eXTReMe Tracker
Ma-Schamba: Velas?

« Centro Farmacêutico | Entrada | Um grande manifesto »

abril 10, 2006

Velas?

Está muito bem o Lutz ao desafiar o colectivo lusobloguista a discutir o desafio do Nuno Guerreiro: a evocação em 19 de Abril próximo dos milhares de judeus mortos em Lisboa, exactamente 500 anos antes [1, 2, 3, 4, 5, 6, 7].

Acerta o Lutz por várias razões. Uma é nos termos em que coloca a questão: "Suspeito que, entre os muitos que ignoram o apelo, há quem o faz para poupar-se de ter que discutir o seu desagrado com a proposta." Este é mesmo o meu caso. Já por aí o disse, o Nuno Guerreiro é o meu bloguista preferido (só lamento o seu "levantar o pé", a menor assiduidade, egoísmo meu). Na forma e no tom. E esse gosto, essa minha simpatia, tem-me impelido ao silêncio sobre o assunto. Auto-censura pura.

O Nuno esteve muito bem ao lançar a questão. Episódio esconso (e escondido) da história de Portugal. E esse recordar, por via de textos e debates (lá está o Lutz para os impelir), do episódio faz muito por um redescobrir da história. E deveria impelir um eco mediático (talvez o tenha feito), evocativo, contextualizador.

Mas é-me alheio, e até desagradável, o misticismo da vela em vigília pública. E há no tom da proposta uma espécie de "endo-homenagem" ("endoreligiosa/étnica/nacional", pese o incorrecto dos termos), talvez voluntária, talvez não, e acredito que não. E parece-me que implica um quase obrigatório corolário, a "desculpabilização" pelo passado remoto, absolutamente descabida. Recordar a história sim, fazer-me dela, seu agente, não, nunca. Talvez o Nuno Guerreiro não queira isso (e o tom magistralmente ponderado do seu blog leva-me a pensar que não o quer), mas o ambiente "emotivo" almejado tenderia sempre para essa "participação" pessoal.

Enfim, há vários pontos do meu desacordo. O Miguel Silva quase os esgotou (em particular nos pontos 3. e 4. desse texto) [aproveito para também lamentar a sua menor assiduidade, repetido egoísmo meu].

Mas há um ponto extra. Guardarei os textos (e as referências) que o Nuno tem colectado e divulgado. Não mais este episódio recuará para o "arquivo morto" da minha ideia da história portuguesa. E, sem ponta de ironia, no 19 de Abril beberei, ateu, um whisky à memória de tantos mortos. E tentarei, anacrónico é certo, imaginar tamanha orgia sanguinária e o seu porquê. Não o iria fazer sem esta iniciativa.

Publicado por jpt às abril 10, 2006 05:56 PM

Trackback pings

TrackBack URL para esta entrada:
http://maschamba2.weblog.com.pt/privado/mt-tb.cgi/127823

Lista dos links para blogues que mencionam Velas?:

» Uma vela no Rossio (act.) from Adufe.pt
"Porquê (não) as velas no 19 de Abril?" é uma proposta de discussão do Lutz a propósito da sugestão que o Nuno Guerreiro nos faz no sentido de recordarmos a progrom de Lisboa  que ocorreu em 19 de Abril ... [Ler...]

Recebido em abril 10, 2006 08:05 PM

» Actualização de "uma vela no Rossio" II from Adufe.pt
A propósito de "Uma vela no Rossio" as opiniões sucedem-se, aqui, aqui, aqui, aqui e aqui, por exemplo. - a discussão prosseguiu animada durante a noite, nas caixas de comentários dos posts acima referidos; destaco particularmente o q... [Ler...]

