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fevereiro 28, 2006
Texto liberal
No Chile em 1973 e seguintes mataram-se algumas pessoas (para aí umas 3000 pessoas, parece que não mais, em Cuba é pior, na Argentina foi pior, e isto é só para dar exemplos). E foram muito bem mortas, eram radicais marxistas, queriam fazer o socialismo. Ainda bem que se teve a coragem de os eliminar.
Meses depois de vez em quando, de clic em clic, ainda me lembro disto. Coço a cabeça e clic, clic. Não gosto vou-me embora, clic, clic. Sem deixar de pensar que isto do bloguismo às vezes, muitas vezes, é uma pantominice.
Adenda: "Há coincidências". Este texto do Tugir alerta-me (mesmo que não seja a intenção ali) que isto poderá ser entendido como um texto sobre o Blasfémias, agora em pleno segundo aniversário (e a propósito deste) [parabéns]. Mas não é. Pois ao aniversário em questão cheguei bons clics depois. Mas não por isso. Por mais que des-goste de muito Blasfémias nunca ali vi defendido e louvado o massacre de alguns (ainda que poucos, não é assim?) milhares de pessoas. É alhures que se encontram tão louvados louvores, tão arreigado "liberalismo". Certo que a pantomina será transversal, os abraços, louvores e admirações por tão sanguinários "liberais", idem. Mas o afã tem local.
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Cartoons em Moçambique
Sobre a publicação das caricaturas dinamarquesas pelo jornal Savana é de ler o interessante artigo de Elísio Macamo: Liberdades Perigosas e Soberania. O qual, como se bónus fosse, traz uma fábula deliciosa.
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fevereiro 27, 2006
Obrigado
Sobre a minha irritação com Che Guevara e os seus seguidores já andei por cá a resmungar. Daí o meu obrigado superlativo a Valter Hugo Mãe pela pedrada atirada.
Não esquecendo um excelente texto no ido Comprometido Espectador. Junto ainda os meus: Che Guevara na Feira Popular, Camisas em T, Os mitos e a inteligência (sobre o guevarismo de Mário Mesquita), Ainda o contraditório, Lobo Antunes e Che, O Guevara e a Jóia Vitaphor. Tanta coisa, não haja dúvida, uma irritação de estimação.
Publicado por jpt às 11:59 PM | Comentários (1) | TrackBack
fevereiro 25, 2006
Gesundes Volksempfinden
O Lutz retrata-nos.
Perdão, deixo-me de merdas:
O Lutz retrata-vos.
Eu, assim no ridículo quixotesco, faço a única coisa que posso fazer: nunca mais compro o Público (para aí uns 15 por ano, não será grande prejuízo para aquela gente). Nem leio, nem comento, nem etc. A merda caga-se, limpa-se. Puxa-se o autoclismo. E lavam-se as mãos. Isto é cá em casa. Em outras não, vivem na merda. São merda.
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fevereiro 24, 2006
Tânia Laranjo e Natália Faria, "jornalistas" do jornal português Público, e autoras deste inenarrável texto são, em termos muito actuais, revisionistas e falsificadoras. Não que eu advogue, para me manter em comparações muito actuais, qualquer pena de prisão. Apenas um profundo desprezo: por Tânia Laranjo; por Natália Faria. Por José Manuel Fernandes, director do jornal e último responsável por esta prosa infame.
Adenda: Domingos Amaral, o qual presumo ser um jornalista português, considera, com eminente sapiência, que os bloguistas pensam como condutores de taxi (os "carroceiros" de hoje, claro está). Estará decerto certo, até pela elegância da verve. Pois a este carroceiro ocorre-lhe a questão, com amostras destas que pensará ele dos jornalistas portugueses? Em que bas-fond os arrumará, o menino? Se arrumará?
Publicado por jpt às 11:16 PM | Comentários (18) | TrackBack
Horrores
É um texto que não consigo escrever - ler isto, querer deixar-lhe elo, acompanhado com algo substantivo mas só me saem coisas parvas, horrorizadas, demagógicas até. Eduardo Pitta terá sentido o mesmo? e por isso a mera citação que tudo diz, do horror, o horror lento por isso-pior-que-tudo. E do horror escroque, ali manipulando, "alegando"..."alegando"...."alegando".
Não são horrores. É o horror. E, tão menos importante, o nojo.
Publicado por jpt às 09:18 PM | Comentários (12) | TrackBack
Pacheco

[Luiz Pacheco, Literatura Comestível, Lisboa, Estampa, 1972]
Releituras rápidas, coisas de ler os livros todos de seguida, que um novo levou a outros da estante. Neste (bem) mais velho temas que me ligam, acima de tudo o cansaço, e em Pacheco logo na época, com o Delfim, de Cardoso Pires, que senti quando o reli aquando do filme (não vi o filme, claro, Fernando Lopes é-me tabu "desde" a Crónica dos Bons Malandros, o "desde" entre aspas porque metáfora, o filme não existe portanto o "desde" é intemporal).
"Uma derradeira reticência: como Mário Dionísio perspicazmente detectou, o rendilhado labor estilístico de J.C.P. atinge neste livro altitude inigualada. Mas sente-se muito isso. Quando um prosador (consumado; é o caso) comete o gravíssimo erro de não nos deixar esquecer, pelo contrário: permanentemente desdobra diante dos nossos olhos o seu virtuosismo pisando-nos os olhos com ele, faz-nos criar a suspeita que essa sua constante preocupação oculta algo. Por exemplo: nada." (113) Mouche? Que o Delfim envelheceu parece-me, leigo vindo em gerações vindouras, óbvio. E talvez por causa dos requebros. ["Agora este está armado em literato?" pergunta o visitante - nada! eu gosto é muito do Cardoso Pires, menos deste Delfim, é só por isso ...].
Mas neste Literatura Comestível acima de tudo muito pouca coisa, questíunculas lá da pequena história da literatura portuguesa, zangas, tricas e isso, pouco interessantes hoje (que é me [nos] que interessa o plágio do Namora ao Vergílio Ferreira, e como este o denunciou? e outros obscuros etcs) e se calhar sempre. Textos envelhecidos. Livro-bairro. Ou, naquele então, país-bairro?
Súbito, sorriso, a sentir-me familiar, "onde é que eu já li isto?", assim como se em blog, aprés la lettre, heranças metodológicas ou mais-que-isso:
"Depois de uma leitura muito enojada, repito, e tal o atesta o meu volume todo sublinhado, anotado, riscado, vincado, do que afirmo e afirmarei ser uma das obras mais porcas da literatura portuguesa ..." (85)
E já que vinha ao caminho passo ao, este sim, livro

[Luiz Pacheco, O Libertino Passeia por Braga, a Idolátrica, o seu Esplendor, Lisboa, Colibri, 1992]
o texto a manter a pica passados os anos, quarentão já. Mas depois olho o livro, lá vem com a adenda "Depoiamento de uma angolana", de Maria Veiga Pereira, com mão de Alfredo Margarido, e enrolado em textos de apresentação e apósentação (Victor Silva Tavares, Júlio Moreira, Alexandre Pinheiro Torres a chamar-lhe "poetização da miséria, esplendor negativo" (??!), mais 3 desenhos inclusos em edições prévias, de Carlos Ferreiro (1) e Henrique Manuel (2), e fac-simile do manuscrito original), tudo isto à volta de nem-30 páginas de prosa: nítido, o embrulho a querer-se produção de um mito, pedra a pedra, livro a livro. Assim como, e isto já me veio à cabeça, a causa "por mais um velho do Princípe Real" - atenção, estamos para aí a 18 anos do centenário. E, entretanto, chamem lá o Le Carré, para o "cameo". Honestamente, o texto mantém a pica, mas caramba, é uma coisinha. Terá sido mais no seu tempo. Pobre tempo, não pobre texto. Mas também rico esse tempo, que por ele engrandece o texto.
E isto tudo foram regressos a propósito de quase-calhamaço de ardina, livros que se trazem em Lisboa quando se vai comprar o Record, acaba-se de "sair" do quiosque com um suplemento Barbie para a Carolina e o Pereira Coutinho, o Pacheco, o Ramos e o Venceslau (que raio de perfil de colecção lançou o Independente!? Não... a Barbie [com colar e pulseira] não fazia parte).

[Luiz Pacheco, Figuras, Figurantes e Figurões, Lisboa, O Independente, 2004]-
baratinho (as tralhas dos jornais são-no sempre), e a valer a pena. Muita destruição (Urbano Tavares Rodrigues, Ferreira de Castro, a revista, o JL - p. 163, pequeno período justificável de visita que o PS merece - enfim coisas lá do tempo dele, e outras também mais do nosso) com arreganho de mastim. Depois anuncia-se à gente, mas hoje é despedida (o texto "Crítica de Identificação" é de 1971 mas, sem pudor algum, o mórbido editor usa-o para encerrar o livro), propósito seu que é agora rescaldo: "fazer o que geralmente não vejo que se faça, isto é, aclarar publicamente tramas que se ocultam, apontar flibusteiros das Letras, pondo-lhes a careca à mostra embarrilando-os pela gargalhada; sempre que preciso, denunciar os compromissos de vária ordem em que se atolam os nossos pseudointelectuaizinhos que por aí andam a governar-se à larga, seguros na sua impudência e da sua impunidade mercê das circunstâncias" (194).
Mais sorrisos meus, coisas de então e de hoje. Projectos de vida. Mas, honestamente, a mim parecem-me mais é angústias com alheias mercês. E, muito sobretudo, coisa de sobrevalorizar os tais livros e gentes - o mundo corre pior por causa da maus romances? de contos coxos? de poemas torpes? do prémio a ou afago b? Separar o trigo do joio implicará ficar, enraivecido, a tri-tu-rar o joio? Ou não será melhor ir comer uma bela sandes de panado, panito quente, forno caseiro, piri-piri sacana?
Insisto, bons pensares em cima de uma sobrevalorização, complicações de mira. Angústias também, decerto.
Súbito "E que significa tudo isto? A coexistência de culturas mui diversas, de mui estranhas origens, umas arcaicas, tradicionais, outras em plena fase embrionária, nos primeiros tentames duma aclimatação. Culturas paralelas, misturadas, alheadas umas das outras e isto tudo num mesmo tempo histórico, porque a história é radicalmente transição (Jaspers, ainda uma vez)." (18) "A POLÉMICA É A RAZÃO DA NOSSA PERMANÊNCIA" (19)
Um texto para hoje, em tempos de "choque civilizacional"? Logo o apanho, é bom apanhar estes textos já antigos e roubá-los aos autores, manipulá-los a nosso gosto, até truncá-los, na nobre arte da citação, como se eles concordassem conosco (melhor dizendo, nós com eles), fazê-los (já mortos ou para isso preparados, textos e autores digo) pensar o que queremos. Eis-me nessa parece-que-legítima actividade, dissertando sobre o real circundante.
Mas, afinal, o homem estava a falar dos romancistas, Chiado acima, Chiado abaixo. Faço-me entender? O sentimento de desperdício do pensar, enredado nas discussãozinhas afinal elas ...
"O Genio é uma longa paciência" (178). Ganda Pacheco, faltou-te a dita?
Publicado por jpt às 08:36 PM | Comentários (4) | TrackBack
Publicado por jpt às 05:37 PM | Comentários (0) | TrackBack
Traço blogosférico português
É interessante. No bloguismo português, umas centenas de teclados informados, a atenção sobre a política externa portuguesa é nula. Muito requentado tardo-jornalístico, "fait-divers" e "gaffes", no fundo nada mais do que criticar, aliás "dizer mal", da política interna a propósito de qualquer coisa externa. E pouco mais. Um vazio de atenção que bem mostra o encerramento do país sobre o si-próprio, a falta de reflexão. Atraso estrutural. Atraso intelectual, nada mais.
Não admira que se contem pelas unhas de um dedo aqueles que olham a política externa portuguesa para além do nhanhanha da maledicência. Ainda que com pinças, diga-se.
Adenda: um comentário veio que me fez reler a entrada e ... exigir-me uma ressalva. Este é um texto sobre a blogsfera mainstream (sobre o mainstream cf. Blogómetro, edição do dia, para aí os 250 primeiros classificados, e mais umas dezenas de ausentes). Há no exo-mainstream alguns blogs que vão de Portugal olhando para fora - quase sempre por via de incidências biográficas dos seus autores.
Publicado por jpt às 12:52 PM | Comentários (4) | TrackBack
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A mediocridade dos jornalistas, segundo os académicos
Via Adufe chego a um interessante texto: a reflexão de um intelectual académico sobre a mediocridade e superficialidade dos jornalistas.
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Culinária Moçambicana
É o Almocreve quem avisa e faz inveja:

