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Ma-Schamba: Ao Balcão da Cantina: fascículo 1

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maio 09, 2006

Ao Balcão da Cantina: fascículo 1

1. UMA EPÍGRAFE À CONVERSA


Esplanada de fim de tarde, essa afamada dos escritores, as cervejas partilhadas com ídolos do antes, um do atletismo, o outro do basquetebol. Súbito, lance de três pontos de Morgado, desses cesto-a-cesto, beleza tal que nem lhe confirmarei os passos da dicção, num lesto lembrando o poeta Vinicius, coisa momento abruptidoce:

Senhor
Tende piedade também do técnico de farmácia
Que queria ser doutor
E não o é

Obrigado, poeta-cantor, pela tua solidariedade. E também a ti, velho poste, por esta tua memória, arguta.


(Maputo, 2003)



I. UM IMIGRANTE EM MOÇAMBIQUE



2. AFORISMO


Que chova, quando e quanto seja bem-vindo.


(Montepuez, Dezembro 2003)



3. UM ESTRANGEIRO NA ZAMBÉZIA, DURANTE AS CHEIAS


De Quelimane ao rio Chire quase vai um dia. Dois camiões atolados há já meio dia vedam a estrada, rodeados de uma meia dúzia que tapa todas as irreverentes opções. A surpresa de aqui encontrar um mui recente ministro português, por ora em mais tropicais das suas agriculturas, agitando uma simpatia enérgica no querer-se motor do desentupimento. Neste contraste com a minha displicência, alimentada a Rothmans, sinto os determinismos psicológicos, pois há quem tenha o dom do poder e outros, como eu, olhamo-los, e quase sempre de viés. Após algum tempo esperando que milho e madeira desçam das viaturas sento-me num tronco em conversa com um indo-descendente, o qual logo me diz, assim avizinhando-se-me, dos seus dez anos comerciando entre a Moita, o Laranjeiro e a Costa da Caparica. Ao meu “porque raio voltaste?” solta um “e que sentido tem aquela correria?”: frase curta pela qual tornas tão óbvio, Adam, que não é esse cofió nem o Ide desta semana que nos separam! Num quase murmúrio, algo envergonhado da impaciência que o tornou mãos-largas, conta-me que, farto da espera, pagou 400 mil meticais para que se descarreguem os camiões. E no entretanto da conversa, estes, logo que menos pesados, recebem o primeiro impulso e saem calmamente das suas covas.

Rio-me de mim, qual psicologia, qual poder do Grande Homem Branco: “É a economia, estúpido!”.

Um padre na estrada, desses de décadas de mandioca e feijão com bicho, guerras, água morna, falhanços, malárias, um trabalho insano e eterno, que fazem este ateu sentir-se um pouco mais pequeno do que já é. Irritado, o velho! Narra o episódio do padre italiano que morreu há dias, arrastado nas cheias ao tentar levar doentes ao hospital. E do seu colega partindo em busca do corpo, irregulares caminhos, margens lamacentas, atolado vezes sem conta, o cansaço sem desespero da gente de fé. E do seu regresso, ainda sem sucesso, onde a polícia o multa em um milhão de meticais, que isso de nas buscas ter caído a chapa da matrícula…até pode ser verdade mas não apaga a ilegalidade.
Determinismos culturais? Tradição, culto dos mortos, ritos prescritivos, enterro lá no lugar dos antepassados? Que idealismo, “é a economia, estúpido!”.

Perto de onde era o batelão do Chire, pequena travessia por roldanas esgaçadas a pulso, é agora uma infindável planície de água, bordejando a aldeia Pinda. As primeiras casas distam 50 metros planos do rio. Felicidade pela inesperada presença de Ventura, o meu motorista, pastor da igreja evangélica que aí professam. Numa pobre capela de pau-e-pique uma breve e alegre oração conjunta. Faço um apelo, procurando-me veemente, a que partam para zonas mais altas, pois as chuvas a oeste e as descargas da barragem vão aumentar, afiança-o toda a lógica sob esta chuva, insiste-o, e com permanência, a rádio que nos acompanha. “Que sim”, já o administrador o veio avisar, mas ali não lhe sobrará crédito, não vislumbram qualquer razão para o seguir, até porque nas cheias de 1978 as águas não ultrapassaram aquela velha árvore acolá, guardiã da secura a 20 metros da povoação, bem apontados. Empirismo puro, para racionalista aprender! Intercedo junto de Ventura para que os convença. Responde que não o fará, aquela gente não tem tecto noutro sítio e as suas machambas estão ali. Para onde irão?

Fatalismo, inconsciência? Mais uma vez, “é a economia, estúpido!”.

Para trás ficou Quelimane, onde a beleza das mulheres até magoa. Elas assim provando que a mistura das gentes é bela e faz belo. Nas esplanadas da cidade vou indagando como vivem as meninas que passam. Inquietação com estranho âmago, vejo-o agora. Esse de uma dor menor diante de uma prostituta não tão bela. Imoral moralismo! Que não, dizem-me, mesmo sendo ali porto isso não é mais generalizado do que noutros lugares por esse país todo, e quem sabe?, no mundo todo. Mas avisam, até cúmplices cutucando-me com a ironia, que muita rapariga procura um marido que a tire dali. Recordo o meu já antigo Primeiro Dia de Mafra, esses tempos de torna-soldado, com o longínquo aspirante Boieiro aos berros, qual vedeta de Hollywodd, apelando à nossa rusticidade, ameaçando-nos que entre nós os piores classificados iriam parar às ilhas “de onde virão casados”. E bem lembro o frémito de horror que percorreu o ainda informe pelotão, imaginando o casamento com uma açoriana.
É o mesmo, a troca do isolamento geográfico por outros isolamentos. Neste combate à lonjura, “é a estúpida economia” dos afectos, estúpido!

Gurué, verde montanhoso na falsa beleza da monocultura. Modernos rumores de futura indústria de capulanas bem nas nascentes do Licungo, logo imagino todas essas tintas navegando até ao Índico, dando de beber às gentes, colorindo a Província. “É a economia, estúpido!”. Avaria madrugadora, marcho durante horas provando o envelhecimento. Uma moto passa e há-de voltar já liberta da pendura, um jovem que me transportará para a cidade. À proposta de lhe “pagar o combustível” o jovem extensionista rural de Mocuba ri-se e diz-me “ó seu estúpido, nem tudo é economia”, prenunciando que um dia o hei-de safar algures. Obrigado Felix dos Santos, pela boleia e pelo alívio.

Por todos estes sítios se encontram europeus, aqui logo no quasi-patrícios, coisas da alvura da pele. Cooperantes, velhos cooperantes, ex-cooperantes, neo-cooperantes. Ali e acolá um comerciante, até um empresário. Tal como no sul toda essa gente vamos partilhando algumas garrafas e, nesse esvaziar, a opinião que a actual cooperação não ajuda o futuro do país, que algo tem de mudar, e é de veteranos esta arenga. Estarão eles enganados, tal como os moçambicanos que de o concordarem até já estão fartos de doadores? Sem respostas nestas noites distritais, lembro-me do meu pai, saudades talvez, e trunco as palavras que também são dele: “a democracia é o alcatrão e a electricidade!”.

Mas vai-se dizer isso, arriscar os empregos de expatriado ou os clientes de dolar no bolso? Deixar andar, “é a economia, estúpido!”.

Risonhos, vêm centenas de homens na estrada. Logo paramos e procuro saber do que se trata e do entusiasmado aglomerado ouço, espantado, um coro de “Maharishi”. Desde há alguns meses há por ali cerca de 1700 jovens que meditam 4 horas diárias em troco de 270 mil meticais mensais, meio ordenado mínimo nacional. Pasmo, que raio, receber para meditar! Meros resquícios cristãos, a noção de que o transcendente exige pagar ao intermediário com o(s) espírito(s). E porquê assim, porque não o contrário? De facto, “é a economia, estúpido”, como tirar os homens do trabalho, arrastá-los até este templo maticado de meditação, sem os compensar quando estão ali no limiar da economia de subsistência? Nesta curva de estrada lembro os que ainda agitam o ídilio de uma agricultura tradicional, coisa de “comunidade”. Pudessem esses ver aqui como ela, afinal, se desnaturaliza, tão claro é que todo este meditar em busca de novos equilíbrios mostra desiquilíbrios bem anteriores. E talvez tudo isto possibilite outros sincretismos, renovações, transformações, talvez. Por eles, coisas bem locais. Pois a mentalidade, essa “economia, estúpido”, coisas feias e bonitas, agradáveis ou não, está aí omnipresente. É deixá-la ir, e ainda bem que auto-meditada.

