dezembro 24, 2004

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Até um dia...

Publicado por JPT em 02:09 AM | Comentários (33) | TrackBack

Consoada Índica

(esse Sem Destino conheceu como foi)

Custa saber assim, mas há dez anos, acertados hoje, Coetzee, bom homem e cristão desses de me achar ali sozinho, carregou-me à aurora para aqueles quase 300 kms até aqui.

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Neguei-me pouco e vim, uma sede feita das saudades de geleira, tanta que nem me discuti de onde lhe vinha esse "sozinho". E aqui mesa farta de natais deslocados, tantos e quase todos meus então desconhecidos. Também patrício sei lá como, querendo-se regressado, e talvez por isso em ares de força por saia vizinha, coisa pouco-natal, torneei. Pois se nunca, quanto mais agora e aqui, nestes tempos de, aprendi-o então, gingar. E gingar bem

Natal de empapar, e isso lembro. Noite de ir longe, de imortal ainda, até surpresa o sem-fundo. Noite em tempo de construir modos, esse constante "to jump" na fala, e esse fazer bandeira, não só mostrá-la, no tudo o resto.

Noite de natal, meia-noite, de saltar corrido para o quase-sopa, assustando o banhista vizinho, este clamando-se aflito de mim, que noite de natal, meia-noite, mas pescador de redes ali à faina. Noite, afinal, também de não-natal.

[reprodução de postal anónimo, sem data e sem referência de editor]

Publicado por JPT em 01:20 AM | Comentários (3) | TrackBack

dezembro 23, 2004

A todos os que aqui e também abaixo vieram saudar deixo os meus desejos

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de boa colheita.


[reprodução de chibanga muali malundi, mueda 1989, aldeia lutete; sem referência de editor]

Publicado por JPT em 11:57 PM | Comentários (6) | TrackBack

Façam o favor de não perder

esta delícia no Semiramis: blogs de 1822.


Publicado por JPT em 09:34 PM | Comentários (1) | TrackBack

A agradecer a simpatia do Nuno Guerreiro, ainda para mais depois do que aqui não exagerei.

Publicado por JPT em 08:26 PM | Comentários (1) | TrackBack

Estou na Lista Negra. Que terei cometido?

"Your IP was found in the OPM blacklist and will not be allowed to post.", diz-me o blogspot quando quero comentar "Obrigado pela tua simpatia. E sim, consigo imaginar um calor tórrido no Natal, um calor de abacaxis mesmo" no Forum Comunitário. E antes um idem, quando quis comentar furibundo no Blasfémias: honestamente, como se pode ser assim?

Que terei cometido?

Publicado por JPT em 06:07 PM | Comentários (6) | TrackBack

Futebol

Isto é uma grande aldrabice. Felizmente não é o meu clube.

Publicado por JPT em 09:59 AM | Comentários (6) | TrackBack

Só para agradecer a simpatia do Francisco José Viegas e do Rodrigo Moita de Deus.

Publicado por JPT em 09:39 AM | Comentários (0) | TrackBack

dezembro 22, 2004

Prémio José Craveirinha 2004

O Prémio José Craveirinha 2004, o mais prestigiado prémio literário aqui, atribuído pela Associação de Escritores Moçambicanos sob patrocínio da Hidroeléctrica de Cahora-Bassa (5000 USD), foi agora atribuído em paralelo aos poetas Eduardo White e Armando Artur.

Este machambeiro teve hoje o prazer de beber uma (ou talvez um pouco mais) cerveja com os laureados. Este machambeiro tinha camisola vestida neste prémio, mas isso também não é muito importante. Meras opiniões.

Publicado por JPT em 08:21 PM | Comentários (3) | TrackBack

Engraçado,

a primeira vez que cheguei a Moçambique aquela verdadeira diferença que encontrei foi esta. Não só, mas esta.

Publicado por JPT em 07:15 PM | Comentários (0) | TrackBack

Lourenço, todos esses bloguistas escrevemos isso quase todos os dias.

Publicado por JPT em 07:10 PM | Comentários (0) | TrackBack

Exposição

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Exposição

As negras das lagoas
fazem exposição
de quadros nús e tristes
com os próprios corpos as artistas
pintam no fundo da parede de caniço

É uma exposição permanente
e uma galeria de quadros humanos
que se vendem na galeria livre
uma galeria mais que pública
inaugurada pelo primeiro que chegou

Os quadros adquiridos
são pagos no quarto da negra
depois de oferecer a sua carne
e o adquiridor nunca leva o seu quadro
fica para o outro Paraquedista

(Malangatana Ngwenya, Vinte e Quatro Poemas, Lisboa, ISPA, 1996)

[também a propósito deste outro livro].

Publicado por JPT em 12:34 PM | Comentários (0) | TrackBack

Males que vêm por (IMENSO) bem

"Torres de Siza Vieira em Alcântara não vão ser feitas" [artigo abaixo transcrito], pois o referendo só poderia ser realizado em meados de 2006, dada a antecipação das eleições legislativas, e o promotor desistiu face aos prejuízos que tal espera significaria.

Quero agradecer ao Presidente da República Portuguesa, ao Presidente da Assembleia da República de Portugal, ao Presidente da Comissão Europeia, ao Primeiro-Ministro de Portugal, ao seu Governo, ao seu partido, ao partido coligado, até à própria oposição, e ainda ao Presidente da Câmara de Lisboa e a todo o seu "executivo", bem como à oposição municipal.

Agradeço-lhes a grande confusão que têm causado, essa que lateral e involuntariamente impediu isto, este criminoso amamarrachar. Algo tão mais importante e perene do que as respectivas tralhas, ainda que mui tralhas.

Gente mero pó. E Lisboa minha cidade, apesar de eles se pensarem "maiores do que a vida", sobreviver-lhes-á.

Quanto ao célebre arquitecto "amamarrachador" não hei-de esquecer a entrevista em que afirmou que se não fosse ele a construir outro o seria. Que belo argumento, só lhe faltou afirmar que cumpria ordens. Que a desilusão lhe seja grande, é o meu desejo.

Torres de Siza Vieira em Alcântara Não Vão Ser Feitas
Por FERNANDA RIBEIRO
Público
Quarta-feira, 22 de Dezembro de 2004

As torres projectadas pelo arquitecto Siza Vieira para Alcântara, em Lisboa, já não vão ser construídas. O promotor do empreendimento, a erguer na Av. da Índia, nos terrenos da antiga Sidul, optou por apresentar à câmara um projecto alternativo, da autoria de Mário Sua Kay, com edifícios de oito pisos, considerando "insustentável aguardar por um referendo em Maio de 2006".

Pedro Silveira, presidente do grupo Sil, explicou ontem que a sua decisão se prendeu com o novo cenário imposto pela convocação de eleições legislativas para Fevereiro, o que implica que o referendo já não se pode realizar em Março de 2005, como previsto, mas apenas em Maio de 2006.

"Já perdi cerca de cinco milhões de euros com a espera desde que o projecto foi apresentado publicamente, em Novembro de 2003, e não posso arriscar esperar dois anos e meio sem ter sequer a garantia de que irá haver referendo, e de que ele terá um resultado favorável. Isso é insustentável", disse Pedro Silveira, que falava após a apresentação do projecto do nó rodoviário de Alcântara, ontem apresentado pelo Governo e pela Câmara de Lisboa (ver texto ao lado).

A impossibilidade de realizar o referendo antes de Maio de 2006 deve-se à própria lei que rege os referendos locais, que diz que o acto não pode ser realizado, nem sequer o processo pode ser iniciado, no período entre a data de convocação de eleições e a data da realização das mesmas. Isso vai colidir também com as eleições autárquicas a realizar em Outubro de 2005 e com as presidenciais, em Janeiro de 2006, uma vez que o processo de referendo tem uma duração de cerca de 110 dias úteis.

Pedro Silveira diz ter informado em Junho deste ano o arquitecto Siza Vieira de que apresentara na câmara o projecto de Sua Kay, que não suscita problemas relativamente ao Plano Director Municipal (PDM), pois observa as cérceas máximas, de oito pisos. Esse fora um dos vários óbices colocados pela autarquia à aprovação do projecto das torres de Siza. Em Junho, porém, ainda não se colocava o impedimento de realizar o referendo em Março de 2005 e o promotor dizia então que só desenvolveria o projecto de Sua Kay caso o referendo impedisse as torres de Siza.

O parecer da câmara emitido em Julho de 2004 dizia que a proposta não reunia condições para ser aprovada e alegava as condicionantes urbanísticas expressas no PDM, a par de ausência de infra-estruturas de drenagem capazes de sustentar o empreendimento. Ainda assim, posteriormente, os serviços camarários pediram mais elementos ao promotor.

Mas ontem, Pedro Silveira admitiu desistir de avançar com as torres. "Tenho ali enterrados 14 milhões de contos [70 milhões de euros], que é hoje o valor dos terrenos. Com o projecto alternativo, espero poder avançar com as obras a partir de Junho de 2005", disse.

O PÚBLICO tentou ontem ouvir Siza Vieira, mas tal não foi possível por o arquitecto se encontrar retido em Barcelona, com um problema de saúde, segundo fonte do seu atelier.

Publicado por JPT em 09:14 AM | Comentários (9) | TrackBack

Conversa com o Luís Ene

Há tempos o Luís Ene e eu estivemos à tecla, a falar de bloguices. Ele gravou e deixou no hall de entrada. Agora que passou o mês em causa e há-de mudar a decoração, trago-lhe a k7 para aqui, fica memória em meu arquivo, coisa que alguns muito compreenderão. E à k7 troquei-a por um abraço.

24 novembro 2004
José Flávio Pimentel Teixeira
Nome? Zezé para os amigos, Flávio para os antigos colegas, Zé Flávio para os colegas quando decidem passar a amigos, Zé Teixeira em Moçambique... A única certeza é que ele tem Ma-schamba em África, mais exactamente em Moçambique.

O teu blogue é a tua machamba (ou ma-schamba)? O que cultivas nele?

Ma-Schamba é plural, significa mesmo as minhas "machambas", hortitas. Aqui tenho culturas várias, pequenas e mal amanhadas, de subsistência, nada dessas machambas tipo plantação, cultivo grande e cuidado. No princípio tinha plano mais ou menos, coisa quase estruturada, pensada. Depois virou cabotagem (cabotino?), coisas mais imediatas, menos pensadas. Claro, foi-se politizando, é o primado do pensamento rápido, pobre. Efeitos dos textos diários e do diálogo com outros blogards (prefiro a versão a la francófono), o que neste último caso é porreiro. Irrita-me quando falam de um "estilo post", quase como que normativo, ainda que apenas a norma da eficácia. Que cada um faça como quiser. Mas não há dúvida que a botadura diária prejudica. Pelo menos a mim, que caí na esparrela.

O teu blogue está em terra de Moçambique. Quais as consequências?

Muito menos do que eu desejava. É o que digo acima, pensei um blog sobre Moçambique. Não turístico e não saudosista, eu cheguei agora, um agora de oito anos. Cenas várias, viagens e quotidiano. Os livros, filmes, as outras artes. E notícias, a ajudar a quebrar o silêncio – catástrofes, corrupção, Mia e Mutola (e desta bem pouco), de que mais se fala aí sobre aqui? Neste campo acho que o Ma-Schamba falhou, distraí-me, desviei-me (saudades daí?). Da política local não posso falar: por razões ideológicas minhas, e já o escrevi, sou um emigrante de luxo, se estou mal que me mude; e por razões óbvias, aqui um “tuga” na faladura crítica é cultivar anti-corpos. Letais. Além de que sou cooperante, contratualmente proibido de qualquer actividade política. E esta, ainda para mais aqui, é uma alínea tão lata...

Por outro lado, e sem cagança, acho que me dá distância ao rame-rame daí. E quando mergulho no opinativo bloguístico sinto muito isso: há muitas certezas e poucas dúvidas, isso nascido dos clubismos ferrenhos, os do olhar para dentro, há muitos “coleccionadores de cromos”. Mas também há bloguistas (sim, agora lusófono) fantásticos: quando for grande quero ser como o Nuno Guerreiro.

Em tempos, se não estou erro, anunciaste que deixarias de editar o blogue. O que te fez mudar de ideias?

Sem hierarquia:
1) A Inês estava na Bélgica. Quando voltou eu disse-lhe que tinha morto o bicho, julgando que ela ficaria contente comigo menos tempo ao computador. Mas afinal disse-me que era uma pena, que era mais um dos meus impulsos, que reconsiderasse; 2) Vício; 3) pode parecer que me estou a armar, mas não estou, recebi mais de 100 comentários e emails do abraço à insistência, o que me surpreendeu tipo “porra, estes gajos gostam do que escrevo”, e em muitos ecoava que eu, afinal, carregava mesmo um bocado de um Moçambique que é o meu, que não sou representante de nada, que já não é o deles, mas que mesmo assim gostam. E comoveu-me, amaricou-me mesmo. O Carlos Gil do Xicuembo escreveu um texto que me deixou como se tivesse uma papaia entalada na garganta.

Mas acho que o blog piorou desde então, perdi qualquer coisa.

Em tempos deste também a cara no teu blogue, uma cara branca e barbada que não mais se deixou ver. Arrependeste-te?

Eu escrevo estas coisas para ser lido. Se muito divulgo o trombil quem é que regressará? Foi uma coincidência, tu a lançares o repto, e eu com uma história do Niassa com um episódio dos putos à minha volta a dizerem-me igual a Jesus. Aproveitei. Os meus amigos gozaram-me à brava, aquilo é um estereótipo. Mas para mim muito bonito.

Como te tornaste blogger? Qual é mesmo o teu nome para além das iniciais?

Eu já tinha um quasi-blog antes de saber. Escrevia textos e enviava a dezenas de amigos e conhecidos. Parte dessa tralha está blogada na categoria “Roupa Velha” e são o que mais gosto no Ma-Schamba. Engraçado que, com excepção de meia dúzia, nenhum desses receptores é visita do blog. Está visto que os chateava à brava, ainda que muitos respondessem, amáveis. Um dia um amigo daí avisou-me dos blogs, logo a seguir deu na RTP-África que o FJV e o JPP tinham blogs. Depois pipizei, até nos comments, que eram uma delícia, ainda que algo javarda. Convidaram-me para entrar num super-blog mas tive medo e baldei-me. Finalmente abri o blog com uma amiga, mas aí foi ela que se baldou. Mas ainda estou à espera, gostava muito de estar num blog colectivo.

Nome? Zezé para os amigos, Flávio para os antigos colegas, Zé Flávio para os colegas quando decidem passar a amigos, Zé Teixeira em Moçambique. Bonanza para os muito velhos e especiais amigos. Agora Pai Zé, também. Mas lê lá bem, o nome completo está no blog, bem à vista, qual “caseiro”.

Aliás, quando o Ma-Schamba tinha ânsias de estético-literário seguiu incógnito, só me identificava a quem perguntava. Mas quando comecei a opinar política espetei o tal “caseiro”: abomino a opinião política anónima. Nisso o que não tem nome não tem cara. Não se lê. Porque é lixo.

Queres deixar alguma mensagem?

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Keep Walking [com poucas certezas, sff]

Publicado por Luis Ene at novembro 24, 2004 10:14

Publicado por JPT em 12:49 AM | Comentários (3) | TrackBack

agradecendo a simpatia do Paulo Pinto Mascarenhas e apreciando aquele "bloguiadores", o qual talvez venha para resolver um já doloroso problema terminológico.

(em completa recaída da autovirose)

Publicado por JPT em 12:33 AM | Comentários (0) | TrackBack

dezembro 21, 2004

Iconoclastia (?)

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A Saga de Mouzinho de Albuquerque por José Cabral

[reproduzido de PhotoFesta Maputo 2002. Primeiros Encontros Internacionais de Fotografia, Maputo, Associação Moçambicana de Fotografia, 2002]

Publicado por JPT em 09:02 PM | Comentários (0) | TrackBack

1000ª entrada

VERBORREIA (Lat. verbu + Gr. rhoía, de rheín, correr), s.f. fluência excessiva de palavras; verbosidade inútil; logorreia.

