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Ma-Schamba: Europa: o populismo no poder

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junho 16, 2005

Europa: o populismo no poder

Na última década estive em algumas neo-democracias a trabalhar na realização de eleições, ou supervisor ou observador. E continua-me essa hipótese, com recentes propostas para partir para locais vertiginosamente atraentes (Congo, Afeganistão), cujas obrigatórias recusas me deixam uma enorme tristeza, a nostalgia do que não é possível fazer. E, também, um pouco da ilusória imagem da gaiola dourada, sei bem que mera ficção auto-engrandecedora. Mas que corrói. E envelhece.

É um trabalho que me é apaixonante. Não tanto pelo efectivo conteúdo das tarefas mas pela participação em momentos que são marcantes. E pelo real eco que as populações eleitoras têm a este tipo de missões, uma gigantesca recompensa pessoal - sim, sei que há muito céptico de sofá, mas nem vale a pena escutá-los, francamente nada mais que frustres onomatopeias.

Mas é também apaixonante devido a esta crença algo metafísica, e até teleológica, que me anima e a tantos outros. A de que o voto é um direito inalienável, é um fim e não um mero meio. E que da sua soma, da expressão da vontade maioritária, brota o melhor possível para as populações, para a sua existência quotidiana e para o seu desenvolvimento. Algo que recusa a superioridade apriorística da aristocracia, seja ela "a" aristocracia ou uma "moderna" elite política / educacional, no desenho do futuro. Ela(s) existe(m), demarca(m), mas carece(m) da legitimidade do sufrágio, portanto da negociação que este implica. É uma crença, mas é uma bonita crença. E no meu país aparenta ser super-maioritária. Tal como na pro-confederação a que ele pertence.

Vêm-me estas memórias a propósito do que tenho assistido, daqui de longe, sobre o processo da Constituição Europeia. Da negação dessa aparência. Ouço e leio estadistas e políticos (distinção até pouco subtil), ouço e leio colunistas e bloguistas, fazedores de opinão e pro-fazedores de opinião a esse respeito. A defenderem o adiamento dos processos referendários. Apenas porque o risco da derrota da sua proposta é elevado. E chantageando um abismo futuro face à ausência de opções - total a incompetência dos políticos que não têm opções ao caminho que propõem, e não é preciso ser nem historiador nem politólogo nem druida para o saber.

Isto é uma total contradição, acima de tudo uma total negação da democracia eleitoral. Não apenas da sua prática, mas também dos seus "princípios" - dessa crença acima grosseiramente sumarizada. O que se está a passar é anti-democrático e reinstalador de uma visão "aristocrática" do poder, dos direitos de uma "minoria esclarecida", os quais escondem sob o vácuo da expressão "política real". De certa forma, não é o primado de um "partido vanguarda" mas sim o de um primado de uma "coorporação política vanguarda". Negando os fundamentos da democracia representativa e da delegação de poderes. E, muito provavelmente, mas isso não podem eles perceber, minando a sua legitimidade - a ver iremos nos próximos anos. E não percebem isso, dirão até populista a quem assim pense, pois estão cegos e vorazes como os verdadeiros "partidos vanguarda" o foram.

Como corolário (mas não como fundamento, estamos no domínio da mercantilização do político, do publicismo, não de concepções estruturantes) deste reclamar de uma auto-iluminação, como retórica deste golpe de estado multinacional surge hoje a visão de que a expressão da vontade popular é uma doença. E que portanto a saúde só poderá ser mantida ou reposta por este corpo político.

A doença da recusa do caminho proposto. Disse-o hoje, escandalosamente, José Manuel Durão Barroso utilizando a palavra "contaminação" a propósito do risco de derrotas referendárias. Repete-o, lesto, Paulo Pedroso. Em suma, a ordem, a saúde, produzem-na eles. A doença está no povo transviado - egoísta, timorato, assustado. Em suma, irracional.

Este é o mais execrável dos populismos. Não o suado kaki da Venezuela, o racista do Zimbabwe, o wellesiano de Itália. Apenas morno, a surdina do fato e gravata azul. Mais perigoso e duradouro.

Em jeito de falsa adenda: há vários bloguistas portugueses, de auto-galões democráticos e de muito teclar político que desde logo alinharam neste trajecto. Em nome de uma superior racionalidade futura, do progresso (que palavra!) europeu.
Muito honestamente acho que nem pensam, é a maré populista que os encanta. Nada mais.

Em jeito de "declaração de interesse" como corre por aí: já o disse sobre tal assunto constitucional - não estou muito informado mas, e até por influências conjugais, votaria "sim".

Votaria, pois, e repito-me, a "ordem política" portuguesa atribuí dois tipos de cidadania política aos possuidores de nacionalidade portuguesa. Os residentes, cidadania completa, e os emigrantes, cidadania mitigada, com direito de voto confiscado. Já que tanto peroram sobre constituição, já que tanto apelam aos "constitucionalistas", não estará na hora de terminar esta aberração de princípios?

Publicado por jpt às junho 16, 2005 12:39 AM

Comentários

sobre a critica ao populismo e ao elogio do voto, não só de acordo como que aplaudo, pelo excelente texto. quanto à Europa, ao referendo, é uma questão de esquizofrenia política. como se o sentido de voto, seja qual for, corresse numa linha paralela ao que tem sido a prática das diferentes comunidades dos países que integram a UE. práticas também ela sufragadas pelo voto.

Publicado por: jpn às junho 21, 2005 02:45 PM