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agosto 04, 2005
Blogs e Comunidade
Já comparei o bloguismo aos velhos radioamadores. É-me uma imagem recorrente, o solitário no sotão, horas a fio agarrado ao aparelho, à escuta, a balbuciar, códigos ou não. Mas se a esses sempre imaginei como uma "comunidade" sempre discordei com a ideia de uma "comunidade bloguística", em particular com os componentes que lhe querem afirmar, declarados - uma "ética" própria (modus blogante), uma "amizade" comum construída num convívio - ou não - estes mais os tiques e maneirismos que se assumem.
Não sei bem o porquê desta distinção que faço. Talvez, e à falta de melhor ideia, pelo diferido da comunicação aqui. Da impossibilidade do socorro urgente. Ou (por enquanto) do calor do íntimo da voz. Ou talvez por outra via, por minha contraposição, por sentir essa afirmação de "comunidade" como produzindo o irritante e constante coro de inter-elogios bloguísticos ("magnífico texto", "excelente análise", "grande escritor", "belissimo poema", e tantos etcs, quasi-sempre aplicados às coisas mais corriqueiras, por vezes até indigentes). Como se tal comunhão comunitária se alimentasse e/ou germinasse apenas de superlativos.
Ou seja, isto do blog é-me (apenas) um meio de comunicação, em particular de catarse do fel. Não o vejo como construtor de qualquer algo. Mas o recente encerramento de blogs mais-que-favoritos, os do Luís Ene primeiro e o do Jcd agora, marcos da minha paisagem pessoal nisto de bloguices, leva-me a repensar tal noção. Em certa medida isto é mesmo uma comunidade, labirinto de clics por mim construído, algo nada recíproco (as simetrias de gostos são mais do que improváveis. E se os respectivos autores se encontrassem porventura não passariam de algumas gentilezas devidas aos bloguismos, com nada mais em comum. E talvez até antipatia pessoal.). O apagamento destas tabuletas dos meus blogocaminhos constrói-me um vazio, uma incomodidade in-blog, um esvaziamento do meu interesse, um "nadear" dos meus passos, algo que sinto agora como nada mais do que uma incomunidade. Essa presumindo, afinal, uma qualquer "comunidade" (apenas a do meu gosto e simpatia?) anterior.
Tantos outros blogs existem, tão bons ou até melhores. Mas estes eram os meus vizinhos, coisa de saudar ainda que mero "bom dia" no sair à rua. Sinto-me como se a aldeia se esvaziasse. Outros há? Tantos, mas a minha mesa da taberna está quase vazia. A conversa, já pouca.
Será isto o envelhecimento? O mundo barulha, mas nós já não.
Publicado por jpt às agosto 4, 2005 09:41 PM
Comentários
o que quer dizer que esta comunidade só é diferente das outras no suporte. o que disseste em relação aos encontros é tão verdade que o contrário também se verifica, se aos amigos de taberna pusessem pc's à frente, ficavam sem nada para dizer, provavelmente acabava a relação.:)
Publicado por: riquita às agosto 5, 2005 12:29 AM
Pleno de descrição este teu texto, que se eu soubesse escrever assim, sem rodopios, era assim que o escrevia. Senti exactamente isso por duas vezes já, exactamente aquilo que dizes, quando este blogue se ameaçou apagar.
Publicado por: Eufigénio às agosto 5, 2005 12:48 AM
Não resisto a dizer-te que gostei do paralelismo com os (desaparecidos?) rádios-amadores. Abraço, IO - e, já agora, porque nos 'conheces' aos dois, sabes onde é que conheci o meu Amigo Carlos Gil, por e-aqui.
Publicado por: IO às agosto 5, 2005 01:45 AM
Esse sentimento de comunidade é totalmente artificial. Por nós construído e alimentado, mas sem correspondência objectiva com a realidade.
Publicado por: Miguel Silva às agosto 5, 2005 06:20 PM
É isso mesmo, Miguel Silva.
Publicado por: jpt às agosto 5, 2005 08:42 PM
Smack, IO. Abraço, jpt. Precisarei de explicar melhor que não sou assim tão promíscuo que distribua beijos e abraços como fosse campanha eleitoral do condomínio? Os que 'conheço' pessoalmente, simplesmente conheço-os pessoalmente; que me interessa isso quando me satisfaz 'conhecer-vos' virtualmente? O jpt foi `a terrinha ver as novas e rebuscar o baú, e senti-lhe a falta. Da escrita dele. A IO vai visitar a prima ou laurear a pevide lá pelas Irlandas, e sinto a dupla falta, da escrita e dela própria. Idem, ibidem ab nauseum no meu círculo privado de leituras e relações blogueiras. Que é isto senão uma versão de clã, de comunidade? E fecho a epístola, tenho mais amigos para ir visitar e ler. "Até amanhã, camaradas"
Publicado por: Carlos Gil às agosto 6, 2005 01:36 AM
Salvo seja, ó Gil, salvo seja...
Publicado por: jpt às agosto 6, 2005 02:34 AM
lol
Publicado por: Carlos Gil às agosto 6, 2005 03:44 PM
Existe uma sociedade (no sentido de interesses divergentes, como não existe comunidade internacional porque não existem interesses comuns a todos países mundiais e culturas daí a ONU - confiram os mais variados trratados e manuais de direito internacional público, a diferença é bem explícita) de bloggers e não comunidade, por isso isto não tem futuro.
Um abraço.
Publicado por: Golfinho às agosto 8, 2005 02:53 PM
Tens toda a razão Golfinho, no fundo o que eu digo. Talvez nem tanto quanto ao isto não tem futuro. É uma tecnologia, de comunicação. E chega
Publicado por: jpt às agosto 8, 2005 04:56 PM
Sim, retiro o "não tem futuro" para uma certa questão pessoal.
Renovo os abraços meu caro JPT.
Nunca cheguei a escrever isto, mas nasci em Angola em 1969 :)...
Publicado por: Golfinho às agosto 9, 2005 01:27 PM