Aqui um leitor meu amigo invectiva-me por escrever sobre "lusofonias" e, depreendo, por não me limitar ao espelhar da minha vidinha, essa que o nosso O´Neill nada propagava, essa refúgio dos de nós que não voamos, apenas blogamos e nisso, legitimamente, contentes.
É uma invectiva amiga, sei-o. E traz uma pergunta. Para que serve um blog? Se é só para as picuinhices da vidinha, meu caro, então Foda-se [sim eu sei que fica mal o praguejo, há até quem poste sobre o meu gosto pelo insulto fácil]. Se é também para as picuinhices da vidinha, meu caro, então porreiro.
E clic-clic, não gosto do prato do dia, vou ali à tasca do lado.
Durante esta semana está a ser lançado em Portugal o novo livro (de contos) de João Paulo Borges Coelho, "Setentrião" (Caminho).
Em Moçambique daqui a algum tempo, presumo. As editoras Caminho e Ndjira já deviam ter oleado os lançamentos, sabendo que os prémios literários moçambicanos mais importantes prejudicam quem não é lançado primeiro aqui. E não custaria nada antecipar o lançamento nacional. Até porque Borges Coelho é, na minha modesta opinião (ainda por cima de amigo), o grande nome da prosa moçambicana.
A ver se este post chega a algum responsável.
Vai estando na blogomoda dizer mal do Abrupto, razões que nem me interessam escalar ou adjectivar. Muito interessante o "inquérito" aos leitores Os 50 momentos políticos mais importantes depois do 25 de Abril que JPP decidiu realizar (também opinei, cada cabeça sua sentença).
Mas, e nada lateralmente, não deixo de retirar um ponto. Em 1999 Macau deixou de ser administrado por Portugal. Foi o fim de 470 anos de possessões no estrangeiro, o encerrar dos ciclos de expansão (primeiro) e de colonialismo (depois), tão importante estes foram na delimitação ideal e real de Portugal. Foi o simbólico e definitivo regresso a casa. E, talvez, o momento mais importante deste novo ciclo, se o pensarmos na história longa.
E o que lá está? "...a entrega da soberania de Macau à China. E a imagem do Governador a receber a bandeira e a abraçá-la num momento algo emocional. Não haja dúvida sobre o simbólico do político, a sua teatralização do real. E, neste caso, da sua eficiência, da sua realização do real.
Quase seis séculos essenciais encerrados e a memória que fica é a de um general com a bandeira no coração. Até dói vendo estas aparências que escondem. E tanto se reproduzem.
Desapossados das possessões, descolonizadas as colónias. Mas ainda tanta mente por descolonizar. Em casa.
[refeito]
A saudar o interesse do Bloguítica, macro fazedor de opiniões, por uma mera questão africana. Peço desculpa, e este modesto blog não pode esperar resposta de um blogue porta-aviões. mas a Comissão Europeia costuma ter representante alhures. Não li jornais sobre o assunto, mas se estamos no domínio da representação ordinária, então a questão em questão não é adjectivável, apenas insuficiente. Um nada.
Kumba Ialá, e sua ambições, colocam um extremo problema. Esse que a Argélia colocou há anos. É a democracia "one man, one vote" um valor ou um mero meio? O homem foi eleito e derrubado por um pronunciamento militar. Por mais absurdo que seja como negar-lhe direitos políticos? Com que hipócrias argumentos? O resto, posts exóticos inclusive, são nada.
E, nunca esquecer, (até porque talvez o Boguítica nomeado chame a atenção) quando se fala de Guiné-Bissau fala-se da miséria, do falecimento, do Estado português: o assassino Luís Cabral, escondido na sua pele de elegante assimilado cabo-verdiano, verdugo das tropas guineenses do exército português, genocida miserável, violador do acordo com o Estado português, continua a envelhecer sem julgamento em Haia, nem prisão algures, sob tença portuguesa. Não há bloguismo honesto no silêncio deste falecimento nacional. Como se podem atrever a falar da Guiné-Bissau sem pedir a imediata detenção e julgamento do assassino Cabral? - nem com o argumento da actualidade. Uma inacreditável cumplicidade.
Indiscutivelmente a maior vergonha viva do triste Portugal de hoje.
O Paulo Pinto Mascarenhas fez uma pergunta interessante. Recebeu uma opinião informada de uma sua leitora, a cuja não resistiu à ironia, apresenta-se como "apenas" professora. Não haja dúvidas, a desvalorização estatutária e simbólica dos professores só dá para ironizar sobre as peneiras de quem desvaloriza.
A este propósito permito-me colocar um textito velho (e hoje já é a segunda repetição):
À conversa com amigo professor, vai-me ele questionando
- Ainda não percebi por que é que quando me encontro com bancários de bancos deficitários, médicos de hospitais-morgue, vendedores (directores, claro está) de empresas meio-arrombadas, diplomatas de países em desuso, funcionários de estados ineptos, todos eles me perguntam, amáveis, interessados, e até solidários: “Então, estás só a dar aulas?”
O Querido Oleiro já enviou as ferramentas necessárias para começar a funcionar o blog Olivais, dedicado aquilo a que os bloguistas olivalenses desejarem - os Olivais são uma Nação, daí que a temática é infinita.
Aceitam-se inscrições para co-autores. O Apenas Mais Um já se chegou à frente, o Povo de Bahá já ameaçou. Hoje poucos, amanhã ... (oops, nada de política, sff).
[Este texto velho é aqui recolocado. É um atrevimento, agora recuperado nas minhas leituras do debate que vai decorrendo no Ideias Para Debate]
Em cada Natal há mais natal em Maputo. Pois, em cada Natal, o tal da “paz”, “felicidade”, “amor entre os homens”, “todos os dias que um homem quiser”, “criancinhas”, “etc. e tal”, há mais gente apinhada por aí fora, um trânsito voraz nas avenidas mas também a querer-se escapulir por ruas e ruelas, que os buracos destas são agora esquecidos na pressa das compras - ai, quando maputo tinha poucos carros!, que sossego... -, tanta gente até chorando os preços mas a encher o Fajardo, o Bazar Central, que esses vi eu e os outros só acredito, o Alto Maé encrespado de compradores de última hora, bem como lá na Baixa, e por todas essas bancas de rua, estas sempre o olho no cliente o olho no polícia, dumba-nengues no prontos à fuga, provando bem provado o nome correcto, e lá no fundo da Luthuli o fantástico Ayob Comercial, filas ao sol esperando vez para entrar, ali a comprarmos as tralhas chinesas, maravilha de marketing essa baixa de preços em época de ponta, e até os prédios shoppings agora com visitantes feitos compradores, uma festa, uma festa, mesmo as iluminações do Natal vão surgindo, isto está a caminho de moderno, cidade fazendo-se grande.
É verdade, chegou o horror do consumismo, a estragar o que deveria ser, o que antes foi, o espírito da quadra, as velhas “boas festas” da família apenas em concórdia. E tão estranho o é aqui, terra de tantas dificuldades, tantas privações que nos cruzam e nada mudas, ainda que nós tão surdos. Um paradoxo, amoral até, coisas da inconsciência.
É, é o isto que se vai ouvindo, e mais ainda nos intervalos das compras, entre os nós, gente de cá ou não, estes com restos de alguma consciência, a qual criámos no hábito, no nosso nunca não-natal, e nisso crescemos sempre mais sabendo, já nascemos Natal, fazêmo-lo antes do Natal, depois do Natal, e até no Natal, somos estes nós esses que o fazem “todos os dias que um homem quiser”. Por isso, porque o sabemos ser e assim viver, lamentamos, desgostosos, esse povo da cidade, certo é que coitado povo por tal o ser, e que assim se distrai, a querer-se, a fazer-se, a imaginar-se tão mais rico, tão nós no fundo. E nessas cópias gerando maus hábitos, esses do ter, do gastar, coisas talvez não para eles, talvez nem as saibam. E pior, gerando os hábitos do ser, diferentes do que são. A quererem-se quase como nós. Natalizados.
Natal 2003
Há muito que tombou a noite, hoje um pouco molhada. Intervalei-me da festa, apresentei-me voluntário para suprir a (in)esperada escassez de gelo (e dos meus cigarros), coisa de envelhecido, recuo estratégico, a querer-se elegante, diante da simpatia daquela jovem e tão bem apessoada quasi-doutora, cujo monopólio da dança com este mais velho se estreitara já até aquela fronteira em que nos sonhamos gente-de-ninguém. Por isso vou aqui e, já algo distraído com as minhas coisas, sigo veloz (até demasiado, sabê-lo-ei em breve) avenida acima, numa via de quase nada.
Súbito, todo indiferente ao semáforo que ali é norte, um machibombo viola o longo verde meu horizonte. Recobro-me lá desse meu mundo, e num assim mais lento divido-me, a minha esquerda ao manípulo, claro que atrasada no estancar do carro, e o pensar direito sem hesitar na opção, antes seguir directo, galgar aqueles bons dois palmos de cimento (imortal?) acolá a fingirem-se rotunda.
