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maio 09, 2006
Ao Balcão da Cantina: fascículo 2
16. MAMBAS DESVENTURANDO
Diz o coro de rádios, tão tristes como os guardas seus donos, “Mambas 0 - Guiné-Conacry 4”, notícia a anoitecer este belo sábado à tarde.
Lá no estádio, e não me custa a imaginar, cabisbaixa o público entristecido, sofre o Monstro Sagrado ali todo só, tantos anos a passarem sem sucessores.
Súbito, do povo em lágrimas salta um jovem, voa de heroísmo, corre, artista, até às redes guineenses e, lesto, arranca aquela agulha que o keeper francófono ali escondera, maligna guardiã da baliza almejada (e assim tão pouco alvejada), no tecer de invioláveis barreiras, invisíveis cattenacios, sobrenaturais “liberos”.
Júbilo, Machava, júbilo! O feitiço desvendado, traiçoeiro apoio (falso como essas mais nórdicas e químicas drogas?), ilegalidade mágica, maldades de lá, prejuízo e dor de cá... E haviam de vê-lo, ao povo então em coro, mais gritando do que se sucessivos golos fossem. No frémito da ira, da justiça, da liberdade ao mérito. Porque ali desnudada a perfídia estrangeira, secretas malfeitorias, a agressão do vindouro.
Ai, estas coisas africanas, ignorâncias obscuras, crendices de antanho que não conseguimos ultrapassar. Atavismos populares, laivos de criancice que teimam em não crescer.
Depois, logo, logo...dizem os mesmos rádios, “Mambas 3 - Guiné Conacry 4”!
Áfinal??
(Maputo, Dezembro 2003)
17. A IDADE E A IGNORÂNCIA
Está aqui porque é para o Jaime Santos
A idade não me fez arrogante, como a tantos. Arrogante fui-o. E depois veio essa tal idade, sempre crescente, a rodear-me de espelhos, postados por todo o lado, circundantes, a mostrarem-me. Implacáveis...
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Com a idade deixei de ler as introduções dos livros, passo directo ao autor. Para resumos faço os meus, para interpretações basto-me a mim. Erro, erro, mais um dos vários.
Mostra-mo o Jaime Santos, a partilhar o whisky comigo, rouba-me um Gellner que trouxe a passear, bibelot apenas, neste ofício de ambulante reclamação de estatuto, e lê a primeira frase do "Prefácio do Editor". "Porra" arrasta ele, "grande frase", "hum" digo eu, envergonhado de descobertas alheias em coisas minhas. Pois cita ele, diseur ainda para mais, o tal Moore editor a abrir a cena: "A ignorância tem muitas formas e todas elas perigosas".
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A idade não me fez arrogante, como a tantos. Arrogante fui-o. E depois veio essa tal idade, sempre crescente, a rodear-me de espelhos, postados por todo o lado, circundantes, a mostrarem-me. Implacáveis...
(Maputo, 27 Abril 2004)
18. HA NGONHAMA YA MBANGU LOWÔ
Para a Conceição Branco
No final do século foi quando começaram a chegar. Nessa altura parecia-lhes já arrumada a longínqua casa e, se bem que ninguém o clamasse à boca cheia, muitos acreditavam que estava de novo chegado o momento de romper mundos, ditando-lhes alhures alguns rumos.
Logo abundaram pela cidade. Afável a baía e ondulante o clima poucos arriscavam nortes ou interiores. Eram gentes de bem e de mal ou mesmo de nem tanto, armados de poucos ou grandes anseios que nenhum lhes diminuía o afã, uns apenas em novo ensaio, uns outros já em últimas e até desesperadas tentativas. A alguns acompanhavam-nos as mulheres, famílias a reclamarem o destino, mas muitos arribavam sós, cedo e com azáfama procurando filhos na terra como se viessem eles a ser âncora neste porto, assim tornando-o abrigo seguro. E em todos a sensação da mudança feita na distância, mas isso é da natureza humana, o sentir o andar como se fazer fosse.
Nessa época também eu cheguei, a empresa a oferecer-me boas condições pois necessitavam de alguém para as relações públicas, artes que constava serem incipientes por estas paragens. Por lá perdido no meio do pelotão nem hesitei, aproveitei e saltei, deixando a mulher mal disposta em casa. Resmunguei-lhe, não sei bem porquê, que “navegar é preciso e mais qualquer coisa” e vim aos dólares.
Lembro que esses eram tempos até de turistas, quantos recém-casados a fingirem um desflorar em terras exóticas, como se o verde local lhes viesse a fertilizar as alianças, perpetuando-lhes os apetites e os gozos. Com eles se cruzavam, já mais cansados, os romeiros da saudade aqui vindos a lamber feridas, cheirando uma terra à qual teimavam em chamar sua, indecisos se paraíso ou inferno. Tinham-lhes já passado, pelos menos então, quaisquer raivas antigas, não que a emoção os aclarasse, seriam antes os ares índicos e talvez o alívio de terem chegado ao chegar, que isso de sobreviver é difícil e não para todos.
Com azáfama também se apresentavam os governantes, deles havia constante trânsito, dizia-se que para criar clima pois era de consenso ser já tempo de se cicatrizarem velhas feridas, então chamadas equívocos. E tão enleante era o ambiente que amiúde chegavam administradores e proprietários, ágeis a desenhar lucros em rápidas e agitadas incursões. E logo rodas de convívio sortido, aquelas onde se ia fazendo o bem olhando a quem, animavam restaurantes e prostíbulos, exultantes nos comentários à última visita, à reunião havida, ao negócio encetado, ao investimento do mês, à parceria delineada, aos rumores das novidades. Tal como se tudo isso a todos pertencesse, como se o seu brilho dourado a todos alumiasse.
Lamentos havia-os, mas eram mais os resmungos devidos aos surpreendentes inesperados do dia a dia. E também os das famílias, queixas da alguma insegurança então que fora do casulo e da falta de locais de convívio legítimo. Mas nisso eram mais as senhoras, desde logo cansadas de sofrer os confortos da criadagem e dessa árdua tarefa de resguardarem os maridos dos ânimos dos patrícios aqui solteiros, por opção ou geografia, sempre estes desinquietadores das calmarias conjugais.
Foi pois com alegria geral que se soube da aquisição do Cine-Teatro da cidade, sítio invejado ali à rua da presidência, dizia-se que há anos pelo Estado desusado. Era o agrado com mais um feito da comunidade, mas mais ainda a expectativa do entretenimento em vidas que corriam monótonas, distracções inclusive com coisas “muito nossas”, postais da terra a mitigar saudades. Lesto foi o alindar da sala, a maquinaria a chegar de fora e a juntar-se a estofaria e limpezas, para que tudo pudesse brilhar no que veio a ser uma agitada inauguração, rara ocasião então aproveitada por quem pôde para provar elegâncias. Também eu fui convocado para a gala, apesar de recém-chegado já me sentia alguém na cidade, um director, quando entrava nos restaurantes havia até quem se levantasse, por vezes pagavam-me as contas na noite e, inclusive, já me tinha sido possível corresponder a um ou outro favor.
Rápido se tornou o Cine-Teatro palco do bulício da cidade no hábito generalizado da sessão de cinema intrometida no quotidiano e prestando-se a falsos acasos, encontros ditos ocasionais pois bem se sabia os dias certos em que cada um ali se apresentava entre o irrisório de filmes. Pelo fastio da vida e no gozo da recente notabilidade fiz-me presença assídua, as estreias semanais, os concertos de beneficência e até as inúmeras conferências onde se discutiam futuros e obrigações do país. Além disso a minha administração, sempre atenta à imagem, instruiu-me a que fosse eu pródigo em patrocínios pois estes sempre nos iriam dar bom nome na praça, cativar boas vontades locais, “deles e nossas” sorria-me o Administrador Delegado, e tudo isso me impunha lugar cativo nos eventos.
E assim me fui sentindo amigo da casa, bem-vindo nas portas para mim tornadas gratuitas e nos sorrisos abertos do pessoal, gente ali estabelecida há muito, alguns ainda dos idos coloniais, que as compras ao Estado sempre trazem o trabalho de antanho, aqueles que sentem a casa como sua e que nem pensam em partir, ainda para mais dali, com tanta falta de empregos e sendo estes nada duros, abrigados de chuvas e imponderáveis.