Tenho que partir, mas a vontade é quedar-me por lá! Fica a esperança no sucesso desta ideia. Repito-me, se aliada ao “alcatrão e electricidade”, parece bem mais promissora que tanto “desenvolvimento” semi-importado.

A norte, onde o Zambeze só dá o nome à província, o Alto Molocué, pequena vila dividida por este rio. Vizinho da pequena ponte o Fotógrafo Soares, “fotografia tipo B.I”. Não resisto, desço as escadas, minto-me de colega e peço para fotografar. O velho fotógrafo, com o caudal em casa, dá-se à imagem junto dos seus. Proponho que saia dali, é visível que as águas vão subir. Calmamente aponta umas frágeis canas, habitual limite do rio, e às quais decerto em breve este retornará pelo que não vê necessidade em partir. Respeito, mudo a conversa, responde-me que o negócio vai normal, mas que não chega para sonhar nova casa de tijolo. Ficará acompanhado da família, feita dique moral. De novo, “é a economia, estúpido!”.

A casa desabará meia hora depois, a água cobre a ponte. Lembro o padre e, aqui inútil, corro a cruzá-la rumo ao Maputo, à Inês. E à notícia da morte de C. Geffray, esse nada tão velho sábio. Fica este país, agora desprovido de longínquo e magoado saber, mais pobre. Porque nem tudo, estúpido, é economia.

(Quelimane/Maputo, Março 2001)



4. A NORTE, AS MANGUEIRAS


Lá a norte, mesmo no Cabo Delgado, as mangueiras estão já ajoujadas. Mas tarda a chuva, e disso tão temerosos estão os donos. Por isso apenas nós, os vindouros, as aliviamos dessas mangas assim de doença.




(Pemba, Dezembro 2003)


5. O APITO


À Augusta Coutinho, que me apresentou o Pereira

Vocês conhecem o Vicente Pereira? Está em Maputo há uns anos, veio como delegado da A.J. Costa Construções e depois passou para administrador da Construtora Mafrense e nessa altura, já com melhores condições, lá conseguiu convencer a mulher, a Piedade, a vir juntar-se-lhe acompanhada das duas filhas. Vivem aqui na Polana, ali à Rua da Argélia, numa vivenda geminada com um bonito jardim, aquele com a mafurreira na esquina, lindissima. É uma bela casa, aliás isso era condição para a mulher vir, que lá em Pero Pinheiro a família não está nada mal instalada, no género deles é certo. O Pereira é um tipo decente, algo casca grossa quando bebe o seu copo a mais mas tem boa fama na empresa, naquele jeito insulto enraivecido logo seguido da palmada nas costas, um bom fundo é isso, e assim conhecem-no um gajo justo, nunca ninguém disse que roubasse, e o trabalho vai sendo feito a contento. A apontar-lhe só isso mesmo, o ser um exaltado, um sanguíneo com o coração na boca, espero que não se venha a prejudicar por isso, este mundo não está nem para fraquezas nem para franquezas.

Conheci-o há uns tempos, num desses almoços de domingo em que por aqui se juntam os casais e desde então encontramo-nos para beber um copo ou visito-o quanto estou sozinho, e é melhor assim pois a Piedade fica mais à vontade no tu que partilho com o marido, ela finge que não mas faz cerimónia com a Inês, atrapalha-a a doutora. Gosto de lhes frequentar a casa, conversa simples em mesa farta, a rapaziada das construtoras tem sempre os nossos vinhos, o pior ainda são as bagaceiras lá da terra que se têm de beber senão é uma ofensa. É um bom ambiente, solto, uma família simpática que gosta de receber, mas não qualquer um, pois são gente arguta, aliás a mulher ainda o é mais, acho eu. As miúdas estão bem educadas e dão cor à casa, rondam os quinze anos e já devem andar por aí a partir uns corações. Não há dúvida, o Pereira é um tipo de família, vê-se no seu orgulho com os rebentos e no carinho bigodudo com que trata todo aquele harém. Terá a sua gaja de quando em vez mas isso não o distrai dos seus.

Na sexta-feira passada apanhou-me solteiro, a Inês tinha ido ao Chokwe nas cooperações, e muita questão fez em que eu fosse jantar lá a casa, um bacalhau trazido de Malelane, insistência à qual não me fiz rogado. Como convidados esperava o Vitorino, também sozinho pois a mulher está em Lisboa, o pai mal de saúde, e ainda o Abreu, sempre só ao jantar, este deixou a família em Lourosa e é por cá mouro de trabalho e de putas. Chegámos todos antes do dono da casa, o que não nos atrapalhou pois ali estamos todos à vontade, a Piedade lá serviu o meu gin e as cervejas deles, e logo encetou a sua conversa de mãe, desfilando os progressos do filho mais velho que ficou em Lisboa entregue aos avós e ao Técnico e o rosário de preocupações com os crimes que vão acontecendo na cidade, que a assustam mais por causa das suas raparigas, agora numa idade em que as não consegue reter em casa, aliás nessa mesma noite tinham ido para uma festa em casa de uma amiga, a filha do Borges, os quais confesso que não conheço, ao que parece ele é mais um desses bancários que por aqui vão abundando.

Nós a sossegá-la nos elogios às filhas e lá chegou o Pereira, a desculpar-se do atraso, mas eram as complicações de última hora, nem tempo havia para um banho, ainda insistimos que o fosse tomar, ninguém estava com pressas, mas nem pensar nisso, "lavo antes a alma com um whiskizito e pronto". E bem precisada de alguns afagos lhe estava ela, via-se nesse cansaço de sexta-feira feito exaustão em quem trabalha aos sábados, pois os prazos das construtoras não estão para grandes repousos. Era óbvio, não estava nos dias dele, logo começou por protestar a ausência das filhas, em surdina defendida pela mãe, e não tardou a despejar os problemas, esta nova lei de obras públicas que ensarilhou ainda mais a vida das empresas estrangeiras, mais as complicações no hotel que estão a construir e bem atrasado está, mas isto não acompanhei com detalhe porque estava na sala de jantar com a Piedade que me fica sempre bem fingir que ajudo as donas da casa, e era ainda uma série de material urgentissimo que primeiro se atrasou em Durban e agora nunca mais se conseguia desalfandegar. Aproveitando um breve silêncio ainda tentei mudar a disposição, a puxar a conversa para a bola, mas ali diante de três benfiquistas tão sofredores a conversa não pegou.

Estávamos nisto e ei-lo estancado, a protestar com os vizinhos, que barulheira aquela! Realmente à chegada eu também tinha reparado na algazarra que ia na casa ao lado, mas nem comentei o assunto, poderia parecer indelicado, nunca se sabe. Ora ele é que não se calou, "mas que raio", começou, "o que é que se passa?". A mulher foi-o acalmando, que deixasse, ainda nem nove horas eram, e numa sexta-feira, era só preciso um pouco de paciência. Mas paciência não é o forte do nosso amigo, em especial naquele dia, e aquela também me pareceu questão antiga da casa. Entretanto lá se compôs a coisa, aliás foi aqui a influência do doutor, eu próprio, pus a Dulce Pontes a cantar um bocadito mais alto que o normal, e para escorropichar o aperitivo brindei aos nossos sucessos e à boa converseta à mesa, que os vizinhos já se calariam e tanto os camarões como o vinho verde fresquinho nos esperavam: "vá lá, Vicente, para a mesa, ou queres matar à fome os convidados?", sabendo bem que quando lhe chego ao nome próprio ele se desvanece.

Mas à mesa, e apesar da competência do cozinheiro, logo voltou à baila o assunto vizinhança, o Abreu, imprudente, foi perguntar quem eram. Ao lado vive uma família moçambicana, o tipo é Director Nacional, parece que das estradas ou coisa assim, ninguém tinha confirmado, casado com a D. Felismina, senhora simpática e prestável, afiançou a Piedade. Nem são maus vizinhos, defendia ela temendo alguma tempestade, gente educada, o problema é o barulho que por vezes fazem, as portas que sempre batem, conversas mais noctívagas, a música nas noites de fim de semana, mas nada de muito grave. "E a barulheira nas manhãs de domingo", frisava o Pereira, isso sim grave, as únicas em que ele pode não madrugar. O pior é serem imensos, nem se sabe bem quantos, estas famílias enormes, "coisas desta gente que só um antropólogo é que compreende, não é assim ó doutor?", ainda lhe saíu uma ironia o que na altura até pareceu bom sinal, e nem se percebe como é que lá cabem todos, é o Director, mais os filhos e os seus velhos pais, mais dois ou três irmãos e cunhados e respectivas proles, e as visitas que vão e vêm. Enfim, uma confusão, e ainda por cima não é nada seguro, dificulta o controle, os guardas da casa confundidos com tanto movimento, sem saberem quem é quem.

