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Ma-Schamba: Ainda sobre a educação sexual, coisa sobre a qual não percebo nada, mas que me espanta

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maio 21, 2005

Ainda sobre a educação sexual, coisa sobre a qual não percebo nada, mas que me espanta

Espantam-me a este propósito tantas certezas, vistas como absolutamente normais, despejadas como irredutíveis ou pelo menos como certeiras. Nada é contextual, as coisas são assim. Ou devem ser assim. Quanto tudo é absolutamente conjuntural, meras opções. Que se defendam, mas vistas como efémeras. Meras hierarquias de valores.

Mero exemplo, sem qualquer crítica. Via 100Nada chego a um texto, bem sacado e com o qual globalmente concordo, que recusa a educação sexual em sentido amplo. Mas que aceita a educação da afectividade (óptimo). E que no sentido estrito (fisiólogico, à falta de melhor termo) da sexualidade considera legítimo ensinar a evitar DTS e a gravidez. Ok, acho que todos concordamos, e é visão que já vi em vários outros posts. Ensinar a higiene sim, ensinar a não ter crianças sim. Ensinar técnicas sexuais não (isso só entre classes de idade, grupos etários). Isto é uma hierarquia de valores que não se deve discutir. Mas porquê? Isso é óbvio que denota uma especial classificação, valorização de "técnicas sexuais". Uma particular concepção. E eu acho que estigmatização. (Insisto, acontece em tantos outros sítios que não há razão universal para considerar isso uma perversão ou uma fonte de problemas. É eco de trauma, colectivo).

Mas há mais, muitos concordam em ensinar métodos de planeamento familiar, como não ter filhos. Mas não vejo em nenhum post ou texto de jornal a possibilidade de ensinar métodos de facilitar a gravidez ou reduzir a infertilidade. Nem como uma hipótese académica. Isto numa população com baixa taxa de fertilidade, com elevadas percentagens de "estéreis" (horrorosa palavra) e de casais inférteis. Alog que é uma verdadeira chaga social, subterrânea. E como não está no top dessa hierarquia de valores da época não aparece naturalizada, óbvia. Apenas porque o socialmente importante é não ter filhos, não quebrar o velho valor da filiação conjugal, da descendência legítima (um quase mito, mas enfim). E para não quebrar o novo valor da "carreira" profissional (um quase mito, mas enfim).

Enfim, são estes espantos e outros que me puseram a falar sobre algo de que pouco conheço. Acima de tudo sempre espantado como os espelhos nos fazem sempre tão belos.

E de sexo não mais falo. Até porque não parece bem. Em especial com a minha provecta idade. Ainda se fosse este um blog de adolescente.

Publicado por jpt às maio 21, 2005 10:28 AM

Comentários

Eu como professor com trinta anos de serviço declaro que nunca me apercebi de qualquer necessidade sexual nas escolas por onde andei...confirmo a inexistência de pilas e pipis (os alunos nunca os mostraram) e consequentemente
a questão do ensino da sexualidade é completamente irrelevante...e no caso de não estar certo, considero que sejam paizinhos e maezinhas lá em casa a ensinar quais os sitios,situações,etc, propícios a esse malfadado gozo que dizem a sexualidade proporcionar...
Com toda a consideração
Morfeu

Publicado por: morfeu às maio 21, 2005 12:44 PM

Caro Morfeu, aceito aliviado a sua opinião. Se os que conhecem o "terreno" dizem não ser necessário, óptimo. Menos uma "necessidade social", menos algo com que nos preocuparmos.
Secundariamente tal poderia então ser retirado da polémica polemista (algo que tenho referido) e da própria lei (não muito importante, porque lei letra-morta faz parte...)

Só para mim, para a minha colecção de coisas, retiro ainda a ideia de que na nossa sociedade há um valor estruturante: a de que as gerações mais recentes são educadas / formadas por formas mais ou menos institucionalizadas pelas gerações menos recentes - ou seja, o saber transmite-se de forma relativamente formal dos mais velhos aos mais novos. Excepto no caso da sexualidade (talvez excepto, e um vincado talvez, no que respeita ao pragmatismo desta - para que serve e como evitar o seu "mau uso".
Permito-me retirar daqui uma especificidade à sexualidade - é a área da vida onde o acima referido não se passa, não se deve passar. É a grande especificidade. Melhor dizendo, a grande excepção na vida social

Mal não me faz (ainda para mais aos 40). É apenas um item para a colecção de características próprias de uma socieddade, a minha

Publicado por: jpt às maio 21, 2005 04:04 PM

Valeria a pena, a quem tanta letrinha tem dedicado por aí fora à questão da "educação sexual", tomar, pelo menos porque já nem me atrevo a pedir mais, conhecimento da definição de sexualidade da OMS: poupariam muito disparate em relação à conceptualização de ensino (ou será aprendizagem - ou educação - do que querem falar? são 3 coisas bem diversas, já agora) da componente afectiva versus física e/ou fisiológica. Mas teriam de ir um pouco mais longe e é aí que a "porca torce o rabo": afinal, para quem como a maioria dos pais-bloggers que vou lendo, a escola é "o cárcere benigno" (vg. Olga Pombo em O insuportável brilho da escola, pexº) a que destinam os filhos fazendo dos professores os carcereiros involuntários, que sentido faz um professor consciente saber que há coisas que não são do âmbito da escola (que ensina) mas da família (que educa)? Bom, isto é triplamente da minha área profissional como bióloga, professora e professora de professores... e pronto, faz-me brotoeja vê-la abordada de forma leviana até porque já fiz 40 anos :)

Publicado por: m. às maio 21, 2005 08:43 PM

"..., coisa sobre a qual não percebo nada..."; eu não posso ir mais além. Apenas improvisar(improvisei) sobre o meu espanto diante de tantas certezas anunciadas. Mas já estou ali no meu canto. Mas pronto para ouvir (ler).

Publicado por: jpt às maio 21, 2005 09:15 PM

Neste sentido, deixo aqui um link para um texto que descobri através do Mar Salgado:
http://www.fpce.uc.pt/nucleos/niips/i_pub/val_pub/ped_sexo.htm

Publicado por: Lutz às maio 21, 2005 11:26 PM

obrigado lutz. leitura dominical

Publicado por: jpt às maio 22, 2005 12:49 AM