Recebido em abril 11, 2006 05:57 PM

Comentários

Excelente texto JPT!
Subscrevo-o na íntegra!
Este tipo de iniciativas, levadas a cabo volvidos séculos após o acontecimento, faz-me uma certa confusão!
Que o D. Manuel I, como chefe supremo da nação, fosse um celerado e que se o demonstre à saciedade para que a História dos progom não seja branqueada, concordo – já que ela figura sempre na óptica do vencedor.
Agora, vigílias, velinhas, cânticos e concentrações por acontecimentos históricos seculares – não falo, por exemplo, deste tipo de iniciativas nos casos de injustiças que ocorrem na actualidade por esse mundo fora – provocam normalmente mais ruído do que esclarecimento; são simples desvarios estrídulos sem que se consiga alcançar o objectivo pretendido, uma vez que há a conotação com radicalismos que acaba por afastra os moderados.
Agora, que se publiquem livros, que se promovam debates, que sejam alertados os meios de comunicação social para que se refiram a este tipo de acontecimentos, é outro tipo de manifestação completamente diferente, com o qual concordo – aliás como fez o Nuno Guerreiro através do seu alerta na blogosfera!
A este propósito deixo aqui uma sugestão, ao estilo MRS: «O Último Cabalista de Lisboa», Richard Zimler. Lisboa: Quetzal Editores (eu disponho da 9.ª edição, que é de Maio de 2004, mas não existe a referência à data de publicação da 1.ª).

Publicado por: AMC às abril 10, 2006 07:31 PM

Para mim é isso que interessa (o corolário). Mas como transferir esse whiskey para além da blogoesfera sem nos fazermos agentes da história é que não estou a ver.
Este facto muito particular continua esconso, muito esconso e por si só humaniza-nos (enquanto portugueses) em relação ao que de mais atroz tem a condição humana. Acho que queremos ver em nós o bom povo, o menos mau dos colonizadores, o que no sul da Europa tinha a menos má inquisição e por aí fora. Já que no nosso imaginário nos atrevemos a estes juizos de valor, perante este facto novo que é o progrom de Lisboa de 1506 - e como diria o filósofo Gil sobrevivo - há que inscrevê-lo na nossa história. Quanto aos outros pontos, o "rebate" por antecipação está no sítio do costume, aqui: http://adufe.weblog.com.pt/arquivo/2006/04/uma_vela_no_ros.html

Publicado por: Rui MCB às abril 10, 2006 07:37 PM

Boa Tarde
Quero dizer-lhe que aprecio imenso o seu blog, que visito regularmente.
Será que me pode informar onde poderei adquirir os livros de Ricaro Rangel?
Muito obrigada
alice

Publicado por: alice às abril 10, 2006 07:55 PM

Alice, obrigado pelas palavras. Quanto a adquirir o livro do Rangel isso depende de onde me escreve. Daqui? (CFF, Chez Rangel, decerto. Nas livrarias não tenho visto). Se naõ daqui de onde? Portugal? se daí acho que há uma livraria em lisboa chamada qualquer coisa como mabooki que talvez tenha o livro (está na net, tem lá o catálogo de livros africanos disponível - fui lá há meses ver, era fraquinho, mas talvez esteja melhor). se de portugal talvez o melhor seja encomendar à Escolar Editora, estão cá comercialmente e enviam para aí. Sairá um pouco mais caro mas ... há algum tempo um leitor do ma-schamba informou que tinha conseguido os livros do ricardo assim

Se algum passante souber de alternativas, faz favor.

Publicado por: jpt às abril 10, 2006 09:14 PM

AMC obrigado pela recomendação bibliográfica. Nunca li, hei-de visitar.

RMCB sobre a elisão da violência na história portuguesa e a sua tradução actual na pobre leitura dessa mesma história e actualidade está o ma-schamba cheio (tem até direito a "categoria" nos arquivos). Concordo com esse ponto de vista.

mas isso não implica a antropomorfização da sociedade, e o tornarmo-nos agentes do nosso passado. consciência dele, enquanto húmus da leitura que outros fazem de nós e de reflexão sobre os nossos valores (conscientes e inconscientes), tudo bem. a desculpabilização, auto-purgatória nunca. essa é uma ileitura da história tão perversa como o seu ignorar

já agora, sobre esse tipo de atitude deixei há muito tempo um texto. se tiveres(m) paciência (honestamente até acho que está bem sacado, diverti-me imenso a escrevê-lo, coisas do pré-blog)

http://maschamba.weblog.com.pt/arquivo/2004/01/roupa_velha_2.html

Publicado por: jpt às abril 10, 2006 09:23 PM

JPT, parece-me que estamos de acordo: "a desculpabilização, auto-purgatória nunca. essa é uma ileitura da história tão perversa como o seu ignorar".
Como já escrevi noutros sítios, parece-me que neste caso se justifica equilibrar a coisa mais para o lado de evitar ignorar. É tão somente isso, em 1506, em plena época de ouro do nosso império, afinal havia mais história do que as heroicas naus a caminho da Índia e de regresso, o fausto da corte e do guarda roupa régio, as obras públicas fantásticas da capital, a alegria do povo proprietário de escravos e o novíssimo perfume a especiarias. No meio de tudo isto e quando a inquisição era ainda apenas e só uma ténue nuvem no horizonte aconteceu aquilo em Lisboa.
No meu caso muito pessoal a forma como encararei aquele período histórico e, em abstracto, o contexto em que se pode desencadear um linxamento religioso, mudou um bocadinho quando li o relato do progrom há coisa de 10 anos numa página muito interior, num artigo de opinião, de António carvalho, no Diário de Notícias.

