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agosto 23, 2005
O influenciometro
Leio no O Acidental que Carmona Rodrigues, candidato do PSD à Câmara de Lisboa (e ex-ministro, e ex-presidente da câmara) afirmou ter negociado o apoio político do PND de Manuel Monteiro em troco de uma de "...uma consultadoria ou qualquer coisa (...) não faço ideia, ficou assim no ar".
JBR questiona-se sobre o conteúdo dessa oferta "Para além de todas as considerações de natureza ética que se possam fazer, e que no caso concreto são absolutamente legítimas há que saber o que estaria Carmona Rodrigues disposto a dar ao PND por este apoio".
Eu estou completamente espantado. Fico de boca aberta. Estou de boca aberta desde ontem à noite quando li isto. A ser verdade - pois só conheço o post do O Acidental, não li a entrevista à revista Sábado - o candidato à câmara de Lisboa (repito, ex-ministro, ex-presidente da câmara) admite calmamente a intenção de utilizar dinheiros públicos de forma preferencial, recompensando alianças políticas.
Não me espanta que isso exista em Portugal. Espanta-me que essa disponibilidade seja reconhecida por Carmona Rodrigues. Que me lembre é a primeira vez que um político português reconhece a possibilidade de pagar honorários, e com dinheiro público, aos seus aliados políticos. Um total desplante. Ou uma grande candura. Ou ambos. Sendo como sendo isto é totalmente inaceitável. Mesmo muito para além do aceitável.
Se é verdade o que JBR coloca no texto (até me custa a acreditar, e não por algum preconceito quanto ao bloguista) nem é exactamente o conteúdo das futuras oferendas ao PND que é o fulcro. São mesmo "...as considerações de natureza ética que se possam fazer...". Se isto é verdade Carmona Rodrigues está a mais na política, na coisa pública - em qualquer coisa pública. E de uma forma tão radical que nem tem consciência disso, nem o esconde. Um inconsciente suicidário. Melhor dizendo, um inconsciente suicidado.
Se o que li está certo o homem não pode ir a votos, não há quaisquer condições de ser apoiado por um partido democrático, que respeite a lei. Ele tem que ser retirado - ele nunca se retirará, as suas palavras são prova de que não tem consciência do que pensa. Imagine-se o que já estariam a escrever os bem-pensantes se fosse um Valentim Loureiro a ter estas declarações.
Nestes últimos dias os grande-bloguistas portugueses têm escrito muito sobre a influência dos blogs na sociedade - eivados de um politicocentramento pouco avisado, a profunda influência do bloguismo está alhures, na extrema expansão do domínio da publicitação (edição) da expressão individual, da qual a política será porventura a menos liberta dos constrangimentos mediáticos. E das estratégias individuais (o que, até dolorosamente em alguns casos, se vê no auto-silenciamento ou auto-neutralização dos bloguistas da área socialista, antes tão ágeis na palavra crítica. Parece que é mais difícil ser livre perto do poder do que fora dele - mas se calhar é isso mesmo a democracia).
Tanta preocupação com o respectivo peso social levou-me ontem, com outra disposição, outros humores, a pedir um influenciometro, que tirasse as teimas quanto à influência dos blogs lá no país. Hoje, outros humores, nem duvido, também espantado com o relativo silêncio sobre este assunto (só o vi tocado pelo O Acidental, nem em jornais, nem em outros blogs): se o cadáver político de Carmona Rodrigues for a votos, se ninguém pega nisto, se ninguém se espanta com isto, então não há qualquer influência. Nem razão para tal.
Não que veja este hobi como coisa de mastim desaçaimado, como o querem alguns. Mas se isto passa na espuma do verão então bloguismo político é capim.
(Ou então Carmona Rodrigues não disse nada daquilo, a Sábado mentiu ou O Acidental tresleu. Nesse caso eu deletarei esta entrada, como qualquer cão o faz. Após, quando o instinto o conduz).
Publicado por jpt às agosto 23, 2005 12:08 AM
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Recebido em agosto 18, 2006 11:45 PM
Comentários
Caro JPT, iniciei, no meu espaço, uma série de reflexões sobre a blogosfera. Espero a sua visita, com ansiedade. Um abraço insular.
Publicado por: Vítor Sousa às agosto 23, 2005 04:56 AM
Apenas uma pequena correcção. Carmona Rodrigues não é ex-primeiro-ministro. É-o Santana Lopes, actual Presidente da Câmara Municipal de Lisboa, o que terá originado a confusão.
