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março 15, 2006
Da linguagem por aí, na tv e nos blogs
Recebo os canais cabo da África do Sul. Têm tiques linguísticos engraçados. Em terra onde não se vendem bebidas alcoólicas ao domingo não surpreende o "Não invoques o nome de Deus em vão", e vai daí censuram todos os constantes "gods" dos filmes yankees, nem surdina é, mesmo silêncio. Puro puritanismo. Mas actual, que isto de estarmos às 8 e tal da noite com umas louraças a copularem, a serem penetradas (é muito mais elegante do que escrever "foderem", "assumirem* o caralho" como é óbvio), no constante "soft-sexy" do Hollywood série A, e se a alguma escapa um "ó my god", muito necessário ao reforço do box office dos galãs, lá vem o censor: fodam, perdão, copulem à vontade mas não invoquem o nome de Deus em vão.
Tem piada, confesso que não tenho muita paciência para ver uns tipos a esfregarem-se ali no ecrã, mas está bem, antes isso do que o telejornal da rtp. E a censurazinha, esta, até tem piada, coisas de paradoxo se nos lembrarmos da velha imagem padrão do puritano. Mudam-se os tempos, mudam-se as censuras ...
Mais piada tem quando as coisas aquecem no outro sentido, seja lá na guerra, que não há dia em que Hollywood A, B ou C não nos apresente marines, seals ou outros aferindo o mundo, seja nos policiais ou isso. Enquanto a rapaziada - sempre na hora das criancinhas, note-se - se aplica a esfacelar-se com arreganho, às vezes com até pouco realismo, outras mais tripas à mostra, jorros de sangue (é um must, cagar a câmara com sangue) e solavancos de "peidos-mestres", perdão, estertores agonizantes, seja no vietname, no afeganistão, nos subúrbios, seja ainda nos filmes de zombies série Z que são mais às 9 e picos, que isto de morrer no ecrã morre-se como o caralho, perdão, muito, enquanto eles se aplicam a esfacelar-se, dizia eu, e o ecrã se vai tornando vermelhusco, lá vêm os silêncios, cuidadosamente recortados, a cada "chupa-me o caralho", "fodilhão da tua mãe", "foda-se", "merda", "brochista". E, juro, que assistir a alguns filmes americanos mais recentes, sem legendas atenção, torna-se um bocado difícil, tantos os silêncios que ali vão surgindo, alguns diálogos imperscrutáveis, até pela desconcentração que tudo isso provoca. São contradições interessantes, acho, coisas de um puritanismo engraçado: meto-te uma bazucada pelo ânus acima mas que não se ouça que te enrabo.
Lá no meu país é (ou era, que me desactualizo) um bocado assim. Recordo as legendas celestiais que não traduziam o vernáculo estrangeiro, pura abstenção. E depois, sinais dos tempos, o ridículo do "sacana", "bolas" ou "caramba" em troca do "porco filho da puta", "colhões" ou "foda-se" em inglês. E no diz-que-diz lá na terra, filmeco, vilasfaias ou "conversas moles" nem pensar em arriscar a língua. Lembro que nos meados dos anos 80 um olivalense então célebre, e depois morto estupidamente cedo, Rogério Rodrigues Tell Tapia, foi à tv a um concurso de "talentos" fazer o seu número de "comédia em pé" e, na tardinha de sábado, dizer a sua ladaínha então semi-celebrizada em concertos do pop Radar Kadhafi (a qual, diga-se, era sempre a mesma, mas ao menos era dele) onde um dos pratos-fortes rezava assim: "...esfrega-me o caralho com brilhantina, besunta-me ele, esfrega-me ele..." entre outras peças deste quilate. E do que me ri ao vê-lo nisso, não da piada que não seria grande, mas do escatológico record vernacular que aquilo foi na paróquia ("ah, ganda olivais!!"). Depois, para aí 10 anos depois, dizem-me que Herman José avançou para estes territórios, mas não acredito que tenha ultrapassado o velho Tapia, em limites e em genuinidade. Talvez no cinema, talvez, ainda que algumas das "porras" que tenho ouvido mais parecem a Palmira Bastos a "morrer de pé". Acima de tudo por lá se mantém a ideia de que as caralhadas são muito dignas se em escritor de grã-porte ou marginal. Ou seja, o vernáculo agressivo, invocação ou dedicação, pertence (por direito divino?) à aristocracia, hoje a do pensar, ou (por ónus divino?) ao povo rasteiro, carroceiro. E Isto é nada mais do que a continuação da velha noção da alguma homologia, e cumplicidade, entre nobreza e povo e lá no meio, em distância ambivalente, a burguesia, bem comportada, equilibrada, a sobriedade, levando-se e levando "a sério", purificando comportamentos, apurando linguagens, no seu charme discreto: públicos discursos caralhadas privadas. Burguesotes de merda, a ver se sobem no escritório. E se, pelo aprumo, casam com o camafeu dotado. A sobrinha do chefe. Está nos romances, caralho.