Encontras nestas palavras alguma apologia serôdia?
Colocar uma vela no aniversário do acontecimento semi-enterrado (apesar de tão bem documentado como o tem atestado o Nuno) é apenas e só - para mim - uma forma de expressar que todos devemos conhecer a nossa história. Os seus pesos e pretextos para epopeias mas também os seus contrapesos, o seu lado lunar.

Amanhã hei-de ler a tua sugestão

Publicado por: Rui MCB às abril 10, 2006 11:24 PM

tudo bem. da idílica versão da história da expansão acho que ela também já foi bastante ultrapassada pela historiografia das últimas décadas. mas nunca é demais.
não vejo nenhuma apologia serôdia em acenderes uma vela. o que vejo está acima (e no Tempo dos Assassinos), acho que há outras formas menos "poluídas" (e prosélitas, porventura) de regressar à história
o meu textito é uma chalaça que quer ser significante (ou será chalassa?)

Publicado por: jpt às abril 10, 2006 11:30 PM

uma pergunta muito ligeira:

Se alguém toma a iniciativa de convocar apenas por meio de um blogue, uma homenagem religiosa, quem a não convocou tem alguma coisa que se apropriar do acto e dizer que não deve ser assim mas assado?

Isto sou eu que sou sempre uma cretina e nunca me consigo fazer entender.

Há uma convocatória virtual a que praticamente ninguém liga- aqui na blogosfera- fora dela ninguém sabe de nada.

Fala-se um pouco da dita convocatória e aparecem logo outro judeu (o das Espécies) em tom um tanto elevado a reduzir a questão a uma óbvia necessidade. Até aí não tinha dito nada.

Depois saltam mais uns tantos a transformá-la em causa nacional.

E eu pergunto: mas afinal é quem acha que não faz sentido ir que está a ser desumano ou quem considera quase vital que reduza o 500º aniversário desse "massacre pascal" como o de Avis lhe chama, a um mini-encontro de bloggers?

(nota: as fontes mais próximas falam em Pascoela- a Pascoela é o Domingo que se segue ao Domingo de Páscoa. São pequenas diferenças mas não me pareceu neutra a deturpação do Francisco José Viegas).
Pelo menos levanta a possibilidade de uma outra leitura ainda mais perversa para a qual não basta dizer que é homenagem de mortos com os quais, de alguma forma, se sente próximo.

Publicado por: Zazie às abril 13, 2006 02:45 AM

Zazie eu não vou entrar em polémica. Posso dizer que tenho o braço esquerdo muito empenado e reservo o custo do teclar para trabalho, o que é verdade. Mas é meia-verdade. Não vou entrar em polémica porque não gosto nada do tom que estás a utilizar. E também aqui, neste comentário, mas acima de tudo alhures. A esse respondo. Mas isto é-me hóbi falo com quem quero sobre o que quero e no tom que quero. Não me apetece estar a alimentar conversas com quem já vai, no calor de uma discussão obviamente exagerada, nas invectivas ao "alemão" e ao "judeu" mais outras que vi no QeP, nas diagonais que fui fazendo, "aos gajos do ps" e coisas assim, perfeitamente deslocadas. A profusão de argumentos é exagerada mas não é esse o mal, o teu tom descambou. Cada um gosta das porradas que gosta e dos modos que gosta - esta que queres levar não é do meu cardápio. E não sou propriamente um higienista no que ao linguajar e argumentar diz respeito.