Ao embate, rude, logo logo a traseira do meu amigo decide apoiar-me, ombrear-me num lesto lento atravessarmo-nos por ali adiante. E assim seguimos como que planando, num malfadado acaso directos contra um outro machibombo, este calmo a chegar-se em meu sentido contrário (claro, se o verde está para nós ambos!). Agora impotente, sei-me a deslizar para a sua frente e ouço-me, sentido, convicto, desperdiçado, um “Foda-se!, vou morrer”. E sei bem as quem de imediato me brotam na cabeça, me surgem aos olhos, ali comigo mesmo, numa hora de partida.
Mãos de ouro, sozinhas claro, pois decerto então apartadas de mim. E depois carro arrumado (e em que estado!), o gelo entregue, mais uns pés de dança, até para aliviar. E hei-de chegar ao descansar. Para aí, num muito muito devagar me deixar ficar no olhá-las, a uma e depois a outra, no cada uma do seu dormir. A olhar essas alguém que estiveram naquele meu fim. Esse que ainda não foi.
Agradeço ao 100 Nada [poderoso turbo-leitor] a preocupação demonstrada com o meu paradeiro e as palavras que acompanharam tal inquirição. E tem razão, isto anda sisudo, talvez por isso cada vez menos leitores. Padrões.
Acabo de recolocar o No Blogger [43], que já é uma reprise do que foi um colocar de um velho texto. É madrugada e só o mexer, via teclas, no texto velho a falar de coisas tão velhas deu-me uma saudade do caralho. E gostava que o cacué andasse aqui porque me lembro do zé a gritar, bastas vezes aliás, já todos bastante aviados, e dava-lhe para isso "Viva o Camarada Alvaro Cunhal, Viva", "Viva o Partido Comunista Português", coisas de quem tinha sido expulso (por apenas dois anos, frise-se) por desvio de direita (enfim, aceite-se a terminologia), e quinze anos depois com tanto caminho e sem regressar ainda gritava, convicto como só nós, os não ébrios de sobriedade o podemos ser, (e repito, para o ouvir) "viva o camarada Álvaro Cunhal, Viva", "Viva o Partido Comunista Português" - e eu brindava, que se fodam as ideologias, que as não há, diante do meu amigo.
Vens cá, Cacué? Lembras-te da (minha?) enorme bebedeira lá nos anos do 91, vocês chegados de uma recepção moçambicana em Lisboa, a contarem-me/incentivarem-me todos aqueles anos vossos, os revolucionários anos aqui, isso a que eu chamei já no então os anos pré-sida? e vocês (e eu) putos, putos, como já nem lembramos?
Vens cá, Cacué? Viva o camarada Alvaro Cunhal, Viva o Partido Comunista Português? Alguém mais se lembrará?
Foda-se
Ao meu lamento de que não vejo o meu blog [neste momento o blog machamba no blogspot maçónico está-me invisível, devido às represálias que os engenheiros decidiram levar a cabo face ao meu texto denunciador das suas práticas heréticas; quanto ao ma-schamba do Querido Oleiro só vejo o post "requiem..." e nada mais para depois e antes até ao dustin hofmann] recebo um "amigável" email de um velhissimo amigo (talvez não tanto assim, deu em tratar-me por zé flávio, a dizer-me que as amizades também mirram) a dizer-me que terei o windows corrompido.
Pois é, basta viver em África para logo tudo se explicar pela corrupção. Maldito etnocentrismo.
Vai tu, boné!
PARA HIPOTÉTICOS INTERESSADOS
[16.3.05, aqui fora de ordem, para que em breve o actualize com imagens]
Depois de anos (não é exagero) esperando que mo vendessem, e de inúmeras tentativas de descerrar o pérfido armazém que o cofreou, consegui hoje adquirir o "Resultados Científicos da Minha Viagem de Pesquisas Etnográficas no Sudeste da África Oriental", de Karl Weule (Maputo, Ministério da Cultura/Departamento de Museus, 2000 [!!!, sim, o ano da publicação não é erro, mas só agora foi posto à venda]).
Esta absoluta preciosidade (com preço muito acessível, 300 mil meticais) foi traduzida e comentada pelo Prof. G. Liesegang. Aqui deixo trecho da nota introdutória [do Departamento de Museus] para acicatar apetites:
"Karl Weule, Professor e na época Director substituto do Museu de Etnografia de Leipzig, foi encarregado de chefiar, em 1906, uma expedição à então África Oriental Alemã a pedido dos Serviços Imperiais Coloniais a quem interessava investigar a terra e os homens das colónias alemãs. Weule realizou trabalho de campo no sul da Tanzânia [então Tanganyka, JPT], então colónia alemã, durante quatro meses e o resultado desse trabalho é o relatório agora traduzido para o português. Weule descreve as culturas Makhuwa, Yao, Ngoni e Makonde partilhadas entre Moçambique e a Tanzânia."
[Como não sei colocar imagens neste sistema blogspot instalarei a capa do livro, e algum material nele incluso, no velho Ma-Schamba do weblog (Já: ai, que saudades, ai, ai)]
*******
3 Comments:
CAP said...
Há um programa, o Picasa, associado ao blogspot para colocar imagens nestes blogues.
uma alternativa é copiar o link da imagem do Ma-Schamba e colá-la aqui no post.
12:56 AM
jpt said...
obrigado cap. esta televisão em que se escreve é muito complicada para mim.
1:22 AM
Miguel S. said...
Qual é a tiragem?
9:05 AM
Ceder à vã vaidade.
Inserir aqui tudo o que coloquei na curta estadia no blogger, iniciada a 16 de Março. E de forma relativamente cronológica. Mas em condições difíceis, sei lá porquê não consigo ler o meu próprio Ma-Schamba, também aqui só em arquivo. Talvez quando conseguir (e)migrar...
Algo de podre no reino do Ma-Schamba?
Para aqueles que não acreditam em espíritos malditos ou em grupos conspirativos: pois escrevi as palavras inclusas no texto imediatamente abaixo colocado. E no dia seguinte fiquei com o blog em branco, não tenho acesso a não ser aos arquivos, e os prezados hipotéticos leitores nem isso.
Uma punição? Uma maldição?
Resta-me passar os textos de lá para aqui. Ainda que não esteja desactualizado. ainda que aqui esperando intervenção do Oleiro. Esperemos que o forno esteja disponível. E aprazível. E que o calor não seja o dos Infernos.
MALDITA MAÇONARIA
[Nestes tempos em que tanto blog grita impropérios contra o Papado, tal como se este fosse o Anti-Cristo...]
Abomino a Maçonaria, essa sociedade (ex)secreta, inimiga da sociedade aberta, superstição falsamente racionalista, vergonha e obstáculo do meu país. [Os custos que um post destes terá!, coisa kamikaze para um português do vulgo]. A la Custer, no asséptico de hoje, "o único maçónico bom é um maçónico arrumado" [adj. posto de lado; posto em ordem; guardado (Dicionário Universal da Língua Portuguesa, Texto Editora, 1995, 1ª edição)].
E este Blogger, com o seu constante
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transpira-se maçónico, uma maçonaria actualizada, tecnocratizada, com o tal Arquitecto substituído por um bando (politeísta) de engenheiros. Tremo de cada vez que isto me entra em casa, vero vírus via ecrã.
Cansei-me destes espíritos malfazejos, deste terror quase quotidiano decidi-me, antes esses leões esfaimados, as hienas traiçoeiras, vou sair savana fora, ainda que já estação seca, em fuga desta religião do terror anónimo. Tentarei, velho solitário, seguir os trilhos daquele meu rebanho. No qual, pelo menos, conhecemos pelo nome o nosso Deus. Coisas de rebanho civilizado.
Que o meu Oleiro me proteja, é o desejo. E a prece.
O Forum Comunitário aniversariou a semana passada. Passou-me. Fica a vénia, ainda que atrasada.
42 minutos, na sala ao lado ouço que o telejornal mudou de assunto, já não o funeral do Papa.
- Inês, mudaram?
- Sim, futebol, é o Sporting! (o meu, diga-se)
Urge demitir a direcção de informação da RTP. E nem é preciso argumentar.
******
5 Comments:
PadrePedro said...
Espero que a esta hora já tenham sido demitidos. Pelo atrevimento de não levarem até ao fim, em contínuo, sem pausas, o relato das exéquias. (Ou, havendo pausas para uma ou outra notícia breve, neste caso específico justificava-se à mesma que fossem demitidos - pelo alinhamento...)
11:54 PM
PadrePedro said...
This post has been removed by a blog administrator.
11:54 PM
jpt said...
[apaguei comentário porque era repetição, efeitos do clic-clic]
12:21 AM
Hugo Torres said...
Deixo-vos um pequeno texto - http://csocial.blogspot.com/2005/04/o-papa-vai-morrer.html - sobre a morte do Papa e a sua relação com os Media.
Demitidos? Talvez não. Talvez ensinados a deixar as pessoas morrer. Porque é natural, porque acreditamos num mundo melhor. Depois deste.
Sempre em paz. E não com a luta constante pela notícia ("O Papa faleceu.") em primeira mão. Para audiências.
Despedidos? Não. Ensinados a fazer aquilo que vocês condenam: sim: deixar as pessoas na paz, que João Paulo II acreditava, defendia e pediu para as suas últimas horas.
Abraço.
1:18 AM
jpt said...
