Quero realçar o debate sobre Moçambique que o Ideias para Debate tem vindo a possibilitar na sua curta existência.
Esta é a semana onde o novo Presidente da República toma posse, corolário de uma rarissima transição de poder em termos africanos. E a qual é concomitante com a esperança de graduais melhorias (como estas apenas podem ser). E é uma boa altura para ler e pensar criticamente o país Moçambique. Em meu modesto entender fazê-lo sem extremismos utópicos e, acima de tudo, sem revanchismos bafientos que ainda medram. E, acima do acima, sem umbiguismos desvalorizadores, esses sempre sem espelho.
Também por isso o Ideias para Debate é mais do que recomendável para bloguistas (activos e passivos) moçambicanos. E para quem gosta do país. E, também, para quem se interessa pela reflexão política, que isto da comparação é a mãe de todas as ideias.
Adenda: Alguém me pode ensinar (comentários ou email) como se fazem ligações (links), no texto e em coluna, no blogger, para passar a informação ao dono desse blog? Ou então directamente na caixa de comentários do Ideias para Debate. E como se incluem informações no "main index" (tipo o email do local), se instalam contadores de visitas, etc? A agradecer.
Lá no apenas mais um alguém, mais viperino(a), comentava que se o JPP usar e gabar este sistema de estampar tecidos lá no Abrupto, logo muitos outros lusobloguistas vão começar a vestir a sua capulanazinha própria, a acharem-se o máximo nessas roupitas baratas, regateadas lá no bazar central.
Fiquem então sabendo, há gente (nós), bem mais avisada, estes são os tecidos originais, caros, coisas boas neste primeiro carregamento, comprámos na Casa Elefante, o império da capulana. Nadas dessas cópias sem qualidade que então hão-de surgir, a fingirem-se finas.
Outro PhotoBlog sobre Moçambique: Tributo á Cidade de Maputo.
[o erro é lá, apenas cito]
a desgraça do Porto delicia e entristece (vil piedade a do adversário, não é?). Mas tem brinde, o hooligan ressurgiu.
Abaixo prometi(-me) abordar os programas eleitorais portugueses relativamente à política de ajuda pública ao desenvolvimento (vulgo cooperação). Ainda...
Mas o atento Lobitino do Pululu já escreveu sobre o assunto, um artigo que está aqui. A ler.
Com um sorriso.
Tenho um amigo, desses do tempo pré-computadores pessoais quanto mais pré-blogs, que tem apenas mais um blog, onde escreve (e agora desenha) sobre as coisas que realmente importam, os novos gatos lá de casa, as terríveis gripes que o assaltam, as tartarugas e o raguêbi dos filhos, outros verdadeiros etcs. Enfim, as majoridências da vida! E rapidamente ficou um blog porreiro, cheio de visitas a sério, ali a falaram como se à volta da mesa, bebendo um copo e dizendo umas coisas, dessas que se sabe que não vão mudar o mundo, e muito menos logo no dia seguinte. Um must, digo até invejoso.
Enquanto isso o Eufigénio Lagoa [que raio de nome foste arranjar, ó Boné] vai-se rindo da mania das grandezas que me leva (e se calhar a outros) a gastar teclas sobre merdas que nada precisam de mim para serem lidas e ouvidas. Para completar essas apropriadas caneladas na minha cagança mandou-me um bibelot/calduço, que me apresto a colocar na sala, entre as fotografias dos entes queridos e as pratas velhas da família.

E, agradecido, envio-lhe também uma prenda, a qual estava destinada a ser-lhe entregue por alturas do Natal, no restaurante Brazuca.

(Recuerdo/Souvenir/Gift adquirido via Blogotinha).
até custa ver o Porto, tão e tanto campeão, feito aquele bazar, gente a entrar e a sair, uma equipa desfeita com todo o afã. Que raio, nem é incompetência de gerir o sucesso, é pura irracionalidade.
Dá prazer. Mas tanto também dói.
Abaixo usei este título para disfrutar o desvendar público da hipocrisia política lá pela lusa esquerda baixa. À falta de melhor retomo-o para sublinhar (que já nem é desvendar) a bandalheira política lá pelo luso centro alto: a história dos colos de PSL é inenarrável.
Como é que um tipo (medianamente) decente consegue votar nesta gente? Haverá algum bloguista que me elucide sobre a alquimia intelectual necessária? Ou calar-se-ão, envergonhados?
Em bom português, ganda nojo!!!
O Bloguítica afinal não acabou. Daqui compreendo isso de fechar afinal não fechar. Saúdo. E (muito lateralmente ao que interessa) sorrio à parvoíce, que se quis malévola, desses que logo resmungaram o bloguista despromovido a assessor ou até mais.
É bom poder discordar/concordar com o PG.
Para hipotéticos interessados, actualizei com introdução de complementar referência bibliográfica a entrada Leite de Vasconcelos.
No Superflumina um interessante texto sobre o estatuto da arte e do artista, em diálogo com as (também interessantes) declarações de Paulo Cunha e Silva, director do Instituto de Artes português. Há ali matéria para um debate, para além dos costumeiros (maus)humores sobre arte contemporânea.
O Miguel S. narra mais um episódio da explicitação do racismo "anti-branco", neste caso expresso por um padre.
É recorrente este racismo, às vezes mascarando-se de mero "racialismo", um anti-branquismo a-sociológico, um "agora é a nossa vez", que se quer auto-desculpabilizador, que encerra as causas dos fenómenos nas cores alheias, que procura legitimidade própria para quem se vai sentindo fragilizado nas suas tenças político-sociais. Racismo hipócrita, tantas vezes associado a uma "mão estendida" nada invisível. Racismo sombra, escondendo causas, assim querendo-se garante de uma ordem. Afinal racismo. Muito mais explícito do que o racismo branco, este cada vez (e ainda bem) mais escondido pela pressão de uma "higiene ideológica". Digo escondido, não digo desaparecido. Mas dizer escondido é também dizer (e crer) diminuído.
Muito presente está o anti-branquismo nos discursos políticos africanos. Mas também no de jornalistas, escritores, e académicos, sociólogos, antropólogos, politólogos, esses profissionais produtores de imagens.
Daí que não possa deixar de sorrir quando ouço o povo dizer desses arautos da "negrização": "esses julgam que são brancos". Usando claro, uma sociologia nada espontânea, ao contrário de quem agita galardões e diplomas enquanto obscurece.
Em questões de política portuguesa em África tenho uma opinião divergente da normalmente expressa no Bazonga da Kilumba. Muito honestamente não me revejo na aguerrida reclamação do papel de Portugal em África, em especial nos países da CPLP, e na abordagem "lusófona", que tantas vezes lhe integra o discurso.
Mas também me parece que essas dimensões, que para mim são fundamentais, serão um pouco marginais para aquele colectivo bloguista . Ou seja eu serei mais radical no afastamento ao discurso orientador enquanto eles são muito mais radicais nas críticas explícitas às políticas. [Declaração de interesse, como JPP instituiu na blogosfera: eu sou cooperante, sob tutela do IPAD, não me parece leal (nem consciente, diga-se) escrever publicamente críticas sectoriais]
E que assim concordaremos no fundamental, que muito mais pode fazer Portugal no domínio da política de cooperação em África.
Por isso não posso deixar de aqui referir este texto. Como já referi, estou pragmática e ideologicamente de fora quanto ao registo da luta/competição entre as antigas potências coloniais em África, que nele é referido. Ela existe, o que quero dizer é que é tempo de uma pequena potência como Portugal assumir uma nova forma de encarar a reprodução das suas relações em África [abandonar o lusotropicalismo neo-colonial "lusofonia", investir na multilateralidade efectiva, incrementar a capacidade de execução bilateral e sua avaliação, descentrar-se do ex-Império como vector de actuação quasi-único, modernizar o olhar sobre o desenvolvimento, "desretorizar" o discurso. Ou seja, deitar fora a água do banho lusófono, aproveitando para o borda-fora do bebé neo-colonial. Pois só pode ser neocolonialista quem tem unhas para essa guitarra].
Repito-me, neste contexto não são estas diferenças (que se bem discutidas talvez sejam facilmente ultrapassáveis) com os Bazongueiros que quero referir. Estou aqui para chamar a atenção para o referido texto. Pois em momento de botaabaixismo português é da mais elementar justiça, e também de aviso exemplificativo para o futuro, referir que sob a tutela do Ministro António Monteiro a cooperação portuguesa (e falo em particular - e infelizmente pois deveria ser apenas sinónimo - do Instituto Português de Apoio ao Desenvolvimento) reassumiu rumo (e de que maneira), energia e racionalidade.
Como diz o Mussele o Ministro "não teve tempo". Diz e lamenta. E eu repito e lamento, "o ministro não teve tempo". Que o seu exemplo oriente, é o meu desejo. E daqui ficam as saudações, que nunca lhe chegarão, de um modesto bloguista, e os agradecimentos de um idêntico cooperante.
O sociólogo Elísio Macamo acaba de abrir o Ideias, um novo blog moçambicano. Saudações e bom bloguismo.
misturar é banalizar, apartar é desvalorizar.
A propósito da efeméride, e porque o horror é hoje, breve memória do mais eficiente e popular holocausto.


Nunca esquecer é nunca banalizar.
Despertado por 1, 2, 3, 4, 5, 6, 7, 8, 9, 10, 11, 12, 13, 14, 15, 16, 17, 18, 19.
Das distracções na RTP-África [isso já não surpreende o cliente habitual]. A preguiça não é só no serviço público. Agora retransmitem os jogos transmitidos pelo canal desportivo pago (SporTV): ao intervalo os rapazes continuam no ar, falando livremente, disso inconscientes. Ainda não ouvi nada de escatológico. Mas não deve tardar.
[Alertado e inspirado pelo texto 3M do Planeta Reboque.]
Apelo a que a verdadeira cerveja nacional
abandone essa sigla, resquício do período colonial na sua memória de Mac Mahon.
E que se promova em 3M, assim homenageando a garra e o talento do presente, exemplo do futuro.

MARTINHO MARTINS MOCANA (Paíto)
Após a bola de ontem estive a ver o Prós e Contras, programa televisivo, dedicado à "reforma do sistema político" português. Ali políticos e académicos, desses virados para a "coisa política". Respeitáveis (entre eles António Costa Pinto, meu professor há mais de vinte anos).
Do teor nada digo, haverá gente mais avisada. Mas do meu incómodo, entristecido, algumas palavras. Sem ponta de ironia.
Porquê o monocromatismo dos homens portugueses? Por que raio de serôdio comunitarismo todos se apresentam de fato azul, camisa azul e, quase quase sempre, gravata azul. Que moralismo colectivista os obriga a representar a "respeitabilidade", a "decência", o "estatuto" através de tão estreito espectro cromático? Que "loja secreta" de modistas e retrosarias controla as mentes públicas do meu país?
Estas assim parodiando as criancinhas, coitadinhas, irmanadas nos velhos bibes. Depois, nó da gravata ajustado, lá afirmam as diferenças. Que estão assim implicitamente negadas. E fazem soar as suas propostas reformistas, também essas explicitamente negadas, tamanha a visível acomodação. Uma acomodação que negariam se confrontados, dizendo-a apenas questão de bom gosto (o tal moralismo comunitarista). Mas que não passa de uma acomodação sujeição aos stocks de retroseiros e modistas. E um bom gosto que será diverso em breve, pois para o ano outros stocks surgirão na mala dos vendedores-ambulantes entretanto chegados à vila.
Ontem, entre políticos, académicos e ex-políticos [agradeço se alguém me conseguir explicar o lugar social privilegiado de Ângelo Correia, para que se compreenda a sua perenidade, até excêntrica], havia uma (salutar) excepção. Aleluia! Um comunista que apresentava uma "escala cromática" (a evitar o galicismo) horrível, entre o castanho e o cinzento claro. Mas pelo menos diferente.
Logo imaginei um texto sobre o assunto que seria uma "declaração de voto no PCP por motivos cromáticos" (antes aquele muito feio do que o igualzinho timorato, seria o meu fundo ideológico). Mas ouvindo o pobre homem logo morreu a ideia: afinal antes azulinho que tanta pobreza (caramba, que aconteceu à vanguarda da classe operária?).
Nota: para quem ache fútil esta argumentação ligue um canal francês, p.ex. E veja como algum pluralismo cromático não implica um radicalismo intelectual, um extremismo político ou qualquer terrorismo. Nem a pertença a alguma "gaiola de loucas".
E, para quem viu o programa, não refira a senhora ali presente. Muito bem, pelo menos com a capacidade de se irritar com a indescritível "moderadora". Mas vestida de preto - e há lá mais padrãozinho nazareno?
Adenda: um parco sorriso e abraço ao WR. [eu também me queria armar em José Gil, a propósito de um jogo de futebol]
Outra Adenda: obrigado pelo esclarecimento.
tantos anos numa terra outra e fica-se um bocado dela.

