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Ma-Schamba: Ao Balcão da Cantina: fascículo 3

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maio 09, 2006

Ao Balcão da Cantina: fascículo 3

27. NUMA MISSÃO


Há dez anos (já?) cheguei a Moçambique para ir andando em direcção norte, boleias muitas, chapas e os ditos machibombos, a mochila às costas de então.

Fiquei-me em Montepuez. Uma malako no restaurante do João, tempos em que não havia electricidade daí que cervejas várias e quentes para ganhar embalo, o embalo para a árdua tarefa de roer o bicho, uma noite no Geptex onde, vá lá, havia água no balde. No dia seguinte visita à administração, “para saudar”, como já aprendera, e informar ao que vinha, e logo avançar à procura de aldeia onde viver. De preferência junto a estrada com carros, pois então ainda temia que a malária se pegasse fulminante. Mas antes, porque era obrigatório, visitei a célebre missão, padres holandeses há décadas no distrito.

Fui aí bem recebido, mas apenas pelo que era o último dos residentes, os outros três missionários, velhos, tinham morrido recentemente. Todos de cancro, “se calhar contagioso”, ironizou o padre assim logo cativando-me, homem alto, rijo nos seus cinquentas, bem-humorado, como se, fé à parte, ali desafiasse dor e morte por via daquele fugaz sorriso, atrevimento decerto. Lamentou não me poder ser de grande utilidade, pois só tinha chegado há dois anos, ainda nem falava bem o macua, desconhecedor da região, afirmava, dado o recente que ali era, um “recente” só mesmo ideia brotada desse “tempo” longo das missões, sempre contado em décadas ou séculos, coisa que sempre nos esmaga, meros humanos, individuais, sem deuses por detrás, e portanto condenados à mera passagem, seja ela qual seja. Chegara este depois de quase uma vida, décadas de Zâmbia (ou Malawi, já não estou certo). Os seus colegas já mortos, esses sim, tinham passado muitos anos aqui e, lamentou-o, então sem ironia, esses sim teriam sido benéficos à minha ânsia de informações.

Foi buscar as cervejas, até quase frias do gerador, e discorreu sobre macuas e macondes, sobre o fim da guerra, coisa recente nesse então, e o regresso de refugiados, ainda a decorrer. Tudo ali na varanda, mosquiteiros remendados, mobília rude, casa pobre como sempre o são as missões. E por todo o lado velhas bolas de futebol a remendar e equipamentos puídos. Surpreso indaguei o que era tudo aquilo, riu-se bem lá do fundo, e explicou-me o seu trabalho. A evangelização fazia-a pelo futebol, tinha organizado equipas de jovens em cada aldeia, transportava as equipas de miúdos no velho 4X4 da missão, e o campeonato lá se realizava: “a minha missão terminará quando Montepuez tiver uma equipa na I divisão nacional”, sorria, até tímido, como se esse semi-sonho fosse quase pecado. Tal como eu, a perceber-lhe o norte, pela estrada da transmissão da ideia de entreajuda, da comunidade, do espírito de equipe, da competição saudável, tudo isso em tempos tão difíceis e de necessária reconstrução. E, talvez até mais, rasgando ainda um bocado de horizontes aos meninos aldeões. Já agora, mas quase um apenas já agora, ligava-os à missão, à sua fé católica, num “a Bíblia vem depois!” que me abanou os preconceitos de ateu, e pouco dado a proselitismos de qualquer espécie.

Surpreendi-me, com este original e mesmo algo heterodoxo ali plantado. Até pelo tom. Disse-lho e aí sim começou a falar, naquele tom irónico da desilusão que vamos aprendendo com a vida, quando a vivemos. Invectivando os erros da igreja católica em África, resmungando com um Vaticano tão cheio de certezas mas sem nada perceber das realidades, assim incapaz de perseguir os objectivos propalados. Ainda hoje o ouço, certeiro, eu cujo Vaticano é outro mas tão semelhante nas certezas enfatuadas, e decerto ainda mais descarado nas irresponsabilidades retóricas.

E lá seguiu ele, criticando o Papa e sua hierarquia, assinalando-lhes toda a rigidez. Sem perceberem os diferentes locais e o como neles trabalhar, ainda que com séculos de experiência de evangelização. Sem olharem com olhos de ver e saber os sincretismos, ainda para mais vivendo numa fé católica ela feita de sincretismos outros, aqui apenas a exigirem serem actualizados. Incapazes de actuar na pobreza radical tão ricos se tornaram. E exemplificava com a atitude face à poligamia, que tanta gente afasta da igreja, e já me falava da Sida, num país então pouco alerta e onde falar do que o sexo implica era (e é) tão tabu, que os refugiados estavam a chegar carregando-a, avisava.

Confesso agora, e confessei-a então, a minha estupefacção. Ateu, ali recém-chegado e a escutar um discurso daqueles. Quase à saída, talvez já em pé, e já esquecido do que ali me tinha levado, afinal informações sobre a região, confessei-lhe um “nunca pensei encontrar aqui um discurso destes”. Riu-se, olhos brilhantes, rematando como se tudo justificasse “I’m a dutch!”.

Nunca mais o vi, procurei-o algumas vezes quando regressava a Montepuez mas sempre o desencontrei, decerto ele nas suas andanças futebolísticas, picada em picada, pelado em pelado, aldeia em aldeia, naquele seu “A Bíblia vem depois!”.

Todos estes anos passados fui até lá. Perguntei por ele, revisita que se me impunha. Alguém, até atrapalhado, constrangido, disse-mo já partido, que tinha saído à pressa há coisa de dois anos. “À pressa?”, lamentei, logo lembrado do tal cancro (“se calhar contagioso”), “estava doente?”. Mas não, da saúde não se queixou, teve de partir pois havia já muitas queixas de pedofilia. “O Qué?”, recusei, sem poder acreditar, monumental mácula em tão bela memória, decerto que boatos, influências dessas notícias do mundo lá fora, que agora todos o são, não pode ser mais que uma moda. Mas não, justificou-se o então interlocutor, infelizmente não era moda, queixas muitas, tantas e já não tão surdamente repetidas que a própria hierarquia o mandou embora.

Fiquei-me, e ainda aí estou, na minha desilusão. As belas ideias, a bela palavra. E, afinal, homem como os outros. Como nós.



(Maputo, Março 2004)


28. O CURTO CONTO DE FADAS

Ao Francisco José Viegas, que o provocou

Era uma vez um homem que perguntou a uma mulher:

- Quero casar aquela?

Ela respondeu:

- Aquela? Não. É magra. Aquela outra é melhor.

Ele respondeu:

- Tá bem.

Ela disse:

- He!, anda casar meu marido.

Daí estes, e ainda mais outras, viveram. Ele de ela em ela enquanto sim. Depois não.

Fim.