Publicado por JPT em 05:31 PM | Comentários (4) | TrackBack

Julguei que o Aqui é Nordeste tivesse acabado. Mas esse muito interessante blog ainda está em actividade, mesmo que muito espaçando os seus textos.

Publicado por JPT em 04:43 PM | Comentários (0) | TrackBack

Comentarismo no Bloguismo

É uma discussão antiga, a qual também já abordei. Devem os blogs ter sistema de comentários ou não? Como o referi presumo que cada um como cada qual, e francamente irritam-me os "deveres seres" que alguns rematam, assim tipo "o verdadeiro blog só o é se com comentários".

Mas ao ler processos destes, peças antológicas mesmo, não me restam dúvidas: pelo comentarismo conquista-se a civilização.

Publicado por JPT em 04:08 PM | Comentários (4) | TrackBack

Pão Nosso de Cada Noite

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Está pronto e belo, que há alguns dias tive as provas na mão, o tão esperado (anos de espera militante) livro de Ricardo Rangel "Pão Nosso de Cada Noite" fotografias preto-e-branco na noite dos anos 60 e 70 da então rua Major Araújo (hoje Bagamoyo), à época coração da boémia e prostituição da cidade.

Não, não é um documento, nem história, nem etnografia, e muito menos denúncia. É a noite, aquela vida, a muita beleza das mulheres, a muita música, e Rangel a olhar, a viver.

[Uma edição Marimbique, estará à venda muito provavelmente em Janeiro, a festa será em Fevereiro].

Publicado por JPT em 02:21 AM | Comentários (1) | TrackBack

dezembro 20, 2004

ESTOU A PEDIR "BOAS FESTAS"!!!!

E BOM ANO 2005!!!!

Publicado por JPT em 04:32 PM | Comentários (24) | TrackBack

O "Público" ...(que mais dizer?)

Pois, outra vez. Agora, é o Arqueoblogo a ser plagiado pelo "Público". Como diz o Francisco é muito "má onda". Ou melhor, má maré.

E bastava colocar aspas e/ou referência - lá pelo jornal estão a precisar de importar um pouco de escolástica, aquela que valoriza a quantidade de referências. Os rodapés pés-de-página. E ficava tudo tão mais elegante...

Assim...

Publicado por JPT em 02:14 PM | Comentários (1) | TrackBack

Descarada mas não enganosa

esta minha publicidade. Se ainda não esgotou a bolsa natalícia...

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Duas importantes edições D. Quixote, organizadas por Nelson Saúte: "As Mãos dos Pretos. Antologia do Conto Moçambicano" (2001) e "Nunca Mais é Sábado. Antologia de Poesia Moçambicana" (2004).

Panoramas muito completos, e legítimos, do conto do século XX em Moçambique, de Orlando Mendes a Orlando Muhlanga, e da poesia de XX e inícios de XXI, de Rui de Noronha à mais recente produção poética, mantendo ao fim o mito de Mutimati Barnabé João (António Quadros).

Antologias que juntam o interesse literário ao histórico-documental, e dizer isto não é desprimor estético. E que nelas encerram a vontade de problematização e mesclização do que é a "literatura moçambicana", processos em que Nelson Saúte, com Francisco Noa entre outros, foram e continuam a ser pioneiros. Aqui ainda discussão em aberto, por um lado já explícito pela relação que o património literário tem com a produção da imagem nacional. E por um outro lado, ainda quase-mudo, pelo relativo silêncio face à oratura, e articulação de ambas (mas a essa ainda irei antes do Natal).

Mas que estas considerações não assustem, isto são questões a propósito dos livros, nestes não estão os ensaios de tendência fastidiosa. Concisos e contextualizadores prefácios do organizador, e literatura.

Para além do mais são também livros ofertáveis em quadra, "ficam bem", e não os estou a desvalorizar, bem pelo contrário.

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Muito ofertável será também, mas já muito raro, a anterior colectânea organizada por Fátima Mendonça (ligação para um texto sobre Marcelino dos Santos que meses atrás emprestou ao Ma-Schamba) e Nelson Saúte, "Antologia da Nova Poesia Moçambicana" (Associação dos Escritores Moçambicanos, 1988).

Livros objecto? Nada, livros para ler.


Publicado por JPT em 01:30 PM | Comentários (0) | TrackBack

Terminou-se, a semana de anúncio de presumível aniversário, recepção dos parabéns, cumprimentos e até palavras simpáticas, aqueles elogios, no público do link ou privado do email, daqui a reciprocidade, claro. Terminou-se a semana da autocomplacência. E esta, se não aqui onde?

Segunda-feira, regresso da autofagia.

Publicado por JPT em 09:15 AM | Comentários (0) | TrackBack

um livro com cheiro de livro, papel de memórias

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Publicado por JPT em 12:08 AM | Comentários (0) | TrackBack

dezembro 19, 2004

Daniel Campelo

No meu país, a dois meses das eleições, abunda a produção de cenários pós-eleitorais. Antevisões que se apresentam exaustivas. Interessante que ninguém fale de Daniel Campelo.

Já que em período pré-natalício e de tops é esse o top-one dos cenários aqui no Ma-Schamba: só espero que o PR, desta vez, obrigue os partidos a anunciar o acordo. Para pior já chegou daquela vez.

Publicado por JPT em 12:07 AM | Comentários (0) | TrackBack

dezembro 18, 2004

A Barriga de Um Arquitecto

é um excelente blog desses raros de chegar e parar, nada de clic-clic. Hoje cumpre um ano de bloguismo. Obrigado.

Publicado por JPT em 12:50 PM | Comentários (0) | TrackBack

Espírito de Natal

O ano passado alinhavei aqui este texto sobre o Natal . Eis reprise, retocada, atendendo ao espírito de Natal.

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Natal em Maputo

Em cada Natal há mais natal em Maputo. Pois, em cada Natal, o tal da “paz”, “felicidade”, “amor entre os homens”, “todos os dias que um homem quiser”, “criancinhas”, “etc. e tal”, há mais gente apinhada por aí fora, um trânsito voraz nas avenidas mas também a querer-se escapulir em ruas e ruelas, que os buracos destas são agora esquecidos na pressa das compras - ai, quando maputo tinha poucos carros!, que sossego... -, gente até chorando os preços mas a encher o Fajardo, o Bazar Central, que esses vi eu e os outros só acredito, o Alto Maé encrespado de compradores de última hora, bem como lá na Baixa, e por todas essas bancas de rua, estas sempre o olho no cliente o olho no polícia, e lá no fundo da Luthuli o fantástico Ayob Comercial, filas ao sol esperando vez para entrar, ali a comprarmos as tralhas chinesas, maravilha de marketing essa baixa de preços em época de ponta, e até os prédios shoppings agora com visitantes feitos compradores, uma festa, uma festa, mesmo as iluminações do Natal vão surgindo, isto está moderno, cidade fazendo-se grande.

É verdade, chegou o horror do consumismo, a estragar o que deveria ser, o que antes foi, o espírito da quadra, as velhas “boas festas” da família apenas em concórdia. E tão estranho o é aqui, terra de tantas dificuldades, tantas privações que nos cruzam e nada mudas, ainda que nós tão surdos. Um paradoxo, amoral até, coisas da inconsciência.

É, é o isto que se vai ouvindo , e mais ainda nos intervalos das compras, entre os nós, estes com restos de alguma (boa) consciência, gente de cá ou não, que não passamos privações, já nascidos ou há muito habituados a consumir, antes do Natal, depois do Natal, até no Natal, estes nós que o fazem “todos os dias que um homem quiser”. Estes que vamos resmungando, desgostosos, com esse povo da cidade, certo é que coitado povo por tal o ser, e que assim se distrai, a querer-se, a fazer-se, a imaginar-se tão burguês, tão nós, nestas cópias gerando maus hábitos, os hábitos do ter, coisas talvez não para eles, talvez não sustentáveis.

Mas que fazer?, esta terrível globalização a padronizar modos, a fazer-nos iguais, a Natalizar-nos. Não será assim?


Publicado por JPT em 12:35 PM | Comentários (1) | TrackBack

O "Público" Aldraba

O jornal "Público", dito de "referência", rouba, plagia, destrata, finge e, por último, sacode a água do roto capote. O jornal "Público", dito de "referência", assaltou o excelso Substrato, depois destratou-o como pedinte de publicidade e, finalmente, nem se digna a um decente e proporcional "sua maxima culpa".

A falta de decência e honestidade de uma jornalista não pode fazer esquecer a indecência profissional da direcção: esta será responsável apenas em última instância pela aldrabice, mas é responsável de primeira linha pelo fugidio e desproporcional lavar de cara, deixando as ramelas. Espero, pelo menos, que o seu Provedor de Leitores, Joaquim Furtado, cuja absurda perspectiva sobre blogs já aqui abordei, faça justiça ao posto, refutando mas também denunciando em mais do que rodapé jornalístico este tipo de aldrabice e má-criação.

Pois J. Furtado, decerto vendo-se conde ou grã-cruz da República, dizia a 3 de Outubro de 2004: "Os blogues não são todos iguais. Uns (assinados por nomes conhecidos na vida pública) serão mais credíveis, ou até responsabilizáveis, do que outros.".

Com a actual aldrabice do Público poder-se-á, pelo contrário, dizer que os jornais são todos iguais. Uns muito conhecidos na vida pública não serão mais credíveis, ou até responsabilizáveis, do que outros mais esconsos. Não serão afirmáveis "de referência".


Publicado por JPT em 12:06 AM | Comentários (3) | TrackBack

dezembro 17, 2004

O Luís Miguel Rocha do Portugalidades anunciou o seu topo-dez de blogs do ano e integrou o Ma-Schamba. Aqui lhe agradeço a simpatia.

Publicado por JPT em 11:27 PM | Comentários (1) | TrackBack

Viva Beja

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O Ma-Schamba acaba de ser honrado com o prémio Pelourinho de Bronze, atribuído pela mui distinta Academia do Praça da República de Beja.

Comovido, só me ocorre afirmar: Viva Beja!.

[o discurso de agradecimento comentei no sítio adequado].

Publicado por JPT em 03:38 PM | Comentários (2) | TrackBack

Roupa Velha 23: Os dragões e a antropologia

Está o Rodrigo Moita de Deus preocupado com os dragões, e até se antevê machambeiro por causa do bafo (era um mal que lhe vinha por bem, afianço-lhe).

Um pouco a despropósito, lembra-me um texto sobre dragões que em tempos escrevi. Não será grande escama, algo hermético e confuso, além de longo: ainda por cima leva como sub-título "suma epistemológica". Mas aqui fica. Não como homenagem, mais como sensibilização na luta contra a dragonite. Que tais bichos ameaçam surgir por todo o lado...

[chamada de atenção para o WR, que habita por aquelas zonas...]

Comem os dragões cajú? (suma epistemológica)

Para a Antónia Lima, pisteira de dragões

Era Verão, eu estava em Portugal a acompanhar o parto da Carolina e, como é natural, tudo o resto desceu a bruma desinteressante e, até, um pouco bafienta. Num desses dias de rame-rame, ali ao café Polana onde estávamos aboletados, surpreendi-me com um colega do liceu, o Alcobia, do qual uns muito antigos rumores diziam morto de tão atropelado que fôra lá pelos lados do Vale do Silêncio.

Logo entrámos em narrações, eu a mentir com alguma parcimónia, num à vontade presumindo superioridade, e ele a dar-lhe pelo menos com tanta força, mas não seria só treta o ter andado pelos orientes, percebia-se pelos portos que contava. Então não é que ele tinha dado em embarcadiço?, nem percebi se em cargueiros ou paquetes, estivador ou gigolo, mas com aquelas papada e careca, já para não falar da lentidão no olhar, pareceu-me mais dado às mercadorias, mas nunca se sabe. Pouco miolo é certo, versando mais negócios (desperdiçados, dizia-me o seu jogo de olhos e ombros) e histórias de putedo. Largou-se num palrar de quem tem poucos a ouvi-lo, a denunciar o emigrado, e sem nenhuma curiosidade sobre as minhas coisas, notei-o. E sempre me desagradam os que mostram tão pouco interesse em mim como o quanto neles tenho, sinto-o um desmerecimento.

No meio do arrazoado dele pelo menos ainda consegui meter que também me tinha australizado, agora dava aulas e tudo. "Ah, na universidade, sim senhor, era de esperar, já naqueles tempos eras bom aluno", mentiu ele lembrar-se, pois tinha-me cruzado na balda, a passar-me a mão pelo pêlo não fosse eu pensar em cortar-lhe o pio contando-lhe a minha história, assim tornada tão desinteressante do previsível que afinal sempre fora.

E nem me deixou continuar nos meus méritos, logo a lembrar-se de um chinês que tinha conhecido em Macau, sábio de prestígio nas terras dele, mestre em dragões por Xangai, doutorado em histórias de dragões por Cantão, e com mais umas investigações sobre esses bichos, seus afazeres e arcaboiços achava ele, mas disso já não tinha certezas pois eram assuntos complicados. As últimas andanças em volta dos ditos répteis tinham arrastado o bom homem pelos mares da China até aportar a Macau, onde os acasos os tinham cruzado por coisas da que me pareceu ser uma amante comum, e a qual surgia ali na conversa a prometer outros relatos, de exóticos e eróticos gemeres. "Pois o homem é uma sumidade na matéria", frisava orgulhoso o Alcobia, então a pôr-me no meu lugar diante de tanta sapiência alheia, enquanto concluía invectivando-me a imaginar qual seria hoje o trabalho desse seu amigo, e eu a entreolhar-me, pois tanta coisa até me pareciam ares de polícia ou mesmo espião naquelas sempre agitadas terras chinesas, "pois dou aulas, claro. Se não existem dragões...!" citava-o, e com ênfase, o Alcobia.

Bem, como não conseguia fazer o meu relato aproveitei a breve pausa na qual armava ele o fôlego e fui-me despedindo trocando abraços e telefones enquanto lhe mentia um almoço, coisas de hábito na capital, fugindo aos capítulos seguintes da história sexual de um alcobia nas terras do oriente, os quais despontavam já no horizonte. Assim saí, algo perturbado na saudade dos tempos do liceu e também na nostalgia de um oriente ao qual nunca cheguei, e já se faz tão tarde. E também um bocado fodido, confesso, com aquela história de dragões a qual não tinha percebido, tamanha a placidez do gajo, se teria ali arribado para que me desse ele uma porrada, o sacana do marinheiro, ou se era mesmo só verborreia.

Para espantar a má disposição com que dali ia pus-me a descer a Estados Unidos da América, enquanto remoía as dúvidas acicatadas. Mas nestas alturas o que vale é ter a memória domesticada, lesta no saber escolher para aplacar as crises. E assim do tão irritado que estava, cheguei-me aos âmagos e, ali peão, do que me fui eu lembrar? das velhas arengas do gringo, sempre a jurar a existência dos dragões. Pois tinha-os ele encontrado e a tantos que desde então passara a ganhar a vida ensinando como o fazer, rodeado pelo respeito, até invejoso, dos colegas menos afortunados. E quando nós, alunos, alçávamos dúvidas, naturais em quem ainda não andou o mundo, lá ripostava o homem, enfático, que sossegássemos pois os bichos eram amáveis, davam-se a ver, cheirar, ouvir e até, e aqui chegado sorria-nos matreiro à conquista de cumplicidades, apalpar. Mas depois, e não fosse perder o prestígio, regressava, magistral, às enormes dificuldades que nos aguardavam. Que fossemos talentosos e sérios e eles viriam até nós, viçosos a mais as suas proles, mas caso contrário logo os dragões, sensíveis e mágicos, voariam no vácuo, esfumados num sopro.

Nestas lembranças amornei o suficiente para que se sossegasse o andar. Deixei-me então numa esplanada a acompanhar umas cervejas, ali muletas das certezas retomadas. E voltei ainda a esses tempos, todos nós em coro mudo a repetir de que tudo era moral, o mais importante era o "não mexer, não mudar, nunca comprar". Pois de tudo isso era feito o respeito, sem o qual desapareceriam os dragões, ariscos, e então adeus trabalho. Importante era jamais esquecer o não se poderem eles comprar, nem tão pouco suas pistas ou informações, pois senão estragada a magia e conspurcado o real logo este, amuado, se irrealizaria, a sarar.

