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outubro 30, 2005

Ao que aqui deixei responde o CMC. E eu insisto, a saber-me maçudo. Mas insisto pois continuamos a falar de coisas diferentes. Acho eu. Espero eu:

1. Fazer uma crítica da "lusofonia" não é ombrear com "fantasmas do passado". É criticar uma leitura do presente. De como a noção é utilizada para entender a realidade. E para a projectar. Insisto, é deficitária. Pois não integra o passado no presente. Cria (ou melhor, reproduz) um passado inexistente para o presente.

2. Fazer uma crítica da "lusofonia" não é "ajustar contas com o passado". É procurar entender como esse passado também constrói o presente, as suas inter-relações, as categorizações mútuas, os constrangimentos da inter-acção. Também constrói digo. Também ...

3. Fazer uma crítica da "lusofonia" não é obrigatoriamente considerar que há "um projecto neocolonialista dos portugueses". E aqui, sem puxar "galões" de empiria biográfica, o que insisto é que não há nenhum projecto neo-colonial do Estado português - pode ser (condicional de dúvida) que tenha havido agentes do Estado a sonharem-no, aqui e ali durante estes 30 anos de república, mas sem sucesso e sedimentação; mais, não há projecto neo-colonialista na sociedade portuguesa - haverá sectores mais saudosistas e outros mais revanchistas, mas são meras sobrevivências minoritárias. O regime democrático é contemporâneo de uma desafricanização radical do país enquanto projecto social e enquanto realidade nacional: a descolonização; a europeízação.

O que existe é uma visão "ainda-colonial" nos agentes do Estado e da Sociedade portuguesa, uma visão alimentada pela "lusofonia". Uma visão deficitária, fundamentalmente "paternalista", pressupondo pólos de condução, de racionalidade, de projecção do futuro nos países onde se fala português. Uma visão que postula as tais essências comunitárias entre-países e populações, as similitudes de objectivos e interesses, as relações privilegiadas, o (re)conhecimento superior. Entenda-se, uma visão que "a-politiza" as relações, e que ancora na superioridade mais ou menos matizada do lusófono "civilizado", ou seja, "desenvolvido". Repito, isto não é o projecto político do Estado*, é uma realidade do quotidiano na inter-relação, brota nas concepções e acções dos agentes sociais. E implica reacções, também estas alimentadas por uma visão do passado, também estas alimentadas por visões do presente.

Entenda-se, a tal "lusofonia" não é uma simples fonia, é uma ideologia "a-politizada" projectada nas relações actuais (e portanto nas passadas). E projectando-as. Ela vive no âmago dos participantes das inter-relações. É deficitária na compreensão da realidade actual. É prejudicial ao sucesso de uma inter-realidade actual. É, acima de tudo, incompetente. Lamentavelmente incompetente.

4. Fazer a crítica da "lusofonia" não é reflectir sobre o passado. É olhar o futuro (já que o presente se passa assim). E, e esta vai sem acinte, não é ser um "português + qualquer coisa". É ser radicalmente português, ainda que sem patrioteirismos e ainda que com este pirosismo. Querendo-nos mais competentes, portanto (e isto é uma redundância) mais analíticos.

5. Regressar a Gilberto Freyre? Claro, mas não é isso que quem discute "luso-tropicalismo" e a sua descendência "lusofonia" faz? Recuperar Gilberto Freyre? Também, não é isso que quem agita a "lusofonia" faz? É que ele está aí, vive nas concepções dominantes aí. Haverá maior sucesso para um autor do que se fazer vida para além da morte? Não acho. Neste caso infelizmente.


* Na minha releitura impõe-se a nota: isto é retórica minha, tentativa de blindar o argumento. A "lusofonia" é produzida e acarinhada pelos agentes do Estado. Ressalvo, acho que o interesse e a acão do Estado português não é o de um projecto neo-colonial, isso é claro. Mas a prática do Estado e dos seus agentes embrenha-se nesta visão hierárquica que assume os contornos "lusófonos", tal e qual os entendo. Há uma aparente esquizofrenia, a de um regime desligado de pretensões neo-coloniais mas veículador de uma matriz de entendimento não pós-colonial. Também por isto, para o incremento da racionalidade de Estado, urge des-lusofonizar a sociedade.

Publicado por jpt às outubro 30, 2005 07:59 PM

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