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Ma-Schamba: diários?

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maio 07, 2005

diários?

Há bloguistas cujas afirmações, pela verve e pelo conteúdo, se impõem. Rápidamente. On Abrupto muito se falou, mas a seu propósito retiro uma frase de um texto que logo foi considerado “o post do ano” em Portugal: "...um web log, sucessor civilizacional dos diários,..." (no Fora do Mundo).

Olho-a bem e tenho dois caminhos para a entender. Ou significa que os blogs são os diários de ontem. Ou significa que a civilização de hoje não é de ontem (o ontem é o Pré-Blog) [a Era do Público/Privado Conjugados?].

Ora, em tempos muito leitor de blogs, em nenhum lado encontrei sucedâneo de diários. Daí que de uma frase destas (ainda para mais “...do ano”) só posso retirar a mudança, transição, de civilizações. É mais uma surpresa, ao perceber tamanha mudança civilizacional no meu país. Emigrado, deparo-me assim porventura noutra civilização. Cá de longe anseio por descrição, analítica ou etnográfica, do novo contexto. E angustio-me, longínquo.

****

Os blogs não são diários. Já abaixo o deixei cair. Muito se fala (ou sub-fala) do desejo mas ninguém fala de (narra) sexo. Do próprio (e até do alheio). Nova civilização assexuada? Muito se fala de amor mas (quase) ninguém fala dos (narra os) seus amores e desamores. Nova civilização a-conjugal/namoradeira? Muito se fala de actividades mas nada sobre o respectivo trabalho (alguns professores e investigadores afloram temáticas relativas a ...; mas de trabalho trabalho só vejo o Aguiar-Conraria falar). Nova civilização do lazer? Muito se fala de crianças (coitadinhas, tão belas) mas (quase) nada sobre castigos, tipos educação e problemas tidos (há alguns blogs, há alguns blogs...). Nova civilização a-pater/maternal? Muito se fala de família, mas nada sobre primos, desavenças e partilhas. Muito se fala da política de saúde mas nada sobre respectivas maleitas e mortes. Nova civilização saudável e pro-imortal? Muito se fala sobre religião mas tão pouco sobre (veros) pecados próprios. Nova civilização de pecadilhos? Muito se fala sobre política e tanto sobre política. Nova civilização política? Muito se fala sobre o etc. mas tão pouco sobre o etc.

Mas o mais interessante, e menos diarístico, é que se os temas (alguns) vão sendo ali e aqui aflorados, em lado nenhum eles surgem conjugados, transversais. Em cada blog há uma relativa especialização (o Ma-Schamba que começou por parecer um blog em Moçambique é hoje o mero relato de um sportinguista). Haverá vidas (diaristicáveis) especializadas?

Sucedâneo de diários? Sucedâneo de diário de bordo, sim! O registo para outrém ler, autoridade ou proprietário. Sucedâneo de texto publicitável, sucedâneo de texto a controlar, texto de controle. Esconder isso, atribuir um carácter privado à origem arqueológica do bloguismo, é treslê-lo e afirmar-lhe a falsa expressão de um "eu", exigir-lhe um "eu" de eu. Aqui não há "eu", há "eu" auto-proclamado, para controle alheio, procurando legitimação própria.

Ou a civilização mudou muito, ou isto é mesmo "...um conjunto de dispositivos onde se processam expressões..." (Miniscente), onde para além de agendas (militâncias) próprias o que se sobrepõe como maior expressão é a publicitação de uma (auto?)imagem pessoal, a ego-militância. Não um esforço de auto-reflexão e memorialismo (este a dissecar) mas uma propaganda do eu, imediata. Nova civilização de espelhos mágicos?

***

JMF (que interrompeu o meu êxtase sportinguista) vem dizer que o que escrevemos é mera merda (justiça seja feita ele escreve de forma mais educada "puro lixo, desinteressante, sem história").

Pois. Concordo. Lembro ler alguém (A. O'Neill??) dizer que escrever um diário é como alguém que se assoa e depois olha para o lenço. Se ainda por cima se selecciona a ranhoca e se emolduram ("postam") os lenços usados, de que estamos à espera? Nem para húmus serve. Assim fazendo definhar tanta machamba.

