Quero realçar o debate sobre Moçambique que o Ideias para Debate tem vindo a possibilitar na sua curta existência.
Esta é a semana onde o novo Presidente da República toma posse, corolário de uma rarissima transição de poder em termos africanos. E a qual é concomitante com a esperança de graduais melhorias (como estas apenas podem ser). E é uma boa altura para ler e pensar criticamente o país Moçambique. Em meu modesto entender fazê-lo sem extremismos utópicos e, acima de tudo, sem revanchismos bafientos que ainda medram. E, acima do acima, sem umbiguismos desvalorizadores, esses sempre sem espelho.
Também por isso o Ideias para Debate é mais do que recomendável para bloguistas (activos e passivos) moçambicanos. E para quem gosta do país. E, também, para quem se interessa pela reflexão política, que isto da comparação é a mãe de todas as ideias.
Adenda: Alguém me pode ensinar (comentários ou email) como se fazem ligações (links), no texto e em coluna, no blogger, para passar a informação ao dono desse blog? Ou então directamente na caixa de comentários do Ideias para Debate. E como se incluem informações no "main index" (tipo o email do local), se instalam contadores de visitas, etc? A agradecer.
Lá no apenas mais um alguém, mais viperino(a), comentava que se o JPP usar e gabar este sistema de estampar tecidos lá no Abrupto, logo muitos outros lusobloguistas vão começar a vestir a sua capulanazinha própria, a acharem-se o máximo nessas roupitas baratas, regateadas lá no bazar central.
Fiquem então sabendo, há gente (nós), bem mais avisada, estes são os tecidos originais, caros, coisas boas neste primeiro carregamento, comprámos na Casa Elefante, o império da capulana. Nadas dessas cópias sem qualidade que então hão-de surgir, a fingirem-se finas.
Outro PhotoBlog sobre Moçambique: Tributo á Cidade de Maputo.
[o erro é lá, apenas cito]
a desgraça do Porto delicia e entristece (vil piedade a do adversário, não é?). Mas tem brinde, o hooligan ressurgiu.
Abaixo prometi(-me) abordar os programas eleitorais portugueses relativamente à política de ajuda pública ao desenvolvimento (vulgo cooperação). Ainda...
Mas o atento Lobitino do Pululu já escreveu sobre o assunto, um artigo que está aqui. A ler.
Com um sorriso.
Tenho um amigo, desses do tempo pré-computadores pessoais quanto mais pré-blogs, que tem apenas mais um blog, onde escreve (e agora desenha) sobre as coisas que realmente importam, os novos gatos lá de casa, as terríveis gripes que o assaltam, as tartarugas e o raguêbi dos filhos, outros verdadeiros etcs. Enfim, as majoridências da vida! E rapidamente ficou um blog porreiro, cheio de visitas a sério, ali a falaram como se à volta da mesa, bebendo um copo e dizendo umas coisas, dessas que se sabe que não vão mudar o mundo, e muito menos logo no dia seguinte. Um must, digo até invejoso.
Enquanto isso o Eufigénio Lagoa [que raio de nome foste arranjar, ó Boné] vai-se rindo da mania das grandezas que me leva (e se calhar a outros) a gastar teclas sobre merdas que nada precisam de mim para serem lidas e ouvidas. Para completar essas apropriadas caneladas na minha cagança mandou-me um bibelot/calduço, que me apresto a colocar na sala, entre as fotografias dos entes queridos e as pratas velhas da família.

E, agradecido, envio-lhe também uma prenda, a qual estava destinada a ser-lhe entregue por alturas do Natal, no restaurante Brazuca.

(Recuerdo/Souvenir/Gift adquirido via Blogotinha).
até custa ver o Porto, tão e tanto campeão, feito aquele bazar, gente a entrar e a sair, uma equipa desfeita com todo o afã. Que raio, nem é incompetência de gerir o sucesso, é pura irracionalidade.
Dá prazer. Mas tanto também dói.
Abaixo usei este título para disfrutar o desvendar público da hipocrisia política lá pela lusa esquerda baixa. À falta de melhor retomo-o para sublinhar (que já nem é desvendar) a bandalheira política lá pelo luso centro alto: a história dos colos de PSL é inenarrável.
Como é que um tipo (medianamente) decente consegue votar nesta gente? Haverá algum bloguista que me elucide sobre a alquimia intelectual necessária? Ou calar-se-ão, envergonhados?
Em bom português, ganda nojo!!!
O Bloguítica afinal não acabou. Daqui compreendo isso de fechar afinal não fechar. Saúdo. E (muito lateralmente ao que interessa) sorrio à parvoíce, que se quis malévola, desses que logo resmungaram o bloguista despromovido a assessor ou até mais.
É bom poder discordar/concordar com o PG.
Para hipotéticos interessados, actualizei com introdução de complementar referência bibliográfica a entrada Leite de Vasconcelos.
No Superflumina um interessante texto sobre o estatuto da arte e do artista, em diálogo com as (também interessantes) declarações de Paulo Cunha e Silva, director do Instituto de Artes português. Há ali matéria para um debate, para além dos costumeiros (maus)humores sobre arte contemporânea.
O Miguel S. narra mais um episódio da explicitação do racismo "anti-branco", neste caso expresso por um padre.
