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Ma-Schamba: Lynch (ainda) nos trópicos

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junho 06, 2005

Lynch (ainda) nos trópicos

Um velho texto lembrando um livro de cá. Coisa refeita, donde requentada (e até já posta num velho ma-schamba) nisto de andar a juntar tralha. Talvez com objectivo, talvez não.


LYNCH (AINDA) NOS TRÓPICOS


Há alguns meses participei numa missão internacional aqui decorrida, dessas sob bandeira multilateral, e por essa sendo claro que coisas do desenvolvimento e da política grande. Recebidos que foram os participantes, aqui reunidos à nossa escassa meia-dúzia de estrangeiros residentes, lá passámos um fim-de-semana de hotel no necessário, ainda que algo longo, “briefing”. Avançado foi então o escrutínio detalhado quanto baste, repito-me, da situação nacional, das expectativas, e dos objectivos propostos. E, claro, no nosso mais terra-a-terra, dos cuidados logísticos já tidos e dos ainda a ter em conta durante essa quinzena futura por todo o país. Guardado para o final, assim como se em modesta nota de rodapé, estava um aviso; os organizadores executivos, logísticos diz-se agora, anunciaram um conselho afirmado fundamental, numa perfeita subordinação ao nosso (mas talvez universal) “o seguro morreu de velho”.

Disseram-nos então que na hipótese de algum dos inúmeros veículos da missão se viesse a envolver num atropelamento essa equipa dever-se-ia afastar do local do acidente o mais depressa possível, dirigindo-se de seguida para a esquadra mais próxima, de molde a informar da triste ocorrência e, se possível, organizar o socorro aos acidentados. Este, frisou-se, é um mandamento para as missões na maioria dos países africanos, cuidados exigíveis devido aos perigos de linchamento popular em que os condutores, e até os passageiros, dos automóveis incorriam aquando dos atropelamentos. Perigos esses redobrados quando os acidentes envolviam crianças e ainda mais recorrentes nas regiões rurais, polvilhadas de gentes com diferentes hábitos rodoviários e também menor crença nas autoridades policiais e judiciais, até pela sua relativa ausência.

Ali entre nós, dita “comunidade internacional” no terreno, ao ouvir tais afirmações, ecoando preocupações que sei e sabia recorrentes nas missões em África, insurgi-me. Talvez, reconheço, porque então já mais do que enfastiado com o enciclopédico, por supra-minucioso, seminário dito “briefing”, coisas do meu mau-feitio até epidérmico. Então, senior residente e usando tom de voz apropriado a tal condição, questionei a veracidade dessas afirmações, salientando a ausência de dados efectivos sobre tais situações, uma realidade de óbvios conteúdos mitológicos, uma derivação da homogeneidade que se atribuía aos países africanos. No fundo, e isto já não o disse, um tão tardio reflexo do “horror” da “selva” africana e de seus habitantes, coisas até da literatura antiga, ainda que excelente. E assim continuei, até emocionado, e a isso presumo-o mais do que me lembro, sublinhando a escassez de ambulâncias no país, o que tanto reforça a importância do rápido acompanhamento dos feridos até aos hospitais e centros de saúde, em especial no exterior das áreas urbanas. Sim, ainda que consciente de assim se estar a violar a regra sagrada de serviços de saúde alhures, o de nunca tocar num acidentado. Mas nestes casos, nestes sítios, impõe-se a consciência da velha máxima, o óptimo é o maior inimigo do bom. Finalmente, e embalado à melodia das minhas palavras, lá culminei, demagogo, considerando surpreendente, para ali não dizer inadmissível, que uma missão internacional comportasse a possibilidade de tais comportamentos, disse-os mesmo, alheios a um humanismo mínimo.

Só depois, algum tempo passado fora da sala, refrescado no ar até fresco desse dia, e minorada a minha impaciência sempre chegada com as longas minudências alheias, me deixei a pensar sobre aquele meu ditirambo, então sabido ou sentido como desnecessariamente empolgado. Diante de mim convi, aquilo até parecia coisa de moçambicano, desagradado com tais imagens da sua gente em bocas estrangeiras. “Estou a moçambicanizar-me”, sorri-me como se desculpando-me a mim mesmo, um deslize apenas, ou a minha eterna mania da contradição, essa carreira abortada de advogado do diabo?

