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outubro 17, 2005
Heterossexuais discutindo Homossexuais
Nos últimos tempos no bloguismo português regressaram as questões do casamento e da adopção homossexual. Li alguns textos tendo como trampolim o atento Lutz do Quase em Português, que os referencia e (também) opina.
Sobre isso já botei faladura há mais de um ano, e voltei em corrida à pouco tempo. E pronto, está dito e não repiso. Só volto à matéria por coceira, quase sarna, incomoda-me tanto reaccionarismo por parte de proponentes e adversários.
Explico-me, é generalizado o argumento da "normalidade" (tipo "conjugalidade monogâmica, equilibrada, amantissima") dos homossexuais ou, pelo menos, de parte deles. É uma imagem de homossexuais "saudáveis", uma "harmonia", uma "saúde" na homossexualidade. Estas belas peças surgem nos adversários (tipo, "ainda que existam casais homossexuais equilibrados e estáveis") e nos adeptos (tipo "notem bem que existem casais homossexuais equilibrados e estáveis").
Eu não sou muito dado às questões do feminismo, talvez meu machismo (sim, sorrio diante de mestres e doutores em estudos sobre mulheres ... sem as contrapartes, os "estudos sobre homens"). Mas sempre lembro uma frase lida há décadas (esqueci a autora), qualquer coisa como "a igualdade dos direitos das mulheres implica o direito à incompetência". Entenda-se, a igualdade de direitos entre homens e mulheres não se justifica ou legitima pela excelência de algumas mulheres, do "vejam do que elas são capazes", a sua "normalidade" no sucesso. Justifica-se por todo o espectro e em todo o espectro da acção (social). Entende-se a homologia? Ou seja ...
Eu defendo o casamento dos homossexuais (posso sorrir ao mimetismo, mas nada mais). Não pela "estabilidade" afectiva, "harmonia conjugal", "fidelidade" e outras tralhas dessas, de que os/se dizem capazes. Pois ter o direito de se casar significa o direito de se separar no dia seguinte, divorciar logo a seguir. Ser "infiel" (urgh, maldita palavra), discutir, maldizer, ter sexo em grupo, bater-se na rua, apalpar o rabo da(o) vizinho(a), lutar pelos "bens" afinal não tão comuns como se presumia, descuidar os filhos. Exactamente como a rapaziada que prefere pessoas de outro sexo (não o "sexo oposto", atenção) para casar, amar, copular e ... combater.
Eu sou contra a adopção pelos homossexuais. Mas se lhe for concedido esse direito será de esperar (de combater e controlar, pois aqui não é de um direito que se trata) que depois de adoptarem muitos, por melhor selecção de "pais" adoptivos que haja, se venham a separar, divorciar. Que os casais lutem entre eles. Que traumatizem as crianças, que as castiguem, que as agridam. Mais que tudo que as descuidem relativamente, ou mesmo que as abandonem. Que as reprimam. E que alguns as violem. Que as des-amem. Exactamente como a rapaziada que prefere pessoas de outro sexo (não o "sexo oposto", atenção) para casar, amar, copular e ... combater.
Ou seja, nada disto tem a ver com haver homossexuais "bonzinhos", "normalzinhos".
Há ainda outro argumento (p. ex. aqui). "O único valor absoluto é o amor", "all you need is love, tátárárárá". É bonito. O amor. E a opinião. Dá inclusive para belos poemas, novelas romanescas e romances novelísticos, muita canção e até "slows", e uma bela indústria fílmica, entre Hollywood e Bollywood. Mas é tralha, o tal de "amor" não é um valor absoluto, vale coisas muito diferentes em sítios e momentos diferentes (até no interior de uma biografia), e não se sistematiza facilmente quanto ao conteúdo. Pode ser aparentemente um bom argumento. Mas no fundo é nada. Mais, as instituições sociais, como a família entenda-se, não existem segundo o tal "amor", não se organizam ou devem organizar para o acolher e organizar. Melhor dizendo, são as instituições sociais que fazem existir os tais "amores".