Obrigado HT. Mas olhe que eu acho que a morte, e todo o penoso processo anterior, bem como as exéquias são assunto basto noticioso. [um excelente do Cintra Torres que o carissimo Quase em Português me enviou é muito certeiro - aliás o Cintra Torres costuma ser]. Mas o que é demais é demais, é só isso. E, quanto a notícias, boas ou más, o mundo continua a girar - e a informação trancou.
1:26 AM
4 milhões de peregrinos esperados para o funeral. 20 000 pessoas por hora na Basílica, 400 000 por dia. Horas a fio, perigando a exaustão, esperando para a homenagem individual. Milhões em oração. A fé é bela!
Se fosse no Magrebe, no Paquistão, na Índia Hindu, noutro longe qualquer, o que se diria do fanatismo "daquela gente". Talvez não em público, mas pelo menos no resmungo do sofá, em família. Até com nojo.
5 Comments:
Miguel S. said...
Qual homenagem individual pá?! Querem a fotografia do homem embalsamado para quê?
10:00 PM
jpt said...
é pá, não sejas mais anti-papista do que o anti-papa
10:09 PM
babalazado said...
eheh muito bem apanhada sem dúvida! o que não diriam "daquela gente"!
babalazado
10:42 PM
Arroz de Estragão said...
Wise words...
Cumprimentos.
11:14 PM
Sérgio said...
Muito bem visto! O outro continua a estar errado. A visão umbiguista do mundo é assim.
12:49 AM
RTP(-África), o telejornal, para saber algo do mundo (essa utopia). 37 minutos depois ainda os preparativos do funeral do Papa.
Urge demitir a direcção de informação. E nem é necessário argumentar.
7 Comments:
Miguel S. said...
Da RTP, da SIC, da CNN, etc etc etc. Todos para a rua pá! Não há paciência!
9:57 PM
jpt said...
hum...aqui só vejo a rtp.
mas também, as outras são privadas, são livres (nos limites da lei) de procurarem ganhar audiências. A RTP é do Estado, não só serviço público (num país católico, atenção) mas minha propriedade - aqui opino com legitimidade [ainda que delegue no poder político a execução e a legislação], nas outras é diferente.
Mas mais do que isso, não tem qualquer cabimento, dias seguidos nisto. E o resto do mundo? Tudo parou? Que gigantesco pecado de soberba
10:06 PM
jpt said...
nem reparei que falavas da CNN. Ora bolas, se os americanos estão assim então nós também temos que estar, lá se vai o meu argumento
10:07 PM
Miguel S. said...
Não me lembro de alguma vez ver algo de semelhante jpt. Felizmente isto é semelhante aos fenómenos cósmicos: [com um bocado de sorte] apenas acontece a cada 26 anos...
10:43 PM
Miguel S. said...
este português... o 2º semelhante passa a idêntico.
10:44 PM
nropa said...
repetir palavras não é erro, ó esteta.
12:09 AM
jpt said...
se calhar não te lembras, o tal nropa era eu
12:10 AM
Tenho lido bastantes asneiras raivosas sobre o falecido Papa (esta merdosfera anda cada vez pior). Sim, também acho que o homem era supra-supersticioso, sim também me torço à Opus Dei [oops, ontem contra os maçons, hoje contra a obra, é melhor pedir outra nacionalidade]. Sim, também sorri, com arrghh, na rábula do 3º mistério [e aviso o crente que aqui passa, acho Fátima um espanto, um mau espanto, como é possível tudo aquilo?].
Mas nessa fúria anti-papa transparece muito ateu "não praticante" - as entranhas mexem-lhes à imagem da Igreja, nela se centram, a ela querem pertencer (moldar algo é pertencer, como é óbvio). Um bom filão para extremas unções. Arrependimentos à última hora, gemidos em busca do rebanho.
Paleio, paleio, gritos anti-cristo. Mas muito cagaço da solidão do ateu. Porra, vão à missa. Que rezem por uma nova Igreja Católica, à imagem deles, aos valores deles.
Cheínhos de causas. Bondosazinhas. Correctazinhas. Dedinhos espetadinhos, denunciadorzinhos.
Que beatos.
****
8 Comments:
Eufigénio said...
Merdoesfera? Tu vais de irado para blasfemo já, mas cada vez com mais razão, isso reconheço, e cada vez a "despachar" com mais elegância.
E beato? Olha lá, essa não era para mim pois não?
8:33 PM
jpt said...
não sei efg, já te puseste a maldizer o Papa por este não pensar como o Louçã? se sim então sim
9:32 PM
jpt said...
This post has been removed by the author.
9:32 PM
Sérgio said...
O ateu tem muito medo de ficar de fora do céu. Por isso tenta mudar o molde da chave. Tão triste como o católico não-praticante.
12:53 AM
E.O. said...
This post has been removed by the author.
1:03 AM
jpt said...
Sérgio, nem todo o ateu. O ateu não praticante, sff. Está muito boa essa do mudar o molde da chave
1:04 AM
Anonymous said...
Subscrevo quase tudo menos a 'merdosfera'... a merda sempre é um fertilizante.
Um abraço,
Francisco Nunes (Planície Heróica)
1:17 AM
jpt said...
Meu caro FN estamos perfeitamente de acordo. Apenas refiro que o fertilizante se me afigura cada vez pior. Mas talvez esta machamba não seja em Planície Heróica, e a terra esteja aqui tão cansada que não há fertilizante que lhe valha.
Abraço
1:31 AM
Incrível, encontro no Forever Pemba, cujo autor não conheço, velhas fotos minhas em Pemba.
(eu estou de chapéu)
Mais um artigo sobre blogs. Mais um artigo de jornalista e/ou colunista, decerto. É incrível a quantidade de textos similares que vão brotando. Todos enfatizam o umbilical cordão entre jornalismo e bloguismo, e respectivas influências.
Claro que muita coisa não li, mas continua-me a surpreender, no meio da prosa sobre o bloguismo jornalístico continuo a não ler a dimensão crucial: a auto-edição, prosa ficcional, crónica, fotografia, colectânea, poesia, diário. Tudo isso passa ao lado das teclas jornalísticas.
O centro do mundo, são eles, os dos jornais e afins.
Tempos houve em que não eram notícia. Tempos há em que a notícia são eles?
*****
8 Comments:
Eufigénio said...
Nem mais JPT, e essa é a janela por onde sedento o mundo olha ( a dimensão distorcida de quem mostra, e a imagem incompleta de quem só está para ver meias-coisas)
3:14 PM
jpt said...
Efg, há semanas que não consigo comentar no teu estaminé, escrevo e nada fica. Mais, quando acedo vou sempre parar dias atrás, tenho que ir via teus arquivos mensais, para aceder aos teus últimos textos gabarolas sobre o Lazer e isso [brunhol ainda?]. Trancaste-me o acesso? Ou é represália pela minha deserção do weblog, qual Figo do Barça para o Real?
3:18 PM
Eufigénio said...
Ó homem, há semanas que vejo por lá os teus comentários ( e que lhes respondo). Sinceramente não sei o que se passa. Eu sei que é sugestão naif mas já experimentas-te fazer F5? (não sei para mais que isto, que desde que mudaram os carburadores por aquelas placas de controlo de injecção deixei de saber dar palpites). Quanto ao brunhol, há tempos que a torneira não abre lá dos lados de monchique, e a gente tem de ir remediando com outras iguarias, coisas dos tempos modernos.
3:58 PM
jpt said...
F5 é uma máquina fotográfica, não é? Até boa, daquelas que tira fotos, nada dessa mariquice (oopss, ai politicamente correcto) actual.
Vou tirar, então.
O final do brunhol é devido ao europeísmo que nos obrigou a beber as aguardentes cerealiferas em detrimento das vinícolas, mais dignas e melhores. Depois Vêm os liberais loar o mercado. Ignorantes...
4:29 PM
Eufigénio said...
Bem, não entremos outra vez na história das cartolinas amarelas que isso é coisa de blog antigo, nada a ver com este moderno ainda que menos plural Machamba.
Depois de tirares a foto e se ainda não resultar posso alvitrar outro conselho, este mais técnico: desliga e volta a ligar. Se ainda assim não funcionar ... olha , não perdes grande coisa.
Eu agora abasteço-me no IVV, e espanta-te com a melhor que até hoje tocou estes lábios. Essa cá te espera (e livra-te de voltares a falar de condes e palácios)
Abraços
PS: Já temos URL para o "Olivais"? O Marco pareceu-me ser quem menos comichão tem a estas coisas digitais, talvez fazer seguir o encargo
5:46 PM
ognid said...
olhar para o umbigo. hábito antigo.
2:18 AM
NUNO FERREIRA said...
blogs e jornais e televisões e telefonais e pinturas e esculturas, tudo pode coexistir alegremente
7:11 PM
jpt said...
NunoF tudo pode coexistir, claro. A rapaziada dos mídia, como se diz agora, é que não percebe lá muito bem. Estão, como diz o ognid, a coçar o umbigo. Bem, antes isso qu'a micose.
10:12 PM
Eu repito-me no assunto. Esquece-se Macau? Ali também é lusofonia. Ou [Áfinal?!] o facto da China ser uma "civilização" o retira deste campo? Pois ali há um húmus outro? Superior ao dos outros lusófonos extra-ibéricos?
