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maio 09, 2006
Ao Balcão da Cantina: fascículo 4
42. FRAGMENTOS DE LUSOFONIA
“On disputa un peu sur la multiplicité des langues, et on convint que, sans l’aventure de la tour de Babel, toute la terre aurait parlé le français (…) car [on] supposait qu’un homme qui n’était pas né en France n’avait pas le sens commun”
(Voltaire, L´Ingénu, 1767)
Noite! Finda a semana de chuvadas junto a exaustão do burguês envelhecido, que já se desconforta no mato, ao vazio que me esperaria nas ruas lamacentas da vila. Rôo a galinha do jantar e, gozando o aqui luxo de uma antena parabólica, coisa de casa de empresa, logo me afundo diante da RTP-África, ali deixada como respeitosa simpatia para comigo. Em grupo, a ela não me nego, pois aos outros sempre parece estranho aquele que recusa um pouco da sua longínqua terra, mesmo que em meras imagens, como se a ela devesse algo e não quisesse que lho recordassem.
Assim acomodado, até ensonado, deparo-me com o inesperado símbolo do Instituto Camões, patrocinando um qualquer programa que aí vem. Apenas alguns segundos, mas anormalmente longos em TV. E quão estranha é a nossa mente, aqui junto ao Malawi e à vista dum antigo quasi-patrão de imediato se me associam ideias, mais rápidas do que o dizê-las. Sinto como o mundo muda, como se me mudou, eis-me agora, ainda que apenas por alguma preguiça arredia ao “banho macua”, sujo, enlameado e, para mais, pouco abonado. Também um bocado liberto, é certo, mas não entrei em valorações. Apenas sensações.
Ao mesmo tempo a surpresa do inédito leva-me a um abrupto e mudo resmungo, um “que raio é isto? Só podem ser coisas da lusofonia …!”, logo confirmado nas imagens. Já estou a sorrir quando surge, como não podia deixar de ser, algo tipo institucional chamado “Contos Tradicionais da Lusofonia”, e hoje nem de propósito é um “Conto Tradicional Tsonga”. Iberos de Gaza, presumo eu!
E bem acondicionado se apresenta o dito, ali adaptado por um “poeta laureado”, antigo nome daqueles que depois, e até há pouco, se tornaram em desejados “intelectuais orgânicos”. Títulos aos quais, no entanto, continuo a preferir o de “escravo grego”, o cujo sempre me aparece com a cara do James Mason, sem que eu perceba bem porquê! Ainda para mais porque é imagem nada condizente com a figura incomodada e algo desalinhada que conheci em tempos a este ilustre autor e, pelos vistos, adaptador. Mas como criticá-lo, eu que já andei a organizar festivais da Francofonia? Puta fina ele, de esquina serei eu próprio.
Adianto-me, até em fuga de tudo aquilo, e venho cá para fora fumar, a noite não será estrelada mas pelo menos não chove, e fico-me a matutar neste lusófono absurdo. Que é um absurdo desejado, procurado, planificado. Não será ele tão evidente que baste narrá-lo para afirmá-lo? Ou será assim tão subtil que outros não o vejam como tal? Enquanto se me queima o cigarro ocorrem-me fragmentos passados de lusofonia, que deixo correr sem requebros de formas, para não contrapor a essa hipotética subtileza uma qualquer outra.
Há uns anos foram publicados em Portugal os resultados do censo moçambicano. Logo me telefonou para Maputo uma angustiada jornalista inquirindo a minha opinião sobre o facto de apenas, e sublinhava ela o apenas, 6% das pessoas afirmarem o português como língua primeira. Fui-lhe dizendo que tal me custava a acreditar, palavras que a sossegaram lá no outro bocal, breve calmaria antecâmara do espanto quando fui continuando, que talvez fossem exagerados os números, porventura alguns inquiridos teriam reclamado o português como natal sem o terem, como um bem de prestígio social. Timbre alterado, tendendo então para o agudo, murmurou, aflita, a radiofónica voz “Então em que língua falam as pessoas? Em inglês?”. Ah, uma menina que nem nos antigos gregos, ouvindo de soslaio o brabrabra dos bárbaros vizinhos.
Adiante.
Passado um ano, o já aqui referido Instituto Camões editou uma revista dedicada à cultura moçambicana, produto propositado para aqui ser lançado em meandros de grande pompa, abrilhantando grande iniciativa política inserida de inúmeras personalidades autorais, uma embaixada de lusófonos reconhecidos. Para incluir na dita revista encomendou uma entrevista alusiva ao então Ministro da Cultura local, o qual logo aproveitou para reafirmar, com veemência de ministro, a bantofonia do seu país e da(s) cultura(s) que o gera(m) e vive(m). A afirmação, em si mesmo óbvia – analisemos depois em que consiste a bantofonia, s.f.f. – assumiu, no entanto, estatuto de indizível em lusas terras. Decerto que devido a esse atrevimento, e apesar da sacrossanta democracia, volatizou-se a citada entrevista. Censura? No nosso Estado? Pois, e aparentemente sem qualquer vergonha. Cenas de uma democracia mitigada, mas nada de questões ideológicas, eram meras coisas dos berços de cada um.
Adiante.
Passou-se mais um ano. Como manda a tradição, uma Universidade moçambicana organizou na abertura do seu ano lectivo uma Oração de Sapiência, da qual se encarregou um eminente catedrático brasileiro. Este, aproveitando a sala repleta, lançou-se numa violenta catilinária contra o capitalismo globalo-americano e seu economicista fascismo social, e, satisfeito com a arenga julgada apropriada, terminou o seu discurso sublinhando o seu enorme reconforto pela certeza que tinha na resistência moçambicana. Dela estava já seguro pois nessas 24 horas de estadia tinha encontrado em Maputo uma “vigorosa latinidade”. Ninguém se riu.
Adiante.
Mais um ano a correr e eis que me estreei no noroeste do país, este Niassa sempre visto como longínquo, desértico e quase inacessível, coisas da mitologia nacional. Recebido com uma hospitalidade notável, não demorei a cruzar o enorme planalto, um mato verdejante polvilhado de montanhas encimadas por cofiós brumosos, quilómetros de arvoredo e machambas, o verde castanho destas a entranhar-se no azul ameaçador de um céu carregado, um deslumbre único, um mundo a reclamar poetas que o digam. Súbito entra-se na terra batida, em contínua descida, cada vez mais curvilínea e deserta. Breves horas passadas, num cotovelo apertado, íngreme e pedregoso, todo eu estanco à primeira visão do Lago, ali camuflado por estas montanhas, um todo de água a perder de vista, abandonado numa calmaria como se fosse eterna. Ficamos parados, não sou o primeiro que o anfitrião, orgulhoso do belo no seu país, desvirginda de Lago, ele sabe bem o efeito! Depois, bem depois, reparo que lá em baixo há praia, e uma enseada, surpreendida ao fim de todo este caminho, desenhada por uma ligeira península que é vila: Metangula…
Arrancamos com vagares, e para sair do espanto pergunto o que já sei, “ali havia uma base da marinha portuguesa, não é?”, a guerra no paraíso. À óbvia confirmação adianta o meu companheiro que “diz-se por aí que lá vão instalar o centro de treinos dos fuzileiros dos PALOP!”. E eu, mau-feitio, logo a contestar “Nada!, aqui?, não acredito, neste ermo?”, mas ele resiste-me “Não sei, mas olha que se tem falado bastante, deve haver ideias para isso”. Entreolhando-o, ele de cara plácida mas agora algo distante, no evitar do opinar, procuro rematar “Hum, devem ser alguns meus patrícios mais saudosistas…”. Com isto estamos já na contracurva e aí, sem qualquer pré-aviso, abandonamo-nos numa enorme gargalhada. A minha, entrecortada, demorou até à vila, e eis que regressa hoje, solitária, debaixo deste céu.
Adiantar mais? Ou consigo fazer-me entender?
