fevereiro 10, 2005

O Ma-Schamba acaba aqui.

Publicado por JPT em 05:18 PM | Comentários (66)

Última Safra 24: do futuro

Num Portugal que se expandiu e bastante guerreou ao longo da sua história há um pensar sobre os que morreram nessas guerras longínquas que, assim grosso modo, oscila entre dois polos.

Um deles, dito mais conservador, valoriza a identidade comum, indiferencia um interno, baliza um projecto nacional unânime (por vezes chamado patriótico), e saúda objectivos e realizações desse passado. A este às vezes chamou-lhe gesta ou epopeia, e nisso costuma aplicar-lhe várias maísculas, estas como se fortalezas de sentimentos. Exalta, claro, os caídos nesses passos, consagrando heroísmos, os célebres e os anónimos, vistos como agentes de um desígnio. Nisso se respeitam e se recordam os nossos mortos. Símbolos do que somos, heranças para os que se seguem nesta História que se quer perene pois orgulhosa.

Um outro, dito mais progressista, lembra uma identidade comum sobre um diferenciado interno, de poderes e de classes feito, baliza os projectos nacionais (quase nunca chamados patrióticos) como se plurais frutos dos conflitos entre diferentes grupos, e assim contextualizados critica objectivos e realizações desse passado. A este às vezes chama-lhe expansão ou descobertas, e nisso costuma aplicar-lhe várias aspas, estas como se vassouras de sentimentos. Exalta, claro, os caídos nesses passos, consagrando heroísmos, mas mais atento aos anónimos, até vistos como vítimas de poderes mobilizadores. Nisso se respeitam e recordam os nossos mortos. Símbolos do que fomos, heranças para os que se seguem na História que se quer perene pois reflexiva.

Será demasiado simples chamar a isto a persistência das religiões dos ancestrais. É mais, qualquer que seja o poiso de onde se fala, olhar e usar o(s) (ante)passado(s) para imaginar o presente e construir o futuro. Mais ou menos criativamente, consoante o paladar.

Pemba, Cemitério Militar da Commonwealth, I Guerra Mundial

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Pemba, Talhão Militar Português

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Um país* que não cuida dos seus mortos desistiu de o ser.


*ver comentários.


Publicado por JPT em 05:00 PM | Comentários (14)

O jornal Público pasquinou

Ao inventar o apoio de Cavaco Silva ao Partido Socialista o jornal "Público" não errou. O jornal "Público" pasquinou.

Pessoas honradas não escrevem num pasquim. Sobre nenhum assunto.

Será interessante ver quantos colaboradores ou jornalistas se retirarão do pasquim. Até então não têm credibilidade na indignação. Porque colaboracionistas.

Publicado por JPT em 04:41 PM | Comentários (9)

Última Safra 23: kináni

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Cardoso Mirão, Kináni? Crónica de Guerra no Norte de Moçambique, 1917-1918, Lisboa, Livros Horizonte, 2001

Esta é a narrativa da campanha da I Guerra Mundial em Moçambique, pela voz de Cardoso Mirão, aí 2º sargento das forças portuguesas. Esta é uma parte da história muito pouco conhecida, tanto no diz respeito à participação portuguesa na I Guerra, muito centrada no palco europeu, como na formulação da ocupação colonial, então ainda muito incipiente em vastas zonas de Moçambique e inexistente noutras.

O livro é apaixonante, a descrição de uma campanha desorientada, que em pouco mais se traduziu do que numa longa e terrível caminhada pelo norte do país, e neste caso com quase inexistência de combates.

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Trata-se de uma caminhada louca, ecoa-se o sofrimento inadjectivável de uma tropa errante, descomandada, desinformada, gradualmente desnorteada e logo desmoralizada. Sofrendo a inexistência de logística e a inadequação dos equipamentos (algo que este auto-retrato explicita). E tudo isto potenciado pela constante agressão da Natureza, os predadores, uma terrível fome, uma permanente sede e, acima de tudo, as doenças.

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É comovente, ainda hoje, ler os lamentos do sargento sobre a situação das suas botas, faltando-lhe ainda meses de infindáveis caminhadas.

Como pano de fundo de toda essa situação, mas realmente apenas como pano de fundo, o opressivo temor do confronto com o corpo expedicionário alemão, uma pequena força de grande gabarito, comandada por um oficial verdadeiramente lendário, o o general Lettow-Vorbeck, a cuja se encontrava em constante movimento via Tanganyka, e que nunca veio a ser vencida.

Para quem conhece a zona (e eu tive o acaso nada fortuito de ler o livro durante uma estadia no Niassa, amplamente referenciado) pode tentar imaginar a dureza desta campanha.

É um grande livro sobre guerra, praticamente sem combates. Nele respira um antigo exército, de uma crueldade hierárquica extrema, que se julgaria apenas de Antigo Regime, no qual oficiais e soldados eram ainda de dois mundos, de duas ordens. E ainda os africanos, arregimentados como carregadores, escondidos num terceiro mundo.

Será interessante notar que tanto em Cabo Delgado como no Niassa há ainda a memória camponesa desta guerra dos "ma-germanes", difusamente datada numa época correspondente à real II Guerra Mundial. Efeitos da história local sobre a devastação provocada pela mobilização de milhares de carregadores, e sua extrema mortalidade, pelas forças em presença, alemãs, inglesas e portuguesas.

É pois um retrato espantoso. Da guerra e da sociedade que nela participava. Mas também uma visão especial de África. Não esta como a Ameaça, o Horror ( a la Conrad). Mas mais como o palco desse Horror, um horror interno.

Um livro único no memorialismo português. E, mais uma vez, uma pergunta, como não filmar uma história destas?


Publicado por JPT em 12:15 AM | Comentários (5)

fevereiro 09, 2005

Ainda hoje elogiei este blog, e logo sai uma fantástica confirmação.

Publicado por JPT em 08:27 PM | Comentários (0)

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Este "The Mystic Masseur", de V.S. Naipaul (1957) é absolutamente imperdível. Corrosivo até mais não sobre Trinidad. Mas esta narrativa do percurso de Ganesh Ramsumair até G. Ramsay Muir, percurso todo ele constituído da total e angustiada cobiça (e nesta angústia reside muita da grandeza do livro). E é por esta cobiça angustiada que brotam a manipulação (até pueril) do teológico-espiritual, a comercialização do político, e toda a mescla conjuntural desses ingredientes, tudo sobre um vazio para além da mera estrategização, tão mera que nem é como tal sentida. E assim sendo, retirando o livro daquela Trinidad, tornando-o universal. E sem tons de denúncia. Apenas, um enorme apenas claro, uma ironia devastadora. Devastando, claro, o papel do intelectual. Desse que se reclama sábio.

Não é aqui que se justifica um verdadeiro Nobel, mas também é a sua primeira obra. E, se necessária, essa justificação está no "A Bend in the River". Mas este livro é uma verdadeira delícia. Perdoai-me pois a arrogância do conselho.

Publicado por JPT em 08:14 PM | Comentários (0)

Ainda a questão do "obscurantismo"

Miguel, desculpar-me-ás não te ter respondido à tua contradição ao meu Sobre o Obscurantismo. Só agora o faço, e muito a correr, mas não quero fechar a loja com a conversa abandonada (ficará a meio, mas temos o email, e também a conversa quando voltares a Maputo). Então aqui sai, telegraficamente, e sem cuidados formais.

Apenas referi que a afirmação de João Craveirinha me desnudava uma realidade, que me é invisível no quotidiano, a inexistência em Portugal de figuras públicas afro-portuguesas nas áreas do poder (político, económico, intelectual, mediático) - e aqui fujo ao sofisma dos "portugueses originários de África" para que possamos escrever mais rapidamente. Tu, e outro comentador, referiram-se até desagradados ao colunista em questão. Mas eu no meu primeiro texto sobre o assunto disse, sem grande explicitação, que este articulista é sui generis. Entenda-se, não é veículo de posições padrão. Goste-se ou não, é uma voz algo marginal, e até algo individual. Não estou a elogiar, não estou a criticar.

Foste tu que avançaste para a crítica das quotas, ou do black empowerment. Ora nem falei nem pensei nisso, acho que exprimiste uma opinião tua, tudo bem, mas marginal às minhas "preocupações" (lembras-te da expressão?). Tu partes da sociedade portuguesa igualitária, eu acho que ele é tendencialmente igualitária (não há barreiras formais, jurídicas), mas que há zonas de exclusão e de inferiorização. E que esta ausência afro-portuguesa pode significar essa inferiorização (eu meu entender será claro). E que portanto será de incrementar mecanismos de integração, e de representação. Daí a dizer "quotas" vai um abismo gigantesco. E não me vou por aqui a falar sobre políticas de integração e de valorização, passo - aliás, passo por completo em relação a qualquer política desejável lá no rincão, aquilo obviamente prescreveu.

