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Ma-Schamba: Lavandaria da língua

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abril 11, 2006

Lavandaria da língua

Joana Amaral Dias bota um texto sumário, por isso interessante. Lá está a arquitectura do politicamente correcto. Neste caso policiando a linguagem. Investindo contra o "insulto" sem lhe perceber (ou querer perceber?) o carácter polissémico. Sem saber distinguir entre a imputação e a invocação. Sem (poder?) perceber que é o contexto do uso do "insulto" que lhe dá significado, daí a sua abrangência e a transversalidade dos termos que são utilizados.

O que ali está é uma lavandaria da língua, sob um puritanismo radical de aparência reflexiva, nada mais do que um pobre-pensar. A querer-se "moderno" e refrescante molde da mente, mas nada mais do que poço de preconceitos e impensares.

Neste puritanismo bem-actual vive o postulado hierárquico do a re-incluir, "do que vale a pena", do a-evitar-nomear. O agreste do texto (o tipo ali visado é meu amigo há umas décadas, diga-se. Mas quem lê o Ma-Schamba sabe que esta é uma questão que me é querida; e quem o conhece saberá que se está nas tintas para blogs, ou pelo menos para este. Daí que esta botadura não vem de conhecimentos pessoais) assenta na condenação da utilização do calão português para homossexual, como produtora de discriminação. No hoje-em-dia é recorrente a estigmatização, por preconceituoso, deste calão ("paneleiro").

Não tanto surge o mesmo discurso crítico "correcto" quanto à utilização do calão português discriminador das trabalhadoras do sexo, o que até surpreende pois originalmente é relativo (ofensivo) aos mais excluídos dos mais excluídos ("puta"). A lavandaria puritana não surge de imediato aquando da sua utilização pública (E, já agora, quantas vezes se ouvem homossexuais, em tom jocoso ou não, imputar "sua puta" a outros? E, já agora, quantas vezes se ouvem heterossexuais, em tom jocoso ou não, imputar "sua puta" a outros? Em sentido literal ou não). Já para não falar do "filho de puta", epítome da velha noção legal discriminatória de "ilegitimidade" de filiação ("bastardia", "filho/a de pai incógnito"), metáfora da imoralizada liberdade sexual das mulheres (progenitoras).

Menos ainda se ouve o rugir da lavandaria aquando da utilização do calão português para os relapsos na manutenção da ordem sexual e moral patrilinear ("patriarcal"), tantas vezes dita machista" ("cabrão"). É interessante, pois nenhum termo como este propõe, se literalmente considerado, a adesão a uma mentalidade misógina, machista, moralista, repressora da sexualidade feminina. Nenhum termo como este, se literal, em português crisma o casamento da "identidade" masculina (e sua "honra") com o da submissão feminina, dos seus direitos sexuais e capacidades reprodutivas.

Nunca, então nunca mesmo, os lavadores "correctistas" se insurgem contra o calão português vincadamente desvalorizador da cópula ("fodido"). Esse cujo sentido negativo implica uma desvalorização (um "emporcalhamento", até) da sexualidade, um moralismo repressivo e até serôdio, tão institucionalizado na nossa história e presente, tão produtor de infelicidades e estigmatizações. Não é este o preconceito, o preconceito-mor, a "mãe de todos os preconceitos"?

Ridículo seria até, e por isso o evitam, para os lavadores insurgirem-se contra o calão português definidor do orgânico expulso ("merda"), sedimento de uma hierarquia da natureza. Na qual se desvaloriza o corpo humano em nome de hierarquias de pureza também elas preconceituosas, geradoras de exclusão social (dos que utilizam as fezes como adubo, ou como material de limpeza no após-seca, ou como combustível; ou dos trabalhadores de limpeza). Mas mais do que tudo fruto de um impensar ecológico, escondendo assim por via do quotidiano linguajar, que o poluente actual não é orgânico mas sim o químico. A perpetuação do "merda" preserva assim a ideologia da "pureza"/ "higiene" da já-velha ordem industrial contra a "impureza" da velhissima-ordem agrícola, dita "natural". Não deveriam os lavadores "correctistas" insurgir-se contra o "merda", obrigando-se à sua substituição (política) por "pasta", "espuma", "ganda ácido"? Não é a causa ecológica tão digna como a homossexual (ou até, permitam-me, mais dramaticamente urgente?).