Bem, o Abreu redimiu-se e teve artes de mudar de conversa, umas maledicências de patrícios, histórias mais ou menos picantes sobre um alentejano que por aí apareceu, essas cenas de import-export e quejandas, coisas de matrecos já dizemos nós, como se tivessemos gerações de África, incomodados com os recém-chegados. Mas súbito a gritaria aumentou, percebia-se "ai, ai, pai não nos faças isso", e pedidos parecidos. Acho que a dúvida foi de todos "querem ver que o Director está a dar porrada nas filhas?", "ou na mulher?". E aquilo continuava, "ai que eu morro, ai, ai", e então a Piedade afiançou que era a voz da D. Felismina, a esposa do Director. E surpresa ficou, pois o homem não é desses, pessoa tão calma, afável, nunca ela tinha ouvido tais histórias nas conversas de vizinhas ou de cozinha, mas também "hoje é sexta-feira, dia dos homens, querem ver que o gajo já está bêbado a estas horas?", e o Pereira então não estava a ser ilógico apesar dos desmentidos da mulher. Deu-me para apaziguador, ainda fui dizendo para se esquecer o assunto, a comida não estava nada má, e em breve os vizinhos se calariam até porque se havia discussão em família tão extensa alguém havia de por água na fervura, no que concordou o Vitorino com um “hé pá!, eles que são pretos que se entendam".

Acho que foi isso que rebentou o Pereira, "nem pensar nisso, estou farto disto, estes pretos não respeitam nada!". A Piedade, algo enfastiada com o tom, levantou-se para ver como estava o bacalhau "e peço ao Lucas para ir saber o que se passa", e foi o pior, que era o que faltava "estou em minha casa, e agora mando o cozinheiro resolver-me os problemas", e enquanto a mulher foi à cozinha ficou ele para ali a resfolegar, "foda-se que não aguento mais, estes gajos lixam-nos a vida, e nem em casa descanso....não, não vou jantar com esta barulheira, estou em minha casa, vou lá calá-los" e, súbito, arrancou danado em direcção aos vizinhos. A Piedade voltava da cozinha, com o Lucas cozinheiro atrás com o bacalhau entre mãos, ainda o chamou mas só ouviu um ameaçador "tá calada, não te metas nisto que é coisa de homens", e lá foi ele com a mulher no encalço num "ai meu Deus, espera ... que te desgraças" e nós, claro, abandonámos a mesa e seguimo-los, meio hesitantes, cá fora ainda vimos o Pereira, enérgico, a tirar o apito ao guarda enquando voava pela porta aberta dos vizinhos, seguido pela mulher. "Vai fazer merda" murmurou o Vitorino que o conhece bem melhor do que nós, de outras aventuras ainda em Portugal.

E aí corremos também nós, entrámos casa adentro, o guarda atrás, o Lucas também mas já sem o bacalhau, e ali deparámos com o Pereira bem plantado no meio da sala apinhada, dobrado sobre o apito, estridente, afogueado, com tudo o que tinha dentro dele a sair-se pelo silvo, impondo o silêncio alheio, e toda aquela família, ainda maior do que o imaginado, estupefacta a olhar para ele. E após aqueles longos segundos de apito, uma autêntica eternidade, saíu um silêncio compacto sobre a casa, e aí ouvimos a Piedade, ali de costas para nós, já dentro da sala, falando serenamente rodeada de dezenas de olhares petrificados: "D. Felismina, o meu marido está a apitar contra os maus espíritos. Sabe?, na nossa terra quando morre alguém apitamos sempre para os afastar", e aí lá se levantou com custo a dita, mamana mesmo, interrompendo o pranto com "ai, vizinha, muito obrigado, muito obrigado, vizinho", e o Pereira esgotado, hirto no meio da sala, olhando abismado para a Piedade, lívido, silencioso, apito na mão desmaiada, e a recém-viúva "não pare, não pare, continue, por favor, apite", ao que a Piedade, heróica, a sossegou pois "já não é preciso mais, minha amiga, já se apitou o suficiente, eles já partiram", "acha, acha mesmo?", ainda duvidou a boa senhora e a nossa comadre que pronto, "os nossos sentimentos, logo que soubemos viemos com estes amigos só para saudar", e que estávamos todos à disposição para o que fosse necessário, e a mão dela conduzindo as costas do marido para a saída, para onde seguimos acompanhados pela D. Felismina atravessando aquela cortina de gente espantada, e antes que a incredulidade se levantasse já estávamos na rua, no portão, a entrar em casa, e só aí a Piedade conseguiu articular, "vê se te acalmas homem, nem sempre hei-de estar atrás de ti", "mas porque raio é que não me avisaste antes" ainda foi ele resmungar, e nós nada, que não era connosco, "pois estava o Lucas, a acabar de me dizer que o Director morreu esta tarde, e tu a sair que nem o Diabo". Caramba, "foste apitar na sala do defunto"...

Ainda levou um tempo para que eu me lembrasse de fumar um cigarro e depois, sangue-frio do Lucas, passámos ao bacalhau já requentado, comido mas não saboreado ao som do carpir vizinho.

(Maputo, Setembro 2001)


6. MACANETA


Domingo de Macaneta, calor mesmo sério mas a tão necessária sombra das árvores está disponível o suficiente, que tão poucos usaram hoje o batelão para a vir concorrer. Torrar um pouco e ainda mais na água, um aqui raro mar chão que reforça o caldo salgado a disfrutar.

Depois o habitual almoço, para mim a garoupa ainda nova, espreguiçados de costas para o mar num bem defronte da foz do Inkomati, o horizonte do rio ainda curvo numa modorra toda brilhante, é imensa aquela calmaria à sombra a desmanchar-nos as atenções, uma quase sesta de delícias.

Na cabana ao lado uma meia dúzia de meus patrícios e suas senhoras, cinquentões já avançados eles não tanto elas, em meandros de avantajada patuscada. Gente do por cá, caras conhecidas, aquelas dos breves acenos quando cruzamos. Mas são tantos os seus comes que nem lhes resta tempo para irromper naquele nosso silêncio.

Súbito um deles impõe-se, mas em tom nada desiludido, até nós chega um vibrante “Não há dúvida, os melhores frangos são os da Guia ...os melhores frangos do mundo”, repete-se no enfatizar, e ainda que logo de todos receba uma muda anuência insiste, não vão restar dúvidas em algum incréu, em que "não há nada como os frangos do Teodósio, o Teodósio do Rei dos Frangos", uma intimidade de nome próprio que o prova por lá cliente assíduo, e até voraz, pois culmina no anunciar que “chego a comer dois frangos”.

Surpreendo-me a sorrir, tanto frango até me despertou a sonolência, que raio de sentir, ali bem no Inkomati, ainda résteas de mangal, e tudo tão luzidio no nosso defronte, e o homem a regressar à Guia, num não sair lá de casa. Também à Inês não lhe escapa enquanto ri baixinho um “esta é deliciosa...regista-a para as tuas tralhas..”. Sim, lembro-a, mas afinal sem qualquer malícia, eram-lhe apenas as saudades, coisas de todos nós. Ali no Inkomati as saudades da churrascaria do tal teodósio...a cada um o seu mundo próprio.

E, pensando bem, devem ser mesmo bons os tais frangos. Só podem mesmo ser.



(Maputo, Março 2004)


7. NATAL EM PEMBA


Custa dizê-lo assim, mas há já dez anos, acertam-se hoje, Coetzee, bom homem e cristão desses de me achar ali sozinho, pois no dito “mato” entre “eles”, carregou-me à aurora para aqueles quase 300 kms até aqui, cidade praia, praia cidade, então talvez o encanto do quase abandono visto modorra.

Neguei-me pouco e vim, uma sede feita de saudades de geleira, nem foi o fastio de xima e conservas, e tanta essa sede que nem me discuti de onde lhe vinha aquele “sozinho”. E depois aqui mesa farta de natais deslocados, desconhecidos em acidente de encontros, fingimentos de natal, fingimentos de família, mas nisso tudo muito verdadeira a alegria. E também patrício, dizendo-se regressado e assim afinal daqui, mas pouco pouco, que lhe está esse pouco nos trejeitos, e talvez por isso em ares de força, e até amuo, por coisas de saia vizinha, coisa pouco-natal, evitei eu, pois se nunca desse modo quanto mais no aqui e agora de então, evitei eu e também a dona. Natal tempos de rodar assim.