Publicado por jpt às maio 7, 2005 04:12 PM

Comentários

http://www.queirosidades.blog.com/

Publicado por: Fradique às maio 7, 2005 05:14 PM

ok, ó mendes

Publicado por: jpt às maio 7, 2005 05:22 PM

Estava a ler este teu post e a pensar. Este tipo ta enganado. O meu blogue e mesmo um diario. Falo do meu dia a dia, dos meus amigos, do que faco, das minhas viagens, etc. Os meus estados de alma sao cristalinos.

Depois apercebo-me que abriste uma ligeira excepcao em relacao ao meu blogue e concordei um pouco mais contigo. Claro que tens razao nalgumas coisas. Nao falo de sexo por exemplo. Mas nao me parece que seja obrigatorio. Vem-me a cabeca dois diaristas que tambem nao abordam, pelo menos explicitamente, esse tema: Miguel Torga e Cristovao de Aguiar. Penso que Saramago, no seus Cadernos de Lanzarote, tambem nao se tera referido a sua vida sexual (posso estar enganado pois nao tive paciencia para ler mais do que um caderno).

Publicado por: L. Aguiar-Conraria às maio 7, 2005 05:35 PM

Meu caro, creio que devo estar enganado. Em absoluto (ainda para mais com a quantidade de blogs que existem quem pode falar sobre o global?). O texto, em especial os seus exemplos, saíu muito maximalista. Mas deduzo com retórica de indução. Honestamente o que me interessa(ria) saber é de onde vem a retórica do diário - a qual é uma falácia. E dantes chamar-se-ia "ideológica". E aparece também como "utópica" (a tal fusão de público e privado).

Quanto a sexo, meu caro, não é importante. Um diário não o exige (já agora não o proíbe - ele não surge quando o diário é pensado como público, em contextos individuais de moralismo repressor). O Torga, ok, nunca lá vi nada. O saramago li um pouco mas não é um diário, é uma agenda de homenagens. O Aguiar nunca li. Mas, repara, é tão importante incluir o sexo como outro qualquer item que referi (em particular os etcs) - não há um bloguista cujo primo/irmão o tenha prejudicado na partilha das pratas e colchas da avó? que venha escrever isto?
Em suma, protestar porque alguém não produz um eu eu num blog é absurdo. (Honestamente alguém acredita que eu seja tão maluquinho pelo Sporting como o sou aqui? - só o Gil do Xicuembo é que o escreveu, mas espero que outros o tenham percebido)

Publicado por: jpt às maio 7, 2005 05:55 PM

"O saramago li um pouco mas não é um diário, é uma agenda de homenagens."

Eh eh. Exactamente.

Concordo no que dizes em relacao ao sexo. Tao importante como qualquer outro tema. Referi-e a este assunto em concreto porque penso ser o unico dos pontos que referiste em que nao tenho pejo em enfiar a carapuca.

Publicado por: L. Aguiar-Conraria às maio 7, 2005 06:10 PM

então desculpar-me-ás a falta de atenção, passou-me o post sobre as tuas zangas familiares...

Publicado por: jpt às maio 7, 2005 06:15 PM

Nao te tera passado o post, mas sim os comentarios...

Mas quando disse que nao enfiava a carapuca nao me referia propriamente em ralacao aos assuntos que ja abordei. Afinal o meu blogue nem um ano tem, pelo que e impossivel ter falado de todos os assuntos que referes. Zangas familiares quando estou nos EUA com toda a familia em Portugal nao ha muitas, naturalmente.

Quando disse que nao enfiava a carapuca era no sentido de nao ter problemas em falar nesses temas, com cuidado naturalmente, mesmo que ainda neles nao tenha falado. Quanto a minha vida sexual e realmente um assunto tabu. Nunca falei e nao vou falar. Por isso te dei razao nesse ponto.

Publicado por: L. Aguiar-Conraria às maio 7, 2005 06:23 PM

claro que ironizava. e como hás-de calcular, aqui longe em Moçambique, também se reduz o perigo da tensão familiar (não elementar). Ainda que ...
Quanto à vida sexual idem. Mesmo na vertente da sobranceira publicitação da sua inexistência. Abraço

Publicado por: jpt às maio 7, 2005 06:28 PM

Claro que a tirada do Pedro Mexia é uma daquelas, que, por serem sonantes, contam com e dependem da desatenção ou da boa vontade do leitor para que este exclui os muitos significados falaciosos do seu entendimento.