Esta também é uma pergunta sobre a especificidade lusófona.
E MAIS LUSOFONIA
O WR lembra, a quem se esquece no calor da argumentação, que Timor-Leste é lusófono, "pois estamos a falar de realidades muito diversas até do ponto de vista identitário, mas que possuem de comum a língua, no que isso implica de atributo cultural essencial".
Esta é uma caracterização da lusofonia.
ACHEGA À LUSOFONIA
O WR discute a lusofonia. E coloca uma questão que dá pano para mangas, no seu desenvolvimento e quanto aos seus pressupostos: "O que fica no ar é a ideia de sabermos em que medida a comunhão desses obstáculos ao desenvolvimento, de natureza cultural, não resultará de uma História comum aos povos da lusofonia.".
Esta é uma pergunta sobre a especificidade lusófona.
SOBRE A CRÍTICA RECEBIDA À LUSOFONIA
[colocado a 4.4]
Ali abaixo coloquei uma recensão de Igor Machado, decerto já antiga, que me foi enviada pelo leitor Lucas Tedeski, dedicada ao pequeno livro de Alfredo Margarido que antes amplamente citei. Não será particularmente interessante discutir uma recensão crítica de um livro. Mas já que tenho vindo a discutir "lusofonia", e tendo o referido texto aqui sido comentado de forma bastante viva, interessa-me deixar mais algo sobre a matéria.
1. No seio de uma recensão avisada ao texto há uma crítica que considero muito acertada: Margarido (talvez provocatoriamente) anuncia que o português do Brasil será o futuro (a "língua oficial") porque dotado de maior "eroticidade" - já quando li o livro, aquando da sua edição, este argumento me pareceu reprodutor das imagens preconceituosas (que alhures o autor procura desmascarar). Aqui o comentário de Igor Machado é muito esclarecido. Com efeito de onde se pode retirar o carácter "erótico" de qualquer língua ou da sua particular apropriação/construção?
[Lateralmente, acho que esta afirmação de Margarido poderá estar ligada, pese embora a estatura do autor (assisti em Maputo em 1998 a uma sua conferência absolutamente luminosa, um dos grandes momentos intelectuais de que disfrutei nos últimos anos), às perversões do modelo "ensaio". Confesso a minha incomodidade com este tipo de discursos, em que a recorrente densidade das argumentações não se apoia em veras fundamentações que ultrapassem a opinião autoral, o que recorrentemente enfraquece o conteúdo - há algum tempo ecoei, ligeiramente, o meu espanto com o recente e muito celebrado livro de José Gil que surge com paradoxos semelhantes. E daí ter esperado com interesse a discussão pública que o Bloguítica promoveu.]
2. Igor Machado sublinha a crítica à lusofonia por não ser acompanhada de uma política portuguesa de abertura de fronteiras aos imigrantes dos países ex-colónias, algo que corresponde à visão de Margarido. Para mim uma das dificuldades nesse livro, pois exigir uma automática relação entre uma visão "lusófona" e uma abertura de fronteiras, e denunciar a inexistência dessa correlação, é argumento frágil, e não fundamentado. Com efeito, não há nada nas formulações "lusófonas" que exija essa obrigatoriedade. Pode-se depreendê-la, mas nada a exige. Enfim, é uma denúncia opinativa, que decorre de uma pressuposição de quem denuncia. Nada mais. E portanto, neste caso, um argumento algo falho. Porque moralizante.
3. O interessante é que, neste caso, a argumentação do livro e o enfoque (voraz) da recensão foram ultrapassadas pela realidade posterior. Nisso demonstrando não só alguma fragilidade das críticas explícitas, como também, e fundamentalmente, da própria visão lusófona.
Com efeito a política de facilitação inter-migracional foi encetada pelo Estado português (o visado nas referidas críticas), com a sua proposta de "cidadania lusófona". A qual foi recusada por intervenção dos maiores Estados africanos da CPLP. Obviamente chumbada, diga-se, pois é incompreensível como a proposta chegou a ser apresentada na Reunião de Chefes de Estado (2001 ou 2002), uma falha clamorosa de avaliação do proponente.
Este facto é interessante não só por fazer estremecer a argumentação crítica ("denunciadora") de autor e de recenseador.
É interessante por dois motivos, esclarecedores:
- porque denota a inexistência de uma concepção universal e de uma vontade universal de "cidadania lusófona", de aceitação da "lusofonia";
- e, a um outro nível mais pragmático, denota também que essas críticas, apenas baseadas na ideia da vontade / urgência na imigração para Portugal, são extremamente contextualizadas - talvez fundamentais nas populações da Guiné-Bissau, de alguma brasileira dos anos 90 e talvez 00,no caso cabo-verdiano, porventura representadas/suportadas pelos seus governos. Mas não nos casos angolanos e moçambicanos, tanto ao nível da sua representação estatal, como da realidade dos seus movimentos migratórios efectivos ou ambicionados. Ou seja, o enfoque político dessas críticas está errado, porque absolutizado. Porque julgando as dinâmicas políticas como padronizadas, centradas num desejo de Portugal destino. Interessante como a crítica ao "lusocentrismo" lusófono é ela própria (na sua vertigem ideológica?) também "lusocentrada".
Já agora, deixe-se perceber que o anúncio dessa proposta de "Cidadania Lusófona", viabilizadora de uma maior abertura recíproca à emigração inter-CPLP, foi-me a mim (e decerto a tantos outros) espantosa. Como foi possível pensar que os Estados da África Austral iriam permitir nos tempos actuais a facilitação da putativa (ainda que muito pouco provável) emigração de sempre anunciado quase meio milhão de sul-africanos de origem portuguesa para Angola e Moçambique? Esta minha referência prende-se ainda, e sempre, à afirmação da "irrealidade" da leitura lusófona. Como diz Braga de Macedo no texto que abaixo cito: No imaginário lusófono, eles estão juntos na cultura e nos afectos: um é velho, outro é grande, os outros precisam de ajuda para crescer. Só que a história e geografia assim conotadas escondem o potencial de desenvolvimento porque não apreendem a governação. Penso que este exemplo é curial. No desvendar do irrealismo (anti-empírico) lusófono. Mas também no vazio das críticas meramente ideológicas, assim nada mais do que preconceituosas.
5. Decerto que por desconhecimento da realidade portuguesa o recenseador anuncia a "lusofonia" como discurso dos "intelectuais orgânicos" entre PS e extrema-direita (o que denota a sua filiação ideológica, diga-se). Mas está errado. É certo que a intelectualidade socialista (orgânica ou não) reproduziu à exaustão o discurso lusófono. Algo a que não poderá deixar de estar ligada alguma inércia histórica: o PS chegou ao poder aquando do lançamento da CPLP, difícil (mas teria sido tão lúcido!) seria associar a criação institucional ao depurar do discurso. Mas o mesmo não poderá ser dito à sua direita, apesar de alguns grandes nomes veículos do projecto lusófono. Diga-se que a direita portuguesa, e algum centro, ainda não cumpriu o seu "luto" (Margarido dixit) colonial, e daí a extrema dificuldade em assumirem um discurso lusófono, que é por essência uma retórica pós-colonial. E mais, à esquerda do PS, implícita ou explicitamente, o discurso lusófono sedimenta-se também, por via da aceitação da retórica, por incompreensão e irreflexão da sua natureza, por desconhecimento do seu eco, e por (ignaro) "companheirismo de caminhos". Em suma, contrariamente ao que Machado propõe, a lusofonia não é em Portugal um discurso de direita (e de um PS no poder). É (ou foi) um tema transversal, mas mais presente no polo esquerdo do discurso identitário / prospectivo nacional.
6. Finalmente, para além da recensão que Machado realiza, há, e bem mais do que implícito, um discurso que associa a crítica à lusofonia com uma crítica ao colonialismo. Como se esta fosse mera continuação, ou sua tentativa. Incapaz de compreender as diferenças históricas (porventura porque desconhecedor dos contextos) Machado transpira no seu texto um profundo anti-portuguesismo, um eco de colonizado.
Confesso que sempre me espanta o discurso anti-colonial brasileiro, em particular o afã anti-português, o qual decerto não é universal, mas não se restringe a alguns recenseadores (e até a pequenos comentadores in-blog): Gilberto Gil, ministro, dizia no ano passado em Maputo que os portugueses tinham morto milhões de índios no Brasil. Eu, contrariamente a Gil, já olhei para o mapa histórico do Brasil. Que eu saiba a efectiva penetração na floresta decorreu bem para além de 1820. (E continua...) Se fosse o músico significaria nada mais do que eco [tal e qual Caetano Veloso no seu ditirambo anti-português de há alguns anos atrás], mas um ministro brasileiro em África com este tipo de discurso não é inocente (ainda que o ministro seja Gil).
Por isso, cada vez que ouço o gemer brasileiro do sofrimento colonial lembro-me de um texto de Christian Geffray, Le lusotropicalisme comme discours de l’amour dans la servitude, no qual ele dá conta do seu espanto com a reclamação de uma identidade colonizada brasileira. Diz (convém ler o texto todo): "les peuples américains...ou du Brésil, etc. sont des peuples de colonisateurs sans colonisés. Ils occupent des territoires qui peuvent aujourd’hui encore abriter des populations que les ont précédés dans les temps sur le territoire, mas ces véritables "colonisés", si l’on peut dire, n’ont e n’auront jamais d’accès possible à la representation, sinon à la condition, de colonisés" (364).
