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Ma-Schamba: agosto 2005 Arquivos

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agosto 29, 2005

Ghorwane

GhorwaneVanaVaNdota.jpg

"Vana Va Ndota" é o novo disco dos Ghorwane [o site está muito desactualizado, algo a cuidar em momento de lançamento], o seu quarto depois de "Majurugenta" (1991), "Não é preciso empurrar" (1994), "Kudumba" (1996).

O espectáculo de apresentação, na quase-madrugada de sábado passado, funcionou bem, ainda que para público fiel - sempre vi Ghorwane como o grupo da cidade, a gerar uma identificação talvez geracional talvez algo mais. Mas incompreendendo-lhes as letras das canções, satíricas, afiançam-me os extractos que me vão interpretando no "ao vivo", nada mais posso deduzir sobre isso.

O disco está bom, bem produzido e - fundamental - com bom som, algo fundamental para o que me parece perfeitamente plausível, a sua exportação. Qualidade e coisa própria tem (e Chitsonzo tem uma voz algo peculiar). Mas num mercado tão competitivo sem essa qualidade técnica seria impossível. Assim a prometer andar. Com o grupo ao lado, espero.

Copio o texto incluso (porque não estão as letras das canções? Adenda: porque a editora internacional assim o exigiu), de Filimone Meigos:

"Vana Va Ndota

Nascidos do "amor que há entre Deus e o Diabo" "os Bons Rapazes" [JPT: por alguma razão que desconheço é o epíteto do grupo. Adenda: terá sido o presidente da república, S. Machel a assim intitulá-los] presenteiam-nos com os "filhos da importância" [o título do disco]: Vana Va Ndota fecha a trilogia emparceirando com Majurugenta e Kudumba. Cá está a dança, a perseverança, o desafio, a auto estima e a sombra do papel tutelar da figura do pai de mãos dadas cantando essa contradição e mudança de velocidade que representam: uns dias são melhores, outros piores. Uma vezes devagar, outras assim-assim, e outras devagarinho. (...)

Nota-se a "medula musical" que lhes é característica, ao mesmo que tempo que divisamos a inovação na abordagem polirrítmica, sempre na mesma tentativa: a irreverência, a rapsódia e a paródia, qual sociologia musical do nosso quotidiano, sonho e realidade que acontecem todos os dias neste país..."

O disco é dedicado à memória de Zeca Alage e de Pedro Langa dois dos músicos do grupo que foram assassinados, dramas que também vão constituindo esta já lenda urbana de Maputo, Ghorwane.

Nota: Sobre as atribulações iniciais no espectáculo de apresentação, para as quais a minha idade já não permite nenhuma paciência, já o Domingo bula-bulou tudo.

(Se calhar preciso de aprender a colocar música no blog. Agora fazia jeito)

Publicado por jpt às 10:37 AM | Comentários (6) | TrackBack

Os Poetas e a Independência

OsPoetasIndependencia.jpg

Ouvir poesia, coisa já rara nos últimos anos. Lembro-me de alguns espectáculos há alguns anos, mas foram caindo em desuso. Ao último que tive notícia fui obrigado a perdê-lo, um solo de White no Café com Letras, para aí há um ano e meio, que me disseram excelente. Ontem houve, forma de comemorar os 30 anos de independência de Moçambique e também os 10 anos de existência do BIM, patrocinador. Talvez resultado de mero preconceito meu, mas alguma surpresa, positiva claro, ao ver um banco a comemorar-se organizando um sarau de poesia. Coisa em grande, em meios e intenção. E espero que a gravação possa vir a surgir em televisão.

Ainda que não sendo original é marcante a ideia de contar a história do país pela sucessão das palavras daqueles que dele quiseram ser poetas, que terá sido essa intencionalidade um dos fios condutores que o Eduardo White escolheu para escolher o que ontem ali foi dito: Noémia de Sousa, José Craveirinha, Rui Nogar, Rui Noronha, Marcelino dos Santos, Jorge Rebelo, Fernando Ganhão, Albino Magaia, Jorge Viegas, Calane da Silva, Leite de Vasconcelos, Filimone Meigos, Armando Artur, e ele próprio, Eduardo White. Poesias diferentes, intensidades diferentes, claro. Coisa que um espectáculo sente, mas do qual também vive. Até porque foi dia (também) de historiografia, a tal história da ideia de Moçambique na voz dos poetas.

Como falar quando são amigos que fazem? Assim um tipo fica sem jeito para criticar. Gente diferente a dizer: Eduardo White, Anabela Andrianopoulos, Ercílio Fernandes, Jaime Santos, Claudia Constance, esta em estreia, e muito bem. Gente diferente, registos diferentes. Repito, coisas que um espectáculo sente, mas do qual também vive. Mas não resisto, que amigo de palmadinha nas costas não serve para muito - para quê as fracas danças, e tantas foram? Música? Vá lá, concedo, ainda que achasse excessiva. Agora dança? Não.

(Se passares aqui e te zangares paciência. Mas tenho razão).

O sítio. A muito gostar da escolha dos Correios de Moçambique, belo edifício (e com um balcão histórico) que justifica, e merece, a sua utilização para mais eventos que os postais - ainda que tenha má acústica. Agora seria só retirar o recente, e decerto dito "moderno" e "funcional", posto de venda à entrada da sala, coisa inútil em tão grande espaço e que tanto reduz aquele "ex-libris". E, claro, aproveitar o exemplo para dar mais uso à sala.

Publicado por jpt às 12:51 AM | Comentários (11) | TrackBack

Mutlabye

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E dado que atrás referi Mutlabye, na minha opinião um ceramista a muito acompanhar, aqui o deixo ladeando uma das suas obras, esta vidrada, que muito apreciei.

Publicado por jpt às 12:45 AM | Comentários (2) | TrackBack

agosto 28, 2005

Unapamo

Na Associação Moçambicana de Fotografia a 3ª colectiva deste grupo de artistas, constituído por antigos alunos da Escola de Artes Visuais, associação de geração, jovens ainda, no chegarem-se à trintena de anos.

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Uma mostra-venda a integrar Pinto, o qual nos últimos anos se tem afirmado no desenho, e nesta expressão coleccionado sucessivos prémios nacionais, que apresentou obras da série (fase?) anteriormente exposta na sua individual no Instituto Camões. E com a qual também se apresentou ao concurso da Bienal TDM. Nada de novo, portanto. Chalucuane e King Nuvunga obtiveram muito sucesso nesta mostra de inverno, um público sensível à competência na área que gosto, como leigo, de referir como "africana". Ainda que em ambos os casos algo depurada, não excedentários naquelas constantes que animam o padrão corrente.

De Sérgio Mutlabye retirei o maior prazer. Do pequeno decorativo
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["O Pequeno Acrobata"]

a um "Beijo" que já quer bem mais.
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Em algumas das obras de Mutlabye, como em alguns outros ceramistas, é um pouco do mundo terrível e grotesco, até obscuro, dos velhos mestres pintores que baixa à terra. No seu caso com uma doçura que me desarma, até pelo inesperado consenso que consegue.

Aliás, e hei-de insistir nesta ideia, hoje em dia é na cerâmica que se encontra maior atrevimento, risco, nas artes plásticas moçambicanas. E de onde retiro maior gozo. Enquanto espero que tais caminhos transpirem para outras expressões, em geral bastante padronizadas, acorrentadas por uma mistura de conservadorismo e mercantilismo. Não critico. Apenas, no meu pequeno gosto de leigo, constato.

Por último uma obra de Luis Muiéngua, talvez o fenómeno mais interessante desta mostra.
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Muiéngua apresentou esta proto-instalação. Decerto concebida como una mas apresentada, por ulteriores considerações, como uma série de oito obras individuais.

Culminámos em pequena conversa sobre isto. Aqui a lembro pois parece chegado o momento de convencer os mecenas locais a patrocinarem instalações únicas, perecíveis ou não (esta é, ou pode ser, perene). Em particular os mecenas empresariais, com disponibilidade para intervir e já com enormes acervos de obras em suporte tradicional [os quais, diz-se, levantam já problemas de inventariação e restauro, mas isso é outra conversa. Ainda que urgente]. Mas, porventura, ainda com alguma insensibilidade para estas outras expressões, aqui ainda em circuito inicial.

Publicado por jpt às 11:11 PM | Comentários (1) | TrackBack

agosto 27, 2005

"All that my freedom has brought me is the knowledge that I have a face and have a body, that I must feed this body and clothe this body for a certain number of years. Then it will be over."

[V. S. Naipaul, "One out of many", In a Free State, Picador, 2002, 53]

Publicado por jpt às 01:14 PM | Comentários (3) | TrackBack

Sobre o capim que é esta coisa toda (apesar de se [nos] almejarem a pobre mandioca, coitados) diz aqui, em comentário, o Miguel Silva: "Mas, concordo inteiramente, qualquer blogue com aspirações a exercer influência que passe ao lado deste assunto atesta a sua própria irrelevância. Capim, pois então."

Capim, pois então. Quem vai seguindo o Ma-schamba sabe bem que este depende dos humores do machambeiro. Sem agenda e (como o disse há pouco) sem gravitas. Coisas várias do político da santa terrinha, coisa de emigrante que há anos aprendeu que um socialista português nada mais é do que um mero filho da puta (mesmo que seja meu irmão), aldrabão e mafioso (mesmo que seja filho da minha mãe), ladrão (ainda que neto das minhas avós). Há outros assim? Talvez, aliás, estou certo, mas não os conheci. E coisas várias do quotidiano, da minha filha, dos livros, das andanças, um ou outro restaurante, coisas soltas. Sem agenda é assim o Ma-Schamba. E achando que o bloguismo é isso mesmo, o cada um meter o que lhe apetece. Sem agenda, repito.

Agora todos esses, pomposos, neuróticos (um bloguista é, obviamente, um neurótico, que não faz desporto, não lê, fode pouco e bloga), que vão discursando sobre poderes variados que julgam ter, sejam eles lá da direita extrema (tipo último reduto, último reduto a que chego e só por sabê-lo apreciador de xai-xai), da direita regular tipo não sei o quê, pomposa e ensinadora das maiores simplicidades, com nome mais ou menos pomposos, tipo tomar partido que toma partido à espera ..., tipo abrupto, que afinal se cala quando o partido fala (áfinal?, como se exclama aqui), tipo a tralha socialista com causa ou não - e não falo dos trostkistas eróticos porque aí não vou, que sou filho de uma senhora -, amais o camarada foodido, afinal, dizia eu, blablabla mas um palhaço confessa ser corruptor e ninguém diz nada.

Não há agenda obrigatória, Miguel Silva, mas esses caralhos que andam para aí a julgarem não sei o quê, dizerem-se isto e aquilo. Que vão, sitemeter ou weblizer, levar no cu.

O Ma-schamba emigra. De vez.

O machambeiro, 6 da manhã, concerto dos ghorwane antes, metaforicamente vomita. Mero nojo. E diz, fel e bilis, Viva Espanha. Ainda que sabendo que não lhe serve de nada. Mas foda-se, merda de país, merda de patrícios.

Publicado por jpt às 06:16 AM | Comentários (11) | TrackBack

agosto 26, 2005

Portugal. Sobre a inversão li e gostei.

Publicado por jpt às 06:28 PM | Comentários (1) | TrackBack

Qualquer coisa que não bate certo

pergunta o Miguel Silva, debruçado sobre Portugal e, acho eu, sobre o bloguismo português, esse que anda hoje de ego bem desfraldado.

aqui fui respondendo ao MS. Mas completo-me, para mehor entendimento:

CapimInhamitanga1999.jpg.

[Será que isto entrará nas Selecções do Readers Digest?]