MAMBA
Adenda: Foi isso mesmo.
Isto de fazer quarenta anos tem que se lhe diga, pelo menos digo-o eu. Não sei bem, algo de fim de etapa, prescrição do descuido, o som de qualquer coisa que está, afinal, cada vez mais próxima. E foi rápido tudo isto. Ontem antevi o que é morrer no estádio. No estádio do meu sofá, sozinho.
O estertor foi nos comentários do Xicuembo. Hoje ressuscitado lamento-o, devia ter sido intra-muros. Tudo o que lá escrevi pensei-o, talvez alterado por confusos fluxos sanguíneos. E penso-o, já menos arritmado, sob mais suaves (e cobardes) formas. Mas teria ficado melhor escrevê-lo aqui. Não só por galhardia e educação, mas porque o Carlos Gil não tem nada a ver com aquilo.
A ver se consigo escrever sobre isso. Sobre como posso (entre)ver o meu país através de um jogo de futebol.
E, lembrando-me que já no Portugal-Inglaterra não me senti lá muito bem, deve estar na altura de deixar de fumar. Ter uns cuidados. E, se calhar, mudar de amores. Destes, das bolas e das pátrias (mas haverá algo mais inculcado do que isso?).
O final do Bloguítica.
Um blog que fica para lembrar, um marco neste período (talvez mais curto do que hoje parece) "bloguístico" das formas de expressão e comunicação.
O Bloguítica levantou-me sempre uma interrogação. A dos limites do amadorismo no blogar. Como se pode manter um blog actual, analítico e informativo sobre política, esse ruído constante, num projecto não-profissional? Decerto com exaustão. E com muito prazer.
Interessante que se retire no meio (real) de uma campanha eleitoral.
Felicidades extra-blog ao seu autor, Paulo Gorjão.
Ao longo do tempo tenho recebido via email, via comentários, ou até (suprema honraria) via posts alhures, algumas críticas às minhas botaduras políticas. As quais acato, claro está. E agradeço, quem critica visita, dá-se ao trabalho de clicar para aqui.
No coração dessas críticas está a minha mania de igualar os políticos portugueses, de os "achar todos iguais". Como disse acato as palavras, mas não concordo, não penso isso. E tenho aqui um belo exemplo para o provar, um patrício político que muito aprecio.
Então cito o jornal Público, edição de hoje, a propósito da distribuição da fotografia do PM português por todas as juntas de freguesia. Nesta edição se ecoam as palavras "[D]O social-democrata que encabeça Rebordãos, em Bragança, tem ainda menos papas na língua: "A foto foi para o arquivo, como as dos outros [anteriores primeiros-ministro]. Eles se quiserem mostrar-se que venham cá". Grande homem!
Sem ponta de ironia.
Rodapé inquiritivo: o meu dicionário não tem, no prontuário não me desembrulho, o visitante Ortógrafo Ortodoxo desapareceu, que hei-de fazer quanto ao plural de "primeiro-ministro" que tenho tanto de certeza como de desagrado sonoro?
Cá de longe, e apesar da conubial e festejada aliança tv com satélite, não se alcançam esses debates televisivos entre os homens-cabeça dos partidos portugueses. Curioso, persigo os ecos de tais contendas neste campus blogus.
Fico-me à deriva. Pelos dextrímanos sei desse campeão Portas destroçando o vil Louçã, para logo de seguida, voraz e com desarrincanço, enviar arriba abaixo o velho Jerónimo. Noutras paragens, daquelas canhas, louvam-se a acutilância de Louçã, qual Átila devastador de Portas (apesar dos [a]pesares...), e ainda a rochosa presença de Jerónimo, afinal ele mesmo qual arriba. E estamos ainda nos começares dos andares. Deix(t)o-me pois a imaginar futuras lendas e narrativas.
Apraz-me a companhia de tanto velho feiticeiro, queridos colegas, e comove-me ver emergir esses recém dotados para estas artes do influir, assim sabendo-as imorredoiras. Sim, creio nesta eficiência,

mas não sendo conservador, ciente do pequeno algo que vai mudando, muito me entusiasma o uso destas novas técnicas nas nossas maneiras,

hoje de tecla em tecla criando imagens e palavras condizentes, tão filhas dos nossos desejos, logo instalando-as em ecrã luzidio. E, saibam, será assim o mundo como nós o sonhamos, o queremos, sob esses para quem "trabalhámos". Contra outros, protegidos por esses "falsários", meros charlatões, gentes sem poderes que apenas amesquinha a nossa profissão.
O Lutz, um alemão já meio tuga e/ou um tuga quase alemão, que tem o excelente Quase em Português
Não venho aqui qual justiceiro virginal apoiar o desagrado do Lutz. Elucido, se há preconceito que carrego é essa germanofobia, não apenas via Hollywood e Major Alvega. Lá está, preconceito a combater racionalmente mas aqui e ali a eclodir (violento, lembro-me no meu sofá apelando ao radical genocídio durante o jogo de futebol Alemanha-Portugal em finais de 1997, quando Rui Costa foi expulso pelo árbitro de Vichy, o gendarme colaboracionista Marc Bata, assim impedindo Portugal de ir ao Mundial França-98 em favor dos alemães).
Mas o que neste pequeno "caso" bloguístico acho elucidativo é a contradição colectiva. Se algum lusobloguista escrevesse um texto deste teor num blog mainstream muito lido (como é o Esplanar), usando os estereotipos desvalorizadores/culpabilizadores de judeus ou muçulmanos, negros de darfur ou khoi-san, travestis, budistas, anões, pernetas ou ceguetas, chineses com manchas verdes, putas, gente de fé arreigada ou incoerentes militantes, e tudo o mais que nos venha à cabeça, logo se levantaria um coro de protestos blogosféricos contra tal manifestação de intolerância, de preconceito (e o Ma-Schamba lá estaria, excitadozinho, como ainda a semana passada a resmungar a aceitação alhures do racismo anti-negro em Portugal).
Mas como o preconceito agitado neste caso é "apenas" a fobia aos "fortes" ninguém (a não ser o alemão cá do blogobairro) nota e protesta. Que isto da luta contra os preconceitos (rácicos, neste caso) é apenas para valorizar os desvalidos?
Prova da hipócrita sujeição aos bons costumes ideológicos? Permeável, claro, aos fantasmazinhos de cada um.
Nota: um dos primeiros textos do Esplanar ecoava uma viagem turística algures, a uma ex-colónia qualquer de um colono qualquer (não me lembro). A nota humorística de então era do género "que bom é o colonialismo" (presumo que por o autor se ter instalado num qualquer "resort" do tempo colonial e ser acolitado por uma série de empregados que lhe fariam lembrar os filmes sobre o tempo colonial). Por cá deixei uma nota com ligação género "o humor inteligente é difícil". É, e pelos vistos não se aprende com o tempo.
Só agora o descobri, um blog sobre Moçambique aparentemente já encerrado: o Crónicas de Maputo, três meses aí. Pode ser que volte.
Adenda: em comentário pus, e para aqui trago, "insisto, se a gente lá deixar nosso testemunho o homem pode ser que reanime".
Leio, em pequena nota de jornal de fax, notícia da publicação em Portugal do novo livro de Luís Carlos Patraquim: "O Osso Côncavo e Outros Poemas" (Editorial Caminho). Se não estou em erro o primeiro livro desde "Lidenburgo Blues", já de 1998. Talvez...
Fica-se aqui à espera. A ver se alguém o faz aqui chegar mais depressa do que o "Manual das Mãos", a última obra de Eduardo White, saída há meses em Portugal pela Campo de Letras, e que só agora encontro aqui, em dois escaparates (mas só nesses dois).
ocorre-me perguntar, na sequência da entrada abaixo (mera associação de ideias).
Política de imigração e de vistos? Que fazer? Porque é que é tão difícil para os moçambicanos obter um visto de entrada em Portugal? Quando a emigração moçambicana para Portugal é tão reduzida (o moçambicano emigra para a África do Sul. Os poucos que iriam para a Europa não procuram Portugal na sua maioria, e os que procurariam entram na categoria "brain drain", e a esta não se fecham portas em lado nenhum, como bem sabemos).
E falo de dificuldades também de gente costumeira por lá. Estudantes, ex-estudantes, lusodescendentes, empresários, artistas (então artistas plásticos a viajarem para exposições é um cabo dos trabalhos, sei-o bem), professores (idem), jornalistas (idem). E, claro, dos que não são costumeiros mas até poderiam vir a ser.
Schengen, a União Europeia? Decerto que é isso, um poderoso obstáculo às nossas relações privilegiadas, lusófonas, não será assim? A U.E., nisto malévola, a prejudicar as relações portuguesas com África. Invejosa do nosso luso-tropicalismo, perdão, afecto lusófono.
Sendo assim por que será que as pessoas vão às embaixadas nossas vizinhas, onde é tão mais fácil e rápido obter vistos? Para logo voarem para Lisboa. Da qual regressam a sua casa, quando acabado o que tinham para fazer.
Pois, vistos dados por países europeus relapsos nestas questões, sem a experiência de vagas de imigrantes, dirão. Claro, Espanha, Holanda, França.
Aberrante.
Dirão logo, os vistos não são coisas de programas de partidos, nestes estão coisas mais vastas, englobantes, orientadoras, "estruturantes" (bela palavra, comovedora até). Claro, já imagino por lá, a "bold" até o "apoio ao desenvolvimento do ensino da língua portuguesa", o "reforço da cooperação multilateral na CPLP", "a coordenação do apoio à internacionalização das empresas portuguesas". E coisas assim.
Claro, Espanha, Holanda, França....
Adenda: isto, ressalvadas todas as diferenças, parece saído de um post do Super-Blasfémias (e com a deselegância do sem ligação). Não, talvez apenas o mesmo molde. Ou será o inconsciente colectivo?
Surpreendem-se (sei que retoricamente) os companheiros do Bazonga da Kilumba sobre a exiguidade e superficialidade das referências à política externa africana nos programas dos grandes partidos portugueses.
Apesar do tudo não deixa de surpreender (não retoricamente). Não deveriam os partidos do poder ter algo mais sobre o exercício do poder?
Um sorriso amigo para eles, os bazongueiros claro está. E este é um assunto a regressar, claro.
Adenda: tal como pedi no Bazonga, será que alguém me poderá enviar os endereços dos tais programas políticos?
Criei novas categorias: "Treinador de Sofá", onde integrarei a minha bílis anti-sistema e o ainda maior e irracional desespero anti-Peseiro (afinal vamos à frente, o Sá Pinto é o maior e o Tello já dá golos a marcar); "Diário de Leituras", onde irei guardando as minhas memórias do que leio e gosto, ainda que eu não seja hábil hermeneuta. Esta última servir-me-á de memória, e talvez empurre algum leitor, em vendo o jeito e gostos cá de casa, a botar conselhos. E a dizer-me o que não terei percebido ou sentido.
Via o excelente Beco das Imagens chego a um curto mas incisivo artigo de João Miguel Tavares sobre Milo Manara, onde muito bem se salienta o excelente, e nele cume quando só, "O Homem de Papel". E minhas saudades, livro em Lisboa.

(Milo Manara)
Artigo que me vem muito a propósito, a semana passada aqui com o objecto "As Mulheres de Milo Manara" na mão e, afinal, a deixá-lo no escaparate. Chão que deu uvas todo aquele "mulherio".
para quem regresse e note pela falta de algo, acabo de apagar uma longa entrada e coloquei-a nos comentários ao texto
"a engolir o cepticismo". Ali está mais aconchegada.
No início deste campeonato português (qual Superliga qual carapuça), confrontado com as mudanças ocorridas em Portugal nas transmissões futebolísticas, aqui deixei as minhas preocupações com a continuidade do acompanhamento via RTP-I e RTP-África da bola lusa. Essa que é aconchego para imigrantes. E o grande laço com os países antigas colónias. Preocupações essas que então tiveram eco em alguns amáveis bloguistas.
Lembrando essa amabilidade, e chegados a meio do campeonato, aqui notifico sobre o assunto. Nunca se viu tanto futebol. As RTP-I/África transmitem o joguinho semanal. A cadeia moçambicana outro (às vezes em simultâneo), tal como a televisão angolana (esta por vezes até mais do que um jogo), aqui retransmitida via TVCabo.
E desde há algumas semanas esta TVCabo transimite no seu canal 1 quatro ou cinco jogos por semana. Ou seja, bola que se farta. (E efeitos do fim do reinado RTP?).
Aqui os i/emigrantes agradecem a escalfeta (ainda que o calor aperte, apesar das chuvadas). Agora vou ver o meu Sporting. E logo a seguir o Porto. Depois de ontem ver o Benfica. E antes o Boavista...(que vergonha).