Quanto ao resto que referes, o black empowerment no Moçambique pós-Samora. Também não me parece. Um, a independência é a tomada de poder pelos moçambicanos, negros na sua esmagadora maioria. Não é um empowerment (atribuição de poder), é uma conquista de poder. E nesta separação de termos há outro abismo. É normal que ao longo do tempo o exercício do poder de cargos e postos seja executado por afro-moçambicanos (ok, o termo para facilitar). Como é normal que, em completo deficit de quadros pós-independência, os poucos euro-moçambicanos (e também alguns asio-moçambicanos [estás a gostar da terminologia?]) tenham surgido no poder, dada a posse de "capital cultural/educacional", de formação no ensino formal. Com o tempo, e isto para além de flutuações políticas, de estratégias de grupos internos, de solidariedades múltiplas, mas com o tempo é também normal que a formação alargada no seio dos afro-moçambicanos (negros, neste sentido) faça reduzir peso social e visibilidade desse grupo identitário euro-moçambicano. Sei que esta explicação é muito fácil, e que até estou a reduzir questões fundamentais aqui discutidas sobre a "moçambicanidade". Mas, honestamente, acho que a questão não é assim tão maquiavélica, é mais sociológica. E do tempo que passa.

Finalmente, a crítica à política de quotas e de "africanização" da África do Sul. Ok, já disse que não sou adepto de quotas. E também sei que a africanização, o black empowerment cria distorções, cria postos de chefia fictícios, cria empregos para Estado ver, cria empresas "afro-africanas" que são meros intermediários. Tudo bem, tudo dito e redito.

Mas conviria complexificar o nosso desconforto com estas políticas. Por um lado lembrar que a África do Sul, com todos os seus defeitos políticos e económicos, se afirmou na segunda metade de XX como potência económica (e militar). Ora esse período foi precedido, e contemporâneo, de políticas sociais e estatais de "boer empowerment", de molde a reduzir as diferenças socioeconómicas entre brancos [euro-sulafricanos] de língua natal afrikaans e os de extracção britânica. E isso não é referido pelos críticos deste "black empowerment", e seria fundamental.

Mais, é fundamental também precisar que todo o regime colonial, e o de apartheid é prova provada disso, se trata de um regime de "white empowerment". E que isso se traduz na constituição de sociedades radicalmente desiguais. Em alguns casos coloniais bipolarizadas [e acho que Moçambique será um caso], noutros como na África do Sul muito mais estratificadas, dada a complexidade social, e também a demografia, onde a comunidade euro-sulafricana tem uma dimensão enorme, muito diferente das outras sociedades pós-coloniais.

Nesse caso que fazer, herdando um país que teve um desenvolvimento fortissimo assente num "white empowerment", até jurídica e administrativamente fixado? Esperar uma lenta transformação, à Lampedusa ("mudar algo para que tudo fique igual")? Ou fazer suceder ao white empowerment um black empowerment, para tentar reduzir a reprodução (atenção, a reprodução) das diferenças socioeconómicas devidas à história e à origem?

Enfim, estou a perguntar(-me). Acima de tudo acho que nós, euro-europeus, temos que perguntar. Porque temos a mania de botar faladura. Nós, não te estou a mandar bocas.

Abraço. Ah, sigo a Nampula. Duvido muito que não fuja até aquela nossa cidade. Algum abraço em especial?

PS - e quem leia isto não me fale do Zimbabwe. Não tem nada a ver com isto. Mas pode falar da Namíbia, um processo pacífico e estatalmente conduzido de aquisição e redistribuição da terra dos euro-namibianos. E dos seus resultados. Porque o Zimbabwe, esse é o fim de um regime, outra grelha de análise. E muito lamentável - já agora, seguir a problemática da central sindical sul-africana COSATU (ANC) e da luta anti-Mugabe que têm seguido.

Where is Wally?

Publicado por JPT em 07:48 PM | Comentários (4)

Última Safra 22: bacalhau (coisas de emigrante)

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(João Brito Subtil, Bacalhau, Receitas e Memórias, Ponta Delgada, edição do autor, 2002)

Um pequeno livro quase de culinária, mas a trazer a comida para transportar as memórias. Um oficial de marinha a apresentar-se "não sei cozinhar mas sei comer e gosto de o fazer", e que mais é necessário para falar com propósito dos comeres e de quem nos lembram?

Coisas do comer colectivo, sempre esquecidas pelos encartados das "artes gastronómicas", tão alheios ao jeito de quem recebe. Mas não aqui:

"Os ânimos exaltam-se e a revolta pode estalar. É o levantamento de rancho, ou, no mínimo a boiada, em que ninguém fala e o silêncio, cortado apenas pelos talheres, se torna avassalador. E se o praça discute o guisado, o sargento discute a jardineira e o oficial protesta o ragout.

E depois, se o pessoal está bem disposto, até aparece o rancho da porca, feito com sobras roubadas ao despenseiro na cozinha já fechada e cozinhado por este ou aquele mais experimentado. Geralmente são as praças antigas e alguns sargentos que detêm esta sabedoria colhida nas longas horas de navegação ou durante a dura espera dos postos de combate" (6)

E outras coisas, essas do comer em família, verdadeira etnografia, a dos afectos. Onde o comer não é apenas aquele direito, é também o amor. E onde se aprendem coisas dos avós, talvez essas parecendo do antes, mas ainda assim dos avós: "Nunca cozinhes sem prazer nem sem amigos, costumava ele dizer [o Avô do autor], e principalmente não cozinhes para mulheres, nunca!"

E por falar em amor(es), a importância da veracidade. O autor, feito jovem cadete deslocado no Brasil de 1969, em plena paixão pela Marinette, brasileira neta de portugueses do Norte. A levarem o homem, fardado claro que na Briosa é lendária a cagança, a almoçar lá a casa, que genro oficial já foi objectivo que se prezasse, interpreto eu: "Bacalhau cozido com todos. Couve portuguesa, batatas, grão, ovos cozidos, tudo regado com bom azeite e coberto com salsa picada, cebola picada e alho picado, muito. As postas de bacalhau eram grandes, estavam bem demolhadas e saborosas, eram de um fardo que lhes tinham mandado de Esposende. Comemos bem, muito bem! Durante a tarde toda, apesar do calor, aquele bacalhau com todos, bem regado com vinho tinto...Fui tratado como um príncipe, alvo das atenções de todos e por todos acarinhado. [claro, a farda branca, digo eu] Quase que saí dali casado. Quase que não voltava para bordo e para o meu destino. [E a Marinette] agarrada ao meu pescoço "Fica comigo, João. Não vás para a guerra, João".

Só que o bacalhau não era bacalhau, era escamudo. O almoço fora um óptimo afim com todos." (34)

Ó homem, se um dia passar por Maputo, diga qualquer coisa, nem que eu vá a Malalane hei-de encontrar umas postas de verdadeiro bacalhau. E você retribui com uma açorda à moda da sua família.

(haverá algum leitor do Ma-Schamba em Ponta Delgada, que possa transmitir a mensagem?)

Publicado por JPT em 06:23 PM | Comentários (0)

Última Safra 21: Antepassados

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Frederico Cesar Trigo Teixeira, A Ocupação do Moxico, Lisboa, Editorial Cosmos, col. Cadernos Coloniais, 1936 (?)

Um pequeno livro relatando a ocupação da zona do Moxico, uma expedição (de cujo Diário este livro é extraído) realizada em 1894-6. Começa este meu avoengo (o livro é tratado como se jóia de família) "Embora o cargo que desempenhavamos [chefe do concelho do Ambriz] fôsse dos mais invejados, por representar uma autêntica sinecura, visto que no porto de Ambriz tocavam obrigatoriamente todos os navios que da Europa vinham ou para lá se dirigiam, e que na vila, então a terceira da colónia em população europeia e movimento comercial se levava vida despreocupada e agradável, não hesitámos em trocá-la [pelo posto] que nos era oferecido"... [a cumprir o destino traçado por quem lhe atribuíra nome, sorrio eu diante do tonitruante "Frederico Cesar"] "comandante da Colónia Penal Militar" com instruções de que "além da instalação no Pêo da Colónia Penal Militar Agrícola, deveríamos fazer a ocupação dos vastos territórios do Moxico, do Algo Quanza à nascente do rio Zambeze, daí à nascente do rio Cabompo, seguindo a margem dêste rio até à sua confluência no Zambeze e, dali, até aos rápidos de Catima".

Para isso tudo "Fizemos...uma requisição de 250 soldados", mas como "não os havia" lá partiram "Tendo ministrado instrução militar aos 72 condenados que levavamos". [5-6]

Depois é a descrição, factual, dos eventos da expedição e, para mim muito de interesse, do imbricar de relações com os chefes locais (sobas), até ao seu retirar por motivos de saúde: "Deixámos construída a fortaleza com a área de 9135 metros quadrados, 7 e meio hectares de terreno cultivado, treze casas construidas e estabelecidos os postos de Chindumba, Nana-Candungo e Caquengue, no Zambeze - postos estes que no litígio com a Inglaterra foram motivo para que nos fosse reconhecido o direito de posse dos territórios em volta, numa extensão aproximada a trinta [é uma gralha, são trezentos] mil quilometros quadrados."

A evocar um antepassado. Mas também a recuperar um bocado da história. Olhando, sempre com espanto, para as forças então em presença. Uma dimensão que hoje sempre parece irrisória.

Ah, e o cinema português? Não o épico, mitificador. Mas um a olhar para este manancial de pequenas histórias dos homens. Só essas grandes.

Publicado por JPT em 05:02 PM | Comentários (0)

Bolinhos da Ano Novo (chinês)

No Digitalis exerceu-se a simpatia por via da atribuição de bolinhos de ano novo (chinês, é óbvio).