(Novembro 2005)



29. COFIÓS


Sala acima e sala abaixo, corredores entre corredores, isto quando fugido ao gabinete, são assim os dias de universidade. Mesmo que distraível no andar rápido tive que me dar conta, pelo dia-após-dia, das novas formas em matérias do tapar a cabeça, um cada vez mais os alunos de cofió ou similares, as alunas até alongando os arrendados, alguns destes de tão assim já quasi-parecendo os naperons da sala de visitas do semi-burguesote lá na minha terra (diluídas heranças moçárabes?), enfim vestimentas nesta dimensão coisa nova e tão estranha, até pelas memórias que me causam, as quais assim entrando-me vista adentro nem sorriso me retiram.

E deste modo tanto desvalorizando, fazendo até esquecer, as agora tornadas antigas boinas de operário, da iconografia dos meus meridianos, lenda até. Essas de pala à frente, em espasmos de cinéfilo a lembrarem-me o cinema francês quando este o era, boinas que até há tão recentes dias proletarizavam, cuidadosamente, a aparência da futura intelectualidade deste país. Atenção, por deveres de elegância, que decerto já não seria a ideologia a trazê-las aqui, a essas boinas, duvido que as saibam tapa-carecas tão importantes. Pois nesta geração quem conhecerá tais menires da revolução mundial?

Bem, divago. O que é certo é tanto rendilhado supra-capilar me levou ao espanto e daí, quiçá teológico, à indagação se não seria tudo isto uma prova, bem expressa, da expansão do islamismo, este cada vez mais visível ainda que as estatísticas oficiais não o confirmem?

Ouvindo-me, em pequeno círculo, a interrogação até descuidada, logo, lesto, um jovem assistente, desses que ainda mantêm vínculos de geração, interesse e humildade com os estudantes, se aprestou a desenganar-me. Que não, não se trata de religião, nestas vestes olhamos mesmo para uma nova moda. E nisto embrulha a afirmação, num sorriso concedendo, antropológico até, a causa: "foi o 11 de Setembro!".


(Maputo, Dezembro 2003)


30. MIL DESCULPAS


Madrugámos hoje para não perder tempo. Ontem comprei roupas brancas, a minha mulher já as tinha, acho-as mais apropriadas para isto. O meu sobrinho é que não veio, a mãe dele não deixou, e como não tem papas na língua disse-me logo que não quando fui lá pedir-lhe para que o rapaz nos acompanhasse, que era só o que faltava!, que eu nem tinha o direito de lhe pedir isso.

Assim viemos os dois, chegámos à Baixa de manhãzinha, e começámos logo que não há tempo a perder, fomos primeiro às ongs nacionais que por aqui estão instaladas, e depois subimos à Sé para falar com o senhor prior, havemos de descer a avenida para chegar à mesquita velha antes do meio-dia, e ainda temos as empresas, que são quase porta sim, porta sim. No caminho falamos com os transeuntes, e a todos dizemos ao que vimos, que lamentamos muito, que estamos arrependidos, que nem tínhamos pensado bem no assunto, que talvez nem tenha sido por mal, mas que enfim, pedimos muita desculpa por os termos escravizado, e pedimos ainda mais desculpa pelo colonialismo, que se calhar até foi pior nem que seja por mais recente.

Sou mais eu que falo, a minha mulher tem estado calada, ela nem queria vir, penso até que já se quer ir embora, mas eu insisti muito e ela veio só para me acompanhar, acha que eu não ando bem, sente-me um bocado deprimido, ainda não percebeu se são os quarenta anos a chegar, ou o meu emprego que não corre bem, se estou cansado de estar por aqui, se calhar até acha que arranjei uma outra, mais novinha, mas está enganada, ando é a matutar nestas coisas do mundo, que é bem complicado, e antes estava distraído.

É uma pena, as pessoas não estão muito avisadas, nos escritórios não nos recebem, adiam-nos reuniões para um depois incerto, insisto e digo ao que venho e torna-se mais difícil, mas não desisto, peço desculpas às secretárias, aos contínuos, aos guardas, e depois eles até são simpáticos e trazem-nos à rua, amáveis, e chamam as pessoas que passam para que nos ouçam, mas cá fora também nem todos nos aceitam, os homens fogem dos abraços, as mulheres protestam comigo, dizem-me atrevido, os miúdos, esses vão gozando connosco, mas é normal, são ainda inconscientes, até já está uma boa mão cheia atrás de nós, mas não percebo o que dizem, falam em ronga e changana, e eu peço muita desculpa mas ainda não aprendi as línguas daqui, é uma falta de respeito, prometo que começo amanhã, ainda hoje à tarde se não estiver muito cansado.

Encontro o Salimo, um libanês meu conhecido, mas diz-me que não acha piada nenhuma, que estou a gozar com ele, e lá continua, mal humorado, um homem de negócios, e o Akbar, um paquistanês amigo, também recusa as minhas desculpas, e diz-me para ter juízo, o Ferreira veio ter comigo, saíu do Banco quando lhe disseram que eu estava cá em baixo, e também o Bacelar que ainda aí está, ia a passar de carro, ambos a perguntarem se havia algum problema, mas não os percebo, não querem vir connosco pedir desculpas, eles que até são uns tipos óptimos, não estão sensibilizados para o assunto, deve ser isso.

A polícia pediu-me a identificação, foi uma chatice, esqueci-me dos papéis em casa, mas lá perdoaram quando lhes pedi desculpa, duplas desculpas neste caso, apesar de a princípio julgarem que estava a brincar. Foi um erro não trazer os documentos mas vim sem a carteira, pois só depois é que poderei vir entregar dinheiro para me ressarcir da nossa brutalidade, e parte hei-de dar às ongs que são a sociedade civil, outra parte às igrejas nacionais, e aqui não ligo às diferentes crenças, todos partilham um Deus comum, não é?, só não vou dar à Igreja Universal do Reino de Deus, parece que são muito aldrabões, e a outra parte hei-de dar aos pedintes, mais aos velhos e aos aleijados, coitados. Será um problema com as pessoas com quem vou falando, bem que lhes peço as moradas para depois lhes ir entregar, pessoalmente, o dinheiro, mas não mas dizem, desconfiam. Eu explico que não o posso dar de imediato, não estou muito abonado agora, mas estou à espera de uma consultoria para a U.E. e prometo que depois irei distribuir os euros que receber, ou os dolares, não interessa. Mas nem assim...

Parece-me que ao princípio acharam estranho, mas agora já não, continuo a pedir as desculpas, há ainda tanta gente a que não pude falar, aliás cada vez há mais gente que me quer perdoar, vejam lá a quantidade de pessoas aqui em redor, e sei que estão a gostar da nossa atitude, vejo-o nos sorrisos, ouço-o nos risos, é uma pena a minha mulher ter-se ido embora, bem insisti para que ficasse mas preferiu voltar para casa com a Isabel que apareceu por aqui com a Cristina, compreendo pois estava muito comovida, até chorava, ela é muito sensível.

Eu agora vou até ali à Fortaleza, onde tenho que pedir redobradas desculpas, sítio do tão antigamente, e também hei-de ir até à estação, e peço desculpas pelos mortos da I Guerra, essa que trouxemos para cá, e fico contente por outros se me estarem a juntar, chegaram os Fernandos, bons amigos, mas afinal só querem assistir, mas sempre é solidariedade, comunhão, penso que as pessoas em redor também o vão sentir.