Nisso fui crescendo amizade com a gerente, uma conterrânea meio balzaquiana aqui encalhada saberia deus porque razões que nunca lhas perguntei. Por ela pude confirmar que corria bem o negócio, e nesses bons augúrios cedo se rumorejaram expansões, velhos cinemas lá pelos nortes, “tudo para reconstruir” claro, mas também diferentes arrojos, jornais, revistas, até um canal de televisão. E com a fronteira tão vizinha ali para sul, sonhavam-se outros passos cuja ambição excitava até os clientes.
Foi então passando algum tempo, imperceptível como é este sempre que se agita. Nesse curso certo dia dei conta que os olhos da gerente vinham mudando de cores, iam indo num caleidoscópio, uns dias acordavam azuis, noutros castanhos, para logo voltarem ao verde, seguiam ao preto, e não tinham nisso descanso. Essas deambulações incomodaram-me mas hesitava, como alertá-la sem lhe despertar preocupações? E era caso sério, apenas ela não atentava no ocorrido, os próprios funcionários se inquietavam, ali bem expostos a tais miríades de cores. Isso adivinhei nos seus silêncios, que deles não poderia esperar que me dedicassem confissões ou preocupações, branco doutor que era e para mais da própria gerente amigo. No passar dos dias ainda questionei o antigo responsável Nhamtumbo, ali sempre informal influência, mas o velho, mirrado, largou-me um vago sorriso sem denúncias de grande interesse, e apenas anuíu em concordar em que era aquilo bem estranho, num “ai senhor doutor, são estas coisas modernas, nunca tinha visto...”.
Tendo-me deitado a matutar sobre toda aquela situação súbito compreendi que os próprios filmes iam piorando, uma selecção de segundas escolhas, coisas de decadência prenunciada, mas mesmo dessas vinham agora as cópias riscadas ou mesmo cortadas, enquanto o novo projector se afirmava cada vez mais renitente ao trabalho, e até o gerador se tornava menos solícito, sempre pronto a interromper sessões. E, cúmulo, mesmo as chuvas quando se abriam tomavam conta da sala, há pouco tão orgulhosa. Com tudo isto ia o negócio decaindo, ainda sem reclamações da sede nem murmúrios na clientela, se bem que esta cada vez mais esparsa. Seriam apenas os percalços tropicais?, interroguei-me, então ainda mais intrigado com o arco-íris na mulher. Mas calei-me, nada comentei, pois não eram assuntos da minha competência, e a vida de cada um é de cada um.
Finalmente algum espelho terá sido clarividente, que dos acontecimentos lá se apercebeu a gerente. Inquiriu e para o esclarecimento das causas ter-lhe-ão valido algumas solidariedades femininas, após as quais veio ter comigo, que da vizinhança tinha feito poiso para lhe ir distribuindo alguns conselhos de modo a que capinasse ela a vida. Ao que lhe afiançavam tudo aquilo, desvarios cromáticos e mecânicos, silêncios e vazios, se devia ao facto do antigo responsável ser leão, e ter entretanto redobrado as suas felinas actividades. E, pasmada o dizia, sendo isso do conhecimento geral dele fugiam os clientes, temores redobrados nas falsas noites que o cinema fingia, todas aquelas imagens de sonho tornadas assim fábricas de pesadelos.
“Que fazer com o leão?” angustiava-se a gerente. Despedi-lo, e de imediato, foi a minha proposta, mas ela a retorquir-me que o não poderia fazer, não tinha para isso justa causa, ao que ainda opus “e que raio de lei do trabalho é esta, se ser leão não é justa causa para despedimento?”, quem protegeria os direitos das vítimas? Mas ela, aflita, a negar-se, nem pensar em despedir o leão, isso implicaria recurso para o tribunal e como poderia ela reportar à lisboeta sede “despedi o funcionário tal que é leão”, não haveria de ser compreendida, haveria um espanto, multiplicado na distância, cresceria a desconfiança e decerto seria também ela dispensada.
Mas apesar dessa discordância insistia ela na minha opinião. Assim instigado alertei-a para a necessidade de inverter o rumo das coisas, trabalhar a opinião pública, pelo que lhe propus uma campanha publicitária que torneasse alguns dos malefícios sem que fosse muito explícita, pois era delicado o problema. Aventei então uma reprise, “O Rei Leão”, delícia da meninada grande, apresentação emoldurada por anúncios afiançando que era esse “ha ngonhama ya mbangu lowô”, o ronga para “o único leão deste lugar”. E que entretanto ao outro leão fossem dadas férias, direito de todos e matéria que não levantaria quaisquer reparos. Assim talvez se reduzissem as suas acções, avisado ele da compreensão alheia, assustado até, e com isso regressasse o público.
Mas em breve constatei que se a afluência do público tinha aumentado um pouco, da serenidade do olhar da gerente não havia melhoras. E passo a passo foram regressando, implacáveis, as outras incongruências. Para mais pouco tempo depois aportou um director, aqui deslocado para estudos de expansão pois as más notícias ainda não tinham soado na sede. Mas não lhe era longa a estadia e, súbito, uma manhã cedo fui chamado pela vizinhança, apelo urgente que chegara a revolução!
Acorri, solidariedade de imigrados, para me defrontar com um pé de vento que era também de guerra, os funcionários aglomerados e recolhendo a solidariedade transeunte, dezenas de pessoas protestando à porta e acotovelando-se em indignação curiosa. Tudo isto coroando a presença de dois polícias, ali deslocados para defesa dos trabalhadores. Lentamente iam eles agitando um papel reportando a queixa entretanto apresentada, e o qual oscilava em alternância entre director e gerente, estes já cônscios da importância da situação não só pela agitação colectiva mas sabedores de que é por aqui sagrado o papel, pois quando lhe chegam ao corpo os problemas já não têm estes retorno possível. Apesar disso pareciam os agentes disponíveis para uma resolução amigável do assunto, sem particulares incidências ou relatos e porventura com modesto e privado reconhecimento. Mas a população é que não o aceitaria, exigindo eficiente e rápida resolução da questão apresentada.
De mim se esperava um conselho avisado e de imediato me deram conta do conteúdo da queixa. Ali, num português duvidoso mas de cuidadosa dactilografia, erguia-se o auto acusador, expressando a angústia dos funcionários. Nele se denunciavam as ímpias actividades do antigo responsável do pessoal, aquele velho Nhamtumbo, algo de irrefutável pois os queixosos com ele tinham sonhado, indício certo dos ataques que vinha ele desenvolvendo contra os seus colegas
Encarei o acusado, ali entrecoberto num canto, ainda mais mirrado do tão enrugado que estava, o fundo dos olhos encovados mais distantes do que o habitual, como que refugiando a alma bem num âmago que se queria inacessível. Confrontei-o com as acusações e ele, no tom assustadiço do encurralado, a negar “nada, senhor doutor, eu não fiz nada”. E eu a impor-me, alguém tinha que o fazer e já não seriam os meus dois patrícios, ali descabelados, “mais velho, que anda você a fazer, a querer matar os colegas?”, que vergonha aquela, que teria ele a ganhar com isso, trabalho havia para todos, para quê aquela maldade, e ele já pouco negava, desistindo-se num fastio raivoso “se eles o dizem!, senhor doutor, mas eu não fiz nada”.
Arrastava-se a situação, os polícias ali também desprovidos de atitude, e a gerente aflita, ainda para mais com o director tão incomodado com tudo aquilo, nada preparado para um sublevação popular à porta do seu Cine-Teatro. Urgia fazer uma limpeza, foi a minha única opinião, “vocês têm que chamar alguém de fora para sarar isto”, e ela anuindo entre o compreensiva e o assustada, e, avancei eu, para uma situação tão grave como esta impunha-se chamar um especialista de Inhassoro, zona desses mais poderosos, e o qual logo diria se havia ou não feitiços e decerto se encarregaria de os anular.
O director não desviava os olhos, julgo que avaliava da minha franqueza, mas logo lhe irromperam as dúvidas, até agrestes: “Você está a falar a sério?”, e eu encolhendo-lhe os ombros, insistindo que seria a única coisa a fazer, ao que ele logo se impôs, determinado na sua autoridade e ultrapassando qualquer concordância da sua subordinada, que “era o que faltava, andar agora a recrutar magos para nos resolver as questões”.
