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Ma-Schamba: Ainda a questão do "obscurantismo"

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fevereiro 09, 2005

Ainda a questão do "obscurantismo"

Miguel, desculpar-me-ás não te ter respondido à tua contradição ao meu Sobre o Obscurantismo. Só agora o faço, e muito a correr, mas não quero fechar a loja com a conversa abandonada (ficará a meio, mas temos o email, e também a conversa quando voltares a Maputo). Então aqui sai, telegraficamente, e sem cuidados formais.

Apenas referi que a afirmação de João Craveirinha me desnudava uma realidade, que me é invisível no quotidiano, a inexistência em Portugal de figuras públicas afro-portuguesas nas áreas do poder (político, económico, intelectual, mediático) - e aqui fujo ao sofisma dos "portugueses originários de África" para que possamos escrever mais rapidamente. Tu, e outro comentador, referiram-se até desagradados ao colunista em questão. Mas eu no meu primeiro texto sobre o assunto disse, sem grande explicitação, que este articulista é sui generis. Entenda-se, não é veículo de posições padrão. Goste-se ou não, é uma voz algo marginal, e até algo individual. Não estou a elogiar, não estou a criticar.

Foste tu que avançaste para a crítica das quotas, ou do black empowerment. Ora nem falei nem pensei nisso, acho que exprimiste uma opinião tua, tudo bem, mas marginal às minhas "preocupações" (lembras-te da expressão?). Tu partes da sociedade portuguesa igualitária, eu acho que ele é tendencialmente igualitária (não há barreiras formais, jurídicas), mas que há zonas de exclusão e de inferiorização. E que esta ausência afro-portuguesa pode significar essa inferiorização (eu meu entender será claro). E que portanto será de incrementar mecanismos de integração, e de representação. Daí a dizer "quotas" vai um abismo gigantesco. E não me vou por aqui a falar sobre políticas de integração e de valorização, passo - aliás, passo por completo em relação a qualquer política desejável lá no rincão, aquilo obviamente prescreveu.

Quanto ao resto que referes, o black empowerment no Moçambique pós-Samora. Também não me parece. Um, a independência é a tomada de poder pelos moçambicanos, negros na sua esmagadora maioria. Não é um empowerment (atribuição de poder), é uma conquista de poder. E nesta separação de termos há outro abismo. É normal que ao longo do tempo o exercício do poder de cargos e postos seja executado por afro-moçambicanos (ok, o termo para facilitar). Como é normal que, em completo deficit de quadros pós-independência, os poucos euro-moçambicanos (e também alguns asio-moçambicanos [estás a gostar da terminologia?]) tenham surgido no poder, dada a posse de "capital cultural/educacional", de formação no ensino formal. Com o tempo, e isto para além de flutuações políticas, de estratégias de grupos internos, de solidariedades múltiplas, mas com o tempo é também normal que a formação alargada no seio dos afro-moçambicanos (negros, neste sentido) faça reduzir peso social e visibilidade desse grupo identitário euro-moçambicano. Sei que esta explicação é muito fácil, e que até estou a reduzir questões fundamentais aqui discutidas sobre a "moçambicanidade". Mas, honestamente, acho que a questão não é assim tão maquiavélica, é mais sociológica. E do tempo que passa.

Finalmente, a crítica à política de quotas e de "africanização" da África do Sul. Ok, já disse que não sou adepto de quotas. E também sei que a africanização, o black empowerment cria distorções, cria postos de chefia fictícios, cria empregos para Estado ver, cria empresas "afro-africanas" que são meros intermediários. Tudo bem, tudo dito e redito.

Mas conviria complexificar o nosso desconforto com estas políticas. Por um lado lembrar que a África do Sul, com todos os seus defeitos políticos e económicos, se afirmou na segunda metade de XX como potência económica (e militar). Ora esse período foi precedido, e contemporâneo, de políticas sociais e estatais de "boer empowerment", de molde a reduzir as diferenças socioeconómicas entre brancos [euro-sulafricanos] de língua natal afrikaans e os de extracção britânica. E isso não é referido pelos críticos deste "black empowerment", e seria fundamental.