A rapaziada minha amiga que está por aqui acha que já pedi desculpas de mais, que já chega, convidam-me para almoçar, ou talvez uma cervejinha, mas hoje não é dia disso, ainda há tanta gente para abraçar, fico contente com esta delegação, vieram do Núcleo de Arte, ah, os amigos pintores, ainda bem que vieram, peço-vos desculpa, estão vocês a ver?, tão bem aceites foram, Mestre dê aí mais um abraço, lamento muito...Ir até ao núcleo ver as novas obras, agora mesmo?...é pá, obrigado pelo convite, é uma honra, e é sempre um prazer, irei amanhã com todo o prazer, mas hoje não, desculpem-me, tenho que ficar por aqui, na Baixa...olha as meninas da feira, vou pedir desculpa, estas continuam a ser escravizadas, colonizadas, não Jaime, não estou perturbado, não me aconteceu nada, então que cara é essa meus amigos, só estou a fazer o que o meu governo quer fazer, há-de mandar fazer, o nosso governo somos nós, não somos?, é apenas preciso ter coração grande... Ó Ana, que é isso, não aconteceu nada aqui ao Teixeira, dá cá um abraço de desculpas, mais um beijo, lamento muito, já agora diz-me um poema.

Vejam como a cidade é pequena, afinal todos nos encontramos, até cá está o motorista da minha mulher, o Lopes, ó Lopes vem cá, tu és um velho colono, vem também pedir desculpa, que dizes? Vieste buscar-me...? ...chamam-me? quem?, problemas que só eu posso resolver ...? nada, quem sou eu ... não resolvo nada... a sério, ó pá! ó Bacelar não me empurres, ó Fernando não me agarrem, Jaime, está quieto, ó Lopes não me leves... não há problema nenhum, só quero pedir desculpa, é pá! larguem-me, vejam o pessoal a aplaudir, eles estão comigo, não me tirem daqui, não têm direito, eu estou bem, porra vocês estão a magoar-me, só quero dizer que lamento, pedir desculpa, desculpa. Vejam, eu tenho razão, todos a acenarem, a rirem, estão-me a compreender. Ò pá, que raio de amigos fui arranjar, deixem-me...

********************

Ok, ok, estou mais calmo, vamos lá ao Rodízio, comer bem também alivia, mas é para atacar valentemente no carrinho das aguardentes, não é?? Pagas tu Fernando?, porreiro, que não trouxe a carteira, estou à espera de umas consultorias, já vos contei?? sim!? desculpem lá, repito-me, é da impaciência.

Aperitivo? um gin duplo, mas abra já um Esporão reserva para respirar, tinto claro... O qué? ... o mercado mundial? ó pá, sobre isso não é para pedir desculpas, não é para falar nisso, eu cá sigo os passos do meu governo, as ideias do Estado, esse no mais tarde ou mais cedo, que é mostra do muito respeitinho, era o que faltava. Desculpas dessa coisa do mercado mundial? Nada, isso é coisa para daqui a umas décadas, outros que as peçam, lá na altura...

Qué?...afinal não estou assim tão maluco? Mas é claro que não...também vocês têm cada ideia!

Sim, sim, Massinga, queremos rodízio para todos, e bom apetite.



(a propósito da Conferência Mundial Contra o Racismo, organizada pela ONU, Durban, Setembro 2001)


31. A IDADE


Sim, a Idade! Já não se aproxima, pelo contrário, chegou até sorrateira, acampou, capinou, arroteou, feita “dona da terra”, e agora aí está, semeada, pujante, encanecida. Sei-o hoje, primeiro quase sem surdina....Uma pausa longa neste calor de Dezembro, um refresco de meio de tarde, deixando-se disfrutar, langores em esplanada nada habitual, a angústia de hoje a aqui desenfiar-se dos “olás, como vais” de sempre, neste ali à frente da já ruína casa do “ANC”, metáfora tão óbvia de tempos primeiros aqui, mas ainda mais dos de hoje. Enfim, eu descansando-me devagar, até acoitado, e, súbito, um outro cliente, para mim desconhecido, abala e no atravessar para o passeio saúda-me, até respeitoso, que isso o percebo pelo tom do seu “boa tarde, senhor doutor”.

Estremeço, enquanto agradeço retribuindo. Estremeço? Como não? se me é imutável o espelho, quero-o assim, protejo-o assim, esse onde me amiúdo, onde jamais encontrei algum reflexo de um qualquer alguém que assim possa ser saudado, um desconhecido de bairro boatardando-me num caminhando para o reverente. Foi, sei-o, tremor mais ao som do que ao dito, uma angústia brotada (e neste hoje sublinhada) no tom ouvido. Ali a aquecer-me (ainda mais) a coca-cola.

Sendo assim fujo dali, fujo de ancião, fujo do respeito alheio. Encalorado de novo, parto às minhas obrigações do dia, as finais, estas agora familiares. Uma breve passagem pela loja-armazém de brinquedos chineses, no longe do fundo da Luthuli, num carregamento destas pechinchas alegria dos meninos, e eis-me na direcção da Baixa, essa nova baixa tão tipo sul-africano, assim a baixaram os donos daqui. É a minha Carolina que lá está, em aniversário de amiguinho, melhor dizendo dois anos faz o já namorado Martim, e eu pai ali a encontrar a família. Aproximo-me, aquilo que mais não é do que uma mísera bomba de gasolina com o obrigatório pula-pula onde gritam algumas dezenas de miúdos, entre refrescos, óbvios pulos, batatas-fritas, choros e gritos, mães embevecidas e pais fotógrafos, e tudo já está exausto e eu ainda estou a chegar. E é então, aí no degrau da porta, que a menina primeira, dois anitos também ou talvez mesmo menos, vendo-me chegar com o saco dos presentes, o singular para o rapaz e mais toda a tralha para a minha menina, coisas do “já agora...”, mas essa menina primeira dizia eu, vendo-me chegar deixa no gume da estridência gritada desses seus dois anos e com a infinita sinceridade da idade o aviso, em total êxtase: “Mãããããe, o Pai Natal!!”

Segue-se a gargalhada geral, sim a terrível, indiscutível, crueldade dos adultos, esses sim monstros, e a essa hei-de, heróico, responder cópia do sorriso e até laivos de ironia. Até poder regressar ao meu esconderijo. Aí sim, esmagado.



(Bilene, Abril 2005)


32. CHE GUEVARA NA FEIRA POPULAR


Para o Francisco Noa

Hoje uma saída nocturna, uma incursão nesse afinal não mito daqui, o “sexta-feira, dia dos homens”. E, para mim, algo tão raro nos tempos actuais, e nunca o imaginaria assim há alguns anos. Combinámo-nos ali à praça da OMM, o meu amigo quer-me apresentar a um bar quase novo, até “complexo” ao que parece, local de companheiro seu e dele visita prometida e já muito adiada. Ali o encontrarei, um aperitivo e “depois se verá” quais as nossas paisagens para conversa e maldizeres.