É recorrente este racismo, às vezes mascarando-se de mero "racialismo", um anti-branquismo a-sociológico, um "agora é a nossa vez", que se quer auto-desculpabilizador, que encerra as causas dos fenómenos nas cores alheias, que procura legitimidade própria para quem se vai sentindo fragilizado nas suas tenças político-sociais. Racismo hipócrita, tantas vezes associado a uma "mão estendida" nada invisível. Racismo sombra, escondendo causas, assim querendo-se garante de uma ordem. Afinal racismo. Muito mais explícito do que o racismo branco, este cada vez (e ainda bem) mais escondido pela pressão de uma "higiene ideológica". Digo escondido, não digo desaparecido. Mas dizer escondido é também dizer (e crer) diminuído.
Muito presente está o anti-branquismo nos discursos políticos africanos. Mas também no de jornalistas, escritores, e académicos, sociólogos, antropólogos, politólogos, esses profissionais produtores de imagens.
Daí que não possa deixar de sorrir quando ouço o povo dizer desses arautos da "negrização": "esses julgam que são brancos". Usando claro, uma sociologia nada espontânea, ao contrário de quem agita galardões e diplomas enquanto obscurece.
Em questões de política portuguesa em África tenho uma opinião divergente da normalmente expressa no Bazonga da Kilumba. Muito honestamente não me revejo na aguerrida reclamação do papel de Portugal em África, em especial nos países da CPLP, e na abordagem "lusófona", que tantas vezes lhe integra o discurso.
Mas também me parece que essas dimensões, que para mim são fundamentais, serão um pouco marginais para aquele colectivo bloguista . Ou seja eu serei mais radical no afastamento ao discurso orientador enquanto eles são muito mais radicais nas críticas explícitas às políticas. [Declaração de interesse, como JPP instituiu na blogosfera: eu sou cooperante, sob tutela do IPAD, não me parece leal (nem consciente, diga-se) escrever publicamente críticas sectoriais]
E que assim concordaremos no fundamental, que muito mais pode fazer Portugal no domínio da política de cooperação em África.
Por isso não posso deixar de aqui referir este texto. Como já referi, estou pragmática e ideologicamente de fora quanto ao registo da luta/competição entre as antigas potências coloniais em África, que nele é referido. Ela existe, o que quero dizer é que é tempo de uma pequena potência como Portugal assumir uma nova forma de encarar a reprodução das suas relações em África [abandonar o lusotropicalismo neo-colonial "lusofonia", investir na multilateralidade efectiva, incrementar a capacidade de execução bilateral e sua avaliação, descentrar-se do ex-Império como vector de actuação quasi-único, modernizar o olhar sobre o desenvolvimento, "desretorizar" o discurso. Ou seja, deitar fora a água do banho lusófono, aproveitando para o borda-fora do bebé neo-colonial. Pois só pode ser neocolonialista quem tem unhas para essa guitarra].
Repito-me, neste contexto não são estas diferenças (que se bem discutidas talvez sejam facilmente ultrapassáveis) com os Bazongueiros que quero referir. Estou aqui para chamar a atenção para o referido texto. Pois em momento de botaabaixismo português é da mais elementar justiça, e também de aviso exemplificativo para o futuro, referir que sob a tutela do Ministro António Monteiro a cooperação portuguesa (e falo em particular - e infelizmente pois deveria ser apenas sinónimo - do Instituto Português de Apoio ao Desenvolvimento) reassumiu rumo (e de que maneira), energia e racionalidade.
Como diz o Mussele o Ministro "não teve tempo". Diz e lamenta. E eu repito e lamento, "o ministro não teve tempo". Que o seu exemplo oriente, é o meu desejo. E daqui ficam as saudações, que nunca lhe chegarão, de um modesto bloguista, e os agradecimentos de um idêntico cooperante.
O sociólogo Elísio Macamo acaba de abrir o Ideias, um novo blog moçambicano. Saudações e bom bloguismo.
misturar é banalizar, apartar é desvalorizar.
A propósito da efeméride, e porque o horror é hoje, breve memória do mais eficiente e popular holocausto.


Nunca esquecer é nunca banalizar.
Despertado por 1, 2, 3, 4, 5, 6, 7, 8, 9, 10, 11, 12, 13, 14, 15, 16, 17, 18, 19.
Das distracções na RTP-África [isso já não surpreende o cliente habitual]. A preguiça não é só no serviço público. Agora retransmitem os jogos transmitidos pelo canal desportivo pago (SporTV): ao intervalo os rapazes continuam no ar, falando livremente, disso inconscientes. Ainda não ouvi nada de escatológico. Mas não deve tardar.
[Alertado e inspirado pelo texto 3M do Planeta Reboque.]
Apelo a que a verdadeira cerveja nacional
abandone essa sigla, resquício do período colonial na sua memória de Mac Mahon.
E que se promova em 3M, assim homenageando a garra e o talento do presente, exemplo do futuro.

MARTINHO MARTINS MOCANA (Paíto)
Após a bola de ontem estive a ver o Prós e Contras, programa televisivo, dedicado à "reforma do sistema político" português. Ali políticos e académicos, desses virados para a "coisa política". Respeitáveis (entre eles António Costa Pinto, meu professor há mais de vinte anos).
Do teor nada digo, haverá gente mais avisada. Mas do meu incómodo, entristecido, algumas palavras. Sem ponta de ironia.