Ainda entreolhei a gerente, se bem que não me recorde qual era a cor dos olhos dela nesse dia. Mas então esvaziava-se ela diante do chefe, agora ali a afirmar-se, seria ele a resolver a contenda. E logo me voltou a antiga azia com gente desta, que não há continentes de permeio que os afaste, tão cheios de si mesmos, e amaldiçoei a diarreia que não se lhe chegava, que é sempre com ela que se lhes reduzem as certezas. Assim, e à laia de desistência, fui-lhe dizendo que tudo aquilo era com ele, tinham-me pedido opinião, estava dada e pronto, e concluí numa insistência já inútil “vocês têm aqui um problema laboral, se o quer resolver chame o curandeiro e verá como tudo acalma”.
Cresceu então o director, a reforçar a sua magreza, franzindo ainda mais a cara rósea destes recentes trópicos, aquele eterno casaco azul bem vincado e abandonado pelos ombros. “Ó Teixeira”, chegou-se-me ele ao apelido a modos que a sinalizar a gravidade do momento, que nem sequer aí tínhamos chegado, ali sem “doutores” que é certo tal não se usar entre homens da mesma idade e, julgava ele condescender, do mesmo estatuto, “nem pense nisso, nunca farei tal coisa”. Aí fui lesto, abandonei-lhe um ok despedindo-me daquela conversa sobre a qual se centravam todos os circundantes olhos, enquanto ele, convicto e sonoro, rematava para todos nós em jeito de justificação e já em nome da Companhia “nós também viemos para mudar este país!”.
Ainda levantei as mãos, rendido, e dei-me à saída deixando toda aquela turba a resmungar foradentes a situação, mas não sem deixar a Nhamtumbo uma última invectiva, que estava ele com sorte, mas que deveria parar com aquilo, tinha sido descoberto, nada ganharia com o assunto. E do assunto nada mais ouvi, algum acordo deve ter sido feito, falsos silêncios acredito.
Pouco depois o director regressou à base, que esgotado estaria o motivo da sua visita. E em breve partiu a gerente, já cansada não tanto da terra mas mais de estranhas ameaças, gentes que lhe irrompiam casadentro de arma na mão, nunca se soube se verdadeiras se falsas, que por outros nunca foram vistas, mas que para ela existiam é certo.
Passaram-me alguns anos e com eles me foram crescendo novos interesses, responsabilidades e companhias. Fui ouvindo dizer que o Cine-Teatro se esvaziava, e quando me arriscava a passar perto da porta bem notava que os cartazes iam sendo cada vez mais antigos e desconhecidos, ali postados no reforçar de um ar de abandono que, súbito, fazia até o folclore das gentes da cidade.
Hoje, com a família já bem longe, enviada à frente no prenúncio da nossa nova etapa, e a casa no vazio de qualquer comodidade próprio à véspera de partida, o fastio da solidão levou-me ao refúgio do cinema. Cruzei, até cerimonioso, o silêncio da porta, preservado com cuidado pela pouca meia dúzia de clientes, ali todos um pouco com ar de engano. E logo agarrei a parca companhia de um café enquanto procurava nos muitos empregados, em desuso por ausência de quem servir, alguma cara conhecida com quem trocar mero cumprimento que fosse. Mas nada, ninguém do “meu tempo”, todos aqueles trabalhadores tinham partido, já não havia ali alguém para me reconhecer.
Súbito, saindo da sala ainda iluminada, lanterna desligada na mão, sorrindo-me um "boa noite, senhor doutor" o velho Nhamtumbo. Não resisti, entre o aliviado e o contente dei-lhe também um quente "hé, senhor Nhamtumbo, ainda está aqui?" e ele a acenar o óbvio, "então e os outros, foram-se?", e ele, seráfico e ainda mais mirrado, a anuir imóvel e longínquo, abandonado num sorriso mudo. "Só ficou você, Nhamtumbo?!", e ele nada sem negar, "áfinal?!" não pude deixar de rir-lhe, agora com ele solidário.
Saí para a rua, uma noite estrelada, destas daqui, a casa oca e a falta de sono, tudo apelava para que perseguisse a madrugada. Mas, estranho, tive pudor em gastar esta minha última noite índica em passeios solitários, tão desencaminháveis são esses. E de qualquer modo amanhã estarei já, e de vez, recomeçando vida em Luanda. Essa onde, agora, somos tantos os patrícios recém-chegados, decerto a animar bares e a (re)desenhar futuros, afinal não-índicos.
(Lisboa, Agosto 2002)
19. GENTE-DE-NINGUÉM?
Há muito que tombou a noite, hoje um pouco molhada. Intervalei-me da festa, apresentei-me voluntário para suprir a (in)esperada escassez de gelo (e dos meus cigarros), coisa de envelhecido, recuo estratégico, a querer-se elegante, diante da simpatia daquela jovem e tão bem apessoada quasi-doutora, cujo monopólio da dança com este mais velho se estreitara já até aquela fronteira em que nos sonhamos gente-de-ninguém. Por isso vou aqui e, já algo distraído com as minhas coisas, sigo veloz (até demasiado, sabê-lo-ei em breve) avenida acima, numa via de quase nada.
Súbito, todo indiferente ao semáforo que ali é norte, um machibombo viola o longo verde meu horizonte. Recobro-me lá desse meu mundo, e num assim mais lento divido-me, a minha esquerda ao manípulo, claro que atrasada no estancar do carro, e o pensar direito sem hesitar na opção, antes seguir directo, galgar aqueles bons dois palmos de cimento (imortal?) acolá a fingirem-se rotunda.
Ao embate, rude, logo logo a traseira do meu amigo decide apoiar-me, ombrear-me num lesto lento atravessarmo-nos por ali adiante. E assim seguimos como que planando, num malfadado acaso directos contra um outro machibombo, este calmo a chegar-se em meu sentido contrário (claro, se o verde está para nós ambos!). Agora impotente, sei-me a deslizar para a sua frente e ouço-me, sentido, convicto, desperdiçado, um “Foda-se!, vou morrer”. E sei bem as quem de imediato me brotam na cabeça, me surgem aos olhos, ali comigo mesmo, numa hora de partida.
Mãos de ouro, sozinhas claro, pois decerto então apartadas de mim. E depois carro arrumado (e em que estado!), o gelo entregue, mais uns pés de dança, até para aliviar. E hei-de chegar ao descansar. Para aí, num muito muito devagar me deixar ficar no olhá-las, a uma e depois a outra, no cada uma do seu dormir. A olhar essas alguém que estiveram naquele meu fim. Esse que ainda não foi.
(Maputo, Abril 2005)
20. ENGRAVATAR
A Carolina já está com 22 meses, como tudo isto passa a tão a correr!
Domingo ontem brincava ela no quarto de vestir enquanto eu me aperaltava para uma recepção, por cá o primeiro-ministro do meu país, acompanhado de grande e ilustre comitiva. Ali estou sensível ao convite-convocatória, como qualquer modesto contratado a prazo o sente, não vá o diabo tecê-las!. E até aliviado, ainda que fiel à lenga-lenga do fingir fastio, essa em que (quase)todos escondem o alívio de estarem listados, que mais vale o convite, para intra-muros simular recusas, do que nem se saber que cá andam.
Bem, mas isso é conversa do depois. Antes mesmo, ali estava eu no atraso do ainda em tardios preparativos, em frenéticas camisa branca, cuecas e meias, e lá termino, tão desabituado, o novelo de gravata. Nisto a Carolina, lá do baixo dela, abre os olhos todos espantados à tal gravata, antes nunca vista pois claro, e explode numa enorme gargalhada. Linda!, que hei-de lembrar para sempre...Como hei-de lembrar-lhe o óbvio, porque inocente, ridículo que assim deitou ao engravatar.
***
Horas depois um amigo encontra-me, por ali ainda circulando de fato escuro e gravata, e há-de perguntar, ainda que mais sisudo, "estás doente?...hum... cheira-me a comitivite".
(Maputo, 31.3.04)
21. UM EMIGRANTE DE SUCESSO
Sei que o faço de um modo abrupto mas eis-me aqui a anunciar-vos, meus caros amigos, a minha enorme transformação: tornei-me, agora mesmo, um emigrante de sucesso. Pois acabo de ganhar o totobola moçambicano, obtendo um rotundo e certeiro “treze” acompanhando-o com seis “dozes”, tudo isto produto de uma cuidada, e até sábia, aposta múltipla.
