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maio 04, 2005
Da irritação com a "Elisão"
[Bocado de texto há muito prometido no Quase em Português]
Nada me irrita tanto no bloguismo como as pilhas de posts retratando ou analisando as namoradas da América, discursos orlando o Desejo, a Libido, a Elisão, o Belo, o Perfeito, o Contorno, o Insondável, o Intangível e outras Iniciais. Ainda há pouco tempo soavam teclas e teclas sobre se sim ou não uma quatorzinha pode ser desejável ("pode" no Ser, "pode" no Dever Ser). Em tanta blogosemiologice há mesmo só uma coisa, um desapego às pessoas como sinal de distinção (erudição?) [como excepção, um pouco lateral pois não pró-semiológica, o Paulo Querido que um dia se apaixonou e nos chateou a todos com o romance. Aleluia, um bloguista que se distingue, estrategicamente ou não, desta forma.], um absoluto ethos burguês que nem se auto-questiona (aprecie-se o estrangeirismo, sff, também ele prestigiante).
Pois, com possível excepção dos pornógrafos (para os quais não tenho erecção, perdão, atenção), ninguém fala, com a tal "profundidade", sobre a Celeste do escritório, a D. Arminda, quarentona bojuda do banco do bairro, a aluna Mariazinha, a Natasha caixa do supermercado, a colega não sei quantas, e todos os etcs que imaginarem. Ou mesmo sobre os respectivos parceiros.
[Nota: é óbvio que a minha amostra é limitada. E tiro desta tirada os blogs causa-gay, pois não frequento. Mas muito me surpreenderia que estes fossem diferentes, não imagino que aí as estratégias de prestígio sejam diferentes]
Certo que também não me ponho aqui a dissertar sobre o que o meu rabo do olho perscruta ou narrando algumas conversas, inóquas frise-se, mais arrastadas. Não só porque, como se mostra acima, falar publicamente de mulheres é muito povo, deslustra o status pois claro. Mas também porque cá em casa está uma senhora. A qual um dia, imagine-se, poderá vir até ao Ma-Schamba [ainda que ache que ela se incomodaria menos com um texto sobre as possibilidades tacteis das mamas de uma Yvette qualquer do que discursos sobre a simbologia dos seios [silicónicos, claro] de uma ex-capa de calendário hoje muito em voga].
Mas para que não se diga que não gosto de cinema, e dos seus "imaginários" (a distinção, de novo) aqui deixo, sem elisões e sem ironias, uma rapariga cheia de Iniciais, e que aparenta (nada sabemos para além das aparências, diziam alguns filósofos) ser engraçada. Ou seja, valer a pena no Tangível

Publicado por jpt às maio 4, 2005 01:52 AM
Comentários
Boa!
Publicado por: sara monteiro às maio 4, 2005 04:11 PM
Obrigado Sara Monteiro
Publicado por: jpt às maio 4, 2005 09:06 PM
Como me referiste, até com link, não posso deixar passar este post, e ficar calado, como gostava.
Claro que tens razão, mas alinhando assim, sem mais nem menos, sabe a hipocrisia, pois concordando em teoria contigo estou ciente que na minha prática estou incluido nos visados da tua crítica, e se dissesses que não, responderia que devia estar incluido.
Talvéz poupo-me, geralmente, o embrulho da conversa intelctualoide, confiando no meu caso na aura da "arte" como disfarce da minha erotomania, e como prova da minha craveira intelectual. Mas é só um outro disfarce.
Publicado por: Lutz às maio 4, 2005 10:54 PM
não me refiro à tua apreciável coluna playmate...daí que o carapuço talvez não se te aplique - aliás é muito geral, fruto do cli-clic
Publicado por: jpt às maio 5, 2005 12:17 AM
Definitivamente sou um gajo com sorte, no caso, em ser careca!
Abraço. Bom texto.
Publicado por: carlos a.a. às maio 5, 2005 01:15 AM