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Ma-Schamba: Liberdade de expressão?

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fevereiro 12, 2006

Liberdade de expressão?

Há alguns anos, lembro incerto 1999, Veiga Simão então ministro da Defesa de Portugal, velho homem de Estado e dignissimo universitário, espantou ao despachar a lista dos membros dos serviços de informação portugueses para uma Comissão Parlamentar. Logo alguém dessa comissão, muito provavelmente um deputado da República, remeteu a lista para os orgãos de comunicação social.

Lembro estar em Maputo e telefonarem-me de Portugal informando do acontecido, na ironia do "amanhã a lista dos espiões sai no Independente, vê lá quem são os daí", narrando-me o acontecido e eu balançando entre a gargalhada descrente e o nojo por portugueses que partilham, apesar de mim, o meu país. Logo o solicitei, curiosidade certa, e na manhã tinha no gabinete um fax (era ainda o tempo dos faxes, imagine-se) com a cópia do jornal Independente onde constava uma lista de dezenas de indivíduos. Os nomes riscados, aparentemente a marcador (como se isso impedisse uma leitura por parte de profissionais interessados), mas os países de colocação bem à vista. Foi logo um reboliço telefónico, irónico e curioso, amigos cuscando se alguém sabia ou imaginava quem eram os dois agentes colocados em Moçambique, coisa que iria durar ainda uns dias. De imediato imaginei os dois homens, decerto avisados de véspera, que tudo aquilo foi inopinado, abandonando o país no mais madrugador avião para Joanesburgo ou, mais certo, cruzando nos primeiros alvores da matina a Namaacha ou Ressano Garcia, a inquietude dessa derradeira noite postados diante das fronteiras, avessas que são elas ao trânsito nocturno. E imaginei também, leituras velhas construindo imagens, homens e mulheres partindo em contido alvoroço de dezenas de países. E ainda o súbito encerramento de empresas nos arrabaldes lisboetas, filiais de seguradoras, consultoras, contabilidade, sei lá que tipo de coberturas escolhidas nesses sombrios Rios de Mouro ou Paios Pires tão a jeito para realidades feitas filmes, e o espanto de mulheres a dias, fornecedores e vizinhos com o vácuo então criado.

Veiga Simão retirou-se de uma longuissima, e até contraditória, vida de serviço público. E nada mais. Mudaram-se governos, a oposição subiu a poder e regressou a oposição, as comissões subiram a observados e regressaram a comissões, os então observados tornaram-se observadores e de novo ascenderam a observados. Deputado algum, assessor algum, foi confrontado com a evidente traição ao país. Uma traição não metafórica. Linear. Pura e simples. A Assembleia da República, ao que agora se bloga prenhe de mictórios entupidos e de deputados que apenas do próprio mijo se lembram na hora da crítica fácil porque tão tardia, fez por esquecer, e esqueceu, o facto de acoitar traidores e nisso continuar impávida.

Os jornais publicaram, decerto em nome de um qualquer interesse público (confundindo, cientes disso, "público" com "do público") e da sacrossanta liberdade de expressão. O povo, que é manifestamente imbecil, creio que devido à dieta, nunca se lembrou disto, continua a votar nos traidores e nos que os protegem [alguém acredita que ninguém saiba quem foi o "brochista" (em inglês se quiserem) que denunciou os serviços de informação?]. Contente, ulula julgando-se patriota, assim reconfortado da merda que é, tv aos gritos no jogo da selecção, bandeira nacional numa mão, jornal Independente, o lixo traidor, na outra.

Anos passados ninguém liga, ninguém se lembra. A rapaziada de esquerda, relativizada, apupa a liberdade de expressão, máscara da falsidade ocidental ou até mesmo da inexistência ocidental, ainda que lhe reconheça, se cutucados, o mérito de denunciar a perfídia espia nacional, vista arma de exploração de inocentes alheios, inocentes porque alheios, porque diferentes, porque outros. A rapaziada menos relativista, reza loas à liberdade de expressão, coisa absoluta, tanto que até lhes dá para trair o país, nos intervalos de declarações pomposas sobre nação e quejandas. Coisa sem limites, dizem. E, escroques, realizam. No remanso do piadismo fácil e do linkismo ignorante. Punhetam, viris. Ambos os todos.