Assim acalmei, mas já que ali estava e para não ficar sozinho a matutar, subi as Forças Armadas até à velha escola, ainda a toca de alguns amigos, uma gente que ainda me vai dando alguma atenção. Quem sabe se por andarem já fartos uns dos outros, e quando lhes apareço talvez lhes quebre o monótono do todos os dias, mesmo se a repetir o número do ano anterior, tal e qual, como se fosse um daqueles velhos circos no regresso de Agosto ao Concha Azul de São Martinho do Porto, em reprises da triste miséria e os veraneantes a rirem na mesma. Pudera, coitados, com o frio que fazia...

Logo que os encontrei pus-me a desabafar a história do Alcobia, talvez eles conhecessem o tal china, duns artigos ou congressos, os júris das fundações, quem sabe? nos últimos anos andou tanta gente por Macau... Mas nada, aliás essas nem são áreas lá da casa, ainda se fossem dragões de Goa. Mas ateou-se a discussão, existiriam ou não os répteis? Afinal por aqui o assunto continua actual, pois vão-se passando os anos e por mais que os procuremos não se acham esses cabrões. E assim anda mal o negócio, incertos os preços das buscas, tabelados por atenções e respeitos, tricotadas estes na amizade, pura e impura como sempre ela é, e sobretudo de medos, desses do "à volta cá te espero" que enchem a vida, essa puta a rir-se pelas esquinas.

Mas se ali tinha ido reforçar alento estava-me a correr mal a visita, já todos a desistir, apesar de tantos anos de estudos e pensares, ou se calhar por isso mesmo. Não resisti, meti-me em brios a opor-me, tal como se no reconvencê-los me convencesse a mim mesmo, e agora em definitivo. Invoquei então o nosso gringo com isso levantando sorrisos, mas estes já de velhos, reparei, semicerrados do tempo que passou e que fere mais do que toda a luz. Mas esse sossego foi-o de pouca dura, logo voltou a idade, céptica, nas objecções, que tudo aquilo era ingenuidade, tantos anos passados e ainda a acreditar que é mágico o real? E que histórias, então bastava um toque de respeitinho e era logo a passear-nos pelas tocas dos bichos, ainda para mais sem lhes dar nada em troca? E nesta borrasca já lá vinham, ameaçadoras, as habituais palmadas no ombro do "já são anos demais por lá, está na altura de regressares", esse célebre "perdido no mundo" a explicar estes meus devaneios.

Assim cutucado não me fiquei, aquilo já não era conversa, passara a despique. Insisti que havia resposta para tudo isso, e era essa a moral, uma moral mágica tal e qual o real, pois com ela se achariam os dragões, exactamente por esse respeito, o do dar mas sem nunca comprar. E nesta discussão ter-me-ei exaltado, agredi até, como confundir o dar com o comprar?, isso são coisas de quem tem pouco andar, ensimesmados nas próprias tocas sem ver o mundo. Distinção tão fácil, o comprar é dar em troca, o dar é partir o que se tem, o que nos sai da pele, e com isso lá virão os bichos até nós. E já afinado desafiei, "vamos lá ao gringo, para tirar as teimas", num tardio regresso a jovem aluno.

Aí foi o riso geral, e não tanto por causa da minha irritação. Pois às minhas historietas ainda ouviam, agora ao gajo nem pensar, e ali chispava a ironia. "Desilude-te", e contaram, ainda por cima o homem anda por aí à caça, mas insinua-se, deixa oferendas nas tocas a crer que assim os bichos lhe vão aparecer, e além de se gabar disso ainda quer ser pago por essas prendas, a resmungar que não ganha o suficiente, "Esqueceu-se desse respeito", gozava alguém, "se é que alguma vez se lembrou", logo veio a recarga, e em toda aquela ironia já se sentiam laivos de piedade, nem percebi se dele ou de mim ou de nós todos.

Custou-me a acreditar, ainda titubeei "mas...se quer que lhe paguem as ofertas está mesmo a comprar, lá se vai o real", e ninguém o avisa? seria aquilo possível, não se lhe iria volatizar tudo, no vácuo? Ou seria um desespero já senil, e nós cruéis ali a gozá-lo? Como eu parecia não desistir alguém somou, "olha, agora dá-lhes cajú... convenceu-se que como os dragões são pobres nunca comeram cajú e que quando o provarem vão gostar tanto que se tornarão seus amigos", ao que me brotou o espanto "onde é que já se viu dragões a comer cajú?". Súbito ficou gélido o ambiente e, para não dar parte de fraco, pus-me a morder o Rothmans a querer entrar, já atrasado, no jogo da ironia "e quem é que lhes paga as cervejas? é que com o cajú são obrigatórias, e bem geladas", mas aqui já nem tive resposta, tudo mudo de angústia ou vergonha, agora defronte dum real que afinal não havia.

Não resisti ao silêncio, retirei-me para casa até à Carolina, que até já estava no meu turno, e fiquei-me de guarda ao bichinho a remoer um whisky, aquecendo-o no tempo. Estúpido distraí a memória, e deixei-me lembrar uma carolina preta, a filha duns tipos encontrados há anos, andava eu aos dragões. Entrei-lhes pela cabana dentro, de entrevista em punho e lá estava essa carolina preta, meia dúzia de meses pequena e já só o branco dos olhos do revirados que eles estavam, no colo da mãe, e esta defronte de mim sentada na esteira atrás do marido, e a diarreia não largava o bebé, e eu impávido a perguntar-lhes da machamba, e do algodão, e da frelimo, e da renamo, e do bafo do dragão, e o homem de braços cruzados a semirresponder, e eu era vampiro, e não dei dinheiro senão tudo virava irreal, e lá perdia o trabalho. Como a conversa não andava, pudera, avisei que voltaria no dia seguinte, e lá estavam eles à minha espera, eu de novo de entrevista em punho e a carolina preta, com o branco nos olhos do revirados que eles estavam, no colo da mãe, e esta defronte de mim sentada na esteira atrás do marido, e a diarreia não largava o bebé, e eu impávido a perguntar-lhes da machamba, e do algodão, e da frelimo, e da renamo, e do bafo do dragão, e o homem de braços cruzados a semirresponder, e eu era vampiro, e o bebé era óbvio que a morrer-se, e a mãe a agarrar-se a ela não fosse eu querer levar-lha ainda antes da hora, e eu para que tudo não virasse irreal não dei dinheiro, não os levei lá longe à Província ao hospital, e a carolina preta só inerte, os olhos revirados, e os pais apenas ali, e a cria do dragão a não medrar, e eu sem cajú, sem lhes comprar cajú, sem lhes dar cajú...

Comem os dragões cajú? Mas quem é que não gosta de cajú?
Cabrão do gringo..!
Que porra de dia!

Publicado por JPT em 02:51 PM | Comentários (0) | TrackBack

Kyoto, o Ambiente e a Pequena Política

Todos o sabem, durante meses falou-se até à exaustão das eleições americanas. No bloguismo português foi uma correria, até eu me posicionei. Tenho, e tê-la-ei dito, a minha opinião. É óbvia a importância dos EUA para o contexto internacional mas, acima de tudo, ela não é nenhuma novidade, nem em grau nem em intensidade. Daí que o extraordinário fenómeno do "tomar partido" nas eleições americanas que ocorreu, "bisturizando" a tradição ideológico-política europeia, muito significa um grande empobrecimento ideológico.

Foi um tralalá, com gente a pensar por analogia, como se houvesse (ou fosse possível) a universalização (a "globalização"?) da dicotomia "democratas"/"republicanos". E um tralalá cheio de argumentação sobre meros epifenómenos recorrentes, aka Iraque, um episódio que na prática apenas significa "nada de novo na frente global".

Porque me lembro disto, hoje sexta-feira pré-Natal?

Porque muitos poucos exalto-bloguistas li discutir a política ambiental de Bush, essa sim estruturante, essa sim fundamental, essa sim urgente. Essa sim que tem a ver com o dia-a-dia das "famílias" e das "sociedades". Por aqui escrevi que sempre me espanta um conservador que não está atento à preservação ecológica - é uma contradição de termos, intelectuais e morais.

Recordo que há anos Bush recusou uma política ecológica, urgentissima, sistematizada no protocolo de Kyoto, entendendo-a contrária ao "american way of life" - aliança óbvia aos grandes interesses industriais de curto-prazo (e de certa forma uma posição estatal contrária ao primado da concorrência criativa, em meu modesto entendimento) mas, mais do que tudo, uma explícita subordinação do "world way of life", uma condensação de uma visão do mundo.

Há muito pouco foi noticiada a re-recusa do protocolo, afirmando-se-lhe falta de fundamentação científica. Significando a continuação de uma política ambiental absurda, e que a lusosfera continua a ignorar, na sua maioria. Política ambiental essa que, inclusive, foi apoiada em alguns blogs lusos (não retive nomes, nestas leituras rápidas).

Hoje leio a entrevista do Ministro do Ambiente português, Luís Nobre Guedes, decerto insuspeito de manipulações anti-americanas. Nobre Guedes refere isto:
"...défice em termos de alterações climáticas - uma política que pudesse fazer frente a este problema que é o problema número um do sec. XXI -, défice em termos de estruturação da água e dos resíduos". Ou seja, anunciando que para ele Bassorá e as mesquitas dos arrabaldes de Argel não são o ponto focal da existência humana.

Bem, seria de esperar que agora, esmagada a Toupeira estalinista John Kerry e os seus acólitos Chamberlains, se começasse a pensar de modo algo diferente. Talvez o sossego permita re-olhar o mundo menos dicotomicamente. A preto e branco. Têm a palavra os mais bushistas? Ou todos?

Publicado por JPT em 11:16 AM | Comentários (0) | TrackBack

De novo a Sé de Maputo

Atrás referi e coloquei a Sé de Maputo e a sua antecessora, esta em fraca fotografia.

Agora o Rui M. P. do Companhia de Moçambique, que continua a reproduzir as imagens dos maravilhosos livros de Santos Rufino, enviou-me uma outra fotografia (incluída no vol. III de Santos Rufino, 1929), da velha igreja paroquial de Lourenço Marques. Mais do que lhe agradeço.

Ei-la:

Igreja_velha.jpg

Publicado por JPT em 07:08 AM | Comentários (2) | TrackBack

dezembro 16, 2004

A Morte de uma Revista

Chegou-me ontem às mãos a nova Proler, o nº 12.

Prolercapa.jpg

Incluindo um texto de Armando Jorge Lopes, bem actual, "Língua, Língua: homogeneizar, heterogeneizar?", um artigo de Russel Hamilton sobre José Craveirinha, a continuação do dossier que Artur Minzo veio apresentando sobre a relação da literatura oral e da escrita. E uma muito bela entrevista a Mia Couto, na qual ele fala de literatura ("Os meus adversários moram todos dentro de mim"), de pluri-identidades ("a literatura tem a grande capacidade de viajar pelas identidades que existem dentro de nós, cada um de nós é uma mistura") e da (sua) cidadania, a qual exerce, muito e de modo corajoso, diga-se ("...ficar calado não me apetece").

A Proler, cume da imprensa cultural em Moçambique, anuncia o seu encerramento, após 13 edições (12+especial Craveirinha). Compreendo o seu final, mas lamento-o, empobrecerá a sério a reduzida divulgação cultural aqui. A revista do Francisco Noa tem alguns anos e uma particularidade: foi melhorando, conteúdo e grafismo, ao longo do tempo. E isso é de referir. Fácil é ter umas ideias e alguns fundos e avançar. Para depois ir minguando, à falta de energia. Difícil foi construir este projecto, passo a passo, dificuldade a dificuldade (e tantas foram). E, egoísta, lamento-o pessoalmente, em 40 anos a Proler foi o único sítio que me pediu para publicar textos meus. E, imagine-se, pagou-mos.

Um abraço Chico.

Publicado por JPT em 03:05 PM | Comentários (6) | TrackBack

Estatísticas de visitas

O Apenas Mais Um, a demonstrar se tal fosse necessário a legitimidade do seu "Gandula Engenheiro Objectivo", debruçando-se sobre a fiabilidade dos contadores de visitas. De uma atenção implacável este meu blogoamigo.

Publicado por JPT em 09:35 AM | Comentários (18) | TrackBack

Peny-Penny em Inhambane

O Rui Baptista no Amor e Ócio a sofrer em Inhambane, uma delícia. Já lá o comentei, foram males de quem em Inhambane não segue os conselhos do Chico Guita (aka literário Guita Jr.).

Publicado por JPT em 09:01 AM | Comentários (0) | TrackBack

Bloguismo e Comentarismo

O mês passado uma insónia mais persistente impeliu-me a quatro textos sobre blogar. Diga-se que a tal insónia foi da responsabilidade do Luís Ene, a escrever sobre elites.

Hoje ao ler o Asilo do Obstinado sobre o encerramento de comentários no blog Barnabé incorro no pecado da auto-citação, vaidoso desvio é certo:

"Mas, em última análise, os comentários são da responsabilidade do(s) dono(s) de blog. Directa, porque tem obrigação de seleccionar o que acoita e ecoa. Claro que não se pode exigir que os bloguistas fiquem de plantão, à espera do comentário que aí vem. Mas é ele o dono da casa, donde o dono do critério. Indirecta, pois é ele que produz opinião, induz opinião e cria ambiente de comentário. O que lá está brota, em grande parte, do autor do blog.".

[espero, sinceramente, que o bloguista que a isto mandou porrada assim como quem não quer a coisa, assobiando para o lado, atire agora uma pedra para as suas próprias telhas]

E lembro que quando comecei a blogar os bloguistas de esquerda diziam que a diferença entre blogar à direita ou à esquerda se encontrava em incluir ou não sistema de comentários. Ao que os bloguistas de direita sorriam silenciosos, assim anuindo.

Espero, sinceramente, que todos tenham acabado as respectivas colecções de cromos. Pois nada é tão inútil como uma caderneta inacabada.


Publicado por JPT em 01:37 AM | Comentários (10) | TrackBack

dezembro 15, 2004

ainda crescimento e educação, mas para além disso

Respondeu, amável, João Miranda ao que aqui deixei, meio atabalhoado. Tem razão o comentário do MiguelS, ele próprio muito mais dotado e tarimbado para falar da economia daqui, já deixei texto excessivamente longo. Mas ainda assim regresso ao tema, maçando, pois certas palavras são como as castanhas do caju. E regresso face ao texto de JM pois parece-me que não terei sido explícito, ainda que longo.

1. Eu não afirmo que o investimento na educação seja universalmente precedente, e causa do crescimento económico. Foi afirmado uma relação causal empírica, procurei (e demorei) afirmar que quanto muito serão, neste caso, concomitantes. (JM sublinha 10 anos de crescimento económico, eu claro que concordo, mas vou dizendo que são 30 anos - incluindo os da guerra - de acelerado crescimento educacional: e isto num país ainda muito pobre e ainda com baixa escolaridade).

2. Sublinho que a essas precedências causais torço o nariz. Um pouco similar é o postulado mainstream actual, o qual afirma a democracia como causa do desenvolvimento. Também aqui acho muito forçado a universalização. Afirmo-o aqui para reforçar a minha reacção ao texto de JM. Não lhe quero inverter causalidades, discordo do exemplo empírico escolhido e, mais do que tudo, da abordagem.

3. Enquanto meio para o crescimento económico (e eu fujo a encher o Ma-Schamba com a questão da relação nada linear crescimento-desenvolvimento, aqui não é o meu local de trabalho) posso interrogar-me se uma sociedade sem recursos endógenos ou exógenos pode investir na educação. Aí JM terá razão. Mas também poderemos questionar se uma sociedade sem recursos humanos formados pode produzir e integrar/reproduzir a riqueza produzida? Não falo de "pescadinhas de rabo na boca", soluções eunucas. Falo de que me choca a linearidade causal.

4. Há uma dimensão implícita no texto de JM, e também no meu exemplo paralelo. É a educação um meio ou um fim, um instrumento ou um valor em si? Ou, para retomar a dicotomia a que eu apelei, é a democracia um meio ou um fim, um instrumento ou um valor em si?

