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Ma-Schamba: Última Safra 22: bacalhau (coisas de emigrante)

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fevereiro 09, 2005

Última Safra 22: bacalhau (coisas de emigrante)

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(João Brito Subtil, Bacalhau, Receitas e Memórias, Ponta Delgada, edição do autor, 2002)

Um pequeno livro quase de culinária, mas a trazer a comida para transportar as memórias. Um oficial de marinha a apresentar-se "não sei cozinhar mas sei comer e gosto de o fazer", e que mais é necessário para falar com propósito dos comeres e de quem nos lembram?

Coisas do comer colectivo, sempre esquecidas pelos encartados das "artes gastronómicas", tão alheios ao jeito de quem recebe. Mas não aqui:

"Os ânimos exaltam-se e a revolta pode estalar. É o levantamento de rancho, ou, no mínimo a boiada, em que ninguém fala e o silêncio, cortado apenas pelos talheres, se torna avassalador. E se o praça discute o guisado, o sargento discute a jardineira e o oficial protesta o ragout.

E depois, se o pessoal está bem disposto, até aparece o rancho da porca, feito com sobras roubadas ao despenseiro na cozinha já fechada e cozinhado por este ou aquele mais experimentado. Geralmente são as praças antigas e alguns sargentos que detêm esta sabedoria colhida nas longas horas de navegação ou durante a dura espera dos postos de combate" (6)

E outras coisas, essas do comer em família, verdadeira etnografia, a dos afectos. Onde o comer não é apenas aquele direito, é também o amor. E onde se aprendem coisas dos avós, talvez essas parecendo do antes, mas ainda assim dos avós: "Nunca cozinhes sem prazer nem sem amigos, costumava ele dizer [o Avô do autor], e principalmente não cozinhes para mulheres, nunca!"

E por falar em amor(es), a importância da veracidade. O autor, feito jovem cadete deslocado no Brasil de 1969, em plena paixão pela Marinette, brasileira neta de portugueses do Norte. A levarem o homem, fardado claro que na Briosa é lendária a cagança, a almoçar lá a casa, que genro oficial já foi objectivo que se prezasse, interpreto eu: "Bacalhau cozido com todos. Couve portuguesa, batatas, grão, ovos cozidos, tudo regado com bom azeite e coberto com salsa picada, cebola picada e alho picado, muito. As postas de bacalhau eram grandes, estavam bem demolhadas e saborosas, eram de um fardo que lhes tinham mandado de Esposende. Comemos bem, muito bem! Durante a tarde toda, apesar do calor, aquele bacalhau com todos, bem regado com vinho tinto...Fui tratado como um príncipe, alvo das atenções de todos e por todos acarinhado. [claro, a farda branca, digo eu] Quase que saí dali casado. Quase que não voltava para bordo e para o meu destino. [E a Marinette] agarrada ao meu pescoço "Fica comigo, João. Não vás para a guerra, João".

Só que o bacalhau não era bacalhau, era escamudo. O almoço fora um óptimo afim com todos." (34)

Ó homem, se um dia passar por Maputo, diga qualquer coisa, nem que eu vá a Malalane hei-de encontrar umas postas de verdadeiro bacalhau. E você retribui com uma açorda à moda da sua família.

(haverá algum leitor do Ma-Schamba em Ponta Delgada, que possa transmitir a mensagem?)

Publicado por jpt às fevereiro 9, 2005 06:23 PM