Natal de empapar, e isso lembro. Noite de ir longe, de imortal ainda, até surpresa o sem-fundo, aquele caminho todo. Noite em tempo de construir modos, esse constante “to jump”na fala, deixá-la em pinotes, em abruptos passos, sem dó da aflição alheia, do sem-saber como ali vizinho, coisas do não (me) deixar certezas, do nunca hesitar. Noite natal nessas noites do sem medo e do sem dono.

Nisso tudo noite de Natal, meia-noite, de saltar correndo para o quase-sopa, assustando o banhista vizinho, este clamando-se aflito de mim, que noite de natal, meia-noite, mas ali pescador em faina de redes. Noite assim, afinal, de não-natal.



(Maputo, Dezembro 2004)



8. UMA CERVEJA NO PIRIPIRI


A lembrar o meu irmão Artur

A gastar mais uma tarde sento-me no inabalável Piri-Piri, a vendedora de castanha traz-me o prato suficiente, vem a Amstel habitual para o dr. Texeira, o sol bonito de Dezembro a despedir-se por hoje, aqueles livros que percorro legitimando a preguiça e de cujas páginas nada recordarei quando chegado a casa. Vazias estão ainda as mesas, à minha direita dois clientes palradores vão invectivando as muitas belezas que passam, à esquerda outros dois, estes apenas entre eles. Como sempre vou-me deixando perder no crescente bulício do fim do dia, hora de todos saírem para a vida, verdadeira ou falsa já é assunto de cada um.

Brusco irrompe um tiro, fugaz como é sua natureza, surpreendendo o barulho da avenida. Balanço com o estampido, como se fosse o próprio alvo. Depois, com algum vagar julgo eu, levanto-me para confirmar o ocorrido e mesmo defronte, do outro lado da rua, no meio da venda de batiks, ainda vejo o fumo da arma. Um silêncio esbateu-se sobre a avenida, por ora parecendo parada. Algo incrédulo interrogo-me à direita para os agora mudo palradores ”isto foi um tiro, não foi?”, e eles só acenos, que se lhes secou a verve, então repito-me para a esquerda, aí patrícios de olhos abertos e circulantes, e “hé pá, sim...foi um tiro, se calhar é melhor sentar-se...”, pois só eu estou em pé.

Entretanto lá vai surgindo um par de polícias, correndo bem devagar para a ocorrência, de onde vendedores e arrumadores não arredaram, e alguns guardas de chamboco caído também se aproximam. Tudo isto sem qualquer pressa pois o assunto há-de ser conversado durante algum tempo, e não se chegando a qualquer exactidão sobre o acontecido tudo findará assim mesmo, o que não deixa de estar certo pois o atirador há muito que partiu e ninguém foi atingido.

Nisto o empregado já se arrisca à esplanada, mas diz-me que de nada se apercebeu, não vá a confirmação que lhe peço ser de mau agoiro. Face ao seu silêncio resta-me ironizar para os patrícios, “hé pá, isto é desagradável, ainda se morre na esplanada!”. E, que fazer?, remato num encolher de ombros verbal, “Olhe, traga-me mais uma Amstel...e amendoins”, e fico-me, nem sequer a remoer.

Só depois, e talvez porque a nova cerveja me refresca, é que me apercebo que não é natural toda esta minha indiferença. E para mais com estes recentes assaltos a gente conhecida, alguns agora mortos, outros para sempre aleijados, e outros ainda, sorte sua, apenas de bolsa aliviada. Deixo-me então a resmungar entredentes, e com os impropérios alumia-se-me a memória.

De súbito sinto que cheguei a Moçambique há já muitos anos, tantos que percebo agora não ter sido só eu que encaneci anafado ao lado da Inês, zangas tão passadas que agora até aí vem uma nova alguém, e que é tão bem-vinda. Nisso fui mudando, para além dos dolares no banco, que nem tantos assim, também nas andanças, nas gentes conhecidas e até nalguns patrícios que sofri. Mas, e só hoje reparo, também o anfitrião envelheceu, e apenas por distracção isso me pode surpreender.

Quando cá cheguei os tempos eram outros, uma jovem paz a caminho de eleições. Mas era ainda um país violento para o recém-chegado, a pouco perceber apesar dos olhos bem abertos. Nessa altura aboletei-me numa casa sita na avenida lenine, toponímia que recebi com um sorriso aberto cuja ironia aumenta hoje, habitando há anos uma outra resistente, a engels. Esperando partir rumo a um Norte para mim totalmente desconhecido passei as primeiras noites ouvindo sucessivas rajadas de tiros mesmo ali em baixo.

Nesse tempo as metralhadoras eram usadas pela polícia, instalada nas suas barreiras ali defronte, entre os nossos prédios e o chamado "complexo dos russos", um enorme bunker-sobrevivência que também me fazia sorrir. Todas as noites mal começavam os disparos o meu irmão, que entretanto também mudou com o tempo, morreu-se, lá se postava na varanda a observar os eventos na minha companhia, comentando os despistes, as prisões, os espancamentos, com a calmaria de quem tinha visto muito mar e muita terra. Eu ia fumando, postado ali a seu lado e montando o ar de irmão mais novo, é certo, mas também com alguma estrada atrás de mim.

Para os dias, e como estrangeiro em terra estranha, procurei o melhor balcão da cidade, onde sempre se conhecem as pessoas que se devem conhecer. Aquele que me indicaram foi este mesmo, o do Piri-Piri, restaurante esplanada ao cruzamento das avenidas ricas, o qual não só surgia como instituição local mas também brilhava na ausência de uma verdadeira concorrência. Porque mesmo se então a cidade fervilhava de estrangeiros instruindo a paz, a sensação era de que o dinheiro não abundava, tanto escasseavam os sítios onde o gastar.

Essa foi uma época em que eu era andarilho e caminhava as longas avenidas para terminar os dias entremeando cerveja e castanha, deixando-me meter conversa para que me explicassem onde estava, sem recurso a investigadores ou livros. Depois regressava a casa, sempre evitando o anoitecer, não por causa do que me diziam de indizíveis perigos pois para isso bastava-me o que ia vendo do alto do décimo andar. Foram esses cuidados que me impediram de assistir ao célebre assalto ao Piri-Piri, acontecimento que correu mundo e que veio a entrar na mitologia da cidade. Num final da tarde, que aqui é já o princípio da noite, coisas da geografia, irrompeu um bando aos tiros pelo restaurante, ataque com toque de "western", ferindo assim uma boa meia dúzia de clientes e matando dois, um dos quais refugiado atrás do já citado balcão. Caixa roubada, e pobre colheita ao que constou, puseram-se os assaltantes em fuga, deixando a cidade em polvorosa, que isto das zonas burguesas serem atacadas amplifica sempre, e muito, o ruído, ainda para mais quando há baixas estrangeiras entre os consumidores.

Lembro agora a minha apreensão nesses momentos, ainda assim muito relativa. Havia alturas em que resmungava desiludidas conjecturas sobre o quão acolhedor deveria ser o meu destino, lá no mato, sendo a zona nobre da capital assim tão animada. Mas o mais das vezes ficava-me descansado, não por qualquer laivo de inconsciência, mas é certo que um tipo dos Olivais vai sempre relativizando a violência a que assiste, ainda para mais nessa época, saído da agitação de Hillbroad, das matanças no Bophuthatswana, e de viver o absurdo na queda de Gkozo, lá pelo Ciskei. Um encolher de ombros de neófito armado em veterano, um "são cenas de África...", e estava tudo dito, alguns cuidados e toca a andar.

De qualquer modo não estava imune à excitação, tiros são tiros, mortos são mortos, e assim tudo tão evidente não deixava de me ser novidade. E havia mais! Corria que, fora do alcance dos meus olhos, nos “bairros de caniço”, que é como aqui as gentes da baía chamam à cidade de Maputo, também aumentavam os crimes. Aí, diziam-me e nunca o confirmei, a própria população tinha organizado eficazes esquemas de vigilância e justiça. Com um para mim surpreendente relativismo moral, nacionais e estrangeiros anuíam na competência da “técnica do pneu”, que por lá amíude ia sendo executada, pois o flagrante delito até o ordálio dispensava.

Mas o que mesmo me surpreendia era a azáfama com que família e desconhecidos comentavam tais assuntos, pois se saídos de uma guerra civil pensava-os mais habituados a semelhantes episódios. Querendo-me analítico, ia matutando que por mais terrível que tivesse sido a guerra esta cidade intra-muros tinha passado algo incólume, pelo menos esta gente com que me cruzava, que por aqui as geografias sociais são bem mais delimitadas do que na minha terra. Decerto por isso tanto estranhariam todos aqueles tiroteios.

