerreavam. E de como essa imagem se foi transformando até ao hoje.
Torna-o também interessante uma prosa seca, com a vantagem de procurar fugir a moralizações, saudosismos, exotismos, turistismos. Vai vendo e ouvindo os velhos soldados, transmite-nos o que eles viram e vêm aqui. Depois tem piada encontrar velhos conhecidos por entre o livro, o padre Lopes na ilha, ainda a falar da maldita (e horrorosa) estátua do Camões, o Simões (que se irritaria se lesse o livro), o lendário Santos de Mueda, símbolo do tasqueiro português, que vim a apanhar no Encontro e na Tasca de Pemba, agora algures em Nacala, entre outros. E assuntos que fazem a história actual, como o omnipresente boato do pagamento de pensões aos ex-soldados do exército português, coisa que durou para aí uma década e que exigiria um livro, sobre expectativas criadas e também sobre a extraordinária capacidade de reprodução de boatos.
Que, no fim, é um bocado superficial sobre Moçambique? Reproduzindo acriticamente algumas ideias-feitas, "a saudade de Portugal", a excelência do português sobre os dialectos? É, mas é o registo de uma viagem, uma romaria de saudade que é também catarse. Não pretende ser mais nada. Se não se for mais exigente lê-se com muito prazer. E toma-se até como fonte. Confesso que logo de início torci o nariz, o pressuposto logo ali espalhado, quase me levou a largar o livro. Apenas a gargalhada me levou a continuar, e ainda bem. Narra R. Marques (p. 42) que ele e o grupo foram abordados em busca de "ajuda": ""Lembram-se de mim?", pergunta o sujeito, de bolsa na mão. "Não", respondem os portugueses. Compreende-se, afinal está à civil. Mas o homem trabalha no aeroporto, no controlo alfandegário e, conta, "facilitou a entrada do grupo no país" há escassas quatro horas. Agora saíu do serviço. Mas não se esqueceu. "Será que me pode dar uma ajuda?". Não é corrupção, nem é esmola..."
O que me ri, apanharam com esta conhecidissima personagem de Maputo, sempre bem-posto, simpático, esfuziante, a apanhar os portugueses saídos do avião, sempre com a mesma história. E tantos são os anos passados que bom rendimento deve ter, ali em "ajudas" dadas pelos incautos. Folclore puro e simples, o homem devia até ser considerado atracção turística. Tomaram-no a sério, surge como imagem do estado do país. Não é, é um tipo do conto do vigário, universal. Pacífico, diga-se.
Criticável? Nada, Marques e os outros passaram e viram. Lido sem criticismos absurdos o livro é bem interessante. E, particularmente, para os velhos soldados.
Há outra coisa não tanto sobre o livro mas sobre estas viagens que se vão fazendo usuais. Aqui narra-se uma viagem em finais de 2003, por altura das eleições municipais. E faz-me lembrar o certo frisson que, diz-se, existiu no ano seguinte por alturas das eleições presidenciais e legislativas. A causa foi exactamente a série de viagens de velhos soldados nessa época. Talvez seja mero boato mas então constou que a chegada de vários grupos de excursionistas causou a impressão de movimento militar, porventura apoiante de um dos partidos em compita, e que tal teria até levantado problemas na atribuição de vistos. Repito, talvez seja apenas boato (outro), mas significa também o peso simbólico que estas viagens têm ainda. Em ambos os lados de então. Se tiver sido verdade bastaria ler um livro assim, ver as fotos, para o desengano. Memórias vivas. E, surpreendentemente (?), fraternais. Apesar da guerra que fizeram? Por causa da guerra que fizeram.
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abril 23, 2006
Bom senso

[George Orwell, In Defence of English Cooking, Penguin Books, 2005]
Um tratado (quatro textos pequenos) de bom senso. Impiedoso. Dá vontade de ir postando citações ao longo de uma semana. Coisa mais actual, a falar de nós e vizinhos. E muito mesmo dos vizinhos (já que nós somos sempre mais belos e inteligentes do que aqueles, portanto menos retratáveis).
1.
"Ours was the one-eyed pacifism that is peculiar to sheltered countries with strong navies. For years after the war, to have any knowledge of or interest in military matters, even to know which end of a gun the bullet comes out of, was suspect in "enlightened" circles." [My country right or left, p. 3]
"Pacifist propaganda usually boils down to saying that one side is as bad as the other, but if one looks closely at the writings of the younger intellectual pacifists, one finds that they do not by any means express impartial disapproval but are directed almost entirely against Britain and the United States. Moreover they do not as a rule condemn violence as such, but only violence used in defence of the western countries" (Notes on nationalism, p. 26).
2.
“Patriotism has nothing to do with conservatism. It is devotion to something that is changing but is felt to be mystically the same..." (My country left or right, p. 6)
"To this day it gives me a faint feeling of sacrilege not to stand to attention during "God save the King". That is childish, of course, but I would sooner have had that kind of upbringing than be like the left-wing intellectuals who are so "enlightened" that they cannot understand the most ordinary emotions". (My country right or left, p. 7)
3. (Dedicado ao blog Tugir)
“All nationalists considerer it a duty to spread their own language to the detriment of rival languages, and among English-speakers this struggle reappears in subtler form as a struggle between dialects” (Notes on nationalism, p. 16)
4. pensando em tantos blogs ultraliberais portugueses acriticamente pró-americanos, onde tanto reconheço o nacionalismo "transferido" que Orwell afirma:
"Nationalism ... does not necessarily mean loyalty to a government or a country, still less to one's own country" (p.9) ... "The intensity with which they are held does not prevent nationalist loyalties from being transferable" (p. 16) … For the past fifty or a hundred years, transferred nationalism has been a common phenomenon among literary intellectuals … What remains constant in the nationalist is his own state of mind: the object of his feelings is changeable, and may be imaginary” ... (p.17)
"All nationalists have the power of not seeing resemblances between similar sets of facts … Actions are held to be good or bad, not on their own merits but according to who does them, and there is almost no kind of outrage – torture, the use of hostages, forced labour, mass deportations, imprisonment without trial, forgery, assassination, the bombing of civilians - which does not change its moral colour when it is committed by “our” side." (p. 18)
"The nationalist not only does not disapprove of atrocities committed by his own side, but he has a remarkable capacity for not even hearing about them..." (p. 19)
"Moreover, although endlessly brooding on power, victory, defeat, revenge, the nationalist is often somewhat uninterested in what happens in the real world. What he wants is to feel that is own unit is getting the better of some other unit, and he can more easily do this by scoring off an adversary than by examining the facts to see whether they support him. All nationalist controversy is at the debating-society level." (p. 22) [Meu sublinhado, já que é algo que sempre me surpreendeu no tal mundo blogoliberal luso]
5.
"By nationalism I mean first of all the habit of assuming that human beings can be classified like insects and that whole blocks of millions or tens of millions of people can be confidently labelled “good” or “bad”. But secondly – and this is much more important – I mean the habit of identifying oneself with a single nation or other unit, placing it beyond good and evil and recognizing no other duty than of advancing its interests. Nationalism is not to be confused with patriotism.…
By “patriotism” I mean devotion to a particular place and a particular way of life, which one believes to be the best in the world but has no wish to force upon other people. Patriotism is of its nature defensive, both military and culturally. Nationalism, on the other hand, is inseparable from the desire of power”. (Notes on nationalism, pp. 8-9)
6. é só abrir o livrinho, decerto há carapuços para me meter. Que tanto bom senso não será só nos outros que falta.
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abril 03, 2006
Escrever
"Inventamos um mundo cada vez que escrevemos. Com efeito, trata-se, de acordo com a sua etimologia, invenire, de dar a conhecer o que já existe, aquilo que os nossos hábitos de pensar nos impedem de ver e que, todavia, é amplamente vivido na vida corrente"
[Michel Maffesoli, A Transfiguração do Político, Instituto Piaget, 2002, p. 21]
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março 06, 2006
Missão em Entre-os-Rios
[texto acrescentado]