Porquê o monocromatismo dos homens portugueses? Por que raio de serôdio comunitarismo todos se apresentam de fato azul, camisa azul e, quase quase sempre, gravata azul. Que moralismo colectivista os obriga a representar a "respeitabilidade", a "decência", o "estatuto" através de tão estreito espectro cromático? Que "loja secreta" de modistas e retrosarias controla as mentes públicas do meu país?
Estas assim parodiando as criancinhas, coitadinhas, irmanadas nos velhos bibes. Depois, nó da gravata ajustado, lá afirmam as diferenças. Que estão assim implicitamente negadas. E fazem soar as suas propostas reformistas, também essas explicitamente negadas, tamanha a visível acomodação. Uma acomodação que negariam se confrontados, dizendo-a apenas questão de bom gosto (o tal moralismo comunitarista). Mas que não passa de uma acomodação sujeição aos stocks de retroseiros e modistas. E um bom gosto que será diverso em breve, pois para o ano outros stocks surgirão na mala dos vendedores-ambulantes entretanto chegados à vila.
Ontem, entre políticos, académicos e ex-políticos [agradeço se alguém me conseguir explicar o lugar social privilegiado de Ângelo Correia, para que se compreenda a sua perenidade, até excêntrica], havia uma (salutar) excepção. Aleluia! Um comunista que apresentava uma "escala cromática" (a evitar o galicismo) horrível, entre o castanho e o cinzento claro. Mas pelo menos diferente.
Logo imaginei um texto sobre o assunto que seria uma "declaração de voto no PCP por motivos cromáticos" (antes aquele muito feio do que o igualzinho timorato, seria o meu fundo ideológico). Mas ouvindo o pobre homem logo morreu a ideia: afinal antes azulinho que tanta pobreza (caramba, que aconteceu à vanguarda da classe operária?).
Nota: para quem ache fútil esta argumentação ligue um canal francês, p.ex. E veja como algum pluralismo cromático não implica um radicalismo intelectual, um extremismo político ou qualquer terrorismo. Nem a pertença a alguma "gaiola de loucas".
E, para quem viu o programa, não refira a senhora ali presente. Muito bem, pelo menos com a capacidade de se irritar com a indescritível "moderadora". Mas vestida de preto - e há lá mais padrãozinho nazareno?
Adenda: um parco sorriso e abraço ao WR. [eu também me queria armar em José Gil, a propósito de um jogo de futebol]
Outra Adenda: obrigado pelo esclarecimento.
tantos anos numa terra outra e fica-se um bocado dela.

MAMBA
Adenda: Foi isso mesmo.
Isto de fazer quarenta anos tem que se lhe diga, pelo menos digo-o eu. Não sei bem, algo de fim de etapa, prescrição do descuido, o som de qualquer coisa que está, afinal, cada vez mais próxima. E foi rápido tudo isto. Ontem antevi o que é morrer no estádio. No estádio do meu sofá, sozinho.
O estertor foi nos comentários do Xicuembo. Hoje ressuscitado lamento-o, devia ter sido intra-muros. Tudo o que lá escrevi pensei-o, talvez alterado por confusos fluxos sanguíneos. E penso-o, já menos arritmado, sob mais suaves (e cobardes) formas. Mas teria ficado melhor escrevê-lo aqui. Não só por galhardia e educação, mas porque o Carlos Gil não tem nada a ver com aquilo.
A ver se consigo escrever sobre isso. Sobre como posso (entre)ver o meu país através de um jogo de futebol.
E, lembrando-me que já no Portugal-Inglaterra não me senti lá muito bem, deve estar na altura de deixar de fumar. Ter uns cuidados. E, se calhar, mudar de amores. Destes, das bolas e das pátrias (mas haverá algo mais inculcado do que isso?).
O final do Bloguítica.
Um blog que fica para lembrar, um marco neste período (talvez mais curto do que hoje parece) "bloguístico" das formas de expressão e comunicação.
O Bloguítica levantou-me sempre uma interrogação. A dos limites do amadorismo no blogar. Como se pode manter um blog actual, analítico e informativo sobre política, esse ruído constante, num projecto não-profissional? Decerto com exaustão. E com muito prazer.
Interessante que se retire no meio (real) de uma campanha eleitoral.
Felicidades extra-blog ao seu autor, Paulo Gorjão.
Ao longo do tempo tenho recebido via email, via comentários, ou até (suprema honraria) via posts alhures, algumas críticas às minhas botaduras políticas. As quais acato, claro está. E agradeço, quem critica visita, dá-se ao trabalho de clicar para aqui.
No coração dessas críticas está a minha mania de igualar os políticos portugueses, de os "achar todos iguais". Como disse acato as palavras, mas não concordo, não penso isso. E tenho aqui um belo exemplo para o provar, um patrício político que muito aprecio.
Então cito o jornal Público, edição de hoje, a propósito da distribuição da fotografia do PM português por todas as juntas de freguesia. Nesta edição se ecoam as palavras "[D]O social-democrata que encabeça Rebordãos, em Bragança, tem ainda menos papas na língua: "A foto foi para o arquivo, como as dos outros [anteriores primeiros-ministro]. Eles se quiserem mostrar-se que venham cá". Grande homem!