Aqui e ali todos coincidiam nas explicações para tais desabituais acontecimentos. Às barreiras policiais viam-nas como procurando guerrilheiros infiltrados com suas armas, prontos para a sublevação pós-eleitoral. E era desses mesmos que provinha o crime dos “bairros”, dessa gente do mato ignorante da vida industriosa das urbes, então aqui deslocados e procurando sobreviver pela pilhagem própria à guerra. Mas, e recordavam-mo, essa bandidagem tinha ainda uma agenda política como bem o mostrava o assalto às zonas ricas, a de destabilizar a capital, fazer descrer na paz e no germinar da democracia. Sabendo-me das antropologias, alguns afirmavam as divisões étnicas, seculares conflitos agora irmanados na cidade. E sempre alguém lembrava o regresso dos soldados, desmobilizados ainda sem nada, traumatizados quantas vezes, habituados a anos de receber ou tirar, e tantos deles “tratados” para nada recear, todas essas vacinas imortalizantes.

Assim sendo, naqueles dias eu estaria a assistir ao estertor final da guerra. Às dores de parto de um país pacífico e democrático misturadas com a ânsia nervosa face às eleições das quais era o país virgem, verdadeiro e assustador rito de iniciação. Tudo o que então se passava, toda a excitação que o rodeava era política. A política tudo explicava!

Em breve lá segui para Norte, para um mundo feito por uma gente pacífica tão pobre como dizem que diz a Bíblia, a viver das sua pequena machamba, feliz com uma paz que não encerra nem rapinas nem minas, e que a deixa ir até à estrada comerciar o tão pouco que tem. E face a isso logo esqueci sem mais dúvidas todas aquelas citadinas questões.

De curva em curva, eis-me agora aqui. Nestes anos fui assistindo a alguns assaltos, mas onde os não há? Fui gozando uma pacífica cidade, sem muito me interrogar, burguês na calmaria do meu bem-bom. Por isso de repente, enquanto pago a conta, reparo no envelhecimento do meu caro anfitrião, de novo violento, tiroteios desabridos na própria rua, mas agora sem motivos políticos, atávicos tribalismos ou quejandas respostas, nada que fale do futuro do país.

Apenas ladroagem, criminosa, assassina. O conflito seco e duro do “dá cá” - mais irracional e inesperado do que qualquer outro. E velho como o mundo.

Hoje janto mal. E penso em Mavalane.


(Maputo, Dezembro 2001)




9. UM VELHO


Ao Sérgio e à Isa, a agradecer o caminho

Lá perto de Boane, naquele cruzamento sede de dumba-nengue, estanco diante de um camião ali em lenta inversão de marcha, na berma da estrada um velho instruindo a manobra, complicada pela abundância pobre das bancas serpenteantes. Aproveito e peço-lhe a confirmação "por favor, o caminho para a Ponta do Ouro é por aqui?", que não quero perder-me por areais desconhecidos de quem usa o avião a apressar o fim de semana.

Que "Sim", responde-me o velho, alongando o braço bem para longe "é ir a direito até ao cruzamento e então virar à esquerda, não há que enganar, lá há-de ver que depois é só continuar sempre mais em frente", e haveremos de chegar. Sei também que, bem mais a sul, algures terei que acompanhar o rumo dos postes de electricidade mas isso já não lho pergunto, ainda estamos longe e decerto que por lá outrém mo indicará, de modo que eu não venha a confundir.

Agradecimento cumprido aproveito a pausa do ponto-morto para acender mais um cigarro, mas eis que o velho torna, um passo atrás, nenhuma entoação especial, apenas para melhor esclarecimento, "filho, é seguir em frente, mas não é para virar na primeira à esquerda, é só na segunda, na estrada de alcatrão", e torna a partir, abandonando um breve aceno.

Esfumaço e sinto-me a sorrir, a reparar naquele tão normal que nem se ostenta, ali nem sorrateiro nem explícito neste “filho” tão tipo mas neutral. Sem esse “patrão” urbano ou a sua sequela “chefe”, nem tão pouco esse ”branco” mais rural e que nunca percebemos se substantivo se adjectivo desqualificativo. Ou esse “pai” ou até “papá” quase cantado, esse mesmo como se de simulacro de carinho se tratasse, que os velhos do mato têm para me oferecer, tão desajustados do invertidos que surgem. Mas agora, aqui, apenas, muito apenas, a minha idade do “filho” que me põe no meu lugar (por enquanto, por enquanto, que o tempo está a voar...), digna de natural que é.

Posso agora partir, todo atrevido no meu fór bai fór, e o velho, terminada a manobra do camião decerto lá irá caminhando para Boane, que isso não está ali a contar entre nós. Como nunca deveria contar.

Para o meu lado comento um "reparaste?", e que sim, "tão raro, não é?", diz a Inês. Tão raro que tanto tempo passado, e já bem conhecido o caminho da praia, ainda me lembro do pequeno episódio.



(Ponta do Ouro, Setembro 2001)



10. UM SÍMIO EM CALÇÕES


Ao Zandamela, já ido e que então lhe achou ritmo

Após o jantar uma ida nocturna à farmácia, ali à da Clínica Cruz Azul em plena Baixa de Maputo, qualquer coisa que a Inês se esqueceu de levantar, felizmente nada de grave, uns achaques triviais. Mas já estava fechada, desde as 8 horas, a ver se não me esqueço para não repetir. Percorro então, acima e abaixo, a Karl Marx em busca de uma farmácia de serviço mas hoje não é o dia destas. Avanço para a vizinha Samora Machel, à farmácia Tunduro, aquela entre a Cervejaria Galé e o célebre Scala, mas também a esta encontro fechada. Já perdi tanto tempo nestas andanças que paro e vou à montra ver a escala de serviço, apesar de ser noite e Baixa, que também não se devem exagerar os perigos, já por cá estou há tempo suficiente para me deixar acreditar nisso.

Mas nem percebo bem qual é a farmácia que está de serviço, reparo que não estou certo da data d’hoje, que tonto, ou envelheço?. Regresso ao carro e, bolas, ali plantado à porta um tipo, maior do que eu, entre o pedinte e o ameaçador, já percebi que não me quer dar o espaço todo para entrar pois postou-se de modo a que eu, no esgueirar-me lá para dentro, lhe terei que dar as costas. Então se é assim, e ainda ele não disse nada, já lhe estou a empurrar um “sai lá daqui pá” no estômago, mas ele afinal não é de meias medidas e saca a naifa. Passo-me, mas passo-me mesmo!, empurro-o outra vez, filho da puta, a porta do carro, entretanto já aberta, quase nos separa o suficiente para que com o meu passo atrás ganhe eu tempo e espaço. Com a irritação tiro o cinto, que lhe hei-de foder as trombas, grande cabrão, a sacar-me de uma faca, quem julga ele que é, mas... estúpido, gordo, a noite estava tão boa (agora mudou, claro) que estou para aqui de calções, e como estes vão já apertados estou sem cinto, dizem-me ambas as mãos, ali apalpando em vão e logo irritadas com o dono.

Recuo mais um pouco, até ao para-choques, e arranco numa saraivada de insultos, que nenhum dos seus antepassados, mesmo os que ele nem imaginava ter, se safa. E grito, grito-lhe os impropérios, ele estancado, indeciso, para ali a olhar para mim, a naifa também parada na mão, os molwenes no meio da avenida calados, e parece que dele pouco cúmplices. No passeio, rente às escuras montras vem subindo um pequeno homem, num modesto mas digno fato e gravata de funcionário, o qual sem se afastar muito da parede lá participa com um “deixa lá o homem, que chatice, deixa lá o homem”. Eu, enquanto isso continuo a vociferar tudo o que ali me vem à cabeça, mas é este socorro subtil também feito espelho que mo faz compreender, sou ali um símio em calções aos urros e pulos, aflito, esbracejando, passo à frente passo atrás, diante da fera, até a assustar. Esta, constrangida, avalia que já perdeu o momento do salto e cede às arrecuas, devagar, enquanto se rejuvenesce como que por magia a querer-se menino de rua, num “só estou a pedir mil” esganiçado e agora surpreendente, enquanto a arma lhe desliza para o bolso, isso sim acriançando-o em definitivo.

É tal a raiva que saio dali directo, rugindo ainda, mais até do que o escape de competição deste Kia “Champ” da Inês, à esquadra vizinha, lá no Museu da Moeda, onde de rajada arrasto do descanso um carro patrulha que faço atravessar a rua em busca do faquista. Aí regressado, agora escoltado, ainda vejo o “angolano”, como lhe irão chamar os molwenes, a escapar-se pelas ruínas, já monumento, do Prédio Pott. Pronto, nada mais posso fazer, estou para ali a destilar o fel mas também a marcar pontos, lembrar-se-ão do branco de barbas, carro CD, que se chateia a sério. Ganhar espaço, acho eu, se calhar certo, se calhar errado. O polícia concorda, num “o senhor já pode ir para a casa”, vai-me reformando, ele conhece o assaltante, hão-de persegui-lo mas o pior, e lamenta-se, é serem menores todos estes ladrões, mal são presos logo algum juíz os liberta. Mas que volte eu no dia seguinte, a ver em que é que deu tudo isto.