[Augusto Ezequiel, António Vieira, Missão em Castelo de Paiva, Lisboa, Caminho, 2001]
5 anos depois do acidente da ponte de Entre-os-Rios, coisa dramática em Portugal. Pelo inopinado da morte de dezenas de pessoas, mas também pela sua dimensão espectacular. A queda de uma ponte e a cobertura noticiosa, levada à exaustão, levando à exaustão.
Talvez seja de regressar (ou chegar) a este livro, as memórias de 35 dias em Castelo de Paiva, o relato da difícil pesquisa dos veículos e recuperação dos cadáveres, todo esse processo que emocionou o país durante semanas. Na voz do comandante Augusto Ezequiel, na época director técnico do Instituto Hidrográfico, e então responsável pela missão, essa em que "Ficou decidido fazer o impossível dentro dos limites do possível" (31), oficial cujos briefings diários via TV de imediato transformaram numa celebridade no país.
Tem as vantagens dos textos memorialistas, escassos em Portugal. Ficamos a saber, em tom seco e nada auto-justificativo ou elogioso, daquele dia-a-dia sob extremas dificuldades de trabalho, gente deste gabarito, tarimbada, que logo de início exclama "Nos meus quarenta e oito anos de vida nunca vira um rio assim" (30), confrontados com o desespero de familiares e vizinhos. Da comoção que se foi instalando na equipa, profissionais veteranos também marejados pela dor alheia. E radicalmente escrutinados para além de todos os limites pelo olhar do público, da imprensa: "A pressão externa para se apresentarem resultados era terrível. Para quem nunca tinha estado perante uma câmara de televisão, toda aquela panóplia de microfones, luzes, câmaras, jornalistas e mais jornalistas ia ser complicada de gerir" (36), e progressivamente criticados por uma mole de "treinadores de bancada", como Ezequiel os denomina.
Mas nisto tudo não há remoques, nem amarguras, apenas um belo relato da missão de uma vida, com toda a complexidade técnica somada a uma, inédita para ele(s), complexidade político-mediática. E, também, das relações de solidariedade que se foram criando, nesse feixe das diferentes missões de cada um. Uma leitura então (e agora numa mera diagonal corrida, a avivar memórias) muito interessante.
Nessa época Augusto Ezequiel estava envolvido em missões de cooperação do Instituto Hidrográfico com a Marinha moçambicana. E aqui deixou uma excelente (issima, mesmo) impressão, de competência e de articulação. De saber fazer.
Daqueles homens a respeitar. Com R maíusculo.
Adenda: nos comentários surgiu alguma polémica (a cuja é sempre bem-vinda, mas neste caso me foi surpreendente). Sobre o assunto não tenho nada a dizer, sou leigo e na altura não acompanhei. O que penso deixei na caixa de comentários. Mas aqui acrescento uma citação do prefácio, da autoria de António Barreto, que sublinha a importância deste livro (e que contém uma antevisão que me parece falhada), até muito para além deste episódio (os negritos são meus):
"Estou convencido de que este pequeno livro vai durar anos e anos. Vai ser lido e estudado nas escolas, nas redacções e nas instituições. Quem quiser reflectir nos direitos e nos deveres de informação; nos limites à transparência e ao "directo"; no modo de conjugar a eficiência do serviço público com o respeito pelas populações; e, finalmente, na dimensão prática da deontologia na comunicação e na imprensa, vai ter aqui matéria de rara qualidade.
Mas o principal interesse desta parábola não reside, como acima sugeri, na demonstração das dificuldades que a opinião, as emoções colectivas e o direito à informação podem criar. De excepcional valor é a prova, aqui feita, de que é possível ser-se, ao mesmo tempo, decente e eficaz. Rigoroso e sensível. Aqueles marinheiros cumpriram o seu dever de modo excepcional, mas souberam acatar todas as regras essenciais da vida em democracia." (13)
Não vivo em Portugal mas muito suspeito que este "pequeno livro" estará hoje algo esquecido, um mono porventura. E, também pelas razões acima citadas, é uma pena.
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fevereiro 24, 2006
Pacheco

[Luiz Pacheco, Literatura Comestível, Lisboa, Estampa, 1972]
Releituras rápidas, coisas de ler os livros todos de seguida, que um novo levou a outros da estante. Neste (bem) mais velho temas que me ligam, acima de tudo o cansaço, e em Pacheco logo na época, com o Delfim, de Cardoso Pires, que senti quando o reli aquando do filme (não vi o filme, claro, Fernando Lopes é-me tabu "desde" a Crónica dos Bons Malandros, o "desde" entre aspas porque metáfora, o filme não existe portanto o "desde" é intemporal).
"Uma derradeira reticência: como Mário Dionísio perspicazmente detectou, o rendilhado labor estilístico de J.C.P. atinge neste livro altitude inigualada. Mas sente-se muito isso. Quando um prosador (consumado; é o caso) comete o gravíssimo erro de não nos deixar esquecer, pelo contrário: permanentemente desdobra diante dos nossos olhos o seu virtuosismo pisando-nos os olhos com ele, faz-nos criar a suspeita que essa sua constante preocupação oculta algo. Por exemplo: nada." (113) Mouche? Que o Delfim envelheceu parece-me, leigo vindo em gerações vindouras, óbvio. E talvez por causa dos requebros. ["Agora este está armado em literato?" pergunta o visitante - nada! eu gosto é muito do Cardoso Pires, menos deste Delfim, é só por isso ...].
Mas neste Literatura Comestível acima de tudo muito pouca coisa, questíunculas lá da pequena história da literatura portuguesa, zangas, tricas e isso, pouco interessantes hoje (que é me [nos] que interessa o plágio do Namora ao Vergílio Ferreira, e como este o denunciou? e outros obscuros etcs) e se calhar sempre. Textos envelhecidos. Livro-bairro. Ou, naquele então, país-bairro?
Súbito, sorriso, a sentir-me familiar, "onde é que eu já li isto?", assim como se em blog, aprés la lettre, heranças metodológicas ou mais-que-isso:
"Depois de uma leitura muito enojada, repito, e tal o atesta o meu volume todo sublinhado, anotado, riscado, vincado, do que afirmo e afirmarei ser uma das obras mais porcas da literatura portuguesa ..." (85)
E já que vinha ao caminho passo ao, este sim, livro