O Mural de Malangatana no edifício do Centro de Estudos Africanos, ali à frente do meu estaminé, reproduzido em postal da Universidade. E com meus desejos que o mural vizinho, realizado em 1998 por Bento Carlos Mukezwane, falecido no ano seguinte, e por Ciro Pereira venha a ter a mesma divulgação.
Até pela merecedora memória do Bento.
A engolir o meu cepticismo aqui vertido, referindo estes textos no Avatares do Desejo, no Os Tempos que Correm e, muito em especial, no A Natureza do Mal.
Adenda: um comentário do leitor Mário Cordeiro no Abrupto resume e mata a questão.
The Coming of Wisdom With Time
Though leaves are many, the root is one;
Through all the lying days of my youth
I swayed my leaves and flowers in the sun;
Now I may wither into the truth.
Embora muitas sejam as folhas, a raiz é só uma;
Ao longo dos enganadores dias da mocidade,
Oscilaram ao sol minhas folhas, minhas flores;
Agora posso murchar no coração da verdade
(Yeats, tradução José Agostinho Baptista)
Poderes mágicos do Ma-Schamba? Ou mera empiria?
Há um mês escrevi, e há muito que o penso, este texto lembrando o futuro (a curto prazo) do meu país. Hoje fizeram-lhe um elo [link] [texto abaixo transcrito].
É o pós-folclorismo.
Portas Admite Entendimentos com Socialistas
Público
Sábado, 22 de Janeiro de 2005
No mesmo debate em que ouviu Francisco Louçã recusar-lhe o direito de falar sobre aborto por não ter filhos, o líder do CDS, Paulo Portas, admitiu ter entendimentos com o PS, desde que seja para defender "valores fundamentais", como a política de defesa ou de relações externas.
""Vamos ler a vontade dos portugueses. Em princípio o PS tem os seus aliados naturais e não está à espera que o seu aliado natural seja o CDS-PP, mas há valores essenciais que eu defenderei sempre", disse Paulo Portas, para quem "a política de defesa ou internacional não podem ficar dependentes do PCP ou do Bloco de Esquerda", pois estes partidos defendem a saída de Portugal da NATO e são contra o Tratado de Constituição da União Europeia.
Portas, contudo, fez questão de salientar que "o CDS tem um aliado natural que é o PSD", enquanto os "aliados naturais" do PS são o BE e o PCP
O Futebol Português está todo "abaixo de Braga".
Escrevendo na terceira pessoa? [leia mesmo meu caro]. Se o ridículo votasse ganhava.
PS. Também lá cheguei via o atento observatório. Mas para não voltar, que "panfleto Pingo Doce", credo. [ainda haverá panfletos do Pingo Doce? desses sempre intrusos nas caixas de correio reais?]
Eu sei que prometi a mim mesmo não maschambar política portuguesa, que me torna ácido, me cansa e, acima de tudo, me desblogueia. E há tanto teclado nisso, e ainda bem que a política é dos cidadãos e não dos mandarins, para quê mais um, ainda por cima agricultor incompetente.
Mas ao ler notícia sobre o debate entre Portas (Paulo) e Louçã [abaixo transcrito parcelarmente, corte para demonstrar o que interessa] não pude deixar de gargalhar mudo, esta é deliciosa. O Prof. Francisco Louçã a falar assim? Ajoujado aos preconceitos, o "quem não é bom pai não é do Benfica?".
Até dá vontade de ir clicar o bloguismo BE, decerto a esta hora almoçal já estão cheios de críticas ao reaccionarismo do homem. Iradas. Indexadoras. Denunciando o "discurso de direita", afinal esse antanho lá no âmago.
Ou talvez não, que isto de ir ao fundo não cabe no "girismo". Adivinho silêncios, que não serão hipócritas, serão sim naturais naquele vazio.
"Quer ser califa no lugar do califa?". Então Má Sorte, é o que se deseja.
Urghh...que gente!
Debate televisivo entre líderes do Bloco de Esquerda e do CDS/PP
Portas e Louçã travaram debate aceso a propósito do aborto e da banca
Lusa
O líder do CDS/PP, Paulo Portas, e o dirigente do Bloco de Esquerda (BE) Francisco Louçã travaram ontem à noite um debate aceso na SIC Notícias, com troca de acusações a propósito do aborto e da banca.
No final do debate, que durou cerca de uma hora, Paulo Portas acusou o BE de não defender o direito a nascer e Francisco Louçã reagiu, argumentando que o líder do CDS/PP "não tem direito a falar de vida".
"Há uma vida que tem o direito a nascer ou não, de acordo com o BE não tem, de acordo connosco tem", disse Paulo Portas, para justificar a posição do CDS/PP a favor do "actual quadro legal" que penaliza o aborto com pena de prisão de até três anos.
"Não me fale de vida, não tem direito a falar de vida", interrompeu o dirigente do BE.
"Quem é o senhor para me dar ou não o direito de falar?", protestou Paulo Portas, levando Louçã a responder: "O senhor não sabe o que é gerar uma vida. Eu tenho uma filha. Sei o que é o sorriso de uma criança".
....
Está um homem a ler blogs na manhãzinha e tem cada associação de memórias!, assim um velho single lá de casa a vir-me aos ouvidos. E eu a gostar tudo.
Wandrin' Star (Lee Marvin)
I was born under a wandrin' star,
I was born under a wandrin' star.
Wheels are made for rollin'
mules are made to pack.
I've never seen a sight that didn't look better looking back.
I was born under a wandrin' star.
Mud can make you prisoner, and the plains can bake you dry.
Snow can burn your eyes, but only people make you cry.
Home is made for comin' from, for dreams of goin' to,
which with any luck will never come true.
I was born under a wandrin' star,
I was born under a wandrin' star
Recordando Jovens Agricultores de Elevado Potencial.
Ouvi há pouco, neste manejar da língua que aqui dá azo a tantas novas conceptualizações: "lambe-botismo".
[A propósito de uma chamada de atenção no Quase em Português].
Regra nº 1, dogma mesmo, do Ma-Schamba. Nunca misturar trabalho com blog. [até para não aborrecer mais as visitas]
1ª e última excepção: hoje, aqui.
Mês de "férias", a escrever e a preparar aulas. Algumas para caloiros de cursos outros. Livro novo, um quase manual (enviesado, ainda para mais), desses que talvez possam ajudar a enquadrar os textos a discutir: James Rachels, Elementos de Filosofia Moral (Gradiva, 2004).
Salta-me uma formulação passível de bloguice. Não por sacralizar a palavra impressa (ainda para mais uma palavra que absolutiza a "razão", mas para isso é melhor ler). Apenas porque me lembrei dessa questão bloguística:
"A concepção mínima ...[de] moralidade é, pelo menos, o esforço para orientar a nossa conduta pela razão - isto é, para fazer aquilo a favor do qual existem as melhores razões - dando simultaneamente a mesma importância aos interesses de cada indivíduo que será afectado por aquilo que fazemos."
Criticável. Utópico? E, repito, manualesco. Mas também incompatível com construir condomínios onde os negros não podem viver, só porque isso apetece aos condóminos, só porque estes não gostam de viver com negros.
Um antropólogo muito conhecido, Levi-Strauss, escreveu um dia uma formulação grávida, e muito citada desde então: "O bárbaro é em primeiro lugar o homem que crê na barbárie".
Eu sou um bárbaro.
A Raquel do Percepções do Meu Olhar pergunta o que é um portulano. A resposta, sucinta, pode ler-se aqui.
Complemento com "...vai surgir nos finais da Idade Média uma nova, e verdadeira, cartografia, com o aparecimento e difusão nos séculos XIII-XIV da chamada "carta-portulano" mediterrânica (note-se que a designação correcta é a de "carta-portulano", e nunca a de "portulano" - pois os portulanos mediterrânicos não eram representações cartográficas, mas sim relatos sob a forma de texto escrito, tipo roteiro)"
(Alfredo Pinheiro Marques, A Cartografia dos Descobrimentos, ELO-Publicidade, Artes Gráficas, 1994, p. 19)

(Carta Portulano Benincas Graziosa, sec. XV)
Vai animado o debate interno no Blasfémias. Sobre a minha mescla de interesse e desconforto com esse blog já arenguei (e também aqui e aqui, então a propósito de uma referência a Moçambique com a qual discordei).
Cá de longe, e metendo a colher em lar alheio, a discussão parece-me clara. Trata-se de um debate entre quem tem uma teoria de inteligibilidade do mundo e lhe interroga os limites e quem tem uma teoria de inteligibilidade do mundo e não lhe interroga os limites. E, independentemente dos saberes retóricos (conjunturais) e dos poderes de vinculação (idem), na história temos assistido a que é mais profíqua (ou, se se preferir, mais lucrativa) a interrogação constante do que a asserção constante. Di-lo até, e de modo brilhante, a epistemologia liberal.
Quanto às monocausalidades parece-me óbvio que, para além das críticas teóricas, foi a própria realidade empírica do final do século passado que as enterrou. Serão hoje, quanto muito, almas penadas do pensar.
Felizmente a ortodoxia não vinga, pelo menos no médio prazo. O resto são meros entusiasmos.

Aqui referi Leite de Vasconcelos, a propósito do Ideias para Debate ter inaugurado com a apresentação do seu "Testamento Político".
Ainda o cheguei a conhecer, muito superficialmente, um mero encontro em 1996, proporcionado pelo Camilo de Sousa e pela Isabel Noronha, seus muito amigos. Confesso que na altura tinha uma ideia muito vaga sobre com quem me ia encontrar. Quando, no ano seguinte, regressei a Moçambique ele tinha morrido muito recentemente. E só depois fui entrevendo o facto de ele ser aqui uma referência, junto de um determinado meio.
Para quem dele não tenha ideia aqui fica uma pequena imagem, sem que tenha eu possibilidades e conhecimentos para mais profundo olhar (se algum leitor quiser contribuir/emendar será muito agradecido). Mais como memória reconhecida de uma esclarecida conversa. E homenagem a quem, sendo homem de ideologia forte (e outra) a mesclou com a lucidez corajosa de um dia escrever
...
No fundo, meu amigo, à sombra temos medo
e mais medo ainda de confessar ter medo
e ainda mais de confessar de quê.
Anunciar um povo era exaltante,
mas pertencer-lhe é muito mais difícil.
("A Espera")
Filho de quadro superior de empresa algodoeira foi nascer a Arcos de Valdevez (1944), cresceu até aos 11 anos em diferentes localidades em meio rural, indo depois para Lourenço Marques estudar num colégio marista. Estudou em Portugal nos anos 60. Entrou para o Rádio Clube Moçambique em 1969, de onde foi expulso em 1972, tendo então regressado a Lisboa depois de uma passagem por Londres. Diz, em entrevista a Michel Laban (Moçambique. Encontro com Escritores, Fundação Eng. António de Almeida, 1998), que em Londres tentou junto da Frelimo seguir para a guerrilha na Tanzânia, tendo sido enviado para Lisboa. Trabalhador inicial do jornal Expresso. E na Rádio Renascença criou o programa "Limite" onde passou a senha musical (Grândola Vila Morena, de José Afonso) sinalizadora do início das actividades do 25 de Abril de 1974. Regressado a Moçambique em 1975 aí continuou carreira na rádio, também jornalista, foi delegado da AIM em Joanesburgo durante dois anos em meados dos anos 80, cronista político, dramaturgo e actor, professor, presidente do Conselho Deontológico da Organização de Jornalistas.
Publicou poesia em jornais, na revista Caliban (Lourenço Marques, 1971/2; reedição facsimilada Instituto Camões/Maputo, 1996). Está presente nas antologias "A Palavra é Lume Aceso" (organizada por Manuel Ferreira ???), "Caliban" (organizada por Manuel Ferreira), "Antologia da Nova Poesia Moçambicana" (org. Fátima Mendonça, Nelson Saúte, Maputo, AEMO, 1988), "Nunca Mais é Sábado. Antologia de Poesia Moçambicana" (org. Nelson Saúte, Lisboa, D. Quixote, 2004), "As Mãos dos Pretos. Antologia do Conto Moçambicano" (org. Nelson Saúte, Lisboa, D. Quixote, 2000), "Gostar de Ler" (org. Bruno da Ponte, Maputo, Tempográfica, 1981).
Publicou em vida um livro de poesia, Irmão do Universo (Maputo, AEMO, 1994). Postumamente foram publicados Resumos, Insumos e Dores Emergentes (Maputo, AEMO, 1997; poesia), Pela Boca Morre o Peixe (Maputo, Associação dos Amigos de Leite de Vasconcelos, 1999; crónicas publicadas no Mediafax em 1995-96), As Mortes de Lucas Mateus (Coimbra, Cena Lusófona, 2000; dramaturgia) e A Nona Pata da Aranha (Maputo, Promédia, 2004; contos).







