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maio 20, 2005
Pipis e pilinhas (meu comentário no quase em português)
Até aqui de longe, sem saber do que se tratava, logo me cheirou a esturro sacrista o alarido vs a perfídia insana da pedagogia sexual em Portugal. O mofo sente-se, e não há naftalina que lhe valha. Escrevi aí em baixo algo superficial. E também no Quase em Português. Foi lá que agora vejo a ligação a um texto do Diário de Notícias que apenas torna óbvio o mais que óbvio.
Mas como a matéria causou textos e comentários no Quase em Português, ali também a propósito de um texto no A Natureza do Mal ainda lá botei escritadura a propósito. Aqui a reproduzo, uma botadura no estilo (mais) descuidado dos comentários, e que também dialoga com alguns (poucos) comentários aqui recebidos.
"Bem, eu não sou adepto da carreira "professor de ensino secundário, disciplina Educação Sexual". Ainda para mais na variante mini-concurso (ainda há isso?). Mais, não conheço a polémica que aí vai sobre o assunto, apenas alguns ecos blogosféricos, e uma imagem no Acidental. Estou a escrever um bocado no ar, reconheço.
Mas o que me levou a isso foi o imediato repúdio aquando de uma tentativa de ensino sexual escolar. Isto é um absurdo. Tem vários pontos em discussão e não tenho grande apetência/saber para me envolver nisso. Mas já que cheguei até aqui:
1. o que quis dizer nesta caixa de comentários é que o texto que referes [o do A Natureza do Mal] tem pontos muito interessantes (o radical individualismo da sexualidade - permito-me dizer que isto advém da sacralização / tabuização da sexualidade; ela surge como O Domínio irredutível, o resto não. Não concordo, mas isso é mera opinião pessoal). E suporta-se numa falácia, a que evoquei - a de que a sexualidade é o natural, de que há 100 000 anos que é assim, uma descoberta/aprendizagem/"aventura"(?) pessoal. Isso não corresponde minimamente à verdade, e é meramente um "eurocristocentrismo" (grande palavrão) e mesmo assim selectivo. A esmagadora maioria [aqui no Ma-Schamba eu preferiria ter escrito "grande número"] das sociedades históricas têm ritos de iniciação em que abordam (não exclusivamente) sexualidade (e afectividade) e onde os mais velhos ensinam (socializam) os mais novos. Não é assim tão estranho, não é assim tão grave. A moral cristã não encara isso, ok. Mas não venham falar do paleolítico - fiz-me entender?
E partindo daqui não me parece necessário estar a contrariar os argumentos individualistas da Sara [Monteiro], o instinto etc. Não concordo, e não lhe vejo particulares fundamentos (poéticos talvez). Para mais, e tal como comentários que tenho no ma-schamba, tudo isso pressupõe e afirma a quase-universalidade de uma sexualidade sábia [em Portugal](para não dizer feliz ou completa, termos poluentes), as pessoas aprendem livres e ficam a saber - ora isso surpreende-me, não sabia que era assim, não sabia que havia tanta sabedoria, assumpção, completude, realização sexual de geração em geração. Até acredito que assim seja (!????!!!) mas poder-me-ão indicar as fontes dessas certezas, os estudos - é só para confirmar que não são apenas opiniões pessoais, sem fundamento empírico.
Finalmente, e ainda que algo lateral, quando se fala de aborto (e já escrevi para ai 20 textos contra o aborto, chega) sempre me aparecem os adversários do liberalização da lei e os seus defensores a argumentarem com a necessidade de melhorar a educação sexual - e agora ai, ai... [o termo é diferente, planeamento familiar é diferente de educação sexual e há uma perversa tendência para misturar ambos].
Eu insisto, porque raio se outros o ensinam nós não o podemos ensinar, e parece até anti-natura (violador do "eu", até)? E insisto, se se ensina a fotossintese porque raio não se ensina a sexualidade? Hierarquia de valores, nada mais."
Adenda: Caro António Torres, como disse estou a escrever um pouco no ar. Agradeço-lhe o comentário com o qual concordo. Apenas lhe acrescentaria também o temor pelo "exagero e o experimentalismo de mentes avançadas, sobre crianças que são [seus] filhos", pobres filhos - ou talvez não, porque "casa de ferreiro, espeto de pau"; e neste caso felizmente.
Publicado por jpt às maio 20, 2005 06:30 PM
Comentários
Caro José Flávio,
O Expresso do último sábado trazia um artigo que fez ocorrer duas coisas que convirá separarem-se.
Uma, a inicial, foi levantar-se uma indignação pelos conteúdos que qualquer pessoa normal acha desadequados à boa formação infantil.