Daqui se agradece a lembrança e o epíteto "horta mui viçosa". E, claro, a imagem:

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Publicado por JPT em 03:45 PM | Comentários (0)

Última Safra 20: Banda Desenhada

Nota para recordar antiguidades da banda desenhada moçambicana, e para reconhecidamente agradecer ao Machado da Graça a oferta de um rarissimo exemplar de uma das obras, bem como da fotocópia de uma outra.

Esgotadissimos estão ambos os livros, da autoria de João Paulo Borges Coelho, esse historiador que aqui tenho referido várias vezes a propósito da sua recomendável recente faceta literária.

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Akapwitchi Akaporo. Armas e Escravos, Maputo, Instituto Nacional do Livro e do Disco, 1981.

Um livro sobre as guerras do Marave, recuperando a resistência no norte de Moçambique à ocupação portuguesa no final de XIX. Lendo-se hoje tem também a (normal) impressão digital do seu tempo, a da construção de uma memória histórica que se queria nacional, por via da resistência anti-colonial. Mas tem também uma poesia, algo de melancolia nostálgica, dir-se-ia prattiana, a emoldurar o olhar do tempo. E assim a fazer-nos aderir à obra, ainda para mais sabendo-a assumidamente amadora.

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Esta foi a primeira publicação na colecção "Banda Desenhada" editada pelo INLD. É interessante recuperar o texto introdutório, apresentação da colecção, então ainda sentindo necessidade de valorizar a Banda Desenhada face às ideias desvalorizadoras da arte que se fariam sentir. E de notar também a dimensão da edição, 20 000 exemplares. Outros tempos! Quem publicará tamanha edição de banda desenhada no hoje em dia.

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No Tempo do Farelahi, Maputo, Instituto Nacional do Livro e do Disco, 1984 [o autor assina apenas João Paulo]

Recuperando a expedição de Mouzinho de Albuquerque à então província de Moçambique, baseado na Ilha, e a resistência que lhe foi oposta. Uma temática semelhante à anterior, uma narrativa ainda mais aventurosa.

Do mesmo autor há ainda um 3º livro, "Namacurra", recuperando a extraordinária epopeia da I Guerra Mundial em Moçambique, cruzada com o mundo dos Prazos zambezianos, centrada nessas espantosas personagens que ali foram aparentemente dominantes, as "Donas". Deste trio é o meu preferido. Tive (ou será que ainda tenho?) fotocópia de original, ofertada pelo autor, também ele desprovido de exemplares de reserva.

Mas algum amigo levou-o de empréstimo, e recentemente, para o (re)fotocopiar e ter-se-á esquecido de o devolver. Esqueceu-se ele de mo entregar, esqueci-me eu a quem o emprestei. (Já sabes, se leres o Ma-Schamba traz lá a modesta cópia do livro, que me faz muita falta ao prazer). Portanto, se algum vizinho visitante tiver exemplar desse "Namacurra" faça o favor de mo emprestar, sob palavra de honra que o devolvo depois de cuidadosamente fotocopiado. E se tiver algum excedentário para oferta a um gostador, saiba da minha predisposição (gulosa) para ser ofertado.

Adenda post-blog: abro o email e tenho notícias do Machado da Graça relativa a este texto. Aqui o cito,

A tua referencia ao Pratt, a propósito do João Paulo, lembra-me uma história:

Seria 1980 ou 1981 e o Instituto Nacional do Livro e do Disco, de que eu era director adjunto, foi convidado a estar presente na Feira do Livro Infantil de Bolonha, Itália. Fui lá, com um colega da área comercial, e montamos o estaminé. O ponto forte da decoração eram as páginas, em formato grande, do Armas e Escravos do João Paulo. À falta de muita coisa para expor as páginas forravam as paredes do nosso local.

Num dos dias da feira vejo aproximar-se um fulano baixo, gordito, que pára e fica a ver as páginas. Era o próprio Hugo Pratt. Viu-as, demoradamente, e comentou qualquer coisa como: "bastante bom. Este tipo tem futuro". Após o que seguiu o seu caminho.

A respeito do Namacurra não houve livro nenhum. Saiu num dos números do jornal Kurika. Se te portares bem (me ensinares a por o contador de visitas no blog e aturares outras minhas ignorâncias...) dou-te uma fotocópia.

Publicado por JPT em 02:59 PM | Comentários (0)

Sporting

No Babugem, um blog que injustamente estou sempre a achar que cada vez está melhor, como se já não o estivesse antes, é ecoado o princípio da mudança no Sporting Club de Portugal.

De tão vistas situações como estas não enganam quanto ao seu desfecho. Quando surgem movimentações destas o poder muda, de mais modo mais rápido ou mais lento, mas é inevitável. A direcção do clube está gasta, e por mais respeitáveis e credores do nosso apreço que sejam os seus responsáveis, ilustres sportinguistas, será bom para o clube e para eles próprios que a transição seja o mais rápida (o que aqui também é sinónimo de pacífica e elevada) possível.

Viva o Sporting!

Publicado por JPT em 02:52 PM | Comentários (2)

Cinema Paraíso

É uma das actividades do café matinal no fim-de-semana, assim feito mais extenso pelo descuidado das horas. Seja no (já?) velho "Nautilus", ali ao Piri-Piri, seja no d'agora "Pérola de Maputo", esse na nova Baixa, as esplanadas são circundadas por amáveis vendedores, ao ombro carregando sacos de dezenas ou talvez centenas de dvds piratas, o novo artesanato, ali remexidos até nada distraidamente por clientes quase ensonados. Claro, quem resiste?, cinco filmes por suporte, e tudo a módicas quantias. Até agora só cedi nos disney e isso, que a Carolina já me faz ruir os princípios, uma ameaça para o futuro cada vez mais imediato.

Mas este fim-de-semana deixei-me seduzir, os últimos de hollywood, esses bem frescos, os dos cartazes alhures, mesmo nos corredores dos oscares. E até, imagine-se, o Scorsese do ano. Como resistir?

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Tive sorte, logo nesta minha primeira vez encontrei dessas cópias lendárias, de cujo registo se passa, até em surdina, o saber de boca em boca. São as das novidades, uma tal urgência no mercado que se filmam os filmes em plena sala de cinema, assim reproduzindo a imagem do ecrã alheio e o som envolvente. E deste modo nos trazem também o registo de outros amantes cinéfilos, como nós, recortados no ecrã, feitos sombras a entrarem na sala, a procurarem lugares, a mudarem até. Espectador-figurante, um apelo à semiologia, desafios à reflexão ensaística.

Mas não hesitei, do princípio ao fim sofri o novo "Alexandre", aquele magno. Som e cores atrofiados e tudo, claro! Mas sem dúvida, melhor a cópia empastelada do que o original pastel. Uma lendária pepineira, atroz - até o truque do geronte Laurence Olivier a narrar em flash-back, essa velha escapatória para dar sentido a uma história que não se consegue filmar (original novel by R. Chandler, como única excepção).

E uma questão, valerá a pena narrar Alexandre Magno sem lhe abordar o episódio realmente relevante da sua vida, a sua grande herança para a civilização: o desatar do nó górdio?

PS de outra coisa: quem tiver o azar de ver o filme repare como todos os actores principais falam um inglês com o sotaque padrão lá da terra deles. Com excepção das duas mulheres, a pérfida e misteriosa mãe (uma rapariga interessante, diga-se) e a pérfida e misteriosa mulher (uma rapariga talentosa, diga-se). Nestas o sotaque, o inglês estranho e agreste, denota as tais perfídias e mistérios.

Não há dúvida, este cinema é uma arte infantil. Para crianças retardadas, claro.

Publicado por JPT em 09:47 AM | Comentários (5)

fevereiro 08, 2005

Última Safra 19: Roteiro Africano

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(Fernando Laidley, Roteiro Africano. Primeira Volta a África em Automóvel, Edições Tapete Mágico, 1958)

Um velho livro, então sucesso editorial (tenho aqui a 3ª edição, 20º milhar) decerto a despertar anseios e imaginações nesse mundo então tão mais pequeno. Coisa do seu tempo, elogiado por Salazar em badana, elucidativa epígrafe de Monsenhor Moreira das Neves "Vêde em cada caminho um caminho que dê a Portugal, sem esquecer os de regresso, que são os mais floridos e suaves. Regressar é reencontrar-se".

Mas olhando-o sem anacronismos é divertido e invejável. A narrativa de uma volta a África em 1955,

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realizada por dois homens, José Guerra e Fernando Laidley, num afinal nada mero "Wolkswagen". E que fosse só por isso seria delicioso, no imaginar as dificuldades sentidas no caminho, e este ir lendo-as.

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Ainda que eu seja adepto destas máquinas, sabendo-as rijas pois anterior possuidor. Mas mesmo assim é (foi) espantosa esta travessia em solitário.

Para além disso este é um documento. Laidley seria um jornalista, presumo. Escrevia crónicas sobre a viagem para o "Diário Popular" ("na sua edição ultramarina") e para o "Província de Angola", as cujas terá compilado (e algo refeito) neste livro, depreende-se pelo estilo. E é esse cariz publicável dos textos que sublinha o especial, esse algo de que nos vamos apercebendo ao longo do livro. É certo que narra um raid, coisa do andar depressa e, acima de tudo, andar bem. Mas África, esse recorrente "feitiço de África" que logo na introdução é invocado, mal aparece. Um pouco da paisagem, muita estrada (claro) e os (ansiados) patrícios. Quanto à população quase inexiste, para lá das ajudas, das saudações, do paisagístico. Um "feitiço africano" que estava muito para além de quem lá vivia.