O seu conto "O Lento Gotejar da Luz" originou o filme O Gotejar da Luz de Fernando Vendrell, com argumento também de sua autoria.
Leite de Vasconcelos é apontado como um nome importante da lírica moçambicana, especialmente vincada em Irmão de Universo. Mas aqui deixo alguns poemas talvez outros, de uma poesia visão do mundo.
Lição de Biologia
No reino animal
não há cores necessárias
mas animais do reino
utilizam cores convenientes.
É velho o mimetismo
sabido de animais sem raciocínio
que atacam uns e outros se defendem
nunca (curiosamente) por a cor ser aquela
ou outra diferente
mas porque se defende ou apetece
a carne submersa em qualquer cor.
Resulta disto o simples corolário
de ser conveniente a certos apetites
usar o mimetismo e abocanhar
em nome duma pele
a pelo e o resto de quem passa perto.
Jogos de luz de pronto se diriam
estes que na luz entretecem
cumplicidades de cores
não fossem os hábitos sombrios
destes predadores.
Tantos mais que se conhece
serem daltónicas as suas fomes
pois notícia não há de que algum
rejeite por almoço
um animal da sua mesma cor.
Diferencia-os o diâmetro das fauces
o grau do apetite é rigorosamente infindo.
E isto os mata
que não há digestões
para fazer o quilo de tais fomes.
Inevitavelmente, os sáurios empaturram
e, de comerem sempre,
ficam duma cor definitiva em todos os mortais.
(Irmão do Universo)
Facocero
Bem tentaram
dar-lhe parentes nas Ardenas
e caçá-lo como javali
Não foi assimilado
Sempre preferiu
não ser caçado
Búfalo
Um manso boi em estado solidário
Temam-lhe a revolta
de estar ferido
ou ser abandonado
Então torna-se um homem
Juiz
Caracol de toga e de registo
o mais prudente
intérprete de Cristo
Atira só a derradeira pedra
Cristão
....
Piedade para o cristão Piedade para ele
que tem um só deus entre tantos demónios
e piedade também para esse deus exausto
que entrou num homem porque queria morrer...
A Pele
(em tempo de reestruturações económicas,
reconversões tecnológicas e outras actualizações)
Papel de embrulho
feito
software
Até entrever o fim em
Receita para uma infracção
Toma nas mãos uma manga
desses que verdes o Knopfli sente
na infância do palato
Tens cinquenta anos
dois rins em greve até à morte
e um que pertenceu a alguém que desconheces
e por morto não soube a quem doou
a faculdade de mijar ainda
...
Tomas uma verde manga como um rio
uma simples manga de Novembro
de ti para ti transplantada
nos dezembros da vida
(Resumos, Insumos e Dores Emergentes)
Nota: informações bio-bibliográficas obtidas em "Irmão do Universo", "Resumos, Insumos...", "As Mãos dos Pretos" (org. Nelson Saúte), "Pela Boca Morre o Peixe" (texto introdutório de Machado da Graça) e na entrevista a Leite de Vasconcelos inclusa em "Moçambique. Encontro com Escritores", de Michel Laban (referências bibliográficas acima).
Um post no prelo, nunca tinha visto, uma delícia.
O meu blogoamigo (e não só) Lagoa lamentou-se da sua incapacidade tecnológica (grave num engenheiro) para instalar o hoje canonizado Geoloc. Até em nome de um passado comum algo suspeito, de imediato procurei ser-lhe útil, o que ele logo manifestou não ser suficiente. Com a celeridade da amizade multiplicada pela saudade logo ali lhe respondi. Mas, precavendo a insuficiência desta minha abordagem aqui a transcrevo na sua original versão "comment", para o caso de alguém poder ser mais útil ao merecedor Apenas Mais Um:
"Tá-se mesmo a ver que não lês o Abrupto, ficaste a ver estrelas, aliás planetas [e aqui aproveito para concordar com o pérfido Altino, cheira-me que o calhau serve que nem ginjas para o jpp não ter que falar de política em período de eleições, espartilhado entre psd e ppd. mas vamos ao que importa]. O Geoloc não era usado até há algum tempo, eu próprio coloquei-o há meia dúzia de semanas descoberto em algum blog, depois de o ter visto algumas vezes [digo-te agora, passado este tempo que o acho um bocado irritante. Aliás o espanto é um bocado bacoco, o extreme tracking também te dá a origem geográfica mas não tem mapa - a rapaziada é (somos) toda infantil, gosta é de bonecos]. Bem, regressemos ao que importa - de repente o JPP instalou e ecoou as maravilhas eróticas do Geoloc e toda a gente foi a correr, qual sonda astronautica. Daí o meu remoque, que isto vai por modas [eu também fui, só recebi o catálogo Maconde - a loja, não os moçambicanos - por outro portador]. Deixa-te de coisas e esquece o raio do mapa-mundi. Olha, instala um portulano, é mais fino.
Ok, Machado, o diagnóstico está feito nesse "Fasquia Alta" do Roberto Tibana.
E agora, já no blogoinício? Causas e futuro? Como e como?
então aqui fica. Quando li Torga nada gostei, nesses tempos de tardia puberdade arrastada ao limite. Daí que nenhum extracto de obra aqui traga. Depois, já trintão voltei-lhe aos contos, sei lá como. E depois à poesia. E ao diário (porquê o plural em algo que é absolutamente uno?). A melhor prosa em português ao meu paladar.
Não sou gente da literatura. Apenas cliente. Ao meu gosto e dos amigos. E, aqui e ali, das capas de livros. Não que despreze teoria disto, apenas não a sei. Presumo que como muitos outros leio e associo [reli há dias "Os Cus de Judas" de Lobo Antunes, vinte anos depois. Está lá a nota a lápis esbatida, e lembro-me de a ter escrito, "isto é Fitzgerald. Terna é a Noite, e algo há entre os 2, a lassidão?", mas hoje não a percebi, não a senti, que terei perdido no entretanto? Mas na página a seguir está lá, o homem a escrever: "...talvez o meu irmão Scott Fitzgerald, que o Blondin assemelhava a um três quartos ponta irlandês, se sente a qualquer momento à nossa mesa e nos explique a desesperada ternura da noite e a impossibilidade de amar...", e também me lembro do meu espanto na coincidência, se é que o foi, que acho mais ter sido um cheiro qualquer que terei então detectado].
Este inútil arrazoado vem a propósito da admiração que tenho por Torga. E de o ter reencontrado, também sei lá porquê, exactamente assim, na obra de Ruy Duarte de Carvalho, esse com que abri este local. Sem teoria, talvez apenas das noites assim de fingir solidão. Cruzando gigantes, os meus gigantes.
A agradecer a gentileza do Pantalassa. Que ao longo do ano morto nos trouxe Timor. E nisso a mim um bocado de tantos amigos que por lá têm passado, esta gente do mundo da "cooperação". E a lembrar-me, até envergonhado, da arrogância própria com que me neguei o também para lá.
Um blog com um nome porreiro: O Povo É Bom Tipo.
[A propósito da efeméride recente, o centenário da edição do D. Quixote, uma pequena historieta, dessas sem qualquer moral a poluir.]
Há anos, um bom par já, acampei em mesa de letras e alguns líquidos também. Aqui aprendi que as palavras são como as castanhas de caju, e foi nesse frenético rumorejar que fomos saltitando até à literatura portuguesa, são estes os riscos de partilhar fins-de-tarde com académicos até renomados. E nisso fui eu, e sem o querer pois ali mais preocupado com o meu dessedentar, logo ali promovido a representante da cultura minha nacional, coitada, coisas de passaporte, pois claro. Eu bem que o percebi, mal começaram os encómios e reparos aos escritores, em particular a esses novos, olhares e baforadas de cigarros desviaram-se mais sobre mim à espera de concordâncias e anuências, como se estas, e logo as minhas, valessem de algo nisso que é mais dos gostos, acho eu. Plantei-me no silêncio, nesses silêncios esconsos dos "hum, hum...", “pois!”, "sim, sim", mas ainda mais dos jogos de sobrancelhas e meneares, ainda que estes másculos assim o espero. Isto a ver se tudo passava, saindo eu incólume. Mas logo me irromperam, enérgicos na exigência da sentença, sorridentes impiedosos num "E que achas do José Riço Direitinho?", ele ali a ser elogiado, e nada pouco. Eu, até quase aflito, lá tive que confessar, abatido, naquela voz rouca do perdão apelado, "he pá, nunca o li", e era apenas constatação, fraco leitor eu, sem nesga de acinte, jurei-o.
Mas o tom de nada me serviu, isto desgraçou-me, o relapso ignorante foi logo sentenciado num “Nunca leste o Riço Direitinho?!!!”, verbal num conviva, gestual em todos os outros, rictos de zanga desiludida adivinhei, insistência nos “como é possível?!”, e logo o coro, um pouco desirmanado é certo, “o Riço Direitinho é fundamental, Teixeira”. E eu ali no sorriso falso a tentar tirar importância ao caso, mas tinha brotado um vulcão de nada de simpatias, a rapaziada encarnara-se jurados implacáveis. Acho que o que me salvou foi mesmo o ror de whiskies já antepassados, súbito empurrando-me para um “olha que caralho! Sim, nunca li o Riço Direitinho, e depois? E vocês (sei lá de que manga fui buscar o trunfo) leram o D. Quixote? Sim, já leram o Cervantes? He, he, não se esqueçam, reparem bem que esse também foi meu compatriota...já o leram, vá?!”. Não há dúvidas, ele há rasgos, magnífica jogada, um silêncio agora alheio, risos até, “nada, nada”, “hé pá, não li, não senhor” e por aí de negativas, essas feitas um espelho de "tens razão". Eu, então já magnânimo do safo que estava, quebrei o assunto, não me lembro exactamente mas conhecendo-me como me conheço devo ter resmungado um sorridente mas repetido “vão-se foder” pedindo nova rodada, articulando as literaturas do gin tónico, do whisky e da 2M, e aqui sem hierarquias de saberes, em especial se condimentadas com o tal já referido caju.
Minto, claro, esta historieta vai com tanta moral que quase se torna fábula, assim animalizando-me. Então, conforme aos cânones, lá vai a súmula moralista: no dia seguinte, meio escondido, lá fui procurar Riço Direitinho no Maputo, já que tão elogiado. Saíu-me um único, o “Breviário das Más Inclinações”, que vim a ler com agrado. E assim protegendo-me de futuras e tão implacáveis mesas.
Este homem não percebe nada de política (externa).
Neste blog, com poucos comentários, é raro. Daí ser de registar que passados alguns dias ainda há troca de opiniões no Traduzir Ícones, texto que dediquei, indignado, à tradução dos nomes dos heróis asterixianos.
- Monty Python na Broadway via O Árbitro das Elegâncias. E as minhas dores de inveja.
- Texto sobre multiculturalismo no Office Lounging. Discordo com algum conteúdo, mas é muito refrescante ver alguém escrever tão para além dos blogoslogans que por aí andam.
- O este ano no Cócegas na Língua.
- O sortido dos últimos dias no Digitalis.
- O sorriso nas bandeiras nacionais do Bazonga da Kilumba.
- Tudo o que é weblog.com.pt de acesso muito lento ou impossível? Ou só aqui? Se sim já assustam tantos problemas seguidos. E chateiam.
Acho que é isso mesmo, caro comensal. Ou melhor, imagino que é isso mesmo.
É de propagandear!
Surge hoje um novo blog moçambicano, coisa bem rara ainda: o Ideias Para Debate.
O seu autor é Machado da Graça, amigo do JPT e colaborador/doador do Ma-Schamba aqui já várias vezes referido, louvado e agradecido.
O Ideias Para Debate quer-se local de debate (principalmente político) sobre Moçambique, algo que muito faz falta, e ainda para mais se e quando feito por gente de cá. Anuncia ainda ter porta aberta para participação alheia.
Apresenta-se, qual manifesto, com a publicação póstuma de "Testamento Político" de Leite de Vasconcelos, um texto com cerca de dez anos, polémico decerto, avassalador talvez. Uma visão explícita, profundamente ideológica, e sem pruridos dos tempos em que se fazia a paz aqui. E que ali se quer válido para o hoje. Um sonoro arranque.
A Machado da Graça, proponente deste moçambicano Ideias Para Debate, apresento-o de modo resumido. Cronista, hoje no semanário Savana e sei que também em jornal de fax (qual? Machado...), editor/proprietário da Promédia (cujas edições têm aqui vindo a ser referenciadas), editor do semanário sarcástico "Sacana" (incluso no Savana), homem de teatro, tradutor, premiado autor de literatura infantil (que a Carolina ainda não tem), ao que sei dado a bricolage, amante de BD. E decerto outras coisa mais, quem as souber denuncie sff.
Aqui deixo imagem daqueles dos seus livros que possuo, exceptuando a já aqui apresentada iconoclasta, deliciosa e rarissima edição de autor de "Lourenço Marques. Panoramas da Cidade. Vistos, em 1929, pelos fotógrafos ao serviço de Santos Rufino. Revistos, em 2001, por Machado da Graça". Exceptuando apenas para não misturar registos, pequena auto-censura não desvalorizadora que o autor decerto me perdoará:

A Talhe de Foice, Maputo, Associação Cultural da Casa Velha, 1994 (crónicas radiofónicas, inéditas, comunicações, 1980-1992)

Até Ficar Rouco, Maputo, Ndjira, 1996 (crónicas radiofónicas, jornalísticas, inéditas e textos avulsos, 1992-1993)

A Cidade dos Meus Amigos, Maputo, Promédia, 2003 (crónicas radiofónicas, 1996-1997)
Acho que estão criadas as condições para um belo e barulhento blog. Assim sendo, desejos de muitos e bons visitantes. E de muitas ideias e debates! Machado, um abraço.

Chega-me às mãos oferta supreendente de preciosa. Uma agenda de 2005, isso do todos os anos, objecto utilitário sempre desprezado, usar e amachucar. Ainda para mais no agora, tempos do digital. Uma mera agenda?
Nada disso, excelente Agenda a que os Caminhos de Ferro de Moçambique editam para este ano. Uma bela paginação a apresentar fotografias de Funcho (João Costa) sobre o mundo ferroviário moçambicano. Fotografias antes expostas como "Trilhos" na PhotoFesta 2004, e manda a justiça dizer que muitissimo mal expostas pelo autor, uma tristeza de desperdício pensei alto então.

Fotografias nada dos comboios e carris, estas trazem-nos o interior dos caminhos-de-ferro, esses homens com alguns dos seus instrumentos que vão fazendo o comboio avançar, e nisso explicando o lentamente mas também o ir caminhando. E que trazem também os pontos de intersecção, essas tantas estações pulmões de gente e terras. Fotografias estas que nos desvendam, mas com o paradoxo de também encantar, o dia-a-dia do como viajar aqui e do quem como o permite.