Passam dois ou três dias, e de manhã manhã, antes das aulas um duplo café ali no Nautilus, a ver se os bacharéis adormecem menos ao meu rame-rame. E saio rápido, a pressa daquela hora, mas já é sina minha, ou será da cor, lá me vem um gajo chatear, “dá-me dinheiro, hoje vais dar-me dinheiro”, a história de sempre, que me está a guardar o carro, moedas que mais não são do que a portagem de utilizar um bocado da rua que ele decidiu ser seu. Eu não dou, continuo contra a privatização da terra. Mas este já vem aviado, a empurrar-me até ao “tá quieto, pá, não me chateies”, que não o convence, eu ali à mercê dos perdigotos do sacana, a bêbedo não cheira, e aquela hora também seria difícil, o cambalear excitado parece-me o de outras andanças, mas nem vou perder tempo a medir-lhe as pupilas, que seja “herói por um dia” até ao dia em que rebente, desde que não me chateie. Mas hoje decidiu fazê-lo, agarra-me, largo-me, segura-me a porta, ameaçador no “dá-me dinheiro!, vais ver!, dá-me dinheiro!”, e em fechando-lhe eu o carro, põe-se aos murros à chapa e ao vidro. E fá-lo também escorado no seu grupo, todo ele sorrindo ali na esquina, como sempre.

Que raio de começo de dia. E ainda para mais à porta de casa, aqui é o meu terreno de pasto do todos os dias, ladeando a família. E é mesmo por esta que isto não vai ficar assim, saio dali mais uma vez para a esquadra, aquela vizinha ao fundo da Nyerere. Pois já que me acordam as noites com os gritos dos presos, da porrada que lhes dão, que me aturem agora. E aí, enquanto chamam alguém para me acompanhar, lá me vão desabafando de novo que não vale a pena, prendem-nos e são menores, no outro dia serão soltos pelo juíz. Tenho que confessar, quando me dá estas raivas, caem-me as sociologias todas, estou-me um bocado nas tintas para as desgraças alheias, e o abandono das crianças, e a falência da família, e a crise económica, e a globalização, etc. e tal, tudo isso que põe os putos na rua a roubar e a matar. E por isso estão os polícias ali a carpir, e eu a interromper, cruzamos lamentos, tudo bem mas já fui assaltado cinco vezes, e dá-me para reagir, sei lá é o meu mau feitio, que assim a frio bem sei que se deve dar tudo, impensável resistir, e seguir como se nada fosse, e por este andar um dia destes ainda um há cabrão que me fila, e lá se vai um antropólogo, até liberal, até crítico, até já foi de esquerda, mas nesse dia hão-de-se estar cagando nisso. Bem, este choradinho todo não lhes fiz eu, mas insisto no que é que posso fazer?, assim a sublinhar a impotência do pobre cidadão, a ver se lhes acicato o ânimo, estúpido, nem a pergunta tem resposta, nem me parece que os ânimos deles precisem de grande acicate, a julgar pelas histórias que se contam e pelos berros nas traseiras lá de casa.

Aí, um dos agentes para, calmo, até amistoso, e corta-me a verve num “há muita gente por aí que já comprou uma destas” e vai apontando a pistola, ali descansando na mesa da entrada. Eu sinto os olhos a arquear, os meus claro, e sai-me com um meio sorriso “Hé!, isso não, não vou dar um tiro em alguém por causa de uma carteira”, mas com isto num instante passei de indignado a displicente, percebo-o, e ele também. Talvez por isso sinto que tenho de me justificar, que quem usa arma deve estar pronto para matar, nunca só para assustar, como se ele que vive com uma no cinto não o soubesse, e que para tal não estou disposto. Ele encolhe os ombros e remata “olhe, há muita gente que pensa diferente”.

Bem, eles lá saem atrás e eu, boleia dada, sigo à minha vida. Ao volante. A repetir-me, como se fosse para outros, que um polícia, com a naturalidade do assim como quem não quer a coisa, me aconselha a arranjar uma arma para que me defenda eu próprio e aos meus. Já vou mais calmo, claro, o breve Índico à direita também ajuda, e tudo isso puxa-me o literato, que nesta manhã sai-me na forma do “que faço eu aqui?” de poeta, que isto assim também é demais, resmungo ainda.

E lembro-me do meu irmão, dobrado o Cabo de Cinquenta, comandante aqui convertido à cabotagem de terra, conforme o dia saía-lhe irónico ou triste o sorriso à conversa do regresso a Portugal, e assim a deixar-se por cá rebentar de porão em porão. E, já com ele, transformo a poetice matutina num “que farei eu aí?”. Pois podem estas picadas estar em mau estado, bem embrenhadas, que sempre iludem em deixar-se andar, nem que seja com a tal catana na mão, desbastando-as.

E aula.



(Maputo, Dezembro 2002)



11. A ÁRVORE E O LIXO


Vai resmungando a colega, verve imparável, inapelável, jorra-se-lhe a alma desiludida a transformar a curta boleia em bíblico lamento sobre o seu país, maldizendo-lhe passado recente e destino, parece-lhe eterno este último. Não há dúvida, distraio-me eu, o mundo tal e qual vai sendo arrasta-lhe o ânimo e nessa solidão assim construída quer-me a ela algemado neste agora, procura anoitecer-me este sol de meio-dia que ali me inunda, reflectido na baía, essa meu constante horizonte.

Falhou-lhe o futuro, afinal, a ela e a tantos outros, esses que tanto e tudo almejaram. Conheço-lhes a maldição, também mo aconteceu mas, modesto, disso as causas e culpas aceito-as só minhas, pois curtos eram os sonhos, que arquitecto de futuros ou engenheiro de presentes nunca me imaginei.

E enquanto vai ela remoendo, justificando-se até, olho o mar recortado em acácias, por ora tão vermelhas, belas ainda que também abandonados depósitos deste lixo sempre esquecido. E, ápice de inspiração, salvo-me da solidariedade que ali me é exigida num mero, e até cansado, “ouça, sou estrangeiro, só cá estou porque quero”, e como me riposta apelando ainda assim a um olhar crítico sublinho-me, acompanhando-me num apontar o ali tão à frente, em “ouça, sou estrangeiro, eu olho a árvore, você olha o lixo” que se quer, e torna, definitivo.

E cada um foi ao seu almoço.


(Maputo, Novembro 2003)



12. O GUIAR


O guiar longo tem isto, o deixar-me pensar livre e rápido mas consistente, ao ritmo do motor. Um pensar atalhos imprevistos, picadas daquelas rudes, semi-destinos ali abruptos, em rectas ou curvas atrevimentos tantas vezes e, sem que eu o queira, até derrapagens ditas maus feitios. E que nunca se me rebente um pneu no entretanto...

Neste quase ontem, a terminar semana sem mais, num ir até longe dei-me conta de mim guiando nessa via dos quase amigos do hoje em dia, coisas caminhos mais acontecidas a quem se viajou, assim deixado distante dos cúmplices lá do quando jovem, essa gente amigos que, ainda que nos custe, podem cansar, até afligir de idade, e assim aborrecer, mas nunca trair, como poderiam...? se tão verdadeiros do antigos que ficámos.

São estas as coisas de quem, aqui e ali, reconfortou ontens em mesas alheias, as do come mas mais as do bebe, deixando-se demorar um pouco naquelas sentadas por quem par vai (a)parecendo, afinal talvez apenas porque vindo lá de onde viemos. E só depois lembrar, se calhar aprender, que origem não é sítio, nada disso, e nem sequer o olhar limpo o é, nestes tempos de tanta lente escondendo o mesmo mesmo.

Assim, indo nestas memórias péssimas estradas, sinto-me a cair nas covas, direcção até empenada, pneus já derrapados, óleos desperdiçados, travões pouco-pouco, uma agilidade esquecida. Tudo isso no saber esta paisagem, a de que afinal dos “nossos” não estão só aqueles dos melhores. Parecer-lhe-á o caminho tão difícil, daí o tanto medo que não chegue o quinhão de estrada que lhes coube? Ou talvez vão mesmo só com o outro medo, o medo que o “dono”, lá no caminho, nem a todos venda o diesel, racionando-o, preterindo-os no adivinhando-lhes o afã.