Sem ponta de ironia.
Rodapé inquiritivo: o meu dicionário não tem, no prontuário não me desembrulho, o visitante Ortógrafo Ortodoxo desapareceu, que hei-de fazer quanto ao plural de "primeiro-ministro" que tenho tanto de certeza como de desagrado sonoro?
Cá de longe, e apesar da conubial e festejada aliança tv com satélite, não se alcançam esses debates televisivos entre os homens-cabeça dos partidos portugueses. Curioso, persigo os ecos de tais contendas neste campus blogus.
Fico-me à deriva. Pelos dextrímanos sei desse campeão Portas destroçando o vil Louçã, para logo de seguida, voraz e com desarrincanço, enviar arriba abaixo o velho Jerónimo. Noutras paragens, daquelas canhas, louvam-se a acutilância de Louçã, qual Átila devastador de Portas (apesar dos [a]pesares...), e ainda a rochosa presença de Jerónimo, afinal ele mesmo qual arriba. E estamos ainda nos começares dos andares. Deix(t)o-me pois a imaginar futuras lendas e narrativas.
Apraz-me a companhia de tanto velho feiticeiro, queridos colegas, e comove-me ver emergir esses recém dotados para estas artes do influir, assim sabendo-as imorredoiras. Sim, creio nesta eficiência,

mas não sendo conservador, ciente do pequeno algo que vai mudando, muito me entusiasma o uso destas novas técnicas nas nossas maneiras,

hoje de tecla em tecla criando imagens e palavras condizentes, tão filhas dos nossos desejos, logo instalando-as em ecrã luzidio. E, saibam, será assim o mundo como nós o sonhamos, o queremos, sob esses para quem "trabalhámos". Contra outros, protegidos por esses "falsários", meros charlatões, gentes sem poderes que apenas amesquinha a nossa profissão.
O Lutz, um alemão já meio tuga e/ou um tuga quase alemão, que tem o excelente Quase em Português
Não venho aqui qual justiceiro virginal apoiar o desagrado do Lutz. Elucido, se há preconceito que carrego é essa germanofobia, não apenas via Hollywood e Major Alvega. Lá está, preconceito a combater racionalmente mas aqui e ali a eclodir (violento, lembro-me no meu sofá apelando ao radical genocídio durante o jogo de futebol Alemanha-Portugal em finais de 1997, quando Rui Costa foi expulso pelo árbitro de Vichy, o gendarme colaboracionista Marc Bata, assim impedindo Portugal de ir ao Mundial França-98 em favor dos alemães).
Mas o que neste pequeno "caso" bloguístico acho elucidativo é a contradição colectiva. Se algum lusobloguista escrevesse um texto deste teor num blog mainstream muito lido (como é o Esplanar), usando os estereotipos desvalorizadores/culpabilizadores de judeus ou muçulmanos, negros de darfur ou khoi-san, travestis, budistas, anões, pernetas ou ceguetas, chineses com manchas verdes, putas, gente de fé arreigada ou incoerentes militantes, e tudo o mais que nos venha à cabeça, logo se levantaria um coro de protestos blogosféricos contra tal manifestação de intolerância, de preconceito (e o Ma-Schamba lá estaria, excitadozinho, como ainda a semana passada a resmungar a aceitação alhures do racismo anti-negro em Portugal).
Mas como o preconceito agitado neste caso é "apenas" a fobia aos "fortes" ninguém (a não ser o alemão cá do blogobairro) nota e protesta. Que isto da luta contra os preconceitos (rácicos, neste caso) é apenas para valorizar os desvalidos?
Prova da hipócrita sujeição aos bons costumes ideológicos? Permeável, claro, aos fantasmazinhos de cada um.
Nota: um dos primeiros textos do Esplanar ecoava uma viagem turística algures, a uma ex-colónia qualquer de um colono qualquer (não me lembro). A nota humorística de então era do género "que bom é o colonialismo" (presumo que por o autor se ter instalado num qualquer "resort" do tempo colonial e ser acolitado por uma série de empregados que lhe fariam lembrar os filmes sobre o tempo colonial). Por cá deixei uma nota com ligação género "o humor inteligente é difícil". É, e pelos vistos não se aprende com o tempo.
Só agora o descobri, um blog sobre Moçambique aparentemente já encerrado: o Crónicas de Maputo, três meses aí. Pode ser que volte.
Adenda: em comentário pus, e para aqui trago, "insisto, se a gente lá deixar nosso testemunho o homem pode ser que reanime".
Leio, em pequena nota de jornal de fax, notícia da publicação em Portugal do novo livro de Luís Carlos Patraquim: "O Osso Côncavo e Outros Poemas" (Editorial Caminho). Se não estou em erro o primeiro livro desde "Lidenburgo Blues", já de 1998. Talvez...
Fica-se aqui à espera. A ver se alguém o faz aqui chegar mais depressa do que o "Manual das Mãos", a última obra de Eduardo White, saída há meses em Portugal pela Campo de Letras, e que só agora encontro aqui, em dois escaparates (mas só nesses dois).
ocorre-me perguntar, na sequência da entrada abaixo (mera associação de ideias).