Publicado por jpt às 06:09 PM | Comentários (1) | TrackBack

agosto 25, 2005

Morreu Abel Nhamtumbo

Abel Nhantumbo.jpg

É possível que o nome de Abel Nhantumbo nada diga a quantos lerem este texto. Seu rosto talvez fale um pouco mais. Mas mais, muito mais certamente, dirão as muitas obras que, quase incógnito, discretamente deixou por inúmeras casas e, sobretudo, dispersas aqui e ali, por vários cantos do mundo.

Abel Nhantumbo era um dos nossos "meninos" do Psikhelekedana, do Bairro de São Dâmaso, da feira do artesanato, do mercado em frente ao Piripiri, das ruas da cidade de Maputo. Sobre ele, e na primeira pessoa, ficou registado o seguinte no catálogo de uma exposição em que participou:

"Eu vivia em São Dâmaso e frequentava a escola na zona de Dlhavela, que ficava a um quilómetro e meio de minha casa, mais ou menos. Naquela altura, estudei só até à terceira classe, por causa da guerra. Juntamente com toda a minha família, fui viver para o Bairro Patrice Lumumba, em casa do meu avô. Voltei para Dlhavela em 1992, quando a guerra terminou, matriculei-me na 4ª classe e passei. Frequentei a 5ª classe e passei.

Em criança, eu brincava com o Dino. Ele começou a esculpir muito cedo, quando eu estava a estudar. Em 1998, comecei a trabalhar com ele. Eu fazia as minhas peças e ele ajudava-me nas partes difíceis. No início, eu só fazia 4 peças: Refugiados, Aniversário, Igreja e Depósito de Pão, mas, uma vez, encomendaram-me o PMA (Programa Mundial de Alimentação) e uma sala de estar, e verifiquei que era capaz de fazer. Senti-me mais motivado e confiante para tentar fazer novas peças. Agora sinto-me à-vontade para fazer qualquer coisa.

Em 1999, pensei emigrar para a África do Sul, mas devido à morte dos meus pais acabei por ficar em Moçambique. Ainda não me foi possível continuar a estudar porque tenho de sustentar uma família numerosa."

Humilde, muito humilde, mas confiante nas suas capacidades, determinado, e sempre de largo e fácil sorriso. Jovem, de 27 anos apenas, mas adulto em engenho e arte. Carente e merecedor de auxílio, porém praticamente abandonado à miséria, e até, posso dizê-lo, explorado.

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Foi ao regressar de férias fora do país que tive a triste notícia da sua morte, por malária simples, no passado dia 19 de Julho. É com profunda tristeza, indignação e, confesso, algum remorso - por mais não feito por ele - que aqui a anuncio.

De Abel Nhantumbo, foram em 2003 oferecidas 10 peças ao Museu Nacional de Arte, que ficou seu fiel depositário. Todas elas representam aspectos da vida e da história do nosso país. Uma é a conhecida representação do Julgamento de Carlos Cardoso, um dos maiores marcos na luta pela justiça em Moçambique.

Julgamento 9.jpg


Que justiça se faça, mesmo póstuma, a Abel Nhantumbo. Sua esposa e duas filhas – uma das quais recém-nascida – aí estão para receber o que ainda lhes é devido por alguns clientes de seu pai e marido. E que esta triste perda sirva de exemplo para o reconhecimento e apoio urgente de que necessitam, e merecem verdadeiramente, alguns grandes artistas de Moçambique.

Fátima Ribeiro

*****

Fátima Ribeiro, apaixonada por esta via do artesanato do sul de Moçambique, idealizou, produziu, ajudou e financiou a realização das obras que vieram a ser apresentadas na exposição colectiva

PsikhelekedanaCapaCatalogoColectiva.jpg

"Moçambique: vida e história em Psikhelekedana", a qual continha peças de cinco jovens artistas. Apresentada em 2003 com enorme sucesso público, esse foi o momento alto da breve carreira de Abel Nhamtumbo.

Publicado por jpt às 05:37 PM | Comentários (5) | TrackBack

Ainda sobre o influenciometro

"A vaidade de atribuir à filosofia, às declarações dos intelectuais, efeitos tão imensos como imediatos parece-me constituir o exemplo por excelência daquilo a que Schopenhauer chamava o "cómico pedante", entendendo por isso o ridículo em que incorre quem efectua uma acção que não está compreendida no seu conceito, como um cavalo de teatro que defecasse."

(P. Bourdieu, Meditações Pascalianas, Oeiras, Celta, 1998, p. 2)

Publicado por jpt às 11:53 AM | Comentários (1) | TrackBack

Lusofonia

No Estroboscópio (que ali encontra "a lucidez de alguém sem papas na língua") uma entrevista sobre o "estado da Lusofonia" concedida ao Notícias Lusófonas por Orlando Castro, e que integra um trabalho apresentado na Universidade do Estado do Rio de Janeiro.

Uma verdadeira pérola. "Lúcida", como refere o Estroboscópio. Reflexão que se quer húmus do futuro.

E que me questiona. Até agora encerrado no meu português de Portugal "língua fechada, parada" como deverei aqui melhor representar-nos, a um nós Portugal "pai" que somos? Ajudando estas gentes falantes de "dialectos" africanos a potenciarem, libertarem esse "muito, muito mesmo, que...têm para dar à causa da Lusofonia.".

Face a tanta lucidez descubro-me alienado.

(Ai o sagrado de se apresentar um trabalho numa universidade...)

Publicado por jpt às 09:56 AM | Comentários (2) | TrackBack

Nabokov, ofertado pelo R. Gross.

Publicado por jpt às 03:17 AM | Comentários (0) | TrackBack

Elos nada refrescantes: no Klepsýdra.

(Elos que não são particularmente dedicados ao leitor JPA).

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Sobre incêndios, na terra do melhor medronho. [Elo especialmente dedicado ao leitor JPA]

Publicado por jpt às 02:54 AM | Comentários (0) | TrackBack

Dia da memória da escravatura e da sua abolição, a seguir as ligações colocadas pelo Boticário de Província.

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No Letteri Café.

Publicado por jpt às 12:38 AM | Comentários (0) | TrackBack

agosto 24, 2005

Andradismo

Atrevimento só lá em casa, lantejoulas até, rodriguinhos à cubillas, já no fora-de-portas, para lá da ponte, a tremideira do "o respeitinho é muito bonito", "por quem é, sô doutor", "quem sou eu para o afirmar..." que nem nome tenho quanto mais opinião para o encher, chapéu na mão, de preferência bem encostadinho ao peito.

Roupita nova, verve esgalhada e até com tempero local, coisas como que dos tempos de agora. Mas mesmo mesmo afinal só os tais rodriguinhos do cubillas, no refúgio lá em casa, no esconso das noites, essas festivas que deram nome à lenda. E assim nada mais que o bedum do antigamente, no indo de mansinho, do outra vez "quem sou eu, sô doutor", o elogiozinho da humildadezinha. É, ainda os há, aos andrades.

Passo à frente, nem enjoo ou nojo. Só mesmo passar à frente.

Publicado por jpt às 05:11 PM | Comentários (3) | TrackBack

O Altino Torres está zangado, não lhe reconhecem os méritos. É comunista e quer acreditar que a blogosfera é uma comunidade de iguais (cidadãos, camaradas, bloguistas, seja lá o que for), porventura a anunciar mais vastas e universais esferas. Eu, que não o sou, cheguei aqui desiludido quanto a isso, e até já o botei.

Hoje, sento-me à mesa com ele, e antes dos meus lamentos por outras coisas tento envelhecê-lo com

"Never speak disrespectfully of society, Algernon. Only people who can’t get into it do that."

[O. WILDE, 2000 "The Importance of Being Earnest", The Plays of Oscar Wilde, London, Wordsworth, pp. 409]

Publicado por jpt às 03:06 AM | Comentários (1) | TrackBack

Do franchising weblog

(ligeiramente retocado)

Mão amiga fez-me chegar o texto que o Paulo Querido publicou no Expresso sobre a blogosfera portuguesa. Registo que ali se referem estatísticas que procuram demonstrar o que me parece demonstrável até sem elas - a diferenciação temática do bloguismo no país, e o concomitante descentramento no político e afins. Basta andar por aí para ver. Em suma, com mais ou menos credo na popularidade do Hollywood não me parece haver ali alguma heresia, apesar do argumento vir em contra-corrente à auto-imagem das últimas semanas (Ota, fogos e etc. a escaldarem o verão do norte).

Leio críticas (nascidas em blogs políticos, claro) que denunciam o Paulo Querido como parte interessada [dono do weblog.com.pt]. Ele próprio interessante, o argumento, principalmente porque oriundo de blogs de teor político-ideológico vincado, e o qual não parece ser o dos inimigos da iniciativa privada: então não é que agora, súbito, estes consideram deficitária a condição de empresário? O PQ é o único empresário português do bloguismo, possui um "franchising", com ele constituiu uma PME de relativo sucesso, vende produtos a contento dos clientes e consumidores. E agora criticam-no, e bem lá no fundo por essa razão? Que não pode falar com um mínimo de objectividade
sobre a actividade onde empreende?

Então agora um empresário que confia na qualidade dos seus produtos e na recepção que eles têm no mercado torna-se um indivíduo duvidoso, só por o ser?

Está tudo louco. Ou então estou eu.

Publicado por jpt às 02:41 AM | Comentários (2) | TrackBack

agosto 23, 2005

A tal entrevista

A MP do Ecletico prestou-se a satisfazer a minha (só minha?) curiosidade e colocou a espantosa entrevista de Carmona Rodrigues à Sábado no seu novo blog, o Sátira Direita: está aqui.

Apetece-me recuperar uma velha palavra de ordem comunista: "lê e divulga".

Obrigado MP.

Publicado por jpt às 11:55 PM | Comentários (2) | TrackBack

Do bloguismo político: watchlions

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[mas estamos tranquilos]

Publicado por jpt às 07:09 PM | Comentários (2) | TrackBack

A propósito do meu influenciometro

Abaixo referi o meu total espanto com as declarações de Carmona Rodrigues. E, também, o meu (não tão) total espanto pelo relativo silêncio mediático-jornalístico sobre o assunto.

Repito-me: honestamente, sem retórica alguma, acho este o caso mais incrível que já ouvi na política portuguesa. Não as desonestidades ou pressões nesse sentido, coisa universal e sempre controlável/matizada pelas instituições quando democráticas. Mas esta pública predisposição para o nepotismo.

Acerca deste caso o leitor e meu amigo "Bill" acaba de deixar comentário. Súmula perfeita, tão perfeita que aqui a trago:

"Quem compra o supérfluo, vende o necessário."

Foi, obviamente, o que aconteceu.

Publicado por jpt às 01:45 PM | Comentários (3) | TrackBack

O influenciometro

Leio no O Acidental que Carmona Rodrigues, candidato do PSD à Câmara de Lisboa (e ex-ministro, e ex-presidente da câmara) afirmou ter negociado o apoio político do PND de Manuel Monteiro em troco de uma de "...uma consultadoria ou qualquer coisa (...) não faço ideia, ficou assim no ar".

JBR questiona-se sobre o conteúdo dessa oferta "Para além de todas as considerações de natureza ética que se possam fazer, e que no caso concreto são absolutamente legítimas há que saber o que estaria Carmona Rodrigues disposto a dar ao PND por este apoio".

Eu estou completamente espantado. Fico de boca aberta. Estou de boca aberta desde ontem à noite quando li isto. A ser verdade - pois só conheço o post do O Acidental, não li a entrevista à revista Sábado - o candidato à câmara de Lisboa (repito, ex-ministro, ex-presidente da câmara) admite calmamente a intenção de utilizar dinheiros públicos de forma preferencial, recompensando alianças políticas.