5. No que toca à formulação de JM a subordinação causal não surge como mera descrição. É também uma postura intelectual. Não quero violentar o pensamento alheio, mas parece-me óbvio que o que afirma é um privilegiar do investimento social no crescimento económico em detrimento de uma política sublinhando a educação. Mais, quando diz que "os países que investem" eu não resisto a lê-lo como afirmando (e estou a interpretar o bloguista que já vou conhecendo) "os Estados que investem".

Esta é uma posição política crítica perfeitamente legítima. Aquilo que me choca é assentar (pelo menos bloguisticamente) em generalizações apressadas que, e desculpo-me do imperativo, a ilegitimam. Torno a chamar a atenção para o comentário do Luís Aguiar-Conraria sobre os pressupostos da utilização da comparação.

6. Vai longo e não quero maçar mais. Apenas isto. Porquê tanta linha sobre blog outro? Acho piada ao Blasfémias, uma azáfama. Mas mais do que isso, é muito interessante ver um blog liberal cheio de sucesso e leitores. Eu não me revejo no liberalismo económico, talvez costela aqui ou ali, mas espinal medula social-democrata. Mas em Portugal não há tradição de pensamento e disseminação de informação sobre o liberalismo: herança católica, fascismo e coorporativismo, sua oposição muito marxizante, uma democracia estadocentrada (por herança do brevissimo período revolucionário mas acima de tudo porque sistema de reprodução política).

Daí que um blog liberal, cheio de gente de boa e rápida tecla é interessantissimo e mais do que tudo, bem-vindo. Talvez por isso me irrite tanto com a pressa linear que vou aqui e ali descobrindo - ainda que não esteja a exigir uma revista filial de universidades inglesas, claro está.

7. Referir o interesse do Blasfémias não é afirmar-lhe nenhuma responsabilidade social. Credo! Tudo menos isso. Já disse, e repito, cada blog como cada qual (ou quais). Do bloguismo, e repito-me de novo, velho, acho que o mais interessante é o fenómeno de auto-edição (poesia, prosa, desenho, foto) e colectânea. Mas esta disseminação da expressão escrita política é também fundamental, ainda para mais cruzando gente a pensar diferente, o que talvez impelisse a um menor linearismo (palavra aqui posta para fugir ao panfletarismo, que é assim um bocadinho agressivo). E neste sentido aqui chamo a atenção para um texto ao qual cheguei via Ideias-Soltas, colocado no Albardeiro, blog que desconhecia.

Cito-lhe excerto: "Pelo contrário, a blogosfera permite o alargamento exponencial daquilo que Pierre Bourdieu define como “competência social” para ter opinião política, retirando-a do domínio exclusivista da tecnicidade burocrático-profissional. E se, em muitos casos, essa dimensão interventiva dos blogs ainda não se verifica, como diz o ditado “o caminho faz-se caminhando”.

E acho que caminharemos melhor se juntarmos a ligeireza e a brevidade do post com um bocadinho menos de pressa. Falo da educação em Moçambique? Também, mas muito das irritações deste Ma-Schamblog, como disse o Mar Salgado.

A seguir a esta verborreia vou passar uns dias a meter fotos, claro está.

Publicado por JPT em 05:47 PM | Comentários (2) | TrackBack

Eleições em Moçambique: fontes

A (re)lembrar que para acompanhar as eleições em Moçambique este é um sítio bastante recomendável, o Boletim da AWEPA, coordenado por Joe Hanlon, secundado por Adriano Nuvunga.

Publicado por JPT em 02:15 PM | Comentários (0) | TrackBack

Crescimento e Educação II

Concluindo o texto ontem encetado, relativo à utilização que João Miranda fez do caso moçambicano para afirmar dissociação entre educação e enriquecimento nacional.

JM baseia o seu raciocínio numa consideração. Moçambique tem uma baixa taxa de escolaridade. Portanto pressupõe uma não aposta na educação. Relaciona isto com o facto de que Moçambique ter um elevado crescimento económico (10%). E assume o corolário lógico, que logo generaliza ("globaliza"?), a educação não é anterior ao crescimento económico.

Não vou aqui discutir essa tese. Mas o caso empírico que serve, indutivamente, para provar a afirmação de JM.

1. Moçambique tem uma baixa taxa de escolaridade, mas isso não implica uma não-aposta. Recorro, sumariamente, à história. À época da independência a população escolarizada era mínima. Sei que dizer isso para leitores portugueses é estar a chamar o coro dos "eu tinha colegas negros no liceu". Honestamente não vale a pena discutir com esses, ainda hoje vêm o mundo do tamanho do seu quintal de então (onde, dizem, tratavam bem os empregados) e da sua sala de aula. E 30 ou 40 anos depois ainda não cresceram.

Com os que vale a pena argumentar poder-se-á resumir: o ensino (tal como a sociedade) era muito racializado; a população negra que ascendia ao ensino secundário era da camada "assimilada" (pouco mais de 1% da população) e mesmo nesta nem todos o conseguiam. Esta chegada ao ensino secundário foi tardia, na sua maioria nos anos 60. As causas desta barreira racial não são estranhas: a criação de uma camada negra formada era vista como inútil (racismo explícito), perigosa (criação de mentes independentistas ou rebeldes), contraproducente (criação de uma concorrência no mercado de trabalho face aos portugueses - aliás houve uma política de branquização dos serviços no LM de finais de XIX, em prejuízo de uma pequenissima camada "crioula" então existente) e desnecessária (não esquecer que a própria população portuguesa era muito pouco escolarizada: "o vinho é que induca").

O ensino avançado restringia-se a essa pequena parcela de filhos de "assimilados", do qual uma ínfima parte ascendeu à universidade. Havia ainda um ensino proporcionado em especial pela Igreja Católica, que tendo dimensão quantitativa (muito propalado no mito colonial, e ainda hoje) se restringia, na sua maioria, a uma espécie de 3ª classe muito rudimentar. Refiro ainda outras missões cristãs, de difícil relacionamento com o Estado de então, e com políticas mais extensivas de ensino.

Na independência escasseiam os quadros. Retiram-se (por vontade própria e muito por indução) os portugueses.

Daí em diante houve um esforço na criação de um sistema educativo. Até com uma crença, que hoje parecerá estranha, nas capacidades endógenas, cria-se no final do subdesenvolvimento em vinte anos. Um típico voluntarismo revolucionário.

Depois a guerra civil. Múltiplas causas. E um dos efeitos será o da destruição do sistema educativo entretanto criado. Pela guerra, pela deslocação de populações. Mas também pelo facto de que o professor rural, tal como o enfermeiro, era o símbolo do Estado, o funcionário do Estado no mundo rural. Donde o primeiro alvo.

Após a paz de 1992 retoma-se a construção de um sistema de educação generalizado. Julgo que cerca de 1997 a cobertura estava já ao nível de 1983, quando os efeitos da guerra começaram a implicar a sua retracção. Tem continuado a crescer, ainda que com enormes lacunas. Na segunda metade de 90 criaram-se 7 Institutos do Magistério Primário, procurando aumentar número e qualificações dos professores. Alarga-se a formação de professores do ensino secundário ao centro e norte. Etc, etc.

Também o ensino superior foi crescendo em número, sendo descentralizado. Crescem as universidades privadas, que contam com apoios indirectos do Estado. Em suma, há uma verdadeira aposta na educação. Digo-o consciente do gigantesco deficit que o sistema de educação moçambicano tem. Mas esse deficit não pode ser considerado uma não-aposta. Deve é ser considerada uma aposta realizada a partir de condições muito frágeis, muito incipientes. E num país com muito poucos recursos, e muito dependente nesta matéria da ajuda externa. E nessa condição ser uma política passível de críticas. Mas isso são contas de outro rosário, não aqui, não meu.

Ou seja, a base do raciocínio de JM, a não aposta na educação porque há baixa taxa de escolaridade é totalmente falsa.

E atenção, seguindo-lhe a metodologia de raciocínio. Se um exemplo de JM serve para provar a sua tese, será que afirmar-lhe a inexactidão empírica é suficiente para a infirmar?

2. A economia cresce 10%, é fantástico. Mas as estatísticas são muito falíveis, os sistemas de recolha de informação são muito frágeis, como em grande parte da África subsahariana. É voz corrente, ainda, que as estatísticas moçambicanas foram durante anos a fio subavaliadas, no sentido de garantirem posições privilegiadas na recepção de ajuda internacional. Mais, aquilo que é economia "formal" e "informal" e suas interrelações é muito fluído, no ano-a-ano. Portanto é possível relativizar o tal crescimento. [E isto não nos poderá surpreender, sabendo o local estratégico que o INE português constitui].

Mas mais importante, este crescimento económico assenta em alguns, e muito poucos projectos. A instalação de uma fábrica de alumínio em Maputo, a Mozal, implicou um crescimento macroecómico na ordem daquilo que JM fala, e o seu desenvolvimento continua a influenciar os agregados macroeconómicos. O reestabelecimento da produção de Cahora-Bassa (aliás associado ao funcionalmento da Mozal) inflaccionou estes números. Há, aceite-se, uma lenta melhoria económica do país (notícia de agora, a produção de açúcar a níveis do tempo colonial). Mas os números não são assim tão mágicos, reflectem o impacto de poucas unidades de capital estrangeiro (e exportável, atenção) numa economia praticamente desindustrializada. Não estou a criticar o modelo, estou a constatar.

Ou seja, falar de um grande crescimento económico deverá acompanhar duas questões. Sobre a natureza dos números, o seu efectivo fundamento. E, acima de tudo, sobre o seu impacto social. Quando falo de "social" não estou a falar de redistribuição, pobrezinhos e etc. Estou a falar do seu impacto na sociedade, e nas suas modalidades de reprodução.

Ou seja, o segundo termo da equação de JM é muito discutível [eu não sou economista, não posso mergulhar nesta contra-argumentação com tanto arreganho como no ponto anterior]. Se um exemplo de JM serve para provar a sua tese, então afirmar-lhe um exemplo discutível servirá para lhe provar o contrário?

3. A articulação entre educação e crescimento tem aqui um exemplo interessante. Já aqui falei da Mozal, fábrica de alumínio de aparência sul-africana, bandeira australiana, capital da Mitsubishi, mas verdadeira sede alemã. O seu impacto na economia (os tais números) do país foi gigantesco. É uma unidade fabril moderna, ao que parece de ponta - um colega meu, o excelente Paulo Granjo do ICS está a trabalhar sobre ela, e muito mais poderia dizer do que eu. Mas aqui o que será interessante é notar que para uma fábrica de ponta, com processos tecnológicos e organizativos radicalmente novos no país (e salários elevados para este mercado) foram recrutados operários com ensino secundário e licenciaturas - eu próprio tive um aluno de ciências jurídicas que lá é operário. Porque essa escolarização era preferencial para a selecção de futuros operários a trabalharem com metodologias inovadoras no país.

4. Entenda-se, esta minha argumentação, que espero não parecer panegírica, porque não tem essa intenção, não invalida a tese de JM. Nem a discute. Nos comentários ao meu texto o Luís Aguiar-Conraria tece considerações sobre cuidados prévios à utilização do método comparativo. Concordo no global.

É que acima de tudo interessa-me aqui ver como se afirmam verdades gerais assentes em extrapolações sobre casos individuais nada compreendidos. Isto não é um erro inibitório. Se assim fosse não poderíamos falar de algo sobre o qual não fossemos bastante conhecedores (para evitar o extremismo "especialista"). Mas o vigor deste tipo, constante, de extrapolações é uma falência do raciocínio, em última análise matriz dos dogmatismos que o Lutz ali adivinha. No fundo os mesmos processos dos velhos marxistas ortodoxos. Nem mais.

O interesse do real é ser tão complexo. Não cabe num post. Em especial quando o queremos assertivo.

(isto está um bocado mal mastigado, mas hoje terá que ficar assim, que é de madrugada já)

Publicado por JPT em 02:06 AM | Comentários (8) | TrackBack

dezembro 14, 2004

Ilha de Moçambique

Nunca o Ma-Schamba teve tantos visitantes como neste dia de aniversário, decerto porque muitos foram os turbo-leitores (a quem abaixo agradeço, reconhecido). Na expectativa que alguns ainda regressem aqui deixo algo que há muito está pendurado.

Tive ao longo de uns poucos anos alguma coisa a ver com a Ilha de Moçambique, coisa de trabalho diga-se. Muito me apraz uma capelinha que por lá subsiste, e que se lixe a modéstia. Mas, no correr do tempo, muito ouvi dos meus patrícios sobre o quanto e o como fazer na Ilha, entre mais ou menos pomposas deslocações e camarões. Um dia, numa conferência da UNESCO sobre a reabilitação da Ilha de Moçambique, aqui decorrida, até ouvi um qualquer desavergonhado patrício bem pago anunciar o donativo de um milhão e meio de contos pelo Ministério do Ambiente. Disse-o sem pestanejar, o escroque...Mas enfim, isso foi passado.

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Tenho em casa esta revista institucional, datada de Dezembro de 2003. Nela Pedro Santana Lopes, então presidente da Comissão Executiva da União das Cidades Capitais de Língua Portuguesa (UCCLA) anunciou:

"A recuperação da Fortaleza de São Sebastião é uma obra que muito nos orgulhamos. Lembro que quem primeiro me alertou foi o anterior Cardeal Patriarca de Lisboa, era eu Secretário de Estado da Cultura (1990-1994). O senhor D. António Ribeiro estava de regresso de uma visita à Ilha e ficara impressionado com o estado de degradação da Fortaleza, a primeira erguida pelos portugueses no Índico. Falou-me de como era importante a sua recuperação, até por se tratar de um dos maiores atractivos turísticos da Ilha. Entretanto a Fortaleza foi declarada pela UNESCO como Património Histórico da Humanidade. E, neste momento, estamos em vias de firmar um acordo com a UNESCO para a recuperação da Fortaleza. A UCCLA participa com 600 mil dólares e a cooperação japonesa com um milhão de dólares".

Estou satisfeito. E orgulhoso. Quando começam as obras?

Publicado por JPT em 10:36 PM | Comentários (5) | TrackBack

Modelo colonial

No Pura Economia um ilustrativo exemplo do Moçambique colonial.

Publicado por JPT em 08:27 PM | Comentários (0) | TrackBack

Está de maré,

então seguem os parabéns para o xadrezístico Empatia, hoje a cumprir aniversário.

Publicado por JPT em 06:54 PM | Comentários (0) | TrackBack

Agradecendo os Ma-Schambéns (act.)

a quem os afixou em sua casa:

Ao Diário Ateísta, em especial à Mariana Pereira da Costa por este delicioso trocadilho "Ma-Schambéns"; à Loucura e Nata [ainda bem que a minha Inês não lê blogs], à Praça da República em Beja [em pleno pelourinho, neste caso], à Vadiar, ao exagerado Povo de Bahai, ao Random Precision, aos militantes do Tugir, ao gastrónomo Contrasenso, à Welcome to Elsinore, ao Forum Comunitário, ao Adufe, ao Blasfémias, ao Klepsýdra, ao Bloguítica (com quem já caturrei), ao Em Português, ao Absurdo Ponto, à Montanha Mágica (eu sempre preferi hoteis nas três casas verde-escuro), à Chora-Que-Logo-Bebes, ao Espumadamente, ao Apenas Mais Um, ao Jaquinzinhos, ao Ideias Soltas, à Eclético, ao Daedalus, ao Portugalidades, ao Avatares do Desejo, à Vemos, Ouvimos e Lemos, ao Amor e Ócio, ao Empatia, ao Cibertúlia, ao Acidental, ao Bazonga da Kilumba (fizemos desconto de tempo no nosso "contraditório"), ao Contra-a-Corrente, ao Aviz, ao Portugalidades, ao Babugem, ao Rua da Judiaria, ao Mar Salgado (pouco escorbuto, bons ventos e nada de cabotagem, é o desejo deste Ma-Schamblog), ao Letras com Garfos, ao Miniscente, Touch of Evil...(hei-de actualizar).

E também Obrigado a quem aqui os deixou (e alguns, em cúmulo de companheirismo, até a acumularem o abraço) ou fez chegar.

E um obrigado especial (ainda que impessoal) ao Posto de Escuta Tecnhorati.