COZINHA MOÇAMBICANA. 1975 - Ano da Independência. Fundo de Turismo. Lourenço Marques. [Empresa Moderna. Lourenço Marques]. 20x20cm. 104 págs. B.
Cesário Abel de Almeida Viana foi o principal compilador deste livro de culinária moçambicana, coadjuvado por muitos outros colaboradores. Desenhos de Alfredo da Conceição. [ 20 € ]
Disponível aqui. Quem me dera. Os custos da distância, é isso.
Publicado por jpt às 08:09 AM | Comentários (3) | TrackBack
fevereiro 23, 2006
Machado da Graça bem cartooniza sobre o Savana

Publicado por jpt às 10:09 PM | Comentários (3) | TrackBack
Frases que impõem respeito (exemplar único)
Ó homem não se mace, é só clic-clic, link-link, e seguir em frente.
Publicado por jpt às 09:52 PM | Comentários (1) | TrackBack
O Xicuembo acabou. Ainda bem - o Carlos Gil vai fazer o inter-rail.
Publicado por jpt às 05:05 PM | Comentários (1) | TrackBack
Mais sobre o tremor de terra
Imensa informação aqui (dica do leitor J Azevedo).
Publicado por jpt às 04:21 PM | Comentários (3) | TrackBack
Tudo sobre os 7,5 do tremor de terra
Informação detalhada aqui.





Informação dedicada à grávida Passada.
Publicado por jpt às 12:38 PM | Comentários (1) | TrackBack
Tremor de terra
Coisa de bloguismo, isto de fazer relações, não tanto de amizade, mais serão blogoamizades. Gente que nunca vimos, nunca ouvimos. E que, muito provavelmente, nunca veremos nem ouviremos. Mas que estamos aí. Obrigado a quem emailou (e "commentou") o seu cuidado no hoje de madrugada, até surpreendendo-me, sempre surpreendendo-me com as redes que se vão blogando. E, out-blog, obrigado aos smsaram / telefonaram, ainda que às 2 da manhã (hora de computador, não tenho que me queixar).
Passou-se nada.* Felizmente. Humores do rift valley?
*Escrevi ainda desconhecia notícia de pelo menos dois mortos. Passou-se muito, portanto. Felizmente não mais. Mas já muito.
Publicado por jpt às 09:39 AM | Comentários (11) | TrackBack
Insensibilidade é ...
saber por SMS do tremor de terra em Maputo.
Publicado por jpt às 01:28 AM | Comentários (7) | TrackBack
fevereiro 22, 2006
Publicado por jpt às 08:24 PM | Comentários (0) | TrackBack
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Elogio da verdadeira
sabedoria. Sim, livro. E apresentá-lo (conversá-lo) em Moçambique. Estamos à espera. Com vontade (e até pressa).
Publicado por jpt às 05:43 PM | Comentários (0) | TrackBack
Turismo em Moçambique
(via blog).
Publicado por jpt às 05:24 PM | Comentários (1) | TrackBack
Publicado por jpt às 02:54 PM | Comentários (0) | TrackBack
O 25 cm de Neve diz que eu exagero. Tem razão. Exagero. É o meu vice-versa. E, também, algum frisson escatológico.
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fevereiro 21, 2006
Trabalho alhures, Trabalho em casa
O Abrupto tem vindo a publicar um conjunto interessante de fotografias sobre Trabalho. Interessantes as fotos, mas mais o que expressam. JPP já explicou o seu desejo de mostrar formas de trabalho exo-bloguísticas, vivências alheias ao mundo padrão dos info-incluídos, melhor dizendo, dos blogo-incluídos. Nas imagens enviadas pelos leitores, presumivelmente todos portugueses, também JPP reconhece o quase-óbvio, a procura do retratar o trabalho traz um eco do exótico, a distância social quase sempre traduzida em distância geográfica - o olhar curioso sempre mais agudo quando fora-de-portas. E, mais do que tudo, a distância social, longe ou perto de casa, centrando-se no trabalho manual - há, por via do acto fotográfico, a reconstrução de um ideal de trabalho, uma sua purificação. Manual mas longínquo, eis a pureza do exótico. A pureza do trabalho.
Confesso que gostava de ver o trivial manual intra-muros (a mulher-a-dias ou o cônjuge; o motorista de autocarro; o mecânico da porta-ao-lado; a caixa do supermercado; o "almeida" do bairro próprio; o psp (ou prm); a lavandaria; a empregada da cantina da escola). Ou o trivial intelectual alhures. E os entre-ambos, já agora. Desmontando o embelezamento, impurificando. Pelo trivial.
Já aqui deixei mostra de trabalho exógeno ao universo de fotógrafos in-blog ali representados. Procurando trivializar-lhes o trabalho na distância. Segue-se outro modesto contributo, pobres fotos sobre trabalho intelectual, alhures:

[José Cruz, enólogo, Nropa, Montepuez, Cabo Delgado]

[Tribunal informal, Kolokoha, Montepuez, Cabo Delgado, 1995]
Publicado por jpt às 05:15 PM | Comentários (4) | TrackBack
Já o terei dito, o Tugir é um exemplo máximo de como se pode blogar partidariamente alinhado e ser também livre: isso honra-os, concorde-se ou não. Houvesse mais gente assim.
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Contra-argumentando no Ideias para Debate.
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Cerveja Mac-Mahon: as minhas 15 linhas de fama ...

É o atento leitor Carlos Índico, assíduo aqui, que me envia por email esta pérola, a cuja não resisto a partilhar - sempre são os meus 15 minutos, perdão, as minhas 15 linhas de fama. Manda o amigo CI (a negrito a citação do DN, infelizmente sem o nome do autor):
O DN de hoje tem um suplemento dedicado á sua 50.000ª edição. Está na pág. V. O suplemento transcreve noticias de época e comenta-as. Sobre 1893 escreve:
(eh,eh,eh,eh,....)
""MAC-MAHON o POLITICO QUE DEU O NOME À CERVEJA DE MOÇAMBIQUE
O apelo sobre a mudança da sigla da cerveja moçambicana 2M surgiu num post no blog Ma-Shamba, com a alegação "que era um resquício do período colonial na sua memória de Mac-Mahon", mas no país do marrebenta parece que ninguém estará muito interessado........""
***
Santo Deus!, afinal apelo-Te. Ele há cada imbecil. Com memória, é certo (ou será google?), mas completamente obtuso. Um taralhouco.
Um dia, Paíto, o lateral-esquerdo moçambicano do Sporting, que sonhámos o novo Roberto Carlos (enfim, sonhar não custa), jogando contra o Benfica marcou um golo fa-bu-lo-so, fintando tudo e todos, da nossa área à deles (box-to-box como se diz na pérfida Albion). Algumas horas depois, ainda de braços no ar, cachecol ao vento e esgazeadissimo, gritando goooooooooooooooooooooooooooooooolllllllllllllllllllllllllllllllllllllloooooooooooo!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!! passei pelo Planeta Reboque que estava no mesmo estado, gritando loas ao Triplo M - Martinho Martins Mocana (Paíto), nome do qual não fazia a mínima ideia. E logo berrei "abaixo a 2M colonial, viva a 3M!!", homenagem já!!!
E lá no país do fado a levarem isto à letra!? Ele há cada morcão!
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fevereiro 20, 2006
O a posteriori
Portuguese Soccer Near Collapse After $1 Billion Arena Spending.
[via Blasfémias e ContraFactos & Argumentos]
Lembro que há já anos por aqui se discutia isto, que nada de inesperado será. (Contra-argumentação, recordo, que incluía o desafio a que lesse eu o projecto Euro-2004, como se esse tipo de documentos não correspondesse, por essência, a projecções auto-legitimadoras). Conviria, na reflexão sobre este a posteriori de óbvia antevisão, lembrar quem foi o então ministro tutelar. E sempre sublinhar que subjaz esta abordagem a ideia política de que o eleitorado julga pelas medidas anunciadas e não pela sua sustentabilidade. Transformar-se-á Portugal num enorme Europeu de futebol?
Adenda: Certamente: não haja dúvida, "ele" há visionários.
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fevereiro 19, 2006
Eu à conversa com o E. Lagoa: "escreve-se para ter um blog, não se tem um blog para escrever".
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19 de Fevereiro
AF: o douto disse-me "esse tipo não volta a maputo".
(tu lês o ma-schamba?)
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19 de Fevereiro
9 anos aqui.
(Margarida L., tu lês o ma-schamba?)
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Publicado por jpt às 10:29 PM | Comentários (2) | TrackBack
Pré-requiem do Weblog.com.pt?
Espero que não, mas não há paciência para este tipo de mentalidade empresarial.
Adenda: ler o comentário.
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Q: O bloguismo serve
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Sobre Knopfli é melhor ler.
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As crendices e o multiculturalismo do Estado Português
Manchester City-Charlton, do 1-0 ao 3-1 terão sido uns vinte minutos enquanto pouco-almoço tardio em pós-grande piscina. Se já 3-1, e eu pouco atento, então zapo e na RTP-I, essa do meu Estado, em directo de Fátima, uma entrevista a um cidadão português que se auto-proclama mais-que-todos-os-outros, Duarte Bragança de seu nome. Ele ali, sob que critério nunca sei, bem como tantos outros da televisão pública, todo o dia acompanhando o caixão dessa antiga pastora Lúcia. Um concentrado da indigência, da indigência estatal, da demissão radical.
Que as pessoas acreditem na religião, pronto, que fazer? Que acreditem num deus construtor mais-ou-menos à imagem do homem, pronto, que fazer? Que acreditem que esse tal deus construtor mais-ou-menos à imagem do homem engravidou, por meios espirituais, uma mulher judia há uns milhares de anos, pronto, que fazer? Que acreditem que um judeu qualquer era "filho", germinado, de um deus construtor mais-ou-menos à imagem do homem, pronto, que fazer? Que acreditem que desde então essa senhora, Maria, entretanto falecida, se dedique a acompanhar e a visitar este vale de lágrimas, pronto, que fazer? Que acreditem que, entre as centenas ou milhares de vezes que se diz que a tal senhora apareceu às pobres gentes, algumas são verdadeiras e outras não, pronto, que fazer? Que acreditem que uma dessas verdadeiras aparições da entretanto falecida mãe-virgem do filho do deus construtor mais-ou-menos-à-imagem-do-homem foi aos três pobres patetas indigentes em Fátima em 1917, pronto, que fazer? E que as pessoas desde então se juntem em Fátima, umas de rastos, umas de rojo, outras como muito bem querem, porque as tais criancinhas, contrariamente a tantas outras, viram mesmo a tal senhora fantasma, mãe virgem do filho do tal deus contrutor mais-ou-menos à imagem do homem, pronto, que fazer? Eu posso desprezar profundamente, e desprezo, os aldrabões do clero que promovem estas crendices mais rasteiras, mas pronto, que fazer?
Agora que a tv do meu Estado, laico, laico, passe um dia a transmitir o transporte do caixão de uma velha freira, enquanto apela explicitamente ("estamos a transmitir para todo o mundo") a que a igreja católica promova a pobre velha lá na sua enciclopédia dos mortos ilustres, já fia mais fino. Que a tv do meu Estado, laico, dê entrevista neste contexto, como se reforçando a tralha, a um pobre homem que se entende mais-que-todos-os-outros, a ele legitimando e não contrários, isso fia mais fino.
Isto é um concentrado de indignidades, um compêndio de imbecilidade? Não só, isto é um projecto, explícito, pensado. Tem causa e causas. Que os pobres crentes acreditem naquelas-tralhas-todas tá bem, que fazer?, pobre gente procurando coito. Que o meu Estado promova tamanha indigência, que passe da notícia ao apoio, então há que fazer. Afrontar de imediato essa cáfila de obscurantistas. A tralha das crendices. E também a tralha monárquica, sempre lá atrás aquando destes estercos.
Há, definitivamente, que impor limites a esta ditadura do multiculturalismo, do relativismo. O facto de pobres gentes seguirem estas crendices, o facto de más gentes promoverem estas crendices, não é razão para que um Estado laico as aceite, as promova, se torne ele próprio arauto de crendices, negue a sua história e a sua doutrina.
Urge a demissão dos responsáveis da rtp. Obriga-se a queda do seu responsável ministerial. E, ou será demais?, exige-se uma desculpabilização do seu responsável-mor.
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Sexta-feira um pouco especial



