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novembro 29, 2005
Envelhecendo
O Walter Rodrigues não se há-de incomodar que eu o cite, falando de Portugal: "Há um país profundo que um terço da população portuguesa, concentrada na sua única metrópole, ignora. É o país onde o 25 de Abril é apenas uma data de vaga memória, onde os crucifixos ainda não foram retirados das paredes das escolas. Estão lá pendurados há mais de trinta anos. Talvez há mais de cinquenta. Mas até agora ninguém se importou com o facto da democracia ainda não ter chegado a esse país. Depois hão-de queixar-se que os eleitores desse país aguardam ainda que um D. Sebastião surja do nevoeiro para os salvar."
Envelheço. Sei que há anos resmungaria este texto. Agora leio-o a meias com isto [excerto desta entrevista]. Só assim me faz algum sentido. Algum ...
Também andei textando e comentando crucifixos. Sei que hoje me apeteceria escrever
Há um país profundo que uma parte da população portuguesa, concentrada em apear crucifixos, quer desesperadamente ignorar. É o país onde o 25 de Abril é apenas uma data de vaga memória, onde os crucifixos ainda não foram retirados das paredes das escolas. Estão lá pendurados há mais de trinta anos. Talvez há mais de cinquenta. Mas até agora ninguém se importou com o facto da democracia ainda não ter chegado a esse país. Depois hão-de queixar-se que os eleitores desse país aguardam ainda que um D. Sebastião surja do nevoeiro para os salvar.
[para quem não perceba bem cruze, sff, com algumas das últimas entradas aqui.]
[olhe, e para não ser descrente do futuro, assine o Expresso, até vem novo director]
[olhe, e para não ser descrente do futuro, nunca aceite ser mordomo. Eles falam como se você não estivesse lá. Ou, pior, como se fosse deles]
Publicado por jpt às novembro 29, 2005 12:30 AM
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Comentários
Eu cresci nesse "portugal profundo" e eu não sei o que esse 1/3 da populacao pensa ou tenta esquecer, mas isto não é também o Portugal Profundo: "É o país onde o 25 de Abril é apenas uma data de vaga memória, onde os crucifixos ainda não foram retirados das paredes das escolas. Estão lá pendurados há mais de trinta anos. Talvez há mais de cinquenta. Mas até agora ninguém se importou com o facto da democracia ainda não ter chegado a esse país. Depois hão-de queixar-se que os eleitores desse país aguardam ainda que um D. Sebastião surja do nevoeiro para os salvar."
De quem se fala aqui? Dos velhos ou dos novos? Eu vejo mais a divisão aqui e não tanto em ser profundo ou não. O 25 de Abril é uma data de não esquecimento para os primeiros e de certeza que os segundos não esperam por qualquer Sebastião. Quanto aos crucifixos: na minha escola primária. De resto esqueçam. Gostaria de ir a uma antiga escola primária de Lisboa e ver como é.
Vem a GNR e tenta levar o crucifixo. Até poderá haver rebaldaria, mas não será pelo valor religioso. Será pela afronta de alguém de fora impôr regras. Deêm-lhes dinheiro e eles até cospem nela. Os novos, claro. Os velhos... Esses encolhem os ombros e sentam-se ao sol à espera da morte.
Pronto. Portugal profundo.
Contentes?
Publicado por: Gabriela às novembro 30, 2005 02:20 PM
Contente? Muito, com este seu comentário.
Publicado por: jpt às novembro 30, 2005 02:41 PM
Eu tenho um grande defeito: quando me irrito fico destemperada e escrevo este tipo de comentários.
Não é que não seja o que sinto. No sítio onde cresci sinto uma morte de valores, de brios. É chão ardido para mim, onde é impossível instalar afectos e recordações.
Além disso, salta-me a tampa quando se faz textos bonitinhos sobre a província, principalmente quando usam emblemas da pátria (o Sebastião e o 25 de Abril). Tem-se mesmo a sensação que é uma operação cosmética ao texto e não ao objecto relatado. Estilos.
Contudo, há maneiras e maneiras de escrever algo e eu usei a errada. Sabe onde quero chegar, não é? Espero que sim, pois eu tenho outro defeito. Agora eu pisco o olho e ficamos entendidos.
Publicado por: Gabriela às dezembro 1, 2005 03:19 PM
Não Gabriela, agora não ficamos entendidos. É que sinceramente eu gostei (no sentido de concordar) do anterior comentário. Se bem me parece a V. saltou-lhe a tampa com um texto. Também a mim me tinha saltado, e daí a apropriação que dele fiz.
Há um segundo ponto, que é da veemência com que escreveu primeiro. Dessa ainda gostei mais. Pisco mais o olho a isso do que a (desnecessária e desapropriada) cachimbada de paz.
Enfim, repito, sem ironia, "contente? com aquele seu comentário"
cumprimentos
Publicado por: jpt às dezembro 1, 2005 04:33 PM
Eu fiquei a remoer depois do meu primeiro comentário. Achei que podia ser ofensivo para si o cuspir na cruz. Pronto, é isto.
Publicado por: Gabriela às dezembro 1, 2005 06:17 PM
nada disso, nada disso. talvez que o que o seja mais necessário é que se cuspa nas cruzes. o mal é da gente que ainda cospe na outra cruz, agarrando-se à sua própria
Publicado por: jpt às dezembro 1, 2005 06:36 PM