Para um debate académico sobre construção de identidades esta é uma temática apaixonante. Mas numa deriva polemista, ou para sua utilização política, esta ladaínha brasileira é insuportável.
ARQUIVO
[colocado a 3.4]
O Lusofonia está a constituir um cuidado arquivo de textos bloguísticos e blogados relativos à "lusofonia". A acompanhar e a agradecer.
Desde há muito que vou visitando o Quase em Português de Lutz Bruckelmann, arquitecto alemão vivendo em Portugal. Ao princípio fui agradado pelo bom gosto na escolha das suas playmates, pelo saber duvidar dos textos e pela ponta de suave ironia que também se apresentava (veja-se o próprio nome), coisas próprias da utopia de procurar saber. Tudo isso potenciado pela minha simpatia por encontrar um meteco, tal qual eu. Um meteco livre, já o referi (na minha brincadeira "Gandulas") - e acho que a existência de um blog como o Quase em Português é uma excelência para o meu país.
Com o tempo passou-me essa tal solidariedade de meteco. Pois foi-se tornando desnecessária como potenciadora. É que o Quase em Português passou, por si só, a ser o meu blog preferido, e hoje em dia divirto-me mais comentando (n)os textos do Lutz do que arroteando esta machamba.
Ali em baixo (sem link, tal a parvoíce) um ditoso "anonymous" bota comentário invectivando um anterior comentário que o Lutz aqui colocou. Por todas as razões (conteúdo e objecto) é uma imbecilidade. E ser invectivado por um imbecil não suja. Mas como foi em minha casa irrita-me. Suca, anonymous, suca.
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3 Comments:
Lutz said...
Obrigado, José Flávio, muito obrigado! Sabes como o Quase em Português conta com os teus comentários, mas não voltes a fechar o Machamba!
Em relação ao "anonymus", que tão gloriosamente se empenhou de confirmar a minha tese do ressentimento, tens razão: quem fala assim, não ofende...
E não vou achar que ele representa os habitantes ou provenientes das ex-colónias - isso seria mesmo racismo...
9:44 PM
CBS said...
"o "anonymus", que tão gloriosamente se empenhou de confirmar a minha tese"
Pois, foi isso mesmo... teve piada :)
7:35 PM
Miguel said...
Se não me falhou a leitura, o comentário anónimo não conta com um único ponto final, esse saudável descanso para pensar o que se está a escrever. Pareceu-me sintomático. Revelador de uma forte vontade de debitar sem pausas. Quem escreve assim, realmente, não ofende.
12:46 PM
[colocado a 31.3]
Um leitor do Machamba acaba de me enviar um texto da autoria de Igor José de Renó Machado. Uma recensão crítica ao livro de Alfredo Margarido (2000), "A Lusofonia e os Lusófonos: Novos Mitos Portugueses".
Como aqui tenho vindo a escrever sobre o asssunto "lusofonia" julgo de interesse colocar o recém-chegado texto. Com alguns pontos não concordo, com algum enfoque discordo radicalmente. Mas isso é natural, a cada um sua sentença. Mais tarde direi das minhas discordâncias. Às visitas já cansadas deste tema as minhas desculpas, é só clicarem "fuga". Aos que têm apreço por este "abaixismo" à mediocridade aparatchikista, obrigado.
[Actualização: Lutz Bruckelmann comentou algo que justifica leitura]
Eis:
MARGARIDO, Alfredo. 2000. A Lusofonia e os Lusófonos: Novos Mitos Portugueses. Lisboa: Edições Universitárias Lusófonas. 89 pp.
Igor José de Renó Machado
Doutorando, Unicamp
O livro A Lusofonia e os Lusófonos é um libelo contra uma forma hegemônica do pensamento social português, representada por intelectuais, colunistas de importantes jornais e intelectuais orgânicos do partido do governo (o PS) e do leque político que se estende até a extrema-direita. Sob uma ironia refinada e uma crueza ácida, Margarido põe à mostra as entranhas nada gloriosas dessa forma de pensamento que domina a Comunidade dos Povos de Língua Portuguesa (CPLP) e a diplomacia portuguesa e que, embora ignorada no Brasil (como, ademais, o próprio Portugal), é insidiosa e efetiva na relação de Portugal com os países africanos que se livraram do jugo português após sangrentas guerras coloniais. É insidiosa também na organização interna da imigração para Portugal que, de acordo com as regras da União Européia, fecha as portas aos imigrantes das ex-colônias. Nesse sentido, a lusofonia afeta diretamente a vida dos cerca de 50 mil brasileiros imigrantes em Portugal, se contarmos apenas os números oficiais.
Margarido considera que a partir de 1960 se deu o rompimento de Portugal com o Atlântico, momento marcado pelas guerras coloniais, imigração e pelo nacionalismo racista. A lusofonia surge como ferramenta ideológica para recuperar esse espaço atlântico, apagando a história colonial e as relações polêmicas com os povos de língua portuguesa, mediante a tentativa de controle da língua "mãe". A importância da língua aumenta apenas quando desaparece o controle direto das populações e, após 1974, quando se lhe confere o papel que foi dos territórios colonizados: o de recuperar a grandeza portuguesa. Ao mesmo tempo, controlam-se cada vez mais as populações "residuais" dos tempos coloniais - os imigrantes - em Portugal e no restante da Europa. Exibe-se a contradição entre a pretensão de um "espaço lusófono" e o exagero da submissão portuguesa às leis de Schengen, que cria uma Europa racista, eugênica e desumanizada. E essa violência racista é dirigida, em cada país, a grupos específicos (em Portugal, são os cabo-verdianos o alvo preferencial do racismo, diz o autor, mas podemos acrescentar: os moçambicanos, guineenses e brasileiros).
O discurso da lusofonia encampa um projeto missionário de "civilização" após as guerras coloniais (nesse sentido, pós-colonial), agora focado na língua. O primeiro sintoma dessa virada acontece com a mudança de vocabulário após as independências africanas, similar à francofonia, criando um suposto "espaço lusófono" e uma história comum cor-de-rosa. A contradição aparente é que o atual europeísmo da União Européia condena os particularismos nacionais (principalmente o dos países mais pobres da União), o que impede a formação de espaços lusófonos, francófonos ou hispanófonos reais, como fica claro pelas políticas de controle de imigração cada vez mais duras e desumanas na Europa. Só há e só pode haver espaço lusófono em um discurso mítico.
Margarido critica a visão lusófona do passado, como se o "Outro" só existisse após o encontro com algum navegador português, esquecendo-se a outra face do encontro: a invasão. Além disso, faz digressões sobre o trauma ocorrido com a independência do Brasil em 1822, que levou o discurso colonial português a reafirmar os "direitos" às demais colônias e populações. Esse trauma surge e ressurge de várias maneiras: ou escamoteando a independência brasileira como sendo um fator português, dado que foi proclamada por D. Pedro I, ou vendo no Brasil um Estado-filho ou Estado-irmão mais novo, implicando sempre laços que devem manter tais países unidos (se o Brasil continuar sempre infantilizado).
A partir da década de 20, os nacionalistas brasileiros passam a se preocupar com o povo, e Gilberto Freyre vai derivar o Brasil do apetite sexual português. Mas o luso-tropicalismo só existe em Portugal no pós-45, quando o que já era ruim é mutilado para servir à hegemonia colonial portuguesa, fechando os olhos a toda sorte de violências (que culminaram nas malfadadas guerras coloniais), barrando inclusive a possibilidade de modernização do país. Aqui não se pode deixar de dizer que Margarido produz um "nacionalismo alternativo", que luta contra a lusofonia para que Portugal chegue à modernidade. Como um exilado permanente, lecionando na França, e como um dos principais críticos do colonialismo português, Margarido pode ser visto como um intelectual "contra-hegemônico".
Outra contradição da lusofonia é a atual preocupação com a língua, que nunca foi objeto de cuidados quando da época colonial. No Brasil e nos países africanos (até 1961) não se criaram universidades e a política de não-educação era uma forma de manter o estatuto de inferioridade do colonizado. Os africanos sem escrita eram considerados "fora da história" e só "entram na história através das formas de dominação" (:51). A língua passa a ser, depois de ignorada sistematicamente pelo colonialismo tardio português, o elemento de continuidade da dominação colonial, e "a exacerbação da 'lusofonia' assenta nesse estrume teórico" (:57). Recorrendo a Saussure, o autor demonstra como uma comunidade lingüística é baseada na religião, convivência, defesa comum etc., o que é definido como etnismo. A relação desse etnismo com a língua é uma relação de reciprocidade, ou seja, é a relação social que tende a criar a língua, portanto, a língua não pode ser a pátria de ninguém. Essa fórmula pessoana apaga o peso dos "costumes" nas considerações sobre a língua, fazendo com que os povos com outros costumes possam ser lusófonos apenas por falarem português (minha pátria é minha língua... mas quem é que manda nessa pátria?). A idéia de uma pátria lingüística é uma hierarquia que apenas repõe aquela do Império.