(Mandimba, Janeiro 2002)
43. HARMONIA LUSÓFONA
Ontem mesmo, cruzando a Mondlane, ali frente ao Hospital Central, dei com um desses quase alfarrabistas de Maputo, este mesmo banca de chão, os habituais manuais escolares já usados, as obrigatórias relíquias do socialismo científico, manuais de marxismo-leninismo ou de física, as edições Mir de sempre, claro está, monos imorredoiros para que a memória de todos não esqueça outros “grandes irmãos” que por aqui passaram, tudo isso com ar e carácter de ali postados apenas a acompanhar as imensas revistas femininas portuguesas, algumas velhas de década outras do hoje, todas já imundas do uso, coisas de alugar e devolver no dia seguinte, mão-em-mão, nada monos também imorredoiros a mostrar os dias que passam e quem os vive. Paro, vício de olhar livros ainda que em montra ao ar livre. Paro cobiçoso, sonhando aquela pérola, antiguidade nunca encontrada ou curiosidade, essa sim aqui e ali, de quando em vez. E nisso caem-me os olhos em capa antiga, desenho a querer-se árabe barbudo, e é nisso que descubro uma jóia, talvez pechisbeque para quem vive valores faciais, mas muito mais para quem vai além. É assim que recupero ao abandono um pequeno opúsculo de poesia, “Saudade Macua”, um decerto incógnito livro de 1969, tons escritos na Nampula dessa altura pelo autor Jorge Ferreira. E logo ali noto que esta é obra então agraciada com o Prémio Camilo Pessanha, atribuído pela Agência Geral do Ultramar e acredito que muito merecidamente. Folheio-o enquanto me deixo a tentar imaginar o autor então, poeta decerto amador, literato do seu tempo, tempo já de si tão anacrónico, talvez por isso hoje tão mais distante. Imagino-o mas também ao seu ambiente, prosaiso decerto pelo que vou entrelendo, e não resisto, chego-me mesmo a compor-lhe a cerimónia de tal atribuição, reviver-lhe o agrado havido com prémio e o reconhecimento público, porventura escasso, talvez só lá no “lugar da chuva”, e decerto menos ainda porque num mundo que logo súbito deixou de ser.
Avanço, e leio o pequeno livro ainda antes de chegar a casa. Objecto de então, gente de então, mundo de então, peculiar mundo de então. Mas estanco aqui e ali. Até surpreso, e assim me decido a partilhá-lo, hei-de ler-lhe alguns trechos em jantares mais íntimos, confesso que para surpresa, até intrigada, dos convivas. E até recordá-lo por via da minha pobre escrita, sinto-o merecedor que, na medida do meu possível, o salve ao total esquecimento. Não por devaneio de arqueólogo de letras, apenas o encontro percursor, demonstrativo de tantas sensibilidades e noções actuais, nela já vingando a hoje abrangente lusofonia. Dando-lhe assim o mérito de não ter envelhecido com o tempo, alvo de toda a literatura. Ou será que foi o tempo que envelheceu?
Pois nestes até singelos poemas lá está corporizado, talvez pressentido, este sentimento lusófono que vem unindo portugueses e seus irmãos de outros continentes, não só a história que nos une, como ainda a comunhão que a habita no correr dos tempos. Até comovido partilho este olhar, partilho exemplo de como Ferreira antecipou estas décadas do hoje em dia, Estados (que ele nem terá imaginado) talvez apartados pelos ventos da política, povos unidos pela língua e pelo sentir, por tantos interesses e paixões comuns.
“O Branco da Terra
s’Oliverra é o branco da terra
s’Oliverra é nossa pai
gente conhece
gente entende
a nosso amigo
s’Oliverra
machamba de s’Oliverra
é sempre bom
chi..s’Oliverra
branco tem feitiço!
S’Óliverra usa chapéu
sol é muito quente
e s’Oliverra
tem careca.”
(Jorge Ferreira, Saudade Macua, Agência Geral do Ultramar, 11)
Ah, tanta harmonia nesses dias, tanta harmonia para hoje.
(Maputo, 2004)
44. MENSAGEM
Há alguns anos decidiu a minha República agraciar-me com uma comenda em reconhecimento pelo exercício das elevadas funções de que estive incumbido por estas paragens, coisa que então muito me sensibilizou. Também a iniciativa privada patrícia aqui instalada considerou assinalar tamanha actividade, tendo-me por essa época obsequiado com um magnífico exemplar da Mensagem pessoana, polissémica obra de quem vasculha a alma lusa e respectivos Impérios e desencantos, neste caso acoplada aos sonhos do grande Pomar, Júlio este, sete vistas da referida lusitanidade.
Reconhecido e respeitoso nem o livro assinei, evitando macular tal artística iniciativa, assim promovendo-me bibliófilo. Apressei-me a depositar a obra na nossa estante Altamira, brilho de qualquer sala pequeno-burguesa, e na qual vamos, como se negligentemente, oferecendo às visitas as reluzentes lombadas acumuladas, ali a intervalarem o nosso altar de antepassados, fotograficamente convocados para defesa da paz e sucessos deste lar.
Há pouco, decerto por razões climáticas, assomou-me o fastio e lá retirei o citado livro para um lento e distraído desfolhar no descanso desta minha varanda sobre o Índico, após o qual lhe dei um indevido, e porventura lânguido, abandono, impróprio ao pintor e não menos ao poeta.
Nisto precipitou-se a Gata Joana, personagem moçambicana dominadora desta casa, porventura farta de lusófonas construções ou de heteronómicas mitologias, e, no fervor do seu mui frequente cio, decidiu urinar o belo exemplar, talvez reclamando a sua propriedade, quiçá reclamando-se Ofélia.
Agora, e enquanto o livro seca no sol da varanda, questiono-me. Que fazer à comenda?
(Maputo, Setembro 2001)
45. AS FÉRIAS DO EMIGRANTE
Lisboa, madrugar na Portela de Sacavém, aeroporto destino, e relembrar o frio apesar do Julho. O avião cheio, vários amigos ou conhecidos moçambicanos em férias, trânsito ou trabalho. De passaporte em punho todos serão lentamente esquadrinhados. Será necessário, FEDER* oblige, mas aqui ao novo-rico acontece-lhe corar.
Uma hora e vinte minutos esperando as malas! Uma transpirada e sonolenta saudade do dinamismo do Aeroporto Internacional de Mavalane.
A Gata Joana também veio de férias, que se deprime quando fica só. Levamo-la ao controle sanitário, obrigatória e oficial formalidade. Entre cães e gatos, enfileiramos à espera que nos atendam. Lá está o número do sacrossanto telemóvel, os interessados que chamem o senhor doutor para que ele cumpra o que o Estado exige na fronteira. Telefona-se, que remédio, espera-se 45 minutos entre a vergonha nacional e a ironia estrangeira embrulhando a irritação. O veterinário de aeroporto “há-de chegar”, olha os papéis, não vê o bicho, cobra 20 USD, e siga a bicha.
Com Sol ainda fresco, protector de turistas, o Terreiro do Paço lindo, liberto de carros e obras. O Rossio e a Praça da Figueira quase prontos. O Marquês, onde construíram bem, completando a traça arquitectónica, excelente. A minha primeira visita demorada à Expo. Perfeição, imponência e beleza. Sou um austral pacóvio, boca aberta no Oceanário, a célebre pala, a Torre, a nova FIL. E o meu rio. Lisboa está cada vez mais bela, de viver, de visitar. Estamos contentes com a nossa cidade, orgulho nada piroso. E menos carros, muito menos arrumadores. Com os parquímetros as famílias deixaram de pagar a taxa de heroína, passada a imposto municipal. Concordo!
Chegámos assustados pelos jornais, mas agora desdizemos a crise. Uma Lisboa em construção, novos prédios sucedem a novos prédios. E a que preço, como conseguem comprar casa? E lojas, lojas, lojas, roupa, roupa, roupa, saldos, saldos, saldos. Porque compram tão mais caro o que podem comprar tão mais barato três meses depois? Empregados africanos e brasileiros, eslavos ainda não, que estes serão empregadores daqui a uns anos. Sou solidário, de emigrante para emigrante. Crise? As classes médias aparentam estar bem e recomendam-se. Crise? Só se for de barriga cheia.