[Luiz Pacheco, O Libertino Passeia por Braga, a Idolátrica, o seu Esplendor, Lisboa, Colibri, 1992]
o texto a manter a pica passados os anos, quarentão já. Mas depois olho o livro, lá vem com a adenda "Depoiamento de uma angolana", de Maria Veiga Pereira, com mão de Alfredo Margarido, e enrolado em textos de apresentação e apósentação (Victor Silva Tavares, Júlio Moreira, Alexandre Pinheiro Torres a chamar-lhe "poetização da miséria, esplendor negativo" (??!), mais 3 desenhos inclusos em edições prévias, de Carlos Ferreiro (1) e Henrique Manuel (2), e fac-simile do manuscrito original), tudo isto à volta de nem-30 páginas de prosa: nítido, o embrulho a querer-se produção de um mito, pedra a pedra, livro a livro. Assim como, e isto já me veio à cabeça, a causa "por mais um velho do Princípe Real" - atenção, estamos para aí a 18 anos do centenário. E, entretanto, chamem lá o Le Carré, para o "cameo". Honestamente, o texto mantém a pica, mas caramba, é uma coisinha. Terá sido mais no seu tempo. Pobre tempo, não pobre texto. Mas também rico esse tempo, que por ele engrandece o texto.
E isto tudo foram regressos a propósito de quase-calhamaço de ardina, livros que se trazem em Lisboa quando se vai comprar o Record, acaba-se de "sair" do quiosque com um suplemento Barbie para a Carolina e o Pereira Coutinho, o Pacheco, o Ramos e o Venceslau (que raio de perfil de colecção lançou o Independente!? Não... a Barbie [com colar e pulseira] não fazia parte).

[Luiz Pacheco, Figuras, Figurantes e Figurões, Lisboa, O Independente, 2004]-
baratinho (as tralhas dos jornais são-no sempre), e a valer a pena. Muita destruição (Urbano Tavares Rodrigues, Ferreira de Castro, a revista, o JL - p. 163, pequeno período justificável de visita que o PS merece - enfim coisas lá do tempo dele, e outras também mais do nosso) com arreganho de mastim. Depois anuncia-se à gente, mas hoje é despedida (o texto "Crítica de Identificação" é de 1971 mas, sem pudor algum, o mórbido editor usa-o para encerrar o livro), propósito seu que é agora rescaldo: "fazer o que geralmente não vejo que se faça, isto é, aclarar publicamente tramas que se ocultam, apontar flibusteiros das Letras, pondo-lhes a careca à mostra embarrilando-os pela gargalhada; sempre que preciso, denunciar os compromissos de vária ordem em que se atolam os nossos pseudointelectuaizinhos que por aí andam a governar-se à larga, seguros na sua impudência e da sua impunidade mercê das circunstâncias" (194).
Mais sorrisos meus, coisas de então e de hoje. Projectos de vida. Mas, honestamente, a mim parecem-me mais é angústias com alheias mercês. E, muito sobretudo, coisa de sobrevalorizar os tais livros e gentes - o mundo corre pior por causa da maus romances? de contos coxos? de poemas torpes? do prémio a ou afago b? Separar o trigo do joio implicará ficar, enraivecido, a tri-tu-rar o joio? Ou não será melhor ir comer uma bela sandes de panado, panito quente, forno caseiro, piri-piri sacana?
Insisto, bons pensares em cima de uma sobrevalorização, complicações de mira. Angústias também, decerto.
Súbito "E que significa tudo isto? A coexistência de culturas mui diversas, de mui estranhas origens, umas arcaicas, tradicionais, outras em plena fase embrionária, nos primeiros tentames duma aclimatação. Culturas paralelas, misturadas, alheadas umas das outras e isto tudo num mesmo tempo histórico, porque a história é radicalmente transição (Jaspers, ainda uma vez)." (18) "A POLÉMICA É A RAZÃO DA NOSSA PERMANÊNCIA" (19)
Um texto para hoje, em tempos de "choque civilizacional"? Logo o apanho, é bom apanhar estes textos já antigos e roubá-los aos autores, manipulá-los a nosso gosto, até truncá-los, na nobre arte da citação, como se eles concordassem conosco (melhor dizendo, nós com eles), fazê-los (já mortos ou para isso preparados, textos e autores digo) pensar o que queremos. Eis-me nessa parece-que-legítima actividade, dissertando sobre o real circundante.
Mas, afinal, o homem estava a falar dos romancistas, Chiado acima, Chiado abaixo. Faço-me entender? O sentimento de desperdício do pensar, enredado nas discussãozinhas afinal elas ...
"O Genio é uma longa paciência" (178). Ganda Pacheco, faltou-te a dita?
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fevereiro 17, 2006
Pequeno trecho de Said
Não resisto, até porque leitura de hoje:
"What we expect from the serious study of Western societies, with its complex theories, enormously variegated analyses of social structures, histories, cultural formations, and sophisticated languages of investigation, we should also expect from the study and discussion of Islamic societies in the West".
[Edward Said, Covering Islam, Vintage, 1996, xvi]
O que não me parece ser coisa de guru. Mas devo estar enganado.
Publicado por jpt às 01:15 PM | Comentários (5) | TrackBack
fevereiro 14, 2006
Bis
"O ódio é uma viva contradição - não conhecendo fronteiras, ergue-as onde quer que chegue."
[Álvaro Guerra, Crónicas Jugoslavas]
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Mais despropósitos

"Sei que não está na moda afirmar o que se segue, mas a procura abnegada da verdade abstracta é culturalmente específica: a sua história é relativamente curta, e possui uma geografia muito própria".
(George Steiner, Nostalgia do Absoluto, Lisboa, Relógio d'Água, 2003 [1974], p. 71)
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A despropósito?

