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Ma-Schamba: Homofobismo?

« Carlos Cardoso | Entrada | Romances Portugueses »

novembro 22, 2005

Homofobismo?

Nos tempos em que fui jovem andava por lá o costume de se mostrar a muita "macheza" (o que então era hetero, nem valerá a pena lembrá-lo). Coisa de baixa classe mas não só, também os então "queques", a classe média a querer-se alta. Nestes mais finos o macho era-se nos botãos da camisa desapertados, desvendando os pêlos do peito sonhados matagal e, fundamental, o cordão, se de ouro era um "must", que os adornava e iluminava (aos pêlos, claro). Sofriam os glabros. Discriminados, acontecia-lhes até raparem-se na esperança de incrementos futuros. No pessoal mais povo estes cuidados no trajar vinham juntos às calças justas, enrelevando a genitália, bem aconchegada, a cuja lhes exigia com grande afinco carinhos constantes sob forma de coçadura. Nesse caminho tempos depois chegou, acho que lá do Brasil, a moda da tanguinha, o quase fio-dental para homem barrasco aquando na praia. Dizem, que isso era mais lá pelas caparicas onde o povo se associava, eu isentei-me. Repugnado com a areia partilhada e, claro, fiel ao calção largo no quando e onde.

A rapaziada então era livre, ria-se dessas merdas, mais das dos forcaditos filhos-família do que das dos "ciganos", que destes ainda se tinha o respeito do não querer levar umas lambadas. Quem se apresentava nestes preparos logo levava com o labéu do "chulo", fosse-lhe o papá doutor ou estivador. Atributo que mais tarde estendemos aos que nos carros sentavam as mulheres nos bancos de trás, assim montando velozes o célebre "carro de chulos", arquétipo Ford Capri.

E nestes rodeios lá se fez o nosso pudor, coisa da boa-educação, coisa ensinada. Entenda-se, no carro a menina sentada ao nosso lado, sempre e não só para os melos. Nos trajes a camisa apenas com um botão desapertado e no abaixo-do-cinto a folga, algo indeterminada, que permitisse o implícito às potenciais interessadas, avaliadoras. Falo de coisas sérias, constantes, em despontando as penugens, em descobrindo-se protuberâncias, logo alguém o notaria, no entre-sarcasmos, "hé pá, tens cá tantos pêlos" quando não o ainda mais explícito "ó seu xuleco...". E se nos surpreendia alguma aflição epidérmica lá pelo baixo-ventre logo vinha o "olha a micose". Humor? Nada, o sarcasmo a mostrar como usar o corpito. Ou, de outra forma, que há sítio para tudo, até para as coceiras. Chamámos a isso liberdade. E usámo-la.

Vieram anos e novos trajares. Em muitos mais do que tudo maiores cintos, que as protuberâncias a folgar são agora as do ventre e não as abaixo. E as testas cada vez mais altas, até-à-nuca até. Nos outros, os que chegam, a moda foi mudando. A macheza à mostra multiplicou-se. Coisa agora homo, entenda-se. Os tiques os mesmos. A genitália relevada, os troncos apresentados. Novos tempos e vontades? Nada, coisa de velhas modas e da mesma barrasquice, nem mais.

Mudanças? em nós, no medo do sarcasmo, no "tem que ser" o que me impingem. Vou andando, quando lá, murmúrio para mim, "granda xulo" ali e acolá, mas enfim. Repito, murmúrio para mim mesmo, que já não é tempo para criticar outros, há que aceitar tudo e todos. Senão ... mal-visto e mal-quisto.

Há tempos, no por lá, fui ao doutoramento de colega e amigo. Nós, a claque, informais. Gente da ciência social, mestres de duplipensar correcto (nem todos, nem todos), coisa até do estatuto profissional, que tudo isso parece vir das leituras certas em tempo certo. Acolheram-nos candidato e participantes, dito júri, rídículos, quais curas medievais. Livre ainda, disse-o, aos que conhecia. Sorriram-me, até críticos daquilo, mas no "que queres?, são as normas" e logo na coimbrã coimbra. Enfim, mostrando-se, ainda que ali expectantes em dia de festa, livres para olhar o ridículo de vestes e poses. Sabendo do seu porquê. E até parecendo que sempre assim atentos. Mas não, mas não...

Depois das loas e incensos devidos ao vencedor avançámos aos comes e bebes de fim de tarde. Uns já desfardados outros mantendo-se no informal, nisso umas dezenas. A animar, que festa de doutoramento é momento. Fiquei-me um pouco de fora, anos cá fora, já muitos que não conheço ou não se interessam. Entre-copos estou ali com dois colegas, a fazer novas velhas conversas, e, súbito, avança um já não jovem, no cumprimentando-os. Todo ele justinho, claro, e a camisa aberta até ao umbigo, os tais (poucos) pêlos em radical anúncio.

