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abril 28, 2006
Latim

É óptima a existência destas edições populares dos clássicos. São relativamente baratas, acessíveis à compra (encontram-se, são distribuídas). E assim permitem aos populares ler tamanhas palavras. E, mais do que tudo, recomendarem-nas, emprestarem-nas, recortarem-nas e assim passá-las aos populares mais novos.
Têm defeitos nas notas de rodapé? Referências bibliográficas incompletas? Notações exóticas? Citações incompletas? Revisões parece-que-inexistentes? Terão, mas é por isso que são populares. Letra pequenina e lombada frágil? Sim, mas são populares.
O que me irrita são as não-traduções. Não é a primeira vez que aqui venho com latinices semelhantes. Não consigo entender a inexistência de tradução (que seja entre parêntesis, que seja em rodapé, até mesmo no fim do livro) das citações em latim. Durante muito tempo pensei que fosse sinal de distinção. Género quem aqui vem (o aqui são as ilustres colecções) tem que saber latim (e alemão, também sofre do mesmo mal). Pensei assim bastante tempo, chapéu na mão, respeitoso e humilde diante do saber de quem edita ou traduz tão grandes pensadores. Ainda que paradoxo, então as colecções populares não serão para nós, populares? Já letrados no hoje-em-dia do progresso mas não em latim (ou, repito, em alemão)? Mas enfim, de paradoxos está o mundo cheio. Ainda assim isto irrita-me, e cada vez mais.
Como mero exemplo, nesta "Carta Sobre a Tolerância" as duas siglas, bem significantes, que integraram a edição original, anónima, surgem

pelo menos 3 vezes, nas introduções e no texto. Em nenhuma delas são traduzidas, tal como várias outras citações. Porquê? Nós, populares, não podemos saber o conteúdo exacto e total do livro? Há dimensões que serão só para iniciados?
Repito, isto é mania geral, não apenas neste livro. Tradutores altaneiros? Editores elitistas? Vice-versa?
Talvez não. Pois estas são traduções de edições traduzidas. E quando nessas edições base (normalmente em francês) algum excerto em latim foi traduzido também aqui o surge em português. Portanto a imperscrutabilidade do latim não é um dogma (aliás neste caso está-se a traduzir um original latim, mas enfim). E na única tradução do latim para português (ainda que mediado pela tal tradução francesa, ainda assim) em todo o livro o jeito é este:
"Não tinha ele tomado como divisa o pensamento atribuído a Santo Agostinho: In necessariis unitas, in dubiis libertas, in omnibus caritas" (na necessária unidade, na dúvida liberdade, em todas as coisas caridade)" [meu sublinhado]. [versão wikipedia, para quem tiver curiosidade]
Confirme-se. É um pequeno erro (ainda que invalide uma ideia). Até pode ser de revisão. Mas denota bem, o restante latim deste(s) livro(s) não é traduzido porque é desconhecido. E não se solicita trabalho complementar. O latim a seco não é sinal de distinção. Afinal somos todos populares, posso entrar. E ponho o chapéu na cabeça.
Mas e os mais-novos, como lhes traduzir as latinices avulsas? E, principalmente, como não os deixar assustar diantes dos excertos (quase)incompreensíveis?
[John Locke, Carta Sobre a Tolerância, Edições 70, 1996, (tradução de João da Silva Gama, revista por Artur Morão)]
Publicado por jpt às abril 28, 2006 04:02 AM
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Comentários
Os mais novos têm a internet. Veja: http://66.249.93.104/search?q=cache:xNUN_hIBlkwJ:www.cep-annecy.org/cep/folders/SOURCES/LOCKE/
050206195312.html+theologiae+apud+Remonstrantes+professorem,+tyrannidis+osorem,+Limburgium+Amstelodamensem&
hl=pt-PT&gl=pt&ct=clnk&cd=2
Publicado por: Laurindinha às maio 1, 2006 09:20 PM
"La date exacte de la composition de la lettre est incertaine: probablement la fin de l'année 1685 ou le début de l'année 1686. Elle a été publiée pour la première fois en latin, à Gouda, en mai 1689. Le livre était anonyme, mais il était précédé de la suscription suivante ad clarisimum virum T.A.R.P.T.O.L.A. scripta à P.A.P.O.I.L.A.; la signification de ces deux mystérieux sigles est élucidée dans une lettre de P. de Limborch à Lady Masham du 24 mai 1705 : le premier signifiait Theologiae Apud Remonstrantes Professorem Tyrannidis Osorem, Libertatis Amantem (à un professeur de théologie remontrant, ennemi de la tyrannie et amoureux de la liberté) ; il désigne le destinataire de la lettre, Philippe Van Limborch. Le second désignait l'auteur, de cette manière cryptée qui atteste le goût de Locke pour le secret et la dissimulation : Pacis Amico, Persecutionis Osore, Johanne Lockio Anglio (par un ami de la paix et un ennemi de la persécution, John Locke, Anglais). Dans son Éloge de M. Locke, paru dans la Bibliothèque universelle en 1705, Le Clerc affirme toutefois que les deux dernières lettres du premier sigle signifient non pas Libertatis Amantem, mais Limburgium Amstelodamensem ; toutefois, il semble que Limborch, en tant que destinataire de la Lettre, était en mesure d'être mieux informé que Le Clerc."