Não me espanta que isso exista em Portugal. Espanta-me que essa disponibilidade seja reconhecida por Carmona Rodrigues. Que me lembre é a primeira vez que um político português reconhece a possibilidade de pagar honorários, e com dinheiro público, aos seus aliados políticos. Um total desplante. Ou uma grande candura. Ou ambos. Sendo como sendo isto é totalmente inaceitável. Mesmo muito para além do aceitável.

Se é verdade o que JBR coloca no texto (até me custa a acreditar, e não por algum preconceito quanto ao bloguista) nem é exactamente o conteúdo das futuras oferendas ao PND que é o fulcro. São mesmo "...as considerações de natureza ética que se possam fazer...". Se isto é verdade Carmona Rodrigues está a mais na política, na coisa pública - em qualquer coisa pública. E de uma forma tão radical que nem tem consciência disso, nem o esconde. Um inconsciente suicidário. Melhor dizendo, um inconsciente suicidado.

Se o que li está certo o homem não pode ir a votos, não há quaisquer condições de ser apoiado por um partido democrático, que respeite a lei. Ele tem que ser retirado - ele nunca se retirará, as suas palavras são prova de que não tem consciência do que pensa. Imagine-se o que já estariam a escrever os bem-pensantes se fosse um Valentim Loureiro a ter estas declarações.

Nestes últimos dias os grande-bloguistas portugueses têm escrito muito sobre a influência dos blogs na sociedade - eivados de um politicocentramento pouco avisado, a profunda influência do bloguismo está alhures, na extrema expansão do domínio da publicitação (edição) da expressão individual, da qual a política será porventura a menos liberta dos constrangimentos mediáticos. E das estratégias individuais (o que, até dolorosamente em alguns casos, se vê no auto-silenciamento ou auto-neutralização dos bloguistas da área socialista, antes tão ágeis na palavra crítica. Parece que é mais difícil ser livre perto do poder do que fora dele - mas se calhar é isso mesmo a democracia).

Tanta preocupação com o respectivo peso social levou-me ontem, com outra disposição, outros humores, a pedir um influenciometro, que tirasse as teimas quanto à influência dos blogs lá no país. Hoje, outros humores, nem duvido, também espantado com o relativo silêncio sobre este assunto (só o vi tocado pelo O Acidental, nem em jornais, nem em outros blogs): se o cadáver político de Carmona Rodrigues for a votos, se ninguém pega nisto, se ninguém se espanta com isto, então não há qualquer influência. Nem razão para tal.

Não que veja este hobi como coisa de mastim desaçaimado, como o querem alguns. Mas se isto passa na espuma do verão então bloguismo político é capim.

(Ou então Carmona Rodrigues não disse nada daquilo, a Sábado mentiu ou O Acidental tresleu. Nesse caso eu deletarei esta entrada, como qualquer cão o faz. Após, quando o instinto o conduz).

Publicado por jpt às 12:08 AM | Comentários (10) | TrackBack

agosto 22, 2005

Mais Velhos Muralizando

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(Matalane, 21.8.05)

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Muralizando

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(Matalane, 21.8.05)

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Chissano na Riopele (2)

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Raro trabalho em mármore de Alberto Chissano, instalado na fábrica Riopele, Marracuene. [não conheço data da sua realização; disseram-me que provavelmente datará dos anos 70]

(fotos 21.8.05)

Publicado por jpt às 07:46 AM | Comentários (1) | TrackBack

Chissano na Riopele

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(Marracuene, 21.8.05)

Na fábrica Riopele em Marracuene está colocada uma enorme escultura em madeira (mafurreira?) da autoria de Chissano, provavelmente dos anos 70. Exposta ao ar livre, sujeita às intempéries, a enorme obra está já em muito mau estado de conservação e literalmente a desfazer-se diante dos olhos dos poucos passantes (como o comprovam as fotos).

A fábrica, com um passado recente muito difícil, encerrou há já um ano. O Estado é um dos accionistas desta empresa, o que decerto facilitará a urgente remoção desta obra para local próprio. E seu posterior restauro. Assim o entendam instituições e potenciais mecenas.

Adenda: muito obrigado a Pedro Nuno do Culinária d'aqui e dali [era isso mesmo que faltava] e a Luís Bonifácio do Cartas Portuguesas pelos conselhos tecnológicos.

Se alguém tratar da escultura agradeço muito mais.

Publicado por jpt às 01:37 AM | Comentários (2) | TrackBack

Oleiras de Mutamba no CCF-M

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(Centro Cultural Franco-Moçambicano, 19.8.2005)

Ainda que os recipientes de plástico e de latão alastrem, e que os homens, "mais atrevidos", hoje prefiram fabricar tijolos, mais rentáveis.

Publicado por jpt às 12:41 AM | Comentários (0) | TrackBack

agosto 21, 2005

A influência do bloguismo no país Portugal

Aqui e ali (não ponho elos para que não se diga que ando no links hunting), nesses super-blogs, discute-se a putativa influência dos blogs no mundo português. É questão que me é importante, muito me questiono sobre a influência do Ma-Schamba no devir. E ensaio-me na descoberta: visito o technorati, tenho o sitemeter pago [que também tem mapa-mundi, tal e qual aquele geoloc que já esteve na moda], mais aquele que diz quantos estão cá neste preciso momento; e também o who links to me, o nedstat basic, e o supra-sumo, este referring web pages. Mais, quando estou abatido, vou ao weblog ver o webalizer, esse "bom companheiro", verdadeiro espelho mágico, que me afirma verdadeiro lider de opinião (são miles e tais por dia). Como observam não enfrento desarmado estas questões.

Mais, leio outros blogs e até os refiro. Aos mais conhecidos e a outros mais esconsos (estes sempre hipotéticas aberturas para nichos de mercado de influência). Tenho ainda uma poderosa e até actualizada lista de elos. Quando em desespero de causa atrevo-me a comentar em blogs alheios, ainda que sabendo que um grande bloguista não suja as teclas em blog alheio.

Mas isto não me chega - ainda não realizei todo o meu peso, elevado decerto. Daí que ó Lagoa [vai com elo mas como estamos entre amigos não há aqui segunda intenção], tu que és engenheiro, percebes de computadores e bricolage, não arranjas um influenciómetro para a gente tirar as teimas?

Publicado por jpt às 09:54 PM | Comentários (6) | TrackBack

Cachupa em Lisboa

O tipo do Pitau Raia ouviu falar daquilo há treze anos. Até hesito, será a mesma cachupa, o mesmo 3º andar imundo, a mesma fauna? É que há treze anos acho que já não tinha andamento para a frequentar - e nem me lembro bem das vezes que lá ia desfalecer. Conde Barão? (bem, eu já não me lembro bem dos nomes das ruas, é o alemão a atacar ou anos a mais cá fora). Seja como for é obrigatório ler o requiem pela cachupa ilegal (e o acinte lateral como condimento está de mão-cheia). E obrigatório não começar com o traste de "legalize it - the cachupa", que aquilo nos conformes nem teria o mesmo trav(g)o.

[Via Tempo Suspenso]

Publicado por jpt às 09:45 PM | Comentários (2) | TrackBack

Zimbabwe: filme da Amnistia Internacional

Recensão sobre um recentissimo filme da Amnistia Internacional rodado no Zimbabwe. E o inconcebível continua.

[via O Insurgente]

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Adriano Alcântara no Xiphefo

Não é a primeira vez que no Eclético se ecoa a poesia de Adriano Alcântara. Um gosto particular da MP pois, ainda que aqui de longe, não me parece que este seja poeta muito afamado.

E sempre que o leio lembro-me de como o conheci. E de como gostei e o invejei. Eu tinha chegado aqui há apenas alguns meses. Certo dia um futuro amigo disse-me que em Inhambane iria ocorrer uma festa, a comemoração do já décimo aniversário de uma associação cultural local, da qual eu já tinha ouvido falar, ainda que muito vagamente.

Foi pretexto imediato, eu não conhecia Inhambane, terra dita belissima, e sendo as comemorações num fim-de-semana fiz-me convidado. Ou seja, apareci. Para muito gostar da cidade, coisa que ficou. Das praias sim. Mas muito da cidade, o que é outra coisa. E também da tal associação cultural, uma tal de

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que então ia gerindo um centro cultural, coisa pequena mas boa, onde música, algum teatro, artes plásticas iam acontecendo. E convívio, sítio para jogar bilhar e beber uns copos. Coisas estas últimas fundamentais, que sem elas nada ocorre. Espaço crucial naquele Inhambane, e talvez seja preciso conhecer a terra para perceber tamanha importância em sítio de modorra e de desacontecimentos.

Mas o coração do Xiphefo era uma revista literária, mais dada à poesia, aberta ao exterior mas acima de tudo aos poetas locais, um grupo centrado em Momed Kadir, Guita Jr, e nos então já migrados Artur Minzo e Danilo Parbato. Ia então no décimo ano, nessa altura comemorativa editavam o número 19. Era assim, desde 1987, desde esses tempos duros da guerra, do isolamento, que em Inhambane um grupo de geração foi publicando uma revista literária, coisa assim como o que a célebre Charrua foi em Maputo, mas esta muito mais episódica. Espantoso. Épico até. Ou por outras palavras, um verdadeiro Xiphefo (lamparina).

Foi nessas comemorações que encontrei Adriano Alcântara, tinha vindo para tal, convidado pelo grupo. Então leitor em França (Poitiers? Bordeaux? não recordo bem) Alcântara tinha aqui sido nesses tempos de guerra (mais ou menos entre 1986-1988) professor de liceu cooperante, período no qual agitou aqueles jovens manhambanes, provocando essa geração. Os frutos dessa provocação estavam ali. A comemorarem-se. E com a grandeza da memória, a do terem chamado o tipo professor de então.

Lembro-me de o encontrar algo vagueando, eu num "então como está?", e ele, já um bocado velho, para aí com a idade que eu tenho agora, olhos abertos a sorver uma terra largada há quase 10 anos, num "isto mudou muito" de quase irreconhecimento e eu a pensar um "claro, deve ter mudado, e tu também". E lembro-me também de deixar para a minha mulher um "porra, este deixou aqui marca. Que mais é que um gajo pode querer na vida?".

A marca Xiphefo continuou por mais uns anos, recordo ainda de em Janeiro de 1998 lá ter visto o José Mucavele tocar no dia comemorativo dos 500 anos de Vasco da Gama em Moçambique, espectáculo até de madrugada. E do Mucavele me dizer, à mesa do melhor restaurante da cidade, o "Maçaroca", que não tocava na cidade desde 1979, há vinte anos já - o quão grande o país tinha sido nos anos de aperto. E de nos anos seguintes ter recebido mais revistas, assistido ao lançamento dos livros do Momed Kadir, do Guita Jr. Depois deixei de ter notícias, coisa normal, foi um grupo de geração, de duração longuíssima, é natural que se tenha ido esbroando. Trocado por homens a fazer coisas.

Se alguém conhecer o Adriano Alcântara, talvez a MP, digam-lhe que em Maputo está um Teixeira que o cruzou em Agosto de 1997 em Inhambane e que muito gostou desse tipo que por aqui andou em tempos

"...
coreografando vadios e mágicos
do orgulho da vida
o único bailado possível:
a obsessão de não ter dono
"

(Genética Obsessão, no Xiphefo, 18, Inhambane, Mai/Jun 97, p.15)


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agosto 20, 2005

Para potenciais interessados fica a informação de que aqui se foi discutindo o tema da entrada mas também evoluíu para discussão sobre portugueses em Moçambique, em versão "linguagem comentários".

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Os direitos do bloggard

No Welcome to Elsinore.

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agosto 19, 2005

O Aviz retira-se exactamente no dia em que começa o campeonato. Bom sinal. Até o hooligan já percebeu

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"este ano é que é!".