Publicado por JPT em 03:16 PM | Comentários (13) | TrackBack

Simuladores

Tenho alguns amigos que adoram simuladores de voo. Confesso que sempre me custou a imaginar gente interessada, culta, até ácida, escondida em casa deliciando-se com descolagens, tráfego aéreo e quejandos. E espanta-me quando se assumem, entrecortando conversas impondo-nos as excelências e dificuldades respectivas de tal ou tal aeroporto.

Deles ciumento vinguei-me, brinco agora neste Simulador de Vida.

Marca Weblog, modelo Ma-Schamba.

Publicado por JPT em 02:34 PM | Comentários (4) | TrackBack

Ich bin ein Paulo Querido.

Publicado por JPT em 08:15 AM | Comentários (0) | TrackBack

antes do Crescimento e Educação,

e enquanto alerto para que abaixo dois Blogo-Titãs se cruzaram nos comentários, assim honrando a modesta horta, gostaria de recomendar este texto sobre o tremor de terra em Portugal de hoje. Muito educativo.

Publicado por JPT em 01:32 AM | Comentários (2) | TrackBack

dezembro 13, 2004

Crescimento e Educação

João Miranda acaba de colocar um texto no Blasfémias utilizando Moçambique como exemplo de uma tese.

1. Há alguns dias que tenho grandes dificuldades em comentar no sistema blogspot, recebo negativas mal-criadas deste teor: "Open proxy detected. Comment posting disabled. If you think you have received this message in error, please contact the webmaster." Como o Blasfémias tem um ritmo trepidante de colocações julgo que quando conseguir meter algo por lá o texto em causa já estará no limbo do pé de ecrã. Daí que o aborde aqui. Reza assim:

"Moçambique tem das mais baixas taxas de escolaridade do mundo.

Moçambique tem das mais altas taxas de crescimento económico do mundo (na casa dos 10% ao longo dos últimos anos).

Conclusão: os países não ficam ricos porque apostam na educação. Os países apostam na educação quando ficam ricos."

2. Para mim JM é um caso complicado na blogosfera portuguesa. Lendo-o há meses, desde os tempos do seu blog individual, confesso que ainda não o percebi. Bloguista talentoso é-o, verve e acutilância, síntese e provocação. Mas é a sério ou é a brincar? A sociobiologia light, os simplismos sobre o liberalismo, as analogias históricas, tudo isto é assim mesmo ou são só carolos para "abrir cabeças", pedradas na pasmaceira? Confesso-me confuso, medíocre intérprete. Mas custa-me crer num projecto a tão longo prazo de ironia grosseira [leia-se "grossa"] de aparência intelectual (até porque me parece pouco eficaz quanto a "abrir cabeças"). Cada vez mais me convenço em que tudo aquilo é a sério. Se calhar este meu pendor para uma versão "séria" está influenciada pelo actual (e sério) relativo mal-estar de alguns membros do Blasfémias, o qual espero seja em breve ultrapassado. Que aquele postar contínuo já faz parte da blogoespreitadela quotidiana.

3. Isto não é uma questão pessoal, eu leio JM porque gosto de o ler. Se não gostasse ia à minha vida, lia outras coisas, não se justificaria andar para aqui a escrever sobre tudo isto.

Mas tem a ver com o que acho disto tudo, do bloguismo. Há bloguistas que se levam a sério, alguns exageradamente a sério. Outros surgem ligeiros, outros irónicos e, o supra-sumo, auto-irónicos. Há ainda outros insuportavelmente ligeiros.

Cá em casa mora um que tem dias de insuportável auto-convencimento, preocupado com os males do mundo (mais do seu país) e convicto de que a sua palavra vale de algo, heurístico curandeiro. Soberba diria, se católico. Mera estupidez diz, quando mais bem-dormido. Mas entendendo eu um blog como um diário também lhe aceito as variações do humor, e que cada um tem o direito de se achar importante ou desimportante, útil ou inútil, clarividente ou tralalá. E de mudar de ideias ao longo do(s) dia(s).

4. Regresso a JM, porque ilustre blogard. E ao seu post de hoje. Da síntese sobre Moçambique retira uma tese (oops, dialéctica, os alemães, os alemães...): o investimento na educação é exógeno ao crescimento económico.

Ora veja-se, a síntese não vale um caracol. É errada nos seus termos. Absolutos. E relativos (não, não é o temido relativismo, é contextualização, história - e atenção, contextualizar com a história não é historicismo).

[Agora vou à clínica com a miúda, lá para a madrugada continuarei]
[Lamento, fica para logo de manhã]

Publicado por JPT em 11:15 PM | Comentários (5) | TrackBack

Um Ano formal

Quando comecei o Ma-Schamba foi na povoação Mpundzu, algo hierática na sua gestão, coisas de mais-velhos, os textitos eram entregues mas retidos até qualquer perfeição no desenho do sistema, que por lá se adaptava papá Weblog.com.

Daí que, e muito ruralmente africano, o Ma-Schamba desconheça o seu dia de nascimento, o verdadeiro dia do seu primeiro post. Mas nesses primeiros papéis estava o dia de hoje, o qual foi depois mudado no registo do distrito Weblog, quando para cá se migrou. De qualquer forma fica-se a saber, pelo menos um ano tem o Ma-Schamba.

Muito tempo, exagerado tempo. Pois um ano de rádio-amadorismo já é doença de foro nervoso.

Ainda assim, e qual brinde, repito o primeiro post:

Sobre a terra trabalha, e como ninguém, o senhor Carvalho

“...a lances de catana e de machado desfaz a rama e a trama dos espaços virgens. Prepara um espaço para a nova lavra, esgotado o humus de uma lavra antiga. Alarga a circunferência de chão raso. Devolve o sol à terra e dá-lhe a mansa forma de um corpo fecundável e passivo. O tronco nu progride mata a dentro. Governa os braços firmes e velozes, confere exactidão ao gesto azado. E os fustes, gemem, fendidos pelo golpe. Martela, vigoroso, a rijeza maior de alguns dos paus, depois transforma em lenha as copas derrubadas...”

E assim continua por páginas várias, possuidor que é de incontáveis artes e engenhos, decerto porque de pactos com os seus diabos.

("Como se o Mundo Não Tivesse Leste", Cotovia, 117 )

Publicado por JPT em 08:44 AM | Comentários (45) | TrackBack

dezembro 12, 2004

Excerto de "Na Primavera"

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As pessoas como o senhor Bubentsov nada compreendem de arte e interessam-se pouco por ela, mas, em contrapartida, se encontram os sem-talento, os medíocres, então são inexoráveis, impiedosos. Estão sempre prontos a perdoar a quem quer que seja, excepto a Macário, este original azarento que tem manuscritos fechados na arca. O jardineiro deu cabo de uma velha figueira e deixou apodrecer uma quantidade de plantas de preço, o general não diz nada e dissipa o bem dos outros, o senhor Bubentsov, no tempo em que era juiz de paz, não tratava dos assuntos senão uma vez por mês e, durante a instrução tinha soluços, emaranhava as leis e dizia idiotices, porém, tudo isso se perdoa, não se anota; todavia, não é possível deixar de notar, ou de cruzar sem dizer palavra, este sem-talento chamado Macário, autor de versos e de contos insignificantes, é preciso fazer uma reflexão contundente. Que a cunhada do general esbofeteie as suas criadas de quarto e pronuncie, ao jogar as cartas, blasfémias de lavadeira, que a mulher do pope nunca pague as suas dívidas de jogo, que o proprietário Fliuguine tenha roubado um cão ao proprietário Sivobrazov, isso não importa a ninguém, porém o facto de A Nossa Província ter devolvido há pouco tempo um mau conto de Macário, isso é a fábula de todas as redondezas, isso provoca zombarias, chacota, indignação, e Macário tornou-se já "o pobre Macário".

(Anton Tchekov, "Na Primavera", Contos e Narrativas 3, 1886-1887, Lisboa, Estúdios Cor, tradução Franco de Sousa)

Publicado por JPT em 10:40 AM | Comentários (5) | TrackBack

dezembro 11, 2004

Apenas Mais Um a dar cabo das tontas polémicas sobre audiências.

Publicado por JPT em 08:45 PM | Comentários (1) | TrackBack

Operação Gandula 2004 Terminada. E Anúncio de Gala

Está terminada, e um pouco mudada, a atribuição dos Prémios Gandula Blog 2004. Modesta homenagem aos ilustres que li com apreço durante este ano e que de outra forma (ou seja out-blog) na sua maioria nunca teria conhecido.

Acima de tudo enviar o "Aquele Abraço" ou "Aquele Beijo". [Daí que o Gandula do Xicuembo seja o mais importante, arquétipo pelo menos] E também aos esquecidos, que se fizesse a lista já a seguir se calhar saía bem diferente.

Um muito especial abraço ao Rui do Adufe que quis participar nesta brincadeira (não irónica), também nomeando premiados. Era esse o objectivo, uma atribuição cruzada e colectiva, sem qualquer votação, escolha, hierarquia. Não fosse ele teria sido totalmente falhado.

Pois do que realmente sinto saudades é de uma brincadeira em grupo. Não irónica. E sem humor estúpido. Brincar apenas. Blogar. Pois disso desaprendi.

Quanto à Gala decorrerá, obviamente, no Hotel Polana. Em data a anunciar. Mas antes das obras de "destruição" que aí vêm.

Publicado por JPT em 03:49 PM | Comentários (7) | TrackBack

dezembro 10, 2004

Prémios Gandula Blog 2004

Gandula Alekhine: Empatia.

Gandula Cooperação para o Desenvolvimento: Pantalassa.

Gandula Engenheiro Objectivo: Apenas Mais Um.

Gandula Observatório Africano: Pululu.

Gandula Beleza: A Montanha Mágica.

Gandula Melhor Blog Moçambicano: Apassarado.

Gandula Melhores Diálogos: Vai Meu Filho.

Gandula Chora-Que-Logo-Ganhas: Chora-Que-Logo-Bebes.

Gandula Memória d'Ouro: Memória Virtual.

Gandula Melhor Blog da Minha Escola: Forum Comunitário.

Gandula Estátua: Estátua [Não conhecia, atribuição do Rui MCB]

Gandula Melhor Blog de Poesia Moçambicana: A Sombra dos Palmares

Gandula Melhor Blog de Poesia Moçambicana: Fazendo Caminho.

Gandula Blog com Melhor Restaurante: Alentejanando.

Gandula Revelação Inopinada de Tuga em África: Sem Destino.

Gandula O Meu Blog Político Preferido: Jaquinzinhos.

Gandula Melhor Blog de um(a) Tuga em Moçambique: Passada.

Gandula Prosa: Miniscente.

Gandula Um Grande [Ganda] Blog: ...Aulil.

Gandula Melhor Blog sobre Moçambique: Companhia de Moçambique.

Gandula Melhor Blog Bahai: Povo de Bahai.

Gandula Melhor Blog Sobre a Cidade Em Que Eu sou Eu: Pemba Para Sempre.

Gandula Gandula: Aquele Anel.

Gandula Melhor Blog de um Tuga na Guiné-Bissau: Africanidades.

Gandula O Meu Blog Preferido: Alentejanando.

Gandula O Meu Blog Preferido: Rua da Judiaria.

Gandula o Melhor Blog de Escritor Português que Vive no Brasil (e Que se Calhar Já Tem o Original): Aviz.

Gandula o Bloguista Que Já Tem Um Gandula: O Vento Lá Fora [PQ, a culpa é do Sapo].

Gandula Liberdade: Quase em Português.

Gandula Ensinem-lhe a Blogar: Faz de Conta.

Gandula o Meu Mais Que Muito Obrigado: Loucura e Nata.

Gandula EelKo Van Mulder: Eelko Van Mulder.

Gandula Só Um Bocadinho Mais Reaccionário do que o Ma-Schamba: Letras Com Garfos.

Gandula Peter Pan: Respirar o Mesmo Ar.

Gandula Às Vezes o Meu Blog Político Preferido: Mar Salgado.

Gandula Apanha-Bolas: Ma-Schamba.

Gandula Então?: Eclético.

Gandula Até Que Enfim: Chuinga.

Gandula Missionários: LMC Tanzânia.

Gandula O Indutor da Escrita: Ene Coisas.

Gandula O Blog Que Eu Mais Gosto de Chatear: Tugir.

Gandula Infância: Oceanus Occidentalis.

Gandula Aquele Abraço: Xicuembo.

Gandula Arqueólogo: Arqueoblogo.

Gandula Melhor Blog de Puta: Bela à Noite.

Gandula Sporting: Blogame Mucho.

Gandula Vaidade: O Narcisista.

Gandula Lusofonia: A Bazonga da Kilumba.

Gandula Portas e Afins: Adufe.

Gandula Olhar: Cócegas na Língua.

Gandula Hispanidade: Viva Espanha.

Gandula Grande Stress: Blasfémias.

Gandula Ainda Me Prejudico: Naufrágios.

Gandula Francofonia: Klepsýdra.

Gandula Icaro: Daedalus.

Gandula Especial Secretariado-Geral CPLP: Dias Estranhos.

Gandula Horóscopo: FísicosLX.

Gandula Blog 2004: Universos Desfeitos.

Gandula Peixe-Papagaio: Periscópio-Quatro

Gandula In Extremis: Desteclado.


Publicado por JPT em 02:14 AM | Comentários (45) | TrackBack

Prémios

Já aí estão os blogoprémios do ano, coisa simpática que me vai aparecendo de visita em visita. Nada melhor do que dizer do que gostamos, nada melhor do que homenagear sem ser para cutucar outrém.

Eu cresci com o extraordinário jornal A Bola, antes deste morrer e logo regressar feito a alma penada "Boletim do Jardim do Regedor". Lembro que durante o seu estertor final surgiu o "Gazeta dos Desportos" cujo grande ponta-de-lança era o jornalista brasileiro Wilson Brasil, hoje tão esquecido que nem arranjo uma foto dele nos motores de busca. Wilson Brasil era o animador dos prémios GANDULA*, que levou do Brasil para Portugal, prémios gentis e, sabê-lo-á quem deles se lembra, algo pródigos. Uma boa onda. [Tanto premiado ingrato, diga-se, que nem o imortalizam na net, mas enfim, não vem daí novidade ao mundo].

Vai daí, e sem exclusivismos, vou atribuir prémios Gandula Blog. Mas para ser minimamente fiel ao espírito do fundador isto deve ser algo exaustivo. Quem quiser colaborar na atribuição apresente-se, será muito bem-vindo. Que Gandula não tem limites, quem nunca apanhou bolas?

*[Ver aqui o significado de "Gandula"]

Publicado por JPT em 12:38 AM | Comentários (7) | TrackBack

dezembro 09, 2004

Post apagado

1. Ontem apaguei um post. Escrevi-o ao ler um texto de PMF sobre o deputado Vicente Jorge Silva, que anunciou ter votado algo cheio de "dúvidas e perplexidades sobre a autencidade democrática" mas justificando-se pois não estavam em causa "questões essenciais de consciência moral": para este deputado a autenticidade democrática do parlamentarismo não é uma questão essencial de consciência moral.

Apaguei o post pois não vale a pena. Não tenho talento para falar sobre isto. E já não tenho energia. E, mais do que tudo, é destes VJS o país que julguei meu.

2. O Lourenço respondeu-me, dizendo que o Portugal precisa de insultos explícitos. Não concordo com o caso que nos cruzou, mas não deixo de sorrir ao seu argumento: também acho que muitas vezes uma praga rotunda é insubstituível.

3. Ontem apaguei um post. Pois não vale a pena. Pois, e seguindo o Lourenço, sou um imbecil do caralho.

Está a chover. Enublado. Até frio. Vou à minha vida. Essa que é o meu país. A ver se aprendo.

Publicado por JPT em 09:13 AM | Comentários (3) | TrackBack

dezembro 08, 2004

Marrabentando

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Soube-o atrasado, foi agora aqui apresentado o documentário "Marrabentando. As Histórias que a Minha Guitarra Canta", da autoria de Karen Boswall. Ancorado em duas histórias de vida, as dos músicos António Marcos e Dilon Djindji.