Publicado por: Laurindinha às maio 1, 2006 09:22 PM
Laurindinha muito obrigado. Eu poderia continuar com as questões: a maioria dos mais-novos aí já não lê francês, p.ex. Mas não é essa a questão: o fundamental é o facto das traduções de textos em inglês ou francês restringirem as traduções das expressões ou excertos latinos ao que já vem traduzido no texto original - neste caso mais irritante pois trata-se da tradução da tradução francesa do texto latino original da carta: não traduzir isto implica que nada deveria estar traduzido [TARTOLA e PAPOILA se mantidas significam que este livro das ed. 70 deveria ser em latim, não o resto]
Esta é uma mania (um erro) constante nas traduções portuguesas. Até na ficção, basta ver a parvoíce dos livros de Eco?
Mais, um livro não é um blog. Se o fosse então o latim viria com link para uma página na net que o traduziria. Mas assim não.
OBrigado, renovado, até breve
Publicado por: jpt às maio 1, 2006 09:39 PM
Tenebrosa, essa ideia de que os jovens de hoje já não lêem francês...
As expressões latinas deveriam, tanto quanto possível, ser traduzidas em notas de rodapé, para benefício dos leitores, que também lêem cada vez menos latim... Concordo. Mas há-de concordar que essa tradução é um bónus, tendo em conta que os leitores da edição original que não saibam latim não têm direito a ela.
Neste caso, o tradutor tinha a dificuldade adicional de não ter de traduzir apenas latim, mas também duas siglas crípticas... Um bom tradutor tem obrigação de estar informado sobre a obra que está a trabalhar, mas por alguma razão uns são melhores do que outros.
Já pensou no imenso número de duplos sentidos e outras subtilezas se perdem em todas as traduções que se fazem? Mas, afinal, "traduttore, traditore", não é verdade?
Publicado por: Laurindinha às maio 3, 2006 09:30 PM
É normal que a maioria dos novos não leiam francês. Onde vivo é muito mais do que isso, a excepção é mesmo encontrar quem o faça. QUanto ao bónus da tradução em latim não concordo que o seja - o objectivo de uma tradução é apresentar um texto compreensível (isso da traição sim, uma interpretação contextualizada, ok), totalmente apreensível. É laxismo. E não é bónus pois estas são edições de trabalho, virados para amadores, curiosos e escolares. Portanto ...
A questão não é deste livro, isto é um traço constante das traduções em português. Já o tinha referido, e aconteceu-me voltar a este livro e deu para o post. Só no sábado à noite tinha 3 livros com coisas distintas mas relativas ao assunto. A anarquia com a utilização do latim (E, repito, do alemão) é absurda - Às vezes diverge no espaço de uma página (Vattimo, acreditar em acreditar - numa página não traduz, duas páginas À frente traduz. isto não tem lógica e é absurdo)
Publicado por: jpt às maio 3, 2006 11:56 PM
Desculpe, JPT, esqueci-me, no último comentário, do seu contexto moçambicano. Snobismo cosmopolita - mea culpa!
Um aparte: as possibilidades da internet e da sociedade de informação pareciam trazer muitas esperanças para o terceiro mundo. Na Índia, já há muitos jovens programadores a trabalhar para empresas nos EUA ou na Europa... Pergunto-lhe: em África, também há efeitos assim, extraordinários?
Publicado por: Laurindinha às maio 4, 2006 12:51 AM
brain drain aqui? há dias no jornal lia-se que um estudo (da sua credibilidade e competência não sei) indicava que 45% dos licenciados moçambicanos estão no estrangeiro. possibilidades para os indivíduos um problemão para a sociedade
à parte, muito lhe agradeço o seu interesse por este texto sobre as minudências da tradução do latim. mais que não seja porque é (aqui) único - e isto é algo que me irrita há anos e me parece ser uma constante (um traço cultural?) aí na santa terrinha. só não sei se não se deverá a estratégias de afirmação - quem é que confessa publicamente que não percebe a frasezita em latim perdida no meio das páginas?
Publicado por: jpt às maio 4, 2006 07:18 AM
"Brain drain"? Estava a pensar naqueles sítios estranhos (tipo centrais de call-center, em Portugal), em que os informáticos indianos, fazem tarefas, via internet, nomeadamente para empresas americanas. Se fosse para usar o exemplo do JPT, pareceria que em Moçambique há uma fácil ligação à rede...
Quanto ao latim, se o autor quis que fosse assim, a responsabilidade é do autor, não do tradutor! :) Mas, para quem não sabe latim, essas frases soltas podem ser uma oportunidade para conhecer algumas das expressões ou "frases que impõem" respeito, com o peso dos séculos.
Publicado por: Laurindinha às maio 7, 2006 11:19 AM
Eu insisto no latim. O Eco faz uma ficção cheia de latim. Provavelmente nem quer que se faça adendas traduzindo o tal latim. Ok, que fazer. Mas acho que se o autor está vivo se deve tentar permitir a tradução - na china ou nos eua onde não há descend~encias lingu´siticas do latim não se traduz os trechos em latim?
Agora, este caso é paradigmático: Carta sobre a tolerância é um texto em latim. Tem esta tradução francesa dos anos 60. É uma tradução de um texto latim!!! Nessa tradução, por razões que desconheço, não se traduz uma expressão. A tradução portuguesa da tradução francesa não cobre esse vazio. Porquê? Se se está a traduzir um texto latino qual a razão para deixar uma expressão?
Isto é constante. Ainda voltarei ao assunto.
Publicado por: jpt às maio 7, 2006 02:08 PM