Produtos? Espanhóis...
Burocracias. Renovação urgente do BI, cinco horas de bicha, dezenas de pessoas na rua, sentadas no chão ali ao Areeiro. Dia seguinte na Segurança Social, duas horas de espera para saber que não há nada a fazer, “caiu o sistema”. Ah, nem tudo mudou no velho país!
O regresso a Lisboa é também ao anonimato da cidade grande, coisa tão esquecida e sonhada no Maputo quotidiano, aqui as caras conhecidas são apenas os edifícios. O Tivoli abandonado, as madeiras estaladas sem tinta. Ao lado a novidade do Fórum Tivoli, escritórios e lojas caras, moeda de troca para manter de pé a futura ruína? Nele uma cave feita esplanada, para os almoços no trabalho. Mas pelo menos já não se come de pé, como antes era por aqui hábito. Um gaspacho frio e logo surgem um, dois, três, quatro, cinco personagens conhecidas. Para primeiro dia de viagem é engraçado, mesa de conversas soltas, surpresas. Cidade Grande?
À hora de almoço os jovens empregados saem à rua, de tanto fato preto julgo cruzar um funeral. Entende-se, filhos e netos de malteses, primeira geração que chega ao terciário, não sabem esse preto como luto, oficial ou traje de noite. Seguem, “doutores”, assim fardados, tal como antes reinventaram as capas negras quando bêbados candidatos a licenciados. Mas, é óbvio, desde que de uniforme sentem-se seguros face aos patrões.
Alguns mais velhos, ou atrevidos ou seguros, arriscam mesmo o fato azul, aquele tipo velho funcionário da Carris. Graduação cromática dos quadros?
Certo que aqui também as mulheres há muito que cobrem a noite vestindo o preto. Uma Nazaré, este país!
Desactualizado, constato que as "senhoras" agora pintam as unhas dos pés, antes não o faziam. Repugnante, porquê seguir modelos de dona de casa inglesinha?
Amigos ausentes, ou já distantes. Então, miragem do emigrado nas Áfricas, cinema, exposições, museus, livrarias. E passeios, até praia. Um filme excepcional, iraniano a contar curdos, “Um dia de cavalos bêbados”. Mas nas outras salas da capital estão filmes há muito já vistos na nossa provinciana Neilspruit. Áfinal?! Para mais comparações, no célebre, e agora unânime, Centro Cultural de Belém vemos a exposição Altamira com dez Grandes, Siza et al, ali a proporem novo mobiliário para os novos tempos. E decerto novas pessoas. Credo, que coisas, que horrores, que martírios, quero as lojas do vizinho Whiteriver, viva o quasi rústico inglesinho.
A Comissão dos Descobrimentos, à qual tanto devo, moribunda-se, despede-se para sempre com uma exposição nas Janelas Verdes. Peças fabulosas, obrigatório ver. Compreender? Como, se nem uma informação? E será que todos sabem quem foi o ourives Gil Vicente, o dito Cantino, ou o Duarte Barbosa? Um amigo avisa-me que nela fiz uma circum-navegação. Obrigado, Jorge, que não se tinha percebido. E numa sala cheia de turistas nem uma palavra em língua estrangeira. A Comissão contra a globalização? Ou apenas esgotada?
Praia, o Meco que resiste a Lisboa, o Portinho da Arrábida, muito bem preservado e arranjado, recomendável na sua beleza. Se o litoral sobrevive o país vai melhorando, digo-me, optimista. Mas a Natureza foi inclemente com estas paragens, a água do mar é gélida. E do Algarve, onde o polar se espera menor, avisam-nos para não irmos, que já está a adornar, tamanha a multidão aboletada.
Instalámo-nos na Margem Sul, convívios gastronómicos no Atlântico. As docas de Setúbal, peixe glorioso, esplendor ao jantar a preços aceitáveis. Os amigos vão resmungando com o que lhes toca. Na Aroeira, que já foi campo, vão construir milhares de fogos, quem para ali fugiu ficará sem o arvoredo. E com tanta água que será necessária, mais o golfe que substituiu o picadeiro, lá se irão salgar os lençóis subterrâneos. “É o poder local”, concluem os habitantes, tristes na antevisão.
No caminho de Sesimbra mais amigos a resmungar. O pinhal fronteiro vai ser destruído por uma urbanização camarária. É ilegal, mas envolve tão grande transacção de terrenos na capital Seixal que tudo vale. Quem está no movimento de cidadãos que à barbárie se opõe já mudou o número de telemóvel, já não atende o telefone de casa, só para evitar anónimos insultos e ameaças de morte. Amigos decentes os nossos, nossa riqueza.
No belo Azeitão, mais amigos. Uma delícia o Moscatel velhíssimo que nos oferecem. Mas de onde brotaram todos estes prédios habitação social, tão escondidos da estrada principal? O dono da casa e da garrafa vai resmungando que aos do poder local só interessa lotear, que lhes dá bom dinheiro, que “isto está como no terceiro mundo”, como se eu o reconhecesse. Imprecações contra patos-bravos e autarcas, sempre vou dizendo que depois se oferecem dois ou três jogadores ao Benfica e tudo sossega: “Benfica? Queres ouvir a história do centro de estágio no Seixal?”, fulmina-me. Não, piedade, chega! Mais uma lágrima de vinho, s.f.f.
Mais à frente, lá pela Cotovia, mais amigos, mais lamentos, outro pinhal que se preparam para substituir por casas. Outra Câmara, outro partido, mas face ao vil metal o resultado é o mesmo. Em tempos que se dizem de fim das ideologias alegro-me, a nossa esquerda sempre fiel aos seus princípios, algo actualizados. PS e PC juntos, malteses e afins, defendendo que “A TERRA A QUEM A CONSTRUA”.
Jornais diários no dia, saudade e prazer de emigrante. Em plena “Estação Parva”, à qual teimam em chamar “silly”, lá surgem os habituais inquéritos aos populares. O jornal “Público” interroga imigrantes, o que acham eles de Portugal e do seu povo, esse que os acolhe. Vão coincidindo no positivo da convivência, da boa mesa, no negativo do pouco amor-próprio, da falta de capacidade de indignação. Mas como se podem indignar, estes filhos e netos de malteses agora pequenos burgueses?
No meu velho bairro, imperial e tremoços. Para me contarem, no imediato do “então que novidades por cá?” que o Luís, o mais-velho dos malucos residentes dos Olivais morreu. Desde o liceu que me lembro do seu “dá-me um cígarrrriiiiiinho!”, tantas vezes tornado copo-de-leite e sanduíches, sempre acarinhado por todos, o louco simpático e inofensivo. Pois nos Santos populares uns jovens atearam-lhe fogo, ainda foi morrer ao hospital.
Que se pode fazer com estes filhos e netos de malteses?
Jantar com grande amigo feito no Maputo, bebé recém-chegado, bonita mulher, altas tarefas, o génio de sempre. Belo caril, excepcionais tintos, alternando os franceses e os nossos.
E é dele a frase letal, “como posso ser feliz num país infeliz?”.
Estamos de férias, seguimos para Bruxelas amanhã.
*FEDER – Fundo Europeu de Desenvolvimento Regional, o acrónimo mais conhecido dos donativos internacionais, eufemísticamente conhecidos por “fundos estruturais”.
(Lisboa, Agosto 2001)
46. DOUTORES
Natal em Portugal, 9 anos depois. A mesma azáfama de sempre, ainda lembro o horror, daí que reconheça o corre-corre do muito-muito da quadra do mostra-mostra. Nisso pouco mudou. Hum, e agora deu-lhes para pendurar bonecos de paisnatais nas janelas, para novidade é a única que vejo, pobre novidade já agora. É voar directo à consoada e fugir, se possível ainda com as passas na boca. Que gente! Minha gente, sei-o bem. Querida. Mas que gente!
Nisto do mostra-mostra até alinham os arrumadores de carros (junkies, no activo ou reformados) a chamarem "doutor" aos condutores, na exigência da moedita trocam-na pela promoção avulsa. Aos dois primeiros ainda me virei, expectante (tique de professor? ou de mero doutor?). Mas calma, ainda hei-de dizer, talvez bom este novo costume. Em país de infecta doutorice pode ser que assim esta acabe de vez. Quem quererá chamar "doutor" ao outro, assim parecendo junkie? Afinal? será destes que virá o progresso?