Confesso-vos que ainda de talão na mão, agitando-o enquanto (re)confirmo os felizes resultados, num entre-frémitos de excitação, até juvenil, e comoção, pois também esta adveio, vi-me equiparado em matérias de espírito aventureiro a todos esses meus patrícios, estes filhos de povo de emigrantes, que vão sendo bafejados pelas sortes do jogo na fracção da imensa lotaria americana, lá pelos cafés de New Bedford, ou até mesmo beijados pelo engenho, em plena gestão do “bicho” carioca.
E logo então, pois claro, confundi tais impressões imaginando-me também de regresso à minha particular Lisboa, algo a fazer em grande, é da festa de então que aqui falo, sonhando-a já. É certo que será subtil, pois a discrição burguesa a comandará, mas em grande mesmo assim. Ou seja, refinada festa, refinado regresso. E, é claro, penso o deixar-me por lá ficar, quem sabe se desta vez de vez, gozando a modorra dos rendimentos no entre-família e terra própria. Ou, pensando melhor, oscilando no entre cá e lá, que bem sei da experiência alheia, o regresso sempre angustia, o por lá tão difícil de reassumir, coisa do pouco espaço e acanhada gente ou vice-versa, ninguém mo consegue explicar.
E também, nesta catadupa de sentimentos, me larguei a pensar o futuro, adivinhando a minha imagem de então, condimentando-a com algum romantismo, minha felicidade e vaidade, já ouvindo os meus vizinhos desse próximo devir comentando à minha passagem, aos meus dizeres, “este é o Zé Flávio ... o ZéZé ... o dr. (Pimentel) Teixeira ... meu amigo ... muito meu amigo ... meu conhecido ... é colega ... ex-colega ... foi meu vizinho ... é-o agora ... o meu tio (ou mesmo tio-avô) ... é aquele que enriqueceu ao jogo lá pelas Áfricas”. “Foi-se para lá nas culturas e regressou rico!”, dirão ainda, assim em muito aumentando a curiosidade alerta dos respectivos interlocutores, estes sem o saberem mas sequiosos de tais caminhos, os caminhos de quem dobra o destino a seu bel-prazer, “culturas de quê?”, interrogar-se-ão os tais interlocutores, projectando-se já na peugada de tal sina, ao que os meus rematarão, até irónicos, “não, não me fiz perceber, foi-se para lá nessas culturas das letras, intelectuais e artes, coisas assim, parece que até foi professor e em tempos funcionário”, e nesta aparente contradição, nestes quase desentendimentos, todos assim culminarão meus sequazes, pois deste modo ficará para sempre garantida uma profunda dúvida sobre a lisura deste meu percurso, por isso mesmo engrandecendo-o.
Ah, as dúvidas ... que melhor coroar deste meu sucesso económico, que maior aura, do que gerar algum negrume sobre o meu enriquecedor passado africano?
Logo logo, mero minuto mesmo, após este meu sucesso, esta minha absoluta vitória, fui rodeado de amigos, congratulando-se eles com o acontecido, e até a mim chegados prenhes de conselhos, aqui e ali escorregando em ironias benfazejas, enfim, avisos de prudência. Prudência no caminhar pessoal, para que não me deixe eu cair na dissipação imoral, desvarios plurais, mas também prudência pelos perigos que tão inopinada riqueza se divulgada me fará correr por estas paragens. Enlevado como estou, ainda sentindo o irreal deste minha nova condição de bafejado pelo destino, tais conversas fazem-me regressar aos meus modelos de memória, conradianas cores, perigos inimigos e indizíveis, perfídias de súbitos falsos amigos, todos eles aqui conluiados com seus espíritos protectores, todos eles sequiosos, ardendo nas brasas da ânsia, tudo isso perigando-me.
Mas um perigo é também este deixar correr sensação e imaginação. Pois decerto que perigos novos se escondem neste meu novo, e desconhecido, caminho. Mas não poderei reduzir todo um passado a esses conluios do destino. Amigos tive, amigos os tenho e, mesmo agora rico, amigos terei. Esses mesmos já feitos conselheiros, irónicos já o disse, mas também sinceramente em cuidados. Não os renegarei por tal. Ainda que reconheça a inveja irrompendo nestes discursos, a inveja devida ao meu novo estado, provocada por esta minha futura liberdade, a liberdade do ter. Reconheço-a, e aceito-a, recusando que venha ela poluir a minha opinião, o meu afecto, pelos que me rodeiam. Pois há que viver com ela, saber domá-la.
E para isso me ajuda esta minha verdade. Creio que cada um alcança o sucesso que merece, creio que há nisto do ser alguma ordem, alguma causa, mesmo que não a ordem predeterminada da predestinação radical. Mas há, sob este aparente e falso acaso, a recompensa do mérito próprio, o sucesso é-nos por este proporcionado. E é nestes caminhos do reconhecimento do mérito de cada um que se afirma algo de justiça no mundo, ainda que tantas vezes escondido sob o manto da dor e infelicidade. Acredito que sim, o mérito, por mais fluído ou desconhecido que se apresente, está aí ao alcance da nossa vista, e assim se traduz nas felicidades ou desventuras, facilidades ou problemas com que nos defrontamos, cada um com seu quinhão, o quinhão justo.
Por isso mesmo espero que todos os que me são queridos aceitem essa ordem, que a mim me transformou agora, recebida que foi, e inopinadamente, a minha parcela de mérito destino. E espero que, com mais ou menos ironias ou conselhos, saibam os meus queridos reconhecê-lo, a este meu mérito, aceitá-lo e a mim agora assim simbolizado, traduzido. E, já agora, festejá-lo, forma de assim todos o partilharmos. Sem que eu o dissipe mas, por via da festa, aspergindo os que me rodeiam, apoiam e querem.
Aceitemos, aceitem vocês como eu o aceito, comovido e entusiasmado, mas também humilde, esta minha medida de destino, esta minha métrica de mérito. Aceitemos o que a vida nos dá, pois é isso prova de que aceitamos aquilo que fizemos da vida, portanto aquilo que merecemos.
Paro, contabilizado que já está o meu festejado e ainda festejável quinhão, o meu prémio de jogo, paro então já eu contabilizado, avaliado. Talvez agora, contas feitas, resmungando um por que não emigrei eu para Caracas, EUA, o Brasil, Macau? Por que não persegui eu, ou os antepassados Pimentel Teixeira, a aventura amazónica, os baleeiros do leste americano, a àrvore das moedas orientais? Enfim, destinos, esses que moldam nossos andares.
Continuo a fazer os tais planos, enlevado ainda nestas imaginações que vos narrei aqui mesmo. Na modorra pachorrenta e burguesa que me enche a alma nestes últimos anos calculo o prémio que me coube, assim pesando-me na lotaria da vida, neste totobola do mérito. Quedo-me pelos 65 000 meticais, um quase quase 3 dolares ao câmbio de hoje. Nem sorrio, que não é momento disso, mas sim momento apenas de aceitar. É noite, avanço até à varanda, a deixar-me a fumar, olhar a baía toda nesse seu falso negro da noite que não lhe esconde todo aquele azul que tão bem sei habitá-la. E ouço o coaxar sem fim das noites quentes no jardim. Tudo isso que vale bem os pequeninos 3 dolares ganhos. Ou ... e hesito na dúvida... será isso mesmo, afinal, o prémio?
(2002)
22. EXCERTOS DE PAI
8 de Abril de 2004
Aprendo-o contigo, vendo-te aos saltinhos no meu colo, risos contínuos num abrir de olhos ao mundo, balbuciando gritinhos “avião”, agora tua palavra quase única, essa que diz o esse que te leva a mãe. A primeira vez que se vê um avião a levantar voo é algo de extraordinário, esfuziante. Inesquecível, mesmo que nunca te vás lembrar disso.
9 de Abril de 2004
Fim do dia já, carrego-a ao colo e ela entra divertidissima aos berros (n)"o popó do papá!!!" "o popó do papá!!!" "o popó do papá!!!", que a fala vai começando. O "guarda", recebida a "quinhenta", diz sorridente "o patrão sabe cuidar do moral da criança" (sic, juro).