Eu repito-me, sou contra a adopção por parte dos homossexuais. Mas de bom grado abandono esta minha oposição se me prometerem que acabam com estes prédicas moralistazinhas e com estes lirismos de rima fácil. Ide e procriai-vos...pecando. Protestando, desorganizando. Sendo gente, porra.
Publicado por jpt às outubro 17, 2005 02:04 PM
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Comentários
Admito que me falta de conhecimento pessoal de homossexuais em quantidade suficiente para daí poder formar uma opinião com base em observações próprias da sua aptidão de ser uma boa "família" de acolhimento duma criança. Quase todos os homossexuais que conheço, nomeadamente em Portugal, não são assumidos e doravante não qualificam como candidatos, e os meus conhecimentos alemães são, julgo eu, duma fase de vida em que nem eu nem eles estavam preocupados com ser família.
Não sei mas não creio que existem casais homossexuais com projecto de vida como família com crianças em número equivalente aos heteros.
Mas como a Rute Mota na Terra da Alegria muito bem diz: Claro que tem de haver uma avaliação rigorosa e cautelosa de quem se candidata a adoptar uma criança.
O que ela e eu não vêem é como a própria homossexualidade pode ser um critério, ao contrário de responsabilidade, estabilidade, condições sociais e económicas etc...
Aqui também entra o critério de "capacidade de amar" (na medida em que isto pode avaliar-se). Estás farta da retórica do amor? Também não gosto de andar com esta palvra sempre na boca.
Mas não vale denunciar o conceito do amor, que sim deve ter um papel na apreciação duma candidatura de adopção, seja ela homo ou hetero, como algo entre "Hollywood e Bollywood".
Não é de Hollywood o amor de que aqui se fala, mas compromisso, disponibilidade, identificação.
Sempre parece-me evidente que quem se opõe à adopção de crianças por homossexuais, deve ter necessáriamente uma boa, vá la, mediana opinião duma infância vivida em instituições do tipo orfanato. Não sei mesmo onde se podo buscá-la.
Publicado por: Lutz às outubro 17, 2005 05:01 PM
Lutz não há aqui nenhuma reflexão "quantitativa" sobre se há ou não casais concordantes com os "critérios" para serem pais/mães adoptivos. O que digo acho que o digo de modo óbvio - se se acha que se devem casar isso deve ser assente numa concepção/esperança que sejam tão "qualquer coisa" como os casais heterossexuais; se se acha que podem adoptar idem. A igualdade de direitos, defendendo-a ou atacando-a de modo matizado, não deve ser vista como assente na "excelência" dos indivíduos (ou de alguns deles). A igualdade de direitos, sua defesa ou não, não deve assentar na sua demonização ou santificação - isso é obscurantismo. E, acho eu, mera homofobia.
Idem para o amor: fulaninho ama tanto a filhinha que tem relações sexuais com ela; casalinho ama tanto o/a filhinho/a que o estrafega com miminhos até à imbecilidade psico/sociológica - e isto são meros exemplos muito dentro do mainstream. Estou absolutamente farto da retórica do amor, ainda para mais visto como qualquer coisa de evidente, universal, e até normativo. E como inato, na intensidade, no conteúdo, nas realizações práticas que implica, nos entes a quem se destina, nas obrigações morais que implica etc e tal.
Repugna-me, e repito-o à exaustão, os coitadismos, criancinhas abandonadas às malevolências dickensianas das instituições e os homossexuais dispostos a salvarem-nas. Ou seja a extensão dos direitos de adopção a indivíduos que não representam a "norma" conjugal assente num deficit do social, afectivo etc. Em meu entender esse coitadismo é a-sociológico, a-valorativo e até homófobo [ou seja, não houvesse infelicidade e os maricons não adoptavam, aquela gente confusa; há infelicidade (deficit de afectividade no social) e os homossexuais até exemplares têm todo o direito a adoptar].