Mas tens uma definição muito restrito de diário: Diário é só aquele caderno ao qual se confessa o inconfessável? Se de todo pensado para uma eventual publicação, essa seria após a morte, ou até apos a morte de todas as pessoas nele mencionados?

Há diários que foram pensados para o público e mesmo assim são francos em todos estes aspectos que referes. O mais famoso é o diário de Samuel Pepys. http://www.pepysdiary.com/

Oiço no teu lamento uma grande insatisfacção com este meio, como se lhe exigisses a ser o que o Pedro Mexia aparentemente postula e que evidentemente não é e não pode ser.
Ninguém, que tem relações humanas vitais pode dar-se ao luxo de tornar público a sua verdade íntima, ou até semi-íntima/familiar, sem o maior prejuizo para essas mesmas relações. (Quando muito, sob anonimato, e mesmo aqui possivelmente só sob algum disfarçe.)

Todos criámos personagens autores de blogue. conscientemente, ou de forma mais acidental, descobrindo depois de uns meses que quem fala não é o eu mas alguém mais parecido com o eu idealizado. É inevitável.
Não sei se num diário pessoal e sem destino de publicação isso também o seria: nunca escrevi um. Mas provavelmente não.

Publicado por: Lutz às maio 7, 2005 07:26 PM

O Quase em Portugues também beneficia de estar escrito numa língua, que boa parte da família - excepto a nuclear, naturalmente - não entende. Mas como é óbvio, já a existência da família nuclear é um forte incentivo a auto-censura. E não creio que é um acaso que a minha mulher, apesar da minha discrição, por princípio não lê o blogue...

Publicado por: Lutz às maio 7, 2005 07:30 PM

Lutz, na minha primeira resposta ao A-C já disse dos óbvios limites do texto (e presumo outros não óbvios). Talvez reescrito fique mais explícito e menos criticável, não sei. Mas não acho que um diário seja um depósito do inconfessável (bem, e não me vou por a discutir o que é o "incofessável"). O que eu acho (leio) é que em lado nenhum vejo algo inconfessável - estás a ver a grande diferença. E que num diário (intimista, como são os "diários" em geral) este inconfessável pode surgir, atenção "pode". Daí que ache que na ausência de "inconfessável" (para utilizar a tua palavra) tudo isto é pose pública - não lhe vendo defeito nisso, e citando o Luís Carmelo que o conceptualiza (peço-te desculpa mas Pepys não foi bloguista). E nesse sentido vejo pouco como se pode exigir ou proclamar a produção/demonstração de um vero "eu" (quanto muito haverá uma denotação, mas muito interpretável).

Depois, e a culpa só poderá ser minha, a do traço grosso (tecla grossa?), não me terás percebido bem. Não lamento que assim seja, não posso pedir que as pessoas venham para a praça pública desvendar o seu quotidiano e âmago (aliás nem visitaria um tipo a falar da sua vidinha, a não ser por inicial curiosidade). O que eu digo é que sem este intimismo (mais ou menos quotidiano) não há um verdadeiro diário, o meu confronto comigo mesmo - isto é um termo absoluto pouco relevante, o O'Neill (o nosso) dizia para ñão escrevermos sobre a vidinha, o Mann elencava as refeições (Dizem, nunca lhe li o diário). Mas isto pouco representa, decerto que naõ anda aqui nenhum Mann nem nunca encontrei um O´Neill. Deste modo tens razão, concordo, é o que eu digo, a publicitação de algo (tu chamas personagem, eu não iria a tanto, aqui no ma-schamba há uma versão do Jpt). Ou seja, é mesmo um diário de bordo, para consumo alheio, para legitimação própria, para controle público (a opinião alheia como administração naval, como armador, como Almirantado)

Não retiro disto nenhum desencanto. Nem quero que seja diferente. Chateiam-me algumas retóricas (já o disse a propósito do meu "bloguismo glabro" - que não era para ti), mas isso é o meu gosto. E irrita-me este estipular de uma obrigação de produzir um "eu" bloguístico que seja pessoal - porque é mera ideologia (palavra fora de moda, mas que cabe num comentário).