"Vamos a ver, vamos a ver", digo eu, deliciado apreensivo. Vamos a ver, nestes dias que se seguem, nestes anos que se seguem.
10 de Abril de 2004
Madrugada e eu durmo...
"Papá, cocó" "Papá,cocó" (risos)
"Papá, cocó" "Papá, cocó" (risos)
"Papá, cocó" "Papá,cocó" (risos)
"Papá, cocó" "Papá, cocó" (risos)
(acordando eu, estremunhado) "Tens cocó?"
"Papá, cocó" "Papá, cocó" (risos)
"Papá, cocó" "Papá, cocó" (risos)
e (abrindo ainda mais os olhos)
"Mamã?!", "Mamã?!"
"Vovó!", "Vovó"
"Mamã?!" "Vovó"
***
Um antropólogo diria, qual tese: o primado da fisiologia e das relações de parentesco.
11 de Abril de 2004
Quem te ensinou todos esses "não..." à roupa que te escolho, no ensonado da manhã? Quem te ensinou esses risos e palminhas às jardineiras cor-de-laranja, às t-shirts rosas, e a tudo isso de adolescente?
E ... Quem te ensinou as festinhas na minha cara enquanto te corto as unhas das mãos? Quem te ensinou a apaixonar-me?
12 de Abril de 2004
Esse "auga" "auga" "auga" repetido à exaustão, a de beber, a do banho, a da piscina, a da chuva, e a tão gritada em palminhas quando é a da "praia" "praia" "praia", essa da baía que te rodeia, esse "auga" que se tornou agora em pleno fim-de semana "acqua" "acqua" "acqua".
Invertes a etimologia...?
13 de Abril de 2004
Pic-nic de Páscoa, cascata da Naamacha. Assustas-me até, de onde vem esse não olhar para tantos outros meninos, esse querer da água, esse não medo das pedras que te dão um chão de escorregar, esse andar andar que me estoira breve breve...de onde vem esse não olhar para tantos outros meninos, esse querer da água, esse não medo das pedras...
Abril de 2005
A Carolina está quase com três anos (!!!), menina dos seus pais, claro. Nos últimos tempos a sua constante afirmação e preocupação é o tamanho: "eu sou grande!!, eu sou grande!!!, eu sou grande!!!, na-nana-nana, na-nana-nana", o que é uma delícia. "Eu-sou-grande-com-a-Sacha", "eu-sou-grande-com-o-Pedrinho", "eu-sou-grande-com-a-Nadine", "eu-sou-grande-com-a-Catarina", um "com" que é, obviamente, o seu modo de "em comparação" [e ouça-se que não está nada errada]. Afirmações ternurentas, e até algo falsas, mas o que interessa o tamanho real para estas coisas? Ainda para mais quando o sabe, sabe disso da estratégia, do falsear.
Pois "o pai é grrrraaande"", repete, mas também sabedora do que tudo isto é, pois "a mãe é pequenina!", risonha, gozona. "A mão do pai é grrrraaande", arrasta, em especial no banho, e muito mais em especial quando lhe lavo o rabinho e o pipi [a partir de que idade é que estas intimidades se tornam de mau tom??]; "a mão da mãe é pequenina" repete então, dentinhos de coelho a abrilhantarem ainda mais (como se fosse possível) o sorriso.
["Eu sou grande!!!" acabo de ouvir ali no jardim, onde brinca com os amigos]
Que imagens deliciosas. Que recordações fantásticas. Deste amor, o único infinito e inquestionável, que se tem pelos filhos crianças (Como será amar um filho crescido e gabirú??).
Outubro 2005
fungando, fungando, fungando "Não consigo", "não con-sssigo", "consegues...vê, vê como é", fungando, fungando, fungando "não con-sssigo, não con-ssigo", "consegues, vê, faz lá assim", sim, um assim de madrugada tão longa, e ela fungando, fungando, fungando "não con-sssigo", "tás a ver!!!?? Viva, viva ... ranhoca ... viva a Carolina ... ranhoca" e ela, rindo, linda, rindo na madrugada "ranhoca, ranhoca, ranhoca".
Hoje a Carolina aprendeu a assoar-se. Viva!, viva!, ranhoca!!!, ranhoca!!! Viva a Carolina!!!
E eu, tanta representação de céptico aqui aos “vivas” com isto. Recentro-me? Recentro-me, que a Carolina já se assoa, é o acontecimento do dia. O Acontecimento ...
1 de Março de 2006
Lição de português
Eles a saírem de casa, manhãzinha, para a escola:
Papá (ao volante): Hoje sonhaste com alguém?
Carolina: Não ... sonhei sozinha!
Papá (oops): Tá bem, tá bem ... (e sonhaste o quê?
Carolina: Coisas de princesas.)
Dezembro 2005
Filha (de súbito): Xinhor ... Dôtor...
Papá: O quê?
Filha (sorrindo): És xinhor ... dôtor?
Papá (sorrindo muito): Sim..., sou xinhor dôtor??
Filha (sorrindo ainda mais): És Zé ....... Flávio?
Papá (continuando): Sim, sou Zé Flávio.
Filha (toda sorriso): .....Teixeira?
Papá: Sim, Teixeira: José Teixeira.
Filha (sorriso mais que toda. E já arqueando sobrancelhas ou imaginação do "papá"?): És todos??
Papá (rindo, claro): Sim, sou todos esses.
Abril 2005
Um filho é um ditador. Confisca o último e até único natural direito, o direito ao suicídio.
23. PROFESSOR. MERO?
À conversa com um amigo professor, vai-me ele questionando,
- Ainda não percebi por que é que quando me encontro com bancários de bancos deficitários, reformados em idade activa, médicos de hospitais-morgue, vendedores (directores, claro está) de empresas arrombadas, publicitários de publicidade, diplomatas de países em desuso, jornalistas anónimos, funcionários de estados ineptos, todos eles me perguntam, amáveis, interessados, e até solidários, num quase mão no ombro: “Então, estás só a dar aulas?”
(Maputo, 2004)
24. NATAL EM MAPUTO
Em cada Natal há mais natal em Maputo. Pois, em cada Natal, o tal da “paz”, “felicidade”, “amor entre os homens”, “todos os dias que um homem quiser”, “criancinhas”, “etc. e tal”, há mais gente apinhada por aí fora, um trânsito voraz nas avenidas mas também a querer-se escapulir por ruas e ruelas, que os buracos destas são agora esquecidos na pressa das compras - ai, quando maputo tinha poucos carros!, que sossego, que saudade ... -, tanta gente até chorando os preços mas a encher o Fajardo, o Bazar Central, que esses vi eu e os outros só acredito, o Alto Maé encrespado de compradores de última hora, bem como lá na Baixa, e por todas essas bancas de rua, estas sempre o olho no cliente o olho no polícia, dumba-nengues no prontos à fuga, provando bem provado o nome correcto, e lá no fundo da Luthuli o fantástico Ayob Comercial, nós em filas ao sol esperando vez para entrar, ali a comprarmos as tralhas chinesas, maravilha de marketing essa baixa de preços em época de ponta. E, veja-se, até os prédios shoppings agora com visitantes feitos compradores, uma festa, uma festa, mesmo as iluminações do Natal vão surgindo, isto está a caminho de moderno, cidade fazendo-se grande.
É verdade, chegou o horror do consumismo, a estragar o que deveria ser, o que antes foi, o espírito da quadra, as velhas “boas festas” da família apenas em concórdia, essa coisa do despojamento. E tão estranho o é aqui, terra de tantas dificuldades, tantas privações que nos cruzam e nada mudas, ainda que nós tão surdos. Um paradoxo, amoral até, coisas da inconsciência.
É, é o isto que se vai ouvindo, e mais ainda nos intervalos das compras, entre os nós, gente de cá ou não, estes com restos de alguma consciência, a qual criámos no hábito, no nosso nunca não-natal, e nisso crescemos sempre mais sabendo, já nascemos Natal, fazêmo-lo antes do Natal, depois do Natal, e até no Natal, somos estes nós esses que o fazem “todos os dias que um homem quiser”. Por isso, porque o sabemos ser e assim viver, lamentamos, desgostosos, esse povo da cidade, certo é que coitado povo por tal o ser. Esse que assim se distrai, neste corropio das compras, das coisas, a querer-se, a fazer-se, a imaginar-se tão mais rico, tão nós no fundo. E nesses desejos de cópias, sempre inconseguidas diga-se, gerando tão maus hábitos, esses do ter, do gastar, coisas decerto não para eles, pelo menos não assim. E pior do que tudo, gerando os hábitos do ser, diferentes daquilo que são. A quererem-se quase como nós. Natalizados.