São estas as avarias para as quais não há seguro, e que o houvesse, pois decerto seria então a franquia demasiado elevada. Destas têm-me sucedido no ano a ano. Minha pura distracção ou as artérias já rijas a demorarem reacções? estupidificado eu ou já no quase-doença, aquela do final ali, já ferro-velho? Pois como explicar este assim, tantos anos de carta e tão iludido na estrada?

Paro no caminho, em Malelane que é quase lá. Um novo Rothmans exigido e, já agora, o café de malga em casa de madeirenses e, ainda, o jornal “lá de cima”, novas do jone e do mundo mais vasto visto por olhos mais abertos. Tudo isso ali no escaparate ladeado de revista tão colorida, essa National Geographic da minha juventude, esta (sinal dos tempos) número de geografia cósmica, um especial astronomia. Logo, menino, lhe cobiço tanta cor, tanta galáxia chegada agora, e nem hesito, trago tudo aquilo para a minha mesa onde me deixo distrair, gole a gole página a página mergulho nas estrelas, de imediato regressando-me a um tão novo.

Tenho ainda que voltar à estrada, aquele trecho final. Chego-me ao carro, este musso já velho, meu burro de Sancho Pança, nem mais. E, então, mas só então, sorrio ao que trazia na bagageira, todas estas mossas, todos os riscos, mesmo as peças já ausentes, afinal tão pequenos tudo isso. Caminhos de nada, todos nós. Tão mesmo que só merecemos sorriso, para quê algo mais sob este céu?, ainda para mais o céu hoje que me ficou tão mais perto, em tantas fotos tantas cores. Todas elas assim a nadearem aqueles medos alheios, gente perdida no bulício.

Sigo. Em estrada muito melhor.




(Maputo, Maio 2004)



13. PROVÉRBIO


Quem tem heranças tem temperanças.



(Maputo, 2004)


14. AS CORES NA VÉSPERA DO ECLIPSE


É o que acontece ao viver em país iluminado não só por todas estas cores tropicais mas ainda por poderosos espíritos, segundo os bardos locais, ou por relapsos deuses, a acreditar no real. Pois só em tais paragens um eclipse solar determinaria dia feriado para colectiva homenagem aos astros intercalados.

Nessa véspera abandono-me em esplanada dos escritores onde me surpreendem com louvores a lowrys e celines, algo que por aqui nunca tinha escutado. Loas logo partilhadas e que estendemos nas cervejas, que tais assuntos puxam a sede, a minha e a dos presentes literatos, desses que a voz burguesa vem resmungando de incoerentes. Pois também aqui, como por todo o lado, a incoerência é sentida como se falsidade fosse.

Entre bebidas havemos de evoluir, que as palavras são como as castanhas de cajú e a lógica um enigma, da celinada para as vantagens da circuncisão, apenas aparente paradoxo, que aqui se trata da bantu e não tanto da judaica! É-me deliciosa a veemência com que alguns de imediato afrontam e vituperam esse prepúcio que deixaram na tenra infância. Mas logo, sábio, o mais velho desvaloriza a questão, numa bela lição sobre diferenças entre as gentes que sigo e aplaudo, aliviado na minha dupla condição de antropólogo não circuncisado.

Assunto rematado e continuando tão díspar conversar posso enfim decifrar os meus desaires profissionais. Confessa um poeta vagabundo ter encomendado trabalho feiticeiro contra mim, apenas por despeito, di-lo agora, alguma irritabilidade minha o terá ferido. E assim impiedoso ceifou as minhas ambições, tão fracas que cederam às imprecações. De média mac mahon em média 2M sabê-lo-ei arrependido de tal acção, o que creio sincero pois a conta não está a meu cargo. Hoje, aliás ultimamente, vai dizendo que sou um preto branco, "este texeira", diz já ébrio, "enganou-nos, branco preto". O mesmo mais velho, o da mesa e das letras locais, repete a sua autoridade resmungando o desinteresse destes argumentos coloridos. Vozes afirmam-no, repito-me, incoerente. Pois não é por essas que o deixarei de saudar, entrecruzando-nos cervejas quando fazemos calhar.

Já noite parto, algo atrasado e um pouco turvo, para um repasto português, eis uma bela patrícia a aniversariar, ocasião festiva para juntar um pequeno Portugal local. Um mundo burguês que aqui vive fechado, cercado e cerceado, gente num país que nem se lhes abre nem tão pouco fazem abrir. Casais deslocados e uns poucos solitários sempre suspeitos, convívios cruzados tecendo amizades frágeis ao canibalismo da crítica, esse tão próprio à clausura. Pois se é certo que de traços diferentes se faz o mundo bem difícil se torna reencontrá-los no entre nós, aqui aparentes tão iguais nesta distância de casa. E tanto assim o é que logo em mútuos maldizeres nos cruzamos, enquanto não se chega aos actos mesmo, crendo que todo esse fel possa ser o cimento das muito desejadas (e retemperadoras) hierarquias, tão confusas ficam estas desde a passagem do Equador, sempre promotor como o é este, se cruzado na direcção correcta.

Lá chego "a mais a minha senhora", e logo justifico a mesa bem de canto que me é destinada dando boçais pares de beijos, castos e cândidos é certo, nas faces das senhoras presentes, aquelas que se querem, e dizem, habituadas a um único e esquivo roçar. Pois por cá, como na mãe pátria, não é fino quem o diz mas sim quem é parco em beijoquices, e não estou para aqui a falar em quenturas noctívagas. E lá ficamos com os que então julgamos nossos à mesa, também nós ancorados nesta nossa pequena diferença. Gauchisme...incoerência nossa?

Rezam as crónicas que a burguesia colonial bebia e bem, fazemos nós os possíveis por honrar os antepassados, e nisso sim, apenas nisso, refazendo um lusófono Império. E deste modo, em esplanada bem menos celiniana que a anterior, mas nem por isso menos lowriana, arrasta-se dignamente o aniversário até à madrugada. Deixam-me aí exercer a verve, corrosão liberta pelos líquidos que a cruzam, até se me toldar a língua, equivalente pouco canoro da dor de voz, eclipse sonoro pouco notado pelos presentes, uma indiferença que não deixa de me ferir.

Avançamos então até à Bagamoyo, a Rua Araújo como teimam cúmplices os boémios de todas as gerações, eu acompanhando um casal desavindo, acicatado nas garrafas havidas. Acotovelamo-nos na antecâmara de dançaria, mas logo cedemos ao ímpeto de um cabeça rapada na sua urgência do ruído frenético. Meio cavalheiro, meio maçado, mas nada prudente, oponho-lhe o braço embrulhando o protesto. Certo de que na noite todos os gatos são pardos esqueço-me minoria étnica, logo mo lembra um redondo "vai para o caralho, ó filho da puta", lembrança que acompanha a de estar eu bem velho para violências nocturnas, se é que há idade para isso, sempre elas me pareceram meras paixões frustradas, quando não erecções incometidas.

Mas enquanto penso isso são os milhares de anos de mediterrâneo que brotam, essa cultura marialva do não virar a cara, e é ela que responde "vai tu!, tem calma e espera como os outros". Não será o tom, é mais a minha cor que o ofende, este não é poeta vagabundo di-lo o comprido "ó branco filho da puta, eu mato-te já, já viram este branco de merda, filho da puta, eu mato este branco!", assim não só rude mas a colectar apoio geral. Caramba, não tenho mesmo idade e paciência para isto, "ó pá, se tens uma arma dispara, senão vai à merda e cala-te" a ver se o homem se cala, mas ele quer mesmo é matar-me à pancada. É tudo uma breve bruma na noite, logo interrompida por um dos apinhados, as mãos nos meus ombros, com um "senhor adido", confunde-me ele de algures, "vamos lá para dentro que isto já está muito quente", enquanto me leva ao balcão.

Súbito está o nosso grupo festivo reordenado, nos apertos procuramos mais um copo, são anos a mais de noites para nos irritarmos com estes episódios. Mas eis que regressa o rapado, continua a querer matar-me, sempre lhe vou dizendo que lá fora será melhor, mas ele vai e vem consoante os andares da maré dançante. Entreolhamo-nos entre nós, os que ainda semicerram olhares claro, sinto-me velho e só, é quando me falta a paciência que o noto mais. E assim e por isso nos retiramos, num fingir do calmamente, a tentar uma saída airosa que se aparente a orgulho couraçado.

