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Ma-Schamba: Manifestações em França (e a mundialização do Ma-Schamba)

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abril 06, 2006

Manifestações em França (e a mundialização do Ma-Schamba)

Sobre as actuais manifestações em França, e o que as causa, não estou grandemente informado, nada li, vagas ideias de tv. Tenho a vaga ideia de um movimento social jovem, em defesa da segurança de emprego. Tenho a vaga ideia de um movimento social ecoando a mudança do privilégio europeu. Tenho a vaga ideia de que o privilégio europeu sofre o seu Milénio. Tenho a vaga ideia de que o privilégio europeu é um contrato social assente na exclusão dos excluídos europeus e no desapossar dos não eurocidentais. Tenho a vaga ideia de que as "massas" europeias (e suas elites político-sindicalistas e seus intelectuais orgânicos) nunca se preocuparam realmente com isso. Tenho a vaga ideia de que a minha solidariedade está alhures, com milhares de milhões de asiáticos, sul-americanos, africanos. Leste-europeus. E, já agora, excluídos eurocidentais. Tenho a vaga ideia de que estes já viveram décadas a mais de Milénio. Ou seja, tenho a nada vaga ideia de que a "esquerda" eurocidental é uma "massa" exploradora e reaccionária, defendendo, protegendo (até por via "proteccionista") os direitos de uma minoria burguesa. Enorme, mas minoria. Agora surpreendida com o facto das "causas fracturantes" serem, afinal, outras. Nada giras. E nada "pós-modernas". Pois o mundo da "ferrugem e do fato-macaco" (re)entrou-lhes em casa, operários e camponeses de todo o mundo unidos (e nada organicamente) a reclamar o direito ao trabalho e ao bocadinho de quinhão.

Mas tenho também a memória, nada vaga, de ter sido jovem trabalhador eventual, aqueles recibos-verdes. E os contratos a termo certo. Sem quase direitos. E tenho, ainda mais fresca, a realidade de ser trabalhador eventual. Dispensável. É assim a (minha) vida, e de tantos. E por mais que o vá pensando necessário, real, tenho assim a memória do difícil que é, do injusto que é, querer começar e patinar. Querer, já grisalho, ser livre e custar ("e se ...?") Da angústia que causa, das cãs, das úlceras. Dos dias de vida que se gozam menos. E tenho a total ideia de que ao indivíduo não pode ser assacado o todo dos males do mundo. Daí que, também por causa da minha biografia, não atiro pedras às reinvindicações francesas. Hesito intelectualmente? Acima de tudo hesito moralmente. Os direitos são inalienáveis? Talvez não. Mas não são desprezíveis. Nem benesses.

Isto tudo porque interpostas teclas amigas fizeram-me chegar, destinadas a bloganço, fotografias das manifestações. Em Paris, na Sorbonne, tiradas a 4 de Abril. Uma ecoando a solidariedade com movimentações de apoio a esta causa decorridas em Portugal, a "mundialização" (é em França) da contestação, algo até inusitado nos movimentos contestários "reais" do hoje-em-dia. Ei-la:

ManifIncluir.jpg

A outra fotografia é uma verdadeira delícia, uma maravilha. Cúmulo de uma etnografia de um movimento social:

ManifMetro.jpg

[Fotografias de Michel Laban; Sorbonne, Paris, 4 de Abril de 2006]

Publicado por jpt às abril 6, 2006 07:59 PM

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Comentários

Muito interessante a perspectiva que nos é dada. A visão da Europa fora dela. Muito bem.

Publicado por: ds às abril 7, 2006 02:32 AM

Ó jpt, o que é a esquerda eurocidental exploradora e reaccionária? Nunca conheci ninguém que pudesse qualificar desta forma. E muito menos conheci uma “massa”. É assim: entre vagas noções de geometria sociológica, versão gordos de um lado, magros do outro, etc, e a memória pessoal, eu não hesitaria. Não podendo falar pessoalmente com cada um daqueles manifestantes, saber-lhes as razões, ao menos que aproveite a minha experiência pessoal. E a minha, por acaso, até é exactamente igual à sua e será, tenho a certeza, igual a muitos daqueles que se manifestam. Mas não deixa de ser reconfortante saber que alguém, pelo menos, hesita, como você. O que não falta por aí é quem não hesite em qualificar aquela malta como meninos burgueses mimados e egoistas em manifestações festivas.