(Maputo, Natal 2003)
25. AS ESTRADAS DO NIASSA
Ao Zé Filipe Verde, que não podia vir
Entre Congerenge e Mandimba são 40 kms a subir via oeste, todos entre milho, mato e tabaco, tendo pela frente, intrometidas no caminho para o sol, essas montanhas Malawi. Mas se se estiver a fugir do norte, rumo a oeste também, é ainda mais bela a rota, coisas de descer para as montanhas. Venha-se de onde vier é sempre má a estrada, boa para cautelas e vagares, os quais vão demorando o entranhar desse horizonte azul acastanhado. Convém viajar cansado, pois ali quanto maior for a exaustão mais cada um vai acreditando nos seus deuses, se os tiver, ou pelo menos na felicidade, se daqueles estiver privado. Como se algo fosse existir lá em Mandimba.
Mas não, talvez alguns ídolos quanto muito. Água nos canos, a surpresa por a haver onde é, e electricidade. Abençoada, que ainda refresca as cervejas, e que vai deixando a roufenha discoteca a céu aberto, as ténues luzes chamando milhentos mosquitos, "pagas uma bebida, tio?", putas de fronteira neste ermo, "claro, mana", "pagas também à minha prima?", "vá lá, uma rodada", Castles que são aqui um elixir de velhice, meninas pesadas, tão cansadas já andam elas nestas noites, "vieste viver aqui, tio?", e eu envelhecendo com elas, "vá lá, bebe a cerveja", até que algum assimilado venha dizer para não incomodarem o senhor doutor, que raio sempre são putas de ermo, sem ver que já são fronteiras do meu carinho. "Que andamos a fazer às sobrinhas?" pergunto a um velho chefe de aldeia, e ele a lamentar-se, essas mulheres que não respeitam os ensinamentos, fogem da machamba, vão-se vender nos mercados, os homens que compram, e todos aceitam, "é a democracia", conclui desiludido. "Não será a machamba?", não lho pergunto eu, ou não será tudo a mesma coisa?, respondo-me agora que já ouvi esses jovens, secos, "os nossos estudos acabam no capim!".
Num coito da estrada um colega gringo, quatro anos bem mais a sul em programas de luta contra a doença, resmungando que é uma batalha perdida, que ninguém se protege, são os velhos hábitos e a pobreza, e agora tudo isso reforçado pelo brotar destas igrejas cristãs, elas próprias crescendo, uma vera explosão, tudo isso também devido ao pavor desta praga, uma nova morte toda-poderosa, pastores pastoreando contra o fumo, o álcool e as camisinhas, o pacote de pecados. Nem interessa se as estatísticas são exactas ou exageradas, seja como for passeamo-nos por aqui dizendo-nos a desenvolver este mundo, por ora feito de mortos-vivos. É ele mesmo que fala, não o alcool da desilusão, uma mera coca-cola na mão, nega que qualquer campanha valha como prevenção, nada disso está a funcionar e, súbito, desgringa-se todo, que o que resta fazer é distribuir tudo grátis esses novos medicamentos por toda África, é a única forma de aguentar isto até se chegar à cura. "E há dinheiro?", provoca o cínico, eu mesmo, e ele de filho-da-puta para cima sobre os gajos do Banco Mundial, a insistirem na prevenção porque isso dos medicamentos lhes sairia caro, mesmo que os indianos se ofereçam para os fazer três vezes mais baratos do que as nossas (dele) indústrias. "Caro?, tanto como uma guerrazinha no Afeganistão", vai acabando ele e o nosso tempo. Que tenha cuidado, se continua com este tralálá ainda o expulsam lá do midwest dele.
Quero surpreendê-lo com novidades aqui do Niassa sobre o assunto, onde a população crê que a doença se apanha mesmo é através das camisinhas, vem nesse líquido que as lubrifica. Bem racional é esta visão, o empirismo do agricultor, pois se antes delas chegarem, antes de por todo aqui serem espalhadas, não havia doença como não lhes atribuir a praga? Encolhe os ombros, lá mais a sul também há a mesma crença, e todos as evitam. O que fazer?, ele vai pagando os novos medicamentos, caros de mil dolares/ano, a dois amigos moçambicanos, outros colegas dele também o fazem: antes as más consciências tinham o seu pobrezinho privativo, agora passaremos a ter o nosso doentezito só nosso. Mas poderemos fazer algo mais do que trocar alguns anos de vida alheia pelo lugar num céu qualquer?
Avanço, saio da terra batida nacional e logo, logo, começam os verdadeiros problemas, como andar por aqui? No Maputo todos, changanas ou expatriados, aconselham cuidados vários com as doenças do Niassa, evitar a água, fugir aos pântanos e rios, às noites e canaviais, que trazem malárias e bilharziose, e outras maleitas. Mas quem assim avisa terá por aqui passado?, como seguir os conselhos se de imediato nos atolamos, e este ano ainda mal começou a chover? E são horas dentro de pântanos, riachos, da lama, e todos a empurrar, sorte que sempre vai chegando o povo, e assim se juntam as dezenas de homens necessários para que se possa avançar mais um pouco, gente tão isolada que ainda pronta a uma ajuda fácil. Por aqui não há carros a passar, não é apenas o estado das estradas que o diz, são mesmo os condutores, é óbvio que não andam por aqui, tão desabituados que atolam em sítios onde nem mesmo eu me ficaria.
Numa aldeia peço água para lavar toda esta lama. Acorre o intérprete "não vá ao poço", e eu ofendido "claro que não", "achas que sou parvo ou quê?", mas isso já não lho digo. Que raio de ideia, um estranho a ir para o poço local é mesmo pedir problemas. Mas logo ele se desculpa. Que o ano passado por aqui houve uma epidemia de cólera, "sim, eu sei, foi terrível". E claro, logo vieram os prestáveis socorristas, prontos a sensibilizar a população para cuidados variados. Então, ali em Marrupa, um patrício meu, "decerto cooperante", resmungarei, se de ong se de Estado não mo sabiam dizer, mal chegou onde os aldeões morriam de borrados correu a fotografar o poço, para pôr no relatório ou mostrar à mulherzinha isso nunca saberei. Claro está que, envenenador, foi bem batido, directo para o hospital. Mas quem manda estes idiotas?
Paro, devagar, numa aldeia Yao, coisas de antropólogo e dos seus velhos livros, lembrando um tipo que andou por aqui há muito tempo a ver e a escrever bem, esse Clyde Mitchell. E há bem menos anos também passaram uns evangelistas ambulantes a projectar filmes sobre a bíblia, como se a imagem em movimento viesse a ser mais forte que o islão local. Enquanto os meus parceiros tratam dos seus afazeres encosto a uma sombra, logo rodeado de dezenas de crianças como por aqui sempre acontece, curiosos pois a gente da minha cor não tem aparecido. Olhos bem abertos vão eles murmurando e, de repente, sai uma gargalhada entre os meus acompanhantes, "que foi?", pergunto, e eles com sorrisos do tamanho do mundo a dizerem-me que ali julgam que pareço "iesso", "o quê?", que os miúdos me acham igual a Jesus. Nem preciso do espelho para saber que o meu riso de ateu sai estúpido de ternura.
Se já a cidadezinha é recôndita o que não dizer destas perdidas aldeias, tudo isto longe do mundo que mexe, dos seus andares e conflitos, este um outro mundo parecendo desprovido de informação e saberes. Em cada sítio logo visito os pobres mercados, o piscar do olho à economia local, a sentir como se é por ali. Por todo o lado à minha passagem raros são os apelos ao negócio que pouco há para vender, e sempre me seguem os mesmos rumores, a mesma ironia espantando o espanto da minha presença, e a qual deixo correr nas minhas costas, o que dizer? Só na noite me confrontam ostensivamente com ela, entrando em casa soa no escuro o grito provocador: "Bin Laden, Áfinal,... você está aqui!?". A globalização?