Que era belo e sentido o trabalho de Funcho já se adivinhava. Mas com este cúmulo de bom gosto impõem-se os CFM como obreiros de futuro livro destas imagens, destes eles-próprios. Custos e obrigações desta nada "mera agenda".
Muitos blogoescritos sobre a lisboeta Livraria Buchholz, diz(-se) que em dificuldades.[Apesar de cruel - ou talvez por isso mesmo - apreciei os ditos do Planeta Reboque] Apelos à solidariedade clientelar ainda que, ao que parece, a sua situação não seja assim tão escatológica.
Cá de tão longe nada tenho a ver, fiel à(s) Escolar Editora, raro na secular Minerva, resmungão nas careiras Mabuko e Sopress (peço desculpa às respectivas proprietárias mas é verdade dolorosa).
Mas o burburinho buchholziano não me deixa indiferente, regressa-me a um passado cada vez mais longínquo. Confesso que não gosto dessa Buchholz. Não só pela memória daquele traumatizante rito anual do saldo dominical, eu sempre falido ali em busca de alguma(s) pechincha e depois em casa, até traumatizado, carregado de livros afinal sem desconto. Pudera, o resto eram monos e o apetite tinha saído à rua.

Mas o que realmente não perdoo são estes velhos marcadores, constantemente (como hoje, como hoje, daí o textito) a brotarem, surpreendendo-me a meio dos livros, traiçoeiras e arrogantes denúncias desta minha mania de não os acabar, de os produzir bibelots. Maldita Buchholz, a acinzentar-me a auto-imagem.

Porque Lagoa indicia as agruras do Power Point lembro um amigo, há anos, em dia de cansado com toda esta indústria do desenvolvimento, projectos e planos integrados, seminários de apresentação e de avaliação, planificações globais e intermédias, cursos de capacitação e de formação, e o tudo isso debruado a per diem. "Este meu país", corolário dele, "é um país em power point"...
Está claro que hoje em dia os jogadores de futebol recepcionam a bola. Uns recepcionam-na melhor, outras recepcionam-na não tão bem.
Vendo os jogos com mais atenção há até alguns que recepcionam valentes cacetadas.
Alguns recepcionam grandes ordenados. Outros recepcionam ordenados mais modestos. Ao que consta bastantes jogadores de vários clubes têm as recepções em atraso.
Nota: agradeço aos amigos leitores os contributos para esta temática que aqui tenho recepcionado. E de antemão agradeço aqueles que recepcionarei.
Uma livraria em Lisboa dedicada a temas africanos, a Mabooki, sita na Rua João Pereira da Rosa, nº 8, Bairro Alto. Uma vista de olhos pelo catálogo já aqui dei, mas nada como um mexer nos livros. Fica lá para Setembro (decerto que então haverá mais livros). A não ser que os leitores daqui e do atento A Sombra dos Palmares, de onde retiro a informação, os comprem todos.
Nota: o nome talvez seja inspirado cá na terra, até pela cadeia de livrarias Mabuko. Bem sacado então, boa sorte.
Todos os velhos se repetem, geração após geração, "já não há respeito", "já não há valores", a lenga-lenga do "ó tempo volta para trás" mas desafinada.
A "Política Real" é a "Política Real" e há que saber viver com isso, ainda que com alguma parcimónia. Mas isto existe, até é cartografável.

Jorge Sampaio fez-se político contra uma ditadura. Fez-se político numa era de luta pela defesa do direito à auto-determinação dos povos. Ao lê-lo hoje digo "já não há valores", "já não há respeito". Envelheci, eu? Rejuvenesceu, ele? Não sei. Mas já não há valores, já não há respeito.
Não há dúvida, fui eu que envelheci. E mal de mim, a dor dos velhos não é só a idade, é a de acabarem sós.
Áfinàl o Nuno Uárriore ize enchamado à causa de já nã saber bem aquele português mesmo do bom, inculpa-se de estar à muito lá no Geórge.
Distraído he, eu já tinha lhe adevisado. E lhe xovando mais os saberes do hoje agora então us tugas num disem "turismo" na vêz de "voltismo"?
O Complexidade e Contradição chama(-me) a atenção para uma entrevista de José Forjaz, o decano dos arquitectos moçambicanos e director da Faculdade de Arquitectura da UEM, à revista Arquitectura e Vida. Que eu leria com todo o interesse, mas que julgo não ser por cá distribuída (ainda que acredite que algum vizinho leitor ocasional me possa fazer chegar cópia do texto). Ainda assim não deixo de a re-recomendar aos interessados no binómio arquitectura/Moçambique.
A este propósito não posso deixar de lembrar uma sua entrevista ao jornal Expresso, nº 1633 [47 semanas depois ainda se paga para ler, um miserabilismo], então editada sob o polissémico título "Um Ilustre Português de Além-Mar".
Leio Astérix desde antes de saber ler. Praticando a constante revisita. É-me encantadora esta recente jóia,

Astérix e o Regresso dos Gauleses promove-me feliz, pela leitura e por todo o vago antes que me devolve. Um extra-colecção assumido, pequenas histórias algumas ainda do tempo de Goscinny, outras do período (menor, é certo) de Uderzo solitário. Mas, atenção, é da lavra deste último uma Torre Eiffel afinal torre pombal de comunicações em Lutécia, digna de uma selecção asterixiana.

No mínimo são-me 35 anos, também de comunhão colectiva. Dezenas de livros, reedições e reedições, vários fascículos nas revistas semanais. Gerações de leitores apaixonados. Astérix é não só bigger than life, é bigger than history. Crenças e preces nesse panteão irmanado por Obelix, encantado por Panoramix, assustado por Assurancetourix, liderado por Abraracourcix, alimentado por Ordralfabétix, tutelado por Agecanonix. Todos estes sob o olhar de Toutatis.
Por tudo isso tanto me irrita esta desconsideração das Edições Asa, a falta de respeito pelos leitores amantes, esses seus clientes, seus viabilizadores. Com que direito a Asa entrega a tradução de um novo Astérix às senhoras Catherine Labey e Maria José Magalhães Pereira, as quais decidem, à revelia de uma tradição construída de leitura, re-nomear os heróis, veros ícones? Quem serão elas, de que alto nos olham, para nos impingir o chefe Matasétix, o bardo Cacofonix, o deus Tutatis, o peixeiro Oftalmologix, o velho Decanonix?
Está tão medíocre a Asa para querer, anacrónica, regressar aos tempos do Mosquito e do Papagaio? Dignissimos, mas no seu tempo! Vai-nos também oferecer o Tim-Tim com seu professor Girassol [seria Ventoínha? a memória trai-me], e um Milou de estranho nome [que também não me ocorre]?
Não tem a Asa ninguém capaz de tratar com a dignidade necessária um produto monstro como Astérix e os seus inúmeros leitores? Condenando a obra aos tratos poluentes de um saber suburbano, cujo espectro de humor se acantona no baixo nível televisivo?