Não estou em crítica serôdia, já acima esconjurei anacronismos. É constatação, daí o "documento" que o tempo tornou este livro. Memória de um magnífico raid. E memória de um olhar. Ou melhor dizendo, memória de um desolhar.

Se encontrado em alfarrabista é de não hesitar, compre-se.

Adenda: Bin Tex do Imagens de Marrocos lembra a existência de outro livro com registo desta expedição, "África Desaparecida". Se alguém lhe conhecer mais referências elas serão aqui agradecidas.

Publicado por JPT em 09:57 PM | Comentários (12)

Última Safra 18: Foto-Jornalismo ou Foto-Confusionismo

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(Ricardo Rangel, Foto-Jornalismo ou Foto-Confusionismo, Maputo, Imprensa Universitária, 2002)

Não é um manual de Foto-Jornalismo. É um livro para aprender. Demonstrando caso a caso as idiotices na publicação jornalística das fotografias (foto-confusionismo, claro está), a ironia de Rangel - lendária e aqui quase infinita - quase resvala para o sarcasmo. Mas isso apenas porque os exemplos recolhidos são peças únicas, monumentos. Colectados em categorias elucidativas: "Foto-Aberrantismo", "Foto-Confusionismo", "Foto-Copulismo", "Foto-Ilusionismo", "Foto-Ilogismo", "Foto-Repetitismo", "Foto-Anti Jornalismo", "Foto-Jornalismo", "Foto-Esbanjismo".

Muito presente, norteando parte do trabalho, a tentativa de transmitir aos fotógrafos e editores o valor comunicacional da fotografia. Que se basta a si própria. E nisso a luta contra a redundância da palavra escrita, da legendagem. Acompanhada do apelo (maiêutico) à inteligência do escriba quando complementar.

Deixo exemplo paradigmático:

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[a legenda da foto no jornal diz: "Numa luta contra a imundície e falta de pudor, até a redundância serve neste aviso que a imagem ilustra: "É proibido mijar e fazer xixi".

Rangel, implacável face à meta-redundância comenta: "O autor da legenda também caiu em redundância mas ficou-se pelo meio. Faltou-lhe acrescentar que a multa é de 50 000 MT e que é proibido urinar nesse lugar..." [p. 55]

Atenção, a minha transcrição não se quer redundância (supra-meta), apenas se deve a que reprodução da página do livro não ficou muito explícita, daí que é mera ajuda para olhos mais cansados]

Uma lição socrática para o (foto)jornalismo moçambicano. Mas....a palavra dos velhos já não é tão escutada como o terá sido.

Publicado por JPT em 07:47 PM | Comentários (0)

Últimas Safra 17: Bazarketing

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[Bazarketing, de Thiago Fonseca, Maputo, Ndjira, 2004]

Bazarketing: "a palavra marketing vem de market que significa mercado. Mas, quando esse Mercado ainda não existe, e se comporta como um Bazar, que outro nome se poderia dar? Isso mesmo, Bazarketing!"

Um muito interessante livro de um dos mais bem sucedidos publicitários moçambicanos, o homem da "Golo", ao que consta de linhagem do ofício, o seu avô terá sido fundador da agenda - não estou certo desta informação, não conheço o autor, mas é sempre bela esta ideia do mester de família.

Um livro sobre publicidade e marketing em mercados emergentes, a colher a atenção dos profissionais. Mas também de quem quer olhar Moçambique, neste caso quais as imagens e produtos se querem transmitir e vender, no hoje e para o futuro. E de como se procura realizar tais tarefas, espelho de como se compreende o país. E nele se actua.

Entre outros quero realçar dois pontos, abordados no livro. A afirmação, fruto de uma reflexão prática, da necessidade de um olhar local, livre dos modelos conceptuais, estéticos e práticos importados, dos padrões julgados "elevados" "produtivos", que antes se diziam "civilizados": aqui se defende, sobre os louros de sucesso anterior, o "Bazarketing e o Pensamento Local", o "Pense localmente. Actue localmente.", um saber que afirma, eficiente e reflexivo, "Os enlatados versus o Bazarketing". Não resisto a citar:

"Enquanto o mundo pretende demonstrar que as pessoas estão cada vez mais iguais, a verdadeira oportunidade está em reconhecer que, na verdade, estão e são cada vez mais diferentes e únicas.

As estratégias de marketing que funcionam no 1º mundo não funcionam necessariamente num mercado emergente. É como um Rolls Royce ou um Ferrari. São óptimos. Mas não foram desenhados para as nossas estradas, cheias de buracos. Aqui funciona melhor um 4X4. Esta adequação é a diferença entre marketing e bazarketing." (37-38)

Parece óbvio? Assim escrito parecerá, mas o que realmente se passa no enorme resto é a constância do pensamento exportador, de modelos, práticas e valores. Pensamento preguiçoso, indigente. E falhando, falido. Mas que fica bem em casa, pois não ofende sensibilidades e sofás lá do "norte" (esse que se sabe não ser geográfico, claro está).

Não falo apenas em publicidade/marketing, dos quais pouco (ou nada) percebo. Estou mesmo a aproveitá-lo, extrapolação para referir as opiniões/actuações na política, na economia, na organização social, nas relações culturais (então sobre isto...).

E como é refrescante ler isto, preto no branco, proveniente de um discurso empresarial e pró-empresarial, esse que exige intelecto a actuar. E assim não o impedindo de pensar.

(E, já que isto é blog, há por esses caminhos bloguistas tanto excitadozinho vociferando contra um tal de "relativismo"-papão sobre o qual nada sabem que conviria ler umas páginas sobre publicidade moçambicana. Para se lhe poder dizer, em caso de paciência suficiente, que se o alter-ismo pode ser muito irritante o auto-ismo deles é nada)

Um segundo ponto, e este mais problemático. Estamos a ler sobre o moldar de um mercado, dos indivíduos. É explícito o desafio posto ao(s) publicitário(s). Em Moçambique os indivíduos ainda não são indivíduos-consumidores, estão virgens de "marcas", são quase uma tábua rasa quanto a afectos face aos signos estatutários, as "nike" e "gilletes" que os demarcam e denotam. Para o profissional acredito que seja apaixonante o desafio, o de criar vínculos deste tipo, reproduzíveis a longo prazo.

Para o leitor fica um documento sobre a produção não apenas desses vínculos entre produtos e consumidores, mas sim da produção de necessidades, valores, práticas (de consumo). Mediadas por nomes, o dos clientes - fornecedores. Na prática estamos a falar da produção de indivíduos. Assim. Consumidores induzidos e balizados.

Enfim, um caminho. Muito discutível, também.

Para memória aqui deixo imagens de duas campanhas institucionais, belissimamente desenhadas (se eficientes já não sei, não tenho dados): a mais violenta, violentissima mesmo, campanha dedicada à luta contra o Sida, e uma fantástica (e recente) sobre a prevenção da malária.

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À margem do livro, mas por ele lembrado, é sempre interessante recordar que quem menos interroga os efeitos profundos da publicidade é quem mais absolutiza o "indivíduo", o retira destes processos de formação e produção, quem o vê livre e igual no mercado. Leve ideologia. Mas poderosa. Talvez mesmo por ser tão leve, nada custa a carregar.

Publicado por JPT em 06:36 PM | Comentários (4)

O Duplo

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Chegar até aos quarenta sem ter lido a fragmentação de Iákov Petróvitch Goliádkin, conselheiro titular? Tivesse aqui chegado na idade própria, nova, e habitaria este o panteão, esse privado do cada um de nós. Mas cheguei, ainda bem. E ainda a tempo de nele me lembrar, nele reconhecer

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o camarada Korotkov.

Publicado por JPT em 02:54 PM | Comentários (2)

Paradoxo? Ou Tempos Modernos?

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[Fotografia Fernando Veloso, Maputo, Fevereiro de 2005]

Publicado por JPT em 01:05 AM | Comentários (5)

Última Safra 16: Major Araújo Blues

Quando me chegaram as provas do livro avisei:

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o "Pão Nosso de Cada Noite" do Ricardo Rangel está a chegar. Finalmente, décadas à espera. Saúde-se o Saúte, Nelson claro. Esse da Marimbique editora. Saúdo, invejoso, que este tão quis editar. Saúdo invejoso e grato.

São vinte anos da prostituição da Rua Araújo do porto laurentino, essa que lá continua agora Bagamoyo, capital Maputo. Sempre no Xilunguine.

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(Apetecido quintal de caniço [1961])

Já o disse, não é um documento, não é história nem etnografia. E muito menos é a denúncia. É a noite, aquela vida, a muita beleza das mulheres, a muita música. E Rangel a olhar, a viver. Olhar atento, lente aberta. Lente atenta e muito olhar aberto. Que se a película é preto e branco não o é a vida. Fica um mar de companheirismo, o saber do mundo.

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(As Três Marias [1970])

Rangel é desses tão raros homens do tamanho da vida. A entoar-nos este Major Araújo Blues.


[lançamento a 15 de Fevereiro, provavelmente na Mediateca do BCI, rua Joaquim Lapa, Prédio Casa Pfaff, por ocasião do 81º aniversário do autor]

Publicado por JPT em 12:38 AM | Comentários (5)

fevereiro 07, 2005

Para além de todas as safras

Ao fim de oito anos aqui as relações quotidianas com o meu Portugal ficaram-se três:

1. Os telefonemas (quase apenas) semanais aos pais Marília e António, à mana Teolinda e cunhado João - que ao cabo destes anos o resto da família e os amigos já desapareceram do dia-a-dia, e é normal que assim seja.

