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outubro 28, 2005
Ainda a lusofonia
A petição futebolística do Altino Torres é realmente interessante. O continuado eco jornalístico; um notório caso identitário (+ de 27 000 assinaturas) e a correlativa leitura obscurecida: como o anúncio pela FIFA de que o sítio do Alemanha 06 terá versão em português foi entendido (e pelos media também) como se a página oficial da FIFA passasse a ter versão em português (aliás a real petição). Correlativa? Discursos sobre identidades (trans)nacionais a produzirem leituras obscurecidas não é caso virgem, eu digo até é correlação.
Vem isto a propósito de quê? Quando aqui reproduzi a notícia da petição o CMC re-reproduziu-a com uma pequena alfinetada, ali saudando-me enquanto associava a iniciativa à lusofonia. Regressando, em tom ameno, a uma velha questão. Prometi-lhe responder. Mas honestamente já não sei o que dizer sobre isto, o que a mim me parece cristalino surge absurdo alhures? E confesso que aqui não me duvido.
Só me restam palavras alheias, decerto mais explicativas e perspicazes. Aqui ficam dedicadas ao CMC e restantes "lusófonos":
"Só suspendendo a crença nos aspectos mais psicologistas, culturalistas e essencialistas do luso-tropicalismo - e ao mesmo tempo não fazendo procissão de fé das supostas alternativas de materialismo vulgar - é que se poderá avançar para a construção de uma interpretação histórico-cultural crítica e atenta a processos específicos de (re)constituição identitária num mundo que, por vias tortuosas, os portugueses, os brasileiros e os africanos criaram. E criaram-no enquanto se foram criando a si próprios numa dinâmica de interesses divergentes e poderes diferenciados (entre si e intra-si) nesse processo a que agora chamamos cultura. O luso-tropicalismo foi, pois, um discurso cujo emaranhado de poder e retórica nos compete desembaraçar para não reificarmos de novo "comunidades" que não existem como essências".
(Miguel Vale de Almeida, "Tristes Luso-Trópicos", Um Mar da Cor da Terra. Raça, Cultura e Política da Identidade, Oeiras, Celta, 2000, pp. 183-184)
Para a pertinência da ligação entre "luso-tropicalismo" e "lusofonia" então é melhor comprar o livro, que muito o justifica e não só por esta matéria.
Depois haverá o querer ou não entender o ponto de vista. E ainda à tal "lusofonia" entendê-la analiticamente ou instrumentalizá-la. Ainda que fraco instrumento, e principalmente se incompreendido. Postulado.
Publicado por jpt às outubro 28, 2005 08:51 PM
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