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dezembro 13, 2005
As regras e os estereótipos: convites e chamussas
[crónica de costumes, coisa feia a nem merecer arranjos formais]
Isto dos convites para os eventos, aqui, é importante. Sei que um dia há-de deixar de ser. Mas ainda ... Estatuto, claro, o "então por cá!" a marcar o "quem é quem". Mas também, e agora moralizo, nem que seja para avisar das actividades, comprar depois as que se compram, ver depois as que continuam.
De vez em quando também recebo convites para as "inaugurações" e "apresentações", esses aleluias dias de cocktail. Um bocado a pedido, diga-se, que é vasto o meu afã por chamussas, rissóis, croquetes (e já nem falo da saudosa, e em tempos afamada, cornucópia). Vasto afã mas envergonhado. Explico-me ...
Dos "portugueses" (o Camões) [aqui desde 2000 diz documentação publicada para uma recente "exposição por ocasião da visita de sua Excelência ..."] recebo-os para algumas coisas vulgares (não quando vem "sua Excelência" claro). Recebo-os pois fui pedir. Aquando da colectiva do Lugar do Desenho tive pena de nunca receber convites, mais porque em tempos tinha vagamente encontrado esses artistas na Ilha de Moçambique e gostava de os ter ido cumprimentar, tantos anos passados. Mesmo que fosse para aqueles "haas...claro que me lembro de si" mas está-se mesmo a ver que não. E tanto assim foi que tirei-me de vergonhas e, pelos vistos quatro anos depois de recepções e issos, fui lá aos serviços culturais a dar a morada para esses dias, afinal sempre sou cooperante e tenho um blog. Como vêm adepto de chamussas mas envergonhado.
Dos "franceses" (o Franco-Moçambicano) nada mas talvez por não ser francófono, dos "brasileiros" (o CEB) também nada, e nestes já me chegou ter sido barrado à porta, que ir à Baixa para chegar lá e nem o livrito comprar ("desculpe, só para convites, e estes só para moçambicanos e brasileiros"), só a um parvo acontece repetir. Às vezes vêm da AMF, mas aí as pessoas estão em casa, são assim tratadas, e achamos que podemos aparecer, basta o boca-a-boca (ainda que bem se pudesse fazer aviso via circular email para maior conhecimento das actividades).
Nisto dos convites e não, às vezes há estranhezas. Um dia estava à porta, do lado de dentro atente-se, do Camões, ali chamado pelo artista, e chegou-se à entrada um jornalista cultural, escritor (e às vezes sacando umas belissimas crónicas, lembro uma antológica dedicada a Ana Magaia) além de emérito e único bluesman bi-thonga. Vinha em traje informal e sem convite, tal e qual eu, diga-se. O (decerto) neófito porteiro barrou-o pois, naquele dia, "sem convite ...". Ele a espantar-se. E eu, como quem não quer a coisa, a chegar-me num sussurro "então vocês têm ali o livro dele à venda e agora não o deixam entrar?". Lapsos, curtos e resolúveis, e lá entrou ele.
Enfim, as coisas nossas, os que andamos aqui à chamussa e copo de vinho barato (um brinde ao falecido Navarro) oferecidos. Sem convite. Mas com sede. E fome. Mesmo que para isso tenhamos que aturar livros, coisas ditas das artes, gente a palestrar, filmes. E até, ali e acolá, discos.
Coisas lembradas a propósito do ontem, da apresentação do filme "Muvart", sobre o Muvart. Filme e movimento a resmungarem, a ultrapassarem os estereótipos, a exigirem fazer coisas que queiram, mais ou menos como "a arte é um país (?)/mundo (?) sem fronteiras". Desregrada, desestereotipizada. Depois belissimo chop-chop (o serviço do restaurante Cristal, é excelente, muito recomendável).
Esqueci o convite em casa. Eu que sou eu, entrei, chegado a horas, entre mais gente, aperto de mão à porta. Depois, já sem gente à porta, sem convite, chegou Idasse que é Idasse. Não entrou. Não entra no Franco sem convite. "São regras". Eu que sou eu entro, Idasse que é Idasse não entra. São "regras"?
Quando saio, filme visto, chamussa à espera, ele está lá fora, já sem ser para entrar. Passo-me, azeda-se-me o vinho, aquece-se-me a cerveja, oleia-se-me a chamussa, enboloriza-se-me a sanduiche. Protesto publicamente, que merda de instituição cultural trava à porta Idasse que é Idasse? Que "arte contemporânea" pode ser assim? Espanto, dos artistas, dos amigos, dos intelectuais: que são as regras do centro, que "agora só com convite". Em alguns vejo, um "vejo com os meus olhos" que vale o que vale, até a sensação do "nós é que estamos aqui". Coisa reaccionária até mais não, paradoxo seria se não mera pobreza do "são as regras". Um gajo que me enche a rua com lixo a dizer que é arte e depois, afinal, tão burguesote no "bomcomportamentismo"?
Saio, furibundo. Com uma instituição que trava Idasse que é Idasse. Mas muito mais com a "corporação" ali a desenhar-se, com a pequenez do pequeno sorriso irónico.
Gargalho hoje com a aflição pequeno-burguesa. Que só hoje sei de outro dos travados: o maior coleccionador de arte aqui, o maior mecenas privado, o eterno desenrascador da gente artista. O homenageado no filme. Pois, esqueceu o convite em casa. Agora "frisson" (galicismo, sempre é no Franco).
Rio-me. Sem qualquer hipótese de contra-argumentação. Apenas de coro de gargalhada. E ainda que resmungando "quer romper fronteiras da arte? então abra as portas ... e deixe o sorrisinho". Ou melhor, desista da chamussa, vai ver que a gente vai à mesma. Até eu, apesar do afã comensal. E, porque não, instalem-se chamussas. Antes isso. Muito mais antes isso.
Publicado por jpt às dezembro 13, 2005 07:00 PM
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Comentários
Obrigado "mano" Zé. Não queria deixar esta oportunidade, para mais uma vez saudar a tua permanente e pertinente atitude, de "ñ deixar andar" as nossas hipocrisias , como bem mencionaste: dos portugueses, brasileiros, moçambicanos, franceses, Etc. Nós Humanos sempre com régras e estereótipos...
Tentando puxar a sardinha para a minha brasa, acho que A Arte Contemporânea de Moçambique e o MUVART e AVADES OY, conquistaram um duplo passo nesta ocasião com este debate... Mas que todos entedemos que a Arte, Contemporânea ou outras, não pretendem resolver problemas ou hipocrisias e muito menos fomentá-los. Mas o "papo" sobre o assunto, interessa à Arte Contemporânea. Assim que... "mano" Zé,mais uma vez obrigado. A luta continua e juntos venceremos. Quem sabe! um dia talvés, o Idasse que é Idasse será Idasse e o Gemuce que é Gemuce será Gemuce...
Gemuce
Publicado por: Gemuce às dezembro 14, 2005 02:40 AM