[Chez Rangel, estação CFM, 17.2.2006]
Pois.
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fevereiro 17, 2006
Cartoons em maputo
rumores? o savana publica hoje os cartoons dinamarqueses (repito tanto post aqui? para quê?). E está rodeado de centenas de irados com vontades invasoras? que bronca. ou rumores?
Publicado por jpt às 04:52 PM | Comentários (18) | TrackBack
Cartoons
Um amável leitor enviou-me via email um conjunto de cartoons, alusivos aos eventos mais actuais. O humor ultrapassa opiniões, não tenho dúvidas. Um desses irresisto a colocá-lo aqui, até por razões pessoais.

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Agradecimentos a ENP pela ajustada transcrição, um resumo para além das excitações.
Publicado por jpt às 02:57 PM | Comentários (0) | TrackBack
Pequeno trecho de Said
Não resisto, até porque leitura de hoje:
"What we expect from the serious study of Western societies, with its complex theories, enormously variegated analyses of social structures, histories, cultural formations, and sophisticated languages of investigation, we should also expect from the study and discussion of Islamic societies in the West".
[Edward Said, Covering Islam, Vintage, 1996, xvi]
O que não me parece ser coisa de guru. Mas devo estar enganado.
Publicado por jpt às 01:15 PM | Comentários (5) | TrackBack
No A Mão Invisível quatro interessantes textos de Pedro Picoito sobre o Novo Orientalismo: I, II, III, IV (e com alguns comentários interessantes).
[Via Mar Salgado]
Publicado por jpt às 12:42 PM | Comentários (0) | TrackBack
fevereiro 16, 2006
Publicado por jpt às 12:58 PM | Comentários (3) | TrackBack
Hoje


Cristiano Matsinhe, Tabula Rasa. Dinâmica da Resposta Moçambicana ao HIV/SIDA, Maputo, Texto Editores Moçambique, 2005
Publicado por jpt às 08:03 AM | Comentários (0) | TrackBack
Liberdade de expressão
Reunião na redacção de revista "social", trabalha-se os mais últimos e vistosos eventos, colectam-se flashes de beldades e barrigas enfarpeladas. Súbito ríspido o chefe proclama que "essa foto não sai", "mas porquê?" resmunga o "jornalista", "ficou bem, está boa", "nem pensar" exagera-se o chefe, ali até director, "mas porquê?" insiste o "jornalista" já apoiando-se no fotógrafo, ali ambos irritados com a intromissão, reclamando caminhos próprios, coisas de liberdade até. "Porque não quero broncas.." soletra o chefe, já irritado, "a senhora acompanhante não é a esposa ...
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Publicado por jpt às 01:34 AM | Comentários (2) | TrackBack
Também relato da guerra civil moçambicana.
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fevereiro 15, 2006
Portugal
Nota: um dos episódios semi-calados é a "exportação" dos operacionais das FP-25 para Moçambique, decerto exílios então combinados a "alto" nível. Desconheço se já abordado por algum jornalista. De livro não há notícia.
Adenda: também recordado aqui; e ainda, numa pequena nota lembrando mais uma acha da imoralidade estrutural do partido socialista em Portugal, aqui.
Publicado por jpt às 07:42 PM | Comentários (0) | TrackBack
O bloguismo serve para alguma coisa?
Serve o bloguismo para alguma coisa? Digo, para além do lúdico egocentrismo? Vale como expressão de causas, grandes ou pequenas, alertas, chamadas de atenção, etc e tal? Talvez, mas isso depende do tonitruar do nome que "posta". Ao cidadão médio, do anónimo com nome, não serve para tal. Indutivo o raciocínio, e egocêntrico (claro, é bloguismo).
Prova? Fui agora ver o que se passava aqui há um ano. Tinha encerrado o estaminé, cansado. E escolhera um texto que considero o melhor de todos que aqui coloquei (se aqui é bom ou mau é critério alheio, mas dentro do aqui é o melhor): este. É um ensaio sobre Portugal e sobre os portugueses, assim eu a alcandorar-me a Lourenço ou Gil, já para não falar no agora centenário Agostinho da Silva. Sobre sua essência, retórica, processo (abrangente, como se nota. E, teoricamente, multicultural).
Pois em um ano passado está tudo na mesma. Talvez um pouco mais silvestre, presumo.
Serve o bloguismo para alguma coisa? Digo, para além do lúdico egocentrismo? Vale como expressão de causas, grandes ou pequenas, alertas, chamadas de atenção, etc e tal? Talvez, mas isso depende do tonitruar do nome que "posta". Ao cidadão médio, do anónimo com nome, não serve para tal. Apenas como espelho vaidoso. Rasteiro.
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Alerta Máximo
Quando o maior Presidente que houve fala assim é motivo da maior preocupação. Alerta máximo. Que fazer?
Adenda: as declarações do muito digno ex-presidente não deixam de sublinhar a preocupação. Que fazer, repito? Belém no horizonte preocupa-me, e muito.
A vida, a importante, torna-se angústia.
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Ontem
Maputo de noite cheia, azáfama quasi-noctívaga de trânsito de hora de ponta, queixas só suaves com o "semaforismo" ausente, todos os restaurantes cheios mesmo aqueles que nunca, rosas muitas em mãos compradoras e outras já nas receptoras, casais (até os tristes) bem vestidos acompanhando-se, é o dia ... A mim sobra-me aula nocturna, a primeira do ano, turma ausente, apenas uma aluna, senhora já, sorrindo à total ausência (merecida, merecida) à ritual "apresentação", caloiros relapsos. Dou-lhe um mito, o primeiro mito universitário porventura, os "dez minutos académicos" (5, 15, não depende isso do narrador?), depois "vamos lá embora" que haveremos de recomeçar. Que ontem foi dia de "namorado amador", profissional tem o resto da vida, hei-de biliar. Ainda beberei café no caminho da casa, mesa de canto no meio dos tais comensais emparelhados, meros cinco minutos roubando-lhes bocados, mesa a mesa. Nem uma mão na mão, nem tampouco mão na perna (quem bem procurei), nem a rápida mão na cara, nem afago no cabelo, nem beijo qu'isso seria demais ainda que dos castos. Estão só ali, falas poucas, levaram-nos a jantar. Saio, noite de dia do namorado reformado. Também já vou assim?
Publicado por jpt às 03:20 PM | Comentários (4) | TrackBack
Um blog de escritores, 7, de diferentes países: Cidades Crónicas. Por lá (áfnal?) o vizinho Nelson Saúte.
[Via Letteri Café].
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Das armadilhas do "correctismo"
A "inocente" promoção do segregacionismo: um caso no Brasil.
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fevereiro 14, 2006
Ó Diabo, e agora como é que se diz mal do homem?
Publicado por jpt às 09:58 PM | Comentários (2) | TrackBack
الجزيرة نت
Tanta polémica, tanta certeza, tanta coisa, tanta poeira, mero pó. Pois por cá , este cá tão "lusófono" "cplp" mesmo, no último fim-de-semana qual foi o único canal de tv, entre as agora dezeníssimas do cabo, que transmitiu o simples Académica-Boavista? Adivinham?
Pois claro, o Al Jazeera Sport.
Tantos doutores, tantos tecladores. Tantas certezas...
Publicado por jpt às 09:34 PM | Comentários (0) | TrackBack
Bis
"O ódio é uma viva contradição - não conhecendo fronteiras, ergue-as onde quer que chegue."
[Álvaro Guerra, Crónicas Jugoslavas]
Publicado por jpt às 06:32 PM | Comentários (0) | TrackBack
Mais despropósitos

"Sei que não está na moda afirmar o que se segue, mas a procura abnegada da verdade abstracta é culturalmente específica: a sua história é relativamente curta, e possui uma geografia muito própria".
(George Steiner, Nostalgia do Absoluto, Lisboa, Relógio d'Água, 2003 [1974], p. 71)
Publicado por jpt às 06:13 PM | Comentários (6) | TrackBack
A despropósito?

"A impressão ocidental de insucesso, de potencial caos sociopolítico, conduziu igualmente a uma reacção contra o centralismo étnico e cultural que caracteriza o pensamento europeu e anglo-saxão ... A ideia de que a civilização ocidental é superior a todas as outras e de que a filosofia, ciência e instituições políticas ocidentais estão manifestamente destinadas a conduzir e transformar o globo deixou de ser uma evidência. Muitos ocidentais, especialmente os jovens, acham-na odiosa. Aterrados pela loucura das guerras imperialistas e irados com a devastação ecológica causada pela tecnologia ocidental, hippies e freaks, militantes libertários e vagabundos místicos viraram-se para outras culturas. São as tradições da Ásia, dos índios americanos ou dos africanos negros que os atraem. É entre esses povos que encontram as qualidades de dignidade, solidariedade comunal, invenção mitológica e envolvimento com as ordens vegetais e animais que o homem ocidental perdeu ou erradicou brutalmente. Esta busca da inocência contém muitas vezes um impulso genuíno de reparação. Onde o pai colonial massacrou e explorou, o filho hippie procurar preservar ou compensar."
(George Steiner, Nostalgia do Absoluto, Lisboa, Relógio d'Água, 2003 [1974], pp. 66-67)
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Cúmulo de Discernimento Racional
O meu total apoio em Portugal.
Publicado por jpt às 05:51 PM | Comentários (0) | TrackBack
O Fim do Império Americano