Sou o primeiro mas nem espero, coincidência pontual, ei-lo ali. A apresentar-se numa das suas t-shirts estampadas com o tal Che Guevara, elegâncias nele até tardias, conquistas de recentes viagens do turismo académico, este sempre, e por mais óbvio que pareça ser o destino, coisas do bazarismo político. Não lhe perdoo estas vestes da ironia, bem sabe ele que abomino esse neo-ícone, em tempos de qualquer coisa facistóide e assassina, agora a querer-se dietético, “light”, fresco de uma moda assim muito alter, alterglobalização chamam-lhe até, em óbvios requebros. Não lhe perdoo, já disse, reajo à óbvia provocação, tal como o faço sempre que me invade a casa em propósitos semelhantes, que hoje não é a primeira afronta risonha. E daí o meu imediato “Foda-se, meu cabrão, agora fazes-me andar aí na rua com um comuna”. E ele a rir-se, é mesmo de propósito, a invectivar-me “que queres, é a revolução necessária!!”, a cutucar o tuga reaccionário, mesmo que para ele branco simpático, qual negativo do Sidney Poitier, a modos que branquinho bonzinho. E assim nos ficamos, nos obrigatórios insultos, a marinarem coisas de uma amizade.

É nisto que já estamos no tal aperitivo tornado vários, pois gente algo conhecida a surgir à mesa e por isso conversa vária, às vezes mole outras nem tanta, como é assim nestes assins. Depois lá chega o nosso “e agora?” e eis-nos a jantar na Feira Popular, fieis ao que aqui vai vigorando, isso de que, apesar do outro tudo, “para restaurantes não há como os portugueses” – e é aqui que lhe lembro a expressão que ouvi ao Rangel, mas que me diz ser de Samora, essa pérola do “só não descolonizei o estômago”, devaneio que logo nos dá para a teorização, nele deformação profissional, em mim prosápias de provocador: se há lusofonia o que ela é mesmo é gastronómica....e futebolística, acrescentamo-nos de rajada.

Enfim, lá avançamos o nosso jantar, bera diga-se, a injustificar o apreço universal pela tasca lusa, entre os tais maldizeres, as políticas que sempre vão mal, como é de sua natureza ou das nossas manias não sei, a eterna uma ou outra mulher do “ai se pudéssemos”, o “como está ele...?” sobre parcos amigos, trabalho e trabalho, livro ali e livro acolá, vá lá, para nos darmos o toque. “E agora?”, digestivos digeridos, “e agora?” Discoteca? bar? jazz? mas já?, se avançámos tanto que nem meia-noite é, e há que gozar a noite, arrastá-la. “Agora?”, e sou eu que desafio, “já que estamos aqui no portão então vamos passear na feira”, sei que ali uma miséria felliniana mas ao qual atribuí encanto, talvez mesmo por isso, no domínio da insensibilidade, sei-o, a do mais querer olhar.

E lá vamos, em vagares, a esmoer os pavorosos jantares, um par de quarentões, eu oscilando a rotunda barriga, nítido tuga desses matrecos até recém-chegados, ele escondendo a sua na brilhante t-shirt guevarista e, nem que seja por esta, óbvio “estrutura” local, deste modo a rejuvenescer-se com velhas ideias, a esquecer-se do hoje. E nisso caminhamo-nos para além do Coqueiro, o zambeziano quase fronteira, que o império não-familiar começa por aí, é-nos um passeio a demorar a decadência da decadente Feira, mais fechadas as barracas restaurantes, vazias as discotecas-bordéis. Mas isso é o do todas as vezes por aqui, que esta sempre parece pior do que antes. Mas continua, impávida e, portanto, decerto lucrativa.

Nisto do ir andando cruzamos duas raparigas, jovens, bonitas, bem postas como se dizia antes do nosso tempo, que nos saúdam, sorrisos largos, e mais a mim, num “boa noite, como estás?”, ao que respondo, simétrico, em palavras e sorriso mas continuando a andar, nisso decerto menos afável. Mas uma delas, mais decidida, avança e interrompe-me, os dois beijos lestos, sempre ditos “beijinhos”, a surpreender-me, e eu no arquear de sobrancelhas “Nós conhecemo-nos?”, a interrogar-nos, que isto de ser professor, e algo distraído ainda para mais, traz constantes surpresas. Mas que “sim, conheço-te do Piri-Piri, costumo ver-te lá”, “ah”, sossego, a aferir o registo e então deixo-lhe o meu melhor gentil “então boa noite, obrigado, até à vista”, um adeus que é logo barrado num ainda mais simpático “Vocês não querem companhia?” e nós, sempre sorridentes, num coro de “não, obrigado, não é preciso”, e eu acrescento, para não lhes ferir as susceptibilidades, e já agora também para auto-justificação, a explicar a recusa, “somos amigos, viemos só passear”, que isto não é por causa delas, não é desprezo, não senhora, ao que a mais primeira, à tal reclamação de amizade, confirma “sim, eu sei, costumo ver-vos juntos no Piri-Piri”, e aqui já está a inventar, reunir ambiente, numa insistência do oferecimento. E eu a repetir-me, no sorriso e no “não estamos a precisar”, as meninas que não levem a mal, somos só amigos a ver passar a noite, e esta mais atrevida logo num “oh!!” duvidoso, que melhor companhia poderemos nós esperar mais à frente?

O meu parceiro decide intervir, decerto sabedor que é mais este branco que as acicata, mais dados aos dolares fáceis somos nós, ao que se diz e deve ser verdade. E que por isso ser-lhe-á mais fácil resolver aquele nada impasse, apenas coisa de gentileza bem-disposta, do continuar a andar sem desagrados, do sempre tratar bem as mulheres, ainda para mais neste aqui, “sabes, é isso mesmo, somos amigos, estamos só a passear”, o que até é, e mais pelo tom, um agradecimento a tão simpática oferta.

Mas nessa sua insistência vem ele mudar o ambiente, a brotar um gelo no olhar da rapariga, aquela mais provocante, súbito um diálogo entre ambos, eu de imediato de fora, estrangeiro excluído, “São amigos? Claro, vê-se! É por isso que andas com a cara dele na t-shirt?”, ao que ambos estancámos, um abismo de surpresa, deliciosa para mim, nem tanto para ele agora rubro (sim, rubro) de espanto, e ela a avançar, agora ácida, o desprezo à solta “E tu não tens vergonha? Não tens vergonha de andar com essa t-shirt”, e eu, até cruel, já me estou a rir, ele com um embaraço gigantesco, tentáculos na voz, sem mesmo balbuciar, o que poderá ele dizer?, e eu, malévolo, a sublinhar, “é isso mesmo ... somos amigos, eu é que lhe fui eu que lhe ofereci esta minha t-shirt, ele gosta de mim e usa-a”, e o meu amigo, ali desgraçado, resmungando (a implorar-me o silêncio?), a necessitar de uns passos à frente para também ele se poder rir desse seu Che Guevara, afinal na sua terra, às suas vizinhas, ícone coisa tão outra.