Lamentavelmente não tive conhecimento das projecções, primeiro no Gwaza Muthini em Marracuene, depois no Círculo na Mafalala, e ontem no obrigatório Franco-Moçambicano - muito boa onda, até nem subliminar, isto de não estrear o filme no cimento chic. Fica-se à espera do DVD, ou de uma futura projecção, para poder captar alguns percursos deste estilo. E expectante se o filme trará pistas para a polémica nacional sobre o estatuto da marrabenta, e seus efeitos na produção e recepção da música.

Publicado por JPT em 12:55 PM | Comentários (3) | TrackBack

Psikhelekedani

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Inaugura hoje no Centro Cultural Português a exposição individual do escultor Dino Jethá "O Natal em Psikhelekedana". Vem esta apresentação na sequência da colectiva de 2003, uma grande exposição narrando a história de Moçambique nesta técnica de artesanato.

Para os puristas estes desenvolvimentos do artesanato do sul de Moçambique até devem arrepiar. Mas foi muito interessante ver como a Nação foi recriada por cinco jovens escultores, ainda que dirigidos (até mecenaticamente) por Fátima Ribeiro. E agora ver-se-á que cristandade nos oferecerá este escultor muçulmano.

Publicado por JPT em 12:46 PM | Comentários (0) | TrackBack

dezembro 07, 2004

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ENA PÁ 2000 vinte anos, parabéns.

Eu a puxar os galões, vi-os no Rock Rendez-Vous (ai que saudades, ai, ai) na Primavera de 1984. E julgo que tenha sido a sua primeira apresentação, ali em concurso rock. E já agora, acompanhei várias vezes os Irmãos Catita at Cinearte. E sobrevivi (saberá Deus como).

Apoiei e reassinarei "Manuel João à Presidência". E Jimba a S. Bento?

[Imagens roubadas no sempre apetecível O Palácio do Desejo]

Publicado por JPT em 06:35 PM | Comentários (15) | TrackBack

Contributo ao

ao Weblog.com.pt, à atenção de Ene e Querido.

A este candidato-o a post destacado.

Publicado por JPT em 05:55 PM | Comentários (0) | TrackBack

Convite

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Lançamento da edição Ndjira do romance "As Visitas do Dr. Valdez", de João Paulo Borges Coelho no auditório da Rádio Moçambique, dia 9, 5ª feira, às 17 horas. O livro será apresentado por Almiro Lobo.

Estamos todos convidados. Presumo, mas nada mais do que expectativa, que durante e após a sessão de autógrafos haverá uma incursão ao reino da chamussa acompanhada de alguns short drinks. Quantos bloguistas estarão lá?

Até lá, então. Ou até então, lá.

Publicado por JPT em 04:56 PM | Comentários (2) | TrackBack

Lulas Recheadas em Vila do Bispo

No Ardeu a Padaria come-se bem e é um regalo por lá passar a ver qual a ementa do dia. Mas hoje comovi-me, súbito a ser lembrado do extraordinário Café Correia, em Vila do Bispo (encerrava aos sábados, nunca será demais avisar).

Foi lá que comi as melhores lulas recheadas da minha vida. Por várias vezes. "Saudades do meu Portugal", cantava no "Vinho Verde" o Paulo Alexandre (?), esse grande vulto pimba avant la lettre.

Publicado por JPT em 02:40 PM | Comentários (3) | TrackBack

Concerto na Ilha

É no Abre-Surdo que roubo a foto e ganho a memória.

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A memória de belos concertos em Maputo. E de alguém que se dispunha a organizar um concerto Maria João & Mário Laginha na Ilha de Moçambique. Então?

Publicado por JPT em 02:24 PM | Comentários (0) | TrackBack

Bazaruto Goes Beverly Hills [?]

[Ali abaixo, nos comentários, grande comment]


Retirei a notícia daqui.

Bazaruto Goes Beverly Hills

Business Day (Johannesburg)
November 24, 2004

Developers target the rich and famous for island residential project.

MOZAMBIQUE's Bazaruto Island will soon feature an exclusive residential development aimed at the world's rich and famous.

It will be the first residential development on the island and the last, because Bazaruto is a nature reserve.

Because of this the resale values of the properties will run into millions of dollars.

Oprah Winfrey, Will Smith and John Travolta are among the potential buyers said to be interested in the development.

Developers Jean Reyneke and Chris Krause, directors of Bazaruto Holdings, will be launching The Palms at Bazaruto today but say it is an invitation-only launch.

Reyneke says the development will comprise 24 stands ranging from 2500m' to 3500m' in size and priced from R4,5m.

The buyers will then be given a list of architects and guidelines for the houses they want built, but the common theme will be "colonial maritime".

Reyneke says the style of properties will be similar to those in Martha's Vineyard in the US and that the development is aimed at the top 10% of the market.

"We want to recreate The Hamptons in Mozambique," Reyneke says.

Reyneke says there are 160 palm trees in the central communal area of the site. "It's the only part of the island where there are natural palm trees."

Although the land is purchased on a 99-year lease, the owners will receive title deeds once they build their homes.

"We are already doing presales. All the elite in Africa are buying plots," says Reyneke.

Some of the interested parties include African presidents, as well as businessmen from SA, the Emirates and the rest of Africa.

The Palms is also being marketed in Europe and the US. "In the US we are marketing it directly to people like Oprah Winfrey, Will Smith and John Travolta. The agency I'm using in the US is the Ferrari family, who lease properties to all the A-list stars."

Reyneke says The Palms is an exclusive development because Bazaruto along with the other four islands off the Mozambican coast have been declared nature reserves and no further development will be allowed. The only other major development on Bazaruto is the five-star Indigo Bay Hotel.


Reyneke says there is also easy access to the island. "There is a brand new tarred 1500m airstrip on the island which can handle corporate jets and other aircraft. The flight from Johannesburg is only two hours long ," he says.

He says there are also daily scheduled flights with South African firm Pelican Air to the island. He says most people fly to Vilanculos and then either charter a boat or travel by ferry.

***
Pois:

"We want to recreate The Hamptons in Mozambique" em "colonial maritime". apesar de "We are already doing presales. All the elite in Africa are buying plots", enfim vão ter que gramar com a vizinhança.

E já agora, aquilo é uma reserva marítima. A primeira vez que eu e a Inês fomos a Magaruque nos dois primeiros dias éramos os únicos hóspedes. Uma maravilha, natural e romântica. Mas ainda assim, tão vazio, do lado do continente havia óleo dos barcos à tona de água. Como será pós-The Hamptons? Apesar do "colonial maritime"?

Publicado por JPT em 01:24 PM | Comentários (2) | TrackBack

dezembro 05, 2004

Fidel e o espelho mágico

A Lolita do Blogame Mucho escreveu há dias sobre Fidel, rematando: "Fidel é um ditador, mas não é um mau ditador: é um ditador puro. Com o que isso tem de mau, também. Forcem-no, nada conseguem. Respeitem-no, reparará erros." Eu permiti-me discordar e resmungar acerca dessa óbvia simpatia pela personagem. Não quero eternizar a discussão, cada um como cada qual. Mas como tive resposta agradeço-a com alguns pontos na "volta do correio":

[actualizado com adenda]

1. Será pouco importante para a questão, mas como a Lolita usou o Maquiavel eu citei-a. Diz ela que desajeitadamente, enquanto (me) explicita o real sentido da sua obra, acessível "a quem conhece, ainda que pela rama a sua obra". Lamento pois tê-lo utilizado, ainda por cima de forma tão grosseira: confesso que tendo-o lido, e a alguns dos seus comentadores, não apreendi uma certeza sobre o que realmente quis dizer. Terei a minha ideia, a minha interpretação. Mas muito pouco assertiva. Meu defeito de compreensão, decerto, que essas não são as minhas áreas.

2. Associei aquela visão sobre Fidel, e volto a fazê-lo, à (já) velha teoria comunista explicativa da queda do "mundo socialista", aquela que consagrava como causa os "erros e desvios" (a maldita "natureza humana"?), uma nada marxista explicação na boca e na tecla desses veros marxistas (leninistas). E para que não se pense que abuso das palavras, esses "erros e desvios" foram não só recorrentes como ainda consagrados em documentos de pelo menos um congresso do PCP nos inícios dos 90s. Será talvez abusivo associar a Lolita ao PCP, e lamento se a desagradei, mas lendo-lhe a crítica ao Estado da Nação onde todos "comem pela medida grande" com a excepção implícita do "partido", não pude deixar de o fazer. Não conhecendo a bloguista não lhe estou a imputar militâncias ou simpatias (muito legítimas, diga-se), mas permito-me associar discursos e modos de pensamento que surgem comuns.

3. Diz ainda que "o JPT, [...] quis confrontar-me com as minhas contradições". Mais um lamento meu, aqui pela minha falta de clareza, a tal "molhada" que denuncia. Pois o que procurei realçar não foram as contradições do pensamento da Lolita, eu quis sublinhar foi a sua total coerência, explícita em dois textos políticos, um valorizando o PCP o outro valorizando Fidel. E o quanto eu discordo dessa coerência, da qual todas as questões "morais" são meros corolários [da ligação entre moral e política necessitaria de outro (e enorme) post, passo].

4. De lamento em lamento tenho ainda que referir o quanto me desgosta esta minha tendência, por ela sublinhada: "Não se deixem levar pela simplória, mas eficaz, estratégia americana recorrente: ou estás comigo ou estás contra mim.". É uma fragilidade, aborrecida ainda que humana, isto de torcer o nariz à pureza de um ditador só porque os americanos não gostam dele. Sendo franco, é mesmo uma imbecilidade. Reconheço-me simplório produto.

5. Lamento pois não ter essa habilidade reflexiva. Essa que, apesar de algumas semelhanças de pensamento com alguns movimentos sociais e políticos (naturais, não somos ilhas), permite à Lolita afirmar "Não me agradam moralismos lineares; prefiro pensar sozinha, no remanso do lar, a ler a mais e a deixar-me intoxicar de propaganda", algo que lhe permite uma superior compreensão sobre o mundo que a rodeia.

Quanto à auto-sapiência e à teoria da relatividade curvo-me, expectante de futuras lições.

6. Finalmente lamento ainda não possuir tal espelho mágico, em que me visse tão culto, livre e despreconceituoso. Cantando, qual filho de Hergé, "rio-me de me ver tão belo neste espelho". Ainda que cobiçoso é meu sincero desejo que nunca se lhe parta o espelho.


Adenda:

1. A Lolita ripostou dizendo-me conjecturando sobre onde a colocar ideologicamente. Sim, um elogio a Fidel e os termos em que foi desenvolvido, causam-me estupefacção. E em meu entender são concepções que têm linhagem, um contexto. Apontei-o, interpretei-o. Não falei, como se queixa, de si, falei daquele que me parece ser o contexto da sua percepção. Não se reconhece nesse campo político em que a integrei, tudo bem. Quantas vezes ecoamos ou recriamos perspectivas de outrém sem que isso signifique uma associação. E que a houvesse, seria legítima e não da minha conta. Para mim realmente importante foi reconhecer os traços estruturais de um apoio actual a Fidel, e de como eles se assemelham a um já antigo discurso sobre o "mundo socialista" que considero acima de tudo autofágico. E isto não é um discurso "ad hominem".

2. Num outro âmbito Lolita expressa o seu desagrado pois pessoalizei, improdutivamente (e deselegantemente?), a questão, atacando-a e negando-me ao que realmente lhe interessava, discutir Fidel e Maquiavel.

De Maquiavel diz-me fazendo "meta-crítica". Mas que fique claro, às vezes as palavras valem o seu sentido literal. Não tenho certeza sobre o que o autor quis dizer. Não há qualquer meta-crítica. Mas sobre isso interessa-me perceber como é que pessoalizei/rebaixei a questão.

Sobre Maquiavel Lolita escreveu, eu usei isso e recebo esta resposta à "molhada" que entende ter eu realizado: "Quem conhece, ainda que pela rama, a sua obra sabe que Maquiavel ..."; por favor, isto é uma locução retórica em que não só se afirma o pensamento do autor como se exclui qualquer hipótese de contradição, pois basta-o "conhecer ainda que pela rama". Discutir então para quê? Para mais não o tendo eu usado neste último sentido (aliás, usei-o no sentido em que Lolita o tinha referido) é óbvio que se depreende pelo seu texto que o utilizei sem o ter lido nem que seja pela rama, que o usei na ignorância. Não está portanto somente a falar de um autor mas também a afirmar a ilegitimidade deste locutor (o tal JPT) que o utilizou. Sim, eu sei que as intenções retóricas são infalsificáveis, mas esta, até pela sua recorrência, é óbvia.

Uma discussão sobre Maquiavel? Pelo contrário, uma asserção sobre Maquiavel e uma pessoalizada ilegitimação do interlocutor.

3. Discutindo Fidel Lolita é explícita, aqueles que discordaram do seu post deixam-se "levar pela simplória, mas eficaz, estratégia americana recorrente: ou estás comigo ou estás contra mim.". Estamos a falar de Fidel? Não, estamos a falar dos medíocres (simplórios até) mecanismos de compreensão e análise utilizados por aqueles que consigo discordam.

Uma discussão sobre Fidel? Pelo contrário, uma desvalorização pessoalizada dos interlocutores.

Em absoluta e explícita contraposição a essa frágil postura intelectual daqueles que a criticaram Lolita apresenta-se: "Não me agradam moralismos lineares; prefiro pensar sozinha, no remanso do lar, a ler a mais e a deixar-me intoxicar de propaganda. Tento, isso tento.". Perdão, há mais pessoalizar do que isto? A afirmação implícita mas clara de uma superioridade de metodologia intelectual e moral: esta não lhe é linear, implícita contraposição aos que a criticaram; pensa sozinha, de onde se estabelece que os seus críticos não o fazem, pensa no remanso do lar, os outros porventura não só no colectivo mas também no meio da turba, lê mais, os outros decerto nada ou pouco, e não se intoxica de propaganda, o que os outros fazem, não só pelo pensamento colectivo a céu aberto, linear, mas também pelo já acima anunciado "simplório" procedimento.

4. Depois de escrever todas estas afirmações, menorizando os métodos pessoais de pensamento e apreensão da realidade daqueles que com ela discordam, Lolita regressa protestando a pessoalização da minha resposta, lamentando-lhe a falta de elevação da argumentação.

Se nos conhecessemos talvez tivesse consigo o à vontade para lhe dizer o coloquial "é preciso ter lata!". Como não é o caso fico-me no muito mais desagradável, ainda que mais polido, termo desfaçatez.

Quanto ao tal espelho ainda acredito que se reler bem o que ripostou às críticas que lhe fizeram talvez conceda que não é cá em casa que habita. Ou talvez não o conceda, mas isso já é consigo. Passo.

Cumprimentos

Publicado por JPT em 06:03 PM | Comentários (2) | TrackBack

Maria Filomena Mónica e Boaventura Sousa Santos

No Público de ontem Maria Filomena Mónica escreve sobre Boaventura Sousa Santos [texto abaixo transcrito - e honestamente justifica-se lê-lo]. Ataca-o referindo a sua poesia (a qual nem comento, aliás esse foi assunto muito blogodesenvolvido há alguns meses), ideologia (passo) e colaborações em manuais escolares (desconheço-os).

Mas debruçando-se também, em termos caústicos e pretensamente críticos, sobre o trabalho que BSS aqui co-organizou com João Trindade, Conflito e Transformação Social: Uma Paisagem das Justiças em Moçambique (Porto, Afrontamento, 2003), fruto de trabalho articulado entre académicos moçambicanos e portugueses. Note-se que realizado não só "de parceria com um exército de assistentes universitários" (como MFM refere) mas também com a participação de parte da elite académica daqui, doutorados seniores cujos percursos profissionais não os envergonharão face a MFM. Talvez negue essa equiparação, vendo-a como palavras desses que andam declarando, à Rousseau, que os "selvagens" eram, pelo menos, tão "bons" quanto nós. Mas só se for essa a sua matriz.

É espantoso o que MFM refere sobre o referido trabalho/livro dedicado à análise das "justiças" em Moçambique, dos processos reais e da política estatal, da presença de um pluralismo jurídico e de como ele tem vindo a ser conceptualizado e gerido politicamente.