Invocar o vernacular "palavrão"? Não se deve na "esfera pública", na representação do nós-mesmos. E arraste-se tal, com as togas do hoje, para o "palco público" do bloguismo. E dedicar o vernacular "palavrão"? Isso então nem pensar, grosseria redutora desta burguesia, antes de toga, agora de tecla, apoucar-lhe estatuto, brilho, sobriedade. E acima de tudo a competência, o desígnio. O colectivo, por soma de todos o que o são. Repito-me, o mandamento do "oqueéqueestefilhodaputaquer? privado" "meucaropermita-merespeitosamentediscordar público".
Não vou aí, e é assim. Por republicanismo, acima de tudo, a exigência de não dourar as origens. Nem o caminho. E porque a extensão da linguagem é significante e, em muitos contextos, ela não é substituível. É-nos necessária. E um direito. E, já agora, porque não casei com nenhum camafeu.
*esta expressão é minha, modesto contributo para a ideologia do "género", implicando a recusa linguística da passividade feminina no acto copular, crismada no popularizado "levar com ele".
Nota já agora: a propósito de uma discordância explícita (e condignamente reciprocada) com o Bombyx Mori há um blog snob (sem nome, anónimo), desejando-se acólito, que me dedica um texto ridículo de rococó, muito ofendido com um "vá à merda" alheio. E quer que eu lhe largue a mão - "largar a mão"? ... o pobre snob que leia a tralha acima e saiba os privados termos que lhe dedico. E já agora tire o link, não visite, vá andando, que a mãozita marota vem daí. E antes que se vá não saia sem o lembrete, quem opina e não assina é um bom montículo orgânico. Está bem assim?
Publicado por jpt às março 15, 2006 05:44 PM
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Comentários
Lembrei-me de uma velha anedota ao ler esta tua prosa. Aquela do menino Zézinho (não levas a mal o facto do menino ser um Zézinho, está bem?) que tinha de escrever um texto envolvendo clero, nobreza e sexo. O gajo escreveu apenas uma frase: "A senhora marquesa disse: meu Deus, que bom!!!"
Publicado por: Paulo Dentinho às março 15, 2006 06:46 PM
Os zézinhos são aqueles que têm sempre razão.
Chamam tudo pelos nomes.
Bem ajam os Zézinhos de todo o mundo.
Este post foi ilustrado com uma imagem tua que vai estar no Plagiadíssimo.
Passa por lá e fica bem.
Publicado por: Zeca às março 15, 2006 07:01 PM
Em Hollyhood também. Podem morrer 1.000 á rajada, mas sangue a escorrer só durante 1 segundo !
Publicado por: Carlos Indico às março 15, 2006 09:29 PM
Andas por cá Paulo? Fantástico. Não te imaginava nestas andanças. Estás bom? Grande abraço, muitas saudades.
Publicado por: jpt às março 15, 2006 10:24 PM
- Sr. Padre, eu pequei. Fui seduzido por uma mulher que se dá...
- És tu, Zézinho?
- Sim, Sr. Padre, sou eu.
- E com quem estivestes tu? - Padre, eu já disse o meu pecado... ela que confesse o dela.
- Repara, Zézinho, mais tarde ou mais cedo eu vou saber, assim é melhor que mo digas agora. Foi a Isabel Silva?
- Os meus lábios estão selados...
- A Maria Gomes?
- Por mim, jamais o saberá...
- Ah! A Maria José?
- Não direi nunca!!!
- A Rosa do talho?
- Padre, não insista!!!
- Então foi a Catarina da pastelaria, não?
- Padre, isto não faz sentido....
O Padre desesperado diz-lhe então:
- És uma cabeça dura, Zézinho, mas no fundo do coração admiro a tua reserva. Vais rezar vinte Pais-Nossos e dez Avé-Marias... Vai com Deus, meu filho....
Zézinho sai do confessionário e vai para os bancos da igreja.
O seu amigo Carlitos desliza para junto dele e sussurra-lhe:
- E então? Resultou?
- Sim. Tenho cinco nomes de gajas que dão baldas!!
Publicado por: bill às março 16, 2006 12:16 PM
obrigado plagiadissimo pela ligacao. Presuncao e agua benta de cada um, neste caso minhas, ate gosto deste meu texto
Bill, um regresso com piada de salao? ainda bem, que isto anda muito ordinario.saudacoes
Publicado por: jpt às março 16, 2006 12:37 PM
O abade onde canta, daí janta.
Publicado por: bill às março 16, 2006 12:47 PM
xxx
Publicado por: jpt às março 16, 2006 02:04 PM
Na históra dos palavrões na TV, também houve o tradutor da TVI que foi despedido porque traduzia as coisas demasiado bem.
A TVI não queria linguagem daquela nos filmes, mas ele insistia que o filme tinha mesmo aquela linguagem.
Publicado por: Marco Oliveira às março 16, 2006 05:59 PM