2. O blog Ma-Schamba, via diária para inúmeras leituras de gente portuguesa. E dado que é ele coisa lida, e muito mais do que maioritariamente, por visitantes portugueses. Que se ouvem no ecrã.

3. E o vil metal. Esse ordenado de cooperante da República. Quantias nada mais do que normais, nada disso do expatriado. Mas do qual não me queixo, até porque será uma benesse, pelo menos é isso que me fazem sentir desde o seu início. Talvez, e ainda tenho sorriso para a ironia, talvez me queixe dos 16 meses de ordenados em atraso. Sempre com uma desculpa pelo caso, sempre como se fosse o destino.

****

Esta semana saio de Maputo, para Norte. Só voltarei a casa lá para os fins do mês. Quando aqui regressar o meu país, lá longe, esse que a idade quarentã me faz gostar cada vez mais, será outra vez o que já foi. Isto

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***

Não tenho dúvidas, está na altura de dar novo rumo à vida. O que requer outras energias (não blogáveis). E isso é do meu país ficar-me apenas com os telefonemas. Para a minha gente. Gente gente, meu orgulho. Inveja alheia.

Fica um abraço aos machambeiros que aqui têm vindo, e que muito me acompanharam num muito mau ano out-blog. A colheita está feita e, ainda que fraca a terra e pouca a semente, foi-me boa, saio contente.

Acima colocarei dois ou três textos que ainda estão pendurados. Coisas sobre o aqui que gostaria de partilhar. Mas sobre o meu lá não partilharei mais.

Porque o nojo não se partilha. Diz-se luto e sofre-se.

Publicado por JPT em 11:41 PM | Comentários (11)

Palavras felizes

No A Revolta das Palavras José António Barreiros (José António in-blog?) com teclas extremamente felizes: Na Alfândega da Vida.

Belo.

Publicado por JPT em 10:32 PM | Comentários (1)

Última Safra 15: Pensar Portugal, hoje

Vozes lá de fora e também in-blog a anunciarem e a muito recomendarem o ensaio-olhar
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Mão amiga, essa que nunca é invisível (e eis como num mero trocadilho "voo de pássaro", ao correr da tecla, se desnuda uma ideia do social, muito para lá daquele conjunto de indivíduos tão iguais e livres, esse mercado aberto parece que tão na moda lá no rincão), trouxe o livro até deste lado.

Para uma leitura muito ambivalente, com trechos perturbantes, outros auto-confirmações, desses livros com quem vamos dialogando página a página - e que maior elogio?

Entre outros trechos, José Gil como se a escrever sobre bloguismo, até a referir o JPT (confesso que concordo e apreciei, ainda que entristecido): "...os cortes, as interferências abruptas que mudam num ápice a direcção da conversa são, por assim dizer, bem-vindos. Saltita-se de um assunto para outro, o que proporciona um pequeno prazer. Este tipo de trocas e baldrocas verbais tem efeitos no pensamento. A inatenção, a falta de concentração exercitam-se na contínua dispersão - vivíssima, porém - das palavras. E quando se busca um "fio condutor", uma visão de conjunto, não se recorre à análise, visa-se a síntese (tão ao gosto português de pensar) - melhor, visa-se um modo sincrético de pensamento. Por isso pensamos tão pouco, e de forma rotineira, geral e superficial." (56-7) - não será esta a causa do super-sucesso do bloguismo português?

Mas também um registo muito problemático de aceitar, um espanto entristecido com o corolário politiquês de um ensaio sobre "mentalidades" - afinal Santana Lopes não será um mero epifenómeno? para quê desembocar nele o garimpar sobre Portugal. Não o desvalorizará? E, sublinhando este epílogo, Durão Barroso apresentado como indigno lider de oposição - porquê? Ou porquê ele e não tantos outros? Um anti-climax, e isto não é por simpatias minhas, é mesmo uma sensação de desiquilíbrio entre o denso do miolo e o mero polemista final.

E o desconforto com quem escreve coisas destas: "Compõe-se assim a estranha imagem de um povo com um fundo de barbárie envolvido por inúmeras camadas de cultura (desde o paganismo grego e latino aos celtas e árabes) que não conseguem transformar completamente esse fundo em civilização" (107-8) - este registo ainda colhe admiração tão geral no meu país, no hoje em dia? E o generalizar constante, tipo "Os portugueses não sabem admirar, porque não sabem perder a cabeça de admiração" (99) - peço desculpa, mas que significa isto? Como serve de base para reflexão? E o texto está cheio deste tipo de afirmações.

Uma leitura ambivalente. Apreciando para logo me desiludir. Entusiasmando-me, mesmo que discordando, para logo menear, fugindo. Interessante será saber como foi recebido o livro (se só louvado in-blog, se mesmo bastante lido), pois dirá algo da auto-imagem nacional dos leitores. Ou de como José Gil a influencia. E fico à espera de que alguém tenha a sapiência e o poder (sim, o poder) para se debruçar de modo verdadeira e intensamente crítico sobre este livro. De moda, perdão.

Publicado por JPT em 06:22 PM | Comentários (0)

O Crónicas de Maputo, blog que recentemente encontrei e então aparentemente desactivado, está outra vez em acção (poder-se-á dizer que está de novo a emitir?).

Publicado por JPT em 02:17 AM | Comentários (1)

No Blasfémias Gabriel Silva em homenagem ao Gurué.

Publicado por JPT em 02:04 AM | Comentários (0)

Voto dos emigrantes

Muito interessantes as mensagens que o Abrupto tem vindo a ecoar, dedicadas às dificuldades para votar sentidas por emigrantes portugueses.

Aproveito para recordar algo que já aqui referi, a impossibilidade dos portugueses residentes fora da U.E. em votar nas eleições para o Parlamento Europeu. Ao contrário do acontecido com cidadãos de outros países membros da UE, como p.ex. a Espanha. E ao contrário do que acontece com outros emigrantes portugueses, os residentes na UE.

Será isto fruto de uma legislação e política específicas? Ou meramente de inércia legislativa?

Confesso que ainda não estou certo sobre o direito do voto emigrante nos referendos. Será possível votar? Ou os emigrados fora da UE não poderão opinar sobre a adopção da Constituição Europeia? E, se for esse o caso, com que argumentos o Estado impedirá o voto emigrado?

Publicado por JPT em 01:52 AM | Comentários (0)

Lembrando o dr. Luís Duque

Respeito muito o regime do dr. Roquette, que exilou o inefável e lamentável (melhor dizendo, o qual benfiquista) Sousa Cintra. E que, ao que consta, tem vindo a "sanear as finanças" do clube (no futebolês antigo era assim que se dizia).

Respeito muito este regime, disse. Mas estou cansado da inércia, travestida de seriedade. Há uns anos o Sporting foi campeão. No ano seguinte o dr. Luís Duque, o qual gastava imenso mas que percebia um bocado de bola, vendo os efeitos de uma desajustada preparação de época quis substituir o então sagrado (e hoje esquecido) treinador campeão por um tal de Mourinho, menosprezado pelos vis vizinhos. Proibiram-no, em nome já nem sei bem de quê. Depois, passados meses, mudaram de treinador. Perdeu-se algo...

Dois anos depois outro treinador campeão foi-se arrastando uma segunda época. O dogma do "respeitinho ao contrato" impediu que Boloni fosse substituído a tempo. De ganhar algo nesse ano, de preparar melhor o ano seguinte. A seguir a mesma tralha do "respeitinho ao contrato" com Santos, arrastado até ao fim do ano, acho que até contra vontade, para depois ser despedido até deselegantemente (longe, o visconde não terá gostado). Sabendo-se há muitos meses que não tinha quaisquer condições para continuar.

Desde Setembro passado que periodicamente aqui coloco um ícone, um vero ex-voto: Manuel Fernandes. Pois desde esse Setembro até este emigrado, adepto de sofá, percebe que Peseiro não é homem para aquilo. E muito irrita ver o mesmo número pela quarta vez. Vão arrastá-lo até Junho, em nome da "competência" e do "respeito ao contrato". E depois substituem-no. Com mais um ano perdido (e que fácil teria sido este). E mais atraso para o próximo.

Saudades de Luís Duque.

PS - no sítio do Sporting Club de Portugal não há uma foto do presidente que quebrou um jejum de 18 anos. A reescrita da história não é monopólio político.

Publicado por JPT em 01:27 AM | Comentários (0)

fevereiro 06, 2005

Pensar um país (ex. Portugal)

O texto [abaixo transcrito] de Medina Carreira, ao qual chego alguns dias atrasado e apenas via Aviz, é um exemplo (terrível?!) de como pensar um país.

É terrível pelo diagnóstico que apresenta - e também por isso o guardo aqui, para minha futura consulta, até numa próxima era pós-blogs. E para hipotético exemplo comparativo ao olhar outros países.

Mas é também terrível pelo abismo que o separa dos discursos do (próximo) poder português (seja um ou outro, ainda que as dúvidas sejam hoje meramente académicas) espelhando a sua demagogia e a sua malvadez (porquê chamar mediocridade ao seu superlativo?).

E já agora, mesmo sabendo da leveza que este hóbi bloguista implica, também torna os discursos in-blog politicamente mais alinhados muito risíveis. Tristemente risíveis.