"A impressão ocidental de insucesso, de potencial caos sociopolítico, conduziu igualmente a uma reacção contra o centralismo étnico e cultural que caracteriza o pensamento europeu e anglo-saxão ... A ideia de que a civilização ocidental é superior a todas as outras e de que a filosofia, ciência e instituições políticas ocidentais estão manifestamente destinadas a conduzir e transformar o globo deixou de ser uma evidência. Muitos ocidentais, especialmente os jovens, acham-na odiosa. Aterrados pela loucura das guerras imperialistas e irados com a devastação ecológica causada pela tecnologia ocidental, hippies e freaks, militantes libertários e vagabundos místicos viraram-se para outras culturas. São as tradições da Ásia, dos índios americanos ou dos africanos negros que os atraem. É entre esses povos que encontram as qualidades de dignidade, solidariedade comunal, invenção mitológica e envolvimento com as ordens vegetais e animais que o homem ocidental perdeu ou erradicou brutalmente. Esta busca da inocência contém muitas vezes um impulso genuíno de reparação. Onde o pai colonial massacrou e explorou, o filho hippie procurar preservar ou compensar."
(George Steiner, Nostalgia do Absoluto, Lisboa, Relógio d'Água, 2003 [1974], pp. 66-67)
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fevereiro 02, 2006
Livro borda fora
"Regressei a Chicago e abri um escritório na Van Buren Street. Industriei os meus empregados de maneira a tomarem conta dela por mim, e assim fiquei livre para preencher a minha vida com actividades mais interessantes. De certo modo para surpresa minha, dei comigo a fazer parte de um grupo de pessoas curiosas. A maior ameaça em Chicago é o vazio - vazios humanos, uma espécie de ozono espiritual que cheira a lexívia."
[Saul Bellow, A Autêntica, p. 9]
Edição da Teorema (Lisboa, 2000); tradução de Rui Zink; revisão não referida. Quem me devolve os meus euros?
(para quem não percebeu, volte a ler a citação, agora mais devagar. Tipo aquele "descubra as diferenças").
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janeiro 27, 2006
Dizer-te que a Ilha continua linda?
Pouco tenho para alinhavar
Dizer-te que estou longe
não apaga esta ausência que,
inelutavelmente,
nos distanciou.
Cercam-nos muros de silêncio
opresso.
A própria hera não ousa
na despudorada nudez branca
de paredes que interditam
a fantasia ao forasteiro
voraz.
O gesto tolhido
o pretexto adiado
e a memória a estiolar
(Eduardo Pitta, incluído em Viagem - Ilha de Moçambique, Porto, Lugar do Desenho, 2004)
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janeiro 12, 2006
Sonho Colonial


A Europa é feita de cafetarias, de cafés ... Desenhe-se o mapa das cafetarias e obter-se-á um dos marcadores essenciais da "ideia de Europa"
[G. Steiner, A Ideia de Europa, Gradiva, 2005]
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"Lembro-me de Edmund Leach regressar de umas férias em Portugal em meados dos anos 60 e dizer aos seus alunos de investigação que havia visto camponeses arar as terras com bois - alguém deveria ir até estudá-los. Mas qualquer pessoa que insistisse em realizar trabalho de campo na Grã-Bretanha se arriscava a ver-se exilada num departamento de sociologia".
[Adam Kuper, "Histórias Alternativas", Etnográfica, 2, 2005, 222]
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janeiro 10, 2006
Mais que desilusão

Fancaria. Dinheiro deitado fora. (Ninguém me manda ter saudades ...).
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janeiro 08, 2006
Natal dos Emigrantes
Agradecendo a quem aqui (e por email) me deu sugestões para compras de natal aqui deixo o rol das compras e (algumas) ofertas recebidas que fizemos/tivemos. As carregadas para cá, pois questões de peso no avião sempre deixam lastro aquando do regresso, esperando portador amigo. Crente que "diz-me o que compras dir-te-ei por onde andas" e nada mais. Partilha de gostos e expectativas. E também querendo que, sendo isto um diário, aquela conversa vá continuando, sobre o que vai saindo, o que se vai encontrando. Pois, como dizia o poeta, o natal é sempre que um homem quiser.

[Muitissimo Obrigado Mãe]

[Obrigado Mãe]



[Obrigado Z.]







[Obrigado cunhados]


[Obrigado cunhados]


[obrigado MB]





[obrigado Machado, pelo aviso]

[obrigado AL]














[obrigado cunhado]


[Obrigado CB]



























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dezembro 23, 2005
"... o rosto, apesar de redondo, tinha as linhas firmes; a pele era fresca, branca e rosada, sem essa mancha azul da barba que desfeia tantos homens aliás simpáticos ..." - oops, e eu durante anos de alcunha Barba Azul. Feio ...
(citação de José Rodrigues Miguéis, "A importância da risca do cabelo" em Léah e Outras Histórias, Estampa, 1997, 11ª edição, p. 174
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dezembro 19, 2005
Contribuição para o Natal alheio

"Mas se lhe tivessem dito: será sempre assim enquanto viveres, sempre igual até ao fim, também ele teria despertado. Impossível, teria dito. Algo diferente terá de acontecer, qualquer coisa realmente digna, que nos permita dizer: agora, mesmo que tenha chegado o fim, paciência"
[Dino Buzzati, O Deserto dos Tártaros, Cavalo de Ferro, p. 58]
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dezembro 18, 2005
A Carolina Gostou


[Feiosa Mimosa, Janaína Tomás e Melo e João Athayde e Melo, Papiro, 2005]
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dezembro 16, 2005
"...é mais fácil emitir um juízo moral sobre um determinado episódio histórico ou sobre um determinado fenómeno social do que compreendê-lo. Compreender pressupõe ao mesmo tempo informação e competência analítica. Emitir um juízo moral, pelo contrário, não pressupõe nenhuma competência especial."
[Rayomond Boudon, Os Intelectuais e o Liberalismo, Gradiva, 2005, pp. 85-86]
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dezembro 14, 2005
Ocidentalismo

