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Ma-Schamba: Da crueldade

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fevereiro 11, 2006

Da crueldade

Cruéis, meramente cruéis, Jcd e Paulo Gorjão, dois pesos pesados do bloguismo político português, atacam Vitalino Canas devido às suas declarações sobre o "caso caricatural". Não me parecem acertadas essas abordagens. Explico-me, ainda que consciente que em texto maçudo, longo e descritivo, e talvez apenas auto-interessante, coisa memorialista, até de intensidade incompreensível para quem não a viveu.

Lembro Vitalino Canas em Maputo. Em 1998 aqui aconteceram as primeiras eleições municipais, às quais a Renamo, então no zénite da sua influência política, se recusou a comparecer, alegando manipulações alheias. Eram então tempos de uma paz ainda recente, não tão sedimentada, de uma ciclicidade eleitoral ainda incipiente, até inóspita. Enfim, era notória a tensão política. Subitamente, uma semana antes das eleições, o então Secretário de Estado da Presidência Vitalino Canas surgiu em Maputo, no intuito de lançar um livro do qual tinha sido autor/coordenador (ainda que tal não seja explícito no livro). Entenda-se, Canas foi durante algum tempo aqui professor cooperante na UEM, tendo participado nos estudos de ordenamento jurídico da descentralização administrativa, modelo municipalista. Foi nesse sentido que surgiu esta muito digna obra colectiva, sete autores incluindo dois ministros moçambicanos, "Autarquias Locais em Moçambique. Antecedentes e Regime Jurídico" (Lisboa/Maputo, sem editor, 1998)

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Mas, e é esse o ponto, naquele clima de tensão e contestação eleitoral o surgimento de um membro do governo português, a uma semana das eleições, numa actividade destas não podia deixar de ser entendido como um apoio eleitoral explícito. Enfim, intromissão. Certo que com alguma elegância poderia ter sido remetido (e bem remetido) para um diferente âmbito, a expressão de um apoio português (e internacional) à democraticidade eleitoral e ao modelo municipalista, ainda para mais este então pouco entendido pela população quanto às suas virtualidades. Enfim, algo supra-partidário, nem que fosse retórica de solidariedade internacional. [Sobre esse apoio, a exportação municipalista, que vincou a cooperação portuguesa nos anos 90 e seus efeitos, inclusivamente ao nível de redes, isso seria motivo para texto de out-blog].

Mas tal avisada abordagem, "de Estado", logo se desvaneceu. Aqui chegado Canas, em total efervescência, de imediato proclamou à RTP, numa entrevista que ficou conhecida como o "3 em 1", glosando o então conhecido anúncio de um "shampoo": "como membro do governo português sou neutro; como militante do PS apoio a Frelimo; individualmente apoio a Frelimo" - o "eu sou da Frelimo" ficou-se em conversas pessoais, diziam-me.

Constrangimento, claro, dos patrícios mais atentos que cá viviam. Num, e explicito, "se isto corre mal, os custos que estas coisas terão no futuro", pois "e o gajo na altura em Lisboa, não é nada com ele". Talvez postura erradas as nossas, e comparo-me, se eu que cá vivo, mero professor mas com contrato com o nosso Estado, nem em blog confesso hipotéticas preferências aqui, como foi possível aquilo? Mas, repito, talvez entendimentos errados os nossos, pois ele lá nas coisas da alta política e nós muito rasteirinhos, na nossa vidinha.

Bem, lá se lançou o livro, no meio do constrangimento nosso, mas que havia de se fazer, o homem tinha gosto pessoal naquilo e era do governo. Político manda, funcionário funciona, e nós, povo, paisajamos. Ainda sorri, triste, no logo após-cerimónia, com os dizeres de um gente lá do alto cá, companheiro num "ficar para trás" no mão-dada daqui, "isto não era necessário". Mas era um gosto pessoal, que fazer?