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Dia 1 - Invocação de antepassados

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[e bem precisamos ...]

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O final do Aviz. Foi através dele que comecei a blogar.

Nos últimos meses têm acabado os melhores blogs portugueses. Moda que se esgota ou mudança de geração?

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agosto 18, 2005

O Anonimato Bloguístico e a Famocracia

[versão matizada, tendo sido cortado o último parágrafo, mera ira]

(ou do como se pode ficar verdadeiramente irritado com um blog de que se gosta).

O renomado e mui apreciado cidadão Miguel Silva com preocupações ontológicas. Procuro ajudar, à medida das minhas possibilidades, num nível mais comezinho, que o abstracto me confunde.

Quando na TV ouve falar o "senhor doutor ou outro título qualquer X" considera assinada a opinião lavrada e mera boca quando se ouve o quase-anónimo "Miguel", normalmente de aparência operária ou pobretanas? E lá no fundo coisas do mero senso comum quando balbuciadas pelo também quase-anónimo "senhor Miguel", pequeno comerciante ou velhote ali a jeito?

Considera verificado o acto ecoado ou lamentado por determinado "indivíduo" ou até mesmo "Miguel Silva, Bloguista", até nem mal vestido, desses dantes ditos colarinhos brancos? E a exigir verificação ou rápido esquecimento aquele que apela a declarações de "populares", "homens" ou até "testemunhas"?

Ou seja, aceita o reconhecido Miguel Silva a imbecil estratificação que por aí continua a grassar, esta que a imbecil televisão reproduz quasi-todos os dias, e que a imbecil audiência aceita no quasi-todos os dias? Essa em que uns têm direito ao nome e outros nem tanto. Pois parece-me, por via da aparente auto-ironia que nele encontro, da defesa do primado de um qualquer estatuto social prévio no que aos indivíduos diz respeito. Essa em que uns têm dever ao nome e outros nem tanto.

Pois quando se fala na questão do anonimato nos blogs [agora retomada no Terras do Nunca] logo surgem as repetidas referências ao desigual valor das assinaturas, dos nomes de quem opina. De divulgação importante ou necessária em pessoas (algo) conhecidas (os tais "indivíduos", os tais "senhores doutores ou outro título qualquer"), despiciendas se de cidadãos (algo) desconhecidos (os tais "populares" ou "Miguéis"), esses cuja existência ninguém pode comprovar, dizem.

Em suma, os nomes (quase)famosos são importantes, os outros nomes, os dos não-(quase)famosos pouco importam. O acto de assinar é relevante e digno em quem tenha linhagem ou seja bem-sucedido self made man. E inútil no vulgo, mera formalidade.

O acto de assinar, a atitude, isso não conta. O importante é o estatuto social prévio à assinatura. Esse que dá diferentes dignidades às atitudes. Coisa da tal ontologia, diferentes "ser" às gentes.

Assim nestas opiniões, que se querem e julgam ariscas, muito frescas, (auto)irónicas, provocatórias, só se pode mesmo encontrar um regresso das ordens, bafiento. Por isso mesmo opiniões afinal acomodadas, podres, risíveis.

É uma pobre, triste, serôdia famocracia. O vácuo do pensamento. A quem nem a aparência de (auto)ironia serve de naftalina.

Interessante, nunca li bloguistas mais conhecidos sobrevalorizarem as suas assinaturas face às dos outros. Pois esta famocracia explícita surge sempre como auto-desvalorização, nunca como alter-desvalorização. Que se quer, disse-o, irónica. Por isto até contestatária de algumas normas.

Mas na prática coitados discursos nadas, meros reprodutores de normas, de hierarquias balofas. Como se defensores do Antigo Regime. Sem sequer o saberem.

Publicado por jpt às 09:48 AM | Comentários (32) | TrackBack

agosto 17, 2005

Uma canseira, estes bloguistas que acabam com o blog, deleitam-se com os elogios fúnebres, vão ali e já voltam, e de ego cheio retomam o blog, assim como quem não quer a coisa. Não sei quem inventou a moda mas pega-se: o Bombyx-Mori está aí de novo. (Ao menos não mudou de endereço).

Publicado por jpt às 10:45 PM | Comentários (8) | TrackBack

Portugal. O meu amigo Lagoa colocou um belissimo, clarividente e hiper-corrosivo texto sobre os patrícios.

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Chez Rangel (2)

Já agora, descubro transcrição do Savana sobre o estaminé.

[2 posts sobre a casa, talvez me sirvam fiado...]

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Oleiras de Mutamba

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[Oleiras de Mutamba, Maputo, Casa Velha, 2005; 500 exs., 200 mil meticais p.v.p.]

Unga lili mwama,
Lila libumba

(Não chora pelo homem,
chora pelo barro
)

É esta a epígrafe deste livro/catálogo, cuja apresentação ocorreu ontem. Um belo trabalho, com profusão de imagens, sobre a olaria nessa localidade de Inhambane, sua história e conteúdo social, ao que se segue uma cuidada etnografia sobre processos de produção e comercialização.

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São nove as oleiras abarcadas por esta investigação. Todas elas, as senhoras Albertina Savanguane, Amélia Francisco, Catarina Wetimane, Georgina Nhambirre, Margarida Churane, Matilde Maela, Palmira Wique, Teresa Niquice e Zaida Semende, se encontrarão (à tarde) no Centro Cultural Franco-Moçambicano até ao próximo dia 26 de Agosto. Acompanhando a exposição fotográfica com a demonstração do seu ofício de olaria. A visitar.

O livro e a exposição foram realizados por um grupo constituído por Gerhard Liesegang, Cândido Teixeira, Gianfranco Gandolfo, António Sopa, Rafael da Conceição, Alípio Siquisse e Apolinário Malauene.

Publicado por jpt às 09:22 AM | Comentários (0) | TrackBack

O amável Posto de Escuta chama a atenção para algo aqui.

Por isso sublinhe-se o talvez óbvio. Era sobre o Ma-schamba que ali concluía.

Publicado por jpt às 12:29 AM | Comentários (0) | TrackBack

O Altino Torres merece beber esse copo.

Publicado por jpt às 12:27 AM | Comentários (0) | TrackBack

Coitada da embaixadora do Brasil em Maputo. Avisado pelo Carta Aberta fui dar com a reacção lá longe às notícias sobre o que abaixo referi. Gente tipo "disparar primeiro perguntar depois" acho, mas a dar "bronca": aqui [pelos vistos um super-blog de audiência por lá]. E em termos muitissimo desagradáveis também aqui e aqui.

Ao lado disto somos uns santos na blogolusa. E ainda bem.

Publicado por jpt às 12:03 AM | Comentários (1) | TrackBack

agosto 16, 2005

Chez Rangel

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Estabelecido num edifícios mais bonitos da cidade, a estação dos CFM, e da gare fazendo bela esplanada, aí está o novo clube de jazz em Maputo: Chez Rangel, casa aberta pela união do velho Rangel com o velho Quadros. Música gravada à semana, ao vivo nas matinées de sábado - essas que já vão demorando até começar domingo, coisas da sua qualidade e do bom ambiente. Estes a misturarem-se e a fazerem-se.

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Vai ganhando, ou seja vai ficando. E, nada pormenor, pormaior até, o menu de balcão em processo de assumir-se. Registo-lhe agora a dignidade, extrema, do inusitado recuperar do feijão-jugo, ali aperitivo. Vénia a quem assim do tradicional faz original, escapando ao aqui constante esquecimento do que é local.

A muito animar-se a casa nestes seus dois meses. Já frequência de gentes misturadas, numa faixa entre os dos late 20s e os já nos early 80s. Assim não vai mal. Recomendável. E ainda para mais porque as chuvas hão-de chegar, a acabar este frio e a fazer mais esplanada.

Aqui o bloguista cede a si próprio deixando-se publicitar ter sido o 1º cliente da casa a pagar uma bebida - é estatuto, acho.

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agosto 15, 2005

Ilídio Candja

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(Xinguerenguere)

Acabou agora uma exposição individual de Ilídio Candja, um ainda jovem pintor. 17 obras, sendo de louvar o ter ele evitado a habitual vertigem de encher as paredes, assim deixando respirar o que se apresenta. A chegar mais seguro, equilibrado, coisas que aqui quero que signifiquem algum atrevimento. Os tons [melhores do que estes que as minhas "fotografias" ecoam] e temas são do "Africana", que é o campo dele e aqui, obviamente, dominante.

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(Marrabenta Jazz Som do Povo)

Ilídio está a andar bem em Portugal, o que não é surpreendente dado o público por lá existente para este campo. Lá regressará em Outubro próximo para uma individual na Câmara da terra deste blog. Depois, se se desenvolverem os contactos com galerias até de renome, descerá a Lisboa.

Assim seja.

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Racismo esquizofrénico

Um Maputo triste. Leio e reconheço. É uma locução colectiva.

Ao lê-lo lembro um outro texto sobre Maputo, no Sem Técnica. Não concordo com a sua conclusão, questão de opinião, mas muito acertado é o olhar sobre o saudosismo (não as "saudades") que alguns carregam. Saudosismo esse tal e qual nas abordagens tipo a acima referida.

Pouco crítico eu? Talvez, até já o referi. Mas confesso a minha icterícia face aos saudosistas "dos tempos" coloniais e aos saudosistas do "a-seguir" - todos sempre prontos a hiperbolizar o mal actual, e tanto ele é que nem necessita disso.

Quem ler o texto reproduzido no Agreste talvez compreenda o meu esgar. Pequeno-burguês de Lisboa, desses de mulher-a-dias duas manhãs por semana, muito sorrio às promoções e ascensões do Equador. A minha filha vai nos três anos, quase todos os fins-de-semana há festinha. E lá estão as "babás" fardadas, very british colonial - até nas piscinas as encontramos. É um bocado irreal.

A essa irrealidade, até arrivista, sumarizo-a num pequeno episódio, um quasi-nada, que nem para croniqueta chega. Há anos estava no café "Nautilus", esse polo da "montra dos tugas" em parceria com o "Piri-Piri". Súbito da mesa ao lado levantam-se quatro jovens senhoras patrícias, até conhecidas, mulheres de quadros bancários ou afins. Avançam para a rua onde o motorista de um pequeno carro se apresta a recolhê-las. E as quatro lá entram para trás, todas muito apertadinhas, até encavalitadas, pois ... nem pensar em ir à frente ao lado do motorista. Ainda por cima preto, era o homem.

É este ambientezinho muito patrício que custa. Às vezes até com simpatia, ao imaginar-lhes o regresso, outra vez burguesotes, sem ninguém no "patrão". OK.

Mas quando leio os detractores quasi-patrícios (ou sub-patrícios mesmo) resmungarem a presença de portugueses, como se isso significasse similitude com o tempo colonial ("só mudaram as caras"). Quando leio e vejo esse discurso da "anti-tugalhada" esquecer que em Lourenço Marques havia centenas de milhares de portugueses, e entre eles terratenentes, industriais, até capitalistas e que hoje haverá talvez dez mil (talvez...), sem terratenentes, sem industriais, sem grandes comerciantes, com poucas e nem recentes excepções. Hum, quando leio esta anti-tugalhada assim, hum, não me refugio na psicanálise barata, o "estão a matar o pai" tantas vezes repetido. Nem no economicismo do "estão a comprar espaço", menos vezes repetido.

E fico-me, talvez num antropologismo, na apreensão de um racismo esquizofrénico. E associando-o a um sociologismo, olhando gente que perdeu um estatuto social, e nem percebe porquê. Nem percebe que o perdeu exactamente por causa da estratificação, do desenvolvimento interno. De uma burguesia local, pequena, consumista, talvez subalterna. Mas burguesia, apesar de tais locutores lhe negarem tal qualidade, por via de aspas, exclamações ou interrogações. Enquanto, ignaros, ficam a ler o processo em termos raciais, invectivando os malditos tugas.

