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fevereiro 10, 2005
Última Safra 23: kináni

Cardoso Mirão, Kináni? Crónica de Guerra no Norte de Moçambique, 1917-1918, Lisboa, Livros Horizonte, 2001
Esta é a narrativa da campanha da I Guerra Mundial em Moçambique, pela voz de Cardoso Mirão, aí 2º sargento das forças portuguesas. Esta é uma parte da história muito pouco conhecida, tanto no diz respeito à participação portuguesa na I Guerra, muito centrada no palco europeu, como na formulação da ocupação colonial, então ainda muito incipiente em vastas zonas de Moçambique e inexistente noutras.
O livro é apaixonante, a descrição de uma campanha desorientada, que em pouco mais se traduziu do que numa longa e terrível caminhada pelo norte do país, e neste caso com quase inexistência de combates.

Trata-se de uma caminhada louca, ecoa-se o sofrimento inadjectivável de uma tropa errante, descomandada, desinformada, gradualmente desnorteada e logo desmoralizada. Sofrendo a inexistência de logística e a inadequação dos equipamentos (algo que este auto-retrato explicita). E tudo isto potenciado pela constante agressão da Natureza, os predadores, uma terrível fome, uma permanente sede e, acima de tudo, as doenças.

É comovente, ainda hoje, ler os lamentos do sargento sobre a situação das suas botas, faltando-lhe ainda meses de infindáveis caminhadas.
Como pano de fundo de toda essa situação, mas realmente apenas como pano de fundo, o opressivo temor do confronto com o corpo expedicionário alemão, uma pequena força de grande gabarito, comandada por um oficial verdadeiramente lendário, o o general Lettow-Vorbeck, a cuja se encontrava em constante movimento via Tanganyka, e que nunca veio a ser vencida.
Para quem conhece a zona (e eu tive o acaso nada fortuito de ler o livro durante uma estadia no Niassa, amplamente referenciado) pode tentar imaginar a dureza desta campanha.
É um grande livro sobre guerra, praticamente sem combates. Nele respira um antigo exército, de uma crueldade hierárquica extrema, que se julgaria apenas de Antigo Regime, no qual oficiais e soldados eram ainda de dois mundos, de duas ordens. E ainda os africanos, arregimentados como carregadores, escondidos num terceiro mundo.
Será interessante notar que tanto em Cabo Delgado como no Niassa há ainda a memória camponesa desta guerra dos "ma-germanes", difusamente datada numa época correspondente à real II Guerra Mundial. Efeitos da história local sobre a devastação provocada pela mobilização de milhares de carregadores, e sua extrema mortalidade, pelas forças em presença, alemãs, inglesas e portuguesas.
É pois um retrato espantoso. Da guerra e da sociedade que nela participava. Mas também uma visão especial de África. Não esta como a Ameaça, o Horror ( a la Conrad). Mas mais como o palco desse Horror, um horror interno.
Um livro único no memorialismo português. E, mais uma vez, uma pergunta, como não filmar uma história destas?
Publicado por jpt às fevereiro 10, 2005 12:15 AM
Comentários
Nota na margem: Conheces Ahmadou Kourouma? A África portuguesa lê este senhor?
Um abraço
Publicado por: DivaseContrabaixos às fevereiro 10, 2005 06:19 AM
Não sei minha cara. A África Portuguesa acabou tinha eu 10-11 anos. Sei que, fantasma, erra por ultramontanas direitas revivalistas e ignorantes esquerdas lusófonas. E ainda em lapsos linguísticos.
Mas, sendo ateu, sou pouco dado à comunhão com almas penadas. Não faço pois a mínima ideia de quais serão as leituras nesse além pagão.
Publicado por: jpt às fevereiro 10, 2005 08:16 AM
Despertaste a minha curiosidade pelo livro.
Eu conheço as histórias que o meu avô contou ao meu pais sobre a guerra no sul de Angola entre 1914 e 1916. E lembro-me de ouvir sobre episódios sobre a "crueldade hierárquica".
Uma coisa que pouco se sabe é que nesse tempo, os alemães conseguiram estabelecer contacto territorial entre o Tanganika e o sudoeste africano (actual Namibia) através das Rodésias.
Para recuperar esses territórios, os ingleses tiveram de mandar vir soldados da India.
Publicado por: Marco às fevereiro 10, 2005 12:13 PM
Olá JPT. Já vi que a coisa é séria e vais parar, ou dar um break à coisa dos blogs. Quero dizer-te que ficamos todos a perder muito com a tua viagem.
Um beijinho para ti
Publicado por: Passada às fevereiro 10, 2005 01:04 PM
Passe a pedantice, gostei de saber que gostaste do livro do meu tio-avô. Na família estamos convencidos que só nós é que o lemos. É bom saber que chegou tão longe e a tão bons olhos.
Um abraço
Publicado por: Miguel Silva às fevereiro 14, 2005 08:09 PM