está iminente.
Publicado por jpt às 02:37 PM | Comentários (4) | TrackBack
Ainda Bertina Lopes
Introduzi as imagens originais do artigo de Paola Rolleta sobre Bertina Lopes.
Publicado por jpt às 12:58 AM | Comentários (1) | TrackBack
fevereiro 13, 2006
Publicado por jpt às 05:49 PM | Comentários (2) | TrackBack
fevereiro 12, 2006
Argumentação e contra
Sobre liberdade de expressão e bloguismo vai havendo troca de argumentos no BlogCafé. Com filial aqui.
Publicado por jpt às 03:15 PM | Comentários (9) | TrackBack
Liberdade de expressão?
Há alguns anos, lembro incerto 1999, Veiga Simão então ministro da Defesa de Portugal, velho homem de Estado e dignissimo universitário, espantou ao despachar a lista dos membros dos serviços de informação portugueses para uma Comissão Parlamentar. Logo alguém dessa comissão, muito provavelmente um deputado da República, remeteu a lista para os orgãos de comunicação social.
Lembro estar em Maputo e telefonarem-me de Portugal informando do acontecido, na ironia do "amanhã a lista dos espiões sai no Independente, vê lá quem são os daí", narrando-me o acontecido e eu balançando entre a gargalhada descrente e o nojo por portugueses que partilham, apesar de mim, o meu país. Logo o solicitei, curiosidade certa, e na manhã tinha no gabinete um fax (era ainda o tempo dos faxes, imagine-se) com a cópia do jornal Independente onde constava uma lista de dezenas de indivíduos. Os nomes riscados, aparentemente a marcador (como se isso impedisse uma leitura por parte de profissionais interessados), mas os países de colocação bem à vista. Foi logo um reboliço telefónico, irónico e curioso, amigos cuscando se alguém sabia ou imaginava quem eram os dois agentes colocados em Moçambique, coisa que iria durar ainda uns dias. De imediato imaginei os dois homens, decerto avisados de véspera, que tudo aquilo foi inopinado, abandonando o país no mais madrugador avião para Joanesburgo ou, mais certo, cruzando nos primeiros alvores da matina a Namaacha ou Ressano Garcia, a inquietude dessa derradeira noite postados diante das fronteiras, avessas que são elas ao trânsito nocturno. E imaginei também, leituras velhas construindo imagens, homens e mulheres partindo em contido alvoroço de dezenas de países. E ainda o súbito encerramento de empresas nos arrabaldes lisboetas, filiais de seguradoras, consultoras, contabilidade, sei lá que tipo de coberturas escolhidas nesses sombrios Rios de Mouro ou Paios Pires tão a jeito para realidades feitas filmes, e o espanto de mulheres a dias, fornecedores e vizinhos com o vácuo então criado.
Veiga Simão retirou-se de uma longuissima, e até contraditória, vida de serviço público. E nada mais. Mudaram-se governos, a oposição subiu a poder e regressou a oposição, as comissões subiram a observados e regressaram a comissões, os então observados tornaram-se observadores e de novo ascenderam a observados. Deputado algum, assessor algum, foi confrontado com a evidente traição ao país. Uma traição não metafórica. Linear. Pura e simples. A Assembleia da República, ao que agora se bloga prenhe de mictórios entupidos e de deputados que apenas do próprio mijo se lembram na hora da crítica fácil porque tão tardia, fez por esquecer, e esqueceu, o facto de acoitar traidores e nisso continuar impávida.
Os jornais publicaram, decerto em nome de um qualquer interesse público (confundindo, cientes disso, "público" com "do público") e da sacrossanta liberdade de expressão. O povo, que é manifestamente imbecil, creio que devido à dieta, nunca se lembrou disto, continua a votar nos traidores e nos que os protegem [alguém acredita que ninguém saiba quem foi o "brochista" (em inglês se quiserem) que denunciou os serviços de informação?]. Contente, ulula julgando-se patriota, assim reconfortado da merda que é, tv aos gritos no jogo da selecção, bandeira nacional numa mão, jornal Independente, o lixo traidor, na outra.
Anos passados ninguém liga, ninguém se lembra. A rapaziada de esquerda, relativizada, apupa a liberdade de expressão, máscara da falsidade ocidental ou até mesmo da inexistência ocidental, ainda que lhe reconheça, se cutucados, o mérito de denunciar a perfídia espia nacional, vista arma de exploração de inocentes alheios, inocentes porque alheios, porque diferentes, porque outros. A rapaziada menos relativista, reza loas à liberdade de expressão, coisa absoluta, tanto que até lhes dá para trair o país, nos intervalos de declarações pomposas sobre nação e quejandas. Coisa sem limites, dizem. E, escroques, realizam. No remanso do piadismo fácil e do linkismo ignorante. Punhetam, viris. Ambos os todos.
A propósito destas questões um amável comentador aqui afirmava há dias, "não compreendo o que dizes, mas entendo que te sintas longe": Longe, eu?! Foda-se, eu estou aí. Isso é meu. Quem está longe, quem está bem longe, quem nem sequer merece isso, é essa corja. Corja não, que parece queiroziano. É essa vara, fica melhor. Estais longe.
(texto escrito em estado de liberdade de expressão relativa e sobriedade absoluta)
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fevereiro 11, 2006
Ler faz mal
Isto das ilustrações dinamarquesas ilustrou a diferença existente entre fundamentalistas (seja lá do que seja) e relativistas (de tudo, excepto do relativismo [não, não brinco às contradiçãozinhas]). Há quem pense que são iguais, mas não são. Os fundamentalistas normalmente leram menos do que os relativistas, estes alargaram-se, até foram às filosofias, ali e acolá às epistemologias, um mergulho mais profundo nas socio-antropologias. Por outro lado os fundamentalistas (seja lá do que seja) percebem melhor as parcas leituras lá do seu recanto. Os relativistas (de tudo, excepto do relativismo) leram mas não perceberam bem - nas socio-antropologias é mesmo uma desgraça, imagino no resto.
Em suma lá os fundamentalistas serão menos enciclopédicos, menos lidos. Os outros mais actualizados. Mas os primeiros mais espertos, compreendem melhor. Os outros mais burrinhos, trabalhadores mas enfim ... A conclusão é óbvia, ler faz mal. À vista e à cabecinha.
Aqui uma coisa que alguns "relativistas" de "esquerda" (uma "sinistra" "esquerda"), afamados blogadores, ao que parece não conseguem perceber. Efeito dos danos sofridos, e nada colaterais.
Publicado por jpt às 05:09 PM | Comentários (1) | TrackBack
Da crueldade
Cruéis, meramente cruéis, Jcd e Paulo Gorjão, dois pesos pesados do bloguismo político português, atacam Vitalino Canas devido às suas declarações sobre o "caso caricatural". Não me parecem acertadas essas abordagens. Explico-me, ainda que consciente que em texto maçudo, longo e descritivo, e talvez apenas auto-interessante, coisa memorialista, até de intensidade incompreensível para quem não a viveu.
Lembro Vitalino Canas em Maputo. Em 1998 aqui aconteceram as primeiras eleições municipais, às quais a Renamo, então no zénite da sua influência política, se recusou a comparecer, alegando manipulações alheias. Eram então tempos de uma paz ainda recente, não tão sedimentada, de uma ciclicidade eleitoral ainda incipiente, até inóspita. Enfim, era notória a tensão política. Subitamente, uma semana antes das eleições, o então Secretário de Estado da Presidência Vitalino Canas surgiu em Maputo, no intuito de lançar um livro do qual tinha sido autor/coordenador (ainda que tal não seja explícito no livro). Entenda-se, Canas foi durante algum tempo aqui professor cooperante na UEM, tendo participado nos estudos de ordenamento jurídico da descentralização administrativa, modelo municipalista. Foi nesse sentido que surgiu esta muito digna obra colectiva, sete autores incluindo dois ministros moçambicanos, "Autarquias Locais em Moçambique. Antecedentes e Regime Jurídico" (Lisboa/Maputo, sem editor, 1998)

Mas, e é esse o ponto, naquele clima de tensão e contestação eleitoral o surgimento de um membro do governo português, a uma semana das eleições, numa actividade destas não podia deixar de ser entendido como um apoio eleitoral explícito. Enfim, intromissão. Certo que com alguma elegância poderia ter sido remetido (e bem remetido) para um diferente âmbito, a expressão de um apoio português (e internacional) à democraticidade eleitoral e ao modelo municipalista, ainda para mais este então pouco entendido pela população quanto às suas virtualidades. Enfim, algo supra-partidário, nem que fosse retórica de solidariedade internacional. [Sobre esse apoio, a exportação municipalista, que vincou a cooperação portuguesa nos anos 90 e seus efeitos, inclusivamente ao nível de redes, isso seria motivo para texto de out-blog].
Mas tal avisada abordagem, "de Estado", logo se desvaneceu. Aqui chegado Canas, em total efervescência, de imediato proclamou à RTP, numa entrevista que ficou conhecida como o "3 em 1", glosando o então conhecido anúncio de um "shampoo": "como membro do governo português sou neutro; como militante do PS apoio a Frelimo; individualmente apoio a Frelimo" - o "eu sou da Frelimo" ficou-se em conversas pessoais, diziam-me.
Constrangimento, claro, dos patrícios mais atentos que cá viviam. Num, e explicito, "se isto corre mal, os custos que estas coisas terão no futuro", pois "e o gajo na altura em Lisboa, não é nada com ele". Talvez postura erradas as nossas, e comparo-me, se eu que cá vivo, mero professor mas com contrato com o nosso Estado, nem em blog confesso hipotéticas preferências aqui, como foi possível aquilo? Mas, repito, talvez entendimentos errados os nossos, pois ele lá nas coisas da alta política e nós muito rasteirinhos, na nossa vidinha.
Bem, lá se lançou o livro, no meio do constrangimento nosso, mas que havia de se fazer, o homem tinha gosto pessoal naquilo e era do governo. Político manda, funcionário funciona, e nós, povo, paisajamos. Ainda sorri, triste, no logo após-cerimónia, com os dizeres de um gente lá do alto cá, companheiro num "ficar para trás" no mão-dada daqui, "isto não era necessário". Mas era um gosto pessoal, que fazer?
E daí lá se avançou para aquele que até foi o motivo "oficial" da tal viagem. Comemorando-se então o 10 de Junho Canas representou o governo nas festividades. Na véspera do dia das comunidades avançou parte da comunidade para jantar com S.Exa no Hotel Rovuma. Por "parte da comunidade" entenda-se o creme do pastel, prontos para ouvir mensagem governamental em tempos, naquele final de milénio, de reaproximação, convulsa é certo, de países e economias, muita conversa e alguma uva. Eu, emprego oblige, lá estava.
Que viria dizer o secretário de Estado do Primeiro-Ministro a esta gente? Dizer-nos? Ainda para mais um homem de alguma vivência recente aqui? Que ideias para aqueles momentos de tensão política mas também de reânimo das relações entre países? Era o ano "gâmico" (1998) e o consul (então um tipo decentísimo e competentíssimo, um Senhor de trabalho) leu o texto vindo de Lisboa e seguiu-se-lhe o então sua excelência.
Avançou para aquela plateia, notoriamente constituída por quadros de empresas então aqui instaladas, que era tempo de bastante movimento nesse sentido, gente em comissão 2/4 anos que sempre se quer trampolim para o regresso mais tarde ou mais cedo; e portugueses de cá, algo como "comendadores" e "proto-comendadores", e suas descendências já, gente de décadas senão mesmo nascimento aqui, cruzando o ocaso de Portugal aqui e sua guerra, boiando no comunismo depois, emagrecendo ao "tempo do carapau e repolho", sobrevivendo à guerra civil e ainda encontrando modos de reaprenderem a economia mercantil que aí está, dura também. Sempre de longe a olhar Portugal, até com desconfianças, fundamentadas ou não isso é outra coisa. Ao qual regressam se nos seus finais, e apenas se filhos e netos para lá partidos, e sempre nesse regresso apressando a morte ainda que esta já então próxima.
E diante de tal plateia logo vieram os apelos/conselhos, decerto bem pensados pois até escritos: o primeiro, explícito e sonante, "não regressem", pois Portugal precisa de nós aqui, seguindo-nos com atenção e solidariedade. No intra-mesas sorrisos dos quadros expatriados num "isto não é para nós, é para os outros, os velhos". E semicerrares nos "outros", esses da tanta tarimba, do tão escaldados, logo em vários "quem é este caralho para nos dizer para não voltar?", e alguns destes bem vizinhos do meu bacalhau. Depois, outro conselho, o final, uma pérola: "organizem-se politicamente, associem-se nesse sentido, participem na vida política do país". Então já foi coisa de inter-mesas, esgares partilhados, "de onde saíu este tipo?". Os portugueses a participarem na vida política, associados? Em Moçambique? Em 1998? Um membro do governo a dizer-nos isto? E nós, todos decerto, a imaginarmos a bronca que seria. Eu à mesa, emprego oblige repito, a desculpá-lo na ironia "o gajo pensa que está em Newark", a incentivar à eleição de um senador ou governador lusodescendente, decerto a desejar imitar as kennedyces dos irlandeses, geração a geração.
Logo saímos dali. Elevadores abaixo e depois em múltiplos "mais um tolo! só nos mandam disto!", dos risos tão habituais mas sempre entristecidos, ainda que soltos em gargalhadas. E eu, entre apertos de mão e combinações de "onde é que vamos agora beber um whisky?" a negar isso, num "não, não, caramba, não são todos assim". Pois, por mais que às vezes pareça o contrário, os gajos não são todos iguais. Pois, e garanto, naquele nível nunca encontrei tão fraquinho.
E é desta memória, já bem antiga, de Vitalino Canas, pobre homem, que retiro o desacordo com os tais bloguistas. O homem é assim. Cumpre-nos apenas solidariedade. De ateu. Ou, em sendo cristão, caridade.
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fevereiro 10, 2006
Sinal dos Tempos
Chego ao sítio da Sic online via Frescos, atraído pelas declarações do padre Serras Pereira (Portugal). Em ambos os locais as de/anunciam sob o mesmo título:"A homossexualidade é uma doença", ruge o nada blasfemo cura.
Mais um patusco, não haja dúvida. Um espécimen. E continua, lá mais para o fim da notícia ecos de outro urro: "Qualquer relação sexual que não seja dirigida à procriação é uma perversão”, satanizando essas camisas-de-vénus tão correntes hoje.
Tralhas tão estafadas que já nem sorriso levantam, esse do "de onde saíu este?". Mas logo me acontece, afinal aqui notando o sinal dos tempos. Fosse há alguns anos o que chamaria a atenção, o que seria a piscadela de olho dos jornalistas aos leitores, o que seria título, seria exactamente essa declaração da quase-universalidade da perversão, um mundo de gente que fornica sem reproduzir, a velha rábula do "sémen sagrado" dos sagrados Monthy Python. Hoje já não! Para os jornalistas (e para quem os lê) é mais tonitruante, mais apelativo, um pobre padre denunciar a homossexualidade (na realidade ele nega-a) do que um pobre padre denunciar a sexualidade (na realidade ele nega-a).
Esmorece-me o sorriso. E cá bem no fundo mais vale um padre maluco ("bem-aventurados os pobres de espírito" disse o profeta Jesus) do que uma cambada de jornalistas na moda. Pois, como se ouvia antes, "assim se vê a força do pc" - agora outro pc. Que perversão, esta sim perversa.
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Liberdade de expressão
É um tipo estar grosso, sentar-se ao blog, teclar, postar e não deletar. O resto é tanga.
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Um belíssimo blog que há pouco tempo conheci e que hoje já comemora o primeiro aniversário: o TóColante. Parabéns.
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Chove em Maputo
Chuvadas grandes em Maputo. Eu saí de casa sem máquina. Mas o André não, e eis a ilustração na Baixa. Dos bairros só tenho relatos. Os de sempre quando assim.
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Bertina, a Pintora
[Um texto de Paola Rolleta, a quem muito agradeço esta oferta ao Ma-Schamba. Publicado no Savana, edição de 27.01.2006.]
Bertina, a Pintora