(Janeiro 2006)
47. USOS E COSTUMES: APROPRIAÇÃO RITUAL DE COMESTÍVEIS
(onde abordo alguns dos episódios mais hilariantes que vivi em Moçambique. Sem querer perpetuar a sua hilariedade, apenas indagando-os. Ou seja, sem vislumbre de sarcasmo, apenas olhando um real que tão estranhas formas assume. É, por isso mesmo, um escrito de respeito.)
***
Decorria o ano de 1997 quando Jorge Sampaio, então Presidente da República Portuguesa, visitou Moçambique tendo oferecido, como julgo ser praxe, uma recepção aos portugueses residentes. No ano seguinte António Guterres, à época primeiro-ministro, visitou o país, tendo sido organizado idêntico evento. Ambos foram momentos sentidos e elegantes, até rituais de congregação dos compatriotas nesse dia aqui feitos vizinhos, coisa quase como se comunhão fosse, que sabido é dos portugueses por cá não serem isso de comunidade, faltando vontade do comum e de o fazer – algo característico, não o digo defeito. Tudo isso explicável, julgo, por tamanho cadinho de origens que aqui se cruzam e por tão diferentes biografias que àquelas se sucederam, tantas delas moldadas nas conturbadas últimas décadas destas paragens.
Mas regresso às tais recepções à nossa dita “comunidade”. Lembro-as semelhantes, abertas a todo o patrício que nelas entendesse participar, assim acontecendo a cerca de 3000 de cada uma dessas vezes. E ao mesmo desígnio correspondeu idêntico desenho: fomos acolhidos nos elegantes jardins do Hotel Polana, ainda ex-libris de Maputo, uma tenda gigante aí instalada, essa mesma que desde então se tornou um “must” dos grandes eventos sociais da cidade. Também os manjares coincidiram, agradabilíssimos, de notório simbolismo, foi óbvia a afirmação gastronómica da identidade nacional, ali alimentada, alma e palato, e assim querendo-se sedimentada. Tudo isto pois nos deparámos, para contentamento geral, com uma profusão, état oblige, de bons vinhos portugueses e de queijos da serra. Não nos enganemos, um agrado ao paladar mas acima de tudo um afago ao coração do emigrante, um esconjuro à saudade em terra tão distante da pátria e onde tais produtos, essência desta, não só escasseiam como quando surgem o fazem a preços por demais custosos para quem se tanto se afastou da terra família no ganhar a vida.
Recordo a minha surpresa de então, muito em especial aquando da inesperada primeira vez, ainda mero recém-chegado, desconhecedor daquele actual e sua história recente. Refiro espanto no deparar-me com compatriotas, e tantos o eram, que findando-se as recepções, assim logo logo no após-hino e discursos dos dignitários, partiam em grupos, famílias ou apenas amigos, fazendo-se acompanhar dos queijos da serra. Alguns destes já encetados, outros ainda virgens. E tudo num à-vontade visível, transportando-os nas mãos ou em sacos (já trazidos para o efeito?) ou, mesmo, debaixo dos braços.
Alguns anos passaram e, em 2001, Sampaio e Guterres regressaram, juntos, a propósito de uma cimeira da então CPLP. E repetiu-se a já quase-tradicional recepção à comunidade, nessa ocasião nos jardins do Mini-Golf, esse aprazível “complexo” ali à Costa do Sol, mas cujo menor estatuto demonstrava um menor relevo dado ao evento, pois local este menos elegante e acolhendo menor número de convivas, uma metade do que nas anteriores ocasiões. Foi uma parcimónia festiva a mostrar respeito pela dor moçambicana, recentes que eram os dois terríveis anos de cheias, cujo drama correu mundo. Mas a esse menor brilho correspondeu, decerto incidentalmente, uma elevação das ofertas gastronómicas, sempre estas bem no âmago da nossa gastronomia, aquela transversal, unânime, à sociedade portuguesa, à sua identidade, sem lesar classes ou regiões. Sublinho tal facto pois nesse dia o (já muito esperado e até salivado) elenco de vinhos e queijos (da serra) foi abrilhantado pela associação de presuntos. A estes bem os lembro laminados nos pratos, e com abundância, e também no sempre apetitoso formato tradicional, as postas penduradas sobre as mesas, essas decorações símbolos que são da fartura.
É sabido que nestes eventos para além da degustação, mais ou menos ponderada conforme o cada um, apenas habita uma corrente de cumprimentos, retocados de exageradas amizades e nesgas de conversas, nada mais do que o apregoar do “também cá estou”, prova de vida no hoje-em-dia. Aprestei-me em cumpri-la, com a visibilidade que me foi possível, e retirei-me para junto da dona da casa, uma já minha velha conhecida. Ali estava ela, por detrás de uma mesa, quase disfarçada de conviva, controlando os acontecimentos, o desempenho dos seus funcionários, que das restantes responsabilidades estava alijada, alugado que lhe tinha sido o estabelecimento. Esperava uma tarefa fácil, ordeiros convidados e a sua gente tarimbada no ofício, e por isso deixámo-nos em conversa. E foi durante esta, enquanto a recepção se ia distendendo, os discursos feitos e as individualidades já na ronda dos aperta-mãos, que pude comprovar o espanto, até terror, dos empregados da casa, várias vezes dirigindo-se à dona, em verdadeiro pânico, "D. ..., o que é que fazemos?, eles [os convidados] estão a carregar os presuntos", perigando até a decoração, na sua ânsia fazendo tremer e, inclusive, cair os arranjos, e, temia-se, a própria louça ali disposta. A minha amiga, de início estupefacta, ainda procurou o meu conselho, "o que é que eu faço?", e eu, então já veterano destas andanças e confesso que daquilo expectante, só me ria, "que fazer? Sei lá...", e ela "ouve, são teus patrícios, tu é que os compreendes, o que é que eu faço? Ajuda-me lá!", insistindo na minha solidariedade, quiçá socorro, prevendo-se aflita com a confusão e com as hipotéticas reacções, até o escândalo, que lhe atribuissem (ir)responsabilidades, incumprimentos, ineficiências. Dela solidário lá partilhei a minha opinião, de experiência feita, que se deixasse ficar quieta, tal como os seus empregados. A casa não tinha sido alugada? Eram dela presuntos, queijos ou convidados? Se a tudo aquilo que era servido entendiam os convivas que era para também levar, consumir ali e alhures, que tinha ela a ver com o assunto? E assim mais sossegados bem que se riram, patroa e empregados, ainda que algo constrangidos pelo que ocorria. Mas esse incómodo, aquele da vergonha por acção alheia que todos vamos experimentando, aqui e ali, nos acasos da vida, logo lhes foi esbatido no humor daquilo tudo, passando eles (e eu?, já nem lembro ...) ao puro riso, entre exclamações, do apupo ao até solidário, e mesmo invejoso, a cada episódio da suave pilhagem então em curso.
Cinismo meu? Nem pensar. Apenas o então saber tudo isto já tradição, episódios vários assim o ditaram, falares muitos mo tinham confirmado. Pois a propósito destas viagens oficiais já tinha discorrido várias conversas animadas, os seus rescaldos claro, tudo isso nos balanços dos “caminhos abertos” e dos falhanços acontecidos, das nódoas do passado e daquelas (tantas) agora feitas – pior ainda quando o pano já não é grande coisa ... E aí, entre palavras da política e negócios, sempre alguns mais divertidos e outros mais exaltados concordavam no “isto é uma vergonha!” quanto às recepções e nossos compatriotas por cá. E também amigos moçambicanos, nisto corrosivos, gargalhando, claro está, os vorazes “tugas” assim assistidos. Enfim, todos, rindo ou corando, ou até ambos, iam moralizando sobre queijos da serra e presuntos e seus apropriadores.