E lembro-me de tantas conversas aqui tidas com amigos moçambicanos. Alguns meus "primos", outros ditos daqui "originários". Gente amiga, gente não racista. E esclarecida, dessa que sente origens e identidades compósitas como riqueza e não como nódoa. E do como ridículo e falso nos soam tais discursos. Anacrónicos? Não! Feios do racismo, sim. Mas acima de tudo ridículos e falsos. Porque esquizofrénicos. Nada mais.

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Os incêndios do regime [transcrição]

Sobre o incêndio português. Ouvi ontem na RTP Marcelo Rebelo de Sousa referir um artigo de Paulo Varela Gomes. Chamou-me a atenção, não vejo o PVG há cerca de 15 anos e não o leio desde que fechou o Cristovão de Moura. Coisas da distância. E do tempo a passar.

Hoje recebo-o no e-mail, a este "Os incêndios do regime", um envio colectivo de um tal "então é assim" (como abomino estas coisas anónimas): Aqui o deixo, para meu registo, e para quem não tenha passado pelo ditoso jornal.

[E se calhar é ele o destinatário da interessante entrada (também) sobre o "independentismo fanático" que o WR deixou no Forum Comunitário. Esse decerto que de gentes desiludidas. Mas as quais não se desiludem com o que "está na cara"].

Os incêndios do regime

Paulo Varela Gomes

(Público, 11-08-05)


O território português que está a arder - que arde há vários anos - não é um território abstracto, caído do céu aos trambolhões: é o território criado pelo regime democrático instalado em Portugal desde as eleições de 1976 (a III República Portuguesa). Está a arder por causa daquilo que o regime fez, por culpa dos responsáveis do regime e dos eleitores que votaram neles.

Ardem, em Portugal, dois tipos de território: em primeiro lugar, a floresta de madeireiro, as grandes manchas arborizadas a pinheiro e eucalipto. A floresta arde porque as temperaturas não param de subir e porque, como toda a gente sabe, está suja e mal ordenada. Não foi sempre assim: este tipo de floresta começou a crescer nos últimos 50 anos, com a destruição progressiva da agricultura tradicional, ou seja, com a expropriação dos pequenos agricultores, obrigados em primeiro lugar a recorrer à floresta pela ruína da agricultura, para, depois, perderem tudo com os incêndios e desaparecerem do mapa social do país. Também isso está na matriz da III República: ela existe para "modernizar" o país, o que também quer dizer acabar com as camadas sociais de antigamente, nomeadamente os pequenos agricultores. Em 2005, os distritos de Portalegre, Castelo Branco e Faro ardem menos que os outros e não admira: já ardeu aí muita da grande mancha florestal que podia arder, já centenas de agricultores e silvicultores das serras do Caldeirão ou de S. Mamede perderam tudo o que podiam perder.

O segundo tipo de território que está a arder, em particular neste ano de 2005, é o território das matas periurbanas, características dos distritos mais feios e mais destruídos do país: os do litoral Centro e Norte. Os citadinos podem ver esse território nas imagens da televisão, a arder por detrás dos bombeiros exaustos e das mulheres desesperadas que gritam "valha-me Nossa Senhora!": é o território das casas espalhadas por todas as encostas e vales, uma aqui, outra acolá, encostadas umas às outras, sem espaço para passar um autotanque, separadas por caminhos serpenteantes, que ficaram em parte por alcatroar - é o território das oficinecas no meio de matos de restolho sujo de óleo, montanhas de papel amarelecido ao sol, garrafas de plástico rebentadas. É o território dos armazéns mais ou menos ilegais, cheios de materiais de obra, roupas, mobiliário, coisas de pirotecnia, encostados a casas ou escondidos nos eucaliptais, o território dos parques de sucata entre pinheiros, rodeados de charcos de óleo, poças de gasolina, garrafas de gás, o território dos lugares que nem aldeias são, debruados a lixeiras, paletes de madeira a apodrecer, bermas atafulhadas de papel velho, embalagens, ervas secas. É o território que os citadinos, leitores de jornais, jornalistas, ministros, nunca vêem porque só andam nas
auto-estradas, o território, onde, à beira de cada estradeca, no sopé de casa encosta, convenientemente escondido dos olhares pelas silvas e os tufos espessos de arbustos, há milhares - literalmente milhares - de lixeiras clandestinas, mobília velha, garrafas de plástico, madeiras de obras (é verdade, embora poucos o saibam: o campo, em Portugal, é muito mais sujo que as cidades).

Este território foi criado, inteiramente criado, pela III República. Nasceu da conjugação entre um meio-enriquecimento das pessoas, que, 30 anos depois do 25 de Abril, não chega para lhes permitir uma verdadeira mudança de vida, e o colapso da autoridade do Estado central e local, este regime de desrespeito completo pela lei, que começa nos ministros e acaba no último dos cidadãos. É o território do incumprimento dos planos, das portarias e regulamentos camarários, o território da pequena e média corrupção, esse sangue, alma, nervo da III República.

É evidente que a tragédia dos campos e das periferias urbanas portuguesas se deve também ao aumento das temperaturas. Para isso, o regime tão-pouco oferece perspectivas. De facto, seria necessário mudar de vida para enfrentar o que aí vem, a alteração climatérica de que começamos a experimentar apenas os primeiros efeitos: por exemplo, seria necessário reordenar a paisagem, recorrendo à expropriação de casas, oficinas, armazéns, sucatas. Seria necessário proibir a plantação de eucaliptos e pinheiros. Na cidade, pensando sobretudo nas questões relativas ao consumo de energia, seria necessário pensar na mudança de horários de trabalho, fechando empresas, lojas e escolas entre o meio-dia e as cinco da tarde de Junho a Setembro, mantendo-as abertas até às oito ou nove da noite, de modo a poupar os ares condicionados - cuja factura vai subir em flecha.

Modificar os regulamentos da construção civil, de modo a impor pés-direitos mais altos, menos janelas a poente, sistemas de arrefecimento não eléctricos. Para alterações deste calibre - que são alterações quase de civilização -, seria preciso um regime muito diferente deste, um regime de dirigentes capazes de dizer a verdade, de mobilizar os cidadãos, de manter as mãos limpas.

Vivo no campo ou perto do campo, na região centro, há já alguns anos. Há três Verões que me sento a trabalhar, enquanto a cinza cai de mansinho no meu teclado, em cima dos meus livros, no chão que piso. Não tenho culpa do que é hoje este país e o regime que o representa: militei e votei sempre em partidos que apregoavam querer outro tipo de regime e deixei de militar e de votar quando vi esses partidos tornarem-se tão legitimistas como os outros. Espero um rebate de consciência política por parte destes políticos, ou o aparecimento de outros. Faço como muitos portugueses: espero por D. Sebastião, desempenho a minha profissão o melhor que posso, e penso em emigrar.

[Historiador (Podentes, concelho de Penela)]

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agosto 14, 2005

Só hoje reparei - o final de um belo blog, o Azul Cobalto.

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"A lisonja constante, ostensiva, contrária à evidência, das pessoas que o rodeavam, tinha feito com que ele [Imperador Nicolau] já não visse as suas contradições, já não estabelecesse correspondências entre, por um lado, as suas acções e palavras e, por outro, a realidade, a lógica e o simples bom senso, mas estava absolutamente convencido de que todas as suas ordens, mesmo que fossem disparatadas, injustas e incompatíveis entre si, se tornavam sensatas, justas e compatíveis só por serem emitidas por ele".

[Lev Tolstoi, Khadji-Murat, Lisboa, Cavalo de Ferro, p. 110]

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"Ninguém sequer falava do ódio pelos russos. O sentimento que experimentavam todos os tchetchenos, das crianças aos velhos, era mais forte do que ódio. Não era ódio, mas sim uma recusa em reconhecer aqueles cães como seres humanos e era tanta a aversão, a repugnância e a perplexidade perante a crueldade absurda destas criaturas que a vontade de as destruir, tal como a vontade de destruir ratazanas, aranhas venenosas e lobos, era um sentimento tão natural como o instinto de conservação".

[Lev Tolstoi, Khadji-Murat, Lisboa, Cavalo de Ferro, p. 124]

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Saber Fazer (ensaio sobre o liberalismo) II

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[Linha de latas de Coca-Cola lançadas por ocasião do 30º aniversário da independência de Moçambique, ocorrido a 25 de Junho passado]

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Saber Fazer (ensaio sobre o liberalismo)

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agosto 13, 2005

Idasse em Cantanhede

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Imagem reproduzida do jornal "Notícias", ilustrando obra que Ídasse deixou em Cantanhede, realizada no V Simpósio Internacional de Escultura que por lá decorreu. Em podendo visitar.

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O cão da embaixadora do Brasil.

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Sempre adormecido pelo quotidiano mas de quando em vez algo surge despertador. O caso mediático da semana é o do "Cão da Embaixadora do Brasil em Moçambique", ao qual os semanários Embondeiro, Zambeze e Savana dedicam parangonas, reportagem e análise.

Desconfiados da fiabilidade dos jornalistas muitos resmungam campanha contra os interesses brasileiros - em particular os interesses mineiros, em grande desenvolvimento aqui. Outros (eu?) hesitam, confrontados com as declarações aos jornais da referida embaixadora. Sem negar a hipótese da tal campanha - coisa que não seria inédita - aqui registo o delicioso episódio. Até porque ilustrativo de alguma adiplomacia. E talvez de algo mais.

O facto está assim narrado. Os guardas do armazém comercial "Game" barraram a entrada ao cão da embaixadora, algo que é regulamentar. Esta, talvez alterada, terá sublinhado a higiene do canídeo, dizendo-a inclusive superior à de Maputo e seus habitantes. Até dos moçambicanos em geral. Ali ditos pretos. Verdade? Custa a acreditar, numa diplomata. Mas tem lá todos os estereótipos ("preto", "porco", "desrespeitador"). Os muito utilizados por estrangeiros. E os muito utilizados pelos locais para "racistizarem" os estrangeiros. Repito, custa a acreditar que um diplomata tenha este tipo de afirmações.

O corolário, espantoso, é que a embaixadora não nega o caso, não o reduz à sua possível inexistência ou insignificância - e que mais poderia / deveria ela fazer? Pior, de modo até inacreditável, afirma ao Savana que os moçambicanos deveriam ter cuidado em referir tal situação pois precisam dos investimentos estrangeiros, e brasileiros em particular. E, não satisfeita, reafirma ao Savana a extrema higiene do seu cão (indubitável, diga-se), sublinhando ainda que dorme com ele, na sua própria almofada. Proporcionando aos leitores a letal mistura de indignação com gargalhada, inclusive a de quem dorme com os seus animais.

Campanha anti-brasileira? Campanha anti-embaixadora? Confesso que sempre desconfio dos textos jornalísticos sobre os estrangeiros aqui residentes. Mas neste caso parece-me mesmo um grande erro de casting. E, pior do que tudo, denotativo de alguma "elite" (trans)nacional.

Ontem, em jornada profissional com amigos brasileiros, estes até "doentes" de vergonha. Não do cão, diga-se.

Acalmei-os um pouco, ou tentei. E fui (-lhes) lembrando o antepenúltimo embaixador francês, o qual, num já recuado "dia do beaujolais", recebeu no jardim do Centro Cultural Franco-Moçambicano as centenas de convidados trajando um chapéu colonial.

"Ele" há cada uns...

Publicado por jpt às 07:33 PM | Comentários (7) | TrackBack

Blogs em Moçambique

Um blog curioso: Ucrânia em Moçambique, em português.

Uma americana em Manica: Mozamblog.