Energia imparável é o comentário mais óbvio que se pode fazer quando se fala de Bertina Lopes. Uma exposição em Rimini a inaugurar no próximo dia 4 de Março, uma outra em Roma em meados de Maio, e outros mil projectos em carteira desta senhora das artes plásticas moçambicana que nasceu no final dos anos 20 do século passado.
Um texto de um jornal deve ser justificado por um acontecimento especial, um “gancho” como se diz na gíria. O gancho para esta pequena homenagem a esta grande mulher foi-me dado há algumas semanas quando, neste semanário, foi publicado um artigo sobre o fundador do jornal “Tribuna”, João Reis, recentemente falecido. Reis era proprietário de uma loja de livros de arte, discos de música clássica e jazz, jogos de sociedade, reproduções de quadros, a Poliarte, que estava nas arcadas no Prédio EMOSE, na baixa de Maputo. João Reis apoiava os jovens artistas locais, e organizava exposições de pintura. Justamente em 1956, Bertina participou pela primeira vez com os seus quadros numa exposição colectiva faz agora cinquenta anos. O que justifica estas linhas.
A mãe dos pintores moçambicanos

(Olhos brancos de farinha de milho, 1965, óleo sobre tela)
Na história da pintura, muitas vezes o seu nome é posto ao lado da mexicana e grande artista, Frida Khalo. Duas vidas certamente diferentes, mas com traços comuns muito fortes, e sobretudo com qualidades pictóricas e humanas muito peculiares.
É chamada por toda a gente Mama B. Mãe foi de dois filhos, o Virgílio e o Eugênio. E foi considerada a mãe dos pintores moçambicanos todos. É Bertina Lopes, a artista luso-moçambicana que vive há quarenta anos em Roma, com Franco, seu marido italiano. Proibiu-nos de chamá-la apenas moçambicana. Não quer. “Nas minhas veias corre sangue português, do meu pai, e sangue africano, da minha mãe. Desde sempre queria que todos me chamassem luso-moçambicana, só nos últimos anos consegui ter reconhecido esse meu direito”, afirma com um brilho malandro nos olhos negros marcados com uma linha de kajal.
“Ela é mãe e pai das artes plásticas moçambicanas”, disse-nos Malangatana. “Foi das primeiras a exprimir as inquietações na sociedade portuguesa. Levantava problemas sócio-políticos sem fazer com que a pintura se tornasse panfleto. Quer gostassem quer não da pessoa, todos ficavam impressionados por ela como criadora. Porque era fácil compreender a sua obra, caracterizada – ainda hoje - por uma forte expressividade. Talvez não gostassem dos títulos (por exemplo, Grito grande, Olhos brancos de farinha de milho) que ela escolhia para as suas obras, mas sentiam a obra na carne e na alma.”

[Bertina Lopes com José Craveirinha e Rui Nogar; fotografia de Ricardo Rangel]
Voltou a Lourenço Marques em 1953, depois de uma temporada em Lisboa onde foi estudar Belas Artes. Voltou e começou a dar aulas de desenho na Escola Técnica General Machado. Eram os tempos de Craveirinha, Noémia de Sousa, Rui Knopfli. Casou com o poeta Virgílio de Lemos, o pai dos seus filhos. “ Embora com carácter diferente, muitas vezes os quadros pareciam ilustrações dos poemas do Virgílio e vice-versa”, diz Malangatana.
Embaixada paralela

(Como um grande amor [autoretrato com o marido], 1967, óleo sobre tela)
Bertina recebe na sua casa-atelier todos os “palopes” que passam pela capital italiana. O terraço, com vista fabulosa dos telhados de Roma inclusive da Basílica de São Pedro, tornou-se uma espécie de “embaixada paralela”. Todos deixam a sua assinatura, nas paredes, repletas de homens políticos, artistas, músicos, enfim de toda a gente que por lá passa.
Um pedaço dos palopes em território neutro, a Itália. Está lá o poema que lhe dedicou Graça Machel, a flor de Joaquim Chissano, o charuto de Mário Soares, os agradecimentos de Carlos Veiga… e todos os outros que passaram e passam por lá a tomar um “espumantinho erótico”.
Bertina conta anedotas, sorri à vida, leva tudo com a ligeireza sonhadora dos grandes artistas e fala uma língua que é só dela: o “bertinês”, uma mistura de português e italiano, como a definiu o escritor italiano Carlo Levi. Quando fala, usa sempre um tom baixo e arrastado, como se tivesse sempre que traduzir não apenas as palavras mas aquilo que sente na alma: as reacções agressivas - que são uma caractéristica dela - se apagam logo graças ao sorriso de menina brincalhona e das boas maneiras de senhora requintada.
Bertina é uma pessoa generosa. “No meio artístico e social de Moçambique é carinhosamente chamada Mama B”, escreveu Joaquim Chissano, “porque nela está corporizado o mito e a essência do nosso ser colectivo, o modelo e exemplo a seguir pelas novas gerações, a fonte inesgotável de inspiração nos nossos esforços de reconstrução e desenvolvimento nacional, de consolidação da tolerância e reconciliação, de trabalho árduo por um futuro melhor, em que estejam garantidos o pão, a paz, a harmonia e o bem-estar para todos.”
O antigo presidente de Moçambique esqueceu de dizer que Mama B é assim chamada também em Itália onde conta com 57 “filhochos”, (filhotes). A pena dela é que apenas uma traz o seu nome. “Bertine era a mulher do médico que me fez nascer. Mas como era um nome estrangeiro o governo não deixou registar o nome. Os meus pais decidiram então me chamar Bertina.”
Bertina à medida que a idade avança não deixa de ensinar a arte de viver com o sorriso apesar da dor, a arte da curiosidade, da generosidade, e sobretudo a grande arte de não se levar demasiado a sério, a ironia, e a arte e o prazer da convivência natural e social.
Ela nunca esqueceu de onde veio, nunca esqueceu a luta do seu povo e a luta dela ao lado, embora geograficamente distante, da sua gente. No ano passado foi madrinha de uma exposição de artistas deficientes, “Abaixo o cinzento”, para angariar fundos para o DREAM, o programa de luta contra o SIDA levado a cabo pela Comunidade de Santo Egídio em Moçambique.
“Nunca se divorciou do seu país”, comentou Malangatana. A lembrança faz parte da sua obra de arte e da sua vida. “A minha casa era, desde a minha chegada a Roma, o ponto de encontro dos refugiados, dos exilados”, e recorda como ela, na época da ditadura era “deportada” enquanto a irmã mais velha era deputada nas Nações Unidas.
Entre outros, em 1991 Bertina recebeu o Prémio Mundial “Carson” da Raquel Carson Memorial Foundation de Nova Iorque pelo seus méritos artísticos e humanitários e pela sua fidelidade às origens africanas embora no contexto de uma refinada esperiência pessoal internacional.
Jazz inspirador

(Fanisse era minha avó [de um poema de José Craveirinha], 1967, collage e óleo sobre tela)
Uma das fases mais recentes da pintura da Bertina tem o jazz como elemento inspirador. As telas de Bertina a quererem ser partituras de jazz, como um símbolo activo da síntese mais ambiciosa e qualitativamente elevada, entre diversas culturas e etnias, jogadas no harmonioso signo de uma arte já livre de qualquer exagero nacional-cultural e político.
A força da pintura e da escultura (particularmente interessante aquela que dedicou ao antigo presidente e amigo Samora Machel, Quem nunca morre e de tudo se lembra, é o povo) vivida entre dois continentes, reside neste seu “estar fora”, num espaço pictórico totalmente autónomo das escolas e totalmente dentro da vida, percorrendo o espaço “para encontrar um espaço para África”. Grande capacidade da artista de absorver e metabolizar escolas e tendências sem nunca prescindir das suas raizes e da sua personalidade.
Mas a sua terra natal não se lembra tanto dela como ela se lembra de Moçambique. Há vários anos que não é organizada uma exposição da obra dela. Há pelo menos um banco que possui muitos quadros de Bertina, talvez a maior exposição permanente da artista nesta cidade. Infelizmente não está à vista de toda a gente. Malangatana acha que era tempo de Moçambique organizar uma.
Caleidoscópios
Luciana Stegagno Picchio escreveu que “a própria aventura do informal, que Europa e América enfrentam a nível puramente cerebral e visivo ou mesmo apenas gestual, é vivida por Bertina, africana de Europa, como recuperação de gestos e signos que em África, antes que em qualquer lugar, o tempo tinha isolado e mudado em metáforas: o nó, a rede, o olho, a serpente, o totem.”
Já passaram muitos anos das primeiras pinturas figurativas, repletas de grandes olhos de africanos chocados com a violência do mundo. E passaram também alguns anos dos “totem” repletos das cores fantásticas da liber-tação. Passou também a fase espacial.
No século XXI, Mama B de Maputo, de Lisboa, de Roma, tem como motivo criativo a difusão da cor, quase violenta, em telas sempre maiores, caleidoscópios de cores brilhantes, úteros luminosos e fortes onde se vê nítida a vida e a alegria de viver.
Adenda (Jpt): Sobre Bertina Lopes consultar aqui, aqui ou aqui.
As seguintes (pobres) reproduções são minha opção para ilustração no blog, retiradas do catálogo 9 Artistas de Moçambique, Maputo, Museu Nacional de Arte, 1992, e entretanto substituídas pelas imagens originalmente colocadas no artigo.