Certo, tradução tem contexto, tempo e local. Mas já não é tempo disto. Nem local. Abaixo as Edições Asa.
Que o céu lhes caia na cabeça. Por Toutatis!!!
Continua a polémica sobre a visita de Morais Sarmento a S. Tomé e Princípe, com tons diversos (p.ex.), decerto que também animados pelo pedido de demissão por esta causa e por um auto-desculpabilizador comunicado que francamente ... demonstra que não há mínima visão do que está em jogo. [notícia abaixo transcrita, dado ligações serem perecíveis]
Sei que me repito (a maldita idade) mas tenho pena desta vertigem, a do campanhismo (estou-me a auto-censurar, a primeira versão era "a da pequena política").
Tenho pena. A cooperação portuguesa é frágil, a política africana portuguesa é deficitária (atenção, não inverter os termos, não é de falta de recursos que falo). Uma das grandes causas disso é a excessiva descentralização da cooperação, a sua irracionalização, a sua "pelourização". Tudo isso causado por uma tradição colonial que teima em sobreviver [já o disse] mas também em vaidades ministeriais e estratégias de afirmação dos organismos sub-ministeriais, muito ciosos nos seus "departamentos de cooperação".
Um acontecimento destes, em si nada particular, dados os seus ecos públicos poderia ser aproveitado, poderia alimentar uma nova visão de regime sobre a cooperação. Que a subordinasse em exclusivo, e efectivamente, ao Ministro dos Negócios Estrangeiros e ao Secretário de Estado dos Negócios Estrangeiros e da Cooperação.
Esta não é uma visão franciscana, nem crítica, nem tampouco jocosa. É, e perdoem-me a arrogância do "saber de experiência feito", um desejo de eficiência. E é uma visão que se quer patriótica.
[palavra difícil esta última, ai a história recente. Mas em não havendo "paisótica" e não significando "nacionalista", aqui vai como traduzindo um modesto desejo do bem comum]
Adenda: haverá melhor exemplo da desorientação na política africana de Lisboa do que este novo capítulo, em que o ministro da Economia [esqueça-se o actual nome "giro" do ministério] Álvaro Barreto publicita o desconhecimento do interesse da GALP em STP, explicitando-se desinformado. E o MNE nada dirá, pois grande diplomata. Tri-repito-me, tudo isto é o padrão, o mero costume. Um amadorismo vaidoso, nada mais.
Política 12-01-2005 - 07h55
De acordo com um comunicado oficial distribuído hoje de madrugada
Viagem de Morais Sarmento a São Tomé custou 65.200 euros
Lusa
Os custos da deslocação do ministro Morais Sarmento a São Tomé e Príncipe ascenderam a 65.200 euros, enquanto os apoios concretizados ou anunciados são superiores a 1,375 milhões de euros, segundo um comunicado oficial distribuído hoje de madrugada pelo gabinete do ministro.
O comunicado recorda o programa da visita - entre 6 e 11 de Janeiro -, o seu enquadramento e os custos da deslocação de Morais Sarmento e respectiva comitiva, no total de sete elementos, cuja realização tem sido criticada pela oposição, que acusa o ministro de ter gasto mais de 80 mil euros para fazer férias, considerando que a viagem não se justificava.
Em causa está, sobretudo, uma deslocação à ilha do Príncipe e o facto de no dia 8 de Janeiro, sábado, não ter havido qualquer acto no programa oficial da visita, que o ministro aproveitou para participar num programa de mergulho.
Santana Lopes recusa pedido de demissão de Morais Sarmento
Morais Sarmento revelou ontem à noite que pôs o seu cargo à disposição do primeiro-ministro, no regresso de São Tomé, mas que Pedro Santana Lopes lhe tinha reiterado a confiança, pelo que se mantinha em funções.
A nota distribuída hoje de madrugada refere ainda que a visita esteve inicialmente agendada para Junho e Julho do ano passado, não se tendo realizado nessa altura por impossibilidade de agenda de Morais Sarmento.
A nova data para a visita foi marcada para Janeiro, por "reiterado interesse" do Governo de S. Tomé, indica a nota, que confirma que o dia de sábado, na ilha do Príncipe, não teve qualquer ponto de agenda.
Além disso, acrescenta, o encontro previsto com o Presidente de São Tomé, na segunda-feira, acabou por não se realizar devido ao facto de a viagem do Príncipe para São Tomé ter sido feita por via marítima, dado que as condições climatéricas impediram a ligação aérea.
Para a viagem Lisboa-São Tomé-Lisboa, em ligação directa, a nota refere que foi inicialmente considerado o recurso a um dos Falcon da Força Aérea (com um custo de 45 mil euros), tendo-se optado pelo aluguer de um avião particular devido à indisponibilidade do Falcon.
Segundo o comunicado, o aluguer do avião à empresa que apresentou o preço mais baixo, a Heliávia, custou 63.200 euros, enquanto a estada da comitiva em São Tomé e Príncipe orçou os dois mil euros.
Quanto aos objectivos da visita, a nota realça a cooperação, sobretudo no domínio da comunicação social (RTP,RDP e Lusa), da cultura e da exploração petrolífera.
A comitiva integrava também quatro elementos do gabinete de Morais Sarmento, um administrador da RTP e um administrador da Galp.
Um blog brasileiro, via Aviz, com nome de livro de Onésimo Teotónio Almeida: Rio Atlântico (Lisboa, Salamandra, 1997). Conhecer-se-ão?
No Gato das Botas alguma publicidade dos anos 70. Uma delícia.
É no Contra-a-Corrente que leio eco de críticas das Ongs espanholas à modalidade de ajuda que o governo de Madrid decidiu conceder aos países índicos vítimas do maremoto. [Abaixo transcrevo artigo sobre a matéria do Minuto Digital, datado já de 1 de Janeiro. Registo a data, abrindo (mas não crendo) a hipótese de alguma alteração ter sucedido desde então].
Em resumo, o desenho da ajuda espanhola aos países vítimas desta catástrofe natural implica que 90% seja constituída por crédito "facilitado" (atribuído pelo Fundo de Ajuda ao Desenvolvimento), condicionado à aquisição de produtos espanhóis.
Três pontos gostaria de realçar. Em primeiro este é um exemplo vigoroso de "ajuda ligada", ou seja de ajuda ao desenvolvimento (vulgo cooperação) dependente do recurso a bens e serviços do país doador. Algo que é francamente desaconselhado pela OCDE. Tem efeitos perversos, em especial a irracionalização das modalidades de desenvolvimento pelas quais se opta, desenhadas em função das disponibilidades/necessidades dos países doadores e não dos receptores. E, quantas vezes, poderosos mecanismos de corrupção das administrações receptoras, assim induzidas na aceitação/aceleração dos projectos "desenvolvimentistas". No fundo subordinam-se os interesses/necessidades dos países a desenvolver aos ditados pelas indústrias/serviços dos países doadores, uma forma dos Estados financiarem suas empresas e sua administração (esta através da "ajuda técnica"). Para mais (e o caso presente é extremo), tais esquemas implicam o incremento das dívidas externas dos países subdesenvolvidos, impeditivas do desenvolvimento, como é hoje aceite na generalidade, e a cujo combate e redução se dedicam os organismos internacionais, financeiros e não só.
É certo que, ainda que criticada por organismos internacionais, esta "ajuda ligada" é recorrente, mas não é universal [Portugal será um caso particular, não consegue fazer depender a sua cooperação de ligação privilegiada aos seus interesses económicos por manifesta descoordenação dos seus serviços. Mas especializou-se em mecanismos de (sobre)remuneração da sua administração pública, exactamente através do paradigma "ajuda técnica"]. Daí a urgência em acelerar e incrementar a cooperação multilateral, menos vinculado (mas não virgem) a estas pressões irracionais.
Mas, e é este o segundo ponto a sublinhar, ainda que esta pressão da "ajuda ligada" seja relativamente recorrente nos programas ordinários de "ajuda pública ao desenvolvimento" bilateral, o que aqui surge é a utilização destes procedimentos político-económicos num progama de "ajuda humanitária". Ainda mais perverso, ainda mais anti-desenvolvimentista. E ainda mais vergonhoso.
Em terceiro lugar, e como ponto secundário, gostaria de referir o silêncio sobre o assunto de tantos pensadores/locutores portugueses, que tão pró-espanhóis se foram afirmando ao longo de 2004, num cúmulo de Zapaterismo. E que tanto criticaram (e justificadamente, diga-se) as manobras abutrescas que alguns Estados tiveram (o nosso inclusive) para garantir lucros no processo de reconstrução do Iraque. Agora nem uma mirada de atenção, nem uma palavra crítica, diante de mais uma faceta Zapaterista. No fundo o primado das (julgadas) solidariedades partidárias, um acima de tudo a Internacional Socialista.
Nada de novo neste mundo, não há dúvida. Nem tão pouco a indignação com tais gentes.
Las ONG lamentan que el 90 por ciento de la ayuda española a Asia sea en forma de "créditos blandos"
Exigen que la ayuda sea mediante donaciones y afirman que esta decisión es "incoherente" con los anuncios del Gobierno MADRID, 1 (EUROPA PRESS)
Europa Press 01/01/2005 11:33
La organización humanitaria Intermón Oxfam y la Coordinadora de ONG de Desarrollo de España (CONGDE) lamentan que el 90 por ciento de la ayuda española a los países afectados por el tsunami que asoló este pasado domingo el Golfo de Bengala se conceda en formas de créditos del Fondo de Ayuda al Desarrollo (FAD), reembolsables y condicionados a la adquisición de productos españoles, "cuando el resto de países ofrece donaciones y condonación de deuda".
Las ONG consideran que la cifra de 48 millones de euros en "créditos blandos" es desproporcionada frente a los 5 millones en donaciones, "lo que supone una incoherencia con el cambio de la política de cooperación anunciada por el Gobierno". Asimismo, reclaman a las entidades bancarias que no cobren los gastos de transferencia en las donaciones que la población está haciendo para las víctimas.
A juicio de Intermón, la respuesta económica del Gobierno español a los países afectados por el tsunami del Océano Índico no cumple las expectativas "y corre el riesgo de caer en los mismos errores de antes", sobre todo porque las ayudas ofrecidas por el Gobierno emplean el mecanismo FAD, son fondos reembolsables y, en gran medida, ligados a la adquisición de productos españoles, señaló la ONG en un comunicado.
El 90% de la ayuda oficial española estará comprendida por créditos FAD. La ayuda oficial asciende a 53 millones de euros. De éstos, sólo 5 millones son en forma de donación y los 48 millones restantes son créditos FAD.
Esta apuesta por el crédito FAD es, cuanto menos, "sorprendente", a juicio de Intermón Oxfam, "visto que la primera versión oficial del nuevo Plan Director de Cooperación expresa de manera clara que 'por definición, los fondos dedicados a ayuda humanitaria serán no reembolsables y desvinculados'".
PRODUCTOS ESPAÑOLES
Intermón Oxfam hizo público recientemente un estudio en el cual se evidenciaba que el crédito FAD no sirve para las ayudas de emergencia. Seis años después del huracán Mitch --donde hubo el mismo tipo de ayuda--, la gran mayoría de los fondos siguen sin ejecutarse en Centroamérica, afirma la organización. Estos créditos generalmente están ligados a la compra de productos españoles.
Los fondos aprobados ahora prevén la posibilidad de que una parte de los créditos no estén condicionados a la compra de productos españoles, pero en tales casos las condiciones del crédito son muchísimo más duras (50% de gratuidad en lugar de 80%).
Según el director de investigaciones de Intermón Oxfam, José María Vera, "mientras el grueso de países donantes están ofreciendo donaciones y condonación de deuda a los países afectados, nuestro Gobierno ofrece créditos que generarán más deuda externa". "El Gobierno debería aportar recursos extraordinarios para donación en lugar de recurrir a la fórmula FAD", prosigue Vera.
"El hecho de que la emergencia sea en estas fechas permite recurrir a fondos extraordinarios de los presupuestos del 2004 o del 2005", añade. "Esperemos que exista un salto cualitativo en la ayuda española, pero en las partidas aprobadas no hemos apreciado ninguna diferencia", advierte el responsable de Intermón Oxfam.
AUMENTO DE LA DEUDA
Por su parte, la CONGDE considera que los créditos FAD no deben utilizarse para atender situaciones de emergencia o, en caso de reconstrucción, para necesidades sociales básicas, como sanidad o educación.
"Los créditos en los países afectados por el maremoto generarán un aumento de su deuda exterior y por lo tanto no son útiles para este tipo de desastres", afirmó el presidente de la CONGDE, David Álvarez, en un comunicado. "Se trata de un tipo de ayuda incompatible con una emergencia: es lenta en su adjudicación, está ligada a intereses comerciales españoles y genera deuda a los países receptores", añade.
"Por ejemplo, Etiopía, Uganda y Camerún tuvieron que devolver más de 23 millones de euros de créditos FAD durante la crisis alimentaria, seis veces más que la ayuda recibida como donación", concluye.
LOS BANCOS
La Coordinadora hace también un llamamiento a las entidades bancarias que operan en España, para que colaboren en la emergencia del sureste Asiático y no cobren los gastos de transferencia en las donaciones que la población está haciendo a las ONG.
"Sabemos que la ley permite que las entidades decidan sobre las comisiones a sus clientes, por eso pedimos que no se lucren a costa de la generosidad de la sociedad española", reclama el presidente de la CONGDE.
Diz-me quem sabe da matéria que a Femina é a melhor revista feminina sul-africana.
Neste último mês de Janeiro inclui uma entrevista com Nina Berg, viúva de Carlos Cardoso, uma memória muito pessoal da vida em comum e um pouco da personalidade do jornalista. Uma inesperada, mas forte, forma de o lembrar quatro anos já passados após o seu assassinato. E recordando (e talvez disso informando as leitoras sul-africanas) que o executor-mor, o famigerado Anibalzinho, escapou de novo, hoje preso no Canadá enquanto se espera a sua extradição (e novo julgamento) .
Assim não deixando esquecer.


Por razões óbvias a memória do assassinato de Carlos Cardoso associa-se sempre ao do economista António Siba Siba Macuacua, 
ocorrido há já três anos e meio e ainda sem apuramento de responsabilidades. Também para não deixar esquecer.
por favor leia este pequeno post. Depois ponha o Represas a cantar "Em Timor" (alto e muitas vezes), cante também, acenda o isqueiro e abane-o claro, vá-se vestindo de branco entretanto. E sinta-se bem, sinta-se bom. Consciente, interventivo, solidário. Até honrado. Ou com egrégios avós, se lhe der para aí.
Merda.
A tal recente infecção plantou-me diante da TV, que nem ler conseguia. Na TV5 Afrique, já agora um excelente canal generalista, vi um excelente documentário: Louis de Funes ou le pouvoir de faire rire".

Até amarguei, com tantas saudades desse tempo em que o adorei.

(R. Goscinny & A. Uderzo, Astérix e o Regresso dos Gauleses, Edições Asa, 2004)
Lembram-se do ostracizado "carbúnculo", esse mero antraz promovido a Antrax?
(é verdade, que será feito dessa terrível arma?)

A tal recente infecção plantou-me diante da TV, que nem ler conseguia. Valeu por esta enésima vez. Adoro este filme!!
O Nuno Guerreiro notou: No mesmo Telejornal de sábado à noite referido acima, Judite de Sousa abriu com referências ao maremoto do sudoeste asiático, comentando imagens captadas “num ‘rizorte’ de luxo” (sic.). Uma referência óbvia à palavra inglesa “resort”, que em português se traduz habitualmente como “estância de férias”. Esta foi a primeira ocorrência que ouvi de “emigrantês” típico vinda de uma pessoa que nunca viveu fora de Portugal. Mais um risquinho para as contas dos que continuam a anotar os pontapés na língua que o “tsunami” arrastou.".
Uma delícia. Já agora alguém poderá fazer chegar este trecho à prestigiada jornalista ? Ou entrará ela em "vacanças" em algum "rizorte"?
Que pepineira de gente!
Starting in July, the south will be autonomous for six years and will then vote in a referendum to decide whether to remain part of Sudan, or become independent.. Interessante de acompanhar, ver se a "reconstrução" (aspas, aspas, há muito que não poderá jamais ser "reconstruído") impedirá um novo desenho das fronteiras em África. Essas que eram intocáveis, como se sacrossantas, até à independência da Eritreia. E que parecem ainda necessitar de tantos rearranjos. Mas não será essa mesmo a essência das fronteiras, o da perpétua mutação?
É no Blogquisto que leio o eco da deslocação do ministro Morais Sarmento a S. Tomé e Príncipe. Muito desagradável, não só pelas despesas públicas que possibilitam as actividades paralelas inclusas (mesmo que estas sejam pessoalmente custeadas). [Adenda: neste caso particular há uma interrogação que todos fazemos mas que Paulo Gorjão explicita em termos pessoais, e cuja resposta é muito melindrosa, talvez até devastadora].
Mas acima de tudo pela imagem de displicência que transmitem ao interlocutor. Para mais o à vontade com que os responsáveis políticos deixam transparecer essa imagem displicente significa também uma desvalorização desses mesmos interlocutores, um "pouco importa a opinião deles"! E não nos enganemos, tudo isso é apreendido, todo esse "turismo político-administrativo" causa ruído nas relações. Reduzindo o impacto político positivo das relações de cooperação para o desenvolvimento. Ou seja, para além de incorrecto é um mau serviço ao país.
Nada de novo, atenção! Entre tantos outros casos similares a que aqui assisti recordo um particularmente acintoso, ocorrido há alguns anos. Um outro ministro, tão sonante então como o é hoje Morais Sarmento, que aqui chegou com sua comitiva na quinta-feira, descansou, reuniu, sexta de manhã seguiu para Bazaruto, segunda à tardinha voltou, jantou intra-muros, terça rerreuniu e logo regressou a Lisboa via Joanesburgo. Quem cá estava, acompanhando claro, questionado sobre o sumo da coisa nem sorriu no "não veio cá fazer nada". E não tinha vindo. É um entre tantos casos, entenda-se, trago-o porque deste me lembro do calendário. Talvez por também me lembrar do ministro, dos meus tempos de Faculdade de Direito, onde ele falsificava os resultados de votações de braço no ar às moções que propunha. A Ministro (por enquanto) chegou ele! E ao Bazaruto, já agora.
Mas há um outro ponto sobre estas visitas ministeriais aos países africanos da CPLP surgidas ao abrigo de projectos de cooperação. E é esse o mais importante. É que elas são politicamente descabidas. Não têm qualquer justificação. Entenda-se: os projectos de cooperação para o desenvolvimento são uma actividade de política externa. É natural que para a sua realização os diferentes organismos do Estado sejam convocados. Mas o seu acompanhamento político deve, naturalmente, realizar-se através do ministério que se ocupa da política externa, pelo que todos os outros ministros estão a mais. As suas únicas visitas justificáveis são as decorridas no âmbito de reuniões multilaterais, e esses são casos muito raros, e, vá lá, enquadrando visitas de Estado do PR ou do PM para avaliações mais globais de perspectivas futuras.
Entenda-se, este vai-vem ministerial nas ex-colónias, este acompanhamento in loco das tarefas que os "seus" serviços realizam/"cooperam", nada mais é do que um resquício do Império, como se a sua tutela ainda se estendesse até África.
É um resquício gastador. É (e veja-se os casos referidos) um resquício indecente. Mas acima de tudo é um resquício anacrónico, tardo-colonial, portanto politicamente negativo e nada diplomático, pois também assim percebido pelos parceiros.
Urge crescer.
e estou certo que o mais cáustico ainda é o título do texto.
[cheguei a esta peça sobre literatura via esta pista]
O Altino Torres consta que tem mau-blogofeitio e é benfiquista, mas às vezes adivinha.
Aquilo até mete dó, e mais meteria se o estado da justiça em Portugal não estivesse como está.
E

nada mal, mufana.

a ver se é de vez, que nem a um benfiquista se deseja tanto mal.
Adenda de dia seguinte: Olha, o Benfica já vai em quinto! E com que adversários na peugada, não se cuidem não!
Adenda já de 2ª-feira: o Marco deixou aqui o comentário do ano.
Atrás referi ter arranjado a coluna de elos do Ma-Schamba, indagando também se ela é de alguma utilidade aos visitantes, até atendendo à trabalheira que dá. Pouco eco teve a pergunta e não particularmente entusiasta. Será natural, a maioria terá já a sua lista de favoritos, mais os serviços blo.gs, actuais, frescos, etc.
Ainda assim estranho, pois os serviços de tracking mostram que grande parte das visitas aqui chegam via outros blogs. Mas porventura isso dever-se-á aos autores dos blogs usarem as ligações que instalaram.
Deste modo acho que estas colunas serão já uma sobrevivência, terão perdido a sua função informativa e prospectiva. Sendo assim a coluna de elos do Ma-Schamba deixa de ser actualizada, dado que a presumo (quase)inútil.
Um importante e clarividente subsídio para a história de Portugal. A não perder.
Sim! Ler, a história é conhecida, mas parece que não. A ler. E já agora para comparar, com os crentes ortodoxos nas religiões transcendentes ou terrenas.
Narciso, já aqui me autobiografei exaustivamente. E já aí o referi, ao Will Eisner do Spirit e não só. Comigo desde a revista "Spirit", seis números durados, lá pelos meados dos 70s (não tenho as referências, guardados os exemplares em Lisboa). Agora morto o autor, a vénia claro está. De admiração e gosto.