E sobre isto se compraziam os mais veteranos destas andanças em esforços memorialistas. Assim narrando que, já muitos anos atrás, numa visita de Mário Soares, quando presidente, houve uma recepção similar, ainda que de menor dimensão, e também então os convidados saíam de mala cheia (e mãos). E alguns, mais antigos ainda, recordam que em 1981, na épica visita de Eanes (que tantas “pequenas histórias” gerou, pedindo quem as queira contar), até pancada houve à porta da recepção, ali à Mtomoni, tamanha a angústia estatutária e comensal que se gerou.
E é assim sendo, já com vasta experiência nestes eventos para além de conhecedor desses episódios do tão antanho, que me deito a sorrir nestas memórias. Se já tradição, até modo de ser, para quê tantas vergonhas ou irritações? Afinal, qual de nós quando aqui não inveja notícias de queijos e presuntos alheios? Portanto deixo-me de culpas, e ainda mais daquelas tão do agrado de alguns, que entre o embaraçados e o indignados, lá vão resmungando a velha lenga-lenga do “bodismo expiatório”, isso de que os mal-comportados são os indianos, os que saqueiam as mesas elegantes são os compatriotas oriundos de Goa, esses goeses aqui percentagem tão notória da nossa nacionalidade – pois convirár nunca esquecer o que Goa foi de alfobre do Império, e tanto por aqui. Testemunha que sou afianço da falsidade de tais escapatórias “culturalistas”, “étnicas”, nomes do agora para o velho racismo, no querer que a haver quebra de etiqueta seja isso do “outro”, ainda para mais se um pouco mais preto do que estes nós que por cá andamos. Não se pense que estou com bons sentimentos, coisas da inclusão, eteceteras e tais. Apenas a empiria experimentada me conduz, observação directa e, repito, bem divertida. E é ela que me garante que este costume, o da " apropriação ritual dos queijos da serra", cruza diversas origens geográficas, religiosas e culturais. Pois certo é que assisti a indodescendentes e eurodescendentes a partirem, sorridentes, com os tais queijos debaixo dos braços e presuntos idem. Coisas que nos unem, para além da língua, está visto. E do passaporte ... Entenda-se, gula e cupidez não conhecem, aqui, distinções de tons de pele e terras de avoengos.
E é neste saber, do ver e ouvir dizer, que me atrevo a explicações. Algo que ultrapasse o meu jocoso. E o indignado de alguns outros. Estamos já diante de um comportamento tradicional, entenda-se se assim sendo, de uma norma, aquilo que em tempos se chamou “usos e costumes”. Hábitos e modos presentes em alguns, vastos, extractos da comunidade portuguesa aqui vivendo. Que assim representam a concepção que têm da relação havida com os seus (tão longínquos) representantes eleitos. Quando estes se aproximam extraem-lhes as oferendas, potenciam-nas, devoram-nas. Aquilo a que eu, repetindo o acima considerado, teorizo como "a apropriação ritual dos queijos da serra" (e, em calhando, dos presuntos). Adianto-me ainda: muitos destes portugueses aqui residentes, porventura não tanto a sua elite económica, apanhados que foram nas curvas da história, sentem-se (e sentiram-se) abandonados, esquecidos ou desprezados pela sua sociedade, pelo seu Estado. Sensações da descolonização? Decerto, mas ainda mais quando brotadas nos poucos que são, e naqueles bem mais que descendem, de levas de migrantes colonos desfavorecidos, “malta” até, dos quais alguns aqui se mantiveram, sempre reclamando, mesmo que mero resmungo, algum apoio estatal, esse lá tão distante. E que ainda, e talvez nunca, não esqueceram o estigma do "português de segunda".
Nesse sentido esta apropriação de bens comestíveis nos momentos cíclicos em que a sua nacionalidade é reafirmada em eventos festivos e rituais (as visitas de Estado) não pode ser considerada apenas como fenómenos de cupidez e má-criação, para além de apetite. É também uma catarse de uma relação complexa com o seu Estado, uma afirmação daquilo que sentem, uma sensação em que se auto-definem como credores do seu Estado, do seu país. Do abandono em que se reclamam. E, obviamente, da sensação de orfandade que o fim do Império deixou em alguns. Neste caso, explicitamente naqueles que não eram então dos mais favorecidos, nem nisso se tornaram.
Em suma, esta apropriação de bens comestíveis, simbólicos ainda para mais, simbolizando uma “essência gastronómica”, uma “essência cultural” portuguesa, funciona como uma apropriação ritual, uma reapropriação de portugalidade, dos quais se sentem privados, não pela História, não pelo contexto, mas exactamente pelo devir do Estado cujos dignitários aqui acorrem periodicamente.
Neste sentido é extremamente significativo o facto do vinho não ser raptado. Símbolo também de uma “maneira portuguesa” ele é no entanto passível de ser conotado com formas de etilização, e portanto a sua apropriação poder ser mal-entendida, desvalorizada como uma deriva orgiástica, dionísica. A apropriação do vinho seria entendível no quadro de uma imoralidade apropriadora, festiva. A apropriação ritual dos bens comestíveis é entendível como inserida numa moralidade de devolução, de reapropriação do “que é nosso”, da recomposição de um ordem de cidadania, de uma ordem moral. Estamos no domínio da cobrança de uma dívida. O bem “vinho” poderia, se apreendido, colocar em dúvida o exacto sentido desta (re)apropriação.
Não discuto se terão razão, não é isso que me interessa. Afirmo que o sentem e assim o expressam, ritualmente. E afirmo também que adoram queijos da serra e presunto.
***
Hoje o Primeiro-Ministro Durão Barroso chega a Moçambique. E logo à tarde há a recepção à comunidade portuguesa. Estarei presente, honrado com o convite. Atento. E esperando a repetição do ritual. Com um sorriso, claro está. Mas também compaixão. E, honestamente, apetite. Não sei mesmo se ...
(Maputo, Março 2004)
48. COMEM OS DRAGÕES CAJU? (suma epistemológica)
Para a Antónia Lima, pisteira de dragões
Era Verão, eu estava em Portugal a acompanhar o parto da Carolina e, como é natural, tudo o resto desceu a bruma desinteressante e, até, um pouco bafienta. Num desses dias de rame-rame, a gastar o tempo que por lá me restava, indo ali entre o café Polana e o café Luanda, a Avenida de Roma, onde estávamos aboletados, assim a agigantar-se em mapa cor-de-rosa, surpreendi-me com um colega do liceu, o Alcobia, do qual uns muito antigos rumores diziam morto de tão atropelado que fora lá pelos lados do Vale do Silêncio.
Abraços dadoso logo entrámos em narrações, eu a mentir com alguma parcimónia, num à vontade presumindo superioridade, e ele a dar-lhe pelo menos com tanta força, mas não seria só treta o ter andado pelos orientes, percebia-se pelos portos que contava. Então não é que ele tinha dado em embarcadiço?, nem percebi se em cargueiros ou paquetes, estivador ou gigolo, mas com aquelas papada e careca, já para não falar da lentidão no olhar, pareceu-me mais dado às mercadorias, mas nunca se sabe. Pouco miolo é certo, versando mais negócios (desperdiçados, dizia-me o seu jogo de olhos e ombros) e histórias de putedo. Largou-se num palrar de quem tem poucos a ouvi-lo, a denunciar o emigrado, e sem nenhuma curiosidade sobre as minhas coisas, notei-o. E sempre me desagradam os que mostram tão pouco interesse em mim como o quanto neles tenho, sinto-o um desmerecimento.
No meio do arrazoado dele pelo menos ainda consegui meter que também me tinha australizado, agora dava aulas e tudo. "Ah, na universidade, sim senhor, era de esperar, já naqueles tempos eras bom aluno", mentiu ele lembrar-se, pois tinha-me cruzado em tempos de total balda, obviamente a passar-me a mão pelo pêlo não fosse eu pensar em cortar-lhe o pio contando-lhe a minha história, assim tornada tão desinteressante do previsível que afinal sempre fora.