Uma sede administrativa, mais de trinta casas de alvenaria, quase todas abandonadas porque propriedade dos Caminhos de Ferro de Moçambique, que prefere arruiná-las a cedê-las. Ou será que a população as despreza, tão preferindo o pau-e-pique? Uma delas é a cantina, vazia, de Saíde Jonasse, avantajado machambeiro em região de gente esquálida, mais gordo até do que eu, um barbudo muçulmano de olho em todos estes meticais que me dou ao trabalho de transportar. Entro para almoçar, pôs-nos a melhor toalha, um plástico com uma fotomontagem berrante de colorida. Encimada pelo horizonte de Manhattan está uma praia tropical, coral e palmeiras, uma estranheza made in Japan, "calamidade" decerto, e da qual desconhece o conteúdo. Divertido, pelo absurdo do estampado, e por ver o ignorante orgulho com que me põe a rija galinha sobre as falecidas "Torres Gémeas", digo-lho e sai em alvoroço, lá na cidade já tinha ouvido falar do assunto. Ainda duvida, mas depois pede-me uma fotografia, não lha posso negar, sentado, o cotovelo pousado no coral tropical, a mão nas torres que já não o são.
A galinha do dia seguinte já a como no tampo de madeira.
O Chitengue, breve afluente do Lugenda, uma pequena picada que o bordeja, estreito caminho de andarilho ou, quanto muito, de bicicleta. Entre o canavial e o bananal um sol de tarde moribunda inunda o amarelo dos frutos enquanto faísca nos charcos. No caminho, barrada pelo carro, surge uma muito bela mulher, chapéu de sol arco-íris como é aqui usual, capulanas garridas ocres e amarelas. Não resisto a roubar-lhe a beleza exótica, todas aquelas cores enroladas em bananas luzidias, mas mal abro a porta, com a sequiosa máquina fotográfica a fugir-se-me ao tiracolo, logo ela foge, corre desabrida até que a percamos de vista, aos gritos "é a morte, é a morte!!", traduzem rindo os meus companheiros. Serei assim tão feio? que espelho fui aqui encontrar, do físico ou da alma não me apercebi. Um pouco à frente encontramo-la já acompanhada por um homem, e todos a sossegam, desfaço-me em desculpas. Aí, diante dos elogios à sua beldade, digna-se a pousar agora fazendo-se sedutora e eu, nu de tontos pruridos, saio contente com o estereótipo apanhado, como se meu antepassado fosse.
Marchamos para a aldeia Namicoyo, ladeando um riacho, o capim abraçando a picada, e como sempre que se trata de andar vou ficando para trás. Lá à frente, escondidos por uma curva, os meus acompanhantes cruzam um grupo vindo das machambas, percebo-o pelos inúmeros "salaama" que se trocam. Quando avisto o velho que marcha à frente da sua gente saúdo-o, mas ele estanca sem aceitar este meu "salaama", agride-me num "aqui não há salaama", e eu sem perceber, "aqui há fome, ouviu", diz-me em português, "agora há fome!". Eu, institivamente, abro os braços algo aparvalhado pela investida, como que reclamando a minha inocência, desculpando-me desta fome que ele anuncia, tal como se tivesse quaisquer divinos poderes sobre essa chuva que chegou meio tarde para o milho, e ele insiste, "há fome, vá dizer isso", e eu a ver-me, estúpido, de braços e olhos abertos. Nem lho respondo, mas que tenho eu a ver com o clima?, o "fazedor de chuva" quanto muito é ele ou o seu chefe, nunca eu. Dá-me as costas, e lá vai com a família, deixando-me a resmungar a minha óbvia impotência, mas que raio, maior do que a dele.
Nas estradas campos e campos de tabaco, é aqui que se faz o que me vai matando. Para obterem um pouco de dinheiro os camponeses cultivam-no e descuram o milho, que o trabalho não é elástico e tem limite. Depois, lá mais para a frente, logo antes da época da colheita, gastam esse pouco dinheiro para comprarem, então bem caro, o milho que precisam para comer. Custa gerir o equilíbrio das culturas, o das reservas e ainda mais o das expectativas. Ah, e é aqui impossível gerir o equilíbrio dos preços pagos pelas companhias, ditados por uns tais de mercados mundiais. Enfim, lá vão eles, quase sempre a perder, dir-se-ia, se não parecesse cinismo.
Assim sendo há que organizar e trabalhar melhor, e para isso lá se chamam os tipos do Desenvolvimento, e eis-me aqui aos dolares. Hoje acompanho um regente agrícola, gente do sul, estudos no estrangeiro, saberes complexos. Jovem ainda, barriguinha quase tanta como a minha, mas um rabo maior, o que lhe garante um S de cintura mais vincado que o meu. Caminhamos uma manhã pelas machambas a par dos seus cultivadores. Contente, frenético, talvez até por minha causa, vai protestando com a falta de qualidade das culturas, o mau trabalho, a fita métrica saindo-lhe amíude do bolso de trás, quase tão rápida como as suas palavras, medindo a incorrecta separação entre as plantas, invectivando a uma melhor organização, e os camponeses sempre aceitando as suas opiniões, ele sorridente, rápido, pedagógico, o seu S mexendo-se mais rápido do que todos nós.
Simpático, partilhamos um cigarro, enquanto lamenta a incapacidade dos camponeses, que este sistema não funciona, nem conseguem articular as produções nem aumentar a produtividade. E para isso é necessário investir, resumindo, há que privatizar a terra para que haja investimento, crescimento. Ainda lhe pergunto se esta gente terá capacidade de o fazer e de o gerir, e ele sorri, veterano já, "Nada, estes não conseguem", e enquanto eu procuro saber o que lhes acontecerá nesses privatizados dias, logo feitos os sem-terra daqui, ele nada diz pois já partiu, a fita métrica de novo aberta entre o feijão-boer, provando numérica e metricamente o erro feito por este homem, o qual com ele vai concordando apoiado num imenso sorriso, acenando a sua anuência, em outra língua, é certo, num outro ritmo está claro. E ali, no magnífico face às colinas, esvazio-me de crenças, mas sem qualquer desesperança.
Por falar em Desenvolvimento alguém passou por Mezito e ofereceu uma moageira a um outro alguém a quem chamou "comunidade". Entretanto houve alguns problemas e a aldeia decidiu afastar os dois moleiros. Fez-se reunião da população e indignados ficaram os acusados, ainda para mais porque o guarda não seria despedido. E do afastamento deste seu colega não prescindiam, como se a vergonha do castigo fosse maior se não fosse este universal. Mas não foi esse o entendimento colectivo e, vingativo, logo ali um moleiro ameaçou publicamente o guarda, como se fosse este o delator das queixas ali patentes, rogando-lhe um "não passas deste ano, hás-de morrer em breve". Mas João Bitong não se cuidou do feitiço, ficou no seu posto, que ainda lhe rende algum e será menos pesado do que o dia-a-dia de machamba, e desta se ocuparia a sua mulher. Pois em breve, no regresso a casa, foi atacado por bicho estranho, ouvi dizer que leão-homem, mas ele nega, era antes uma mistura de leopardo e lobo, este último animal por sinal aqui inexistente. Sorte dele, conseguiu lutar com esta fera encomendada e fugir-lhe para a sua aldeia, mas agora desfeado já sem nariz e boca, tal como o vim encontrar meses depois. Grave a situação, logo sete homens o transportaram até ao régulo, de onde viria a seguir para o hospital onde ficaria vários meses, entre vida e morte. Mas logo nessa noite o bicho, vingativo, assaltou e feriu todos esses sete homens, só sendo apanhado quando sorrateiro penetrava em casa do chefe, aí sendo morto pela população e logo queimado.
Vou falar com Bitong e os outros, que me contam a história, pormenores lancinantes de terror e sofrimento. Fotografo as feridas, ouço os vários intervenientes, como negar a homologia das versões? Prova provada do feitiço, não chega a observação? Ou arvorar o racionalismo contra a empiria? E então regresso, detectivesco, ao moleiro "o que lhe aconteceu"? Pois foi decidido nada fazer, esperar o regresso de Bitong, meses lá na distante Lichinga, sarando uma cara agora irreconhecível. Mas no entretanto alguém, não se sabe quem, não se conteve em vingar a beleza e saúde de sinistrado, e logo o dito moleiro morreu na machamba, ele a desmatar e de uma árvore que abatia caiu-lhe na cabeça um forte ramo, fulminando-o. Espantoso, por aqui nunca nada de semelhante tinha acontecido, nunca se tinha ouvido. Fico-me com esta prova de feitiço, para mim chega, para lá da teoria.