Nem tento resistir, à imagem dos meus primeiros cigarros, ali/então aos 13 anos. Claro, e será necessário dizê-lo?, os então cigarros do meu pai António. E os que melhor me souberam desde então, talvez também por isso.
[imagem roubado ao Altino Torres, o qual lhe junta reflexão nada descabida]
Qualidade é a médica dizer-me, depois de dois dias de cama, análises na mão: "o plasmódio é negativo, mas os glóbulos brancos não enganam, estás com uma infecção" - e não falou em virose.
1. Dois acutilantes textos de FNV no Mar Salgado: a A Onorata Societá e Cimento & Bola. E ainda no Mar Salgado, também de FNV, um texto absolutamente inútil: "Engasgaram-se": who cares com aquela gente?
2. Um exemplo de algum actual muito bom humor no Tugir, o "Desconverseira". Felizmente o LNT esqueceu o negrume radical, e concomitante infelicidade para os seus filhos, que antevia em posts lacrimejantes há bem poucos meses. Ainda bem que o novo ano o encontra bem disposto, não há mal que sempre dure. Aprecio-lhe as gargalhadas, que dali não espero em "comboio descendente".
Já agora, não deixei de me lembrar e de por lá comentar, espero que tantos colegas bloguistas tão rosas (e agora não falo em particular do Tugir, que até é o meu preferido), e hoje tão felizes, e a quem tão críticos tenho conhecido desde que in-bloguei, mantenham a sua veia livre nos próximos anos. Honestamente acho que não. E até vai ser quase doloroso assistir às mudanças de sotaque (e ao encerramento?) nos pink blogs. Que o farão à gargalhada, claro está. Assim como quem não quer a coisa. Em nome de solidariedades ou das dificuldades dos momentos, dos estados de graça. A rapaziada conhece.
3. João Miranda e Pedro Caeiro defendendo os turistas na Tailândia. Questão absolutamente marginal no meio do desastre. PC inclusive considera atávicos aqueles a quem lhes repugna tal comportamento. E em ambos o argumento é económico, pois ajudam mais aqueles que por lá continuam a dispender alguns milhares de dolares do que os que os criticam. Acertado, a vida, o espectáculo, continua (não é "ter que", é mesmo assim).
Acertado mas levanta-me uma questão. Estamos diante da total redução de solidariedade às ofertas/transferências monetárias. Triste vida, triste moral, triste ética.
Já agora, para que essa economia a revitalizar exista presumo que haja um contrato anterior, um acordo social (implícito e explícito) estruturado em valores (p.ex. um quadro de valores que estabelece e valoriza uma "moeda").
E nesses quadros de valores é universal o luto, sob múltiplas formas. E quem é insensível a esse luto num momento abissal destes bem que pode abrir o cartão de crédito, "ser solidário", mas entende-se diante de bichos, que se a catástrofe tivesse sido no Algarve decerto não estaria na Zambujeira a curtir, ao sol, as cervejolas e as putas locais. Ou seja, será muito "solidário" mas desumaniza os que não lhe são tudo iguais, desumaniza-os na negação do luto.
Melhor dizendo, é gente muito "solidária", muito "pro-económica", mas acima de tudo gente desumanizadora. No meu entender gente bicho.
Atávico, eu, preocupado com ritos e símbolos? Ainda para mais num momento destes? Talvez. Mas angustiado que haja bichos que são meus patrícios. Pois não me transforma isso num igual, via BI?
Adenda: Pedro Caeiro comenta, discordando da minha interpretação do seu texto. Que não defendeu "os turistas na Tailândia, e nisso aceito o seu mal-estar com a minha formulação, o seu post é sobre a reacção às declarações de uma turista, e decerto contextualizáveis, não tanto sobre o turismo. Já quanto à afirmação de atavismo dos que criticam (porque lhes desgostam) tais atitudes veraneantes, relido o texto, mantenho a minha interpretação. Mas que não passa disso, de uma interpretação.
(Até porque ontem aqui referi um texto sobre a língua, e sobre a sua evolução).
Alguém me pode explicar (nos comentários que seja) por que é que antes, até recentemente, no português de Portugal se dizia/utilizava "deslocar" e agora, desde recentemente, se diz/utiliza "deslocalizar"?
Quais as causas linguísticas, sociológicas, até antropológicas, quando não mesmo etológicas, para tal "deslocação", perdão, "deslocalização" da língua?
Foi há já bastante tempo que o compadre Lagoa chamou a atenção para o espantoso O Som do Silêncio, o blog do Miragem. O qual continua no topo das estatísticas, largas centenas de visitas diárias, e oscilando, ainda que apenas com um post, datado já de 25 de Outubro, em que culmina "O que interessa realmente é que cheguei até aqui na esperança de fazer algo "diferente"... vamos ver se consigo..
Será que o Miragem do Som do Silêncio o conseguiu? Será que já o podemos idolatrar, ao blogofeiticeiro, ao blogomestre, à entidade Blog? Ou algum iconoclasta racionalista terá um explicação "desconstrutora" do mito que já brota?
Ainda a questão da utilização pública da máquina fotográfica que me foi recomendada. Concordo muito, e ainda mais lamento a minha azelhice fotográfica. Mas há ainda uma outra oposição, semi-ideológica, semi-traumática.
A rapaziada mais nova já não se lembrará disto, mas eu ainda sou do tempo dos slides. E do horror que era ser assaltado por amigos regressados lá das férias deles, simpáticos no convite para um jantar ou copo lá em casa mas (e não há dádivas gratuitas, não é assim?) aos quais se seguia a tenebrosa sessão dos ditos slides, horas miseráveis, decerto deliciosas para eles nas lembranças, torturas para mim, ainda que de copo de mão.
E isso de encher blog próprio com as fotos destes "inolvidáveis momentos", do "lembras-te? querida", "tão bonito, tão divertido..." logo me lembra esses amigos tornados monstros aquando de carregador de slides na mão.
Então para quê mostrar estas imagens? Honestamente porque acho a Cidade do Cabo uma maravilha. Tal como a África do Sul, um país extraordinário, quanto a belezas naturais e sua variedade. E com uma oferta turística de todos os tipos. E da qual os meus patrícios daí quase só sabem da violência do centro de Joanesburgo, via a rtpaica miséria mental. E de mais meia dúzia de preconceitos, muito redutores.
E, e isto já não é pro-turismo ainda que não haja nada como viajar informado, a África do Sul é também um país fabuloso em termos de processo de desenvolvimento. Com uma história rica de complexa e uma vivência recente espantosa. Também pelo meu Portugal muito esquecida, pois claro submerso no umbigo sujo da má informação que por aí grassa.
Então e como achega aos postais, que quis apelativos, aqui deixo dois livritos acessíveis e basto mainstream que dão boa conta da história e do passado recente (mas há imensa coisa, basta procurar um pouco para além da última mercearia assaltada).

Allister Sparks, The Mind of South Africa. The Story of the Rise and Fall of Apartheid, London, Heinemann, 1990
[autor jornalista, muito ligado ao ANC (surge na autobiografia de Mandela como seu assessor, inclusive preparando-o para o último debate televisivo com De Klerk na campanha de 1994, onde serviu de de Klerk no ensaio final), tem uma leitura compreensiva em quadro marxista]

Frank Welsh, A History of South Africa, London, Harper, 2000 (uma história geral, não académica, leve e rápida, mas aparentemente correcta).
Comentando a colecção aleatória de postais do Cabo Ocidental que aqui deixei, o Eufigénio Lagoa invectivou-me, até aconselhando o uso de uma máquina fotográfica digital em futuras andanças. Ainda que amigável o comentário não deixa de indiciar a recorrente actual desvalorização dos postais ilustrados. Por um lado até concordo, é raro encontrar postais decentes e interessantes. Os malditos filtros colorindo de falsidade o real. As mesclas de paisagens. Os agregados tipo folheto turístico. Os critérios do que é relevante. No fundo um muito habitual padrão piroso.
Mas para quem gosta de postais ilustrados antigos como recusar a priori os modernos? Para quem se deleita com os ângulos, as imagens, os padrões, os olhares desses entãos, como deixar de fora os de hoje? Para quem aprecia as cores, a sépia, de antanho como não se preparar para envelhecer as de hoje? Não será todo esse actual encanto do passado o mero envelhecimento do antigo piroso?
A ver vamos, Eufigénio, se lá chegarmos. Ou alguém por nós. E daí a minha fidelidade aos postais ilustrados do hoje e do ontem recente.
Mexi na coluna dos elos. Novos, recuperados, abandonados. Puxados para cima.
Confesso dúvida sobre se serão úteis às visitas. Espero que sim. Por facilitar leituras alheias. E, já agora, para justificar a trabalheira.
Ao longo do ano que passou muita tralha, e em especial muita blogotralha, li sobre multiculturalismo, sobre a sua impossibilidade. Muitas palavras no ar, preconceitos agarrando-se a bocados de empiria mal amanhados. E acima de tudo a quererem culturalizar a política. Discursos velhos, apenas de sotaque novo. Saio com arrogância: muita ignorância li. Saio com franqueza: alguma torpeza li.
Nestas férias passadas, lá pelos hotéis sul-africanos, entre o banho matinal da Carolina e arranjos subsequentes, apanhei nas bem surpreendidas Sky News e CNN um pouco desta alocução natalícia. Mas apanhei pouco, entre a azáfama referida e o meu (cada vez mais) macarronizado inglês.
Mas aqui a recupero. A ler. E peço a quem daqui seja visita recorrente, e portanto presumivelmente simpática ao blog, que imagine o meu deliciado sorriso, ainda que ateu republicano, ao deparar-me com a inexistência de luso-blogoecos a tais palavras. Onde param os essencialistas? Os exclusivistas? E, e estou a pesar os dedos nas teclas com todo o cuidado, onde param os racistas?
Entretanto escutai Sua Magestade (aqui versão francesa e aqui versão espanhola):

The Queens Christmas Message 2004
HM. Queen Elizabeth II
Christmas is for most of us a time for a break from work, for family and friends, for presents, turkey and crackers. But we should not lose sight of the fact that these are traditional celebrations around a great religious festival, one of the most important in the Christian year.
Religion and culture are much in the news these days, usually as sources of difference and conflict, rather than for bringing people together. But the irony is that every religion has something to say about tolerance and respecting others.
For me, as a Christian, one of the most important of these teachings is contained in the parable of the Good Samaritan, when Jesus answers the question, Who is my neighbour?
It is a timeless story of a victim of a mugging who was ignored by his own countrymen but helped by a foreigner, and a despised foreigner at that.
The implication drawn by Jesus is clear. Everyone is our neighbour, no matter what race, creed or colour. The need to look after a fellow human being is far more important than any cultural or religious differences.
Most of us have learned to acknowledge and respect the ways of other cultures and religions, but what matters even more is the way in which those from different backgrounds behave towards each other in everyday life.
It is vitally important that we all should participate and cooperate for the sake of the wellbeing of the whole community. We have only to look around to recognise the benefits of this positive approach in business or local government, in sport, music and the arts.
There is certainly much more to be done and many challenges to be overcome. Discrimination still exists. Some people feel that their own beliefs are being threatened. Some are unhappy about unfamiliar cultures. They all need to be reassured that there is so much to be gained by reaching out to others; that diversity is indeed a strength and not a threat.
We need also to realise that peaceful and steady progress in our society of differing cultures and heritage can be threatened at any moment by the actions of extremists at home or by events abroad. We can certainly never be complacent. But there is every reason to be hopeful about the future. I certainly recognise that much has been achieved in my lifetime. I believe tolerance and fair play remain strong British values and we have so much to build on for the future.
It was for this reason that I particularly enjoyed a story I heard the other day about an overseas visitor to Britain who said the best part of his visit had been travelling from Heathrow into central London on the tube.
His British friends were, as you can imagine, somewhat surprised, particularly as the visitor had been to some of the great attractions of the country. What do you mean they asked? Because, he replied, I boarded the train just as the schools were coming out.
At each stop children were getting on and off - they were of every ethnic and religious background, some with scarves or turbans, some talking quietly, others playing and occasionally misbehaving together, completely at ease and trusting one another. How lucky you are, said the visitor, to live in a country where your children can grow up this way.
I hope they will be allowed to enjoy this happy companionship for the rest of their lives.
A Happy Christmas to you all.