("As Luzes e as Chaminés das Fábricas", 1988, óleo sobre tela)

("Mafalala", s/d, óleo sobre tela)

("Os Três Momentos", 1991, óleo sobre tela)

("Raíz Antiga", 1988, óleo sobre tela)
Publicado por jpt às 02:06 PM | Comentários (9) | TrackBack
Um novo jornal em Moçambique
Começou esta semana (e está na net): Canal de Moçambique. Do conteúdo não opino, mas o nome parece-me muito bonito.
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O Melhor Elo (link) da Blogosfera Portuguesa
A Catarina do falecido 100Nada colocou um elo ao Ma-Schamba no seu outro blog, o O Meu Filho e Eu.
É o melhor elo da blogosfera portuguesa, invejável. Aconselho-vos. Pois desde ontem que tenho um Recent Visitors by Referrals amoroso, cheio de http://amo-te.weblog.com.pt/. Nem sei que diga, nem que pense. Mas estou embevecido.
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Doutorando
Assinei hoje um abaixo-assinado. Vai-me acontecendo. Como muitas vezes dou uma vista de olhos a quem já assinou o que estou a assinar (mera cusquice; e também algum prazer em reconhecer, volta e meia, algum distante amigo ou conhecido). Normalmente nestas coisas pedem nome (pudera), profissão (não sei bem porquê) e local de assinatura (pensando bem, também não percebo).
Vem isto a propósito de uma "profissão" que aparece sempre representada nestes abaixo-assinados/petições: PHD (assim, em maísculas) Student (às vezes idem, mas nem sempre).
Será possível passar de boca em boca (e de ecrã em ecrã), como quem não quer a coisa, que para essa actividade (se profissão ou não já é outra coisa) há palavra em português? Em minúsculas, não muito bonita, mas, caramba, nem é difícil: diz-se doutorando. OK, DOUTORANDO, se é assim tão necessário maísculizar.
Publicado por jpt às 01:43 AM | Comentários (4) | TrackBack
O que é um patusco?
Há dias, a propósito de um dos melhores textos de sempre no Ma-Schamba perguntava(-se) aqui o que é que era um mangusso, coisa que só lá fora, no Xicuembo, foi desvendado.
Brota agora outra dúvida: o que é um patusco? Pois repete-se o vazio local, aqui não se sabe bem. Há que entrar no inter-links para encontrar definição, um jogo: ide, os interessados claro está, a este último parágrafo, cruzai com este texto. Para mim chegou. Mas há decerto outros textos, neo-canónicos mesmo.
Publicado por jpt às 12:13 AM | Comentários (0) | TrackBack
fevereiro 09, 2006
Patuscos
(*texto modificado, amputado de azedume afinal descabido segundo informação recebida nos comentários)
Lá na terra há uns patuscos que andam para aí a kenedyzarem-se, blog-in, blog-out, "ich bin ein dänisch". É compreensível, o homem, o original entenda-se, tinha uma mulher bonitissima, ele próprio era giro, rico, teve a sorte de o matarem novo e, mais do que tudo, não suava na tv.
Eu se me desse para isso, mas não dá que suo que nem um porco, e hoje neste calor nem dormir consigo quanto mais qualquer resto, dava-me era para rir. Esses dinamarqueses afinal a desculparem-se de qualquer coisinha, pouco berlinenses afinal.
Sim, sim, o Voltaire, esse sátiro blasfemo, nos pontapés às superstições, avô fundador da gente por isso mesmo, a dizer que se bateria até à morte para que dele pudessem discordar. Supersticiosos ou não. Meu vôvô, não renego. Não vou lá muito com tudo dele, como qualquer neto que se preze, que o velho tinha coisas de homem do seu tempo. Devo deixar aquilo do "Vossa Magestade prestaria um serviço eterna à raça humana extirpando essa infame superstição (o cristianismo) , não digo entre a ralé que não merece a pena iluminar e que está preparada para qualquer servidão; digo entre os bem nascidos, entre aqueles que desejam pensar"? Deixo. Mas atenção, apenas porque a ralé, esse hoje povo, afinal vai dizendo umas coisas iluminadas.
O meu, por exemplo, tem um dito fantástico, racionalismo e empirismo associados como nunca: "Quem não tem competência não se estabelece". E ainda por cima "Eu sou um dänisch"? Era o que faltava. Borregos.
Direito à liberdade de expressão? Sim, sim. Mas também direito ao erro, esse que é humano já diziam os antigos. Apanho os bombeiros a mangueirar fogo com gasolina (Bowie dixit) e defendo o direito inviolável ao erro? Enquanto grito "Ich bin ein Feuerwehrmann"?
Ou chamo-lhes borregos? E patuscos aos que então se dizem bombeiros?
Publicado por jpt às 11:34 PM | Comentários (5) | TrackBack
Publicado por jpt às 04:11 PM | Comentários (0) | TrackBack
A entrada anterior, ainda por cima pomposa, era baseada numa falsidade, como se comprova aqui [onde cheguei via a ligação do No Cinzento de Bruxelas ao Mau Tempo no Canil]. Ainda bem que era falso. Quanto à (pomposa) entrada do Ma-Schamba apago-a? Não, fica aí para não me esquecer de duas coisas: que um automóvel pode passar sobre o braço de uma criança sem qualquer dano para esta; que as excitações do Jpt também não causam dano mas tendem ao ridículo.
Publicado por jpt às 01:16 PM | Comentários (6) | TrackBack
Intraduzibilidade
Todas as sociedades são cruéis. Ou seja em todas as sociedades os homens se organizam para praticar a crueldade. De formas mais ou menos histriónicas, constantes. Estruturantes, até. Escatológicas, por vezes. Endo-cruéis, exo-cruéis, depende do sítio e do momento.
Às vezes abundam nisso, outras vezes abusam. Aqui vai um elo para algo tão cruel que é até inútil de ver. Mas que mostra diferenças quanto à utilização legítima da crueldade. Diferenças intraduzíveis.
Publicado por jpt às 01:50 AM | Comentários (5) | TrackBack
fevereiro 08, 2006
Moamba
Os prezados visitantes saberão que não sou particularmente purista nas coisas da língua. E que quanto ao português em Moçambique ainda menos. E que também me repugna um pouco o andar para aqui a botar sobre "o dever ser" em Moçambique. Ainda assim não resisto a botar uma minha irritação de há anos. 8 deles, acho eu. Pois já há cerca de 8 anos que foi inaugurada a N4 (Maputo-JHB).
Pois se ainda compreendo que a Portagem da Moamba seja denominada Moamba Plaza (o inglês, a globalização, o trânsito oriundo dos vizinhos, enfim, why not...?)

já me irrita o facto de três placas que anunciam a portagem uma seja em português e outras duas sejam no velho bilingue oficial da velha África do Sul, em inglês (tool gate) e afrikaans (tolhek).

Rais parta, em inglês tudo bem. Em inglês e português tudo bem. Em inglês, português, changana, ronga, tudo bem, dado ser aqui no extremo sul do país (ainda que levantando susceptibilidades políticas no uso das línguas nacionais). Agora em inglês e afrikaans porquê, e logo em maioria? Nada me move contra os "boers", nada contra a sua língua, língua crioula ainda para mais. Apenas noto o gestozinho de quem construíu a portagem, perdão, a plaza.
Há coisas mais importantes? Há, e muitas. Mas chateia-me a pirraça alheia. Ainda que eu próprio alheio.
Publicado por jpt às 11:40 PM | Comentários (0) | TrackBack
Espero não ofender ninguém, com elos ("links") desapropriados a sensibilidades alheias.
Publicado por jpt às 09:59 PM | Comentários (3) | TrackBack
O outro dia era a Isabel Pires de Lima.
Publicado por jpt às 09:56 PM | Comentários (0) | TrackBack
O Cais na Ilha
Desenvolvimento na Ilha? Reabilitação e preservação? Turismo. Não só turismo decerto. Mas turismo. Aproveitando o continente fronteiro, por enquanto ainda inadjectivável, suas praias (p. ex. a praia do Sancul é única no mundo: tem a Ilha à frente) e a elas associar o dado único, o requebro envelhecido e empastelado ilhéu. E recebendo esse estranho mundo do turismo passante, dos paquetes de recreio, surpreender essa gente com esta coisa do entranhar-se.
Para ambos, para que venham a terra os passageiros, para que aportem os aqui deslocados, urge recuperar o cais da velha Alfandega. Se esta vai assim, cedendo à inclemência do desuso humano e do uso do clima

o cais ficou-se terreno de equilibristas


O desenvolvimento comunitário aqui tem nome e quantia - quarto de milhão de dolares, mais ou menos, para deixar barcos atracar.
Publicado por jpt às 04:00 PM | Comentários (2) | TrackBack
Convite