Mas também me hei-de lembrar, que raio de projecto de desenvolvimento que no seu mau desenho criou um monstro, provocando mortos e feridos entre quem tanto queria ajudar. Metáfora? Será mesmo?
Passo pelas aldeias, peço para falar, marca-se o dia e a hora, hei-de regressar sempre atrasado, devido às conversas arrastadas e às tais estradas que demoram. Mas as gentes esperam, esperam, prontos para falar, para assistir ao meu rápido voo para depois ir dizer como se organizam eles. Certo que estão prontos para dizer o que querem dizer, e lá vamos para o jogo de os levar a dizer o pouco mais, xadrez puro. Mas jogando com quem esperou horas, paciência de agricultor, apenas para falar comigo.
Por vezes sou esperado por dezenas de pessoas, como se entrevistam 150 pessoas todas juntas, à espera de uma "brigada" do qual sou brigadeiro e soldado? Não há dúvida, escondido por esta cor, engano à chegada, criam-se expectativas, quantas vezes não esperam que apenas venha perguntar, mas sim que chegue com instruções, benesses, convocatórias para trabalho ou, mais do que tudo, distribuir as sementes que faltam, que faltam sementes aos agricultores. Sinto-me não um investigador, mas mais um desiludidor. Enfim, não há dúvida que para estes trabalhos é fácil ser antropólogo em África, eles esperam. Mas homem, ser homem, é fodido.
Lá mais para a cidade outros falam, os das actuais ou antigas administrações, alguns transitados para as ongs ou empresas, outros nos seus negócios, gente arrastada para aqui e que ficou, por escolha e mulheres, vinte anos e mais numa terra onde se sentem livres e em casa. Parvo, pergunto a um manhambane "o que faz você tão longe da sua terra?", e levo por medida grande, "ora, bolas, e você?", e calo-me, rindo. São estes que contam histórias mais antigas, de quando tinham sido jovens, tempos em que chegavam cheios os aviões e camiões cheios, largando as pessoas nas empresas agrícolas, nas aldeias, porque por alguma razão decididas como improdutivas, e toca a transformar esses citadinos em machambeiros, custe o que custar. Mas às vezes, porque não havia sítio planeado para os deixar, ou apenas por fastio, deixavam-nos no meio do mato, grupos de gente lá da cidade, perdidos, depois desaparecidos sem rasto, "pasto de leões". Porque não contam essas histórias?, digo, entre goles, "para quê?, ninguém quer ouvi-las...", abandonam-nas eles.
E bebemos mais um whisky, bebamo-lo, que chega de neo-realismo.
(Mandimba/Maputo, Março 2002)
26. LONGE DO NIASSA
O Niassa é deslumbrante. É-me dogma dito assim, e já o pus por aí numas quaisquer tralhas escritas. A última província moçambicana que cheguei a conhecer, ali aterrado cheio de expectativas, todas elas tecidas durante anos de conversas no “ouvir dizer” sobre tais paragens, míticas para todos, terra por vezes símbolo do belo, noutras apenas do longínquo misterioso – e quanto de mistério há constantemente afirmado -, e quantas outras até do horror, e então bem merecidas. E em tantas delas afirmando somente o impossível, como se este tivesse terra própria. Confesso agora, no depois, todos esses olhares, ainda que tão diferentes, me parecem estar a olhar bem. Mas para mim fica-me o olhar deslumbrado, e quão difícil é o deslumbre em terra a que se chega já cheio de expectativas, quase sempre estas defraudadas pelo real nunca tanto como as memórias de uns e a imaginação própria. Terra essa que de tão mesmo até o seu defeito letal, esse de interior alheio ao oceano, resolveu de modo doméstico, construindo para seu próprio uso o mar necessário, guardando-o depois num entremontanhas a que chamou lago.
E todo este meu encanto sem lhe ter chegado à reserva natural!!, dizem-me que verdadeira reserva, floresta ainda, local inóspito assim protegido. Lá resistente e até livre. O belo, dizem. Arrependido, num total superlativo, lembro-me da única vez que dele estive próximo e com o algum tempo e dinheiro para chegar ao até lá. Precisaria então de dois dias de estrada, pois a chuva deixara-se cair naquele seu modo dali. E, é claro, de mais dois dias para regressar. A somar aos que lá ansiava passar. Deixei-me pensar, e como quase sempre, decidi mal, na crença de que me era quase impossível por causa de uns entretanto esquecidos compromissos, coisas do nada a que importamos. Prescindi, em suma, num utópico “fica para a próxima”, esse que nunca vem.
Estas são memórias que sempre regressam quando, aqui na distante Nação, ouço sobre o futuro da reserva, o quanto ela precisa do mais turismo, esse ainda tão pouco, e assim a precisar de crescer. Dito única defesa possível contra a praga humana, esse nós voraz, coisas de paradoxo nada aparente. Nessas mesas de discussão ecoa o dilema, como manter a reserva com a sua população, essas vinte mil pessoas no seu duro dia-a-dia de machambeiros itinerantes, por isso na sua luta contra o mato, e aqui e ali caçadores quando tal é possível? Alguns “powerpointam” a necessidade de deslocar toda essa gente. E como não concordar, como não o susto diante daquele modo das queimadas e abates das machambas, de todo aquele carvão vegetal estrada fora, ajoujando as gingas sob os seus sacos? Diante da caça e pesca, ainda que artesanal, que aqui não falo dos ilegais, por isso mesmo sempre dito “outros”, se “tanzanianos” “congoleses” ou “ruandeses” depende de quem conta sobre tais gentes do tão longe ali fazendo modo de continuar. E, já agora, como não o susto lembrando as pessoas vivendo mano-a-mano com as “feras”, ainda para mais estas até erráticas, em especial quando tomam o gosto ao erro.
“Reasssentar”, esse eufemismo? Reassentar onde há lembrança desses “aldeamentos” a la Vietname, aqui importados nos tempos do pré-desespero português? E tanta memória das seguintes “aldeias comunais” aquando do país novo – ainda que, e que me desculpem os com certezas, no andar por aí se vejam tantas delas ainda tão habitadas? Reassentar, esse eufemismo? Talvez, mas a fazer ganhar os reassentados, “taco” para tanto, senão ele há-de voltar, pode demorar mas há-de voltar. E como assim, se tanto falta o tal “taco”. Reassentar, esse eufemismo? Apesar do sim, apesar do ecológico, não deixo de lembrar coisas da história antiga, antes gentes aliviadas de boa terra para que esta apascentasse o gado, hoje o gado do turismo.
Ou fazer conviver, gentes e animais e flora, recuperando o que sempre foi? Mas um sempre foi que sempre foi mudar, consumir. Muitos o dizem, chamam-lhe “integrar”, esse eufemismo, coisa de um como que irmandade. E até se diz, enriquecer a população com o tal de turismo, esse que há-de vir, animando este, respeitando aquela. Fazê-la utente mas também guardiã. Um mundo “integrado”, esse eufemismo. É quando aqui chego, quando aqui se me solta a adesão, que me lembro de uma velha história então contada por um ex-amigo, que a sabe de presença.
Há alguns anos o governador da província visitou a reserva, ali em campanha de sensibilização, desejando-se mobilizador das populações para que preservasse esta fauna e flora. E para isso sublinhando os futuros ganhos com o turismo, se o meio fosse respeitado. Certo dia, numa aldeia recôndita, realizou-se mais um encontro, até comício, ali gente gente que acorrera das distantes vizinhanças. De novo discursou o governador, um longo entusiasmo, a arte da mobilização popular, e a lembrança das tais futuras benesses brotadas das plantas e, sobretudo, dos animais. No fim, e já depois dos aplausos e vivas, levantou-se um velho, um desses velhos velhos mesmo, até já trôpego, pedindo licença para intervir, era uma questão que, com respeito, queria apresentar. E assim fez, perguntando para uma não-resposta:
“Excelência, quer ser governador de gente ou governador de leão?”.
(s/d)
Publicado por jpt às maio 9, 2006 05:54 AM
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