Quanto ao que aqui dizes respondo, da minha opinião. Já botei acima: eu acho que a homenagem não é religiosa (eu disse que ali via "uma espécie de endohomenagem" ainda que acreditasse que não fosse essa a intenção). Mas mesmo que o fosse é legítimo opinar sobre ela, e por maioria da razão não o sendo. Eu posso dizer que simpatizo com uma homenagem religiosa e que não sendo dessa religião me associo sob outro método (não teatralizo participação em missas católicas, por exemplo). Ou posso dizer que não concordo. Neste caso concordo com a evocação. Já botei que o formato não me atrai, mas respeito. É-me um direito opinar sobre isso. Se isso é apropriação entaõ que seja. E já botei seguindo o Msilva que me desagrada o "desafio", ou seja intelectualmente o formato da proposta [honestamente não acho que haja intenção de instrumentalização] também não me é simpático. Tenho todo o direito de o afirmar e outros também, positiva, negativa ou neutralmente.

Se a convocatória do Nuno não tem grande impacto público isso não reduz a legitimidade e o interesse da sua discussão. Ou falamos por "quantidade".? Mas seguindo o teu argumento, se ela tem assim tão pouco interesse por pouco relevo para quê estas dezensas ou centenas de comentários polémicos em tom desabrido que andas botando nos últimos dias? Tu contradizes-te, eu aqui não. Acho muito bem que se fale (é a suprema homenagem, digo e disse). Mas se é coisa pouca para quê tanta tua irritação?

Se for um mini-encontro de bloggers será um mini-encontro de bloggers. Se for outra coisa será outra coisa. Nada disso retira legitimidade (ou elevação) à discussão.

É normal que alguns se sintam mais próximos de alguns mortos do que outros, dalgum passado do que outros. Também assim se vai revivendo a história, compreendendo-a. Eu já aí pus, não fosse o NG e eu não me lembraria deste aspecto interessante da história. E presumo que outros, mesmo que sejam poucos.

Dois últimos pontos: também acho que o FJV escreveu um post muito mais assertivo/irritado do que normalmente. MAs, honestamente, depois do que para aí vi treslido (tu à frente, em letra e tom; e mais alguns, diga-se) a mim também me apeteceria botar algo irritadiço.

Há um ponto em que concordo contigo. Estás a ser cretina. E nessa verrina a deixar morrer alguns pontos pacíficos.

Eu passo, não para ficar por cima do debate. Mas porque me estás francamente a irritar nesta, afinal pequena, questão.

Publicado por: jpt às abril 13, 2006 10:48 AM

«porque não gosto nada do tom que estás a utilizar. »

bom, nem li mais do que escreveste. Já percebi que não estás interessado em dialogar comigo.

Escusavas era de inventar um "tom" quando eu apenas deixei aqui uma anódina pergunta.

Posso fazer copy paste dela mas creio que sabes ler.
Boa Páscoa e fica bem.

A sério, não li o resto. Li apenas esta passagem e já estou de saída.

Eu limitei-me a perguntar se achavas natural alterar-se uma cerimónia convocada por outros

E limitei-me a tecer um breve comentário aos insultos que o FJV deixou sem destinatário

fica bem. Não vou ler. Nem este post nem os outros porque acho que não vale a pena.

È assim a estúpida troca de ideias que nunca é troca de ideias nem debates mas formas de se inventarem contendas.

Publicado por: zazie às abril 13, 2006 02:59 PM

quanto ao que disse ou não disse pode-se ir ao Cocanha e verificar se por lá cataloguei alguém de ressentido ou portador de raiva contra quem quer que seja.

Se isto não é tom que te incomode foi "tom" que me incomodou.


Se alugma vez leram alguma catalogação pública de quem quer seja no meu blogue façam favor de o dizer.

Uma coisa pode ser o momento mais enérgico do teclar em caixinhas de comentários, outra o que se escreve com capacidade de reflecção e tempo sobre as pessoas.


Sobre mim escfreveu-se e classificou-se com todo o tempo coisas que me pareceram ofensivas, indiscretas e ilegítimas.


Nunca o fiz em relação a ninguém
Nem vou agora cobrar nada a ninguém por isso. Também não levo minimamente a peito qualquer contacto virtual com pessoas que nada me dizem.

São pensamentos dentro de corpos que desconheço e que muito pouco me dizem

Os que dizem alguma coisa sabem-no. Fora isso respeito por igual toda a gente e costumo esperar igual.

Não foi isso que aconteceu e não foi no tom que se manifestou.

Foi precisamente na ausência de tom e no tempo suficiente para não haver desculpa de ser produto do calor do momento.