Já o escrevi, acho que o leste, isto não tem a ver com os "amores" "excepcionais" e as "infelicidades" - tem a ver com opções sobre valores normativos (que naõ assentam no "amor", mais que não seja porque estipulam um "amor" correcto e socialmente definido, portanto reduzem-no), tal como todas as instituições. Tem a ver com opções sobre o que é a família, o casamento, as relações pais-filhos - que isso se discuta mas sem "coitadismos", "amorismos", "bonzismos" que andam por aí.
Publicado por: jpt às outubro 17, 2005 07:22 PM
A homossexualidade é uma doença do foro psicológico...
Trata-se apenas de uma Psicose!!!
E como tal é curavel! os psicóticos curam-se falando.. a psicanálise pode ser a solução!
Um dia o homossexual vai descobrir quem realmente é! Um ser humado evai assumir a sua sexualidade verdadeira, descartando-se da mascara da homossexualidade sendo ele próprio ou ela própria...
Publicado por: PECUS às outubro 17, 2005 07:37 PM
Pode ser que aterapia contra a homossexualidade seja o proprio casamento homossexual..Daí que não se deve nunca permitir as adopções...
Publicado por: PECUS às outubro 17, 2005 07:38 PM
JPT, confeso que ainda não percebi porque estás contra a adopção por casais homossexuais.
"A igualdade de direitos, defendendo-a ou atacando-a de modo matizado, não deve ser vista como assente na "excelência" dos indivíduos (ou de alguns deles). A igualdade de direitos, sua defesa ou não, não deve assentar na sua demonização ou santificação - isso é obscurantismo."
Evidentemente.
Acho a questão da orientação sexual devia desaparecer em todos os assuntos da vida social em que não é indispensável levar em conta.
Acho que usas o termo "coitadismo" duma forma demagógica. Não defendo que os coitados dos homossexuais devem poder adoptar. Nem que tem de ser os homos a salvar os coitados porque mais ninguém o faz. Defendo sim, por princípio, que quem vive numa instituição como criança devia ser adoptado por pessoas que tem condições de oferecer um relação mais estável, mais tempo, dedicação, meios e, sim, afecto para eles. Sejam eles heteros, homos, whatever. Desde que eles assumem um compromisso sério e que não são tarados.
Se por um momento não focasses nos argumentos menos válidos do outro lado, podias explicar quais as normas, os valores que achas tão necessário defender com a proibição da adopção por homossexuais, e porque?
Publicado por: Lutz às outubro 17, 2005 10:47 PM
Contra, radicalmente:
http://maschamba.weblog.com.pt/arquivo/2004/02/roupa_velha_cer.html
http://maschamba.weblog.com.pt/arquivo/2004/02/homossexuais_e.html
Demagogia? Eu acho o contrário. Abstracto (o abstracto é fundamental para pensar estas coisas) - quem geme com as desgraças das crianças imagine uma situação: orfãos com candidatos a pais adoptivos excedentários em situação de igualdade de "estabilidade" - opta por casal hetero ou homo? Haverá quem opte pelo "melhor" o que é uma não resposta (regressa ao empírico absolutamente conjuntural, que é uma forma de não pensar opções sociais); há quem opte por quem chega primeiro, p.ex., ou seja postule uma igualdade [aparentemente a tua posição, mas duvido-o exactamente pela retórica das crianças que sofrem abandonadas quando há casais homo à espera]; e há, como tantos bem-pensantes, quem ache que há crianças abandonadas que à falta de outros pais podem ter casais homo (o tal deficit de que falei lá acima, e que é a única explicação para a utilização desse argumento): ou seja como não há casais hetero disponíveis então que haja homos - mais uma vez uma forma de não pensar o social, mas acima de tudo um não assumir de hierarquias preferencias. Demagógico? Francamente, passo, demagogia encontro-a muito, muito alhures. Hipócrita também, embrulhada no caramelo do amor.
Publicado por: jpt às outubro 18, 2005 01:06 AM