Enfim, lá se passou a dita missão, sem novidades de maior, e logo depois, lestos, se passaram os tais meses a que acima aludi. Nisto, ontem mesmo, uma segunda-feira matinal, telefonou-me um colega amigo, em aflição de abatimento, a solicitar ajuda, necessidade até mais psicológica do que outra qualquer, como empolar os meus préstimos de estrangeiro a alguém daqui mesmo? Pois, balbuciava-me ele ao telefone, tinha ele na véspera atropelado mortalmente um homem. Um azar, adivinhei-lhe eu quando a ele me juntei logo no breve possível, e apesar das suas hesitações, até incomodadas, pruridos de respeito, procurando evitar apelar à óbvia bebedeira bamboleante, distraída e errática do entretanto falecido. Pois se este já assim para quê referir-lhe as fragilidades finais?

Em pleno pátio da esquadra, onde me aprestara eu a acompanhá-lo depois da sua noite ali passada, narrou-me ele o episódio, catarse, e assim também caminho de calma. Na hora de jantar do domingo, o final de fim-de-semana, o regresso a casa no grande Maputo, interrompido pelo óbvio alheamento pedonal da sua vítima, pobre homem ali imediatamente falecido. Ouvi o seu susto, a sua dor, trauma mesmo, ainda para mais em jovem pela primeira vez em contacto com a morte, que há sempre uma primeira vez, até para isto, esta que para todos será a última vez. E, disse-mo e eu imagino-o, ali só diante dessa morte, assustado e até arrependido, neste arrependimento espontâneo do estar no sítio errado na hora errada como se houvesse padrão para este nosso andar, logo chamando socorros, ainda que sabendo-os tardios pelo já sem-vida alheio, foi nesse estado de desamparo que se viu abruptamente rodeado por uma pequena multidão exaltada, ali comparecida no após ocasião, lesta no tomar partido, sempre protegendo o mais fraco, agora decididamente mais fraco pois já morto, tal como imediata no julgar e actuar, logo pronta a executar a voz e a razão do povo, a morte do condutor, no fundo a lei da total reciprocidade, “mataste, morrerás”. Sorte, essa mão amiga do “às vezes”, nesse minuto de desamparo e desatino naquela avenida secundária passou um outro carro e, apesar do breu já noite, ali vingou o olhar cúmplice de automobilista e, compreendida a situação, esse para sempre anónimo arriscou a paragem para a salvadora boleia, arrancando o meu amigo da turba assassina, uma fuga directa até aquela esquadra de polícia onde me contou a história, entre a coca-cola e um simples almoço de sandes e fruta feito tardio mata-bicho.

Depois, algo depois, já resolvida a questão, no meu regresso a casa, não deixei de me recordar daquela minha acalorada intervenção, feito sábio empírico e moralista diante da então até atrapalhada missão. Palavras erróneas, como sempre o acalorado arrisca. E o moralista, claro está. E ali fui pensando, ainda que então de atenção redobrada ao volante, sobre estes Lynchs locais. Episódios os quais, e mesmo que sem leituras apressadas, me surgem como gritando este enorme abismo entre uma população desapossada e todos os seus patrícios que, pelo menos, partilham da benesse de uma viatura, sua propriedade ou não pouco importa, ela um extraordinário signo de distinção, algo que logo os torna diferentes do imenso mundo pedonal. Até mesmo oponentes. Assim gente de um outro mundo, gente culpada de imediato. Um rasgão neste mundo, ainda não uma cicatriz, mesmo uma chaga, a chaga não mediada, não desinfectada, de uma supra-estratificação.

Publicado por jpt às junho 6, 2005 06:40 PM

Comentários

Estas tuas estórias são intervalos a que me agarro com regalo. Mas isso já tu sabes, o quanto sou fã desta escrita, da forma como se escreve e do que conta. E é bom poder reencontrar estes teus textos, uns relidos outros lidos pela primeira vez (mais sorte ainda). Mas não vou desencalhar o rol de coisas que poderia dizer que … já tu sabes, que em tempos idos aqui já disse tanto sobre ela, sobre esta escrita, da forma como se escreve e do que conta. De ter sido o que por cá me fez ficar, até cá dentro já.

Quando termino estes textos tenho por hábito regressar ao seu início. Faço isso com tudo o que leio e que me sugira regresso. Acho que é gesto instintivo de quem procura uma marca para memorizar, para mais tarde se quiser poder voltar. E nestas leio sempre um “talvez com objectivo, talvez não”. E depois os embondeiros, e os sinais, e são já tantas as marcas Zé (?)

Publicado por: Eufigénio às junho 6, 2005 08:01 PM

estou a agradecer essas apenas mais umas palavras. ate breve

Publicado por: jpt às junho 7, 2005 12:02 PM