"Quem é este paneleiro?" perguntei logo que ele saíu. "Éh pá, lá estás tu" dizem-me os colegas, no serem correctos. "Foda-se! Estou o quê?", "ah, estás a desatinar...", "estou a desatinar o quê? quem é este gajo?" "fulano, de tal", "ah, que paneleirote!". (Sor)risos, "não mudas", "não mudo?" (a irritar-me) "foda-se, isto é maneira de estar vestido? Aqui? Para afirmar o quê, aqui?"?", "ok, ok", "ok, ok o caralho, e se fosse eu a aparecer assim?" "ok, ok, é ridículo". E eu a calar-me, porque estamos a beber, a repetir as tais velhas conversas, as que não se concluem, as de amigos mesmo. E assim não me apetece o tal mal-visto e mal-quisto. Mas, ainda assim, hei-de continuar a dizer uns palavrões valentes. Pôrra ... onde está aquela liberdade? A de olhar o ridículo? O do ordinário.

Adenda: há comentários quase-post. Meus e alheios.

Publicado por jpt às novembro 22, 2005 03:55 PM

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Comentários

Há alguns anos atrás, um amigo brasileiro contou-me que sabia reconhecer os portugueses nas praias do Brasil. Dizia ele: "Vocês só usam calção. Vocês sempre pensam que quem usa sunga é viado".
Hoje ele não não consegue fazer essa distinção.

Publicado por: Marco Oliveira às novembro 22, 2005 04:36 PM

eu não acho coisa de bambi. acho mesmo foleiro...

Publicado por: jpt às novembro 22, 2005 04:58 PM

1.velhos tempos, esses da elegância do desejo, uma das armas possiveis contra a foleirice ou a desinteligência, que é o mesmo.
2.É a manter-te assim com essa postura que é futuro garantido, na futrura geração, farta que deve ficar de tanto cerceamento correcto ou tanta buçalidade como expressão da tolerância. Ao futuro, portanto!

Publicado por: tavares às novembro 23, 2005 01:29 AM

gostei muito do teu post. é claro que tendo nós mais ou menos a mesma idade e tendo andado pelos mesmos sitios estas histórias que contas são também alembradura para mim. e está bem contada. e fico contente por poder ter alguma "responsabilidade" em te ter provocado este belo naco de prosa em cujo disfrute consigo perfeitamente dissociar-me da sua hipótese de "moralidade" final.

Publicado por: jpn às novembro 23, 2005 03:08 PM

bem-vindo por aqui quim. certo, os mesmos lugares no antes. certo, não partilhas a moralidade "sem aspas" final. eu não percebo bem que moralidade é que não partilhas. se, como dizes e agradeço, a história está bem contada, o que aqui eu vejo é tipos a partilharem a tal moralidade e de repente a curto-circuitarem essa partilha, aflitos com o "ficar bem" na foto, apenas por isso (mas explico-me, nada pior para um textito, por mero que seja ...)

Publicado por: jpt às novembro 23, 2005 03:48 PM

Pareceu-me que esta história concluia com uma moralidade:"onde está aquela liberdade? A de olhar o ridículo? O do ordinário." Parece-me óbvio que isto possa ser entendido como uma interpelação em forma de "moralidade" ou uma "moralidade" em forma de interpelação, como soar melhor. E quando falei de "moralidade" com aspas estava a remeter-me para um determinado momento narrativo, a seguir ao desfecho da história, que é muito usual em cada história. Não estava a classificar a moralidade em si. Pelo contrário, assinalei que conseguia disfrutar a narrativa ( gosto da forma como escreves, como pensas, mesmo quando discordo do que pensas) independentemente de não me associar à sua moralidade. E da qual me dissociei porque não me parece muito feliz na conjunção de uma ideia como a da liberdade com a de uma convenção social, como o é a de apontar o dedo ao ridiculo, cuja finalidade pode ser associada ao objectivo de, através da zombaria, inibir ( a liberdade d') o outro de se expressar de uma determinada forma.