Ensinar a masturbação no pré escolar, e como se faz "sexo oral" às crianças de 9 a 12 anos, não me parece ser uma questão essencial na educação sexual, e parece-me ser mesmo perigosa para uma correcta formação.
É disto que trata a reclamação por mim (também) levantada no domingo, quando li o artigo e escrevi um post.
Depois, veio a Associação Fórum da Família, (acho que é assim) que lançou uma petição na net, que além de exigir que sejam analisados os conteúdos desses manuais, o que acho correcto, adianta uma série de exigências revanchistas e disparates do género, com os quais evidentemente não posso concordar.
De qualquer forma, e embora a petição inclua esta segunda parte com a qual não concordo, assinei-a, porque é preciso fazer qualquer coisa que leve o Estado a pensar no assunto.
Apenas porque não acho adequado o tipo de ensino que se está a fazer, introduzindo a crianças do pré escolar e a outras com 9 anos, temas sobre sexualidade que dificilmente serão apreendidos com a ideia correcta e que não me parece serem tendentes a uma formação equilibrada.
Não tanto pelo que se diz, embora muitas partes sejam desajeitadas, mas pela forma que até é ofensiva para as crianças.
Pedir aos miudos que desenhem o seu corpo e que pintem as "zonas que gostam de ser tocadas", para mim, passa a fronteira do sensato e cheira-me a algo mais obscuro.
As regras dizem que o professor pode recolher esses desenhos e ficar com eles.
E, note-se bem, estas aulas estão a ser ministradas na maior parte dos casos, por voluntários daquela associação promotora.
Preocupa-me, entre outras coisas, eventuais afloramentos pedófilos.
Claro que, enquanto o clamor "contra" começa a ter a interferência de sectores reaccionários, o clamor "pró" vem das áreas progressistas, nomeadamente Bloquistas.
São estes disparates que contribuem para o obscurantismo.
Não é a educação sexual que está em causa, naturalmente.
É o exagero e o experimentalismo de mentes avançadas, sobre crianças que são filhos dos outros.
Abraço.
Publicado por: Antonio Torres às maio 20, 2005 07:36 PM
Tenho dois filhos normalíssimos, um com 14 e outro que vai fazer 16 e que nunca precisaram do manual que trouxeram da escola para nada. Há anos que sabem o que é sexo anal e sexo oral. Vêm televisão, conversam com os pais, os pais conversam com eles, perguntam, comentam quando a colega de 13 anos engravida e falam de preservativos como quem fala de chiclete. Acho que o problema se coloca com famílias mais fechadas. Não pensem erradamente que sou ultra-liberal mas mais uma vez, acho que se existir comunicação em casa, a questão dos manuais nem se coloca. Antes de terem acesso aos manuais a que, digo-vos, não ligam pêvea, já tiveram há muito acesso a informação na net e na televisão
Publicado por: nuno ferreira às maio 20, 2005 10:26 PM
Caro JPT,
Nem sei por onde começar. É verdade que quando disse que não é preciso explicar nada às crianças, estava a reagir exactamente àquio que li. Adultos a explicarem a crianças pequenas onde são as zonas erógenas parece-me... esquisito, para dizer o mínimo.
As crianças, a seu devido tempo, saberão encontrá-las e aproveitá-las.Alguém tem alguma dúvida sobre isso? Era só o que faltava que fosse um adulto a vir dizer-lhes, o que é que eles têm a ver com isso? Não lhes chega as deles?
Já no Lutz deixei um comentário dizendo que nem eu, nem as minhas amigas, nem as amigas das amigas que conhecíamos, precisaram dos pais ou dos professores para coisa alguma, pelo contrário só atrapalhavam. Embaraçava-nos pensar que eles nos poderiam dar alguma informação nesse sentido. Quando foi a minha vez (eu mãe de duas filhas e um filho), muito antes de me ocorrer dizer-lhes alguma coisa, uma das minhas filhas (teria seis anos? sete?)veio ter comigo e casualmente contou-me uma história cheia de gestos e palavras coloridas. Fiquei informada.
Mas também não concordo com a histeria proibindo toda e qualquer educação sexual. Neste, como noutros assuntos, sinto que talvez seja melhor remeter-me a um silêncio... poético, para utilizar a expressão um pouco sobranceira que usou.
Publicado por: sara monteiro às maio 20, 2005 10:28 PM
Como já disse, via adenda, concordo com o AT e, naturalmente, com os seguintes comentários. Não refiro um véu de ignorância. Mas surpreende-me a opinião do total esclarecimento, via aprendizagem - porque ao longo dos anos vai-se ouvindo o contrário, do desconhecimento. Mas enfim, não sou especialista, nem vale a pena insistir. [eu julgava que havia imensos problemas de sexualidade em Portugal e alhures, imensos sexólogos, imensos terapeutas e etc. Mas devo estar enganado ou a misturar coisas]
Mas alguns pontos, o argumento tipo "os meus filhos"/"eu"/"a minha geração" não tem grande validade - quantos pais iriam aparecer aqui a dizer que nada disseram e que os filhos não sabem? É o discurso afunilado, legítimo mas que não dá visão de conjunto.