E daí lá se avançou para aquele que até foi o motivo "oficial" da tal viagem. Comemorando-se então o 10 de Junho Canas representou o governo nas festividades. Na véspera do dia das comunidades avançou parte da comunidade para jantar com S.Exa no Hotel Rovuma. Por "parte da comunidade" entenda-se o creme do pastel, prontos para ouvir mensagem governamental em tempos, naquele final de milénio, de reaproximação, convulsa é certo, de países e economias, muita conversa e alguma uva. Eu, emprego oblige, lá estava.

Que viria dizer o secretário de Estado do Primeiro-Ministro a esta gente? Dizer-nos? Ainda para mais um homem de alguma vivência recente aqui? Que ideias para aqueles momentos de tensão política mas também de reânimo das relações entre países? Era o ano "gâmico" (1998) e o consul (então um tipo decentísimo e competentíssimo, um Senhor de trabalho) leu o texto vindo de Lisboa e seguiu-se-lhe o então sua excelência.

Avançou para aquela plateia, notoriamente constituída por quadros de empresas então aqui instaladas, que era tempo de bastante movimento nesse sentido, gente em comissão 2/4 anos que sempre se quer trampolim para o regresso mais tarde ou mais cedo; e portugueses de cá, algo como "comendadores" e "proto-comendadores", e suas descendências já, gente de décadas senão mesmo nascimento aqui, cruzando o ocaso de Portugal aqui e sua guerra, boiando no comunismo depois, emagrecendo ao "tempo do carapau e repolho", sobrevivendo à guerra civil e ainda encontrando modos de reaprenderem a economia mercantil que aí está, dura também. Sempre de longe a olhar Portugal, até com desconfianças, fundamentadas ou não isso é outra coisa. Ao qual regressam se nos seus finais, e apenas se filhos e netos para lá partidos, e sempre nesse regresso apressando a morte ainda que esta já então próxima.

E diante de tal plateia logo vieram os apelos/conselhos, decerto bem pensados pois até escritos: o primeiro, explícito e sonante, "não regressem", pois Portugal precisa de nós aqui, seguindo-nos com atenção e solidariedade. No intra-mesas sorrisos dos quadros expatriados num "isto não é para nós, é para os outros, os velhos". E semicerrares nos "outros", esses da tanta tarimba, do tão escaldados, logo em vários "quem é este caralho para nos dizer para não voltar?", e alguns destes bem vizinhos do meu bacalhau. Depois, outro conselho, o final, uma pérola: "organizem-se politicamente, associem-se nesse sentido, participem na vida política do país". Então já foi coisa de inter-mesas, esgares partilhados, "de onde saíu este tipo?". Os portugueses a participarem na vida política, associados? Em Moçambique? Em 1998? Um membro do governo a dizer-nos isto? E nós, todos decerto, a imaginarmos a bronca que seria. Eu à mesa, emprego oblige repito, a desculpá-lo na ironia "o gajo pensa que está em Newark", a incentivar à eleição de um senador ou governador lusodescendente, decerto a desejar imitar as kennedyces dos irlandeses, geração a geração.

Logo saímos dali. Elevadores abaixo e depois em múltiplos "mais um tolo! só nos mandam disto!", dos risos tão habituais mas sempre entristecidos, ainda que soltos em gargalhadas. E eu, entre apertos de mão e combinações de "onde é que vamos agora beber um whisky?" a negar isso, num "não, não, caramba, não são todos assim". Pois, por mais que às vezes pareça o contrário, os gajos não são todos iguais. Pois, e garanto, naquele nível nunca encontrei tão fraquinho.

E é desta memória, já bem antiga, de Vitalino Canas, pobre homem, que retiro o desacordo com os tais bloguistas. O homem é assim. Cumpre-nos apenas solidariedade. De ateu. Ou, em sendo cristão, caridade.

Publicado por jpt às fevereiro 11, 2006 03:18 PM

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