Recoloquei na coluna de elos alguns blogs em Moçambique, entretanto encerrados. Recomendo, em especial, regressos ao Apassarado, de Eduardo White.

Publicado por jpt às 11:31 AM | Comentários (0) | TrackBack

agosto 11, 2005

Há blogs com gravitas. Há blogs que a ensaiam. E há outros dela manifestamente incapazes.

Adenda: aqui.

Publicado por jpt às 10:13 PM | Comentários (0) | TrackBack

O 2+2=5. Com uma costela (ou mais) moçambicana. A seguir.

E também, e aqui é minha mera opinião, com uma costela do "radicalismo obscurantista de fachada democrática". Coisas da aritmética de cada um.

Publicado por jpt às 10:06 PM | Comentários (4) | TrackBack

Holigão

Este holigão passou ontem algum tempo entre telefonemas intraurbanos e intercontinentais, sms colectivos e desabafos domésticos, impropérios múltiplos e apelos sanguinários. A causa? Uma mera derrota futebolística? Não. Foi-lhe anterior, independente. E está narrada neste "estranho ambiente horas antes do jogo".

Os leitores habituais do estranham a inexistência de alusões a Manuel Fernandes? Pois não é ocasião, hoje (e ontem) é momento de homenagear e lembrar

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o Senhor João Rocha, grande Presidente do clube. Com grande obra, acontecida em momento difícil, de recuperação do clube, de manutenção da estabilidade e, depois, de incomparável crescimento. E com quem coisas destas nunca aconteceriam. (E não venham falar de Paulo Futre. Pois derrotas são uma coisa, estilos são outra).

Adenda: já agora o sítio do Sporting Club de Portugal deve [imperativo, não condicional] ter uma galeria dos antigos presidentes do clube ilustrada com fotografias mais dignas do que aquelas que se podem aí encontrar.

Publicado por jpt às 09:15 PM | Comentários (2) | TrackBack

É melhor sorrir:

Animado pelo anúncio da recandidatura de Mário Soares à Presidência da
República, o nosso querido Eusébio já confirmou o seu regresso à Selecção. Por seu turno, António Calvário começou a ensaiar o tema que vai levar ao Festival da Eurovisão de 2006. No caso de Rosa Mota, a atleta portuense reconheceu não ter tempo para se preparar devidamente para os Jogos Olímpicos, a disputar em Pequim, em 2008, pelo que resolveu adiar o seu regresso para os Jogos de Paris,
em 2012, onde participará na Maratona.

(obrigado Jp; e paciência ...)

Adenda: há correcção à anedota aqui transcrita, que o leitor O Raio colocou nos comentários - os JO de 2012 serão em Londres, não em Paris. Aqui fica para todos os que a andam a FWardar via email. Já agora, com os próximos JO na Pequim comunista e colonialista para que raio andamos nós preocupados com essa tralha dopada? Mero lixo. Os atletas, os gestores-políticos. E, acima de tudo, os telespectadores.

Publicado por jpt às 09:22 AM | Comentários (2) | TrackBack

agosto 10, 2005

Sport--eeeng

Publicado por jpt às 07:32 PM | Comentários (5) | TrackBack

White e o velho Malangatana aqui.

Publicado por jpt às 08:59 AM | Comentários (0) | TrackBack

O incêndio português.

A ler [via Quatro Caminhos].

Publicado por jpt às 08:54 AM | Comentários (0) | TrackBack

A doença

Diz o estudo de agora que em 16,7% dos adultos. Aqui, na cidade grande, em 20%. Fico com o silêncio.

Publicado por jpt às 12:04 AM | Comentários (0) | TrackBack

agosto 09, 2005

Sentido de voto e direito ao voto

Lá em baixo, e na sequência de uma pequena brincadeira memorialista minha, estou numa (não indulgente) conversa política com Carlos Azevedo - conversas que são coisa que a caixa de comentários permite, diga-se aos seus inteligentes detractores.

Não me pergunta Carlos Azevedo o meu sentido de voto mas permito-me aproveitar para esclarecer, já que vem muito a propósito. E sobre isso tenho escrito às vezes, ainda que sem explicitar. O meu sentido de voto actual é abstencionista.

Entenda-se, sou emigrante. Para votar tenho duas hipóteses. Ou vou com a família a Lisboa cada vez que há eleições (um mínimo de 2800 USD aos especulativos preços do efectivo monopólio TAP-LAM, mais a semana de férias exigível, pois as viagens mais curtas ainda são mais caras). Dirão alguns que não é demais para exercer o direito de cidadania. Eu não refuto, no plano de princípios. Mas é pesado demais para os meus rendimentos.

Ou então opto por me recensear aqui em Maputo. Ora ao recensear-me aqui perco direitos de cidadania, e é isso que várias vezes referi. Perco direito ao voto. Não posso votar nas eleições para o Parlamento Europeu (contrariamente aos emigrantes nos países da UE, contrariamente aos cidadãos de alguns países da UE imigrantes fora da UE). E não posso votar nos referendos sobre questões nacionais (contrariamente aos cidadãos de alguns países da UE imigrantes fora da UE).

Ou seja sou abstencionista por atitude, atitude política. Prefiro não exercer o meu direito (prático) de voto a prescindir ao meu direito (formal - entenda-se, ideológico) de voto. Eu não cedo, "gratuitamente", o meu direito ao voto, não prescindo da sua totalidade. Mesmo que isso me impeça de votar.

É também abstencionismo por atitude, atitude de desprezo. Desprezo não pelos "políticos" [o "eles" que há já muitos dias Miguel Esteves Cardoso apontou]. Mas sim desprezo por quem continua a achar que há portugueses de primeira (que votam em todas os actos eleitorais) e portugueses de segunda (que só votam em alguns actos eleitorais). Um hierarquia assim explícita na lei, capeada pela constituição, sufragada pelos milhões de votantes (os ignorantes e os que o sabem). Ou seja, e até custa escrevê-lo, face ao silêncio sobre esta matéria é um desprezo por esse Portugal. Como está na blogomoda de agora, um Portugal que ainda pensa "metropolitês" mas o qual, coitado, nem de si próprio é metrópole.

Publicado por jpt às 06:58 PM | Comentários (3)

Os efeitos da publicidade no bloguismo.

Publicado por jpt às 06:33 PM | Comentários (3)

Leão

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O Ngonhamo para Ídasse.

Publicado por jpt às 10:17 AM

Dragão

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Um desses dragões segundo Ídasse.

Publicado por jpt às 10:12 AM

O Matreco

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O Matreco, aliás JPT, segundo Gemuce.

Publicado por jpt às 10:01 AM

A bomba

Sobre a bomba, mas também sobre alguns "pensantes" de hoje, imperdível. De os fazer corar, se tais "pensantes" corar pudessem.

Publicado por jpt às 12:54 AM

João Vário

António Jacinto Pascoal regressa ao Ma-Schamba, agora ofertando um texto sobre João Vário, poeta cabo-verdiano. Como é seu costume A. J. Pascoal dedica-se a peneirar autores de identidade escusa.

Confesso o até agora secreto desejo (a la Borges?) - eu não conheço Pascoal, o cujo simpaticamente partilha textos sobre poetas de identidade semi-secreta e cujas obras desconheço por completo. Um dia descobrir que estes poetas não existem. Tal como o próprio Pascoal.

****

Negando-me (?) esse labirinto A.J. Pascoal chama-me a atenção para um texto de sua autoria colocado no Estudos Sobre o Comunismo, dedicado a Álvaro Cid, chamada que aqui partilho.

Eis o texto sobre João Vário...

Para Exemplo (Coevo) de João Vário

ao Rui Guilherme Silva, com estima

E assim o corpo seja bom para a sua Meca
mais próxima que é o engano

JV, Canto Primeiro, Livro 9

João Vário (heterónimo de João Varela) é Timóteo Tio Tiofe e outros, autor de uma série (de 12 volumes, para já) de livros poético-narrativos, todos intitulados de uma forma análoga – o substantivo «Exemplo», seguido de adjectivo (Geral, Relativo, Dúbio, etc.). No caso, só conhecemos o volume 9, Exemplo Coevo, editado em Agosto de 1998, em Cabo-Verde (Praia), com o alto patrocínio do Ministro da Cultura, numa edição conjunta do autor e Spleen-Edições.

Para melhor percepção do poemário, o autor dá-nos algumas pistas de leitura (que não são migalhas), fundamentais aliás, numa nota introdutória em jeito de prefácio – elucidativo a tal ponto, que o autor parece aí querer dilucidar aquilo que era esfíngico para o leitor. O labirinto de referências e a pretensa erudição do autor, em domínios como a pintura, escultura, arquitectura, literatura, etc., não parece confiná-lo a uma caboverdianidade existencial (ele próprio a si refere como o da «vida de ilhéu e de cidadão do mundo»). Doutro modo: parece-nos quase impossível que João Vário seja «o cabo-verdiano tipo», a menos que a diáspora lhe tenha proporcionado vivências e referentes enciclopédicos – e parece que sim, pois consta ter vivido em cidades como Antuérpia e Estrasburgo, em países como Angola e Portugal. Diríamos que João Vário, múltiplo em facetas como no nome, que a si mesmo se refere no poemário, é um produto de um tempo de circulação abundante da cultura mundial (sobretudo a ocidentalizada), possível apenas numa circunstância de vida feita fora das ilhas e já, ao que parece, na emergência da Internet.

O ano de 1937 (o do seu nascimento, em analogia ritualista com o de um Cristo), para que aponta a sua obra, simboliza o início de uma das maiores ignomínias da humanidade – com holocausto à vista – e os valores a que Vário se refere (bom senso, generosidade, coragem, inteligência, perdão), bem como as premissas do bem e do mal, o sofrimento, a verosimilhança, o destino, perseguem a ponderação daquilo que a humanidade possa ainda conter de humano.

Não é possível ler Vário sem coordenadas culturais altamente refinadas, e sem o propósito do seu preâmbulo: o de armadilhar o leitor, conferindo-lhe a sensação de ser detentor de referentes. Vário joga em vários tabuleiros: sobretudo no da verosimilhança. Querendo ser verosímil, mostra que não é verdadeiro. Oculta, pois, a sua identidade. É, como Pessoa, vários. Vário.

E é também patrício de Eça, na ironia: que verdade, então?

Referindo-se à «Paixão Segundo S. Mateus», Vário elege – e excelente escolha – a ária nº 47 (a do pedido de perdão de Pedro, cantada, curiosamente, por contralto) como uma das mais sublimes (nalguns casos, essa ária corresponde à nº 39, «Erbarme dich, mein Gott»), porém, é difícil escolher entre tanto assombro – talvez nos pudéssemos atrever a aventar a purificação de José como, entre todas, a mais bela – é a ária nº 65 ou 75 (noutras versões), intitulada «Mache dich, mein Herze, rein», quando José pede para enterrar Jesus, e toda a tensão se esvaneceu, sobrando um tempo-sem-tempo, que é o tempo pós-pathos (o que lembra o célebre Opus 11 de Barber). Mas Vário socorre-se de Bach para propor o tema do perdão e considerar que não há outra saída para a humanidade, apesar do mal – também assim se parece poder ler em «Cello Concerto», de um jovem poeta português, Daniel Duarte.

Fica a pergunta: quid est Vário? Porquê «exemplos»? Obras exemplares, no sentido didáctico e moralizador, de postulado punitivo? Ou apenas a dimensão ontológica na reflexão sobre a condição humana? E porquê o exagero da enumeração (por vezes, no limite da referencialidade banal, como de faits divers)?