Publicado por: Santa Cita às agosto 23, 2005 01:12 PM
Quem compra o supérfluo, vende o necessário.
Publicado por: bill às agosto 23, 2005 01:22 PM
Bill, costumas estar muito bem nestes aforismos, mas este está Grande!
Santa Cita, obrigado pela atenção. Seria um lapso [associação de ideias?]. Mas (neste caso) não foi, fui confirmar, está lá "ex-ministro, ex-presidente da câmara". (Associação de ideias sua?). Obrigado de qualquer modo, abraço
Publicado por: jpt às agosto 23, 2005 01:43 PM
Tens razão!
Publicado por: Santa Cita às agosto 23, 2005 02:44 PM
Pura inexperiência política!
Sendo uma candidatura independente e sem a máquina do partido por trás, acontecem destas coisas.
Carmona Rodrigues foi vitima da sua honestidade.
Publicado por: jpa às agosto 23, 2005 07:21 PM
Caro JPT, o pais em chamas não merece o teu comentário?
Especialmente após as férias do PM que não mereceram qualquer interrupção durante 17 dias porque a situação estava totalmente controlada por António Costa.
Acontece que no segundo dia após voltar, pediu ajuda internacional à Alemanha, Holanda e Espanha.
A comunicação social calada.
Coitado do Santana Lopes nesta altura.
Abraços
Publicado por: jpa às agosto 23, 2005 07:28 PM
Caro JPA (com um nome tão parecido devemos ser parentes), "pura inexperiência política"???!!! eu nem quero (re)comentar ... então venham os "experientes". Honestamente isto é demais. "Candura" disse eu acima, talvez. Mas é totalmente inaceitável. Entretanto recordo, já agora está lá em cima também (e faz parte do texto, quis significar), que foi ministro e presidente da câmara - inexperiente político? Francamente, simpatia política é uma coisa, outra é aceitarmos este modo de fazer política. Ou só criticam os tipos da porta ao lado. Quanto à tese da candidatura independente não deixo de sorrir, mas que posso eu dizer, nada sei dessas coisas dos aparelhos.
Quanto aos fogos, embora me repugne a tese implícita ao comentário ("seu sacana a dizer mal do belo Carmona enquanto o malandro do Sócrates a divertir-se lá pelas àfricas"), permito-me abusar da tua paciência. Lá para baixo, há alguns dias há alguns textos meus, transcrições de artigos, e ligações a outros blogs, subordinados ao título (mais ou menos) O Incêndio Português [corre o mês de Agosto do blog ou vai ao arquivo AtlÂntico (coisas de Portugal e afins)]. Acho que há muito mais do que as férias de sócrates para discutir, e aqui toda a república se chamusca.
De qualquer forma sobre as tais férias vai ao abrupto, o homem tem 10 ou 15 vezes mais leitores do que este cantinho e já disse tudo o que eu poderia dizer: tem direito às férias mas devia ter vindo, e a azáfama em que anda mostra isso. Borregou. Mas todo o Portugal borregou nos últimos 20 ou 30 anos (quanto taco para a meia dúzia de hectares da Expo, quanto taco para a vintenas de hectares do euro? quanta legislação atrasada? quanta implementação adiada? Quanto "petr´leo verde" a la mira amaral? Permite-em tratar-te como mais novo, mas andava eu no liceu e já um tipo chamado Ribeiro Teles falava de floresta, ordenamento, repovoação e coisas assim. Este abandalhamento do país não tem partido, nem tão pouco tem "regime". É uma cena ignorante.
Ok, posso continuar a dizer que o Carmona Rodrigues, coitado, não tem mais lugar? Ou tenho que escrever um texto a dizer mal do Socrates?
Bem vou para estágio - força Sporrtt-eng. Abraço, caro JPA
Publicado por: jpt às agosto 23, 2005 07:49 PM
JPT,
Tenho uma surpresa para si no:
http://satira-direita.blogspot.com/
Considerando que não tem acesso aí em Moçambique à revista, decidi disponibilizar-lhe a entrevista através de imagem! Os direitos de autor da Sábado encontram-se devidamente assegurados, uma vez que a revista está perfeitamente identificada.
É publicada no Sátira, porque é o local próprio para 'isto'.
Publicado por: MP às agosto 23, 2005 09:24 PM
repovoamento, claro
Publicado por: jpt às agosto 24, 2005 02:23 AM