Cristiano Matsinhe, Tabula Rasa. Dinâmica da Resposta Moçambicana ao HIV/SIDA, Maputo, Texto Editores Moçambique, 2005
Publicado por jpt às 03:29 PM | Comentários (0) | TrackBack
Questionário de Verão
Vai-se acabando o Verão, a célebre blogo-silly season. E é por isso que o ressuscitado O PreDatado me atira uma dessas habituais correntes blogosféricas (que equivalem às correntes de (auto-)ajuda emailísticas). Mas como o homem blogorressuscitou, gosta do Lenny e, fundamentalmente, me dá um pretexto para um "post" sem ter que o inventar, aqui seguem as respostas (conjunturais, claro):
Quatro empregos que já tive na vida:
1. operário fabril.
2. professor de liceu.
3. investigador.
4. professor universitário.
Quatro filmes que posso ver vezes sem conta:
1. Unforgiven, de Clint Eastwood.
2. O Leão da Estrela, de Arthur Duarte.
3. Siegfried, de Fritz Lang.
4. Apocalypse Now, de F. F. Coppola.
Quatro sítios onde vivi:
1. Lisboa.
2. East London.
3. N'ropa.
4. Maputo.
Quatro séries televisivas que não perco (perdia):
1. Os Pequenos Vagabundos.
2. Eu, Claúdio.
3. The Singing Detective.
4. Twin Peaks.
Quatro sítios onde estive de férias:
1. São Martinho do Porto.
2. Alfambras, Aljezur.
3. Magaruque.
4. Tofinho.
Quatro dos meus pratos preferidos:
1. Jaquinzinhos Fritos com Arroz de Tomate.
2. Bacalhau Cozido com Grão.
3. Peixe-Espada Grelhado.
4. Soufflé de Caranguejo
Quatro Websites que visito diariamente:
Yahoo.
O Jogo.
Kinja.
Blog Ma-Schamba.
Quatro sítios onde gostaria de estar agora:
1983.
1992.
1994.
Namíbia.
[E agora, mero modo de dizer "olá"]
Quatro blogadoras a quem convido a fazer este questionário (se tiverem paciência e gosto)::
Passada;
Azul Cobalto;
Ex-100Nada;
Ecletico.
Quatro blogadores a quem convido a fazer este questionário (idem):
Africanidades;
Pululu;
Sem Destino;
Nkhululeko.
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Hipocrisia generalizada
Na Europa e no mundo decerto. Mas a minha diagonal passo-a mais na blogosfera portuguesa. Onde a propósito da blogosfera portuguesa vai um surto de hipocrisia generalizada (estrutural?). A propósito do ataque político de alguma direita cristã europeia (em baixo lá meti a minha pescadinha de rabo-na-boca: ter que concordar com quem discordamos) à extrema-direita islâmica. A propósito disso vão radicais loas à liberdade de expressão (a questão é uma armadilha movediça, não há modo de nos desatascarmos). Eu a este propósito lembro-me sempre do grande Carlos Pinhão (e então já velho, ainda para mais) a ser agredido em Aveiro pelos jagunços do então guarda Abel.
Quantos dos libertários de hoje têm nestes últimos anos ido às Antas (e ao seu sucedâneo)? Quantos se lembram disso? Quantos comemoram as vitórias intra ou extra-muros dos então patrões do guarda Abel? Isto não é um sofisma, futebolóide. É uma questão de auto-disciplina, essa que chamei abaixo de quase espiritualismo. Não posso defender hoje (irado) o que nego hoje (sempre), cúmplice ou complacente.
É diferente? Não. Se se está a defender um valor em absoluto, não. É, de há quinze anos para cá, uma traição diária, semanal, aos tais sacros valores. É nada mais do que uma hipocrisia generalizada. Gente que vai com o vento, ilustre ou não. O vento digo, que tal gente nunca o é.
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Ilha, a fronteira interna


O fim da cidade de pedra e cal. O tal hiato (de séculos). Está lá, à vista desarmada, esperando fotógrafo competente. Basta querer ver. E entreandar, sff.
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Jantar no Lumbo

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fevereiro 07, 2006
Sporting de Moçambique
Há alguns anos a Ilha de Moçambique foi considerada cidade patrimonial pela UNESCO. A situação do património imóvel (tangível, no jargão) vem-se agravando. "Uma causa perdida" dizia eu há anos, para semi-espanto do meu amigo Álvaro NS, até à minha conclusão, "portanto, das únicas pela qual vale a pena lutar". Muitas causas para tal desbarato, não as vou aqui arengar. A uma sei-a bem, a que ninguém olha para a Ilha enquanto património incluindo a pedreira, a "gente da pedreira". Esses são sempre considerados aqueles naharas a mais, 18 000 já e que tanto defecam na praia. Séculos de hiato num língua de terra de 3 kms por 300 metros, um hiato que perdura, mais resistente e altaneiro que o coral empilhado. A outra sei-a também, a própria UNESCO (tão ocupada em dar prémios a Hugo Chavez que nem o escritório da Ilha de Moçambique consegue manter aberto). Outras há, mas após tantos estudos e viagens já devem estar bem elencadas por "espertos" bem-pagos. A mim a única viagem que pagaram foi a primeira, na comitiva de sua excelência o director-geral Federico Mayor. Há já muitos anos. O resultado está à vista. Promessas, preocupações, intenções, lamúrias, já ouvi muitas. Na Ilha eu diria, de bons fecalismos-a-céu-aberto está o inferno cheio.
A Ilha, a cidade de pedra e cal, o extremo norte europeu, os restos do que se sonhou imperial, cai a olhos vistos? Sim, desde há muito: "... as casas, ou edifícios grandes, que se arruínam jamais tornam a levantar-se, e já não são poucos os que se acham por terra, e outros, que nunca se acabaram de edificar pela morte de quem os principiou", já dizia Frei Bartolomeu dos Mártires em 1822. Sítio de ruína cíclica, as construções ali de difícil manutenção, local de economia volúvel ao longo do tempo, algo quase tão corrosivo como o clima local. Mas quando a Ilha for vista não como uma memória europeia (portuguesa e não só), encantatória aos nossos romantismos serôdios, quando a Ilha for entendida como um recurso moçambicano, perene, então ...
Até esse então a Ilha aguentar-se-á, arruinada, pelo esforço individual, desses que querem "acabar de (re)edificar antes de morrer". Uma causa perdida? Talvez, mas repito-me, são as únicas.
Na Ilha, cidade património mundial, sitas na contra-costa estão as ruínas da sede do sempre existente Sporting de Moçambique.





O edifício é recente de décadas, não tem valor patrimonial particular. Mas poderia ser recuperado para fins desportivos e sociais. O Sporting Clube de Portugal, antes clube paternal desta sua filial, poderia em dias de pós-colonialismo, e suas susceptibilidades, aqui encontrar pequeno e modesto clube fraternal. Algo como metade do que terá valido a licença desportiva do seu ex-jogador moçambicano Fumo poderia custear a casa do leão em cidade património. E para excedentes a cooperação portuguesa decerto que se associaria. Quero crer que sensibilizar a influência de ilustres sportinguistas como José Roquete e António Dias da Cunha para uma tão barata causa em Moçambique não será impossível.
A Ilha, a de pedra e cal, aguenta-se edifício a edifício. Enquanto os vivos não morrem.
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Civilização
é (quase) isto. Não vai daqui nenhuma ironia. Um tipo, brotado mais ou menos no mesmo mundo que eu, que se marca na carne e pele é um descendente de piratas, flibusteiros, bucaneiros, grumetes de corsários. Na actualidade é, ou nada mais aspira ser, um presidiário. Uma tipa nos mesmos tatuados propósitos é mera mulher de porto, clandestino em recônditas caraíbas ou antilhas, infectada por contágios múltiplos, escorbutos de calmarias, erupções de furacões. Cúmplice, alvar e histriónica, de rapinas, violações, massacres, abordagens sem quartel e bordas-fora. Gente desconfiável. E, sempre, enforcável.
Entenda-se, civilização é carregá-la(o)s no porão. A ferros.
[via Bicho Carpinteiro]
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Etologia
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fevereiro 06, 2006
A polémica das blasfémias dino-europeias
A polémica das blasfémias dinamarquesas/europeias teve um grande mérito. Em vários blogs aprendo que agora em português se diz "cartune". Nesse âmbito, ou seja sobre a importante matéria da a liberdade de expressão, a civilização ocidental e os cartunes, deixei a minha opinião em comentário no estimável Adufe. Não resisto a integrar-me na ampla discussão que percorre o mundo sobre o assunto e aqui transcrevo o referido comentário [ligeiramente aumentado], epítome do que considero sobre tudo isto:
"Eu sou um grande defensor da liberdade de expressão. Para mim é um dogma, um valor civilizacional absoluto, no fundo a tradução actual da Razão da História, do Espírito. Por isso mesmo concordo com esses tantos que agora escrevem "cartune" - ainda que o retrógado em mim ambicionasse queimá-los em hasta pública. É isso mesmo, a liberdade é o racionalismo vs a emoção, a liberdade é o "cartune". (Alguém me empresta o isqueiro para atear a fogueira?)
Publicado por jpt às 08:25 PM | Comentários (4) | TrackBack
Conversa hermafrodita
Ela: Por que é que não te levantas quando fotografas?
Ele: ??? quando ???
Ela: Às vezes ... Mas porquê?
Ele: hum ... hââ, nunca tinha reparado. Bem, se calhar é por causa dos copos.
Ela: áah. Pensando bem és capaz de ter razão.
.... (ele resmunga em silêncio, enquanto acende um cigarro, mais devagar do que o habitual)
Ela (de novo): E também blogas sentado?
Ele (mal-parado): também, porquê?
Ela: por causa dos copos, não é?
Ele: Sim, às vezes. Porquê? nota-se ... ???
Ela: Pois, pensando bem, vai-se notando.
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Jantar

Restaurante Relíquias, Ilha de Moçambique
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Uma horita de Kruger, eu e ela
Eu e ela, ali a Malelane, numa horita de Kruger, nada mais. E atrasado, como sempre quando por lá, manhã tardia já, no pico do calor

e ainda para mais na estação das chuvas


sei que pouco mais que vegetação, e muita, lhe vou mostrar

para além de uns passaroucos, pouco visíveis cá de baixo, e

do sempre "papá !!!, animais ....", "Bambies", esses tão constantes até ao "gazela é árvore, não vale" dos menos dados a estas coisas, mas hoje mais queridos, mesmo no "coitadinho, aquele tem dói-dói"
Mas assim como quem não quer a coisa, distraidamente, no em cima da estrada, dormitando

o leão. E ainda, mais à frente, o grande rino, a dar-nos um bom bocado.

Uma horita no kruger, eu e ela, não mais. Afinal dia de mais sorte ainda. A seguir Maputo, esperar a mamã.
Publicado por jpt às 02:45 PM | Comentários (3) | TrackBack
Da Modernidade

"Portas-fora" com publicidade à MCel, Ressano Garcia, Janeiro 2006.
Publicado por jpt às 10:36 AM | Comentários (2) | TrackBack
Adiante.
Publicado por jpt às 10:33 AM | Comentários (0) | TrackBack
contradições
Estar de acordo com quem não se concorda.
É o cúmulo de racionalismo. Mas exigindo tamanha auto-disciplina que coisa de espiritualismo.
Publicado por jpt às 10:32 AM | Comentários (0) | TrackBack
Não sei se valerá a pena informar sobre um texto de O Espectro, presumo que todos os aqui passantes já lá tenham estado. Mas esta prosa clarividente ela-se, nem que seja para minha memória.
Publicado por jpt às 08:19 AM | Comentários (0) | TrackBack
Quasi-cartoons
que são uma violência sobre crenças alheias, uma falta de sensibilidade e de ecumenismo.
Publicado por jpt às 08:16 AM | Comentários (0) | TrackBack
Minudências
Mas, tal como referi abaixo, se o cerne de tudo isto é o indivíduo, e nada mais, então são minudências de impacto cosmológico. É um lamento: no correr da tecla nestes últimos "posts" lembro-me que perdi o chapéu de que tanto me orgulhei. Haverá muitos, claro. Mas isso sim, entristece-me. Que quereis, mais importante era ele para a minha dignidade quarentã do que tanto roliço valor que por alhures se agita.
Publicado por jpt às 01:53 AM | Comentários (0) | TrackBack
Angústia ainda maior
Os trauliteiros.
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Ainda maior dúvida, angústia mesmo

Maputo, Igreja da Polana.
Quando aqui entro tiro o chapéu. Será isso nova demonstração do meu cobarde relativismo e infecto multiculturalismo? Ou, bem pelo contrário, demonstração de dogmatismo fundamentalista, crente que sou de que apenas um inferior imbecil ignorante não se descobre em encontrando tecto (excepto, claro, se uniformizado)?
Publicado por jpt às 01:39 AM | Comentários (1) | TrackBack
Dúvida