Lendo Medina Carreira impõe-se a questão. Não digo a colectiva, feita eunuca no mundo patrimonial, mas sim a questão individual: que fazer?, é ela, e nada leninista.

Pois cada vez mais me parece que se exige o cruel reviver do "navegar é preciso" e cantá-lo ao som dos vangelis, irans costa e quejandos. E, assim, emigrar...

A Verdade Não Mora Aqui
Por MEDINA CARREIRA
Público
Terça-feira, 01 de Fevereiro de 2005

"Cada vez mais vejo gente que sabe quem não quer, mas não sabe quem quer. Ou antes, não quer nenhum."

(António Barreto, PÚBLICO, 23.01.05)

1. Teremos em breve eleições legislativas. As terceiras desde 1999. E é improvável que, em Fevereiro de 2005, se encontre uma solução política adequada para enfrentar a nossa gravíssima crise. O Estado é inoperante, insustentavelmente sobredimensionado, está em crescente desqualificação e perdeu poderes decisivos de intervenção económica (monetário, cambial, alfandegário e orçamental). A economia fragilizou-se no último quarto de século, só reagindo, ocasionalmente, com o impulso de ocorrências externas, muito favoráveis. O peso da despesa pública levará, em poucos anos, ao colapso financeiro do Estado, com pesadas consequências para todos mas, em especial, para mais de 4,5 milhões de indivíduos dele directamente dependentes(1). Ninguém, revelou, na política activa actual, discernimento, aptidão e credibilidade para tranquilizar o País e vencer uma tal crise. Com o "anonimato" dos candidatos a deputados, generalizou-se a promoção do demérito; os principais partidos políticos são hoje a melhor e a mais procurada agência de empregos para uma certa "mão-de-obra"; a ilimitação dos mandatos favorece a inércia e a rotina; o exclusivo partidário da apresentação de candidaturas visa a obediência e a hipocrisia política (2); a opacidade do financiamento dos partidos estimula a corrupção. O sistema semi-presidencial que vigora mostra-se inconsequente: o Presidente da República medita, reúne, exorta, insiste e é muito aplaudido, mas nada acontece. Os governos são escolhidos a partir de programas eleitorais irrealistas e demagógicos; enfraquecidos pelo inevitável incumprimento das promessas, são diariamente fustigados, julgados e condenados no primeiro acto eleitoral que aconteça. O Parlamento, com gente a mais e que nada representa, é palavroso e inconsistente, e vai degradando a imagem da democracia. Os problemas do País acumulam-se e agravam-se, e o tempo útil das soluções está a esgotar-se. Nos anos 20 e 30 do século passado, na Europa, este tipo de democracia atraía os ditadores. No início do século XXI, mantém o atraso e conduz à pobreza.

2. Só uma mirífica e muito rápida aceleração do crescimento económico poderia evitar-nos o tombo que já está à vista. Porém, a nossa capacidade competitiva não melhora; os "motores" da Europa não arrancam; do alargamento e das deslocalizações virá mais desemprego; o preço do petróleo será alto; os juros subirão, mais mês, menos mês; o câmbio euro/dólar aumenta com os défices dos Estados Unidos; a China está aí à porta, pronta a entrar livremente, com consequências preocupantes; o investimento estrangeiro não encontra aqui factores suficientes de atracção. Por isso, e por agora, nada prenuncia o fim da estagnação. De resto, a análise do nosso comportamento económico, pelo menos desde 1980, revela uma desoladora incapacidade: com excepção de dois períodos muito favoráveis (num total de dez anos), a taxa média de crescimento anual e real quedou-se pelos 0,6 por cento (3). Nos anos 80, valeu-nos sobretudo o preço do crude que desceu fortemente; nos anos 90, foi a entrada para o euro e a consequente baixa dos juros, que expandiu e generalizou o endividamento dos agentes económicos, e fez "explodir" a procura interna. O que vale, afinal, a economia portuguesa, sem "choques" externos positivos?

3. Dispersos na nossa sociedade, temos 4,5 milhões de indivíduos que integram uma espécie de "Partido do Estado". Têm em comum a dependência directa do Orçamento e representavam, em 2003: 43 por cento da população residente; 56 por cento do eleitorado; 62 por cento da população com mais de 24 anos de idade. Pensionistas e subsidiados (mais de 3,8 milhões), equivaliam a 70 por cento da população activa. Este "Partido do Estado" absorvia 70 por cento dos impostos cobrados (1980); atinge agora os 85 por cento (2003). O pessoal político dos principais partidos "invade" progressivamente o Estado e pretende mais funcionários, mais pensionistas, mais subsídios e mais subsidiados, porque aí pode angariar mais votos. Os que ainda estão fora do "Partido do Estado" constituem uma minoria cada vez mais desiludida, reduzida e silenciada, e menos influente. Adormecido e enganado, Portugal trilha o caminho para o desastre financeiro do Estado e para uma pobreza mais generalizada dos portugueses. Ninguém nos acode.

4. Os resultados das políticas orçamentais de 2002 e de 2003, da ministra Ferreira Leite, já estão estimados (A economia portuguesa, Junho de 2004-MF/DGEP): entre 2000 e 2003, o peso no produto das despesas com o "pessoal", com o "consumo intermédio" e com os "juros", diminuiu globalmente um ponto percentual.(4); e aumentou nas "prestações sociais", nos "subsídios" às empresas e em "outras despesas correntes", no equivalente a 3,5 pontos percentuais.(5). As "prestações sociais" subiram ao ritmo anual médio e real de 7,5 por cento. Globalmente, "pessoal" e "social", absorviam 79 por cento dos impostos cobrados (2000), 85 em 2003. Os números "falam" por Manuela Ferreira Leite, que só não conteve o que não era possível. Anuncia-se o inevitável ocaso do Estado-providência. A crise que atravessamos é, sem dúvida, a mais difícil e virá a ser a mais longa desde há muitas décadas: é a primeira que só venceremos com autênticas e impopulares reformas estruturais, para cuja realização nos temos mostrado incapazes; encontra-nos impreparados para suportar os "choques" externos desfavoráveis, mais sensíveis nas economias abertas e frágeis, e o "envelhecimento demográfico"; o Estado, na Zona Euro, perdeu os instrumentos de intervenção económica e, o que poderia restar-nos - a política orçamental -, está "bloqueado" pelos desatinos financeiros dos anos 90. Desde há muito que não enfrentávamos exigências e condicionantes tão fortes.

5. Perante tudo isto, as evasivas nada resolverão. Não basta afirmar que a "democracia" tem sempre soluções alternativas; hoje não vislumbramos nenhuma à altura da crise. Não é suficiente a detenção de uma "maioria absoluta", se não for acompanhada de capacidade para executar um programa realista e impopular. A proclamação de "objectivos" ambiciosos, mas inviáveis, não conquista eleitorados, gasto como se encontra o método, com trinta anos de uso imoderado. As mensagens de "optimismo" não bem fundado criam suspeitas sérias de incompetência ou são simples embustes. O enunciado das soluções de longo prazo - mesmo quando bem intencionadas, adequadas e realizáveis - nada adianta se os governos, ao cabo de um ou dois anos, estão "destruídos"; nunca se chega a promover o longo prazo, porque se capitula no curto prazo. Quatro governos em cinco anos não deixam ilusões. Sem "verdade", são bem prováveis mais legislaturas incompletas.

6. A avaliação do mérito das propostas eleitorais dos partidos que poderão formar Governo pressuporia a apresentação pelos mesmos, bem antes das eleições, de uma caracterização rigorosa e quantificada da nossa situação económica e financeira e da sua previsível evolução nos próximos cinco e dez anos. E ainda a resposta, nomeadamente, às seguintes questões:

1.º) Que medidas propõem para conferir mais eficácia ao sistema político, para aperfeiçoar o sistema eleitoral, limitar os mandatos, incompatibilizar funções, modificar o regime imoral das reformas do pessoal político, reduzir o número de deputados, remunerar adequadamente os governantes e um número indispensável de deputados competentes, e financiar os partidos?

2.º) Como projectam promover uma maior qualificação dos estudantes e dos trabalhadores, pela via da exigência, do rigor e da disciplina, e não pela estafada expansão dos gastos para contentar as "corporações"? (6)

3.º) Como, no imediato e no médio prazo, estimularão o crescimento económico, considerando que se fosse pela forte aceleração da "procura interna", ela só se sustentaria à custa de volumosos financiamentos externos?

4.º) Como prevêem a criação maciça de emprego, fora do Estado, e como financiarão as medidas necessárias para o efeito?

5.º) Em que sectores ou rubricas promoverão a baixa do peso no produto das "despesas públicas correntes", considerando a evolução acelerada das "prestações sociais"?

6.º) Que efeitos financeiros globais aguardam com as reformas dos funcionários, que passarão a receber como aposentados, entrando como seus substitutos outros que receberão como funcionários?

7.º) Que medidas irão adoptar, e em que prazo, para que o peso dos gastos com o "pessoal público" diminua de 15 por cento para 11 por cento do PIB (média da UE/15)? (7)

8.º) Como se propõem assegurar o financiamento futuro das "prestações sociais" - o Estado-providência -, que aumentaram de 14 para 17 por cento do PIB entre 2000 e 2003 e cujo acréscimo absorveu, só por si, 90 por cento do aumento verificado das arrecadações fiscais? (8)

9.º) Quais os valores admitidos para os aumentos salariais, os das pensões e os dos subsídios (mais 10 euros por cada indivíduo e por mês, equivalem a um total de 630 milhões de euros anuais, isto é, a 0,5 por cento do PIB em 2005)? (9)

10.º) Qual o limite máximo admitido para o défice público (8 por cento, 10 por cento, 12 por cento), tendo em conta que, sem receitas extraordinárias, ele já se situa à volta dos 5 por cento do PIB?