Política de imigração e de vistos? Que fazer? Porque é que é tão difícil para os moçambicanos obter um visto de entrada em Portugal? Quando a emigração moçambicana para Portugal é tão reduzida (o moçambicano emigra para a África do Sul. Os poucos que iriam para a Europa não procuram Portugal na sua maioria, e os que procurariam entram na categoria "brain drain", e a esta não se fecham portas em lado nenhum, como bem sabemos).
E falo de dificuldades também de gente costumeira por lá. Estudantes, ex-estudantes, lusodescendentes, empresários, artistas (então artistas plásticos a viajarem para exposições é um cabo dos trabalhos, sei-o bem), professores (idem), jornalistas (idem). E, claro, dos que não são costumeiros mas até poderiam vir a ser.
Schengen, a União Europeia? Decerto que é isso, um poderoso obstáculo às nossas relações privilegiadas, lusófonas, não será assim? A U.E., nisto malévola, a prejudicar as relações portuguesas com África. Invejosa do nosso luso-tropicalismo, perdão, afecto lusófono.
Sendo assim por que será que as pessoas vão às embaixadas nossas vizinhas, onde é tão mais fácil e rápido obter vistos? Para logo voarem para Lisboa. Da qual regressam a sua casa, quando acabado o que tinham para fazer.
Pois, vistos dados por países europeus relapsos nestas questões, sem a experiência de vagas de imigrantes, dirão. Claro, Espanha, Holanda, França.
Aberrante.
Dirão logo, os vistos não são coisas de programas de partidos, nestes estão coisas mais vastas, englobantes, orientadoras, "estruturantes" (bela palavra, comovedora até). Claro, já imagino por lá, a "bold" até o "apoio ao desenvolvimento do ensino da língua portuguesa", o "reforço da cooperação multilateral na CPLP", "a coordenação do apoio à internacionalização das empresas portuguesas". E coisas assim.
Claro, Espanha, Holanda, França....
Adenda: isto, ressalvadas todas as diferenças, parece saído de um post do Super-Blasfémias (e com a deselegância do sem ligação). Não, talvez apenas o mesmo molde. Ou será o inconsciente colectivo?
Surpreendem-se (sei que retoricamente) os companheiros do Bazonga da Kilumba sobre a exiguidade e superficialidade das referências à política externa africana nos programas dos grandes partidos portugueses.
Apesar do tudo não deixa de surpreender (não retoricamente). Não deveriam os partidos do poder ter algo mais sobre o exercício do poder?
Um sorriso amigo para eles, os bazongueiros claro está. E este é um assunto a regressar, claro.
Adenda: tal como pedi no Bazonga, será que alguém me poderá enviar os endereços dos tais programas políticos?
Criei novas categorias: "Treinador de Sofá", onde integrarei a minha bílis anti-sistema e o ainda maior e irracional desespero anti-Peseiro (afinal vamos à frente, o Sá Pinto é o maior e o Tello já dá golos a marcar); "Diário de Leituras", onde irei guardando as minhas memórias do que leio e gosto, ainda que eu não seja hábil hermeneuta. Esta última servir-me-á de memória, e talvez empurre algum leitor, em vendo o jeito e gostos cá de casa, a botar conselhos. E a dizer-me o que não terei percebido ou sentido.
Via o excelente Beco das Imagens chego a um curto mas incisivo artigo de João Miguel Tavares sobre Milo Manara, onde muito bem se salienta o excelente, e nele cume quando só, "O Homem de Papel". E minhas saudades, livro em Lisboa.

(Milo Manara)
Artigo que me vem muito a propósito, a semana passada aqui com o objecto "As Mulheres de Milo Manara" na mão e, afinal, a deixá-lo no escaparate. Chão que deu uvas todo aquele "mulherio".
para quem regresse e note pela falta de algo, acabo de apagar uma longa entrada e coloquei-a nos comentários ao texto
"a engolir o cepticismo". Ali está mais aconchegada.
No início deste campeonato português (qual Superliga qual carapuça), confrontado com as mudanças ocorridas em Portugal nas transmissões futebolísticas, aqui deixei as minhas preocupações com a continuidade do acompanhamento via RTP-I e RTP-África da bola lusa. Essa que é aconchego para imigrantes. E o grande laço com os países antigas colónias. Preocupações essas que então tiveram eco em alguns amáveis bloguistas.
Lembrando essa amabilidade, e chegados a meio do campeonato, aqui notifico sobre o assunto. Nunca se viu tanto futebol. As RTP-I/África transmitem o joguinho semanal. A cadeia moçambicana outro (às vezes em simultâneo), tal como a televisão angolana (esta por vezes até mais do que um jogo), aqui retransmitida via TVCabo.
E desde há algumas semanas esta TVCabo transimite no seu canal 1 quatro ou cinco jogos por semana. Ou seja, bola que se farta. (E efeitos do fim do reinado RTP?).
Aqui os i/emigrantes agradecem a escalfeta (ainda que o calor aperte, apesar das chuvadas). Agora vou ver o meu Sporting. E logo a seguir o Porto. Depois de ontem ver o Benfica. E antes o Boavista...(que vergonha).

O Mural de Malangatana no edifício do Centro de Estudos Africanos, ali à frente do meu estaminé, reproduzido em postal da Universidade. E com meus desejos que o mural vizinho, realizado em 1998 por Bento Carlos Mukezwane, falecido no ano seguinte, e por Ciro Pereira venha a ter a mesma divulgação.