Discordo de si, Sara Monteiro, não houve nada de displicente no "poético" - referia uma concepção que vê a sexualidade como algo estritamente individual, uma "descoberta", eu coloquei mesmo um "aventura". E que a vê como globalmente satisfatória - eu acho que é uma visão a-social das coisas, não ilegítima, não errada. Mas cujos fundamentos (chamei fontes) são de cariz impressionista, chamei-lhe poético (concordo e lamento na perversão semântica, habituámo-nos a dar mau sentido a poético, um triste positivismo. mas não foi o caso em que o usei, lamento se assim o compreendeu. E lamento a perversão recorrente de "poético")
Dois pontos: um re-re-reinsisto, espanta-me o discurso imediato que afirma como absurda a educação sexual quanto tantas outras sociedades a fazem, sem esmagar a individualidade. É o que chamo de naturalizar (legitimar irredutivelmente) o "eu", o "nosso" (em especial a tal historieta dos 100 000 anos que o Lutz ecoava)
Outra reinsistência, cada vez que se fala de liberalização da lei do aborto lá vem o discurso da educação sexual (os que são contra, os que são a favor de nova legislação). Mas depois quando a sua chegada surge é-se contra.
Um outro ponto meto como post. E tem a ver com a incompreensão de como tudo isto é conjuntural.
Publicado por: jpt às maio 21, 2005 10:28 AM
Mas esclareça-me: só Portugal, porque não tem um programa de jeito de educação sexual, é que tem problemas de sexualidade e anda enrolado com terapeutas? Os outros países, as outras culturas têm os seus problemas sexuais resolvidos?
Além disso nós não temos apenas problemas sexuais: temos também afectivos, sociais, psicológicos, etc, etc. É só aqui? Os outros não?
Às vezes, ao lê-lo, parece que Potugal é o país da desgraça absoluta.
Afinal lá voltei do meu silêncio poético, que não era o que eu pensava, mas que também se fosse não fazia grande mal:)
Bom fim de semana!
Publicado por: sara monteiro às maio 21, 2005 12:19 PM
isso já é desconversa...e para não deixar assim, pois à desconversa em princípio não se responde: vivo há alguns anos num país onde há formas (várias e diferentes) institucionalizadas e publicas de educação sexual - não as mitifico, não as optimizo. Apenas as reconheço. E delas nunca ouvi retirar as desgraçse e potenciais crimes que por aí se afirmam. O sítio é difente, mas a comparação permite-me dizer da não-obrigatoriedade do que se passa ou teme aí. Apneas
Apenas
Quanto ao resto, ao que quer retirar e atirar é mesmo desconversa. Inútil
Publicado por: jpt às maio 21, 2005 03:57 PM
Peço desculpa se desconversei ou o aborreci no seu blogue.
Publicado por: sara monteiro às maio 21, 2005 08:54 PM
não se trata de aborrecimento, mas de espanto...onde é que encontrou a afirmação de uma especificidade portuguesa, de um lamento nacional? o que fui pondo aqui e ali era exactamente o contário. e, repito, foi um salto para um registo excêntrico. mas também daí às desculpas vai um abismo, susceptível sim mas nem tanto
Publicado por: jpt às maio 21, 2005 09:17 PM
é que de repente lembrei-me dos primeiros comentários que aqui troquei consigo em que você lamentava este "pobre país" ou algo de semelhante. Por alguma excêntrica associação de ideias, esta conversa de agora recordou-me essas primeiras conversas. Foi apenas isso. Além do mais, às vezes compreendo-o mal, admito. Mas nada disso me impede de tentar.
Publicado por: sara monteiro às maio 21, 2005 09:36 PM
nem eu próprio me vou compreendendo, que isto vai muito consoante os humores. mas também vou tentando.
Já agora, e sem ter nada a ver com o texto acima.
Eu acho que Portugal é um rico país, e que está muito melhor do que há uns anos. Esta é a tese. Inabalável. Dogma. Teorema.
Eu acho que Portugal é um pobre país? Também, porque podia estar bem melhor se não fossem ... (aqui depende dos humores).
Mas também poderia estar pior.
Também reconheço uma coisa. Daqui de longe isso parece pior do que é. Ou pelo menos espero que seja só parecer.
Até breve
Publicado por: jpt às maio 21, 2005 09:43 PM