É interessante ver o papel da língua brasileira em Portugal, através do avanço da mídia brasileira na Lusitânia. Na verdade, essa presença influenciadora é profundamente incômoda para a intelectualidade portuguesa, que acaba por reduzi-la a um sinal da "criatividade" natural do brasileiro. Esse falar brasileiro "criativizado" pelos portugueses repõe o mesmo preconceito lusófono: a criatividade e a criação artística são o outro lado da selvageria e, portanto, a natural criatividade do brasileiro é mais um sintoma de sua inferioridade intelectual, pois ao criativo é negada a razão, como forma de tentar conter dentro das estruturas de um lusofonismo detestável a presença da fala brasileira.
Aqui se pode questionar Margarido, mesmo reconhecendo a irônica provocação que é elevar a língua brasileira ao status de "língua oficial" da suposta lusofonia. Para tentar desmontar e provocar a intelectualidade portuguesa, profundamente incomodada com a presença do falar brasileiro, Margarido argumenta que é a língua brasileira a mais bonita, maleável e "erótica" e, portanto, a única candidata a uma suposta língua lusófona. É questionável recorrer, para criticar a lusofonia, à imagem estereotipada que ela própria reproduz, ao acentuar o caráter "erótico" do português falado no Brasil. Uma das características da lusofonia é a separação entre civilização e selvageria, na qual Portugal representa o processo civilizatório e a língua equivale a "civilizar". Se assim é, o apelo à "natureza erótica" da fala do brasileiro é mais um recurso, mesmo quando usado ironicamente, à lusofonia, pois o brasileiro erotizado é rebaixado ao pólo "selvagem" dessa divisão básica do discurso lusófono. De fato, não é a fala do brasileiro que é erótica (afinal, o que é isso?), mas é porque ele é visto de modo erotizado que a fala é considerada erótica. Isto por si só dá a entender ao leitor brasileiro a força desse discurso lusófono em Portugal, pois nem mesmo seu crítico mais ácido consegue se desvencilhar dele completamente.
Ora, a lusofonia não passa de um "doce paraíso da dominação lingüística que constitui agora uma arma onde se podem medir as pulsões neo-colonialistas que caracterizam aqueles que não conseguiram ainda renunciar à certeza de que os africanos [e brasileiros, acrescentaria] só podem ser inferiores" (:71). A lusofonia serve como ferramenta de manutenção das distâncias racistas em que se baseou o discurso colonial após seu fim sangrento, apagando o passado e recuperando a antiga hegemonia. O que Margarido não diz explicitamente, mas que se pode derivar de seus argumentos, é como serve a lusofonia de estrutura da ordem hierárquica que escalona os imigrantes, "resíduos" do Império que procuram em Portugal fugir ao desastre que em casa foi a herança portuguesa. É uma suprema (e dolorida) ironia que os imigrantes sirvam como o campo preferencial de reordenação simbólica da ordem imperial.
Embora ao leitor brasileiro o tema da lusofonia debatido por Margarido praticamente não faça o menor sentido (o que é ótimo e dói nos ouvidos portugueses), para os países africanos recém-saídos do - e destruídos pelo - período colonial, a temática lusófona é, no mínimo, repugnante. Mas é preciso alertar ao potencial público objeto da ideologia "lusófona", os falantes de português, a não jogar o jogo da lusofonia, seja por subordinação causada pela miséria (no caso de Moçambique, Angola, São Tomé, Cabo Verde e Guiné), seja por desprezo (no caso do Brasil). Entre outras causas, é justamente por esse grande desprezo da opinião pública brasileira, que o mecanismo da CPLP pode curvar-se ao lusofonismo tacanho do governo português. Para imigrantes brasileiros e africanos das ex-colônias, entretanto, o discurso da lusofonia é uma armadilha terrível, pois o espaço lusófono, como mito que é, nunca se realizará na prática. A busca por direitos "especiais" baseados na lusofonia por parte de associações imigrantes oriundas do desastre colonial português, além de infecunda, apenas reforça essa "ideologia-estrume" (no dizer de Margarido).
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6 Comments:
Lutz said...
Sigo esta por vezes tão dramática questão da lusofonia com muita curiosidade, quase diria voyeurismo. Problemas de identidade são um tema imperecível para um alemão, e é educativo (e de certa forma, perdoam-me: reconfortante) ver como outros lidam com os seus, que são, não há dúvida, diferentes.
Embora que conhecendo os traços gerais da vossa história colonial, estou muito alheio às implicações psico-sociais que ela vós legou, tanto aos portugueses como aos cidadãos nacionais das ex-colónias.
Este artigo em concreto assustou-me por ser tão impregnado de ressentimento. (Que pode ter origens talvez justas, mas que não ajudará a melhorar as coisas...)
E, falando da identidade, não percebi de todo a identidade, a perspectiva de quem o escreveu:
Fala um português que se queixa de ser tratado como se fosse de segunda classe (isso parece-me indicar a queixa sustentada do regime de Schengen) ou seja, um habitante ou prentendente a habitante do Portugal continental? Ou fala um cidadão dum estado independente saido duma ex-colónia, que se queixa que Portugal ainda não saldou a divida para com ele? Mas como é que se quer paga esta dívida, cuja justa existência não quero, à partida, pôr fora de questão? Com dinheiro? Com o direito de residência no espaço Schengen? Com uma intervenção política da ex-potência colonial em estados que são independentes há mais de 30 anos?
Parece-me falar aqui alguém que procura a solução dos seus problçemas nos outros, e não em si mesmo. Sabe-se, que isto é característica essencial da menoridade, e sabe-se que não há culpa de outrem, que absolve uma pessoa, um povo, ou uma nacão, de assumir a sua própria e plena responsabilidade pelo seu destino.
12:49 PM
Anonymous said...
Interessante de ler, tanto o texto que expões como o comentário do Lutz _ abraço, IO.
1:25 PM
jpt said...
excelente lutz, excelente, lutz. o meu comentário fica para o fim-de-semana, esta semana estou ainda mais atafulhado do que é costume
3:47 PM
Anonymous said...
Todos nós conhecemos a velha desculpa portuguesa do, "coitadinhos de nós, eles não nos compreendem, isso é falta de identidade, ressentimento e blá blá blá" por isso o comentário infeliz carregado de racismo e preconceito do senhor lutz é mais do que esperado assim como os subsequentes "eu concordo" que vem abaixo, exatamente por essa postura arrogante e de tentar distorcer as palavras do texto cujo autor Alfredo Margarido é português, e logo por isso mesmo o blá blá blá tipico de "ressentido", "sem identidade" etc... é pura estupidez, mostra que esse senhor lutz nem sequer leu direito o texto ou sequer se prestou a tentar entende-lo e tenta menosprezar o brasileiro que o comenta dizendo que quem comenta algo que um português escreve possuiu "menoridade" ou seja é inferior ao português atitude essa que é comentada no próprio livro do senhor Margarido a tentiva portuguesa de sempre inferiorizar os individuos das ex-colonias como se eles fossem selvagens incapazes de pensar por si próprios, e sem mais perder tempo tentando comentar o que não adianta ser comentado ficou claro que a tal Lusofonia é uma grande estupidez e no Brasil continuará no mesmo estado em que se encontra hoje em dia ou seja inexistente mesmo porque o Brasil não precisa fazer intercâmbio com pessoas racistas e preconceituosas pelo contrário o objetivo do país é exatamente extinguir esse tipo de gente se é que podemos chamar de "gente" esses vermes
9:19 AM
CBS said...
Nem tinha visto isto.
Mas o senhor Anónimo merece a designação que usa.
E retrata, em si próprio muito bem, aquilo que julga criticar.
9:33 PM
jpt said...
pois eu não tinha acabado de ler o comentário anonymous, dei-lhe uma diagonal. Agora li-o todo e até tem piada - eu pelo menos rio-me nesta madrugada.
É interessante, ao leitor que me enviou o texto / recensão respondi-lhe, agradecendo o envio e dizendo-lhe que o iria colocar e que discordava de alguns pontos e enfoques na leitura do autor. Respondeu-me o emissário, lesto, que não o surpreendia, e que "vocês portugueses têm a mania de dizer a última palavra sobre tudo"...ele sai-me cada um. Bem, agora vou dormir, para o meu buraco de verme, enquanto não sou exterminado pelo tal país "exterminador", decerto implacável? Lutz, exterminadores implacáveis é mais lá para as tuas zonas, os vizinhos austríacos, não é? futuros californianos, I mean, não vás entender mal
4:39 AM
Mais...lusofonia [agente de desconhecimento]
[colocado a 30.3]
"Ausente do obsidiante mundo dos padrões, a lusofonia não tem imagem estatística. E sem imagem estatística, não se existe na globalização comercial e financeira. Uma razão para esta inexistência global é julgarmos conhecer os oito países membros da CPLP como as nossas mãos. No imaginário lusófono, eles estão juntos na cultura e nos afectos: um é velho, outro é grande, os outros precisam de ajuda para crescer. Só que a história e geografia assim conotadas escondem o potencial de desenvolvimento porque não apreendem a governação (...)"
[Braga de Macedo, "Governação no Espaço de Língua Portuguesa" in Mediafax, nº 3123, 27.09.04]
QUE DIZER?