Ainda nos estamos a rir, gargalhadas, quando entramos na primeira porta, refúgio mesmo. E eu já com a esperança que se tenha perdido aquele altercomunista, voltemo-nos burgueses. Aliás, a noite está aí, é certo que assim voltaremos.



(Maputo, Junho 2005)


33. CERVANTES NA MINHA MESA (E COM PITADA DE CALVINO)

[A propósito da efeméride corrente, o centenário da edição do D. Quixote, uma pequena historieta, dessas sem qualquer moral a poluir.]


Há anos, um bom par já, acampei em mesa de letras e alguns líquidos também. Aqui aprendi que as palavras são como as castanhas de caju, e foi nesse frenético andar que fomos afinal saltitando até à literatura portuguesa, são estes os riscos de partilhar fins-de-tarde com académicos até renomados. E nisso fui eu, e sem o querer pois ali mais preocupado com o meu dessedentar, logo ali promovido a representante da cultura minha nacional, coitada, coisas de passaporte, pois claro. Eu bem que o percebi, mal começaram os encómios e reparos aos escritores, em particular a esses novos, olhares e baforadas de cigarros desviaram-se mais sobre mim à espera de concordâncias e anuências, como se estas, e logo as minhas, valessem de algo nisso que é mais dos gostos, acho eu. Plantei-me no silêncio, nesses silêncios esconsos dos "hum, hum...", “pois!”, "sim, sim", mas ainda mais dos jogos de sobrancelhas e meneares, ainda que estes másculos assim o espero. Isto a ver se tudo passava, saindo eu incólume. Mas logo me irromperam, enérgicos na exigência da sentença, sorridentes impiedosos num "E que achas do José Riço Direitinho?", ele ali a ser elogiado, e nada pouco. Eu, até quase aflito, lá tive que confessar, abatido, naquela voz rouca do perdão apelado, "he pá, nunca o li", e era apenas constatação, fraco leitor eu, sem nesga de acinte, jurei-o.

Mas o tom de nada me serviu, isto desgraçou-me, o relapso ignorante foi logo sentenciado num “Nunca leste o Riço Direitinho?!!!”, verbal num conviva, gestual em todos os outros, rictos de zanga desiludida adivinhei, insistência nos “como é possível?!”, e logo o coro, um pouco desirmanado é certo, “o Riço Direitinho é fundamental, Teixeira”. E eu ali no sorriso falso a tentar tirar importância ao caso, mas tinha brotado um vulcão de nada de simpatias, a rapaziada encarnara-se jurados implacáveis. Acho que o que me salvou foi mesmo o ror de whiskies já antepassados, súbito empurrando-me para o desabrido num “olha que caralho! Sim, nunca li o Riço Direitinho, e depois? E vocês (sei lá de que manga fui buscar o trunfo) leram o D. Quixote? Sim, já leram o Cervantes? He, he, não se esqueçam, reparem bem que esse também foi meu compatriota...já o leram, vá?!”. Não há dúvidas, ele há rasgos, magnífica jogada, um silêncio agora alheio, risos até, “nada, nada”, “hé pá, não li, não senhor” e por aí de negativas, essas feitas um espelho de "tens razão". Eu, então já magnânimo do safo que estava, quebrei o assunto, não me lembro exactamente mas conhecendo-me como me conheço devo ter resmungado um sorridente mas repetido “vão-se foder” pedindo nova rodada, articulando as literaturas do gin tónico, do whisky e da 2M, e aqui sem hierarquias de saberes, em especial se condimentadas com o tal já referido caju, amais chamussa ali ou acolá.

Minto, claro, esta historieta vai com tanta moral que quase se torna fábula, assim animalizando-me. Então, conforme aos cânones, lá vai a súmula moralista: no dia seguinte, meio escondido, lá fui procurar Riço Direitinho no Maputo, já que tão elogiado. Saíu-me um único, o “Breviário das Más Inclinações”, que vim a ler com agrado. E assim protegendo-me de futuras e tão implacáveis mesas.


(2005)



34. DIA DOS NAMORADOS

Maputo de noite cheia, azáfama quasi-noctívaga de trânsito como se hora de ponta, essa que agora chegou, desmaputizando o “meu” maputo, queixas só suaves com o "semaforismo" ausente, todos os restaurantes cheios mesmo aqueles que nunca, rosas muitas em mãos compradoras e outras já nas receptoras, casais (até os tristes) bem vestidos acompanhando-se, é o dia ... esse que apareceu há meia dúzia de anos, sei-o bem, acompanhei a instalação. A mim sobra-me aula nocturna, a primeira do ano, turma ausente, apenas uma aluna, senhora já, sorrindo à total ausência (merecida, merecida) à ritual "apresentação", caloiros relapsos. Dou-lhe um mito, o primeiro mito universitário porventura, os "dez minutos académicos" (5, 15, não depende isso do narrador?), depois "vamos lá embora" que haveremos de recomeçar. Que ontem foi dia de "namorado amador", profissional tem o resto da vida, hei-de biliar. Ainda beberei café no caminho da casa, mesa de canto em restaurante apinhado no meio dos tais comensais emparelhados, meros cinco minutos roubando-lhes bocados, mesa a mesa. Nem uma mão na mão, nem tampouco mão na perna (quem bem procurei, indiscreto até indelicado), nem o rápid passar mão na cara, essa festa palavra assim linda, nem afago no cabelo, nem beijo qu'isso seria demais ainda que dos castos. Estão só ali, falas poucas, levaram-nos a jantar e ele foram. Saio, noite de dia do namorado reformado. Também já vou assim?


(Fevereiro 2006)


35. ÁGUA DE COCO

Ao Miguel Bidarra (MB), lesto a saber sair de um café quente demais

Uma recepção diplomática. À conversa quatro senhoras de diferentes países, como nesses ambientes é evidência, costume e até obrigação, ali a sociedade expatriada, com suas coisas e quês no dia, mais misturada no local pelos anseios das noites. Uma delas, jovem nela e no aqui, pois ainda recém-chegada, disserta entre o animada e o (muito) aliviada sobre esse último ano que viveu em Nairobi. Cidade terrível afiança, qual a Joanesburgo que por cá todos (des)conhecemos e tememos, uma Nairobi terra de crime constante, estrangeiros aterrorizados e os locais também, vidas encerradas em bunkers os que as podem, os tantos outros talvez ainda mais aflitos, desprovidos que estão dos exércitos de mão para lhes proteger coisas e famílias.

E é nessa memória, tão recente, que lhe nasce todo aquele o “ha!” que arrasta, nele se repousa, rejubila até, com toda esta diferença, este estar em Maputo, local de segurança, tanta calma que se entranha, tudo isto nada típico das capitais africanas, esta vida aprazível, suave de clima, suave de gente. E logo todas as outras com ela concordam, também aliviadas, refrescadas (quem diria?), pelo que o destino lhes está a reservar para estes inícios da idade mais ponderada.