Publicado por: jpn às novembro 23, 2005 08:25 PM

quando digo moralidade sem aspas é mesmo para sublinhar a sua presença. as aspas estão desnecessárias. quando digo que não percebo que moralidade não partilhas (tu e tantos outros) é no sentido que vejo as pessoas partilharem (e muito presumivelmente tu também, mas não te vejo há tantos anos que não posso comprovar) dessa moralidade. apenas a interrompem em determinados momentos, como digo acima para ficarem bem-quistos (consigo mesmo?), bem-vistos (para si mesmos?). repito-me constantemente, esses intervalos na moralidade própria são formas radicais de discriminação, para determinadas pessoas (identidades) fazem parêntesis nas categorias com que olham o mundo

aquilo que não estará explícito no texto (o cujo não é ensaio, é desabafo) é que não falo de manifestações públicas, colectivas, rituais, reivindicativas, dos movimentos políticos, sociais: aí posso concordar/discordar das causas, dos métodos de luta/afirmação, da simbologia, do discurso. mas aí estamos noutro registo.

o que aqui me surpreende é a auto-exigência e a exo-exigência de termos um tipo de tratamento/visualização/categorização para determinados indivíduos e outro para outros. Esse correcto de boas almas, que é o pior dos pirosos paternalismos. das desvalorizações do alheio.

num paralelismo um bocado forçado, lembrei há tempso aqui o dito de uma feminista: a igualdade das mulheres é o direito à incompetência. a de poder ser como os outros, não ser melhor ou diferente. Não ter de ser ... Isto não é igualitarismo, é equidade. mas isso é outro caminho. hei-de ilustrar, agora vou ver a bola

Publicado por: jpt às novembro 23, 2005 10:55 PM

JPN, imagina os 25 anos de fim de curso liceal num liceu qualquer. P.ex. a antiga ES dos Olivais, vulgo Viveiros, agora Eça de Queirós (com s). Almoço, os alunos de então a ver se se viam. Eu vou, até anunciei no blog. Tu idem. Havemos de nos cruzar, sem nos vermos há anos. Eu chego, 90 e tal kgs, camisa aberta ao umbigo, o tal cordão, um bocado lânguido com as antigas colegas hás-de reparar durante o dia, bastante extrovertido até. Não catalogas, não julgas (aprecias)? Não te afastarás até, em busca de outros talvez?
A luísa (lembras-te da luísa) já não tão bela, agora não mignone mas atarracada, mini-saia apesar dos também kgs, baton a mais, pechisbeques vários, tanto sentimento e beijos com os velhos colegas. Tu não idem? O Carlos (sabes?) agarrado ao sg filtro ainda, talvez ainda às ganzas isso não sabemos, com expectoração - nem se levanta, cospe para o lenço de pano. Tu não notas? A mizé também se assoa, num lenço de pano. Tu não notas? O orlando, o velho orlando, depois do frango, a ele só sairam asas, palita abundantemente os dentes, retira o palito, olha, esfrega-o no prato, e recomeça. O Mendes trouxe a mulher, esta assim com um ar enfim, e chama-lhe "gajinha", até conta como conheceu a "gajinha". Tu gostas? O Finezas nota-se que deve estar bem, bem vestido, director, fala de carros e do apartamento em síto bom, bem como das férias, distribui cartões de visita, se precisarmos de alguma coisa. Tu não catalogas? O ZéTó não engana, não saiu. Tu não lamentas? Tu não julgas? A Joana continua linda, está uma senhora, elegante, bem vestida, simpática. Tu não notas, não gostas? Já a Fátima, a fátinha, tão bonita que era, agora matrona, bebeu umas cervejas e fala muito com o ... olha com o Flávio, o marido dela, que não é dali, até bufa. Tu não reparas? O Flávio, esse de Àfrica, já bebeu, o botão do umbigo já se desapertou, mete a mão no joelho da fátinha, tão bonita que era, riem-se ambos, o marido dela que não é dali já bufa, tu não notas. A mulher do Flávio, como é possível, parece uma senhora (sublinho o parece) como é que está com aquele bimbo? (tu não dizes? tu não dizes o "parece" que eu te sublinhei?), enfadada. O Castro está careca e puxa os cabelos de um lado para tapar a careca. tu não reparas? Tu não reparas? O Santos, o santos da portela, está em forma, nem barriga, nem brancas, a idade não lhe passa em cima. Tu não notas, não invejas, não comentas? O velho professor de história está lá, um caco, tu não te assustas? O Albino é gay, está como os outros, mas é gay e tu não notas mesmo nada disto que notas nos outros, não podes notar, não queres notar, não queres classificar, não queres moralizar.

É só isso. Organiza lá o almoço, a reunião. E vê lá se não notas. Eu não vou, estou cá longe. Moralista, reaccionário, homófobo. A achar um gay tão palhaço como um straight. Tão puta como uma puta. Tão tudo como eu. E como o Quim

Publicado por: jpt às novembro 24, 2005 12:59 AM

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