É interessante (tristemente denotativo), mas contrariamente ao aquando do eco do "apaneleirar", ao soar do "cabronazo" e do "putaria", dos "merdas" e "fodilhices" e tantos outros, constantes no quotidiano público e privado, não espirra, tão célere, o detergente da lavandaria. Por moda de gayfilia? Ou por intuitiva (que por reflexão não será de certeza) compreensão da mutação de sentido do calão, da sua não-literal utilização? Só esquecido para o jeitinho ao discurso que-fica-bem? Da vénia à "base social de apoio"?

Forço a nota? Nada mesmo. Nem tampouco ironizo. Apenas sigo o mesmo método de (im)pensamento de JAD e de tantos outros. Que lhes serve hoje para o tonitruar da gayfilia, mas nada mais, honestamente, do que a reprodução de preconceitos disfarçada num mísero "tu preconceitas eu conceptualizo".

O texto sumário referido é ainda exemplar noutro ponto: "Não adoro bola, mas não fico escandalizada com o entusiasmo ou com o pseudo-nacionalismo à volta da bola. Intoleráveis são ... a cultura homofóbica e machista em torno do desporto, em particular de alguns desportos.". A tal "bola" (em particular o futebol em Portugal) não produz nenhum "pseudo-nacionalismo", produz mesmo nacionalismo ("banal" alguém lhe chamou). É matéria-prima e instrumento de exaltação nacionalista (com o corolário imbecil dos bloguistas ofendidos com "o não defender dos clubes nacionais", já para não falar da pirosa rapaziada pintada a la sioux verde-vermelho e vestida com "as cores nacionais"). Essa intromissão identitária é tão aparentemente "natural" que não choca as lavandarias, que nisto ainda ninguém as avisou para "protestar" e como o fazer. É até positiva (ou pelo menos "falsa", "pseudo", não-problemática). O ferro de engomar está-lhes frio nesta altura. Mas já o homofobismo é horrível, antinatural, preconceituoso. Impregnar as mentes de um nacionalismo irreflectido não choca. Dizer que o raguebi é um desporto de homens é vil.

Não pensar é um direito. Mas embrulhá-lo com este ar pomposo é insuportável. Ser ultramontano, hiper-preconceituoso(a), é um direito (e tantos até o dizem um dever). Mas embrulhá-lo com estes ares progressistas é irritante. Tanto que me dá vontade de praguejar. Mas não o faço, pois se para estas pobres mentes tudo é absolutamente literal ainda me virão cobrar alguma futura infelicidade. Que praga é praga, não é assim?


Publicado por jpt às abril 11, 2006 12:44 AM

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Comentários

Ia dar força ao que dizes (sem qualquer analogia a erecções ou outras manifestações da pujança masculina) e quase me apeteceu mandar alguém meter no cu tanta hipocrisia barata, mas depois fiquei a pensar que isso me daria uma coloração homofóbica e por isso achei melhor não escrever nada e evitei assim a tempo carregar aqui no botão do submet...

Publicado por: Eufigénio às abril 11, 2006 02:48 AM

Um dos objectivos do insulto é ofender o adversário, por isso se devem utilizar os termos adequados para cada caso explorando as suas fraquezas e "esqueletos no armário". Em circulos intelectuais insulta-se de outra maneira mas também se insulta (ou então espetam-se facas pelas costas o que é bem pior).

Publicado por: Mário às abril 11, 2006 11:59 AM

O que eu acho é que o José está a oferecer-nos umas refle´xões cada vez melhores.