Obra críptica, por certo, matizada de teor messiânico, a atestar pelas várias alusões a S. Paulo (Coríntios, II – 3), que se pressente ainda na malha do discurso, como em «Onde está o sábio? Onde está o escriba?», ou na condenação da sabedoria, em favor da «loucura» da mensagem de Cristo. Seja como for, reveladora da ética cristã, na sua mensagem desconcertante, que privilegia a cegueira do perdão contra tudo, numa extrema lucidez de loucura.

Depois, a sagração artística de 1937 (como na criação do mundo, acto genésico), como se também o poeta se quisesse coligir no conjunto da obra dessa colheita, não esquecendo a devida vénia dos mestres do real quotidiano (a crer que sim), pelo lado pseudo-científico de Vário.

Certo é que Vário não busca o Graal da verdade, mas o copo rude da verosimilhança. Não ser, mas parecer ser. Afinal, aquilo que incorpora, à maneira de Mutimati ou do recém falecido João-Maria Vilanova.

A sua linguagem, a do poemário, recorda o estilo neobarroco e vertiginoso de Craveirinha, embora muito mais hermética, simbólica e erudita – um coevo património que mal se vislumbra. Aparentemente, e segundo o registo catafórico do título, um olhar sobre a contemporaneidade, onde Deus («imprevisível vigilância/ da azáfama tutelar») parece esquecido dos homens. Ao estilo bíblico, Vário incorpora narcisicamente a figura de Cristo, nascido de Bia, sua mãe (Maria Delgado), e parido ao sétimo dia de Junho. Em estilo majestático de plural retórico.

Mitificando-se, Vário percorre o ano de 37 como se do início de uma certa era cristã se tratasse, evocando de forma memorialista, e por contraste, as grandes obras da altura e a génese da «besta apocalíptica». Jerusalém ignóbil é agora a Europa das «lutas intestinas» e fratricidas, cujos cavaleiros parecem fazer retornar um tempo de trevas. Ao invés, «as ilhas ocidentais» (Cabo-Verde) lembram uma Belém, paraíso perdido, num mundo voraz. Vário concebe o século XX como o mais vil da história da humanidade, porque a consciência e a imoralidade andam ombro a ombro, como o discernimento e o mal, de que sai vitorioso Caim. A Europa, continente de uma certa consciência moral, parece confinada ao paradoxo insanável da resolução do problema entre bem e mal. Tudo o que é genial surge, afinal, do sangue de Abel. A obra criadora, a mais bela, não se esquiva à ignomínia sobre que se constrói, e o que pare o sublime é capaz do atroz. Nesse dilema, parece-nos ouvir o eco de uma qualquer voz de um «Velho do Restelo»: «Ah a piedade é a pior das atrocidades!/ Homem, que pacto te pôs o fogo nos ouvidos/ e te espetou a alma nessa figueira estéril?».

O discurso opta sempre pela colagem ao bíblico e à linguagem de Cristo (alter ego de Vário): «Era o tempo da criação do campo/ de concentração de Buchenwald (…)»; «Em verdade, em verdade, quase tudo ignoramos (…)»; «Em verdade, em verdade, toda a vida/ vale o espaço do pão que não foi amedrontado»; «Tal está escrito, está escrito»; «mas quem nos poderá atirar aprimeira pedra». Usa da enumeração e socorre-se da estrutura sintáctica discursiva e reflexiva, sem quebras de verso – a opção é a narrativa. Não deixa de haver um alocutário, provavelmente o leitor ou, quem sabe, os juízes das culturas dominantes da época – como se o poeta recriasse o discurso retórico e sujeito a tribuna. Por entre sínteses de factos desse ano, Joe Louis aparece como uma curiosa alusão à obra de outros poetas africanos, embora não mereça qualquer destaque, naquilo que se pode considerar um resumo de efemérides do ano, sem conotações ideológicas, muito embora Vário vá insinuando preferências: «Porém, nós citamos Seferis, Ungaretti, Neruda». Percebe-se que o mundo é «vago e triste», percorre um destino inquebrantável e o sujeito anula-se perante o decurso da história e dessa «travessia da dor», onde prevalece a arbitrariedade. O homem é também um «bicho da terra» camoniano, através do qual «é a alma que vende/ mais barato todas as coisas». Sublinha-se a dificuldade do poeta em criar cumplicidades com o mundo, de que se afasta eticamente, não condescendendo face a Deus («a preguiça do destino»), porque crê que «a terra é toda a nossa esperança». Irremediável destino. Insanável, não fora a confiança de Vário no poder do homem em usar da sua mansidão, de restringir a vingança e de aplacar a cólera: para Vário, só a autenticidade do homem o redime, sem hipocrisia e sem ornamento. È preciso perdoar, considera, mas sem que o perdão seja espectáculo. Exactamente a linha teorizadora de Daniel Duarte, em «Cello Concerto».

Vário exige uma purificação da alma, um encontro genesíaco com o bem, que está plasmado na constituição genética dos homens, e para o qual foram gerados. Aproxima-se de uma lógica cristã, sem supremacias, sem ruído, e sem visibilidade. O bem é invisível, comedido. O valor da «pietas» é-lhe caro, não com um sentido vulgar, mas provido de silêncio e autenticidade, única forma de contrariar o «apocalipse esperto», que se foi aninhando no quotidiano e até na nossa consciência.

Vário desperta-nos para a resistência ao mal, ao desconcerto do mundo, através da fórmula da «posta de alívio assado, o favo do bem». Não há, segundo ele, outra forma de contrapor algo ao mal, senão o bem. Sob pena de ser outro mal – a sua continuação. Vário é paladino da reconciliação dos homens, evitando todo o tipo de caridade falsa ou intenção panfletária. A sua sobriedade moral exige esforço e contenção, mas pureza de sentimentos e carácter nobre: amar o outro. Mesmo o algoz. Sem contrapartidas. E ainda que se seja «vítima do fogo». Será possível amar, sem ser ridículo? – propõe Vário. Ridículo é quem não crê na genialidade humana, uma forma de amar sem o dizer. Bartok e a sua obra é apenas um exemplo de que a salvação dos homens é possível. Segundo a contrição.

Vário desdobra-se e remete Bessie Smith para o seu sósia, Timóteo Tio Tiofe, ironizando. Eis que fenece o canto primeiro.

O segundo canto permite suster alguma ilusão utópica inicial e revelar o descrédito sobre os homens. Vário, mais pessimista, julga-se fora da história, incapaz de um comprometimento pragmático que permita entrar nela para a modificar: «vamos ficando pelos arrabaldes do tempo». É um homem amargurado o predicador do discurso, alguém que já conhecia os resultados dos oráculos. Ainda assim, a esperança é palavra do seu vocabulário (perseverámos; avançámos), como se o recuo não fosse possível para quem acredita, ainda que desiludido. Ainda que as obras pareçam ruir (as grandes obras dos homens), haverá sempre o «arrojo do perdão». Provavelmente a expressão poética que sintetiza a obra de Vário (ele chega ao arrojo de «o amor do próximo», p. 46). Essa singularidade.

Canto terceiro: o dilema entre a genialidade do homem e a sua capacidade de manifestar o mal persiste (neste discurso altamente maniqueísta de joio e trigo. P. 56) – «Nós ficamos, mas eles, os nossos melhores mortos,/ por onde andarão que não vêem como o que nos envelhece (…)». Vendida a alma, pouco resta aos homens, e tudo é irreparável. Vário coloca-se no lugar de Cristo: ter nascido foi em vão? Não, desde que em busca da verdade ou da «impaciente justiça da razão». O sofrimento torna-se lateral. Em Vário, o plano ontológico de perseguição da identidade humana («vasculhando a sua sombra») é fulcral e consonante com a «praxis do bem». Por vezes, querer saber-se o que se é, pode ser uma falácia: para Vário, chega a ser um jogo que Deus nos impõe (p.56) – esse mesmo Deus que não fez com que «a ternura fosse o mar prometido». Neste canto terceiro, a consciência da ilusão faz-se maior. João Vário sabe que percorreu um caminho em que andou «às cegas atrás da bem-aventurança». Que foi puro demais e que com isso viu o engano da sua vida. Que Deus é um tarado. Que o mal é perene e a generosidade do mundo é impotente (p. 59). Que noutros tempos se fazia «da ternura o escudo». Que ninguém, sozinho, é paladino e pode alterar a história. Que a decepção é um facto. Que a beleza é a única unidade revelada – coloca, Vário, portanto, o belo acima do bem, a estética por sobre a ética. Que o bem e o mal parecem desaguar no estuário como vindos do mesmo rio, como se disso fosse feita nossa medida: extirpar o mal seria, de certo modo, acometer o bem. Por outras palavras: o bem não vive sem o mal.

Por certo, o canto terceiro, o mais derrotista de Vário. Uma vez que não tem lugar para a ambiguidade, pois, como indica, o extermínio não permite qualquer ambiguidade. Aparentemente, o pacto com a esperança foi abandonado. Vário capitulou, porque deixou de acreditar na generosidade e na esperança, como sustentáculos do bem. Lugar ainda para se perguntar onde essa humanidade que Levi questiona em «se isto é um homem»: «que é homem isto que lemos». Vário capitulou porque acha que o mal está bem organizado, os homens são volúveis e fracos, a terra é «pequena e molesta» e que o «dever essencial da esperança» é «lavar a alma».

O discurso memorialista termina num epílogo ao jeito assertivo. A esperança é arredada, o perdão não redime. E para se chegar à bem-aventurança, o caminho crê-se ser o da solidão. Nada mais amargo e desconcertante. Mas talvez razoável, porque a razoabilidade foi, há muito, ultrapassada. Porque «a verdade começou a ser/ uma infeliz inauguração, um incerto medicamento». É que o mal é poderoso. Para Vário, nada o cura, nem o tempo, nem a compaixão, nem a beleza.
Perante o mal ficamos sozinhos. Só a solidão o pode tentar enganar. Eis a pior das notícias. Apocalíptico cenário este dos tempos modernos, do exemplo coevo. Onde a alma está perdida e o corpo vai ao engano.

Magnífico poeta, o João Vário. E como os magníficos, terrível.

António Jacinto Pascoal [Mestrando em Literaturas e Culturas Africanas de Língua Portuguesa, Universidade de Coimbra]

Arronches, Julho de 2005

Publicado por jpt às 12:21 AM | Comentários (3)

agosto 08, 2005

Acabou o Crónicas de Maputo, interessante registo de um ano em Moçambique que o português João Nogueira decidiu partilhar.

Publicado por jpt às 09:07 PM

Portugal. A ler uma entrada historiográfica sobre o actual governo.

Estava tudo dito à partida. Maldito clubismo.

Publicado por jpt às 05:37 PM

Domingo: paternidade em full-time

O que a Ibe Vet organizou, na Matola, é um refúgio da paternidade. Um multi-complexo, digo-o em neologismo no português de Moçambique.

O restaurante Sayonara, muito aprazível e de bom serviço, ainda que a arte de tratar a galinha não seja inesquecível, orlado por uma piscina para crianças. E, mais do que tudo, verdadeiro produtor de excelência, o facto da música ambiente se apresentar em volume aceitável (um bem raro por esse mundo fora, como tanto se lamenta).

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E o pequeno parque Amazonia, animais de capoeira, pássaros muitos, alguma lagartagem, macacos (em regime de liberdade relativa), coisa pequena, bonita e saudável. E ...

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alegria dos meninos. Que mais se pode pedir?

Publicado por jpt às 04:56 PM | Comentários (1)

O incêndio português

Portugal. Sobre o incêndio nacional ler um magnífico texto no Miniscente, talvez cosmológico ainda que eu o entenda político. E nada escatológico.

Para a compreensão do incêndio português e da sociedade na qual ele lavra ler, obrigatoriamente, texto no Quatro Caminhos.