Distraído diante das efemérides e similares, aprendo-o no Klepsýdra, que se compromete a colaborar. Óptimo, vontade de início de ano, esta minha de aprender o mais possível?
Jantar na passagem de ano, Port Elizabeth diante do mar (frio) da baía Nelson Mandela. Ou seja, passagem de ano diante da baía Nelson Mandela - nada de mais apropriado, digo.
Mas de volta ao jantar, ofertas para os três, claro que monopolizadas pela Carolina, entusiasta no "Hoje é dia de fésta...uma salva de palmas", "véla, véla, véla !!!". E também para ela os "papelinhos de sorte" (?) ou "sinas" que as acompanhavam. Um deles que lhe (nos) fica mais do que muito apropriado:

Vinha eu de férias, todo pimpão, anunciar que para as eleições portuguesas de já daqui a bocado apoiaria o MPT. Um bocado por ecologia, um bocado à falta de melhor, um bocado apesar da tontice que lá lhes li um dia sobre uma tal de "lusofonia".
E afinal chego e deu-lhes uma de "Verdes"? Abaixo, abaixo.
Males que (me) vêm por bem. Por um lado pois nunca abdiquei da minha mesinha de voto, ali à D. Aleixo Corte-Real, pelo que não votarei. Por outro lado "Ano novo, blog novo?" e, com esta ajuda, vou-me prometer um blog livre de política lusa. Sei-me (auto)mentiroso. Mas ainda assim, a ver vou...
Está na moda o plágio? Há pouco o Público a sacar textos ao Arqueoblogo e ao Substrato [estive de férias, terá havido alguma reacção do jornal?] [Adenda: Já a li, via aqui], agora leio no Arcabuz o ridículo caso de plágio intra-blog que Luís Rainha denunciou no Semiramis - ridículo claro, se o plágio é desonestidade para quê cometê-lo num blog onde nada se ganha?, ainda se lá no ganha-pão, para o leitinho das criancinhas...
E súbito detecto outro plágio, este mais complexo e até transcendente. Eu escrevi este texto, palavra por palavra: "Estive uns dias afastado e quando chego Matilde Sousa Franco é candidata a deputada por Coimbra, Pôncio Monteiro avança ou não avança pelo Porto, Filipe Menezes por Braga, o PS discute o aumento do IVA ou talvez não e o PSD defende a sua descida ou talvez não. Quando julgava que o País tinha batido no fundo, descubro que alguém anda a dedicar-se à espeleologia.", e antes de me chegar às teclas para o ma-schambar vejo-o estampado pelo Rodrigo Moita de Deus.
Como explicar isto?
Andei por fora, nem vi. Mas leio o post "Inacreditável" (sem ligação permanente) no Arte de Opinar, ecoando com mais detalhe o já referido no Blogotinha sobre turistas portugueses na zona da catástrofe.
Inacreditável? A mim parece-me mais do que acreditável. E, até, um verdadeiro tratado socio-antropológico sobre o meu país. A isto chama-se teorização sobre etnografia.
Acerca do mesmo, e ainda de um pouco mais, leio José António Barreiros, que culmina: "Uma raiva incontida atravessou-me a alma! Filhos da puta! Com todas as palavras: filhos-da-puta! É o mínimo que se pode dizer. Desculpem, eu detesto palavrões, mas não encontro palavras que melhor me sirvam. Filhos da puta!". Pois, é por isso que gosto de palavrões, pois são insubstituíveis, há conceitos, noções e sentimentos que só eles transmitem. E por lá comentei que esses "filhos de puta" continuam, brotam, por ali, no dia-a-dia. E não se mostram apenas nos dias de catástrofes indizíveis.
E mesmo assim continua a colectiva auto-censura do léxico. Para quê?
O do Lobi do Chá está bem: "Um blogue é a arma daqueles a quem não se lhes pediu opinião".
Sim, também é, acho.
está muito bem aqui. [texto reproduzido abaixo]
Adenda: só lamento que não tenha referido o "meu" "blogard". Pois creio, firmemente, que ser reconhecido como autor de um galicismo no português seria a minha (definitiva) glória.
Português Língua Bastarda.com
Por ISABEL PIRES DE LIMA
Público
Terça-feira, 04 de Janeiro de 2005
na diversidade de opiniões que se constrói a democracia; é mesmo sua condição sine qua non. Ora, sendo eu cidadã de um país que vive em democracia e sendo deputada, isto é, eleita por um amplo leque de cidadãos, só posso estar atenta a essa diversidade e achar que todas os juízos merecem resposta, ao contrário do que pensam os autores do artigo Português-língua abastardada.com (Edite Prada e José Mário Costa), publicado neste jornal a 26 de Dezembro, motivado por um artigo que eu assinara dia 11. Aqui vai, pois, a merecida resposta.
Lamento que tenham respondido ao meu artigo restringindo o campo de análise do problema à variante europeia do português (PE), quando era bem claro que a reflexão em curso de âmbito sócio-linguístico se reportava ao património língua portuguesa (LP) lato sensu. Não tem cabimento, pois, entenderem que "nele se reduzem os problemas que temos com o uso da nossa variante da LP ao problema da crioulização". Quem reduziu o campo de análise foram os senhores e lá saberão porquê. Talvez porque apenas lhes interesse o PE, na medida em que parece que o consideram passível de corporizar uma/a norma que seja instrumento para "defender uma plataforma comum, que nos permita situar o nosso discurso na panóplia que possibilita a criatividade linguística" e "comunicar em todos os espaços". Não estará aqui contida uma nostalgia não tanto da norma quanto do estatuto central do PE como português "puro", situado "à parte", não contaminado, irradiador relativamente ao velho império?
Lamento ainda a dificuldade que exibiram em entender aquilo que vulgarmente é designado por uso metafórico da linguagem ao terem lido "crioulização" como "abastardamento". De resto, essa é uma metáfora bastante vulgar, próxima de uma outra, a de "mestiçagem", que Nuno Pacheco usa, num editorial do PÚBLICO do mesmo dia 11, no qual antecipa em três páginas, no privilegiado espaço do Editorial (página par), muito do que eu direi no artigo em causa (página ímpar), no qual aludia de modo identificado a anterior Editorial seu da mesma semana sobre assunto próximo.
Continuo a lamentar que não tenham percebido que o meu parágrafo de abertura se reportava a uma realidade histórico-cultural indiscutível, que teve o seu ponto culminante no século XVIII, com a emergência das línguas vernáculas e a morte definitiva do latim como língua de comunicação cultural, e tivessem daí deduzido que eu defendia a sua exclusão do sistema do ensino, assunto a que nunca aludi. Devo porém esclarecer que sempre defendi a sua manutenção nos cursos de LLM na FLUP, onde ensino há 30 anos, embora não esteja tão certa quanto os senhores de que os êxitos educativos da Finlândia tenham assim tanto a ver com o facto de ser mantido nos curricula...
Lamento também que tendo eu, por quatro vezes e em início de parágrafo, reiterado a necessidade da defesa da norma - e avançado até medidas para essa defesa, coisa que os senhores não fazem - e terminado reclamando a compatibilidade entre aceitação sem drama nacionalista da "crioulização" do português e da defesa da norma, tragam à colação, para atacar as minhas opiniões, erros de aplicação da norma do PE e os exibam com excessivo à-vontade não pedagógico para quem tem responsabilidades no Ciberdúvidas da Língua Portuguesa. Ora este erro de análise (e certamente não a desonestidade intelectual) leva o leitor a associar esses erros dos portugueses europeus à movência da LP "abastardada" porventura pela tal "crioulização", provocada, assim, por quem não está no centro, isto é, pelos "bastardos", brancos e negros, de cá e de lá...
Concordo, pois, nem podia deixar de concordar sendo, como sou, além de deputada da Comissão Parlamentar de Educação, como fizeram o favor de lembrar, membro do CNE e professora catedrática de Literatura Portuguesa da UP, que não se pode nem se deve deixar de defender a norma. Também eu sou nostálgica da norma, podem ter a certeza, designadamente da norma que distingue a grafia do "porque" de uso causal do "por que" interrogativo, distinção que os senhores não fazem no texto em causa. Importa-me mais a defesa dessa componente da norma do que da que tenta impedir a integração de neologismos, grafados, é-me indiferente, "blog" ou "blogue", "bloger" ou "bloguista" (exemplos a que não fiz referência no meu texto e que abusivamente fizeram crer meus numa envergonhada nota de rodapé). E porquê? Porque é só uma questão de tempo: nas suas primeiras obras Eça de Queirós grafava "champagne", nas últimas "champanhe"... E para pensar que, coisa que não podemos fazer bem sem bom domínio da linguagem, as questões morfo-sintácticas importam muito, mas muito mais.
Concordo então que urge desencadear medidas inovadoras, insisto, no ensino da LP para evitar atentados à norma. Algumas enunciei-as no referido artigo e posso relembrá-las sinteticamente visto que não mereceram a atenção dos senhores: apostar na educação pré-escolar e básica; apostar numa formação dos professores de LP que valorize as pedagogias da leitura e dos discursos e na sua formação contínua; apostar na inseparabilidade entre ensino da língua e ensino da literatura. Tudo isto, claro, sem esquecer que a sociedade portuguesa hoje é, quer se queira quer não, multicultural e, esperemos, cada vez mais de informação. Ora não há nostalgias que consigam parar este processo...
Em conclusão, discordo da vossa convicção de que hoje o português é uma língua abastardada; ele é só, em todas as suas variantes, uma língua bastarda, como são todas enquanto vivas.
O que me separa dos senhores não é porventura o vosso maior amor à língua ou o vosso papel de mais eficientes guardiães da norma; é uma diferença ideológica face ao bem simbólico e patrimonial que a língua é.
Deputada do PS, professora universitária
[Na última semana, fora de casa, muito me lembrei deste conto. Só agora, regressado, o posso revisitar...]
Apesar da deselegância pesada das suas linhas, a Aorai manobrou agilmente na brisa ligeira, enquanto o seu capitão a aproximava o mais possível da costa, para a deixar fundeada a pouca distância do fluxo de rebentação. O atol de Kikueru, um círculo de areias coralíferas de uns cem quilómetros de largura e uns trinta de circunferência, sobressaía levemente da água, um metro a metro e meio acima do nível do mar...
O vento era aterrador. Nunca imaginara que pudesse soprar daquele modo. Uma vaga assaltou o atol, molhando-o até aos joelhos, antes de ir morrer na lagoa. O sol tinha desaparecido e um crespúsculo cor de chumbo abatia-se agora sobre eles. Açoitaram-no gotas de chuva vindas em direcção horizontal, com um efeito semelhante ao de balas de chumbo. Salpicos salgados bateram-lhe na cara, como uma bofetada. Doeram-lhe as bochechas e assomaram-lhe lágrimas involuntárias aos olhos irritados. Várias centenas de indígenas tinham trepado às árvores; noutra ocasião, aqueles cachos de fruta humana ter-lhe-iam inspirado o riso. Depois, como taitiano que era, dobrou-se pela cintura, abraçou-se à árvore, apertou as plantas dos pés contra a superfície do tronco e começou a trepar. No alto encontrou duas mulheres, duas crianças e um homem. Uma menina segurava um gato firmemente nos braços...
Não muito longe dele, um coqueiro foi arrancado pela raiz e caiu, atirando ao chão a sua carga humana. Naquele preciso momento uma vaga varreu a faixa de areia e todos desapareceram....Os coqueiros voavam, desabavam, caíam cruzados uns sobre os outros, como fósforos. A força daquele vento assombrava-o...
Às três da manhã a força do ciclone amainou. Às cinco, só corria uma brisa suave. Às seis, a calma era total e o sol brilhava. O mar sossegara. Na margem ainda revolta da lagoa, Mapuhi viu corpos dilacerados dos que tinham morrido ao terminar a travessia...
Dos dois mil e duzentos que estavam vivos na noite anterior, só restavam trezentos, como apurou o censo feito pelo missionário mórmon e um gendarme...Em todo o atol não ficara pedra sobre pedra, só um em cada cinquenta coqueiros resistira à força do vento e os que restavam estavam totalmente despedaçados, sem um único coco..."

(Jack London, "A Casa de Mapuhi", Contos do Pacífico, Lisboa, Antígona, 1999, pp. 38-67)
Ainda agradecendo: a simpatia no Ilmatto. Não só agradeço a lembrança como ainda o gosto de ver o Ma-schamba referido entre tantos blogs que não conheço - a ver se o "blogoitinerário principal" (IP blog) nunca o será.














Nota: também no Espumadamente o Cabo é recordado. Que me desculpe o mesmo método, mas vinha com esta pretendida e não me parece que a reprise possa ofender.