Publicado por: francisco curate às abril 11, 2006 02:23 PM

Ser moderno, hoje, é ter "causas fracturantes" e um linguajar pindérico. Ser moderno, hoje, já não é procurar saber mais e conhecer melhor. Ser moderno, hoje, é ser opinativo e esconder a fragilidade do intelecto atrás de aparências de saber, fomentar novas elites e "inteligências" e dar crédito ao velho dichote " só és de esquerda porque não tens (ainda) dinheiro para ser de direita"... Continuo na minha que é mais homofóbico, mais xenófobo, mais racista, mais machista, mais o que quer que seja, quando se agita "micro/macro-causas" do que quando se age de acordo com o respeito pela causa mais simples : respeitar o direito de todos e qualquer um a existir! Mas, lá está, esta atitude não guinda ninguém ao estrelato, é apenas e tão-só ser-se humano e consciente de que é a diversidade que conduz à paz e à harmonia. Era uma chatice tremenda se todos pudessem estar bem; os medíocres não teriam mais com que brilhar.

Publicado por: Cãocompulgas às abril 11, 2006 02:38 PM

Ganda Post, meu sacana.
E agora a sério: "nem mais"

Publicado por: Nuno Jordão às abril 11, 2006 08:46 PM

Volta Aquilino Ribeiro!..........estás perdoado!!

Publicado por: atuareg às abril 11, 2006 09:12 PM

Jpt, qto ao carácter polissémico da palavra 'insulto' - Q significado pode ter além de 'ofensa'?

Onde é q me perdi? :)

Publicado por: vague às abril 11, 2006 09:51 PM

Mais um grande post.
Quem o conhece (PB), fora do circulo profissional, sabe o que quer dizer. Profissionalmente é encarado como um grande filho da puta, arrogante....Até pode ser, mas tem bagagem para isso e para não andar com meias medidas e paninhos quentes com quem não lhe interessa. Mas, para dôr de corno de muitos, é sem dúvida, dos melhores criativos do nosso pequenissimo País a que se dão importâncias a pintelhices como essa ilustrada nesse pequeno texto.
Para terminar, raguebi não é um desporto de homens, mesmo quando os próprios incutem nas gajas que não devem jogar por causa das mamas, como se eles não tivessem tomates onde (dizem) doiem muito mais as porradas.
Sim, a minha filha joga rugby!
Desculpa o testamento....mas não me aguentei!

Publicado por: Luna às abril 11, 2006 10:05 PM

Eu por razões naturais não comento a JAD.
JPT, gostei.

Publicado por: MB às abril 11, 2006 10:24 PM

Os esportistas não são mais nem menos preconceituosos que o resto da sociedade, por mais que textos rebuscados afirmem o oposto.

Publicado por: Manoel Carlos às abril 11, 2006 10:30 PM

Vague fui ver o texto, talvez mal construído. Eu percebo-me (o que não é óbvio, pois nem sempre acontece) mas compreendo que tenha sido pouco explícito. Desculpará, coisas da escrita rápida. Mas o que quis dizer foi um "insulto" qualquer (E depois exemplifico abaixo, acho que com 6 exemplares) tem carácter polissémico. Não é a palavra "insulto" que afirmo polissémica, são os "termos insultuosos" que o são.
Aos restantes, obrigado pelas botaduras.

Publicado por: jpt às abril 11, 2006 11:58 PM

(apaguei dois comentários [mais agrestes] por proposta do próprio comentador. A qual agradeço]

Publicado por: jpt às abril 12, 2006 12:12 AM

Jpt, eu li o texto em diagonal (mea culpa) e parei no 1º apeadeiro q achei apetecível.

Claro q um insulto o será ou não dependendo da maneira como e do contexto em que é utilizado.

Por ex, no Porto utilizam-se no discurso falado expressões que aqui seriam consideradas injuriosas.

Não se aplica isto, creio, ao tal hino da Galp q foi muito infeliz na parte final.

Publicado por: vague às abril 12, 2006 11:32 AM

eh pá arranjem-me aí uns insultos para heteros brancos que eu, que não sou nada de politiquices correctas, estava-me mesmo a apetecer chamar alguns ao autor do texto.

não me digam que não os há!