Afamado, coisa de recensões em jornais velhos e (julgo) em blogs lusos. Para o ler quebrei dogma estruturante - nunca comprar livro da Europa-América. Valeu a pena. Porque felicidade também é ler livros fraquitos. A querer-se óbvia contraposição ao "Orientalismo" de Said e linhagem de Berlin. Mas um bocado para o manual. Do como as ideias contra o ocidente se assemelham e são originadas (fundamentalmente, muito fundamentalmente) nesse próprio ocidente. A afirmar-se reflexão sobre a história destas ideias, muito esquecendo a sua sociologia (ainda que ali ou acolá um parágrafo a aludir a poderes e histórias como que a escorar-se). Lá pelo meio (até início) uma pérola:
"O objectivo deste livro não é reunir municões numa "guerra contra o terrorismo" global nem demonizar os actuais inimigos do Ocidente. Pretendemos antes compreender os actuais inimigos do Ocidente. Pretendemos antes compreender o que faz mover o Ocidentalismo e demonstrar que os bombistas-suicidas e guerreiros-santos dos nossos dias não sofrem de uma qualquer patologia singular, antes são impelidos por ideias que têm uma história. Essa história não possui fronteiras geográficas claramente definidas. O Ocidentalismo pode florescer em qualquer lugar. ... Compreender não é desculpar, tal como perdoar não é esquecer; mas sem compreendermos aqueles que odeiam o Ocidente, não podemos esperar impedi-los de destruir a humanidade" (19-20) [o negrito é meu].
Ou seja, esses que odeiam o Ocidente têm como fito destruir a humanidade. A conclusão do silogismo é necessária? Então o Ocidente é a humanidade.
Conclusão: a validade do tal dogma primevo. Nunca comprar um livro publicado pela Europa-América.
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dezembro 05, 2005
"You must expect nothing from those who denigrate you, and less from those who support you"
(Julian Barnes, Cross Channel, Picador, 1996, p. 4)
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dezembro 01, 2005
Efemérides
não sou lá muito disso, acima de tudo uma canseira. E até assim para o seco ("hoje é o dia de falar de ... porque tem que ser"). Mas neste caso, neste seu verdadeiro sentido de "tábuas astronómicas que indicam a posição dos planetas para cada dia do ano", é no Da Literatura que me acordo do meu desnorte [o cujo, caso diferente tivesse sido o clic-clic, ter-se-ia estancado ainda que insone].
O dia em que nasci meu pai cantava
versos que inventam os pastores do monte
com palavras de lã fiada fina
cordeiro lírio neve tojo fonte
esta é uma velha história de família
para dizer como ele e eu chegámos
à raiz mais profunda do afecto
do qual nunca jamais nos separámos
nem Deus feito menino teve um pai
que o abraçasse e lhe cantasse assim
desde a primeira hora até ao fim
fui vê-lo ao hospital quando morria
olhos parados num sorriso leve
tojo cordeiro lírio fonte neve
Antes expliquei-me sobre este Fernando Assis Pacheco, do "Respiração Assistida" único seu livro que aqui tenho: aqui e com outro poema.
Agora podia continuar a teclar, a "postar" poemas. Mas vão ler.
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novembro 26, 2005
Homem do seu tempo?
"A vida não é um privilégio pessoal: é alguma coisa que nos ultrapassa como indivíduos; que pertence à natureza, à história e à sociedade. É dos homens como "todo", no tempo e no espaço, que se faz a verdadeira eternidade. E é só entre eles, na sociedade, na consciência e na acção, que somos e nos sentimos reais ...
Sob o signo da esperança, a própria dor se torna um mito."
[José Rodrigues Miguéis, Um Homem Sorri à Morte - Com Meia Cara, Lisboa, Estampa, 1989 [1959], p. 108]
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novembro 23, 2005
Berlioz vetado
"A França também não escapa ao igualitarismo radical que por vezes se designa pelos conceitos de correcção política (political correctness) ou de pensamento único. Em 2000, a ministra francesa da Cultura, Catherine Trautmann, propôs que os restos mortais do compositor Hector Berlioz fossem trasladados para o Panteão. O projecto acabou por ser abandonado na sequência de uma polémica em que Berlioz foi acusado de ter sido politicamente incorrecto: terá participado na conspiração do Norte contra o Sul com a sua ópera inspirada na Eneida de Virgílio, Os Troianos (Le Monde, 29 de Fevereiro de 2000, 21 de Junho de 2000). Motivo da acusação: no terceiro quadro do quinto acto, é erguida uma pira. No momento de subir para esta, Dido apodera-se da espada de Eneias e, enquanto se prepara para se trespassar com ela, profetiza que um dia Aníbal será o seu glorioso vingador. Enquanto os Cartagineses amaldiçoam os Troianos, vê-se aparecer ao longe a visão de Roma eterna. Urbs, a cidade das cidades. A polémica suscitada por uma obra interpretada como um hino inoportuno à civilização ocidental e consequentemente o seu projecto de "dominação" foi tão acalorada que o presidente do Arte, canal de televisão franco-alemão, entendeu dever pedir desculpas por ter programado a transmissão da representação dos Troianos no festival de Salzburgo."
[Raymond Boudon, Os Intelectuais e o Liberalismo, Lisboa, 2005, Gradiva, p. 53]
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novembro 17, 2005
Alguns liberais