Publicado por: jpt às maio 7, 2005 08:55 PM

ah, a minha mulher também (já) cá não vem. conhece-me o suficiente para achar isto desinteressante. e tem muito fraca opinião da bloguice (aliás um post "auto-complacência" foi nela inspirado)

Publicado por: jpt às maio 7, 2005 08:59 PM

O JMF do Terras do Nunca tem um blog digamos, minimamente interessante e é tudo. Mas depois, vive e alimenta-se de atacar e contra-atacar x e y, faz uma ou outra consideração sobre um disco ou sobre o futebol ou sobre política nacional. Quando a coisa está a morrer, ataca mais um e contra-ataca quando é atacado. Com a particularidade de, não tendo comentários, se resguardar. Presumo que ele acha que detem um blog de qualidade porque não se inclui no "lixo". É deixá-lo, lá no lugar dele. Pessoalmente, penso que se pode encontrar de tudo na blogosfera e dentro de cada blog, existem momentos mais felizes e menos interessantes. Sem o Ma-Schamba nunca teria, por exemplo, conhecido a fotografia de Ricardo Rangel e agradeço a este blog partilhar a cultura e a vivência moçambicana com os outros. Igualmente, existem muitos blogs, fora daquele circuito idiota de pseudo referência em que vive o JMF, onde, quais gaivotas, podemos ir debicar uma coisa ali e debicar outra coisa acolá. Não acho nada positivo é manter-se um blog que vive, fechado ao exterior, sem comentários, a alimentar-se da controvéria em relação a uns quantos demais, eleitos por ele.
A blogosfera é vasta, democrática, aberta a todos e para todos. Em minha casa, cada um tem o seu blog. Abaixo os blogs que vivem em ping-pong uns com os outros e não criam nada de interessante. Todos os dias descubro um ou dois blogs que não conhecia e interessantes. Viva a blogosfera alternativa e desenquadrada, viva os blogs que estão a nascer neste preciso momento!

Publicado por: nuno ferreira às maio 7, 2005 09:18 PM

ó nuno ferreira, pela parte que me toca obrigado (pela atenção ao rangel e porque o ma-schamba já nasceu 3 vezes) abraço

Publicado por: jpt às maio 7, 2005 09:26 PM

Depois de pensar um pouco, de reler o texto e os comentarios, gostaria de dizer que no essencial concordo com JPT.

Publicado por: L. Aguiar-Conraria às maio 8, 2005 02:02 AM

JPT,
primeiro peço desculpa pela "sloppyness" do eu comentário, não foi muito claro. Também não julgo que achavas possível, necessário ou só desejável que o blogue deve exibir a vidinha.
E, no que diz ao P.Mexia, tens toda a razão se realças o facto de que a sua "pessoalidade", a "intimidade" é completamente postiça, e assim muito discutível se utilizada como contraste à alegada impessoalidade do Abrupto.
Embora acho que ele tem aqui um ponto. No Abrupto encontro textos interessantes, mas o JPP não me diz nada. Não sinto que se me dirige, ao contrário do Pedro Mexia, que me linka tão pouco como o primeiro.
O que me repugna? - sim: repugna no Abrupto são exactamente as partes pessoais, a maioria dos poemas, os horriveis quadros, que me parecem tão estéreis, como se fossem lá colocados como mera embalagem, decoração do que interessa. (Não incluo aqui as imagens da astronomia, que reconheço como algo genuino).
Aqui prefiro um Vital Moreira que fala da política e pronto.

(Obviamente o JPP fara´o blogue que bem entender, não é essa a questão.)

Publicado por: Lutz às maio 8, 2005 02:47 AM

L.A-C a agradecer. Não tanto a concordância, mas a paciência de ler e reler. E até porque o texto não terá sido muito feliz, explícito - mas também isto não é uma tese, escrever e reescrever. Abraço.
Lutz, como dizes, "obviamente...não é essa a questão". O Abrupto não é o meu blog favorito. Mas não é sobre ele que escrevi, é sobre o sobre o Abrupto. Bom domingo a ambos, aqui malvadamente enublado

Publicado por: jpt às maio 8, 2005 10:40 AM