Mas naqueles “sim-sim” outras lembranças lhes foram avivadas, coisa de fazer brotar breve pausa no convívio, assim como se cada uma se pusesse a conversar consigo própria, até indelicadeza em tais momentos, excessos de fra(n)queza quebras da etiqueta para momentos diplomáticos. E, como se para quebrar tal nesga de imprevisto silêncio, logo enceta uma das visitas, “Bem tudo isso é verdade .. mas ainda assim o outro dia fui assaltada na F. Engels (“na Engels??!!” quase-a-interrompem, a surpresa tida de coisa assim em tão pacato e belo local de embaixadas), estava a passear com os meus filhos e, para me roubarem a mala, empurraram-me pela ribanceira abaixo, foi terrível, o susto e a queda, e o pior ainda foi os pequeninos em pânico, a tudo assistindo". E logo outra, como se a calar o frémito do susto, muito mais do que em concorrência de aventuras desgraciosas, desabafa "a nós assaltaram-nos a casa para nos roubar uma mobília que tínhamos acabado de comprar, alguém que a viu chegar (ou até mesmo o próprio que a vendeu, se calhar), o meu marido não estava em casa e eu já muito grávida dos gémeos. E ainda assim espancaram-me violentamente". O horror do episódio pede silêncio, mesmo reflexão, até porque a pobre sabe bem quem a mandou assaltar, apenas este narrador se exime de o reproduzir, e tão importante é que tudo piora, tanta beleza desvanece. Mas logo outra – e a esta conheço melhor, minha mais que intíma – remata “pois, e há dias estava no café, o Nautilus, aquele da esquina da Nyerere, conhecem?, em pleno sábado de manhã, e assaltaram a casa de câmbios defronte, mesmo do outro lado da rua, foi um tiroteio de meia hora, mortos e feridos, só assaltantes morreram três ali mesmo, e nós todos no chão, outros fechados na casa de banho, as balas a voarem casa dentro, dois dos clientes feridos por balas perdidas, um terror...”.

Afinal afinal ... a desatarem-se coisas assim, memórias quase-esquecidas de coisas do tão de hoje? Mas desabafos feitos, esconjuros claro, entreolham-se as senhoras, ali em em plena recepção com conversa tão pouco diplomática, coisas do verdadeiro dia-a-dia. De súbito lembradas que tanto vivem o seu quotidiano, tanto o vestem, que até esquecem tudo isto, até se sentem seguras. E depois disto servem-se de mais um gin, "fraquinho, s.f.f.", um vinho branco talvez, e acompanham com uma ou outra chamussa, e regressam à “cooperação”, ao “desenvolvimento”, pitada de “good governance” e, imagino, hão-de abordar “gender issues”.

São rijas estas nossas mulheres, nossa sorte, nossos amores. Mas, pensando bem, não haverá também por aqui algo que as adormece, que este assim faz esquecer, coisas-pormenores torna. Será isso a sempre tão falada água de coco?



(Maputo, 18.3.04)


36. (AFINAL) EM TERRAS DO JUIZ LYNCH


Era uma missão internacional aqui, a olhar o desenvolvimento e a política grande. Recebidos os bastantes participantes, convocados os escassos estrangeiros residentes, lá nos reunimos para o necessário “briefing”, momento de sempre acertar pormenores e pormaiores do por aqui, um escrutínio até detalhado, assim a aferir essa futura quinzena por todo o país. No final, e como mera nota de rodapé, veio o aviso, esse do universal “o seguro morreu de velho”. Entre o qual lá chegou coisa dos cuidados na estrada, que se algum de nós atropelasse alguém logo deveria fugir, procurando a esquadra mais próxima, aí informar e, se possível, organizar socorros. Atitude nada estranha disse-se, necessidade atribuída ao hábito local, tal como em outros países africanos, de linchar os condutores, e até os passageiros, envolvidos nestes acidentes. Perigos ainda maiores quando as vítimas eram crianças e mais efectivos nas regiões rurais, caminhadas por gentes com diferentes hábitos rodoviários e também menor crença nas autoridades judiciais, até pela sua relativa ausência.

Naquele entre-nós, a “comunidade internacional” no terreno, insurgi-me. Talvez, reconheço, porque então já mais do que enfastiado com o enciclopédico, por supra-minucioso, seminário dito “briefing”, coisas do meu mau-feitio até epidérmico. Ali senior residente, algo até de estatuto poist então, e usando tom de voz apropriado a tal condição, duvidei de tais situações, resmunguei sobre tal visão mitológica de uma África homogénea, sustos de quem ainda lhe vê o “horror” da “selva”, assim apelando às literaturas antigas, excelentes que sejam. Enfim, antropologizei(-me). E nisso continuei, presumo que até emocionado, cutucando com a escassez de ambulâncias, e esta mais no campo, dali saltando até à responsabilidade, a da entreajuda, do socorro imediato. Enfim, moralizando(-me). Finalmente, e embalado pela melodia das minhas palavras, lá culminei, demagogo, considerando surpreendente que nós, missão internacional tão responsável, nos propussemos a tais insensibilidades.

Só depois, já fora da sala, refrescado no ar até fresco desse dia, esvaída a minha impaciência sempre chegada com as longas minudências alheias, me deixei a sorrir sobre tamanho ditirambo, eu que nem sou de muito me empolgar em defesas de bons-sentimentos, mais a dar-me a iras por coisas nadas. Diante de mim anuí, aquilo até parecia coisa de moçambicano, desagradado com tais imagens da sua gente em bocas estrangeiras. “Estou a moçambicanizar-me”, sorri-me como se desculpando-me a mim mesmo, um deslize apenas, ou a minha eterna mania da contradição, essa carreira abortada de advogado do diabo?

Lá se passou a dita missão sem novidades de maior, e logo depois, lestos, correram os meses. Nisto, ontem mesmo, uma segunda-feira matinal, telefonou-me um colega amigo, em aflição de abatimento, a solicitar ajuda, necessidade até mais psicológica do que outra qualquer, como empolar os meus préstimos de estrangeiro a alguém daqui mesmo? Pois, balbuciava-me ele ao telefone, na véspera atropelara, e mortalmente, um homem. Um azar, adivinhei-lhe quando a ele me juntei no breve que me foi possível, ouvindo-o no triste relato do acontecido, ele em hesitações até incomodadas, pruridos de respeito, a evitar sublinhar a óbvia bebedeira bamboleante, distraída e errática do entretanto falecido. Pois se este já assim para quê referir-lhe as fragilidades finais?

Mas lá narrou o episódio, catarse, e assim também caminho de calma. Na hora de jantar do domingo, o final de fim-de-semana, o regresso a casa nas avenidas do grande Maputo, interrompido pelo alheamento pedonal da sua vítima, o pobre homem ali logo falecido, coisa do imediato. Ouvi o seu susto, a sua dor, trauma mesmo, ainda mais nele, jovem, a primeira vez da morte perto, que há sempre uma primeira vez, até para esta que para todos será a última vez. E, disse-mo e eu imagino-o, ali só diante dessa morte, assustado e até arrependido, neste arrependimento do amaldiçoar passar no sítio errado à hora errada, como se tivessemos nós momentos certos para este nosso andar. E de imediato telefonando socorros, ainda que sabendo-os tardios pelo já sem-vida alheio. Pois nesse quase-logo, nessa espera, logo foi rodeado pela multidão exaltada, ali comparecida no após ocasião, lesta no tomar partido, sempre o do mais fraco, agora decididamente mais fraco pois já morto, tal como imediata no julgar e actuar, pronta a executar a voz e a razão do povo, a morte do condutor, agitando a lei da total reciprocidade, “mataste, morrerás”. Veio também a sorte, essa mão amiga do “às vezes”, e nesse minuto de desamparo e desatino naquela avenida secundária passou um outro carro e, apesar do breu já noite, ali vingou o olhar cúmplice de automobilista, arriscando a paragem para a salvadora boleia, arrancando o meu amigo da turba assassina.