A propósito destas questões um amável comentador aqui afirmava há dias, "não compreendo o que dizes, mas entendo que te sintas longe": Longe, eu?! Foda-se, eu estou aí. Isso é meu. Quem está longe, quem está bem longe, quem nem sequer merece isso, é essa corja. Corja não, que parece queiroziano. É essa vara, fica melhor. Estais longe.

(texto escrito em estado de liberdade de expressão relativa e sobriedade absoluta)

Publicado por jpt às fevereiro 12, 2006 02:10 AM

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Comentários

Não digo o nome de deputado sinceramente porque não me lembro. Mas está nos jornais da época , ou jornal- senão não me esquecia. Recebeu do Veiga - porquê? -,era o Presidente da comissão defesa(?), e segundo foi escrito mandou umas secretárias fazerem uma "duzia" de fotocópias para a Comissão, aquilo abandalhou-se , sobraram fotocópias, uma auxiliar de limpeza apanhou-as do chão pretendendo atirá-las para o lixo, alguém disse que não, que eram papeis importantes, e ......Inexplicávelmente os Jornais Portugueses anunciaram que os Nóveis Secretas portugueses eram o Zé, o Manel, estavam infiltrados aqui e ali, o endereço....,a foto....,eh,eh,eh,eh, eram secretíssimos.
Não aconteceu nada, aliás continua a não acontecer: o relatório sobre as ESCUTAS exigindo pelo PRESIDENTE ao Procurador, já!, foi há quanto tempo?
Temos um Estado de Endireitas.

Publicado por: Carlos Indico às fevereiro 13, 2006 12:48 AM

CI, pode ser que tudo seja "lisboa em camisa" em s. bento (honestamente não tenho memória do que narra). Mas daí À publicação em jornal vai para muito para além disso.

Publicado por: jpt às fevereiro 13, 2006 01:06 AM

Fui aluno do Veiga Simão nos Estudos Gerais em Lourenço Marques. Penso que ele é, ou era, pessoa de bem.
Parabéns.

Publicado por: Voltaire às fevereiro 14, 2006 12:10 AM

Caro Voltaire, é, é, uma pessoa de bem. (pena este episódio, rocambolesco, mas que não lhe belisca a dignidade) E, já agora, frise-se, fundador dos Estudos Gerais. Hoje Univ. Eduardo Mondlane.

Publicado por: jpt às fevereiro 14, 2006 12:30 AM

...só com liberdade de expressão, se pode discutir a expressão da Liberdade...com todos os possíveis inconvenientes, os cartonista dinamarqueses ficaram com um proeminente lugar na História das humanas realidades...
Abraço
Morfeu

Publicado por: morfeu às fevereiro 14, 2006 01:52 PM

morfeu, os cartonistas dinamarqueses são uns gajos porreiros que desenham humor, dois talentos invejáveis, e que além disso tiveram a extrema coragem de afrontar fatwas alheias. vénia

os palhacinhos que decidiram "em minha casa mando eu" e que agora vieram, rabinho entre pernas, não só acicatar outros mas sublinhar-lhes o peso das iras, são absolutamente tontos, irresponsáveis e balofos - dar nozes a quem tem dentes e está esfaimado

quanto ao resto, este texto é a propósito das caricaturas não é sobre as caricaturas - como cada vez mais é habitual li um chorrilho de asneiras sobre liberdade de expressão. há duas hipóteses sobre esta matéria: ou se desiste de ler blogs para não arriscar ao dislate esparvoado; ou se adoece

Publicado por: jpt às fevereiro 14, 2006 02:27 PM

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