[colocado a 27.3]
Na última semana coloquei aqui 14 textos, de diferente dimensão, subordinados ao tema "Para acabar de vez com a lusofonia". E agora, sobre o que falar?
AINDA
[colocado a 23.3]
O que é a lusofonia? É falar português? Ou é um quadro de apreensão da realidade (suas características, suas possibilidades)? E, se neste último caso, também de imputação (de características, de possibilidades). E, se assim sendo, estabelecendo-se como um guia de acção (mais ou menos explícito)?
Aquilo que aqui tenho vindo a dizer parece-me óbvio, é que a leitura "lusófona" não é meramente descritiva das características linguísticas. E se isso não é apreendido de imediato é devido à capacidade naturalizadora do argumento linguístico (o "véu da língua" que referi abaixo). Mas este é um óbvio relativo. É o meu óbvio.
No Blue Everest encontro outro registo, no texto lusofonia pragmática. Permito-me um comentário, usando-o para tentar melhor esclarecimento do que tenho vindo a discorrer. Interpreto-o, como texto público que é, mas sem lhe querer imputar ideias ou argumentos.
Lá se encontra outra lusofonia, exclusivamente linguística: A Lusofonia não precisa de ser inventada, pois há milhões de pessoas por todo o mundo que falam português. Não é pois discutível, é uma realidade empírica (e não serei eu a negá-la, como é óbvio).
E, para a enquadrar (não para a legitimar, pois a empiria não tem deficit de legitimidade), citam-se, sem qualquer mediação, os estatutos da CPLP e seus objectivos. Uma relação imediata entre capacidades linguísticas "lusófonas" e um organismo político inter-estatal multilateral . Enfim, acho que há um salto abrupto, empobrecedor, mas nem me vou colocar a discutir ciência política ou relações internacionais (ainda que pudesse lembrar que um organismo formalmente similar como o é a Commonwealth não desenvolveu discursos similares).
E não vou porque há outra leitura desta homologia radical CPLP-Lusofonia: é que sendo positivos os objectivos de cooperação para o desenvolvimento expressos nos estatutos (e na prática) da CPLP, tal homologia pode deixar (atenção, "pode deixar") entender que uma oposição ao discurso "lusófono" é, não só absurdo porque anti-empiria, mas também uma oposição ao organismo multilateral inter-estatal e aos seus objectivos políticos positivos de cooperação para o desenvolvimento.
Ora é exactamente o contrário, é porque considero errónea a redução linguística do conceito "lusofonia", é porque considero, portanto, errada a homologia lusofonia-CPLP [esta pode, e deve, desenvolver-se com outro quadro intelectual de apreensão da realidade, sem que isso signifique alterar a sua matriz linguística], que considero fundamental apartar dos esforços positivos (estatutários e pragmáticos) da CPLP à vontade "lusófona". Por outras palavras, à CPLP (à qual, e sem quaisquer niilismos, apenas se pode desejar uma maior eficiência), e em particular ao meu Portugal, é contraproducente o enfoque lusófono.
Um outro ponto. Afirma-se ainda no Blue Everest: "Revoltar-se filosoficamente contra o colonialismo do passado já não serve de nada". Parece-me aqui implícito que uma crítica à lusofonia surge como uma, serôdia, crítica ao colonialismo. Se é essa a interpretação que se pode fazer? (Diga-se que se é essa a interpretação isso é-me desesperante. Que mais poderei dizer para reafirmar que falo do presente e não do passado?).
Por um lado concordo no carácter vetusto do discurso anti-colonial. Sobre isso permito-me mesmo uma auto-referência a um texto [a ligação permanente não funciona correctamente: trata-se de um texto colocado em Janeiro de 2004, intitulado "Mil Desculpas] onde procuro, em registo jocoso, resmungar contra essa perenidade.
Mas por um outro lado esse afirmar da prescrição do discurso anti-colonial é uma extrema simplificação da realidade. Postula-se que (já) não interessa esse discurso! Mas é um postulado originário do contexto "ex-colonizador". Será um postulado eficaz no contexto "ex-colonizado"? Ou afirmamos que é argumento absoluto, desprovido de contexto? Mais, nele se nega assim a permanência da memória histórica da relação colonial, nega-se ser ela ainda a matriz (muito complexa) de relacionamento. Nega-se (incompreende-se) ser essa memória também factor identitário de algumas elites políticas (aqui dependerá muito dos contextos nacionais), e até de comunidades mais vastas. Desconhece-se (incompreende-se) o peso desses argumentos políticos na actualidade. Sublinho, não estou a defender a qualidade deste discurso/mecanismo identitário, estou a reconhecê-lo. [E, se empírico...]
Este "já não vale a pena" surge até expresso numa expressão em voga, o "encontro colonial". Para quem acha as palavras "lisas" (flat, perdoe-se-me o anglicismo), para quem acha "lusofonia" o falar português, também não achará estranho afirmar o "encontro colonial". Para quem ache as palavras rugosas, com múltiplos sentidos, compreenderá que é problemático assim apagar o conteúdo da história, em particular quando feita de violentos conflitos produtores de identidades. Das identidades actuais.
Este "já não vale a pena" de certa forma ilegitima a memória colonial. Ou melhor, afirma-a desnecessária. Considera que quem com ela trabalha, reflecte, o faz em deficit. Nem o nego nem o afirmo, acho que aqui estamos apenas no domínio do "dever ser" (e não do pragmatismo). Mas, e sabendo que o exemplo não está bem calibrado, lembro que em 1998 a representação espanhola na Expo de Lisboa distribuíu documentação onde se incluía uma gravura com o desembarque de Filipe I em Lisboa. E lembro que o sururu gerado bradou até em Maputo. Ridículo? Ou o peso identitário das relações complexas e conflituosas? E já nem digo nada da história da portugalidade, ou das relações com o Brasil.
Em suma, seria melhor para a CPLP, seria melhor para Portugal, que os conceitos que os norteiam fossem (auto)analisados. E não naturalizados. Não esquecendo que enquanto guias de acção eles terão alguma responsabilidade (não toda, alguma) na pobre empiria das tais relações inter-estatais, de cooperação para o desenvolvimento. Onde muito ultrapassa as dificuldades institucionais e financeiras e desemboca na incompreensão. A qual é potenciada pelas expectativa (falsa) da comunhão a priori, do (re)conhecimento imediato. E multiplicada pelo mito da língua comum como "vantagem comparativa" [sobre isso hei-de escrever].
Finalmente, o poder não é sagrado. Quando leio Seria ofensivo imaginar que quem redigiu estes estatutos ignorava o mundo em que vivemos e não sabia com o que contava relembro duas coisas: que, e repito, criticar o conceito "lusofonia" não é criticar os estatutos da CPLP; e lembro o texto que abaixo referi, onde Michel Cahen regista a espantosa retórica que acompanhou o surgimento da CPLP (mais gongórica a brasileira, reconheça-se), a qual poderá levantar dúvidas sobre o discernimento à altura. E não acho que seja ofensivo questionar a cosmologia de quem exerce o poder. Acho, aliás, dever. E, com toda a franqueza, prazer.
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3 Comments:
jamiroo said...
Jpt, mil desculpas por o comentário não ter nada a ver com o post, mas o meu mail não está a funcionar.
Só dar as boas vindas ao teu regresso, e, apesar de eu andar meio desligado dos blogs, deixar o meu grande apreço pois custou muito abrir um ma-schamba vazio.
Um abraço bem forte, e um copo bem servido.
À tua!
12:04 AM
Pitucha said...
Acho este debate sobre a lusofonia muito interessante e estou de acordo consigo em muita coisa, menos numa: a redução da lusofonia à língua portuguesa. Trabalho em ambiente multinational onde se misturam 25 nacionalidades com 21 línguas de trabalho. Surpreendentemente, há gente de todos os cantos a falar português. Mas nem assim a "ponte da lusofonia" existe entre nós. Falam português mas não conhecem Cesário Verde, não entendem a razão pela qual os portugueses se sentem mais próximos dos moçambicanos (para dar um exemplo) do que dos finlandeses (afinal, estão connosco na União Europeia dizem), nunca ouviram falar de Pepetela ou de Mia Couto, ignoram tudo da história e não compreendem porque não somos afinal uma província de Espanha. Mas falam português! E acham Lisboa o máximo, até porque agora está na moda ir lá passar fins de semana (talvez para quebrar o cinzento de Bruxelas).
Peço desculpa pelo tamanho do comentário ...
Um abraço
9:59 AM
jpt said...