Mais, é fundamental também precisar que todo o regime colonial, e o de apartheid é prova provada disso, se trata de um regime de "white empowerment". E que isso se traduz na constituição de sociedades radicalmente desiguais. Em alguns casos coloniais bipolarizadas [e acho que Moçambique será um caso], noutros como na África do Sul muito mais estratificadas, dada a complexidade social, e também a demografia, onde a comunidade euro-sulafricana tem uma dimensão enorme, muito diferente das outras sociedades pós-coloniais.

Nesse caso que fazer, herdando um país que teve um desenvolvimento fortissimo assente num "white empowerment", até jurídica e administrativamente fixado? Esperar uma lenta transformação, à Lampedusa ("mudar algo para que tudo fique igual")? Ou fazer suceder ao white empowerment um black empowerment, para tentar reduzir a reprodução (atenção, a reprodução) das diferenças socioeconómicas devidas à história e à origem?

Enfim, estou a perguntar(-me). Acima de tudo acho que nós, euro-europeus, temos que perguntar. Porque temos a mania de botar faladura. Nós, não te estou a mandar bocas.

Abraço. Ah, sigo a Nampula. Duvido muito que não fuja até aquela nossa cidade. Algum abraço em especial?

PS - e quem leia isto não me fale do Zimbabwe. Não tem nada a ver com isto. Mas pode falar da Namíbia, um processo pacífico e estatalmente conduzido de aquisição e redistribuição da terra dos euro-namibianos. E dos seus resultados. Porque o Zimbabwe, esse é o fim de um regime, outra grelha de análise. E muito lamentável - já agora, seguir a problemática da central sindical sul-africana COSATU (ANC) e da luta anti-Mugabe que têm seguido.

Where is Wally?

Publicado por jpt às fevereiro 9, 2005 07:48 PM

Comentários

Bem, a tua resposta obriga-me a um exercício mais demorado e para o qual não terei muito tempo nas próximas duas semanas. Calhará bem pela tua partida para Nampula. Quando voltares, cá estará. Penso que estará na altura de aprofundar um pouco mais.

Entretanto, desejo-te uma boa viagem e que dês por mim (que inveja!) umas braçadas na praia do Wimbe. E uns camarões ou uma lagostinha bem regados praí no Nautilus (estarei desactualizado).

Os abraços para a malta do costume, se ainda por lá estiverem. O Engenheiro e comparsas. A dona do Mar e Sol e marido. O Per se ainda lá estiver. O Paolo Zanazzi. Muitos já não estarão lá. Os beijinhos dá-los-ei eu, quando for a Maputo pois é lá que estão os da nossa cidade.

Um grande abraço!

Miguel S.

Publicado por: Miguel S. às fevereiro 9, 2005 08:28 PM

ok, farei os possíveis. a alguns conheço (o grande Engenheiro à frente, claro, com admiração). Aos outros procurarei.
Quanto à conversa, tens o email, se quiseres continuaremos lá. Ou põe em file mental, e será pretexto para as bebidas aqui. Abraço

Publicado por: jpt às fevereiro 9, 2005 08:32 PM

Afro-Portugueses; Indo-Portugueses; Asio-Moçambicanos; euro-moçambicanos etc...
Não será esta forma de classificação (Muito ao gosto dos regimes racistas) uma forma politicamente correcta de racismo e de exclusão (algumas vezes mesmo de Auto-Exclusão)?

Publicado por: Luís Bonifácio às fevereiro 9, 2005 09:11 PM

não luis bonifácio, acho que não. mas hoje não é a primeira vez que tenho que explicar um texto aqui. ainda que este não tenha cuidados formais, julguei que a ironia estava reconhecível...
ainda que...se há afro-americanos porque não euro-americanos e por aí adiante. mas isso são outras conversas, aqui era mesmo aquilo

Publicado por: jpt às fevereiro 9, 2005 09:31 PM