É já dia no Índico, eclipsada a véspera do eclipse, sozinho ao volante vou matutando. Em terra de dólar cada vez mais radioso, uma gente cada vez mais sem nada, o quase paradoxo no assombro da vida deste povo. Serei eu um dia o procurado pelos esfomeados, fartos de o serem? Ou será esse jovem cabeça rapada, celular e bmw, óculo escuro na noite, escondido do mundo daqui que trata como patrão no seu apartheid caseiro, e odiando o mundo de lá, que raro lhe chega ao Maputo, ambos tão maiores do que ele?

E lembro num cocktail, aquele procurador, óbvio rural no modo como comprova o in vino veritas, tão feliz no informar-me que em casa dele "os criados tratam-me por patrão, o meu pai era criado dos colonos e era assim que os tratava, eu exijo o mesmo".

Apago o cigarro, vou dormir para a Engels, apropriado nome para a zona da burguesia maputense. Mas à porta de casa ainda invectivo o guarda, que com alguém tenho que descarregar tudo isto, pois estou farto desta porcaria espalhada no jardim, é trabalho dele impedir que esses vagabundos da encosta venham revolver e escolher o nosso lixo.

Subo, enfim! Decerto fica ele a pensar que estes brancos, tão liberais, nem o lixo deles partilham.

Incoerentes?


(Maputo, Setembro 2001)


15. NA ALDEIA



A José da Cruz, nyenye

Há quase dez anos que aqui não chegava, longe e difícil que o é minto-me, envelhecendo no acomodado e desinteressado que me fui ficando. Vim a indicar o caminho e estranharam pois lembro-o, nervoso, de aldeia em aldeia, curva a curva, colina a colina, e até os rios, apesar de estes não estarem que ainda não choveu este ano, enquanto exclamo aos belos da paisagem que já nem julgava esquecidos.

Aporto de surpresa, como avisar?, saio no bazar aterrorizado que não me lembrem, pois se nem ali? Mas logo me rodeiam, aleluia pelo alívio, e é reconhecimento feito de espanto. Cheguei também temeroso, a estrada toda a remoer as mortes a que terei faltado, e é assim mesmo, que a cada “o velho... está?” logo me dão um “esse morreu...!”, e eu sigo “e o velho.. está cá?” para me repetirem “esse morreu...!”, e não desisto no insistir “então e o velho...?”, “também morreu!”, “e a velha...?”, “qual?...aquela lá? Foi morrer à aldeia...”, “e a velha...?” “hum, também morreu...”, ainda que neste ou naquele haja dúvida sobre quando e onde. E nesta sucessão há até sorrisos doces a embrulhar tudo aquilo que partiu, e tantos foram que me chega, mudemos de assunto, fiquemos entre nós, os que cá estamos, por enquanto, é claro.

Mas o meu mano ainda está, lá no “arame” dizem, esse que não só é vedação como também dá o nome à moribunda empresa, pois o algodão cada vez devolve menos. Hão-de ir chamar? Claro que sim, logo sai alguém para isso, mas atrasado pois a Cruz já chegou que um branco goooordo está a precisar dele. Enquanto isso carrego as grades de cerveja e as garrafas de aguardente que trouxe do distrito para o terreiro dele, a cunhada ali desavisada ajoelha-se quando chego - como podemos, quando poderemos, mudar o mundo disto? - imponho-lhe os beijos que logo se tornam risos, beijos que o mano e o velho Kalamo quando ali chegados me ensinarão ser por cá também coisas de entre-homens (áfinal??), e bem repenicados no pescoço por sinal. Antes que se beba levam-me a visitar algumas velhas viúvas ali vizinhas, do mettho delas já só percebo os sorrisos da lembrança e “fotografia”, até alguém vai entre risos rebuscar nas arcas o seu velho, ainda ali tão presente, de súbito trazido de volta nas fotos que há tanto mandei, “lavadas” que foram lá na Nação.

Entretanto apressou-se a chegar o hiena, para que eu saiba que não veio a suceder ao tio, enganámo-nos ele e eu em tais cálculos, decerto que essa sede, ainda hoje tão viva, lhe foi fatal às ambições. Depois, e até com alguma pompa, chegará aquele que foi meu intérprete, então jovem, hoje já não tanto e ainda menos pois elevou-se – sim senhor - a “autoridade comunitária”, lídere dizem-no. Rio-me num “Ich, você subiu, Albino!”, riso sem malícia que lhe desmonta um pouco a pose, mas não há ofensas nisto que não lhe abaixo o alto a que subiu. Pois o grupo, entretanto crescendo, aceita-me no brincar, ganhei o direito quando todos lhe éramos mais velhos e ele quase menino. E isso mesmo apesar de ali mergulhado em tamanhas rivalidades, dessas que apelam a cuidados de diplomata. “Há problema em virem até aqui?” perguntei antes a Cruz, sentados naquela casa de genro de chefe tradicional, terreno por demais marcado para juntar facções há anos zangadas, e ele próprio sabendo que amanhã lhe repetirão acusações e zangas de ter andado “a gingar com o branco”, naqueles meus tempos, e agora até outra vez. Mas “Nada!, hão-de vir...!”, soube logo ele, sorrindo devagar, e estava certo, vieram os amigos de antes...

E as histórias dos tempos já antigos acompanham as primeiras cervejas mornas, são-me repetidos os velhos que partiram no entretanto, comungamos nas memórias mais jocosas sobre cada qual. E chegaremos ainda aos suaves lamentos do como a vida por ali corre ou sobre como ela não anda, e isso depende de quem está agora a falar, mas tudo se finge num relativo “vakani-vakani”, um pouco-pouco mais ou menos, que agora é momento de festa, e inesperada, não é para grandes protestos. E, nem que seja por isso, há também todas essas coisas boas, quem está está bem, vivo, famílias crescendo, e eu envergonhado e com pena, não trouxe a fotografia da minha sorte que logo pediram, saudando a sua notícia. Pois também dou notícias minhas, que vou bem, e todos riem do óbvio, do gordo que estou, destes quase trinta quilos que pus em cima, sinal tão claro de bem-estar, saúde, beleza até. E riem também por esta mulher que hoje me acompanha e que digo não ser a minha, pois claro “a esta ainda não conhecíamos”, riem-se cúmplices, com a ironia inventando-me, entre acrescentos, um passado atrevido que vale mais risos de entre-homens e o qual não nego, até agradado, estou já bêbedo, do jejum, dos kms, das Castles tão gordas e tantas, desta toda terra vermelha.

Mas ainda nem acabámos as cervejas, as aguardentes ali à espera por abrir e temos que abalar, o motorista já impacientado e nada encantado, pois as ordens, tão repetidas, vetam-nos a noite, essa que está aí e há muito. É então de partir mesmo que ali ao lado vizinho, perto, perto, estejam os sons de dança, que foi mais pelos tambores que percebemos os inícios da noite, bem mais do que pela luz que se pôs a escassear. É isso, temos mesmo que ir. Ainda que as aguardentes estejam por começar.

A tudo isso resmungo um falso Ok, enquanto vou fintando o tempo em todas estas demoras de partir que aumentam sem vergonha, que estou já bêbedo, do jejum do dia, dos kms tantos, das Castles tão gordas, desta toda terra vermelha. Então, ali entre os vagares, peço uma fotografia, aquela de todos nós agora, e juntamo-nos sorrindo à espera de um flash que não há-de sair, recusa súbita e nunca anunciada, ele que tanto me tem acompanhado até hoje. E nisso sinto de rajada, num forte de primeira vez, o arrepio da morte, profundo, cortante, inopinado. Ali a dizer-me, explícito no quase gritado, a fazer-me sentir, mesmo cruel, que esta fotografia, esta memória, já não se devesse ter, já não é pertença à minha história, um capítulo excessivo, como se o meu lugar já ali não fosse.

Já disse, estou bêbedo, do jejum do dia, dos kms tantos, das Castles tão gordas, desta toda terra vermelha. Estou bêbedo e gelado no arrepio, mas ainda me invento sorridente a maldizer o raio da máquina, que sempre me pintei mais rijo do que o que sou, ali a falhar quando não devia, e tento insistir repetindo o fracasso, e finjo a grandeza num “paciência, fica no coração”, abandonando-me até à próxima visita, e prometo-me entre beijos e nos abraços. Mas o hiena, ainda que ele, e por isso já cambaleando, sabe, soube. E sabe também que eu percebi. Há-de sair comigo, a acompanhar até lá quase ao carro, é também ele que faz a despedida, num até breve, até à próxima que os seus olhos de já velho desmentem no então constante baixarem-se. E neste por dizer nos ficamos, vou morrer antes de ali voltar, e sei-o enquanto parto, na noite.



(Maputo, Dezembro 2003)



Publicado por jpt às maio 9, 2006 05:55 AM

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Recebido em maio 9, 2006 11:25 AM

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