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junho 07, 2005
Longe do Niassa
Um velho texto, coisa de "roupa velha". E coisa entretanto refeita, donde requentada (e até já posta num velho ma-schamba) nisto de andar a juntar tralha. Talvez com objectivo, talvez não.
LONGE DO NIASSA
O Niassa é deslumbrante. É-me dogma dito assim, e já o pus por aí numas quaisquer tralhas escritas. A última província moçambicana que cheguei a conhecer, ali aterrado cheio de expectativas, todas elas tecidas durante anos de conversas no “ouvir dizer” sobre tais paragens, míticas para todos, terra por vezes símbolo do belo, noutras apenas do longínquo misterioso – e quanto de mistério há constantemente afirmado -, e quantas outras até do horror, e então bem merecidas. E em tantas delas afirmando somente o impossível, como se este tivesse terra própria. Confesso agora, no depois, todos esses olhares ainda que tão diferentes me parecem estar a olhar bem. Mas para mim fica-me o olhar deslumbrado, e quão difícil é o deslumbre em terra a que se chega já cheio de expectativas, quase sempre estas defraudadas num real nunca compatível com as memórias de uns e a imaginação própria. Terra essa que de tão mesmo até o seu defeito letal, esse de interior alheio ao oceano, resolveu de modo doméstico, construindo para seu próprio uso o mar necessário, guardando-o depois num entremontanhas a que chamou lago.
E vou ecoando todo este meu encanto sem lhe ter chegado à reserva natural, dizem-me que verdadeira reserva, floresta ainda, local inóspito assim protegido. Aí resistem flora e fauna únicas e ainda livres. O belo, dizem. Arrependido, num total superlativo, lembro-me de que a única vez que estive realmente próximo e com o algum tempo e dinheiro que me fizessem chegar ao até lá, precisaria de dois dias de estrada, pois a chuva deixara-se cair naquele seu modo dali. E, é claro, de mais dois dias para regressar. A somar aos que lá ansiava passar. Então pensei, reflecti e, como quase sempre, decidi mal, na crença de que me era quase impossível face a uns entretanto esquecidos compromissos, coisas do nada a que importamos. Prescindi, em suma, num utópico “fica para a próxima”.
Memórias que me vêm no lento acompanhar da discussão, ouvido nesta longínqua Nação, sobre o futuro da reserva e do quanto ela depende do mais turismo, esse ainda tão pouco, e assim a precisar de crescer. Pois urgem os fundos para a defender, acima de tudo desses terríveis e vorazes omnívoros, a praga humana. E à volta de todas as mesas, em todos os “power point”, surge a interrogação, como manter a reserva com a sua população residente, essas vinte mil pessoas no seu duro dia-a-dia de machambeiros itinerantes, aqui e ali caçadores quando tal é possível? Muitos, sobre estudos, anunciam a necessidade de deslocar toda essa gente. Como não concordar, como não crer na impossibilidade da preservação com as pessoas subsistindo por lá, naquele modo das queimadas e abates, nas costumeiras machambas e no fabrico do carvão vegetal, esse que se vê percorrer estradas infindas ajoujando as gingas sob os seus sacos? Já para não falar na caça e pesca, essa artesanal apesar de tudo menos devastadora do que as dos furtivos de armas de fogo, esses ilegais sempre ditos outros, e portanto aqui “tanzanianos”, e talvez sim com uma fronteira tão perto, e até “congoleses” ou “ruandeses”, gentes do tão longe aqui fazendo modo de continuar. E, um pouco ao contrário, como crer aqui na segurança das pessoas assim coabitando com as por vezes, e não tão poucas assim, erráticas “feras”?
Enfim, “reassentar”, esse eufemismo? E num país onde reassentar gentes é prática conhecida e não muito querida, dizem-no as memórias dos aldeamentos a la Vietname, aqui importados no pré-desespero português, e também tantas outras das aldeias comunais, aquando do país novo – ainda, e que me desculpem as certezas, ao andar por aí se vejam tantas delas continuadamente habitadas. Reassentar, esse eufemismo? As minhas costelas ecológicas, todas aquelas que não todo conformistas, dizem que sim, mas como fazê-lo assim perene? Perene é o positivo para o reassentado, senão ele há-de voltar, pode demorar, mas há-de voltar. Como assim, se tanto faltam os fundos, como tirar a gente da sua terra e torná-lo positivo? E depois, ainda que ecológico, resmunga-me qualquer coisa, imaginando gentes afastadas do seu chão, excepto aquelas prontas para o turismo que (talvez) aí venha, bocados da memória, rejuvenesço-me aqui sem o querer, eu miúdo de liceu a aprender sobre “enclosures”, gentes aliviadas da boa terra para apascentar o gado então, talvez agora o gado do turismo.
Fica então essa outra opção, manter a população em convívio com a vida selvagem, até preservando aquela para preservar esta, diz-se mesmo que enriquecendo aquela nesta irmandade. Muitos o propõem, e talvez sim, seria até óptimo (esse grande inimigo). Neste caso um óptimo belo, esse belo cujo actual sinónimo diz-se “integrado”. É só quando aqui chego, até mais satisfeito com o horizonte, tão mais resolvidas me parecem estar coisas da moral e do futuro, que me lembro, para mal do meu sossego, de uma já velha história que me contou um hoje ex-amigo, o qual a presenciou. Ei-la, partilho-a no talvez retire ela sossego a outrém por aqui passado.
Há alguns anos o então governador provincial visitou demoradamente a região da reserva, conduzindo uma campanha de sensibilização, procurando mobilizar as populações para as (tão complexas) questões da preservação da flora e fauna, apelando ao respeito e cuidado com o meio ambiente. E chamando a atenção para as possibilidades de enriquecimento, do bem-estar que o turismo ambiental virá trazer, e portanto dos benefícios que a população retirará se adoptar um maior respeito pelo meio. Certo dia, numa aldeia recôndita, realizou-se mais um encontro, até comício, com gente acorrendo de todas até distantes vizinhanças. Aí de novo discursou o governador, longa e entusiasticamente, no tal sentido da mobilização ecológica, no desenho das futuras benesses trazidas pelo turismo se todos respeitassem plantas e animais. No fim, após os aplausos devidos, levantou-se um velho, um desses velhos velhos mesmo, até já trôpego, pedindo licença para intervir, era uma questão que, com respeito, queria apresentar ao governador que da distantes Província até ali tinha vindo falar com a comunidade. E assim fez, perguntando para uma não-resposta:
“Excelência, quer ser governador de gente ou governador de leão?”.
Publicado por jpt às junho 7, 2005 12:47 AM