Publicado por: caramelo às abril 7, 2006 11:53 AM

Gostei de ler este texto. Mas, tal como o caramelo, tambem nao reconheco essa esquerda eurocidental exploradora e reaccionaria. O que acontece e' que esta esquerda nao e', actualmente, na sua maioria, especialmente progressista. Nao e', esta' mais numa posicao defensiva. as razoes sao faceis de perceber embora dificeis de suplantar. As questoes sao: quem somos nos, quais sao os valores segundo os quais queremos organizar a nossa vida e a sociedade? Isto numa epoca em que o "nao-valor" e', juntamente com o dinheiro, o valor dominante. Num tempo em que grupos com muito poder, mobilidade e discernimeto (e muito mais minoritarios do aqueles burgueses que o jpt refere) impoem a sua cosmovisao de uma sociedade atomizada, desculturalizada, descontextualizada.

Publicado por: MP-S às abril 7, 2006 12:39 PM

Da "massa" apenas singularizo o batidissimo jargão da tal esquerda: "massas". Tão usado que não virão agora dizer ao ma-schamba que não é utilizável. Caramba, então deitem fora a literatura e o relatoriar de décadas a la gauche.

Quanto ao resto, defeito do meu texto decerto. Não falo da "esquerda" actual que não se soube actualizar. Falo do discurso da "esquerda" euroocidental de XX que assentou a sua luta no empobrecimento dos povos para além das pequenas fronteiras (às vezes nacionais às vezes sindicais). Honestamente nem me lembrei da "esquerda" euroocidental de hoje, embrenhada em lutas de índole do privado (da "esfera" doméstica, privada, quero dizer), tais como o direito das mulheres a não rapar os pêlos das pernas e dos homens a rapá-los. Um dia Bizâncio também caíu. E, presume-se, não ficou pior por isso

Publicado por: jpt às abril 9, 2006 07:04 PM

Eu nao me terei explicado bem. Nao falo dessa esquerda folclorica, nao. Insurjo-me contra a ideia de que a esquerda ao defender os pequenos (burgueses, mas nao so') da Europa esta' a combater os pequenos do resto do Mundo. Na medida em que a batalha na Europa entre os pequenos (representados pela Esquerda) e os poderosos for conflituosa, nao e' possivel sequer pensar nos outros. As energias dispendem-se aqui. Quem tem recursos, e energia, disponiveis para ainda ir aplica'-los no resto do Mundo sao os poderosos. E' a esses que devem ser pedidas as justificacoes, as razoes, a racionalidade do sistema economico mundial. Nao e' 'a esquerda, europeia ou nao.

Publicado por: MP-S às abril 9, 2006 08:58 PM

Eu já não lia "massas" há muito tempo. É um jargão muito em desuso. De vez em quando o jerónimo de sousa ainda vem falar em massas trabalhadoras e tal. ninguém liga. E na "literatura" (literatura-literatura), acho que nem o neo-realista mais retinto utilizou a coisa. não me lembro.

Publicado por: caramelo às abril 10, 2006 11:13 AM

eu tambem sou sensivel ao andar do tempo - tera reparado no singular "massa" como ligeiro distanciar do primevo "massas"? ou nao tera sido explicito.
mas tambem nao sou totalmente prisioneiro do hoje-em-dia. o "massas" (assim mesmo, plural) eh um magma teorico (comunitarista; a hist'oria da mobilizacao/elite organica; a historia da alienacao) daquilo a que me referia.
enfim, caro caramelo, o texto pode ser uma merda. ou a opiniao veiculada. mas que nao seja porque o termo "massas" esta em desuso - pois eh desses desusados tempos a que se referia

Publicado por: jpt às abril 10, 2006 11:48 AM

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