Até pela merecedora memória do Bento.
A engolir o meu cepticismo aqui vertido, referindo estes textos no Avatares do Desejo, no Os Tempos que Correm e, muito em especial, no A Natureza do Mal.
Adenda: um comentário do leitor Mário Cordeiro no Abrupto resume e mata a questão.
The Coming of Wisdom With Time
Though leaves are many, the root is one;
Through all the lying days of my youth
I swayed my leaves and flowers in the sun;
Now I may wither into the truth.
Embora muitas sejam as folhas, a raiz é só uma;
Ao longo dos enganadores dias da mocidade,
Oscilaram ao sol minhas folhas, minhas flores;
Agora posso murchar no coração da verdade
(Yeats, tradução José Agostinho Baptista)
Poderes mágicos do Ma-Schamba? Ou mera empiria?
Há um mês escrevi, e há muito que o penso, este texto lembrando o futuro (a curto prazo) do meu país. Hoje fizeram-lhe um elo [link] [texto abaixo transcrito].
É o pós-folclorismo.
Portas Admite Entendimentos com Socialistas
Público
Sábado, 22 de Janeiro de 2005
No mesmo debate em que ouviu Francisco Louçã recusar-lhe o direito de falar sobre aborto por não ter filhos, o líder do CDS, Paulo Portas, admitiu ter entendimentos com o PS, desde que seja para defender "valores fundamentais", como a política de defesa ou de relações externas.
""Vamos ler a vontade dos portugueses. Em princípio o PS tem os seus aliados naturais e não está à espera que o seu aliado natural seja o CDS-PP, mas há valores essenciais que eu defenderei sempre", disse Paulo Portas, para quem "a política de defesa ou internacional não podem ficar dependentes do PCP ou do Bloco de Esquerda", pois estes partidos defendem a saída de Portugal da NATO e são contra o Tratado de Constituição da União Europeia.
Portas, contudo, fez questão de salientar que "o CDS tem um aliado natural que é o PSD", enquanto os "aliados naturais" do PS são o BE e o PCP
O Futebol Português está todo "abaixo de Braga".
Escrevendo na terceira pessoa? [leia mesmo meu caro]. Se o ridículo votasse ganhava.
PS. Também lá cheguei via o atento observatório. Mas para não voltar, que "panfleto Pingo Doce", credo. [ainda haverá panfletos do Pingo Doce? desses sempre intrusos nas caixas de correio reais?]
Eu sei que prometi a mim mesmo não maschambar política portuguesa, que me torna ácido, me cansa e, acima de tudo, me desblogueia. E há tanto teclado nisso, e ainda bem que a política é dos cidadãos e não dos mandarins, para quê mais um, ainda por cima agricultor incompetente.
Mas ao ler notícia sobre o debate entre Portas (Paulo) e Louçã [abaixo transcrito parcelarmente, corte para demonstrar o que interessa] não pude deixar de gargalhar mudo, esta é deliciosa. O Prof. Francisco Louçã a falar assim? Ajoujado aos preconceitos, o "quem não é bom pai não é do Benfica?".
Até dá vontade de ir clicar o bloguismo BE, decerto a esta hora almoçal já estão cheios de críticas ao reaccionarismo do homem. Iradas. Indexadoras. Denunciando o "discurso de direita", afinal esse antanho lá no âmago.
Ou talvez não, que isto de ir ao fundo não cabe no "girismo". Adivinho silêncios, que não serão hipócritas, serão sim naturais naquele vazio.
"Quer ser califa no lugar do califa?". Então Má Sorte, é o que se deseja.
Urghh...que gente!
Debate televisivo entre líderes do Bloco de Esquerda e do CDS/PP
Portas e Louçã travaram debate aceso a propósito do aborto e da banca
Lusa
O líder do CDS/PP, Paulo Portas, e o dirigente do Bloco de Esquerda (BE) Francisco Louçã travaram ontem à noite um debate aceso na SIC Notícias, com troca de acusações a propósito do aborto e da banca.
No final do debate, que durou cerca de uma hora, Paulo Portas acusou o BE de não defender o direito a nascer e Francisco Louçã reagiu, argumentando que o líder do CDS/PP "não tem direito a falar de vida".
"Há uma vida que tem o direito a nascer ou não, de acordo com o BE não tem, de acordo connosco tem", disse Paulo Portas, para justificar a posição do CDS/PP a favor do "actual quadro legal" que penaliza o aborto com pena de prisão de até três anos.
"Não me fale de vida, não tem direito a falar de vida", interrompeu o dirigente do BE.
"Quem é o senhor para me dar ou não o direito de falar?", protestou Paulo Portas, levando Louçã a responder: "O senhor não sabe o que é gerar uma vida. Eu tenho uma filha. Sei o que é o sorriso de uma criança".
....
Está um homem a ler blogs na manhãzinha e tem cada associação de memórias!, assim um velho single lá de casa a vir-me aos ouvidos. E eu a gostar tudo.
Wandrin' Star (Lee Marvin)
I was born under a wandrin' star,
I was born under a wandrin' star.
Wheels are made for rollin'
mules are made to pack.
I've never seen a sight that didn't look better looking back.
I was born under a wandrin' star.
Mud can make you prisoner, and the plains can bake you dry.
Snow can burn your eyes, but only people make you cry.
