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Ma-Schamba: Última Safra 14: os cus de judas

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fevereiro 06, 2005

Última Safra 14: os cus de judas

[continuando a aborrecer os visitantes com a minha releitura, 20 anos depois, de "Os Cus de Judas", de Lobo Antunes. E mais aborrecendo pois não sendo eu das literaturas não tenho particular caroço para ecoar]

LoboAntunesCusJudas.jpg

(António Lobo Antunes, Os Cus de Judas, Círculo de Leitores, 1984)

Creio que será a capa mais estapafúrdia que brindou um livro deste autor. Registe-se, ainda que tanto tempo passado.

Sempre achei estranho ser fraca a literatura portuguesa sobre a guerra colonial (de libertação, chama-se do outro lado). Mas neste regresso aclarou-se-me isso, Lobo Antunes matou-a num mero tomo, não só por lhe ter posto a fasquia alta mas também porque a descentrou, desviou-a dos postes triviais. Na prática, como é tradição em Portugal, não se dedicou à guerra, escreveu sobre naufrágios, o dele

"Talvez que a guerra tenha ajudado a fazer de mim o que sou hoje e que intimamente recuso: um solteirão melancólico a quem se não telefona e cujo telefonema ninguém espera, tossindo de tempos a tempos para se imaginar acompanhado, e que a mulher-a-dias acabará por encontrar sentado na cadeira de baloiço em camisola interior, de boca aberta, roçando os dedos roxos no pêlo cor-de-novembro da alcatifa" (58)

e não só. Este livro pode entrar como capítulo mais recente da História Trágico-Marítima.

Nele outros livros brotaram, e vozes sábias dizem-nos ainda mais conseguidos. Mas aqui há umas entranhas que me (re)conquistaram.

Para me libertar desta memória aqui deixo mais duas breves citações:

"pertencemos a uma terra em que a vivacidade faz as vezes do talento e onde a destreza ocupa o lugar da capacidade criadora" (35)

"a ideia de uma África portuguesa, de que os livros de História do liceu, as arengas dos políticos e o capelão de Mafra me falavam em imagens majestosas, não passava afinal de uma espécie de cenário de província a apodrecer na desmedida vastidão do espaço, projectos de Olivais Sul que o capim e os arbustos rapidamente devoravam, e um grande silêncio de desolação em torno, habitada pelas carrancas esfomeadas dos leprosos..." (125, e continua assim, é o capítulo "P")

Publicado por jpt às fevereiro 6, 2005 02:18 PM

Comentários

A capa é realmente inacreditável, a fazer lembrar algumas capas de títulos de Jorge Amado, da Europa-América. Desconhecia completamente esta edição.
Faz também lembrar os genéricos de telenovelas brasileiras.

Publicado por: sara monteiro às fevereiro 7, 2005 12:45 AM