E nem me deixou continuar nos meus méritos, logo a lembrar-se de um chinês que conhecera em Macau, sábio de prestígio nas terras dele, licenciado em grandes répteis por Pequim, mestre em dragões por Xangai, doutorado em histórias de dragões por Cantão, e com mais umas investigações sobre esses bichos, seus afazeres e arcaboiços achava ele, mas disso já não tinha certezas pois eram assuntos complicados. As últimas andanças em volta dos ditos répteis tinham arrastado o bom homem pelos mares da China até aportar a Macau, onde os acasos os tinham cruzado por coisas da que me pareceu ser uma amante comum, e a qual surgia ali na conversa a prometer outros relatos, de exóticos e eróticos gemeres. "Pois o homem é uma sumidade na matéria", frisava orgulhoso o Alcobia, então a pôr-me no meu lugar diante de tanta sapiência alheia, enquanto concluía invectivando-me a imaginar qual seria hoje o trabalho desse seu amigo, e eu a entreolhar-me, pois tanta coisa até me pareciam ares de polícia ou mesmo espião naquelas sempre agitados mares da China, "pois dou aulas, claro. Se não existem dragões...!" citava-o, e com ênfase, o Alcobia.
Bem, como não conseguia fazer o meu relato aproveitei a breve pausa na qual armava ele o fôlego e fui-me despedindo trocando abraços e telefones enquanto lhe mentia um almoço, coisas de hábito na capital, fugindo aos capítulos seguintes da história sexual de um alcobia nas terras do oriente, os quais despontavam já no horizonte. Assim saí, algo perturbado na saudade dos tempos do liceu e também na nostalgia desse oriente ao qual nunca cheguei, e já se faz tão tarde. E também um bocado fodido, confesso, com aquela história de dragões a qual não tinha percebido, tamanha a placidez do gajo, se teria ali arribado para que me desse ele uma porrada, o sacana do marinheiro, ou se era mesmo só verborreia.
Para espantar a má disposição com que dali ia pus-me a descer a Estados Unidos da América, enquanto remoía as dúvidas acicatadas. Mas nestas alturas o que vale é ter a memória domesticada, lesta no saber escolher para aplacar as crises. E assim do tão irritado que estava, cheguei-me aos âmagos e, ali peão, do que me fui eu lembrar? das arengas do gringo, o nosso velho professor de faculdade, por cá exilado a ensinar-nos as antropologias sabe deus porquê, e durante anos a fio sempre firme no jurar da existência dos tais dragões.
Pois, afiançava, tinha-os ele encontrado - e a tantos - que desde então passara a ganhar a vida ensinando como o fazer, rodeado pelo respeito, até invejoso, dos colegas menos afortunados. E quando nós, jovens alunos, alçávamos dúvidas, naturais em quem ainda não andou o mundo, lá ripostava o homem, enfático, que sossegássemos pois os bichos eram amáveis, davam-se a ver, a cheirar, a ouvir e até, e aqui chegado sorria-nos matreiro à conquista de cumplicidades, a apalpar. Mas depois, e não fosse perder o prestígio no recurso a tais miudezas, regressava, magistral, às enormes dificuldades que nos aguardavam. Que fossemos trabalhadores claro, mas também talentosos e sérios e então eles viriam até nós, viçosos e acompanhados das suas proles, mas caso contrário, se fossemos indignos logo os dragões, sensíveis e mágicos, voariam no vácuo, esfumados num sopro.
Nestas belas lembranças amornei o suficiente para que se me sossegasse o andar. Deixei-me então numa esplanada a acompanhar umas cervejas, ali muletas das certezas retomadas. E voltei ainda a esses tempos de quase meninice, todos nós em coro mudo de alunos a repetir que todo o nosso futuro trabalho seria moral, e cantando até o mais importante dos dogmas, esse do “nunca mexer, nunca mudar, nunca comprar” esses que tanto procuraríamos
Pois, estava no manual e em todas as arengas, a base do trabalho, a essência da missão, era o nosso respeito, um respeito máximo, sem o qual desapareceriam os dragões, ariscos mas também frágeis. E então adeus trabalho e, claro, adeus sucesso, glória. Importante, importante era jamais esquecer o não se poderem eles comprar, nem tão pouco suas pistas ou informações, que esse seria o erro máximo. Pois à menor menção da compra, do vil metal, logo se estragaria toda a magia e, conspurcado o real, de imediato, amuado, se irrealizaria, a sarar.
Assim acalmei, na memória destes princípios, científicos sublinhei então em murmúrio. Mas já que ali estava e para não ficar sozinho a matutar, subi as Forças Armadas até à velha escola, ainda a toca de alguns amigos, uma gente que lá me vai dando um pouco de atenção. Quem sabe se por andarem já fartos uns dos outros, e quando lhes apareço talvez lhes quebre o monótono do todos os dias, mesmo se a repetir o número do ano anterior, tal e qual, como se fosse um daqueles velhos circos no regresso de Agosto ao Concha Azul de São Martinho do Porto, em reprises da triste miséria e os veraneantes a rirem e a aplaudirem na mesma. Pudera, coitados, com o frio que fazia...
Logo que deparei com os tais velhos colegas pus-me a desabafar a história do Alcobia, talvez eles conhecessem o tal china, duns artigos ou congressos, dos júris das fundações, quem sabe? nos últimos anos andou tanta gente por Macau... Mas nada, aliás essas nem são áreas lá da casa, ainda se fossem dragões de Goa. Mas ateou-se a discussão, afinal existiriam ou não os répteis? É que por aqui o assunto continua actual, pois vão-se passando os anos e por mais que os procuremos não se acham os ditos bicharocos. E assim anda mal o negócio, incertos os preços das buscas, tabelados por atenções e respeitos, tricotado estes na amizade, pura e impura como sempre ela é, e sobretudo de medos, desses do "à volta cá te espero" que enchem a vida, essa puta a rir-se pelas esquinas.
Se ali tinha ido reforçar alento estava-me a correr mal a visita, afinal tinha-os encontrado já todos a desistir, apesar de tantos anos de estudos e pensares, ou se calhar por isso mesmo. Não resisti, meti-me em brios a opor-me, tal como se no reconvencê-los me convencesse a mim mesmo, e agora em definitivo. Voz alta, invoquei então o nosso gringo com isso levantando sorrisos cúmplices de saudosos, mas estes eram já de velhos, reparei, semicerrados do tempo que passou e que fere mais do que toda a luz.
Sim, estava ali a idade, céptica, nas objecções, num “aqui entre nós” tudo aquilo era ingenuidade, como é possível tantos anos passados e ainda a acreditar que é mágico o real, que por aí se passeiam dragões, morais até? E que histórias aquelas, então bastava um toque de respeitinho, de os aceitar tal como são e surgem, e era logo a passear-nos pelas tocas dos bichos, estas de portas abertas à nossa presença, ainda para mais sem lhes dar nada em troca? E nesta borrasca já lá vinham para cima de mim, ameaçadoras, as habituais palmadas neste meu ombro, aquelas do "já são anos demais por lá, está na altura de regressares", esse célebre "perdido no mundo" quase sempre atirado a explicar estes meus devaneios, memórias, coisas da saudade certo, do desactualizado talvez, decerto a solidão ... enfim os camaradas apelos à realidade caseira, bem lá no fundo aquela que nos abre mesmo os olhos.
Assim cutucado não me fiquei, aquilo deixou de ser conversa, passara a despique. Insisti que havia uma boa resposta para tudo isso, para aquelas dúvidas, como bem tínhamos aprendido com o velho gringo. E essa era a moral, a tal moral mágica tal e qual o real, e se a seguíssemos tarde ou mais tarde (que o cedo já passou) se achariam os dragões, esses que nos aceitariam, se nos desvendariam, exactamente por causa desse respeito que demonstramos, aquele do nos darmos sem nunca comprar.
E nesta discussão ter-me-ei exaltado, agredi até, como era possível descrer? Tal seria como confundir o dar com o comprar. E que essas dúvidas que ali surgiam eram coisas de gente que tem pouco andar, ensimesmados nas próprias tocas, sem ver o mundo. Pois é aquela distinção tão fácil de saber, de fazer, saiba-se que o comprar é apenas o dar em troca, e já o dar é o muito mais partir o que se tem, o que nos sai da pele. E com isso lá virão os bichos, aceitando-nos, assim como nós os aceitamos, e iremos comungar. E, já bem afinado, desafiei como parada última um “vamos lá ao gringo, para tirar as teimas”, num tardio regresso a jovem aluno.
