novembro 16, 2005
Há sempre uma primeira vez
É a primeira vez que, em questões de futebol, concordo com Miguel Sousa Tavares [texto abaixo transcrito], o cujo nestas coisas da bola é um avatar do ex-célebre Guarda Abel.
Miguel Sousa Tavares
Nortada
A Bola
15.11.2005
Fui dos primeiríssimos a criticar a escolha definitiva de Ricardo para titular da baliza da Selecção por parte de Scolari. Escrevi então que, muito embora o considerasse um grande guarda-redes entre os postes, achava que lhe faltava em absoluto uma qualidade hoje fundamental num guarda-redes: dominar o jogo aéreo. Houve quem ripostasse que eu escrevia assim porque era portista e amigo do Baía — ambas as coisas são verdadeiras, e muito me honram, mas não me determinam. Hoje quase toda a gente reconhece que o que Scolari fez e vai fazendo com Vítor Baía (sem lugar entre os três guarda-redes portugueses escalados para o Europeu, no ano em que os treinadores europeus o elegeram o melhor guarda-redes do ano) não encontra qualquer justificação do ponto de vista desportivo ou humano. Para não ter de qualificar a atitude, direi simplesmente que ela é inqualificável e, embora muitos, a começar pelos colegas de Baía na Selecção, se mostrem dispostos a fingir que a coisa passou, eu não só não a esqueço como extraí dela conclusões, essas sim, definitivas acerca da pessoa do seleccionador nacional. Quanto ao que tinha escrito sobre Ricardo, bastou a forma como perdemos a final do Europeu contra a Grécia para que a justeza da minha observação ficasse à vista de todos. Depois disso nunca mais voltei ao assunto e fiquei deliberadamente calado quando, há uns tempos atrás, os sucessivos falhanços de Ricardo o remeteram para o banco de suplentes no Sporting e, de repente, pareceram ter despertado uma súbita unanimidade de críticas até aí nunca vistas. Não gosto de malhar em quem já está em baixo e, além disso, entendo que o principal responsável nem era Ricardo mas sim Scolari. Ricardo era muito melhor guarda-redes antes de Scolari o ter transformado no caso exemplar do seu autoritarismo. Teria ido então muito a tempo de corrigir ou melhorar o que estava mal no seu jogo aéreo (onde Baía continua a ser o melhor guarda-redes português, talvez de todos os tempos), em vez de, atiçado pelo seleccionador, ter revelado sempre uma falta de humildade tamanha que chegou a explicar que um «frango» não era um «frango» mas sim uma «questão técnica» muito complexa, cujo entendimento escapava aos leigos. Dois anos depois Ricardo vê-se forçado a continuar a tentar explicar atabalhoadamente por palavras o que não consegue explicar através dos jogos. E Baía continua a explicar, nos jogos e fora deles, que, além do mais, há uma coisa que o caracteriza e não lhe vem nem das convocatórias para a Selecção nem sequer dos 28 títulos que fazem dele o jogador em actividade que mais coisas conquistou em todo o mundo: classe. E, por esse ponto de vista, não pode restar a menor dúvida de que quem ganhou esta guerra mesquinha foi sempre e só Vítor Baía. E assim chegámos às vésperas da convocatória para o Mundial, tendo já toda a gente percebido que, independentemente da forma em que cada um está ou estiver daqui a uns meses, o Ricardo será convocado e titular e o Vítor Baía voltará a ser ignorado. Independentemente da injustiça gritante desta espécie de critério do seleccionador, agora há um facto novo e evidente: o povo da Selecção percebeu e teme que tudo possa ser deitado por água abaixo no Mundial por uma saída em falso do Ricardo — como ainda este fim-de-semana vimos, contra a Croácia. Daí os assobios, que são injustos para Ricardo, não para Scolari. O«lobby contra o Ricardo», por mais que Scolari finja não perceber, não tem razões obscuras mas apenas aquilo que está à vista de todos. E já não se compõe só de amigos de Baía ou portistas mas agora também de benfiquistas, sportinguistas e todos quantos não tenham medo de ter opinião.
Publicado por jpt às novembro 16, 2005 10:11 AM
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Comentários
Por despertar paixões que impedem uma discussão racional, normalmente não opino sobre futebol, mas neste caso, apenas venho dizer que é altura de dar lugar às novas gerações (não querendo com isto defender o Ricardo...). De "usados" já chega o que se passa na política! Abraços
Publicado por: José Paulo às novembro 16, 2005 11:49 AM
vai daí o Scolari ainda arranja maneira de naturalizar o Helton (ou outro) para salvar a face e a baliza da selecção. MST tem inteira razão. Inteirinha.
Publicado por: Carlos às novembro 16, 2005 03:17 PM
como (quase) sempre Carlos. Ie, quando fala de futebol... :)
Publicado por: homemDASneves às novembro 16, 2005 03:56 PM
Obrigado pelo sua visita e comentário no meu blog. A questão do g. redes da selecção tirando a questão do Baía (que está visto não será seleccionado nunca), nem sequer é complicada. É obvio que o Ricardo está em má forma. Na ausencia de outros (ex. Quim e Moreira lesionados) concordo plenamente com a chamada do Paulo Santos que é da equipa comandante do campeonato e com apenas um golo sofrido! Já não sei se é o melhor guarda-redes de Portugal. Provavelmente nas condições actuais será! No entanto, não nos esqueçamos que já foi dos quadros do Porto e raramente jogava.
A polémica do Ricardo dava para um tratado, agora que começou por ser um lobby - não tenham duvida! Porém o Ricardo não passou incólume a essa contestação e como agora é evidente, independentemente de clubismos, está em má forma tecnica e psicológica, por isso só quem é burro teimoso é que não muda. Um abraço, gostei do blog.
Publicado por: looking4good às novembro 16, 2005 04:51 PM