Depois, algo depois, já resolvida a questão, guiando no meu regresso a casa, não deixei de me recordar daquela minha acalorada intervenção, feito sábio empírico e moralista diante da então até atrapalhada missão internacional. Palavras erróneas, como sempre o acalorado arrisca. E o moralista, claro está. E ali fui pensando, ainda que então de atenção redobrada ao volante, sobre estes Lynchs locais. Esses que, mesmo sem leituras apressadas, me surgem como gritando este enorme abismo entre uma população desapossada e todos os seus (ainda poucos) patrícios que, pelo menos, partilham da benesse de uma viatura, se sua propriedade ou não pouco importa, ela um extraordinário signo de distinção, de elevação, algo que logo os torna diferentes do imenso mundo pedonal. Até mesmo oponentes. Assim gente de um outro mundo, quase sobrenatural, e portanto gente culpada de imediato. Diferenças? Hierarquias? Estratificações, dizem os doutores? Mais do que tudo um rasgão neste mundo, mas ainda não uma cicatriz, ainda apenas uma chaga, a chaga não mediada, não desinfectada. Dolorosa. As purulências da incompreensão de tudo isto? Ou da compreensão?



(Maputo, 2004)


37. CHAPÉU

Ufano, lá vou eu em plena Nyerere com o meu chapéu novo (trazido chapelaria Azevedo Rua, ao Rossio), até sonho de jovem, este de me chapear. E, garanto, surpresa!, desde que chegado assunto de conversa constante, o instrumento mais polissémico que já me honrou, de esquerdista a boer tudo me assenta bem desde então, redobradas atenções sobre a minha cabeça, sorrisos e cumplicidades sublinhadas. Soubera eu e há muito que me houvera coberto. E nisso lá vou, repito-me, mais seguro de mim mesmo. Mas à porta do banco, eu uma mão a abri-la outra de cartão já a assomar, o sorridente guarda Alfa nem hesita: "Lá dentro tem que tirar o chapéu". Espanto-me, estupefacto mesmo, e enquanto me descubro, coisa do sempre no debaixo de tecto, ouvida nos avós e, no muito depois, impingida na tropa, ainda consigo sorrir ao dizer-lhe, quase pergunta, "guarda, v. está a mandar-me tirar o chapéu?", e ele que sim, que lá dentro, "cá dentro" já, tenho que o fazer. "Mas isso é questão de educação, nisso v. não pode mandar nos clientes" mas já nem é conversa, ele continua a sorrir e a confirmar o "é assim", o sorriso e o assim de uma autoridade convicta. Que lhe virá, talvez, daquela pobre farda que ele tão imagina.
Ainda assim fico-me na fila do ATM, ao dinheiro do fim-de-semana. Nem surpresa é, acabrunhado, chapéu nas mãos, "paisano". O cliente da frente, brasileiro, murmura solidário um "ele mandou-lhe tirar o chapéu?" e trocamos esgares.
Depois saio para a cacimba quase chuva, fria hoje. Nyerere abaixo, milhões no bolso. E chapéu na mão ...



(Outubro 2005)



38. IDADE?

Ali às portas do Pérola, o “Pérola de Maputo” a nova “montra dos tugas” destes tempos, logo na chegada, apresenta-se o dito Philip, talvez Filipe não sei, como sempre carregado de dvds legitimamente piratas, meu fornecedor habitual, coisa de telemóvel dado, cartão de visita e tudo, que o negócio vai-lhe florescendo, flibusteiro do “informal” como tantos. "Vendeste-me um dvd estragado", resmungo-lhe, "não há problema tio, quero-te satisfeito, troco já, qual era?", "esse da guerra dos mundos" "tenho aqui", "e também já tenho aquele que a senhora encomendou" "qual? o quê?", "este aqui, para a menina", ah, o madagáscar, "tá bem, quanto é?" "aquele preço de sempre, já sabe". Estou a pagar, ele aproximado no receber, e mais cúmplice que sempre baixa a voz entre-sorrisos, ainda que nós ali sozinhos, "e não está a precisar daqueles filmes para idade avançada?". "Ixe, ainda ... ". Filho-da-mãe, ali na gentileza do dealer do porno e a chamar-me velho.




(Nov 2005)


39. POWER POINT


São já vários os anos, e nem tão poucos, que este meu amigo vem passando nas artes e ofícios do desenvolver, até comércio dizem-no agora, um modo honesto e empenhado de ganhar a vida, sim senhor, ainda que haja quem a este negue méritos, se cinismos ou invejas ou ambos não sei, apenas acompanho. Hoje mesmo, talvez pelo calor de esplanada que nos arrasta o tempo e lhe extrema (deito-me a adivinhar) o fastio, de súbito deixa subir, e fala-o, um inédito cansaço com toda essa indústria de projectos e planos integrados, seminários de apresentação, discussão e avaliação, planificações intermédias e globais, consultorias e termos de referência, amais sumários executivos, acções de capacitação e cursos de formação, dossiers e tantos mais, ainda que tudo debruado a per diem, e talvez mesmo por causa destes últimos. Fala-o, a esse cansaço, pois quase no levantarmo-nos da mesa, conta já paga até, enceta as despedidas num, como se viesse a propósito, “Este meu país”, corolário dele, “é um país em power point”.


(Maputo, Janeiro 2005)



40. DA CORRECÇÃO EM COISAS DO GÉNERO: episódio 1


Sempre lembro aquela jovem colega. Espanhola de Estado mas de muito autonómica vontade. Algum tempo, e não tão pouco o foi, aqui colegámos, ela mergulhada nas questões do género, gente fruto do seu tempo, o este, mas como não o sermos? Feminista rija, quase até mais não. E digo-o agora pois lembro-a sempre ríspida na conversa, até nos actos. Coisas do radicalismo e juventude, diziam alguns, aqueles que nos rodeavam. E eu a negá-los, a pensá-las ao contrário, às tais coisas, sabendo-as a prometerem um crescendo com a idade que lhe aí vinha. E também entrevendo naquela toda rispidez um mais desprezo por mim e pelos meus, não só homens mas ainda por cima piores-que-meros colonialistas pois seus descendentes, e assim sendo não apenas míseros conservadores pois gente de antanhos deploráveis. Enfim, adivinhava-lhe, e sem minha argúcia particular, desgosto particular por nós, coisas exploratórias, se antes então sempre. E tudo isto misturava-se com não pequeno toque de má-educação, esse mesmo que há quem pense ser o tal já dito radicalismo, ainda que eu o acredite pacientemente elaborado, coisa portanto feita de educação.