Mas aí foi o riso geral, e não tanto por causa da minha irritação. Pois às minhas historietas ainda ouviam, agora ao gajo nem pensar, e ali chispava a ironia. "Desilude-te", avançaram, e passaram às histórias, e não era só para me minarem as renovadas certezas. Pois não é que o homem continua a andar por aí à caça, mas sem grande sucesso ao que consta, e então insinua-se, agora deixa oferendas nas tocas a crer que assim os bichos lhe irão aparecer. E, pior do que tudo, para além de se gabar disso ainda reclama que se lhe paguem essas prendas, traz facturas e tudo, a resmungar pelos corredores que não ganha o suficiente. "Esqueceu-se do tal respeito", gozou alguém como que para rematar o assunto, "se é que alguma vez se lembrou", logo veio a recarga, e em toda aquela ironia já se sentiam laivos de piedade, nem percebi se dele ou de mim, mas talvez fosse de nós todos.
Custou-me a acreditar, ainda titubeei "mas...se quer que lhe paguem as ofertas que faz então é como se estivesse a comprar, e lá se lhe vai o real", tudo se lhe iria volatizar, e ele bem o sabe, tinha-nos ensinado. Então e ninguém o avisa? ninguém lho lembra? seria aquilo possível, tamanha a indiferença pela sorte de um velho professor? Ou seria nele um desespero já algo senil, anos corridos de frustrações, a desesperança de tornar a encontrar tais seres, e nós cruéis ali a gozá-lo? Como eu parecia não desistir alguém somou, descendo às minudências, como se com elas encerrasse a questão, como é quase sempre o efeito destas, “olha, agora quer que lhe paguemos o caju!”, o quê? ainda me franzi eu, “é isso, imagina que agora lhes dá caju...convenceu-se que os dragões são pobres, e que portanto assim sendo nunca comeram caju. E acredita que em comendo-o tanto vão gostar que dele ficarão amigos, lhe aparecerão, nem que seja por gula ou até reconhecimento”. Estanquei, incrédulo, e do meu espanto ainda me brotou "onde é que já se viu dragões a comer caju?".
Súbito ficou gélido o ambiente e, para não dar parte de fraco, pus-me a morder o Rothmans e a querer entrar, já atrasado, no jogo da ironia "então e quem é que lhes paga as cervejas? é que o caju chama-as e bem geladinhas”, mas aqui já nem tive resposta, todos nós ali mudos de vergonha ou angústia, ou de ambas, agora certos que defronte dum real que afinal não havia, duns bichos que nunca se nos chegariam.
Não resisti ao silêncio, retirei-me para casa até à Carolina, que até já estava no meu turno, e fiquei-me de guarda ao bichinho a remoer um whisky, aquecendo-o no tempo. Estúpido, distraí a memória, e deixei-me lembrar uma carolina preta, a filha duns tipos encontrados há anos, andava eu aos dragões. Entrei-lhes pela cabana dentro, de entrevista em punho e lá estava essa carolina preta, meia dúzia de meses pequena e já só o branco dos olhos do revirados que eles estavam, no colo da mãe, e esta defronte de mim sentada na esteira atrás do marido, e a diarreia não largava o bebé, e eu impávido a perguntar-lhes da machamba, e do algodão, e da frelimo, e da renamo, e do bafo do dragão, e o homem de braços cruzados a semirresponder, e eu era vampiro, e não dei dinheiro senão tudo virava irreal, e lá perdia o trabalho. Como a conversa não andava, pudera, avisei que voltaria no dia seguinte, e lá estavam eles à minha espera, eu de novo de entrevista em punho e a carolina preta, com o branco nos olhos do revirados que eles estavam, no colo da mãe, e esta defronte de mim sentada na esteira atrás do marido, e a diarreia não largava o bebé, e eu impávido a perguntar-lhes da machamba, e do algodão, e da frelimo, e da renamo, e do bafo do dragão, e o homem de braços cruzados a semirresponder, e eu era vampiro, e o bebé era óbvio que a morrer-se, e a mãe a agarrar-se a ela não fosse eu querer levar-lha ainda antes da hora, e eu para que tudo não virasse irreal não dei dinheiro, não os levei lá longe à Província ao hospital, e a carolina preta só inerte, os olhos revirados, e os pais apenas ali, e a cria do dragão a não medrar, e eu sem caju, sem lhes comprar caju, sem lhes dar caju...
Comem os dragões caju? Mas quem é que não gosta de caju?
Cabrão do gringo..!
Que porra de dia!
(Lisboa, Agosto 2002)
49. OLIVAIS
Em memória do Zé Monteiro, Senhor e Iconoclasta
O primeiro tipo que vi a xutar foi o J. Keke, para aí há uns 20 anos, estávamos todos na gruta do Venâncio. O Keke apareceu a pedir para dar lá o caldo e entrámos todos, a pensar que se ia fumar um charro. Ele não gostou, e eu também não que seringas nunca foi comigo, mas ainda precisou de ajuda para o garrote, hesitámos, ficámo-nos e foi a Nuxa que os teve para se chegar à frente. O Keke era da geração mais velha, junkie de sapato italiano, bem penteado, andar balançante e inchado, olho arqueado, tipo bonitão piroso. Depois a vida foi-lhe piorando, baldou-se para o estrangeiro constava que em curas, e um dia morreu em Itália de um tiro na cabeça. É certo que muitos anos depois, eu já trintão no café do Pinto, e ele entra-me, igual a sempre, todo atilado a pedir uma bica. E lá ficou, sorte dele. Outros morreram assim, também ao Persio lho aconteceu lá pelas vindimas estrangeiras, último refúgio de uns quantos, e estou eu a almoçar numa tasca com o coronel e o gajo a entrar a dizer que não está nada morto, e se pode almoçar connosco. Mas não estava lá muito bem, e afinal sempre se morreu passados uns tempos. E o Zombie, verdadeira série B, um tipo altíssimo e magrérrimo, todo baço do cinzento que era, assim alcunhado porque quando morreu de Od decidiu-se a acordar na morgue onde, contavam, causou um grande impressão, e até susto, do feio que era.
Nos xutos perdeu-se muita gente, alguns resistiram anos a fio e depois limparam-se, até era engraçado nas imperiais da esplanada e eles, sumol de ananás, limpinhos, a contarem das dores das curas. Outros foram morrendo, de amigos amigos assim só perdi o Zé M. que está aí na epígrafe, um Senhor que me faz saudades, Átila da retórica a erva não nascia sob as suas palavras. Outros perdi de outra maneira, estão vivos mas o seu desatino separou-nos, que se aprende a não ter paciência para os agarrados, alapam-se mesmo, só tantos anos depois percebi que quais matacanhas, que é bicho que nem conhecia à altura.
Quem cresceu nos Olivais sabe bem o que era a mistura de gentes, que era o que tinha a piada, foi o que retirámos do Salazar, que foi quem inventou o bairro, uma sopa de classes queria ele, a ver se melhorava o tempero, o dele claro está. Aos 9 anos saía-se da carrinha do Valsassina para a pedrada com os ciganos e havia quem logo fizesse alianças de classe com o Chica e o Pimenta, que penso perdurarem até hoje, caso seja necessário. Quando chegados a crescidos isso dá-nos um grande treino na vida, apesar das surpresas! E aprendemos que as drogas são como o futebol e a caça, os índios vêm de todas os estratos.
Lá pelos finais do liceu, quando tocou a rebate por causa das médias, havia imensa gente junta, nem se sabia bem como, que aquilo éramos aos magotes, saímos de todos os recantos. E também havia muito produto, as mercearias não faltavam, lá no Gordo, nos Candeeiros, no Brisa, nos Viveiros, no Ferrador. As mais pesadas diziam que era no Cambodja e no Modesto mas aí só ia quem conhecia e os tinha no sítio. E já nem falo do Comboio Parado e do Vietname, ambas na Cidade da Beira, mas a estas últimas nunca me cheguei, que essa era zona nada segura para nós, nunca percebi bem porquê, falta dos contactos certos, penso eu mas só hoje.