Home is made for comin' from, for dreams of goin' to,
which with any luck will never come true.
I was born under a wandrin' star,
I was born under a wandrin' star
Recordando Jovens Agricultores de Elevado Potencial.
Ouvi há pouco, neste manejar da língua que aqui dá azo a tantas novas conceptualizações: "lambe-botismo".
[A propósito de uma chamada de atenção no Quase em Português].
Regra nº 1, dogma mesmo, do Ma-Schamba. Nunca misturar trabalho com blog. [até para não aborrecer mais as visitas]
1ª e última excepção: hoje, aqui.
Mês de "férias", a escrever e a preparar aulas. Algumas para caloiros de cursos outros. Livro novo, um quase manual (enviesado, ainda para mais), desses que talvez possam ajudar a enquadrar os textos a discutir: James Rachels, Elementos de Filosofia Moral (Gradiva, 2004).
Salta-me uma formulação passível de bloguice. Não por sacralizar a palavra impressa (ainda para mais uma palavra que absolutiza a "razão", mas para isso é melhor ler). Apenas porque me lembrei dessa questão bloguística:
"A concepção mínima ...[de] moralidade é, pelo menos, o esforço para orientar a nossa conduta pela razão - isto é, para fazer aquilo a favor do qual existem as melhores razões - dando simultaneamente a mesma importância aos interesses de cada indivíduo que será afectado por aquilo que fazemos."
Criticável. Utópico? E, repito, manualesco. Mas também incompatível com construir condomínios onde os negros não podem viver, só porque isso apetece aos condóminos, só porque estes não gostam de viver com negros.
Um antropólogo muito conhecido, Levi-Strauss, escreveu um dia uma formulação grávida, e muito citada desde então: "O bárbaro é em primeiro lugar o homem que crê na barbárie".
Eu sou um bárbaro.
A Raquel do Percepções do Meu Olhar pergunta o que é um portulano. A resposta, sucinta, pode ler-se aqui.
Complemento com "...vai surgir nos finais da Idade Média uma nova, e verdadeira, cartografia, com o aparecimento e difusão nos séculos XIII-XIV da chamada "carta-portulano" mediterrânica (note-se que a designação correcta é a de "carta-portulano", e nunca a de "portulano" - pois os portulanos mediterrânicos não eram representações cartográficas, mas sim relatos sob a forma de texto escrito, tipo roteiro)"
(Alfredo Pinheiro Marques, A Cartografia dos Descobrimentos, ELO-Publicidade, Artes Gráficas, 1994, p. 19)

(Carta Portulano Benincas Graziosa, sec. XV)
Vai animado o debate interno no Blasfémias. Sobre a minha mescla de interesse e desconforto com esse blog já arenguei (e também aqui e aqui, então a propósito de uma referência a Moçambique com a qual discordei).
Cá de longe, e metendo a colher em lar alheio, a discussão parece-me clara. Trata-se de um debate entre quem tem uma teoria de inteligibilidade do mundo e lhe interroga os limites e quem tem uma teoria de inteligibilidade do mundo e não lhe interroga os limites. E, independentemente dos saberes retóricos (conjunturais) e dos poderes de vinculação (idem), na história temos assistido a que é mais profíqua (ou, se se preferir, mais lucrativa) a interrogação constante do que a asserção constante. Di-lo até, e de modo brilhante, a epistemologia liberal.
Quanto às monocausalidades parece-me óbvio que, para além das críticas teóricas, foi a própria realidade empírica do final do século passado que as enterrou. Serão hoje, quanto muito, almas penadas do pensar.
Felizmente a ortodoxia não vinga, pelo menos no médio prazo. O resto são meros entusiasmos.

Aqui referi Leite de Vasconcelos, a propósito do Ideias para Debate ter inaugurado com a apresentação do seu "Testamento Político".
Ainda o cheguei a conhecer, muito superficialmente, um mero encontro em 1996, proporcionado pelo Camilo de Sousa e pela Isabel Noronha, seus muito amigos. Confesso que na altura tinha uma ideia muito vaga sobre com quem me ia encontrar. Quando, no ano seguinte, regressei a Moçambique ele tinha morrido muito recentemente. E só depois fui entrevendo o facto de ele ser aqui uma referência, junto de um determinado meio.
Para quem dele não tenha ideia aqui fica uma pequena imagem, sem que tenha eu possibilidades e conhecimentos para mais profundo olhar (se algum leitor quiser contribuir/emendar será muito agradecido). Mais como memória reconhecida de uma esclarecida conversa. E homenagem a quem, sendo homem de ideologia forte (e outra) a mesclou com a lucidez corajosa de um dia escrever
...
No fundo, meu amigo, à sombra temos medo
e mais medo ainda de confessar ter medo
e ainda mais de confessar de quê.
Anunciar um povo era exaltante,
mas pertencer-lhe é muito mais difícil.