Publicado por: vítima da sociedade às abril 12, 2006 06:13 PM

palmas pelo fantástico texto! genial!

querem-nos tirar tudo, o direito de insultar os paneleiros, as putas, a petralhada, os marranos! chega! basta! e ainda por cima querem encontrar insultos para nós, "homofóbico", "racista", "anti-semita", "machista", basta! essas palavras nem existem no dicionário! foda-se! eu é que posso insultar, se me insultam vou acusar-vos à minha mãezinha!

Publicado por: branco hetero às abril 12, 2006 06:16 PM

meu caro jpt sem querer estar a apontar-lhe as suas fraquezas de forma politicamente incorrecta, que não é do meu timbre (mas poderia ser se o chamasse de desonesto e burro), queria apenas apontar que o antropólogo que refere no texto mas não (diria cobardemente, se fosse politicamente incorrecto, mas não sou) linka, explica bem que o problema nem é o uso do termo "paneleiro" mas a forma como tal é feito, "o último a chegar é paneleiro".

Publicado por: gay judeu negro às abril 12, 2006 06:23 PM

Tudo isto p dizer à miúda que - entre outros - a acha gira. Sinceramente...

Publicado por: contratudoetodos às abril 13, 2006 01:09 AM

Caro gayjudeunegroetudooquequisermais, como o JPT está com a ciática aproveito para abusar e aqui lhe responder. E a única pergunta que lhe faço é, assim lá na sua juventude, sei lá, talvez mais por inícos da adolescência, numa corridinha para o autocarro que estava quase a arrancar,com a malta toda a desatar a correr, nunca ouviu essa de "o último a chegar é paneleiro"? e caso o tenha ouvido, e caso seja mesmo gay, sentiu nessa confraternização da miudagem sinais de homofobia, coisa que levasse a sério, amigos que afinal lhe queriam mal?

e já agora, alguma vez foi o último a chegar?

E já agora, que acha daquela do "em terra de cego quem tem olho é rei"? eu pessoalmente acho uma ofensa chamar a 98% da população portuguesa de invisuais. Ou pior, porque essa do olho cheira-me a boca disfarçada sobre insinuações anais. Os ditados portugueses deveriam ser todos corrigidos, não concorda comigo?

Publicado por: Eufigénio às abril 13, 2006 03:05 AM

ah então o pessoal lá da Galp não passam de uns teens é isso? muito bem pagos diria eu, tendo em conta a idade, sem ofensa.

ó eufigénio continuo então à espera da sua anunciada resposta, desde já obrigado.

Publicado por: gay judeu negro às abril 13, 2006 03:42 AM

ps: curioso falar em inocentes teens, ainda há umas semanas alguns desses mataram um travesti no porto ao som de uns inocentes "morre paneleiro".

mas continuo à espera da resposta, desta vez, "o último a responder é preto!", livra!

Publicado por: gay judeu negro às abril 13, 2006 03:46 AM

Vague, eu não conheço a campanha da Galp. Li, via Bicho Carpinteiro, o texto (de uma canção, presumo). Acredito que seja infeliz, uma porcaria, o que se quiser. Como me parece óbvio não me pus a botar sobre a campanha, mas sobre o tipo de argumentos recorrentes que aqui ressurgem.
Eufigénio, não te percebo.
Engraçada, já que o Eufigénio deu troco ficarão vs discutindo os seus interessantes argumentos. Quanto às angústias que aqui coloca em nada lhe posso ser útil. Já sobre as afirmações que vai deixando ao longo da horas só me ocorre dizer-lhe que o tal antropólogo que refiro mas covardemente não ligo só está na sua cabeça. Mas é uma boa maneira, essa a de inventar argumentos e modos nos outros. Vá continuando assim por aqui a animar a caixa de comentários, vai ver que ainda conseguirá ter graça.

Publicado por: jpt às abril 13, 2006 05:16 AM

Eufigénio, estou contigo na argumentação.
Pata que os pôs aos pseudo gays da argumentação pseudo-moral.

Publicado por: MB às abril 14, 2006 01:56 AM

ó MB eu aqui cheio de maleitas e vs a discutirem minudências. Que abismo é o género humano ...

Publicado por: jpt às abril 14, 2006 02:30 AM

As melhoras.

Publicado por: contratudoetodos às abril 14, 2006 09:01 PM

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