11.º) Aceitando, assim, maiores défices haverá uma aceleração do peso do endividamento público e dos seus custos financeiros futuros: como conciliar isto com o aumento dos encargos decorrentes do "envelhecimento demográfico"?

12.º) Que conjunto de medidas legislativas, administrativas e judiciais, propõem para uma eficaz acção contra a evasão e a fraude fiscais?

7. É cada vez maior o número de portugueses que não acredita na generalidade dos políticos, nem na capacidade das instituições vigentes, nem nas promessas que lhes são feitas, nem no futuro do País. O próximo acto eleitoral de 20 de Fevereiro teria sido uma boa oportunidade para dizer toda a "verdade" e justificar todas as "exigências". Porque, durante alguns anos, não se sabe quantos, teremos mais esforço que laxismo, mais contribuições que benesses, mais deveres que direitos e mais dúvidas que certezas. Terá de reconstruir-se tudo a partir de quase nada. Entretanto, muitos terão pago um preço imerecido.

Notas:

(1). Cerca de 730 000 funcionários públicos; 2 591 000 pensionistas da Segurança Social; 477 000 reformados e pensionistas da Caixa Geral de Aposentações; 307 000 beneficiários do subsídio de desemprego; 351 000 beneficiários do RMI. Com os familiares próximos poderão ser uns 6 milhões de indivíduos, numa população de 10 milhões.

(2). "Os bons não querem ir para lá, e os maus querem porque aquilo é um emprego fácil". "As direcções partidárias gostam de deputados amigos ou gente que não chateie" (Vicente Jorge Silva, Grande Reportagem, 22.01.05). Já pressentíamos o que agora é confirmado por quem saiu há semanas da Assembleia.

(3). Entre 1985 e 1991, taxa anual de 5,5 por cento; entre 1995 e 2000, taxa de 3,8 por cento. Nos restantes catorze anos, à taxa anual de 0,6 por cento.

(4). Consumo intermédio: -0,6 pp.; juros: -0,3 pp.; pessoal: -0,1 pp.

(5). Prestações sociais: +3,0 pp.; subsídios às empresas: +0,4 pp.; outras despesas correntes: +0,1 pp. O subsídio de desemprego contribuiu com +0,5 pp (2000 a 2003).

(6). Em 2002 só na Turquia e no México as percentagens da população com o 2º ciclo eram mais baixas do que em Portugal (OCDE - Regards sur l'éducation, 2004); entre os adultos, só no México os indicadores são mais desfavoráveis que os nossos.

(7). Com um crescimento económico à taxa média anual de 2,2 por cento (1990-2003), a diminuição dos custos com o "pessoal" para 13 por cento do PIB (2008) e 11 por cento (2012) e o aumento das "prestações sociais" à taxa anual de 7,5 por cento (2000-2003), as "despesas correntes primárias" atingiriam os 43 por cento (2008) e os 47 por cento do PIB (2012), níveis insusceptíveis de financiamento fiscal. Neste quadro hipotético, a estabilização das "despesas correntes primárias" ao nível dos 40 por cento pressuporia uma década de crescimento económico à taxa média de 4 por cento.

(8). As arrecadações fiscais cresceram 6,8 mil milhões de euros e as "prestações sociais" 6,1 mil milhões.

(9). Valor correspondente a 4 500 000 x 10 x 14 = 630 000 000.

Publicado por JPT em 08:32 PM | Comentários (1)

Última Safra 14: os cus de judas

[continuando a aborrecer os visitantes com a minha releitura, 20 anos depois, de "Os Cus de Judas", de Lobo Antunes. E mais aborrecendo pois não sendo eu das literaturas não tenho particular caroço para ecoar]

LoboAntunesCusJudas.jpg

(António Lobo Antunes, Os Cus de Judas, Círculo de Leitores, 1984)

Creio que será a capa mais estapafúrdia que brindou um livro deste autor. Registe-se, ainda que tanto tempo passado.

Sempre achei estranho ser fraca a literatura portuguesa sobre a guerra colonial (de libertação, chama-se do outro lado). Mas neste regresso aclarou-se-me isso, Lobo Antunes matou-a num mero tomo, não só por lhe ter posto a fasquia alta mas também porque a descentrou, desviou-a dos postes triviais. Na prática, como é tradição em Portugal, não se dedicou à guerra, escreveu sobre naufrágios, o dele

"Talvez que a guerra tenha ajudado a fazer de mim o que sou hoje e que intimamente recuso: um solteirão melancólico a quem se não telefona e cujo telefonema ninguém espera, tossindo de tempos a tempos para se imaginar acompanhado, e que a mulher-a-dias acabará por encontrar sentado na cadeira de baloiço em camisola interior, de boca aberta, roçando os dedos roxos no pêlo cor-de-novembro da alcatifa" (58)

e não só. Este livro pode entrar como capítulo mais recente da História Trágico-Marítima.

Nele outros livros brotaram, e vozes sábias dizem-nos ainda mais conseguidos. Mas aqui há umas entranhas que me (re)conquistaram.

Para me libertar desta memória aqui deixo mais duas breves citações:

"pertencemos a uma terra em que a vivacidade faz as vezes do talento e onde a destreza ocupa o lugar da capacidade criadora" (35)

"a ideia de uma África portuguesa, de que os livros de História do liceu, as arengas dos políticos e o capelão de Mafra me falavam em imagens majestosas, não passava afinal de uma espécie de cenário de província a apodrecer na desmedida vastidão do espaço, projectos de Olivais Sul que o capim e os arbustos rapidamente devoravam, e um grande silêncio de desolação em torno, habitada pelas carrancas esfomeadas dos leprosos..." (125, e continua assim, é o capítulo "P")

Publicado por JPT em 02:18 PM | Comentários (1)

Última Safra 13: Zimba

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Sérgio Zimba é um dos cartoonistas mais lidos em Moçambique, publicado na imprensa de grande divulgação, e frequentemente passado a livro, como este Mafenha (Maputo, Notícias, 1999), então o seu terceiro depois de "Riso Pela Paz" (1993) e "Lágrimas de Riso" (1995), um trajecto editorial de salientar, e tão raro aqui.

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Há nesta obra um traço algo rude, um desenho agreste, a embrulhar um humor brejeiro, de tom popular, no qual se mistura o "atrevido", cheio de alusões e explícitos sexuais, a uma candura - e nesta muito se revela o próprio autor, uma gentileza de pessoa. E nessa mescla desmontando, muito mais eficientemente do que o gosto "burguês" poderá aceitar à primeira vista, os estereótipos do novo-riquismo maputense (universal?), mas também desvendando, pelo sorriso brutal que decerto conquista a compreensão que procura, os trejeitos do quotidiano suburbano.

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Mas não é só uma crítica social, há também no autor tem uma visão política cáustica, denotando um homem algo descomprometido, e também livre de um olhar mais programático (que aqui terá como arquétipo a figura "Xiconhoca"), quantas vezes auto-censor e inibidor do próprio humor.

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Nele encontro ainda dois traços fundamentais: numa sociedade que, em termos de expressão pública, é muito puritana Zimba joga com o sexo, dá-nos um quotidiano em que este é força motriz, como na realidade o é apesar de todos os moralismos. E onde é também, e quantas vezes, relação de poder. E mais, Zimba escapa-se ao espartilho do português, é (provavelmente) o único homem da comunicação escrita que aqui usa de modo constante, e cúmplice, a associação do português com outra(s) língua(s).

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Este é um pequeno texto que exige declaração de interesse. Como é óbvio, e pelos motivos acima assinalados, sou adepto do Sérgio Zimba. Há dias em que ele me parece ser, no âmbito da escrita, o grande olhar moçambicano sobre o real.

Publicado por JPT em 01:20 PM | Comentários (0)

fevereiro 05, 2005

L.

Publicado por JPT em 09:00 PM | Comentários (4)

O Guevara e a Jóia Vitaphor

Abaixo, citei Lobo Antunes, um verdadeiro Átila no seu "poster do Guevara...e que funciona um pouco para mim como uma espécie de jóia magnética Vitaphor da alma:.".

Perguntei então se alguém saberia o que é (era) essa Vitaphor. Alguns leitores corresponderam a este meu anseio, e aqui os coloco (é assim como no Abrupto).

Via email, Eduardo Domingos informa que o meu sistema de comentários não funciona (vá lá, uma boa desculpa para não ter comentários) e propõe que o tal Guevara seja

Vitaphor - Mediaphor GmbH, D-33106 Paderborn, abrindo caminho para toda esta teoria

Wie wir Menschen brauchen auch unterschiedliche Pflanzen ganz individuelle Nährstoffe. Mischen Sie sich Ihren perfekten Spezialdünger selbst, ganz individuell abgestimmt auf Ihre Pflanzen mit dem BaukastenDünger Vitaphor: Für 25o verschiedene Pflanzen, zum Beispiel Rosen, Rhododendren, Geranien, Kräuter, Zitruspflanzen, Kakteen, Funkien, Bonsais, Hydrokulturen, Tomaten, Erdbeeren und viele mehr. ...
(tomar ao deitar)


Já o Manuel encontrou a casa dos comentários aberta (afinal?!) e botou:

"Ah, mas quanto à jóia Vitaphor, posso dizer que era amplamente divulgada na TV. Era daquelas com propriedades magnéticas e o diabro a quatro, que proporcionava um excelente bem-estar a quem a adquirisse.
Também havia as pulseiras magnéticas...
Será que ainda há?
Um abraço
"

Estou na dúvida, até porque a mim o alemão custa-me a entender...Mas está lançada a angústia, afinal que era o Guevara?