Chegou agora às livrarias este pequeno livro de Raymond Boudon, "Os Intelectuais e o Liberalismo" (Gradiva, 2005), dedicado às causas e efeitos dos preconceitos antiliberais. Num mundo onde predomina a retórica anti-neo-liberalismo é sempre interessante perceber o que é(são) o(s) liberalismo(s) e as reacções diante dele(s). Num outro registo, muito para além do hóbi, dir-se-á que indicado para alunos apressados (ainda por cima traduzido).
No apenas o hóbi não resisto a uma pequena citação, logo ali do início, tão apropriada. A trazer-me sorriso:
"Como seria de esperar, os antiberais tendem a identificar o liberalismo com as suas expressões extremas. Quanto aos defensores do liberalismo, fornecem, às vezes por inépcia, armas aos seus adversários quando se agarram obstinadamente às versões radicais do liberalismo ou quando ignoram a diversidade das suas facetas". (16)
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novembro 05, 2005
Jornais Velhos: Times & Tempos
É, os tais jornais velhos, agora um JL já de 28 de Setembro, aterrado cá em casa. A coluna "Times & Tempos", as crónicas de Onésimo Teotónio Almeida.
"Antero e as saudades de Lunenburg" o título desta. Mas é o seu final que me traz aqui, cúmplice:
"Por isso, ao fim de uns dias acrescentados dessa temporada de retiro idílico, sussurrei certa tarde à moça do balcão de um posto de informação turística depois de a Leonor sair a gozar o remanso da paisagem:
- Agora, que a minha mulher não está aqui, posso fazer-lhe uma pergunta muito masculina?
A jovem fraziu o sobrolho, mas aguentou firme:
- E ...?
- Onde é que por aqui à volta se pode ter acesso à Internet?"
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Jornais Velhos: João Ubaldo Ribeiro
Neste monte de jornais velhos eis o JL velho de 12 de Outubro de 2005 (p. 40) a autobiografia do enorme João Ubaldo Ribeiro. Fenomenal encerramento:
"Deverei morrer, se tudo correr bem, dentro de no máximo uns 20 anos. Antes disso, serei, como talvez já tenha ficado, um pré-defunto chato e reaccionário, de difícil convivência e rarefeita civilidade".
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outubro 28, 2005
Ainda a lusofonia
A petição futebolística do Altino Torres é realmente interessante. O continuado eco jornalístico; um notório caso identitário (+ de 27 000 assinaturas) e a correlativa leitura obscurecida: como o anúncio pela FIFA de que o sítio do Alemanha 06 terá versão em português foi entendido (e pelos media também) como se a página oficial da FIFA passasse a ter versão em português (aliás a real petição). Correlativa? Discursos sobre identidades (trans)nacionais a produzirem leituras obscurecidas não é caso virgem, eu digo até é correlação.
Vem isto a propósito de quê? Quando aqui reproduzi a notícia da petição o CMC re-reproduziu-a com uma pequena alfinetada, ali saudando-me enquanto associava a iniciativa à lusofonia. Regressando, em tom ameno, a uma velha questão. Prometi-lhe responder. Mas honestamente já não sei o que dizer sobre isto, o que a mim me parece cristalino surge absurdo alhures? E confesso que aqui não me duvido.
Só me restam palavras alheias, decerto mais explicativas e perspicazes. Aqui ficam dedicadas ao CMC e restantes "lusófonos":
"Só suspendendo a crença nos aspectos mais psicologistas, culturalistas e essencialistas do luso-tropicalismo - e ao mesmo tempo não fazendo procissão de fé das supostas alternativas de materialismo vulgar - é que se poderá avançar para a construção de uma interpretação histórico-cultural crítica e atenta a processos específicos de (re)constituição identitária num mundo que, por vias tortuosas, os portugueses, os brasileiros e os africanos criaram. E criaram-no enquanto se foram criando a si próprios numa dinâmica de interesses divergentes e poderes diferenciados (entre si e intra-si) nesse processo a que agora chamamos cultura. O luso-tropicalismo foi, pois, um discurso cujo emaranhado de poder e retórica nos compete desembaraçar para não reificarmos de novo "comunidades" que não existem como essências".
(Miguel Vale de Almeida, "Tristes Luso-Trópicos", Um Mar da Cor da Terra. Raça, Cultura e Política da Identidade, Oeiras, Celta, 2000, pp. 183-184)
Para a pertinência da ligação entre "luso-tropicalismo" e "lusofonia" então é melhor comprar o livro, que muito o justifica e não só por esta matéria.
Depois haverá o querer ou não entender o ponto de vista. E ainda à tal "lusofonia" entendê-la analiticamente ou instrumentalizá-la. Ainda que fraco instrumento, e principalmente se incompreendido. Postulado.
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outubro 21, 2005
Si rotcha é pâgina! pedra ê sílaba
si corpé é caneta! coraçon ê tinta
[Corsino Fortes, Árvore & Tambor]
(Lico como epígrafe do conto "Jangada para Longe" de Ondjaki, publicado em Se Amanhã o Medo, Caminho, p. 23)
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outubro 15, 2005
Manuel da Silva Ramos
Manuel da Silva Ramos no Os Cavaleiros Camponeses no Ano 1000 no Lago de Paladru (uff), ele que andou por cá às voltas com o gigante de Manjacaze e o anão de Arcozelo. E já lá vão anos. Terá o livro ecoado lá pela terra dele? Um início rasgativo, lembro: "Louvado seja o caralho.". Ok, em tempos serviria para apartar as partes, digo, os leitores. Hoje nem sei.
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outubro 08, 2005
A queda de um mito
Comecei hoje, ainda vou a páginas cem. A gostar, mas não extasiado, aquilo da casa velha com memórias aglomeradas, coisa também de labirinto, no autor até não original já para não falar de outros antes dele, é modo narrativo que já não me entusiasma, mas enfim, os recursos são sempre escassos mesmo quando abundantes, como é o caso.