Publicado por: zazie às abril 13, 2006 03:10 PM

(como a zazie anuncia que não voltará pois aqui não vale a pena ler a tal etiqueta da resposta aos comentários é suspensa)

Publicado por: jpt às abril 13, 2006 06:23 PM

Embora um pouco na diagonal li algumas das questões e trocas de ideias, associações mais ou menos duvidosas, interpretações reticentes e se o tempo me ensinou a esperar que tudo é possível esperar do mais disfaçado sorriso, nesta questão, tudo o que se relaciona com judeus, então, é notável verificar a força dos estragos de muitos séculos de aculturação, deformação e sobretudo DIFAMAÇÃO. Porque por muitas desculpas que o papa tenha pedido é preciso sobretudo que cada um veja o que tem no "sótão" sem sequer se aperceber e que vem ao de cima nos mais neutros e insuspeitos e consensuais momentos...
Por outro lado é verdade que acender velas pode pela tradição do seu uso paracer uma atitude "mística", mas eu não o vjo desse modo mas apenas como um gesto de evocação e nada mais.

Publicado por: RuiA às abril 16, 2006 01:57 AM

A Paixão de Israel


Como Cidadão do Mundo, e, particularmente, como exilado interno lusitano, venho, através deste texto, associar este blogue a um dos momentos mais negros da nossa História Nacional.

Como está largamente documentado na Rua da Judiaria, celebram-se, no dia 19 de Abril, os 500 anos do infame massacre perpetrado pelos nossos antepassados sobre os antepassados dos nossos concidadãos de credo judaico. Um pouco por todo o lado se pede que nos associemos, e nesse dia acendamos, no Rossio, uma vela evocativa. Contudo, mais importante do que essa vela, convém que saibamos reacender a vela de uma memória interior.

Não me vou ater aqui a pormenores históricos, estão devida, e lapidarmente, descritos na Rua da Judiaria: em 1506, terão, por alto, sido chacinados e queimados vivos cerca de 4 000 dos nossos compatriotas, mais do que compatriotas, vizinhos de Lisboa, tão-só por uma diferença de credo, algumas referências de texto, e diferentes denominações daquele deus único dos 3 Monoteísmos.

Quando me falam de Judeus, de Cristãos e de Muçulmanos, imediatamente me acorre à ideia o Califado de Córdoba, onde, nos tempos intermédios da Reconquista, essas três religiões se uniram, para dar lugar a uma das mais espantosas florações culturais da Península, onde os pensares eram comuns, as sinagogas moçárabes, os príncipes cristãos versados nas línguas mouras, o filosofar árabe assimilado por todas as teologias, e as Igrejas de Cristo um lugar de cultos partilhados. Tudo o resto foi, depois, uma mera sombra cultural.

Portugal, país ingrato, mostrou-se sempre exímio em mutilar as suas melhores cabeças: num tempo de acolhimento, começou por juntar os restos dos perseguidos Templários com o ancestral Saber Judeu. Daí terá resultado a nossa única epopeia, a dos Descobrimentos, até que príncipes mal aconselhados, ao sabor das conveniências, resolveram substituir a Convivência pela Intolerância, obrigando ao exílio, à mentira da pele de uma religião forçada (o que é um cristão-novo, senão mais uma alma humilhada?...), e, por fim, a essa indesculpável hecatombe, iniciada em 19 de Abril de 1506.

Toda a nossa épica sucumbe nessa forçada Segunda Diáspora, onde as melhores mentes judaicas acabaram por levar o seu saber para as terras da tolerante Holanda, tornando-a na nova potência, que rapidamente substituiu o soçobrado Império Português.

Faz parte da cruz judaica a régua de dois saberes: 1) a de que mais tarde, ou mais cedo, ele será perseguido; 2) a de que, posto que essa perseguição inexoravelmente virá, lhe convém estar, ao máximo, preparado para ela. Isto gerou Judeus ricos, e Judeus sábios, e à volta disto, semeou-se sempre uma infindável história de mal disfarçadas invejas.

Quando ligo a televisão, tudo o que sinto de repulsa pelo presente xadrez de ódios do Próximo e do Médio Oriente consegue estender-se até esse dia de há 500 anos atrás. Dir-se-á que estão distantes, e que são povos que nos são quase alheios; todavia para quem invoca, repetidamente, o lema do país dos brandos costumes, relembro que esses bárbaros de há meio milénio atrás, também foram nossos antepassados, ou, por palavras outras, para que conste, que todos nós, Portugueses de hoje, deles descendemos, e descendemos em linha directa de culpa.

Publicado por: Arrebenta às abril 18, 2006 05:13 AM

Comente




Recordar-me?