Obrigado cara jamiroo. E bom blog. Cara Pitucha, se há coisa que eu não faço é reduzir a lusofonia à língua portuguesa - é exactamente a ideia contrária. Quanto ao espaço, disponha, esteja à vontade, a casa é sua
1:17 AM
LATINIDADE
[colocado a 22.3]
1. Da Evolução (ou, línguas de civilização, línguas de cultura?):
"Da colonização nasceram, assim, povos latinos de todas as cores, grandes e pequenos, repartidos pelos quatro continentes. Alguns atingiram a maturidade, efectuaram uma síntese duradoura dos contributos europeus e indígenas; outros, sobretudo em África e no Pacífico, continuam no estado de precipitação instável". (197)
"O peso de uma língua depende de um certo número de condições todas elas necessárias, não sendo nenhuma suficiente. Quer se trate do pleno emprego da língua nacional, ou da capacidade de uma língua se impor nas escolas estrangeiras, como segunda língua, as principais condições requeridas, indissociáveis, são o número e o trabalho dos homens, este último criador de dinheiro. Esta condição dual pode exprimir-se em termos de contabilidade nacional: um grupo linguístico que não fabrique um PNB de pelo menos 1000 biliões de dólares (assegurando um PNB per capita de pelo menos 200 dolares) já não é, nos nossos dias, culturalmente protegido." (211-212)
2. Do Francês
"Quanto ao Quebeque, emblema da América francófona, e porque não da América Latina do Norte, como se encontrará dentro de vinte ou trinta anos? O Quebeque devia tornar-se independente ou ter mais filhos, e mesmo, se possível as duas coisas". (199)
3. Do Francês e da Contiguidade Territorial
"Podemos mesmo sonhar com um conjunto económico equatorial de quatro milhões de quilómetros quadrados, de Douala a Lubumbashi, cerca de 130 milhões de habitantes em 2020." (199)
4. Do Português
"Em 2020, segundo o Population Reference Bureau de Washington, a África Portuguesa [meu sublinhado, JPT] terá quase 60 milhões de habitantes, distribuídos por mais de 2 milhões de kilómetros quadrados. [...] A guerra civil na África Portuguesa [meu sublinhado, JPT], o mau governo e a má administração em certas regiões do Brasil, o capitalismo selvagem em outras regiões, ainda entravam o desenvolvimento agrícola dos grandes países lusófonos (...). (209)
5. Da inexistência das outras línguas, da a-conceptualização do outro (do agente glotocida?).
"Contudo, o preço a pagar para conservar a sua língua, um mínimo de originalidade cultural e, portanto, a sua alma e a sua razão de ser num mundo ameaçado de nivelamento pela base, parece irrisório..." (...) "Preservar a língua e a cultura por meio de uma política coerente, esperando por melhores dias em que a industrialização permitirá tirar partido do peso demográfico, é, portanto, o imperativo do mundo românico."(214)
[Philippe Rossillon, "O Futuro da Latinidade", in Georges Duby, (org.) A Civilização Latina. Dos Tempos Antigos ao Mundo Moderno, Lisboa, D. Quixote, 1989]
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Poder-se-á sorrir, desvalorizando estas veras pérolas. Mas o autor era, à altura, Secretário-Geral da União Latina - não se lhe pode negar a legitimidade do pensamento, como representante do mainstream.
Entretanto o livro em questão é um verdadeiro tratado sacralizador da ideia de "latinidade" do Século XXI: organizado pelo monstro Duby, isso possibilita apelar ao passado como caução (quem contesta Duby?), integra entre outros, o sábio-mor Eco, o sábio do quasi-hoje Mauro, o linguista Houaiss (que, justiça seja feita, não refere a África Portuguesa). E, sacralização máxima, até Homero, perdão Borges. E assim se afirma o óbvio.
ARQUIVO
[colocado a 21.3]
No longínquo Maio passado (uma blogoeternidade) troquei textos com o Luís Carmelo sobre a Lusofonia.
Ele deixou vários, que me lembre este, este, este, este, e este.
Eu deixei algumas referências bibliográficas (em parte agora retomadas), transcrevi um felino artigo de Tomás Vieira Mário, referindo ainda (de passagem) o caso de Macau, por via do Ad Tempus.
Aqui ficam, para hipotéticos interessados.
[colocado a 20.3]
Ligação (não gratuita) a um velho texto de Antonio Tabucchi [em francês].
O VÉU DA LÍNGUA. E O VENENO DA MAMBA
[colocado a 19.3]
Não quero eternizar aqui a argumentação sobre a falácia "lusófona". Mas uma nota mais, com alguns pontos, e com um profundo desagrado.
O véu da língua.
No blog Blue Everest, que também a abordou, apresenta-se um belo texto que me permito re-citar, porque sintetiza parte do que quis afirmar.
"Il y a quelque chose de drôle, à vrai dire, dans le fait de parler et d'écrire ; une juste conversation est un pur jeu de mots. L'erreur risible et toujours étonnante, c'est que les gens s'imaginent et croient parler en fonction des choses. Mais le propre du langage, à savoir qu'il est tout uniment occupé que de soi-même, tous l'ignorent. C'est pourquoi le langage est un si merveilleux et fécond mystère : que quelqu'un parle tout simplement pour parler, c'est justement alors qu'il exprime les plus originales et les plus magnifiques vérités. Mais qu'il veuille parler de quelque chose de précis, voilà alors le langage et son jeu qui lui font dire les pires absurdités, et les plus ridicules. C'est bien aussi ce qui nourrit la haine que tant de gens sérieux ont du langage. Ils remarquent sa pétulante espièglerie ; mais ce qu'ils ne remarquent pas, c'est que le bavardage négligé est justement le côté infiniment sérieux de la langue. Si seulement on pouvait faire comprendre aux gens qu'il en va, du langage, comme des formules mathématiques : elles constituent un monde en soi, pour elles seules ; elles jouent entre elles exclusivement, n'expriment rien si ce n'est leur propre nature merveilleuse, ce qui justement fait qu'elles sont si expressives, que justement en elles se reflète le jeu étrange des rapports entre les choses. Membres de la nature, c'est par leur liberté qu'elles sont, et c'est seulement par leurs libres mouvements que s'exprime l'âme du monde, en en faisant tout ensemble une mesure délicate et le plan architecturale des choses. De même en va-t-il également du langage : seul celui qui a le sentiment profond de la langue, qui la sent dans son application, son délié, son rythme, son esprit musical; - seul celui qui l'entend dans sa nature intérieure et saisit en soi son mouvement intime et subtil pour, d'après lui, commander à sa plume ou à sa langue et les laisser aller : oui, celui-là seul est prophète. Tandis que celui qui en possède bien la science savante, mais manque par contre et de l'oreille et du sentiment requis pour écrire des vérités comme celles-ci, la langue se moquera de lui et il sera la risée des hommes tout comme Cassandre pour les Troyens." (Novalis)
Para uma argumentação neste sentido poder-se-ia também apelar a linguistas ou a antropólogos p.ex. Mas está assim muito bem. Aqui se expressa a dimensão agregadora, identificadora, da língua conceptualizadora/formadora. E daqui também retiro, a um nível, a necessidade de não postular "lusofonias" em universos que não o são.
Lendo este texto, aceitando-o, e utilizando-o, poder-se-á dele retirar, implicitamente, a histórica incapacidade da modernidade portuguesa em estudar e apreender o outro, de o compreender como sujeito e não mero objecto. Incapacidade constantemente reafirmada no discurso actual, sintetizada e cristalizada na pacífica lusofonização de pendor cultural(ista) e político que aquele ecoa.
Note-se, quatro séculos de Macau não criaram uma sinologia proporcional, a proximidade magrebina não originou uma abordagem à língua e cultura árabe, quatro séculos de possessões indianas idem. E um século de colonialismo em África deixou um escasso trabalho da bantologia linguística, moribundo se não mesmo falecido na actualidade. Porque há um traço recorrente, o vazio alhures. Persistente.
É esse vazio alhures que se impõe no caso da moderna "lusofonia", com mais ou menos recurso a uma fundamentação poético-épica. Possibilitada e produzida pela tábua rasa que se faz do diferente outro - se este fala português tem uma identidade (cultural, e daí política) comum. Esquecendo ser a minoria que fala português, esquecendo ser a máxima minoria que fala português como língua primeira. Esquecendo que mesmo nestes casos o substrato cultural não se cria apenas numa geração de língua como estruturadora da classificação e mentalidade. Tanto esquecimento, ou seja, o outro só existe no que é (quase) como nós.
E logo permitindo o salto da língua (pouco) comum à identidade cultural. E desta à comunhão, um outro pequeno passo. Comunhão de afectos e de interesses, cujos ecos encontramos amíude em literatura oficial, oficiosa e outra. E na oralidade anónima, quase sempre paternalista.
E é esse o fundo ideológico que afirma a comunidade de países e de populações. A comunidade de interesses. Como se fosse essa uma necessidade histórica. Tudo rápido, tudo impensado. Porque tudo assente nesse (desejado) desconhecimento, a tal simplificação, a tal linearidade. Sob o véu da língua.
Depois há ainda a história, a mais longínqua e a mais recente, como húmus da tal "comunhão" afirmada (e desejada). História que assim tem que surgir asséptica, esvaziada do que não produza tal objectivo. Teleológica. Mais uma vez, simplificação, apagamento. De novo o véu da língua, nada mais.
[permito-me a auto-referência. Para quem se interesse e tenha paciência repito uma velha referência que fiz a um texto não bloguístico, longo e porventura maçudo, onde procuro abordar a ideia "lusófona" em termos da conjunturalidade, temporal, geográfica, sociológica, do relacionamento entre populações. Onde não afirmo antinomia ou comunhão apriorística. Modesta tentativa para fugir ao tal véu da língua. E a qualquer estigmatização. E para que não se diga que sou inimigo de relacionamento]
2. Do veneno da mamba.
Entretanto, ao longo do bloguismo tenho tido muitas discussões com o Tugir, um blog assumida e activament