Mas o pior é a suprema des-ilusão. Vivi décadas sob um mandamento para agora a Autoridade mo negar, destabilizando-me, desenquadrando-me:
"Ou como Viena: Kunsthistoriches Museum, o terceiro homem, Harry Lime na roda do Prater diz que os suíços inventaram o relógio de cuco. Mentiu: o relógio de cuco é bávaro". (34)
Como reagir? Que fazer?
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outubro 05, 2005
Prémio Nobel Medicina 2005
Sendo a Medicina tão impenetrável - pelo menos para mim - é(-me) sempre algo difícil alcançar o relevo e implicações dos trabalhos anunciados. Sobre a importância do trabalho relativo à origem bacteriologica de doenças gástricas realizado pelos australianos Marshall e Warren, agora recompensado pelo Prémio Nobel da Medicina 2005, será talvez interessante para um leigo ler um belo texto de João Arriscado Nunes, "Do "nome das acções" ao "nome das coisas": crenças e produção de objectos epistémicos nas ciências da vida e na biomedicina", publicado no volume O Processo da Crença (Gradiva).
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setembro 27, 2005
Longa transcrição, até esperançosa
Em Junho de 1871 o então jovem Eça de Queiroz escreveu assim (sei que parte andou blogado recentemente), enquadrando o seu manifesto artístico-literário. Interessará regressar? Tamanha a aparente homologia com a actualidade, se quisermos assumir a mesma atitude intelectual, ou melhor, o cansaço. Ainda que as analogias históricas sejam nada mais do que armadilhas à análise aqui transcrevo, mas esperançoso. Pois se tanto decadentismo não se cumpriu, para quê assumi-lo agora? Não será isto condição, processo, e não crise, queda?
Mas acho avisado ir-lhe até ao final, a isso convido os visitantes. Pois ainda que nesse sentimento decadentista brotou então projecção acertada. Como será (seria) hoje? Sem tais escapatórias?
"O paiz perdeu a intelligencia e a consciencia moral. Os costumes estão dissolvidos e os caracteres corrompidos. A prática da vida tem por unica direcção a conveniencia. Não há principio que não seja desmentido, nem instituição que não seja escarnecida. Ninguem se respeita. Não existe nenhuma solidariedade entre os cidadãos. Já não se crê na honestidade dos homens publicos. A classe media abate-se progressivamente na imbecilidade e na inercia. O povo está na miseria. Os serviços publicos são abandonados a uma rotina dormente. O desprêzo pelas idéas augmenta em cada dia. Vivemos todos ao acaso. Perfeita, absoluta indifferença de cima abaixo! Todo o viver espiritual, intellectual parado. O tedio invadiu as almas. A mocidade arrasta-se, envelhecida, das mesas das secretarias para as mesas dos cafés. A ruina economica cresce, cresce, cresce... O commercio definha. A industria enfraquece. O salario diminue. A renda diminue. O Estado é considerado na sua acção fiscal como um ladrão e tratado como um inimigo.
N'este "salve-se quem puder" a burguesia proprietaria de casas explora o aluguel. A agiotagem explora o juro.
De resto a ignorancia pesa sobre o povo como um nevoeiro. O numero de escholas só por si é dramatico... A população dos campos, arruinada ... trabalhando só para o imposto por meio de uma agricultura decadente, leva uma vida de miserias, entrecortada de penhoras. A intriga politica alastra-se por sobre a somnolência enfastiada do paiz....
Não é uma existência, é uma expiação.
E a certeza deste rebaixamento invadiu todas as consciencias. Diz-se por toda a parte: "o paiz está perdido!". Ninguem se ilude. Diz-se nos conselhos de ministros e nas estalagens. E que se faz? Attesta-se, conversando e jogando o voltarete, que de norte a sul, no Estado, na economia, na moral, o paiz está desorganizado - e pede-se cognac! ...
Esta decadencia tornou-se um habito, quasi um bem-estar, para muitos uma industria. Parlamentos, ministérios, ecclesiasticos, politicos, exploradores, estão de pedra e cal na corrupção ...
O povo, esse, reza. É a única cousa que faz além de pagar ...
A realeza é accusada por tudo: pelas despesas que faz e pela pobreza em que vive; pela sua acção e pela sua inacção; por dar bailes e por não dar bailes ...
Apesar d'isso, a esta politica infiel aos seus princípios, vivendo n'um perpetuo desmentido de si mesma, desauctorizada, apupada, pede ainda uma multidão innumeravel de simples a salvação da "cousa publica". É tragico, como se se pedisse a um palhaço de pernas quebradas mais uma cambalhota ou mais um chiste.
A burguezia invejosa e desempregada fala na "federação", na "republica federativa", na "extincção do funccionalismo", na "emancipação da classe operaria"; mas entende que o paiz pode esperar por estes beneficios todos se no emtanto lhe derem a ella logares de governadores civis ou de chefes de secretaria. Uma plebe ardente fala em beber o sangue da nobreza; mas ficaria satisfeita se a nobreza, em vez de lhe oferecer a veia, mandesse abrir "Cartaxo".
Tanto se conciliam todos! É assim que o egoismo domina. Cada um se abaixa avidamente sobre o seu prato...
Nas sociedades corrompidas a ordem chega assim a reinar. É a ordem pelo desdem. Outros diriam pela imbecilidade...
[O paiz] Paga para ter ministros que não governam, deputados que não legislam, soldados que não o defendem, padres que rezam contra elle. Paga áquelles que o espoliam, e áquelles que são seus parasitas. Paga os que o assassinam, e paga os que o atraiçôam. Paga os seus reis e os seus carcereiros. Paga tudo, paga para tudo. ...
Portugal não tendo príncipios, ou não tendo fé nos seus principios, não pode propriamente ter costumes. Fommos outr'ora o povo do caldo da portaria, das procissões, da navalha e da taberna. Comprehendeu-se que esta situação era um aviltamento da dignidade humana; e fizemos muitas revoluções para sair della. O "caldo da portaria" não acabou. Não é já como outr'ora uma multidão pittoresca de mendigos, beatos, ciganos, ladrões, caceteiros, que o vem buscar allegremente, no meio dia, cantando o "Bemdito"; é uma classe inteira que vive d'elle, de chapéo alto e paletó.
Este caldo é o Estado. Toda a nação vive do Estado. Logo desde os primeiros exames no lyceu a mocidade vê n'elle o seu repouso e a garantia do seu futuro. A classe ecclesiastica já não é recrutada pelo impulso da sua crença; é uma multidão descoccupada que quer viver á custa do Estado. A vida militar não é uma carreira, é uma ociosidade organizada por conta do Estado. Os proprietarios procuram viver á custa do Estado, vindo a ser deputados a 2$500 réis por dia. A propria industria faz-se proteccionar pelo Estado e trabalha sobretudo em vista do Estado. A imprensa até certo ponto vive tambem do Estado. A sciencia depende do Estado. O Estado é a esperança das familias pobres e das casas arruinadas....
É uma nação talhada para a dictadura - ou para a conquista."
[Eça de Queiroz, Uma Campanha Alegre, Lisboa, Companhia Nacional Editora, 1890, pp. 11-43]
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setembro 26, 2005
Mais "Ainda aquelas estantes"
"Segundo os antigos alienistas seria até um estranho caso de delirio parcial collectivo. Os psychiatras modernos rejeitam esse diagnostico, considerando as vesanias e as monomanias não como formas autonomas e distinctas especies morbidas, mas sim como phases clinicas de um delirio chronico iniciado por um accesso de hypocondria geral....
Hoje mesmo ... persistem residuos depressivos e taras ancestraes que, ao minimo abalo na elaboração cerebral dos motivos que determinam os seus actos, tornarão o povo portuguez tão genuinamente sebastianista como no tempo dos seus antigos agitadores e profetas ..."
(Fevereiro 1911)
[Ramalho Ortigão, "O Sebastianismo Nacional", Últimas Farpas, Paris/Lisboa/Rio Janeiro/S. Paulo/ Belo Horizonte, Livraria Aillaud & Bertrand/Livraria Francisco Alves, 1915, p. 59]
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Ainda aquelas estantes
Em linguagem e pensares do seu tempo, a lembrar-me coisas do presente no lá, esteja esse mais "republicano" ou mais "sidonista":
"Paralisadas na sua psychologia todas as faculdades e todas as virtudes que dão a um agregado humano a posse collectiva de si mesmo e a consciencia de um fim que justifique - como em todos os organismos - a sua existencia, perdida a fé, perdida a coragem, perdida a alegria, o povo portuguez appela para o milagre, absorve-se no messianismo, subordina todos os seus actos e todos os seus pensamentos no regresso do "rei desejado" ou do "rei encoberto"..."