Da geração mais velha alguns já andavam aflitos com a heroína, o cavalo como dizia a xunga dos dealers. O ácido é que era coisa de filme, sabia-se que existia mas não era usual, e o que aparecia era só estricnina. Mais tarde fomos ao Burroughs e afins saber como aquilo funcionava. Fomos mesmo uma geração pós-acido e pré-pastilhas, essas que lá para os 90s puseram Lisboa aos pulos de madrugada com músicas que me tornaram avô, que aquilo era só barulho, e ainda para mais usada por gentes que só bebiam água, que desperdício de noites.
No início dos 80s foi a era dos drunfos, o ácido dos pobres. Noites quentes pelos cafés com dezenas de tipos meio aos gritos meio aos grunhidos, um bazar de comprimidos onde o rei era o Espanhol, um celta sem dentes, histriónico. Aí o pessoal graduava-se, o máximo era quem arranjava as panteras cor-de-rosa, o grande somio, coisa de tráfico, mas os mais bimbos ficavam-se nas farmácias das mãezinhas, as cujas iam esquecendo os maridos ausentes ou arredios à pala dos roips ou mandraxs, uma porra porque davam ganza mas tornavam-nos amnésicos. E era assim, erravam grupos anestesiados, nada para lembrar no dia seguinte, excepto pelo sóbrio que ia para tomar conta, quando o havia disponível. Acho que isso decaíu quando o Chico dos Drunfos se deixou morrer atropelado em plena Av. de Roma. No meio disto tudo usavam-se speeds, mais legítimos porque até vendidos nas farmácias. Os mais velhos falavam, saudosos, do lipoperdur, uma verdadeira lenda ainda hoje lembrada com frémitos, que lhes tinha permitido terminar o liceu no meio da festa. Mas tinha sido retirado do mercado, fascistas, pelo que rapaziada estudava e curtia à base de comprimidos para emagrecer, uma cena um bocado envergonhada, sem grande onda, e que cobrava o acelerar com ressacas chatas que não havia modo de enganar, era só estar acordado até passarem.
Mas o que reinava era o haxe, era a base moral daquilo tudo. Barato era, mas raro havia dinheiro para comprar as barras de gramas, pelo que ele nos chegava aos pintores, o vulgo de então para cem escudos cujas notas já nem existem. Era coisa de consumo constante, logo de manhãzinha um assobio lá em baixo na rua, às vezes ainda na cama era o aviso para sair a correr, o apelo à vaquinha que aquilo era coisa para fazer de preferência em grupo, se bem que a prática da marroquina, a bem democrática passa única inchada até rebentar, nunca fosse cumprida, para desespero de quem ficava para o fim, ali a remoer-se com as cinzas alheias. É certo que o brunhol era quase sempre muito misturado, em especial com aquelas cenas do shampoo, mas ia dando para não nos ficarmos atravessados. Pela diferença ficou célebre uma carga que deu à Costa, largada por qualquer traficante em apuros e prontamente recuperada ao circuito, tão bom era que anos depois ainda se dizia que o produto em causa “é da costa”, como selo da qualidade.
Já bem rara era a erva, coisa de retornado, mítica mesmo, uns tipos mais estranhos esses gajos de África, quase todos ali pela Portela, vá lá que faziam imensas festas, curtiam um bocado diferente do que nós, que nos chegávamos a eles e a elas, sempre na cola. Mas quando ela aparecia era altura de festa, levada aos sacos de plástico até de supermercado para os grandes momentos, esses quase sempre lá pelo velho Dramático em Cascais. Ou mesmo quando o Woodstock fez dez anos, a malta à meia-noite no cinema e gajos que até as mantas traziam, e vá lá que ninguém se despia na sala.
Com isto tudo também na nossa geração o pó se foi espalhando. Mas já havia várias versões, diferentes andamentos. Quem começava nas chinesas, a fumá-lo, levava logo na cabeça, que aquilo agarrava, que da chinesa ao xuto era um sopro, e eles a dizerem que não, que se aguentavam, mas todos sabíamos que depois era difícil sair. Certo que o Lou Reed já não xutava, que o Richards e o gémeo mudavam de sangue de seis em seis meses, dizia a Rock & Folk, mas aqueles heróis todos, especialmente os da guitarra fálica tinham-se passado. E até os mais velhos, Bird e Coltrane. Era só arrogância, “Ya, eu controlo”, mas se tanto o Hendrix como o vizinho do lado tinham marchado… e se havia gajos em muito mau estado ali à mão de semear! Neles era muito um puxar do cabelo para trás, um que se foda que o rock n’roll veio para ficar, rust never sleeps…Mas é certo que ninguém chegou lá distraído, sem o pessoal a encher-lhe a cabeça. Mesmo enquanto se enrolava um charro, que o tempo dos cachimbos da prata daqueles SG todos tinha passado à história, houve conferências sobre a matéria, posto que aquilo não era saudável. Até porque a imortalidade tinha sido questionada de modo radical, o próprio Marley se tinha ido pelo pulmão, de tanto cantar pela Kaya.
Falando de mim, do que me lembro não é só do ter a minha vida para viver, futuro saudável e feliz, e trá-lá-lá. Mas também da onda má do pó cortado, cheio de venenos misturados que nem sempre eram só Royal de Morango, do medo dos badagaios que davam aos junkies, de tantas histórias más de ods ouvidas contar, até da rapaziada conhecida. E lembro-me muito bem de não ser maluco para arriscar uma cena dessas, e comigo estava muito boa gente. Depois um dia lá fui para doutor, quis-me intelectual, levei um ano que nem a Bola comprava, aquela que ainda era a do tempo bom, o do Pai Pinhão, não era como é agora, e foi um tempo em que era só ciência, um mimo, nem hoje sei o que me deu. E com isto deixei de fumar aquelas merdas todas, que me punham lúcido, a perceber os estrilhos todos que a vida é. Como era coisa honesta, decente e culta, bebia quando tinha que ser, e tinha que ser muitas vezes, que a angústia continuava. Acho que continuou até me encher de amor pela Inês, e isso ainda levou uns anos.
Mas o festival continuou, aliás está aí. Agora, se volto ao bairro ainda encontro personagens dos velhos tempos, uma verdadeira arqueologia. Alguns regressaram, cerâmicas frágeis a colarem-se os cacos. Outros nem tanto. Partilham-se as mesas, algumas bebidas e, se afloradas as memórias, o saber de que sabiam de início. É certo que a dor só se sabe depois de sentida, mas sabiam que ia doer. Talvez não tanto. Mas quem foi, foi…
Envelheço, mas quando chego a um sítio estranho continuo a perceber a onda reinante. E em Lisboa, que hoje me é estranha, entram-me pelos olhos dentro as linhas de coca nos narizes alheios. Mas isso são mais os tipos da minha idade, o kitch do cartão de crédito, a cagança enrugada de quem não quer ser velho, nem que seja à força. Mas nem sei bem que drogas os putos consomem, essas sintéticas, nem os nomes lhes conheço. E se ainda há aquilo a que nós chamávamos, tontos, de contra-cultura. Acho que mesmo só o Rui Monteiro, sempre firme de Blitz em riste, nos poderá dizer. E se houver, seja lá o que isso for, se funciona à base de produto como nos tempos dos Freak Brothers.
Para quê estas memórias, tipo streap-tease canibal e autofágico? Lá bem no fundo, apenas um parvo em Maputo a fazer-se Kasdam. Sim, não há está aqui doutor (até mesmo esse jpt) a botar tese e suas muralhas. Mas apenas exorcismo, o exorcismo da enorme saudade. E da verdadeira, não dessa falsa poesia, pois aqui falo da saudade daquele antes.
(Maputo, Abril 2001)
Publicado por jpt às maio 9, 2006 05:52 AM
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Recebido em maio 9, 2006 11:25 AM