Publicado por jpt às 04:44 PM

Manipulação

Por vezes há quem estranhe ou aponte o comportamento da informação portuguesa: p. ex. Francisco José Viegas nota o silêncio (ensurdecedor) sobre a (mais que natural) derrocada ptista; José Pacheco Pereira frisa o silêncio da "comunicação social tradicional" no "caso Ota"; em relação a este caso Rui Cerdeira Branco sublinha tal silêncio realçando que a excepção nos orgãos de comunicação é no seio da imprensa especializada (julgo que digital), logo de muito menor audiência.

Diante de tais factos (ou coincidências) poucos poderão referir critérios de pertinência jornalística. Tais silêncios só podem vir de total incompetência ou de intenções manipulatórias (o acto do silêncio, pois então). Quando se refere estas últimas, o controle das mentes, da opinião pública como diz o jargão actual, a sua manipulação, logo há quem sorria, até paternalista, invectivando as "teorias da conspiração" que germinariam tais visões.

Cada vez mais creio nessa manipulação. Ao serviço desses grandes temas. Pois vejo-a no dia-a-dia em aspectos mais comezinhos, como programa profissional.

Há algum tempo deixei aqui um apontamento sobre esta manipulação na RTP. Sempre impune. Ontem, 7 de Agosto, no telejornal da RTP via-a de novo, mais uma vez impune: uma reportagem sobre uma zanga em Lagos, culminada em tiroteio com a polícia e morte de um indivíduo cigano, culminada com o carpir familiar; imediatamente a seguir uma reportagem sobre uma inspecção na Feira do Relógio em Lisboa, noticiando a apreensão de roupa ilegal, na posse de comerciantes ... ciganos.

Reparo sem ponta de antipatia pela polícia nem simpatia pelos comerciantes. Nem vice-versa algum. Reparo apenas, como o serviço público de informação continua a manipular os espectadores através de modalidades aparentemente pacíficas, neutrais, nestes casos uma neutral lógica de "alinhamentos". Mas nos dois casos que aqui lembro regorgitando preconceitos rácicos. Ilegais, diga-se. E nos restantes alinhamentos produzindo as opiniões para as quais é convocado.

O espectador continua distraído. Nunca, em tempos recentes, li algum apelo à demissão da direcção de informação da RTP, serviço público. A escória racista continua à solta. E a produzir outras ideias, sobre outros assuntos. Pelos alinhamentos, pelos enfoques e pelos gritantes silêncios.

Publicado por jpt às 02:58 AM | Comentários (3)

Está muito bem o Isidoro de Machede a falar do Patraquim.

Publicado por jpt às 12:24 AM

agosto 07, 2005

Informação?

Telejornal da rtp, hoje domingo 7 de Agosto, tão hoje que ainda está a decorrer.

Notícia (?), com reportagem e tudo: o F.C. Porto voltou de Inglaterra onde realizou um jogo particular de preparação. Não houve declarações ao repórter (?), o cujo foi adiantando que no aeroporto estava muita gente esperando passageiros.

"Isto" passou no telejornal, com reportagem (um minuto? mais ou menos). "Isto" é notícia? "Isto" é pungente. "Isto" é miserável. "Isto" não é isto. "Isto" nem nada é.

E ninguém cai. Talvez porque nem ninguém há.

Publicado por jpt às 10:47 PM | Comentários (4)

agosto 06, 2005

Sábado Académico

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Publicado por jpt às 10:32 PM | Comentários (5)

Ciência Política

Portugal. Para agora

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Publicado por jpt às 02:55 AM | Comentários (1)

Zuma

Portugal. Esperança

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Bem recentemente Zuma foi demitido de Vice-Presidente da África do Sul, devido a evidências de corrupção. Isto após um forte conflito com Thabo Mbeki, e apesar do apoio à sua postura populista e etnicista por parte do aparelho do partido ANC, do seu braço sindical (Cosatu), das secções de juventude e mulheres, bem como de parte da região Zulu de onde é originário e onde busca(ou) suporte "culturalista".

A queda de Zuma foi uma lufada de ar fresco. E principalmente para quem ache que a África do Sul pode ser o motor do desenvolvimento da África Austral. Não como país bom samaritano. Mas como potência económica e política com supremacia regional, portanto num processo em que o seu interesse nacional próprio pode [sublinhe-se o "pode"] coexistir com interesses desenvolvimentistas vizinhos.

Mas, e mais egoisticamente, a queda de Zuma é também exemplo refrescante. Porque num país de tamanha complexidade política e de tão recente democracia (apenas uma década) as instituições podem forçar tamanha derrota de um homem-forte do partido supra-maioritário. Se tal é possível não o será noutros contextos com menor complexidade socio-política? E alguma maior tradição democrática?

Publicado por jpt às 02:36 AM | Comentários (3)

Portugal. Sahel (para quê fotos?).

Publicado por jpt às 01:27 AM

agosto 05, 2005

O mundo.

Publicado por jpt às 09:04 AM

A lembrar coisa d'antes.

Publicado por jpt às 03:49 AM | Comentários (2)

Memorialismo

Eu Não Tenho Culpa
Eu Não Votei PS

Publicado por jpt às 01:13 AM | Comentários (11)

Blogs e Comunidade (2)

Haverá uma comunidade de bloguismo? Talvez não, acho que não. Um meio de comunicação e, acima de tudo, uma mania. Muito auto-centrada, porventura, muito auto-incensada decerto: fui a Portugal ao fim de quase um ano e nas investidas às livrarias lá percebi que os tão famosos blogolivros nem estão à vista. Portanto com muito menos peso (audiência) do que imagina.

Mas que é comunidade isso também me surge. Ou, mais do que tudo, que pode ser modo de (re)construir comunidade. O que Pacheco Pereira está a sumariar sobre

MICRO-CAUSAS:
PODE O GOVERNO SFF COLOCAR EM LINHA OS ESTUDOS SOBRE O AEROPORTO DA OTA PARA QUE NA SOCIEDADE PORTUGUESA SE VALORIZE MAIS A “BUSCA DE SOLUÇÕES” EM DETRIMENTO DA “ESPECULAÇÃO”?

é não só traços de uma hipotética "comunidade bloguística" mas também, e acima de tudo, passos de uma comunidade nacional. Acto a acto, tecla a tecla, no que dizem e reafirmam bloguistas vários, e de vários tons, procurando que a espuma do verão (e a liga da bola que ainda não começou) não afogue a preocupação com o país.

Aquele país Portugal que fenece. Às mãos de um governo indigente [veja-se como Luís Aguiar-Conraria desmonta o discurso do actual ministro da Economia, assim demonstrando que este [ou os seus assessores escribas] intelectualmente ou é indigente ou é desonesto]? Governo já de si sucessor de um outro tal e qual? Ou desmaia Portugal às mãos de um governo meramente desonesto, instrumento de (auto)interesses muito para aquém do bem-comum [como se pode perspectivar p. ex. aqui, aqui, aqui resumido]? Sucessor de um outro talvez tal e qual, que já nem lembramos o então ministro Nobre Guedes.

Vozes certas ou erradas, crentes em conspirações ou não, mas vozes (re?)construindo uma comunidade nacional. De gentes agentes, não de espectadores de futebol.

O país fenece. Mas lá há gente a dar trabalho a esses .... outros. [Dos quais, diga-se, nada seria de esperar senão isto.]


Publicado por jpt às 12:03 AM

agosto 04, 2005

Blogs e Comunidade

Já comparei o bloguismo aos velhos radioamadores. É-me uma imagem recorrente, o solitário no sotão, horas a fio agarrado ao aparelho, à escuta, a balbuciar, códigos ou não. Mas se a esses sempre imaginei como uma "comunidade" sempre discordei com a ideia de uma "comunidade bloguística", em particular com os componentes que lhe querem afirmar, declarados - uma "ética" própria (modus blogante), uma "amizade" comum construída num convívio - ou não - estes mais os tiques e maneirismos que se assumem.

Não sei bem o porquê desta distinção que faço. Talvez, e à falta de melhor ideia, pelo diferido da comunicação aqui. Da impossibilidade do socorro urgente. Ou (por enquanto) do calor do íntimo da voz. Ou talvez por outra via, por minha contraposição, por sentir essa afirmação de "comunidade" como produzindo o irritante e constante coro de inter-elogios bloguísticos ("magnífico texto", "excelente análise", "grande escritor", "belissimo poema", e tantos etcs, quasi-sempre aplicados às coisas mais corriqueiras, por vezes até indigentes). Como se tal comunhão comunitária se alimentasse e/ou germinasse apenas de superlativos.

Ou seja, isto do blog é-me (apenas) um meio de comunicação, em particular de catarse do fel. Não o vejo como construtor de qualquer algo. Mas o recente encerramento de blogs mais-que-favoritos, os do Luís Ene primeiro e o do Jcd agora, marcos da minha paisagem pessoal nisto de bloguices, leva-me a repensar tal noção. Em certa medida isto é mesmo uma comunidade, labirinto de clics por mim construído, algo nada recíproco (as simetrias de gostos são mais do que improváveis. E se os respectivos autores se encontrassem porventura não passariam de algumas gentilezas devidas aos bloguismos, com nada mais em comum. E talvez até antipatia pessoal.). O apagamento destas tabuletas dos meus blogocaminhos constrói-me um vazio, uma incomodidade in-blog, um esvaziamento do meu interesse, um "nadear" dos meus passos, algo que sinto agora como nada mais do que uma incomunidade. Essa presumindo, afinal, uma qualquer "comunidade" (apenas a do meu gosto e simpatia?) anterior.

Tantos outros blogs existem, tão bons ou até melhores. Mas estes eram os meus vizinhos, coisa de saudar ainda que mero "bom dia" no sair à rua. Sinto-me como se a aldeia se esvaziasse. Outros há? Tantos, mas a minha mesa da taberna está quase vazia. A conversa, já pouca.

Será isto o envelhecimento? O mundo barulha, mas nós já não.

Publicado por jpt às 09:41 PM | Comentários (11)

Rescaldo das férias lá no país

Pois aqui coloquei vários itens, desses que saltam à vista após quase um ano sem visitar a "santa terrinha". E interrompi o propósito, que há outras coisas para além do blog. Uma das irritaçãozinhas que me deixei esquecer regressa-me (até surpreendentemente) via o até agora insuspeito Food-I-Do. Não resisto, ei-la:

Portugal. Onde os velhos chanatos ou chinelos-de-meter-o-dedo são agora promovidos em "havaianas". Burguesotes.

Publicado por jpt às 09:15 PM | Comentários (2)

Vero Complexo

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ao Choupal...

Publicado por jpt às 05:28 PM | Comentários (2)

agosto 01, 2005

We cannot all be masters, nor all masters
Cannot be truly follow'd.

Publicado por jpt às 11:59 PM | Comentários (2)

Lamentável blogonotícia, a do fim do meu blog favorito, por uma série de razões das quais o arreigado sportinguismo era das menos importantes. O Jaquinzinhos é insubstituível.

Publicado por jpt às 11:49 PM

"In Britain it has been widely noted that Muslims originating from Pakistan in South Asia have in recent years stressed their Islamic identity, distancing themselves from a more neutral "South Asian" racial and cultural ascription, from a politically activist "black" self-labelling, and, most recently, from a nationalist identification as "Pakistanis". I wish to argue here that this apparent identity shift disguises a continuing tension between different dimensions of a complex cluster of personal identities. Islam, as "high culture" to be defended to all costs, cannot suppress popular cultural traditions rooted in the South Asia and Pakistani nationalist origins of immigrants and their descendents."

[Pnina Werbner, "Our Blood is Green: cricket, identity and social empowerment among British Pakistanis", Jeremy MacClancy (org.) Sport, Identity and Ethnicity, Oxford, Berg, 1996]

Publicado por jpt às 04:14 AM