[Ramalho Ortigão, Últimas Farpas, Paris/Lisboa/Rio Janeiro/S. Paulo/ Belo Horizonte, Livraria Aillaud & Bertrand/Livraria Francisco Alves, 1915, p. 58]
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setembro 25, 2005
Testemunhar grandes mudanças
"We had no such thing as printed newspapers in those days to spread rumours and report of things, and to improve them by the invention of men, as I lived to see practised since."
[Daniel Defoe, A Journal of the Plague Year, N.Y., Dover Pub., 2001, p. 1]
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setembro 24, 2005
Ainda as tais estantes pouco alheias
No meio d'isto agita-se um dos typos caracteristicos da provincia, o influente de eleições...
O influente ordinariamente é proprietario ... Antigo cavador de enxada, enriqueceu, tem ambições, quer ser da junta da parochia, da junta de Repartidores, e mais tarde, n'um futuro glorioso, vereador! Já não usa jaqueta, nem tamancos. Tem uma casa pintada de amarello, calça um par de luvas pretas, e fala na soberania nacional. Em vesperas de eleições todos o vêem, montado na sua mula pelos caminhos das freguezias, ou, nos dias de mercado, misturado entre os grupos, gesticulando, berrando, com uma importância tremenda. Dispõe ordinariamente de 200 ou 300 votos: são os seus creados de lavoura, os seus devedores, os seus empreiteiros, aquelles a quem livrou os filhos do recenseamento, a bolsa do augmento da decima, ou o corpo da cadeia. A auctoridade passa-lhe a mão por cima do hombro, fala-lhe vagamente do habito de Christo. Tudo o que ele pede é satisfeito, tudo o que ele lembra é realisado. As leis afastam-se para ele passar. As suas fazendas não são collectadas à junta: é o influente! Os criminosos por quem se empenha são absolvidos: é o influente! Se são prohibidos no concelho os arrozaes, elle pode tel-os: é o influente! Se são prohibidos os portes de arma, elle é exceptuado: é o influente! Só elle caça nos meses defesos: é o influente! Só a sua rua é calçada: é o influente! ...
Ele reina, e o seu reino assenta sobre a cousa que ... é ainda a mais solida - a corrupção.
(Junho 1871)
[Eça de Queiroz, Uma Campanha Alegre, Lisboa, Companhia Nacional Editora, 1890, pp. 89-90]
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setembro 23, 2005
Ainda em estantes quase nada alheias
O que dói não é um álamo
Não é a neve nem a raiz
da alegria apodrecendo nas colinas.
O que dói
não é sequer o brilho de um pulso
ter cessado,
e a música, que trazia
às vezes um suspiro, outras um berço.
O que dói é saber.
O que dói
é a pátria, que nos divide e mata
antes de se morrer
[Eugénio de Andrade, "A Casais Monteiro, Podendo Servir de Epitáfio", setembro 1972, Epitáfios, Lisboa, Limiar, 1984]
A minha caligrafia impede-me de garantir que "às vezes um suspiro, outras um berço." não é "às vezes um suspiro, outras um barco.".
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setembro 22, 2005
As tais estantes quase nada alheias
Breve, e até incompleto, regresso aos celebrados "Novos Contos do Gin" de Mário-Henrique Leiria. A ver, os anos passaram-lhe por cima, implacáveis e virulentos.
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setembro 04, 2005
Afinal o que importa não é a literatura
nem a crítica de arte nem a câmara escura ...
Que afinal o que importa é o pôr ao alto a gola do peludo
à saída da pastelaria, e lá fora - ah, lá fora! - rir de tudo
No riso admirável de quem sabe e gosta
ter lavados e muitos dentes brancos à mostra
[Mario Cesariny, Nobilissima Visão; trecho incluído no texto de António Sopa, introdutório da última exposição individual de Pinto, "Crónicas de Maldizer ou a História das 12 Virgens Feias", Junho 2005]
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agosto 27, 2005
"All that my freedom has brought me is the knowledge that I have a face and have a body, that I must feed this body and clothe this body for a certain number of years. Then it will be over."
[V. S. Naipaul, "One out of many", In a Free State, Picador, 2002, 53]
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agosto 25, 2005
Ainda sobre o influenciometro
"A vaidade de atribuir à filosofia, às declarações dos intelectuais, efeitos tão imensos como imediatos parece-me constituir o exemplo por excelência daquilo a que Schopenhauer chamava o "cómico pedante", entendendo por isso o ridículo em que incorre quem efectua uma acção que não está compreendida no seu conceito, como um cavalo de teatro que defecasse."
(P. Bourdieu, Meditações Pascalianas, Oeiras, Celta, 1998, p. 2)
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agosto 14, 2005
"A lisonja constante, ostensiva, contrária à evidência, das pessoas que o rodeavam, tinha feito com que ele [Imperador Nicolau] já não visse as suas contradições, já não estabelecesse correspondências entre, por um lado, as suas acções e palavras e, por outro, a realidade, a lógica e o simples bom senso, mas estava absolutamente convencido de que todas as suas ordens, mesmo que fossem disparatadas, injustas e incompatíveis entre si, se tornavam sensatas, justas e compatíveis só por serem emitidas por ele".
[Lev Tolstoi, Khadji-Murat, Lisboa, Cavalo de Ferro, p. 110]
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"Ninguém sequer falava do ódio pelos russos. O sentimento que experimentavam todos os tchetchenos, das crianças aos velhos, era mais forte do que ódio. Não era ódio, mas sim uma recusa em reconhecer aqueles cães como seres humanos e era tanta a aversão, a repugnância e a perplexidade perante a crueldade absurda destas criaturas que a vontade de as destruir, tal como a vontade de destruir ratazanas, aranhas venenosas e lobos, era um sentimento tão natural como o instinto de conservação".
[Lev Tolstoi, Khadji-Murat, Lisboa, Cavalo de Ferro, p. 124]
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agosto 01, 2005
We cannot all be masters, nor all masters
Cannot be truly follow'd.
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"In Britain it has been widely noted that Muslims originating from Pakistan in South Asia have in recent years stressed their Islamic identity, distancing themselves from a more neutral "South Asian" racial and cultural ascription, from a politically activist "black" self-labelling, and, most recently, from a nationalist identification as "Pakistanis". I wish to argue here that this apparent identity shift disguises a continuing tension between different dimensions of a complex cluster of personal identities. Islam, as "high culture" to be defended to all costs, cannot suppress popular cultural traditions rooted in the South Asia and Pakistani nationalist origins of immigrants and their descendents."
[Pnina Werbner, "Our Blood is Green: cricket, identity and social empowerment among British Pakistanis", Jeremy MacClancy (org.) Sport, Identity and Ethnicity, Oxford, Berg, 1996]
Publicado por jpt às 04:14 AM
julho 29, 2005
"O erotismo, encoberto ou declarado, em fantasia ou em actos, encontra-se intimamente ligado ao acto de ensinar, à fenomenologia da relação entre Mestre e discípulo. Este facto elementar tem sido trivializado através de uma fixação no assédio sexual. Mas continua a ser central. Como poderia ser de outro modo?
O pulso do ensino é a persuasão. O professor solicita atenção, concordância e, idealmente, divergência colaborativa ... A dinâmica é a mesma: construir uma comunidade de comunicação, uma coerência de sentimentos, paixões e rejeições partilhados. Na persuasão, na solicitação, seja ela do tipo mais abstracto e teórico - a demonstração de um teorema matemático, o ensino do contraponto musical - verifica-se um inelutável processo de sedução, voluntário ou acidental ... Na emissão e recepção, o psicológico e o físico são absolutamente inseparáveis (veja-se uma aula de ballet). O processo exige o envolvimento da mente e do corpo."
[George Steiner, As Lições dos Mestres, Gradiva, pp. 30-31]
Publicado por jpt às 01:38 PM | Comentários (4)
julho 24, 2005
Portugal. Sim, ainda para mais agora a ler-lhe a República Velha (Gradiva). Mas aqui como não?
Publicado por jpt às 07:20 PM