Publicado por JPT em 04:22 PM | Comentários (1)

Pois,

mais um dia passado, vou agora dormir, após jantar com amigos. E nada escrito sobre pilinhas alheias, nada com justificações teórico-filosóficas sobre o olhar as ejaculações vizinhas.

O Ma-Schamba definha.

Publicado por JPT em 02:08 AM | Comentários (6)

fevereiro 04, 2005

Última Safra 12: sem título

"...Sartre era um moralista. Não podia admitir que as minhas tomadas de posição, talvez erradas, não fossem culpadas. Para ele, moralista, era difícil aceitar os argumentos de um homem que tomava uma posição radicalmente diferente da sua. Logo, condenava-me moralmente. Aliás sempre pensei que ele era mais moralista do que político. E creio que muitas vezes se perdeu na política, precisamente porque era essencialmente um moralista, mas de um estilo muito diferente do tipo habitual: um moralista ao contrário, um moralista da autenticidade e de modo algum do moralismo burguês do qual tinha horror."

[R. Aron, O Espectador Comprometido. Diálogos com Jean-Louis Missika e Dominique Wolton, Lisboa, Moraes, 1983, p. 142]

Publicado por JPT em 10:17 AM | Comentários (6)

Última Safra 11: lobo antunes e che

Já agora, e como aqui escrevi (e fotomostrei) várias vezes sobre a moda Che Guevara, não resisto a este pequeno trecho de "Os Cus de Judas" de Lobo Antunes (Círculo de Leitores, 1984, p. 30), que há pouco descobri:

"Duas coisas, minha boa amiga, continuo a partilhar com a classe de que venho, desapontando o poster do Guevara, esse Carlos Gardel da Revolução, que pendurei sobre a cama a fim de que me proteja dos pesadelos burgueses, e que funciona um pouco para mim como uma espécie de jóia magnética Vitaphor da alma:..."

(O que seria uma jóia Vitaphor?)

Publicado por JPT em 04:22 AM | Comentários (1)

Última Safra 10: do café ao sofá

Lá no meu Portugal em cada mesa de café, ou das ainda tascas, há um Montesquieu, bica escaldada ou imperial a caminho da boca enquanto nos vai explicando a pequenez do país, o tortuoso das mentalidades, a "cunha" das inventadas parentelas, a angústia da mediocridade. Tudo isso, diz ele, fruto do acanhado geográfico, país estreito agora proibido de se aumentar, para mais no cabo de uma história em que os melhores sempre emigraram. Um fado, mesmo que agora mais moderno fado-canção.

Depois sai-se do café, ou da ainda tasca, regressa-se a casa, no sofá disfarça-se a televisão com umas páginas desses russos antigos. E notamos tudo isso, esse absurdo que é tão lógico, ali a brotar em toda aquela imensidão. Afinal...

Publicado por JPT em 03:12 AM | Comentários (0)

Edifício Capitania, Lourenço Marques

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Um belo postal, não-identificado. Anterior a 1911, como se reconhece pela inscrição manuscrita. Uma bela oferta do Marco. O qual se apresta para proporcionar grandes surpresas (e prazeres) aos leitores de blogs. Fico à espera.

Adenda: Machado da Graça acaba de deixar comentário a corrigir imprecisão, o qual aqui coloco pelo seu interesse: "O edificio chamava-se Predio Capitania mas creio que apenas por ser perto da dita cuja. Não creio que esses serviços alguma vez lá tenham funcionado. A sua última utilização, se bem recordo, foi como "casa de meninas"."

Publicado por JPT em 02:59 AM | Comentários (2)

Última Safra 9: Humor leve

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Um humor muito leve, tal e qual o desenho que o transporta. Até piscando o olho ao turista. Mas este Wildside (Rose Rigdens, Cape Town, Brigand Selections, 2001) não deixa de nos reproduzir nestas "aventuras" no Kruger. Um suave sorriso por página, assim sendo. Tornado quase indispensável no regresso a casa.

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Publicado por JPT em 02:43 AM | Comentários (3)

No Atlântico

ocorreu um debate político. Não vi, não posso opinar. Sobreviverá tudo aquilo sem a minha versão? Sem o meu afã?

Questões que me dão insónia.

Publicado por JPT em 02:41 AM | Comentários (6)

Última Safra 8: produzindo inimigos

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[Montepuez, eleições autárquicas de 2003. Fotografias de Giuseppe Salerno]

São fotos que não solicitam grande comentário. Apenas noto o meu espanto de então, ao encontrar Saddam como ícone no interior do Cabo Delgado. E não se fale de uma causa islâmica apenas. Um ano depois, com Saddam desiconizado pela sua rendição, até humilhante, os símbolos serão outros. Mas a máquina de produção de inimigos continua imparável. Petróleo oblige? Ou a crença na auto-beleza? Ou ambos?

Publicado por JPT em 01:27 AM | Comentários (0)

Última Safra 7: Bibliografia Moçambicana

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Júlio Navarro & António Sopa, Moçambique Através dos seus Livros. Subsídios para uma Bibliografia Nacional (Junho 1975-Agosto 1998), Maputo, Centro Cultural Português, 1998

Uma iniciativa, que nessa altura passou relativamente desapercebida, a necessitar de uma rápida actualização, até devida ao aumento do movimento editorial desde então. Porventura será desnecessário, nos tempos actuais, recorrer ao suporte livro. Mas a produção de um sítio informático parece-me mais do que justificada.

Publicado por JPT em 12:08 AM | Comentários (0)

Ainda sobre o "Do obscurantismo"

Ainda sobre o meu texto Sobre o "Do Obscurantismo", o qual quis fazer dialogar com um anterior Do "Obscurantismo", o Miguel S., bloguista muito veterano em África, enviou-me o seguinte texto, dado que a caixa de comentários desse texto, e onde nos últimos dias se tem processado um debate, coisa rara neste Ma-Schamba, não está a aceitar mais comentários. Aqui o deixo, depois tentarei responder, pois estas são-me questões a sério, nada dos "amendoins" habituais. E porque tenho grandes desacordos quanto ao aqui deixado.

"De volta jpt. antes de mais obrigado pelas respostas que abordaram as diversas questões de uma forma mais profunda e interessante. Quando disse que fui mal interpretado refiro-me, sobretudo, ao que queria dizer relativamente ao black empowerment. E vou aproveitar para aprofundar um pouco mais algumas questões relativamente ao "obscurantismo".

Sobre o black empowerment. Sou contra tudo o que seja quotas, discriminação
positiva e tudo o mais que faz dos outros, nas sociedades contemporâneas e equalitárias, os "desfavorecidos" que de outra forma não teriam possibilidade de... Embora também este seja um assunto bastante complexo, ie, a reforma das mentalidades por antagonismo à imposição do que quer que seja. Eu não sou nem pro nem contra o black empowerment no meu país de origem porque essa questão nem se coloca. No meu país somos todos [tendencialmente] iguais independentemente das particularidades qualquer que seja a sua natureza que nos distinguem dos demais. Referia-me, por isso, à política sul-africana e à tentativa dos moçambicanos em segui-la como aliás fez Chissano em contraste com Machel. Ou seja, é manifestamente interessante obervar o comportamento de alguns Estados que impõem regras à sociedade contrárias à sua ideologia de base aquando da clandestinidade e da via socialista.

O que me incomoda no trecho do Craveirinha é tão-só a verborreia tendenciosa, supostamente elaborada e reflexiva sobre uma realidade aparentemente "vivida" de muitos "intelectuais" africanos que recorrentemente atiram para a opinião pública o culto do ódio aos brancos e sobretudo aos portugueses. Tal como dizias, há uma burguesia e alguns "wanna bes" minimalistas desajustadas no espaço e no tempo dos que marcaram profundamente o continente no século passado.

Mas o que me incomoda ainda mais é o facto de, pelo facto de não seguirmos a
mesma linha de pensamento, a profusão de ataques ser de tal forma recorrente que nunca se ouve ninguém refutar o que quer que seja ou condenar o que quer que seja. Já em Portugal, caíria o Carmo e a Trindade pela ousadia do inverso...

Para terminar senão nunca mais me calo, é a recorrência sistemática à "questão racial" como refúgio quando os argumentos se esgotam. É tão fácil...

PS-Epa isto é mesmo tudo a correr. Não preparei o texto. Limitei-me a escrever procurando alguma lógica e sequência. Nunca preparo nada.
Abraço
."

Publicado por JPT em 12:07 AM | Comentários (0)

Última Safra 6: General Machado

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Se houvesse cinema em Portugal, uma indústria digo, mesmo que de PMEs, a vida do General Joaquim José Machado, iniciador dos caminhos-de-ferro aqui, e também em Angola, estaria representada. Em havendo televisões talvez existam documentários, mas se for o caso desconheço-os. De facto, como homenagem, apenas conheço um