Que fique claro, nada me liga a BSS. Tive até a infelicidade de por ele ser completa e publicamente torpedeado profissionalmente, de modo totalmente injustificado e despropositado (e esta sucessão de advérbios ecoa uma ira velha: nem uma privada desculpa posterior por tal infâmia!). Noutro registo, tenho, modesto antropólogo, as maiores reservas à sua visão da história do colonialismo português, ainda para mais porque apresentada como âncora de um projecto político (académico) - tal como explicitou no último congresso luso-afro-brasileiro de ciências sociais, em Setembro passado. Que são ideias muito problemáticas - mas quem sou eu...

Estas ressalvas, a pessoal e a ideológica, podem parecer inúteis. Mas não. Estão aqui como "negrito" para o que se segue:

Lendo-a é óbvio que Maria Filomena Mónica não percebe nada do assunto sobre o qual escreveu, não sabe nada sobre os processos sociais e jurídicos moçambicanos (afinal, é apenas a matéria do livro tão botaabaixado), não tem qualquer fundamento real. Esta crítica ao "Conflito e Transformação Social", se é que é disso que se trata, nem justifica contra-argumentação tão explícita é a sua indigência. Patacoadas.

Mas também é certo que nada disto lhe interessa, e que a croniqueta são meras tricas de corredores. Ou por outras palavras, coisas da elite.

Adenda: sobre este assunto ver este acertado texto no Esplanar bem como o texto de Pedro Caeiro no Mar Salgado, tão mais interessante neste caso pois PC já habituou a blogosfera à sua solidez de jurista. Pelo contrário noutros blogs de minha muita predilecção, como Complexidade e Contradição e o notável Jaquinzinhos, a adesão a este tipo de discurso foi total. Estão, é óbvio, no seu direito, mas deles visita constante não deixo de o lamentar.

O Sociólogo-Poeta Boaventura Sousa Santos
Sábado, 04 de Dezembro de 2004

%Maria Filomena Mónica

No último mês de Agosto tive uma revelação. Descobri que, nos seus tempos livres, o Prof. Sousa Santos é, ou foi, poeta. Muitos de nós - por sorte escapei à regra - escreveram versos durante a adolescência, os quais, atingida a idade adulta, eram geralmente deitados para o lixo. O mesmo não o fez o Sociólogo-Mor do Reino, Prof. Boaventura Sousa Santos. Tendo publicado a sua poesia, em 1964, sob o nome de Boaventura de Sousa, decidiu reincidir, em 1980, num livrinho intitulado "Têmpera", o qual surpreendentemente não faz parte do farfalhudo "curriculum vitae" que aparece na Internet.

Ainda pensei em fazer uma análise pseudo-laudatória, usando a linguagem críptica de alguns críticos literários, mas, não fosse alguém tomar a paródia a sério, acabei por desistir, oferecendo, em vez disso, excertos destas jóias líricas. No livro, publicado pela Centelha, há um pouco de tudo, desde recordações da educação católica (ver "Cravo Mal Temperado-I) a poemas pseudo eruditos (ver "Novo Mundo") passando por dislates incompreensíveis (ver "Cravo Mal Temperado-II).

Os poemas mais canhestros, mas os mais cómicos, são os de natureza erótica. Começo por citar uma estrofe retirada de "Labirinto": "...e muitas vezes sou um rego d'água/ a beber as raízes do teu corpo de nogueira". Do mesmo poema, leia-se: "A rua retesada/ guarda todos os sinais/ (...) faz parte deste tiro/ estar no alvo/ e retirar-se/ faz parte desta gota/ ser a taça e alagar-se/ faz parte deste cisma/ ter entranhas e sujar-se/ faz parte deste coito/ estar a um canto a masturbar-se". Existem muitos outros poemas, simultaneamente pretensiosos e indigentes, como o "Material de Construção", o qual abre com as seguintes linhas: "Desmamaram-se virgíneas tetas/ e os limões ali cheirando/ que da Ilha dos Amores saíram/ e do silêncio" ou o "Ode à Infância", onde surgem estrofes como " ...nas ruínas do ciclone de quarenta/ trabalho manuais sem mestre nem montra/ entram chefes guerras caracóis/ tesouras e pauzinhos/ nas rachas das meninas/ na catequese é em coro/ e em filas/ no escuro dos intervalos/ medem-se as pilas/ Boaventura tens quebranto/ dois te puseram três te hão de tirar/ se eles quiserem bem podem/ são as três pessoas da Santíssima Trindade...". Que tal?

Homem feito, Boaventura Sousa Santos ainda se orgulha da sua escrita adolescente. Num país onde não existe uma única revista de livros, a coisa passou desapercebida. Até eu levei décadas a dar com ela. Mas, ao fazê-lo, fiquei de boca aberta. Cem anos depois de Cesário Verde ter transformado a poesia portuguesa, o sociólogo de Coimbra ousava oferecer ao público uma série de poemas primários, possidónios e indecorosos, sem que ninguém - a editora, a crítica, os familiares - o tivesse caridosamente prevenido do perigo do gesto. Nos salões pequeno-burgueses do centro do país, estas coisas ainda devem ser apreciadas. Para vergonha do país. Sem ideia, sem originalidade, sem cor, a sua poesia nada exprime. Pasmada, nem ela compreende o seu tempo, nem ninguém a compreende a ela. Fala do perfume quebradiço das glicínias entre a tarde manifesta de Abril, onde o povo prepara o jantar nas folhas de auroras jacobinas e onde alguém escreve guerras contra a gritaria melada duma coca-cola morta. Que Diabo quererá dizer isto? Quando muito, o autor pretende dar lustre aos entediantes trabalhos com que, por esse mundo fora, anda a ganhar o pão de cada dia.

Mas que esperava eu encontrar naquele volumezinho descoberto, entre o pó, numa tarde de Verão? Não deveria saber que o mais certo era deparar-me com as delícias, delíqueos e delírios que agitam os arcaicos cérebros de Coimbra quando lambuzados com o verniz dos crânios que se passeiam por Wisconsin? Em 1871, na sua primeira "Farpa", Eça de Queiroz escrevia que, na literatura nacional, havia uma santa distribuição do trabalho: no final, o autor recebia a condecoração de Sant'Iago, o editor ficava com as perdas financeiras e o leitor entediava-se. Foi isto - ou pelo menos a primeira parte - que, em 1996, aconteceu a Boaventura Sousa Santos, quando o então Presidente da República, Mário Soares, lhe colocou no peito a medalha de Grande Oficial da Ordem Militar de Sant'Iago de Espada. Se o leitor quiser conhecer melhor a alma do homenageado, mais não tem do que ir a um alfarrabista, onde encontrará facilmente resmas atrás de resmas da sua obra poética. Mesmo que, como eu, pertença ao sexo feminino, nada tem temer. Que eu saiba, o Prof. Sousa Santos jamais foi acusado de assédio sexual. Os seus devaneios destinam-se tão-só a fazer corar as meninas das aldeias.

Estava eu a meditar nos seus poemas, quando, ao entrar numa livraria, descobri dois manuais do 12º ano, um, intitulado "Sociologia", e outro, "Introdução ao Desenvolvimento Económico e Social", redigidos por professores do Ensino Secundário, mas ambos com "a participação do Prof. Dr. Boaventura Sousa Santos". No seu conhecido estilo, eis o que o catedrático diz no prefácio ao primeiro livro: "A aprendizagem de uma disciplina como a Sociologia, disciplina pouco codificada e em grande medida devedora de uma 'pedagogia do silêncio' - do 'faz como eu' - necessita do empenhamento dos professores numa prática de pedagogia activa, através da qual se familiarizem os estudantes com uma forma de conhecimento da sociedade que, no essencial, é uma forma de educação para a cidadania". Temendo não ter sido claro, acrescentava: "Partindo deste manual, os docentes podem fomentar a capacidade de espanto e mesmo de indignação, elementos que em meu entender devem estar no cerne de um projecto educativo adequado ao tempo presente. Trata-se de um projecto orientado para combater a trivialização do sofrimento, por via da produção de imagens desestabilizadoras a partir do passado concebido não como fatalidade, mas como produto da iniciativa humana. Um passado que, tendo opções, não optou pelas que evitariam o sofrimento que foi e continua a ser infligido a grupos sociais tão vastos, em todo o mundo, e à própria natureza" (sublinhados meus). Que tal como introdução a uma disciplina supostamente científica? Não perceberão os docentes, os pais e os cidadãos que esta prosa, altamente ideológica, corresponde à agenda política de alguém que, provindo da Direita católica, se converteu, após o 25 de Abril, num dos arautos do Movimento Anti-Globalização? Desnecessário é mencionar o segundo prefácio, uma vez que, na essência, é igual ao primeiro.

Mas vale a pena analisar o seu mais recente livro, "Conflito e Transformação Social: uma paisagem das justiças em Moçambique", um texto com ambições, escrito, como de costume, de parceria com um exército de assistentes universitários. Após a adopção do relativismo cultural nos 1960, muitos sociólogos adoptaram uma posição romântica, declarando, à Rousseau, que os "selvagens" eram, pelo menos, tão "bons" quanto nós. Foi uma reviravolta com consequências imprevisíveis. A incapacidade em afirmar a superioridade das tradições culturais do Ocidente contribuiu fortemente para a complacência com que muitos dirigentes do Terceiro Mundo, alguns deles criminosos, passaram a ser encarados.

Boaventura Sousa Santos transformou-se, nos finais dos anos 1970, num influente consultor jurídico dos governos dos PALOP (Angola, Moçambique e Cabo Verde). Subsidiado por organizações supostamente respeitáveis, tem feito dezenas de trabalhos em África, mas as suas investigações estão longe de ser neutras. Basta notar o plural do título, "Justiças", para nos apercebermos do preconceito subjacente aos seus trabalhos. Diante do silêncio dos professores de Direito - os quais temem criticar alguém que se refugiou numa disciplina por eles considerada esotérica - Sousa Santos tem vindo a legitimar práticas menos felizes. Não, nem tudo se equivale. Há sociedades mais iguais, mais livres, mais dignas do que outras. Sei que, se optar pelo caminho do adultério, jamais serei apedrejada em Portugal. O mesmo não me podem garantir as sociedades onde funcionam "as justiças" locais.

Não vou citar, com profusão, o que Prof. Boaventura Sousa Santos escreveu, porque isso só serviria para afastar os leitores. A fim de poderem, todavia, ficar com um gostinho do género, eis uma frase do início: "Neste capítulo, concentramo-nos numa questão específica: as relações entre o Estado e a pluralidade de direitos que, reconhecidos ou não oficialmente, regem os conflitos e a ordem social. Apesar de o paradigma normativo do Estado moderno pressupor que em cada Estado só há um direito e que a unidade do Estado pressupõe a unidade do direito, a verdade é que, sociologicamente, circulam na sociedade vários sistemas jurídicos e o sistema estatal nem sempre é, sequer, o mais importante na gestão normativa do quotidiano da grande maioria dos cidadãos". Pode parecer uma afirmação factual. Mas, subjacente a este olhar, está o desejo de legitimação de práticas legais "alternativas", com raiz numa espécie de colonialismo invertido. Segundo esta corrente, a justiça dos brancos está manchada pelo pecado original do imperialismo; a dos nativos, porque mais genuína, é evidentemente melhor.

Ao longo dos séculos, os liberais têm louvado, e com razão, a importância do Estado de Direito. Podemos encontrar já elementos desta concepção no discurso que, no século V AC, Péricles fez em honra dos mortos da Guerra do Peloponeso. Eis o que Tucídides reproduziu: "Quando se trata de assegurar a solução de disputas privadas, todo e qualquer homem é igual perante a lei. (...) Somos livres e tolerantes no que diz respeito à vida privada; mas, no âmbito do espaço público, obedecemos à lei". A Civilização Ocidental é herdeira destas palavras. Não podemos, não devemos, menosprezar este legado.

Não se pense que o facto de, em anteriores ocasiões, ter criticado Boaventura Sousa Santos releva de uma qualquer obsessão, causada sabe-se lá por que rasteiros motivos. Se escolho a sua figura é por fazer ela parte da "Nomemklatura" sociológica, não só portuguesa (via Associação Portuguesa de Sociologia), mas internacional (através das "redes" em que actualmente está organizada a investigação). Não vale a pena criticar soldados quando temos à mão um general. Na luta, há que apontar à cabeça.

B. de Sousa Santos e J. Carlos Trindade (org), Conflito e Transformação Social: Uma Paisagem das Justiças em Moçambique, Lisboa, Afrontamento, 2003.

M. Luz Oliveira et alia, Sociologia: 12º Ano, Lisboa, Texto Editora, 2003.

M. João Pais et alia, Introdução ao Desenvolvimento Económico e Social: 12º Ano, Lisboa, Texto Editora, 1998.

Boaventura de Sousa, Têmpera, Coimbra, Centelha, 1980

Publicado por JPT em 04:28 AM | Comentários (7) | TrackBack

Eleições em Moçambique

Algumas previsões relativamente seguras: candidato da Frelimo ganhará, por ora com cerca de 63%, talvez venha a ter um pouco menos, mas na ordem dos 60%. Frelimo também ganhará, talvez com uma percentagem ligeiramente inferior. Não haverá terceira força no parlamento, o PDD de Raul Domingos ficará com cerca de 3% não assegurando o mínimo exigível de 5% - e aqui violo a minha neutralidade, mas confesso que sempre me desagradou o implícito apelo étnico do partido, muito esperançado no apoio dos falantes sena.

Abstenção na ordem de 60%, talvez um pouco mais. Mas a ter que ser relativizada pois os cadernos eleitorais não estão extirpados dos eleitores entrentanto falecidos. Mas ainda assim será superior a 50%. Assunto a ser discutido, decerto.

Mas, não esquecer, a ser da mesma ordem de grandeza do que numas eleições americanas. Não estou a confundir contextos, sai suave ironia na previsão dos discursos "ilegitimadores".

E, acima de tudo, um processo bem calmo, o que nunca será demais repetir.

Publicado por JPT em 03:11 AM | Comentários (2) | TrackBack

dezembro 04, 2004

Eleições em Moçambique

Para acompanhar processo também aqui, o boletim da AWEPA, dirigido por Joseph Hanlon.

Publicado por JPT em 07:21 PM | Comentários (1) | TrackBack

dezembro 03, 2004

não resisto,

é que quinze anos depois os comunistas continuam com a teoria dos "erros e desvios". E, nesse requebro, a pactuarem com tudo.

Publicado por JPT em 05:16 PM | Comentários (0) | TrackBack

De como o Polga e o Beto não têm nenhuma importância

No muito apreciável Blogame Mucho o Besugo defende o Polga (coitado, diz ele) e (quase) empresta o Beto ao Estrela da Amadora. Enfim, discordo mas que fazer? Por exemplo ler com atenção o dito blog.

Regresso ao fim (ao hoje) e a Lolita com sarcástica prosa sobre o "estado da nação" portuguesa, bate forte e feio no "populismo da coligação, "no Vitorino (a) pensar por Sócrates", no Marcelo "espécie de Pelágio intelectualizado", no "Cavaco Silva" exarcebado, no Sampaio pois "Maquiavel está mais actual do que nunca e Sampaio agradece. Sai pela porta grande, de Janeiro a um ano", e no "que remanesce [pois] são bloquistas e populares, coloridos e inconsistentes, activistas dos gritinhos ensaiados e das patetas lições de vanguardismo e/ou de reformismo".

Bela prosa. E até ironiza "Mas em política importantes são os fins, não os meios.". Assim de repente parece que não fica pedra sobre pedra, é malhar nesse Estado da Nação. Como convém, não há nada como os livre-pensadores.

Depois sigo ecrã abaixo, direcção dos dias passados, e ei-la, súbito teorizando que "Mas em política importantes são os fins, não os meios.". Blogando assim "Fidel é um ditador, mas não é um mau ditador: é um ditador puro. Com o que isso tem de mau, também. Forcem-no, nada conseguem. Respeitem-no, reparará erros".

Ah, afinal é isso! (volta-se ao post acima e, claro, claro, faltava algo, aquele algo.). Não há dúvida "Maquiavel está mais actual do que nunca..." como afirma. Vê-se, com esta retórica.

Fico-me com esta, a da semana. Fidel, o Puro. Os princípios bons e os meios que se lixem.