("A Espera")
Filho de quadro superior de empresa algodoeira foi nascer a Arcos de Valdevez (1944), cresceu até aos 11 anos em diferentes localidades em meio rural, indo depois para Lourenço Marques estudar num colégio marista. Estudou em Portugal nos anos 60. Entrou para o Rádio Clube Moçambique em 1969, de onde foi expulso em 1972, tendo então regressado a Lisboa depois de uma passagem por Londres. Diz, em entrevista a Michel Laban (Moçambique. Encontro com Escritores, Fundação Eng. António de Almeida, 1998), que em Londres tentou junto da Frelimo seguir para a guerrilha na Tanzânia, tendo sido enviado para Lisboa. Trabalhador inicial do jornal Expresso. E na Rádio Renascença criou o programa "Limite" onde passou a senha musical (Grândola Vila Morena, de José Afonso) sinalizadora do início das actividades do 25 de Abril de 1974. Regressado a Moçambique em 1975 aí continuou carreira na rádio, também jornalista, foi delegado da AIM em Joanesburgo durante dois anos em meados dos anos 80, cronista político, dramaturgo e actor, professor, presidente do Conselho Deontológico da Organização de Jornalistas.
Publicou poesia em jornais, na revista Caliban (Lourenço Marques, 1971/2; reedição facsimilada Instituto Camões/Maputo, 1996). Está presente nas antologias "A Palavra é Lume Aceso" (organizada por Manuel Ferreira ???), "Caliban" (organizada por Manuel Ferreira), "Antologia da Nova Poesia Moçambicana" (org. Fátima Mendonça, Nelson Saúte, Maputo, AEMO, 1988), "Nunca Mais é Sábado. Antologia de Poesia Moçambicana" (org. Nelson Saúte, Lisboa, D. Quixote, 2004), "As Mãos dos Pretos. Antologia do Conto Moçambicano" (org. Nelson Saúte, Lisboa, D. Quixote, 2000), "Gostar de Ler" (org. Bruno da Ponte, Maputo, Tempográfica, 1981).
Publicou em vida um livro de poesia, Irmão do Universo (Maputo, AEMO, 1994). Postumamente foram publicados Resumos, Insumos e Dores Emergentes (Maputo, AEMO, 1997; poesia), Pela Boca Morre o Peixe (Maputo, Associação dos Amigos de Leite de Vasconcelos, 1999; crónicas publicadas no Mediafax em 1995-96), As Mortes de Lucas Mateus (Coimbra, Cena Lusófona, 2000; dramaturgia) e A Nona Pata da Aranha (Maputo, Promédia, 2004; contos).







O seu conto "O Lento Gotejar da Luz" originou o filme O Gotejar da Luz de Fernando Vendrell, com argumento também de sua autoria.
Leite de Vasconcelos é apontado como um nome importante da lírica moçambicana, especialmente vincada em Irmão de Universo. Mas aqui deixo alguns poemas talvez outros, de uma poesia visão do mundo.
Lição de Biologia
No reino animal
não há cores necessárias
mas animais do reino
utilizam cores convenientes.
É velho o mimetismo
sabido de animais sem raciocínio
que atacam uns e outros se defendem
nunca (curiosamente) por a cor ser aquela
ou outra diferente
mas porque se defende ou apetece
a carne submersa em qualquer cor.
Resulta disto o simples corolário
de ser conveniente a certos apetites
usar o mimetismo e abocanhar
em nome duma pele
a pelo e o resto de quem passa perto.
Jogos de luz de pronto se diriam
estes que na luz entretecem
cumplicidades de cores
não fossem os hábitos sombrios
destes predadores.
Tantos mais que se conhece
serem daltónicas as suas fomes
pois notícia não há de que algum
rejeite por almoço
um animal da sua mesma cor.
Diferencia-os o diâmetro das fauces
o grau do apetite é rigorosamente infindo.
E isto os mata
que não há digestões
para fazer o quilo de tais fomes.
Inevitavelmente, os sáurios empaturram
e, de comerem sempre,
ficam duma cor definitiva em todos os mortais.
(Irmão do Universo)
Facocero
Bem tentaram
dar-lhe parentes nas Ardenas
e caçá-lo como javali
Não foi assimilado
Sempre preferiu
não ser caçado
Búfalo
Um manso boi em estado solidário
Temam-lhe a revolta
de estar ferido
ou ser abandonado
Então torna-se um homem
Juiz
Caracol de toga e de registo
o mais prudente
intérprete de Cristo
Atira só a derradeira pedra
Cristão
....
Piedade para o cristão Piedade para ele
que tem um só deus entre tantos demónios
e piedade também para esse deus exausto
que entrou num homem porque queria morrer...
A Pele
(em tempo de reestruturações económicas,
reconversões tecnológicas e outras actualizações)
Papel de embrulho
feito
software
Até entrever o fim em
Receita para uma infracção
Toma nas mãos uma manga
desses que verdes o Knopfli sente
na infância do palato
Tens cinquenta anos
dois rins em greve até à morte
e um que pertenceu a alguém que desconheces
e por morto não soube a quem doou
a faculdade de mijar ainda
...
Tomas uma verde manga como um rio
uma simples manga de Novembro
de ti para ti transplantada
nos dezembros da vida
(Resumos, Insumos e Dores Emergentes)
Nota: informações bio-bibliográficas obtidas em "Irmão do Universo", "Resumos, Insumos...", "As Mãos dos Pretos" (org. Nelson Saúte), "Pela Boca Morre o Peixe" (texto introdutório de Machado da Graça) e na entrevista a Leite de Vasconcelos inclusa em "Moçambique. Encontro com Escritores", de Michel Laban (referências bibliográficas acima).