Não se pense que a desgostei, bem pelo contrário. E talvez por isso toda esta memória. Com ela fui-me descobrindo no beneplácito sempre devido às mulheres bonitas, ainda que neste caso algo mitigado pela minha ocasional impaciência. Mas também reforçando-se na pequena, ainda que muda, perversão, essa do agrado a quem o recusaria se lhe compreendesse a origem, maldades machistas confesso. E beneplácito esse logo redobrado no prazer que sentia quando a via invectivar de conservadores (e até de reaccionários) os meus colegas, em especial se patrícios por cá de passagem, tremelicando-lhes as belas auto-imagens de pensadores críticos e, até, radicais. Desmontando-as até, por vezes.

É a imagem desses seus apogeus de “correctismo”, plenos de afã, que mais me vão regressando, excertos de memórias, trechos que me trazem sorrisos. Neles abunda no regresso um que verdadeiro arquétipo.Certo dia em conversa conjunta referi a "minha mulher", não me lembro a que propósito, o que seria difícil pois tal é-me hábito, constante que ela me é. Fulminou-me, um esgar mortífero, o desprezo vincado, a contraposição ridicularizadora sob voz bem aguda "tua mulher? pertence-te? compraste-a?" e eu, a imaginar-me a cara espantada (por esta nem dela esperava) ainda ali a matizar "ouve lá, ela também diz "meu marido"" mas isso já nem lhe interessava, nem ouviu, tão na raiva contra a incorrecção, o verme machista, burguês patrimonialista que eu ali era.

Lembro-me imenso dela. Aliás, estão sempre a lembrar-me dela, surge-me, lesta, em entre-textos vários por aí fora. Por vezes, em silêncio, solidário, até brindo ao homem dela. Perdão, ao "homem que vai estando junto dela" ou lá o que seja.



(Maputo, Novembro 2005)




II. UM EMIGRANTE EM MOÇAMBIQUE


41. UM JANTAR EM MAPUTO


Ao Fernando Veloso, amigo e co-comensal

Já passaram muitos anos, mais até do que deviam, desde o jantar que agora recordo. Eram tempos outros aqui, eu ainda quase-chegado, nos quais se apregoava o “regresso dos portugueses”, dizer então por tantos ecoado, um isso talvez aspirado lá na minha longínqua terra e por cá decerto muito resmungado. Mas tudo era, e no acima de tudo, coisa de grande exagero, cá e lá, lá e cá. E já na altura o era fácil adivinhar, quanto mais sabido o é no hoje então futuro.

Nesse durante, entre o corropio de conversas e aviões, aportou a Maputo uma célebre jornalista patrícia, vinda a reportar o tal regresso, os caminhos havidos e os já brilhos. Não era raro este tipo de visita, parecia até tipo o trabalho, dir-se-ia agenda colectiva, alguns a tinham precedido outros a perseguiram, teores e tons tão iguais. Mas rara era, mesmo, a muita fama agora companheira de viagem. E também a grandeza do jornal acolhedor. Assim sendo, logo que fora anunciada a iminente chegada, foi a visita esperada, comentada em murmúrios, nas antevisões da sua presença, até preparativos de obséquios, alindamentos generalizados. Sonhos até de ficar na fotografia. Ou, pelo menos, no texto.

Nessa breve estadia coube-me um seu jantar, este mesmo que aqui recordo, eu procurando não borrar imagem própria, ainda que apenas entremeando um conjunto de individualidades moçambicanas, bem pensantes todos elas, onde pontificavam jornalistas, médicos renomados, escritores, professores, guias de movimentos sociais, qual corte geológico na aqui elite nacional. Alegrei-me, com tal painel ser-me-ia fácil não ser notado, julguei. O objectivo do repasto era explícito, que à (boa) mesa refogasse ambiente amigo, que durante a degustação, palato acalmado, os renomados locais pudessem ecoar o quão bom aqui se considerava esse tal nosso regresso e, até, quais os anseios que este vinha colmatar. Decerto esperava o anfitrião, e também o desejava eu, que fosse amigável o diálogo, sublinhado pelo informal do ambiente, positivas as conclusões mesmo que transparecendo, aqui e ali, alguns “mas...”, esses “mas...” obrigatórios em conversas francas e inteligentes. Mas “mas...” minúsculos, com certeza.

No entanto o futuro, mesmo esse do curtissimo prazo, é aberto, caminho minado. E, mal-grado as expectativas, e tamanha planificação, aconteceu despiste! Nunca soube exactamente o que tal provocou, males do repasto não terá sido, apreciável a cozinha, impecável a garrafeira, cavalheiro o “dono da mesa”. Tudo terá sido, talvez, despoletado por tanta fama à mesa, a própria da jornalista mas também a do seu jornal, súbito, no decorrer da conversa, ali brotado, sonhado, desejado, como caixa de ressonância, e poderosa, microfone óptimo para ecoar as não tão óptimas vontades no por cá, o agitar do “nem pensar” no regresso, mesmo que matizado, aos tempos antes. Enfim, o jantar foi qual caixa de Pandora a abrir-se, velhos estigmas e novos desconfortos a saírem das travessas da conversa, e a cada prato a azedar ainda mais. No fundo, ainda que rodeados de résteas de elegância nos trajes e modos alheios, ali ouvíamos um tonitruante “suca”.

Sobre os portugueses aqui presentes, esses nossos patrícios (e talvez nós mesmos, comensais), só malfeitorias e perversões se afirmavam. E se um dos convidados dizia “expulsem-nos” logo outro gritava, ainda que à mesa, “matem-nos” para de imediato alguém lhe somar um rubicundo “esfolem-nos”. E nisso tudo, não-descansados, ainda e já em pleno estertor se ouviria um “queimem-nos”. Eu, remexendo o prato, cada vez mais para o vazio, lá ia achando aquilo tudo uma catarse e, já agora, também uma provocação, lamentando-me de ali ter caído. Pois não era só a fama lusa, nem o microfone português, era também, e talvez o mais de tudo, o ser a jornalista a aparência da nossa elite, tão perto ali à mesa, a ser bombardeada, alvo de hipérboles, ainda que denotativas, reafirmações, talvez anacrónicas mas incisivas. Isso ia resmungando eu, ainda que me tentasse distrair de tudo aquilo, divagando-me debaixo da mesa a cavar buraco onde me escondesse de tudo aquilo.

De súbito a jornalista, constrangida e decerto estupefacta com tamanhas opiniões, tão contrárias ao seu esperado encanto mútuo, interrompeu-as, enfática, aqueles ênfases de face e tão sotaque arrastados: “mas... (um “Mas” Maísculo, este) vocês não gostam de nós...?!?!”, “depois de tudo o que fizemos por vocês!”.

Confesso que após esta de nada mais me lembro. Abdiquei da sobremesa, mergulhei para o tal buraco e tapei-me.




(Maputo, Dezembro 2003)


Publicado por jpt às maio 9, 2006 05:53 AM

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Recebido em maio 9, 2006 11:25 AM

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