E depois, do cimo de tanta moral, de tão bons princípios toca de dar porrada nos outros. Impuros, claro está. Que coisa...Passo.

Publicado por JPT em 04:39 PM | Comentários (0) | TrackBack

Eleições em Moçambique

Como ia dizendo leituras rápidas são simplificadoras. Abstenção generalizada, desde anteontem que se fala em cerca de 70%. Afinal por todo o país. Para que os politólogos e os outros das ciências sociais reflictam. Depois do processo terminar.

E, parece, mais uma vez contra as simplificações, a vitória a tender para a Frelimo. A contar estão, a ver vamos.

Publicado por JPT em 03:00 PM | Comentários (5) | TrackBack

Eu sabia.

A seguir serão os falsificadores de audiências. Cuidem-se.

Publicado por JPT em 08:29 AM | Comentários (1) | TrackBack

dezembro 02, 2004

Bola

As prezadas visitas já repararam que o Terceiro Anel [pese embora o horroroso nome] é melhor do que qualquer jornal desportivo online?

Cada vez mais vou lá na manhãzinha saber das coisas da bola, abandonando as referidas tralhas. Quem serão os prezados bloguistas? Quais serão as suas actividades profissionais?

É algo que realmente me surpreende, gente que faz um verdadeiro jornal (presumo que sem reportagens, mas isso é normal que daqui não levam nada para o leite das crianças ou para a cigarrada durante os jogos), exigente e constante absolutamente gratuito. Pelo gozo.

É um dos melhores blogs portugueses, mesmo lá no topo. Tivesse outro nome, tipo "Maravilhosos Azulejos", "Visconde Imortal" ou "Leão Imperial", colocava-o aí nas minhas ligações favoritas. Assim não posso, por razões morais. Mas lamento-o.

Publicado por JPT em 04:48 PM | Comentários (3) | TrackBack

Eleições em Moçambique

Ainda faltam oito horas mas...enorme abstenção no Sul, algo regular no centro e norte, diz-me o telefone aqui e ali, até atirando números (ainda se vota e portanto não me fica bem ecoar, ainda que puras especulações. E isso por mero princípio pois não prevejo nenhum eleitor aqui de visita). Expectativa, claro. Até porque não há uma grelha de análise, assim se evitando simplificações. A contar vão, a ver vamos.

Publicado por JPT em 01:18 PM | Comentários (5) | TrackBack

Por falar em audiências de blogs

para quando o livro-colectânea Xupacabras?

Publicado por JPT em 08:20 AM | Comentários (2) | TrackBack

Arquivo de Blogs

Já aqui escrevi várias vezes, e felizmente sem originalidade, sobre a necessidade de uma política portuguesa de arquivistica bloguistica. O Memória Virtual, fiel ao nome, também o referiu. Agora lança-se num memorial do bloguismo português deste ano, aqui encetado. Um contributo, obrigado. A acompanhar.

Publicado por JPT em 02:24 AM | Comentários (1) | TrackBack

O Sporting

A verdadeira polémica no meu país são as audiências dos blogs. Tudo porque o blog Barnabé, em pleno desvio de direita, se gaba de sucesso milionário no mercado de leitores. Zangas e dúvidas, tantas que nem faço ligações, é só correr pela blogotuga.

Resmungos muitos, e até tecnocráticos, sobre a eficiência do contador Sitemeter. Mas abrenúncios sobre quem não o usa, hereges. Dúvidas muitas sobre o contador Webalizer, aqui ao serviço da SuperLiga Weblog. Gritos de manipulação, até vera fraude barnabaica (mero exemplo nos comentários aqui). E o Paulo Querido tornado o Valentim Loureiro deste campeonato. Escutam-se já anseios pela Operação Blog Dourado (e o Ene que se cuide).

Estrategas afirmam ser possível induzir as audiências de cada blog por via do impacto dos links que incluem, científica metodologia aqui explicitada. Posto isto, e qual Joaquim Oliveira, apresso-me a fundar uma empresa de links, em parceria com o Tugir: chamar-se-á Bloco Central, homofonia alusiva à nossa (futura) capacidade de linkar "à esquerda e à direita" sem provas de nepotismo ou corrupção.

Informo do meu capital social: deste lado ando pelas 160 visitas diárias no aclamado Sitemeter. E o pintocostita Webalizer aponta 616 no último mês - claro que não acredito que existam 500 e tal pessoas que venham aqui todos os dias, mas que interessa isso?

Pois tudo isto me prova que há pelo menos uns cem tipos que aqui vêm regularmente e que sabem que há muito escrevi, e repetidamente, aquilo que é fundamental afirmar, qual Professor Aníbal Cavaco Silva:

Manuel Fernandes.jpg

Publicado por JPT em 02:02 AM | Comentários (5) | TrackBack

Muita Abstenção

a sul. Ou muita abstenção a Sul?

Publicado por JPT em 12:58 AM | Comentários (4) | TrackBack

dezembro 01, 2004

Dia de futuras eleições (a seguir)

Ironia, dia de eleições aqui e de anúncio de eleições em Portugal. Impeliu-me à escrita, um Dia de Futuras Eleições inútil. Pois muito melhor (o que é natural) escreveu José Manuel Fernandes [abaixo transcrito, a ligação é perecível] dizendo exactamente o que eu quis então dizer.

Muito mais do que eu quis ou conseguiria dizer aqui está o melhor do blogoportugal de hoje (ontem).

Que Venha a Boa Moeda
Por JOSÉ MANUEL FERNANDES
Público
Quarta-feira, 01 de Dezembro de 2004

Em Julho a justificação de Jorge Sampaio para a designação de Santana Lopes como primeiro-ministro tinha duas componentes: uma de reafirmação das virtudes e das regras do parlamentarismo; outra de recordação de que poderia utilizar a qualquer momento a "bomba atómica" que possui, a de dissolução da Assembleia da República. Foi o que ontem fez. De forma absolutamente coerente com a sua forma de agir e pensar e com o que tem vindo a dizer ao país.

Jorge Sampaio sabe que, hoje como em Julho, há no Parlamento uma maioria parlamentar que sustenta o Governo. Mas também sabe que a simples existência dessa maioria não é suficiente para assegurar uma governabilidade estável. Ou seja, o Presidente deu a oportunidade a Santana Lopes de provar que estava à altura de ser primeiro-ministro - este encarregou-se de provar que não estava.

Em Julho ter dissolvido a Assembleia teria sido uma decisão política "ad hominem", legítima mas com fragilidades. Em Novembro, após tudo o que se passou, aquilo que se temia e para que o próprio Sampaio avisara passou a ser uma decisão lógica.

Nestes quatro meses o primeiro-ministro começou por encarregar-se de demonstrar que ele próprio era um foco de instabilidade política, prometendo num dia o que desprometia no seguinte, atrapalhando os seus ministros - incluindo os que eram competentes e esforçados - e demonstrando, para quem tivesse dúvidas, que vive dos jornais, pelos jornais e para os jornais. Conseguiu desestabilizar a coligação governamental, criando uma enorme tensão no seu interior pois o desastre anunciado para que estava a conduzir o PSD levou à revolta das bases que, mesmo submetidas à vontade do "capo" eleitoral, não deixaram de manifestar ruidosamente o que pensavam no recente congresso do partido. Conseguiu criar um clima de cortar à faca em todos os órgãos de comunicação onde o Estado tem, directa ou indirectamente, uma presença, umas vezes por vontade própria, outras por declarações acéfalas de alguns ministros, por fim fazendo com que todos passassem a vigiar todos e a desconfiar de todos. Tentou inverter o discurso político sobre o estado da economia, criando um clima contrário à consolidação orçamental, a obsessão do anterior Executivo e que ele deliberadamente incumpriu. Criou um tal clima de desconfiança e falta de coerência sobre o que nos poderia surpreender no dia seguinte que até muitos empresários que, em Julho, se tinham manifestado a favor da não dissolução começaram a perceber que qualquer outra solução era melhor que esta orquestra dirigida por um maestro que em vez de música criava ruído à sua volta.

Desta forma, sistemática e persistente, Santana Lopes foi incumprindo os pontos que Jorge Sampaio considerara essenciais, na sua comunicação de Julho, para reconduzir a maioria. Mas o mais grave, a gota de água que terá por fim feito Jorge Sampaio perceber que não era mais possível "aguentar" o Governo sem se tornar, de uma forma irreversível, cúmplice dele, foram os desconchavos do último fim-de-semana. Primeiro, descobrir que o primeiro-ministro não tinha qualquer escrúpulo em invocar o seu nome para manter no Governo alguém contra sua vontade. Depois, que havia gente no Governo que num dia jurava servir o país com lealdade e, no final da semana, acusava o núcleo central do Executivo de deslealdade, batendo com a porta. Pelo caminho ler um artigo de Cavaco Silva deixando cair, de vez, o líder do seu partido para, logo a seguir, ver o primeiro-ministro utilizar uma cerimónia de Estado - uma inauguração - para lhe responder, fazendo uma lamentável rábula sobre bebés, incubadoras e estaladas. E, por fim, entender que Santana estava cego, surdo e mudo a todos os seus avisos.

Não fazia parte dos planos de Jorge Sampaio interromper a legislatura a meio. Até porque está empenhado em algo que sente ser fundamental para o país e para a Europa - a boa realização do referendo sobre o Tratado Constitucional e a vitória do "sim" - e sabe que uma eleição conturbada pode comprometer esse objectivo. Mas já não era possível continuar a ser ele a alimentar o bebé na incubadora: talvez salvasse o bebé, mas o país ia-se afundando. Por isso utilizou a "bomba atómica". Não era mais possível continuar a sustentar um Governo que se autodestruía vorazmente, comprometendo pelo caminho o futuro de todos nós.

Por tudo isso é que agora, como em Julho, Sampaio agiu de acordo com o melhor da sua consciência e fiel aos seus princípios. Possam agora as eleições que se seguem conseguir o que Cavaco sugeria no seu artigo do passado sábado: que a moeda boa seja capaz de afastar a moeda má.


Publicado por JPT em 02:48 PM | Comentários (1) | TrackBack

Dia de futuras eleições

Já por aqui o disse várias vezes, sou eleitor do PR (e LNT se isto não chega para acabar com esses rótulos "a la" não sei que mais lhe diga), e muito apreciei o que fez ao empossar este governo português.

Fez então bem Jorge Sampaio defendendo o sistema político parlamentar. Se a tendência é a marketização da política, via pessoalização, então que se combata esta defendendo o espírito do regime. Onde escrevo "espírito" claro que significo "razão". Uma dita "esquerda" irracional e incompetente clamou, furibunda, pela negação do sistema político. Mandando às malvas (digo, mandando à merda) qualquer respeito por valores que sempre anunciou seus.

Jorge Sampaio fez então actuar as regras do sistema (as quais, é certo lhe abriam outra hipótese). Mas acima de tudo fez então actuar o espírito do sistema. Teve a dignidade de não agir por presunção política.

Jorge Sampaio fez agora actuar as regras do sistema (as quais, é certo lhe abriam outra hipótese). Mas acima de tudo fez agora actuar o espírito do sistema. Teve a dignidade de agir por avaliação política.

Poderia ter previsto, poderia ter pré-avaliado? Acho que sim, PSL não é flor que se cheire. Mas decerto que com deficit de legitimidade, devido ao preconceito que lhe estaria subjacente. E acima de tudo, seria uma pré-avaliação pessoalizada, contrária ao espírito do sistema político.

A Jorge Sampaio não lhe perdoarão os partidos à esquerda a decisão primeira. Nem tampouco lhe perdoarão os restantes partidos a decisão segunda. E, ainda que flutuando estrategicamente, não lhe perdoarão os fazedores de opinião e os jornalistas de todos os lados. Bem como a maioria do mundo bloguista, dos vários quadrantes [acabo de sair do Blasfémias onde alguns comentários são absolutamente execráveis, ainda assim saudados por alguns blasfemos, em vero delírio barnabaico]. O homem ficará sozinho face aos condutores actuais da opinião pública.

Por isso mesmo vou gostar de olhar para a evolução das sondagens da sua popularidade nos próximos meses. E estou certo que face a estas virão todos esses sábios (e blogosábios) políticos afirmar que o povo não só é povo como é ignaro e impávido. Além de povo, claro está.

Publicado por JPT em 03:23 AM | Comentários (6) | TrackBack

Dia de eleições

Hoje vota-se, amanhã também mas menos. É óbvio que não se fala de outra coisa. E com expectativa. Ainda para mais num país onde (ainda) não há capacidade de realizar sondagens minimamente fidedignas. Como há dias aqui deixei dos três mais importantes partidos ouço crença no sucesso. Absoluto para a Frelimo e Renamo, relativo para o PDD.

Há também quem, e de todos os partidos, preveja a hipótese a divisão de poder. Ou a ascensão do PDD a terceira força parlamentar com constituição de um governo de coligação. Ou, uma divisão mais radical, com vitórias dos dois grandes partidos em cada uma das eleições, legislativas e presidenciais. O que geraria um certo impasse no regime, de tipo presidencialista.

Da campanha nada posso dizer, não acompanhei ao vivo. Mas retiro muito menos ênfase na ameaça de fraude do que se esperava. Um cortejo de observadores internacionais também ajuda: EUA (ditos Carter Centre, com esse jeito americano de desestatizarem o Estado), UE, SADC, Commonwealth, e até CPLP (não conheço a dimensão desta missão, mas estou curioso) são aquelas de que eu tenho conhecimento. Mas creio que a menor ênfase no discurso da "fraude" por parte da Renamo terá também a intenção de impedir os efeitos desmobilizadores no seu eleitorado, temendo-o cansado de derrotas.

Mas essa redução do discurso da hipótese de "fraude" foi positiva, reduziu a tensão pré-eleitoral.

Dois pontos, agora que haverá mudança de poder:

- Joaquim Chissano cede o seu lugar. Algo muito raro em África, ainda para mais sendo o actual Presidente um homem relativamente novo. E a naturalidade com que tudo decorreu é sinal positivo para as instituições.

- A nova configuração de poder, ganhe quem ganhar, herda algo a sustentar. Pois o poder moçambicano é excelente, em termos absolutos, na condução da sua política externa. Eu diria inigualável. Esta tecnologia política é um capital fundamental para o país. Que não se perca, é o desejo do residente.

Publicado por JPT em 02:31 AM | Comentários (7) | TrackBack

Camisa-de-Vénus

CAMISINHA.jpg

Dia de lembrar que perdi três alunos com a puta da doença. E do estúpido contra-natura que é perder assim os nossos mais novos.

Dia de lembrar tanta gente a dizer-me, anos a fio Moçambique dentro, que a doença não existe, "coisa dos brancos", "invenção para não termos filhos". E do até caústico "é preciso descascar a banana para a comer".

Dia de lembrar essa noite de distrito fronteiriço com um director local a dizer-me que por lá "entre 50% a 60% estão infectados", partilhando nós as cervejas quentes do barzeco local, entre as quase putas e seus homens. E da minha bebedeira final, ali aos bordos a imaginar-me entre zombies.

Dia de lembrar os sussurros sobre a ou b ou c ou d ou e ou ..., gente conhecida, por aí com a doença, a aguentar-se, a aguentar-se...

Dia de lembrar o que penso(amos), no dia-a-dia, quando passam esses tão mais magros.

Dia de lembrar os medicamentos que chegam em sigilo para as meninas-família, essas que também compram a pílula.

Dia de lembrar a palidez entre-whisky desse amigo acabado de saber os resultados do rastreio nos alunos dos liceus burgueses em Maputo.

Enfim, dia até de recuar a lembrar o Pifo, o primeiro tipo que vi com ela, apanhada nos meados dos 80s em Amsterdam, regressado ao bairro para morrer devagar, e a quem só me restava não o deixar ser o último a fumar o charro.

E dia, também, de lembrar a meia dúzia de "que se foda" de solteiro, fins de noite de imortal, que não haveria de ser daquela.

Dia de dizer que o resto é pó...

[Imagem roubada ao excelente Saude, SA]

Publicado por JPT em 12:15 AM | Comentários (4) | TrackBack

Mais do que tudo

Support World AIDS Day

...e o resto é pó.

Publicado por JPT em 12:01 AM | Comentários (2) | TrackBack