Grande Mesquita, Ilha de Moçambique


Mesquita Velha (ruínas), Ilha de Moçambique. 1ª mesquita em Moçambique
Cada vez que nelas entro descalço-me. Fará isso de mim um torpe multiculturalista? Um desertor face ao fundamentalismo exarcebado? Em suma, um colaboracionista?
Publicado por jpt às 01:23 AM | Comentários (0) | TrackBack
Mais Bernard Shaw [na sequência de do abaixo].
Publicado por jpt às 12:35 AM | Comentários (0) | TrackBack
fevereiro 05, 2006
Casamentos
Lá no meu velho rincão o fim-de-semana não esmoreceu a questão sobre o "como casar". Entre muitos discursos não resisto a elar (para meu arquivo) o regresso do evolucionismo, e seus "perigos" de "primitivismos" na cara Zazie e no A Metamorfose (ecoando as vantagens de viver fora aqui realçadas). Eu continuo na minha, de um lado e do outro da pedrada o fundamental é não chegar aos corolários. São sempre chatos, amarfanham a prosa.
Um texto são no Lida Insana. Mas no fim lá me sai o resmungo. A base das instituições sociais é garantir a dignidade do indivíduo. Outra vez os meus corolários, e os outros a amputarem-nos? Também. Mas acima de tudo o discurso pode parecer que sim, que é assim. Mas, e sei que em tempos de domínio liberal é dificil contra-argumentar, será que as instituições sociais existem para o indivíduo se dignificar? E, já agora, o que é isso da dignidade do indivíduo?
Publicado por jpt às 11:47 PM | Comentários (1) | TrackBack
E também, pois claro (com adendas, minha e do dono do blog, nos comentários).
Publicado por jpt às 11:17 PM | Comentários (0) | TrackBack
Publicado por jpt às 09:10 PM | Comentários (0) | TrackBack
Esta Blue conheço eu. Bem-vinda.
Publicado por jpt às 08:52 PM | Comentários (0) | TrackBack
fevereiro 02, 2006
Casamentos
Lá na minha distante terra é tema recorrente. Como e com quem casar, está-se em era de pensar a reprodução social via família. Cada vez que o tema vem à baila não resisto, auto-elo-me, um texto que até já me valeu uma indexação como homófobo pela corja opus gay. Está aqui e já era velho quanto o bloguei (é de Junho de 2002). O tema de então e de hoje é simples: casamento (e família) homossexual sim se casamento (e família) polígamo e se fim da categorização de incesto e, portanto, se aceitação de qualquer forma de união sexual/conjugal/familiar legal (e social) entre maiores que o desejem.
Na altura do texto não ouvia falar da associação desta questão actual à poligamia. Agora sim (e o que me leva a re-botar o texto é mesmo o comentário absolutamente falacioso de Octávio Gameiro no Abrupto). Quanto ao "incesto" continua tudo calado, parece que dele nasceriam criancinhas com cauda e pé-de-cabra.
A caravana lá na minha terra continua, entre falácias e semi-pensares.
Publicado por jpt às 03:38 PM | Comentários (21) | TrackBack
Livro borda fora
"Regressei a Chicago e abri um escritório na Van Buren Street. Industriei os meus empregados de maneira a tomarem conta dela por mim, e assim fiquei livre para preencher a minha vida com actividades mais interessantes. De certo modo para surpresa minha, dei comigo a fazer parte de um grupo de pessoas curiosas. A maior ameaça em Chicago é o vazio - vazios humanos, uma espécie de ozono espiritual que cheira a lexívia."
[Saul Bellow, A Autêntica, p. 9]
Edição da Teorema (Lisboa, 2000); tradução de Rui Zink; revisão não referida. Quem me devolve os meus euros?
(para quem não percebeu, volte a ler a citação, agora mais devagar. Tipo aquele "descubra as diferenças").
Publicado por jpt às 12:41 PM | Comentários (5) | TrackBack
Post das (quase) 4 da manhã / Hoje acordará ela assim?

Publicado por jpt às 12:41 AM | Comentários (10) | TrackBack
voyeurismo ecrânico
Já algumas vezes aqui resmunguei contra essa mania bloguística, que nem perversão chega a ser, a de espetar meninas do cinema (qual o "anunciado na tv" do pirosismo português dos anos 80) nos respectivos blogs, mais ou menos maquilhadas de semiologias, prosas para o laudatório ou (o pior de tudo) hojes acordeis assins - não há paciência. Ainda que eu seja ferveroso defensor da masturbação (devo há meses ao QeP um texto sobre as suas virtudes racionalizadoras), do altereguismo e do cobicismo, veras forças motrizes da história, individual e colectiva. Mas naquilo irritam-me os requebros, os blazeísmos. E acima de tudo irrita-me a rapaziada (e o mulherio) que não bota sobre as raparigas ali mesmo ao lado achando que ascende a algum sobrepatamar do intelecto discorrendo sobre umas belezas (normalmente insípidas louras translúcidas, ainda para mais) "estrelares". Num "quanto mais inatingível o objecto mais inteligente sou eu". Enfim, irritações de mangusso, como diria o blogocompanheiro Carlos Gil.
Mas como não há opinião sem excepção, e como qualquer fundamentalismo fede, segue-se episódica negação dessa minha ideologia. Uma retribuição aos que tão excelentemente a provocaram, o Masson e o homem das aldrabas. E ainda lembrando uma conversa, também sobre isto, com o mais-novo. Portanto a eles dedicada, a tal excepção, num cada um como cada qual, a cada um os seus devaneios. O meu que se segue num: Post quase das 4 da matina / Hoje ela acordará assim?.
Publicado por jpt às 12:35 AM | Comentários (9) | TrackBack
fevereiro 01, 2006
Mais um email, d'amiga:
“He knows nothing and thinks he knows everything. That points clearly to a political career”
George Bernard Shaw (1886-1956)
Publicado por jpt às 07:20 PM | Comentários (4) | TrackBack
Um inédito de Heliodoro Baptista
T. S. Eliot The Shadows of Rainbow
(Ao Ricardo Rangel e ao Kok Nam)
1. The formal word exact without vulgarity
A história agora é o Iraque, já que nós, bronzeos,
e a história somos o molde. Na voz do sangue,
há sempre um negro ou cigano de violão azul.
Há um tempo para as estrelas dormirem
e outro para fazerem amor; quer dizer,
copular de olhos acesos ou já mortiços.
E inútil esbracejar ante os verdugos.
Diriam: espera assim, vergastado, pois virá
a escuridão. Teremos luz, o vinho, a dança, a orgia,
porque, sabes, os cavalos também se abatem. E as flores!
(Não é cada poema o caixão, o epitáfio, o ilegível mármore?)
2. Temos, há muito, sibilas, na boca e na garganta índicas.
Angoche ou Zavala são só luzes fixas pela "Nikon"?!
Temos a perturbação no vórtice das aves, na plena
rotação de iluminações luarentas; e há veios raivosos
de conversas cerca das gazelas e da pose eterna das garças.
Há rostos no oculto e este cheira a crime, a incursão
de uma balada de tiros, com odor perfeito, único,
do espumoso aberto às nossas 24 horas. Mas é do lar
da amizade ou da submissão? As praias e as reservas
devoram turistas e seus iates, aviões a jacto (ou, poeta,
da jactância?), pela agitação de tanto cascalho marinho.
And do not think of the fruit of action
3. É inútil esbracejar, se hispar a artéria do jazz
de um encenado morremorrer na Julius Nyerere
ou nos pês-agás da Coop. Ei-lo, o grito de Átila!
E ele tem alvos; não cessa o que, ímpio, enlameia
esta tecla (secas, fome; dilúvios, miséria!) de Dali,
de três metros suficientes para um poeta dizê-lo:
"Temos a cama franca, a mulher, útil paixão!"
Into another intensity; o fim é sempre evolução.
(Dezembro 2005)
[publicado no Savana, 6.1.06]
Aqui transcrito em especial para o À Sombra dos Palmares, o Fazendo Caminho e o Insónia.
Publicado por jpt às 02:12 PM | Comentários (6) | TrackBack
OK, Standard

[Dançarinas do grupo Assanate Novo Sistema, Ilha de Moçambique, Janeiro 2006]
Publicado por jpt às 09:24 AM | Comentários (1) | TrackBack
Quase Standard, Porque Matrona

[Ilha de Moçambique, Janeiro 2006]
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Na tal pedreira

[Ilha de Moçambique, Janeiro 2006]
Publicado por jpt às 09:13 AM | Comentários (6) | TrackBack
Work in Progress


[Ilha de Moçambique, Janeiro 2006]
Publicado por jpt às 09:07 AM | Comentários (0) | TrackBack
Valeu a pena esperar
Publicado por jpt às 06:00 AM | Comentários (2) | TrackBack
À Espera dos Bárbaros
O meu amigo fc, com o qual gostaria de me encontrar um dia em Moçambique e até de caminhar até à Ilha, enviou-me, estava eu nela, este ....
À espera dos Bárbaros
O que esperamos nós em multidão no Forum?
Os Bárbaros que chegam hoje.
Dentro do Senado, porque tanta inacção?
Se não estão legislando, que fazem lá dentro os senadores?
É que os Bárbaros chegam hoje.
Que leis haviam de fazer agora os senadores?
Os Bárbaros, quando vierem ditarão as leis.
Porque é que o Imperador se levantou de manhã cedo?
E às portas da cidade está sentado,
no seu trono, com toda a pompa, de coroa na cabeça?
Porque os Bárbaros chegam hoje.
E o Imperador está à espera do seu Chefe
para recebê-lo. E até já preparou
um discurso de boas-vindas, em que pôs,
dirigidos a ele, toda a casta de títulos.
E porque saíram os dois Cônsules, e os Pretores,
hoje, de toga vermelha, as suas togas bordadas?
E porque levavam braceletes, e tantas ametistas,
e os dedos cheios de anéis de esmeraldas magníficas? E
porque levavam hoje os preciosos bastões,
com pegas de prata e as pontas de ouro em filigrana?
Porque os Bárbaros chegam hoje,
e coisas dessas maravilham os Bárbaros.
E porque não vieram hoje aqui, como é costume os oradores
para discursar, para dizer o que eles sabem dizer?
Porque os Bárbaros é hoje que aparecem,
e aborrecem-se com eloquências e retóricas.
Porque, subitamente, começa um mal-estar,
e esta confusão? Como os rostos se tornaram sérios?
E porque se esvaziam tão depressa as ruas e as praças,
e todos voltam para casa tão apreensivos?
Porque a noite caiu e os Bárbaros não vieram.
E umas pessoas que chegaram da fronteira
dizem que não há sinal de Bárbaros.
E agora, que vai ser de nós sem os Bárbaros?
Essa gente era uma espécie de solução.
(Constantino Cavafy, trad de Jorge de Sena)
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Comida de cão
Li aqui e nem percebi, tamanho o absurdo. Só aqui comprendo: uma empresa neo-zelandesa a oferecer comida para cães para combater a fome infantil no Quénia.
Sem comentários.
Publicado por jpt às 01:27 AM | Comentários (7) | TrackBack
Finalmente

Está à venda a edição moçambicana (Ndjira) do "Meridião" de João Paulo Borges Coelho. Leitores daqui, é comprar e ler.
Como sei que o homem não vem aqui, um exo-bloguista chamemos-lhe assim, deixo uma curta opinião. Não gosto lá muito do primeiro conto ("Implicações de um Naufrágio"), a comicidade não me seduz. Recomendo os seguintes quatro contos - são contos longos, atravessando-se a novelas. Eu deixo-me encantar, mas há o chuto rápido do conto que aqui não existe. A cada um o seu estilo, no entanto. E acho "Os Sapatos Novos de Josefate Ngwetana" um monumento. Moçambique ali. E se calhar bem mais.
Para além disso há a capa. Science-Fiction (Druillet, Valerian, foi o de que me lembrei) anos 60/70? assim de repente ... ou coisa parecida. Acho feia. Além de que, e isto tem a ver com a editora, bem que podiam desetnicizar o raio das capas dos escritores africanos. Tenho comprado uns livros de autores americanos que não vêm com máscaras índias e uns ingleses que não têm duendes nem o Merlin, e os franceses não carregam as trombas dos celtas. Além de que o Saramago não é capeado com as antas e menires do Leite de Vasconcelos. Tiques. Saudosismos. Modos de ver.
Publicado por jpt às 01:07 AM | Comentários (0) | TrackBack