Só para informar os adeptos que o Velho acordou. E está a falar há três dias.

Bill Bolton (ilustrações), Christine Tagg (texto), A Libelinha Corajosa, Ambar
Qual será o nome exacto para estes livros, cujo abrir nos vai dando diferentes relevos? Que seja livro-harmónio. Este o da Libelinha Aviadora ajudando aranhas, escaravelhos, lagartas e etcs, uma pequena delícia.
Para os que aqui visitam e ainda não têm o hábito de cuscar na vizinha Passada ela deixou a sua visão do ambiente em Maputo a dias das eleições.

(Rui Assubuji)
Sim, já aqui deixei esta Velha que o Kiko captou algures, e que nos é oferecida no Imagem Passa Palavra.
Mas trago-a outra vez, por ela que tanto o justifica, mas também pelo texto que a acompanha, "A Velha a Rir". A autora, Hélia Correia, é escritora, não lhe exijo requebros e cuidados de ensaísta, de gente das academias, a esculpirem conceitos antes das botaduras (e quantas vezes assim a tudo esfarelarem). Escritora, Hélia Correia, é aqui apenas um espelho, do ainda seu tempo, da ainda sua gente. Diz ela, desta Velha que o Kiko apanhou:
"Esta velha pertence a um grupo humano que nunca se afastou demais do chão. Nem sei se haverá nela cristianismo, mas a sua aliança espiritual faz-se decerto com natureza e os antepassados que ela integra. Não é inteiramente um indivíduo, porque pertence ao corpo da aldeia, respira, sofre e alegra-se em uníssono. Alguma coisa envolve as casas e as famílias, um calor de matilha, a concordância genética do sangue. E tudo se alicerça na memória e na grande energia da linguagem com mais longevidade e arquitectura do que as nossas cidades tecnológicas" (Imagem Passa Palavra, p. 118).
Confesso que já nem me intriga a persistência desta ideia do africano em comunhão com a natureza, uma comunhão que é também com os seus, pois eles próprios tão naturais. Tamanha que esse "indivíduo" ainda não brotou em gente magma. Nem tampouco despontou esse deus, cristão claro, deus superior porque apartado do meio envolvente, natureza e antepassados; e que destes aparta, que se crê num deus produtor de indivíduos, que a sua graça é também a razão, uma estranha teologia tantas vezes inconsciente, mas enfim...
Esta constante crença no homem natural em África, deficitário pois claro, surge por vezes negativa, apenas racista ou somente sofredora com a, ainda assim, magestosa selva a la Conrad - e isso que tanto se nota por cá, com tanta gente chamando "mato" aquilo que foi desmatado (e cultivado) pela população.
Mas, e como neste caso, surge também como se positiva, num fado do bom selvagem. Como o encontram não sei - ao ler isto saltou-me, do fundo da memória, uma Hélia Correia aqui vinda em 1997 por mão do Travessias/Identidades, em absoluto êxtase naturalista com esta "África tão pura" que encontrava nos meandros dos prédios de Maputo.
Já disse, não me intriga a persistência destes preconceitos. Nem me choca o evolucionismo ignaro neste tipo de textos tão bem-intencionados, até querendo-se poéticos. Nem o racismo explícito (não, não é implícito!) ainda que tão apreciador e até solidário. Pois textos destes são espelho violento de quem, afinal, não percebe nada do seu próprio meio e do seu próprio eu, e como tal se desnuda no imaginar de tantos deficits alheios.
semana daquelas de rebentar, um gin na esplanada, a Inês e a Carolina vieram ter, ainda bem pois não estou nos meus melhores. Hão-de chegar os amigos habituais deste bocado, hoje com casal deles amigo e de nós desconhecido. Nossos patrícios aqui de férias dizem-nos, como se fosse necessário, em revisita após alguns anos de ausência, até largos mas não tantos assim. Apresentações de primeiro nome só, essa (boa) retórica de aproximação.
Enquanto se juntam mais mesas e a Carolina exige o seu bolo, mimada tal e qual seu pai no que ao gin tónico diz respeito, a recém-chegada sai-se, num soslaio, com "eu conheço a cara desta menina" e nós surpresos, sem entender o que estava para ali a dizer a agora senhora, e ela a comprovar "na net?". Ah, uma visitante do blog, surpreendo-me ("ele afinal há-os"). Mas nada, afinal mais do que isso, súbito estamos ali Fazendo Caminho.
Inopinado encontro de bloguistas em plena esplanada, e nem estava a habitual Passada, sempre mais matutina. Estás a ver LuísEne?, não é preciso mostrar a cara própria.
mas também para os seus vizinhos pós-iluministas. Esta é roubada daquela miúda da chuinga:
Foi um homem do seu tempo, seria sem importância, anacrónico e até disparatado questionar aqui a tal de "raça". Pois o que vale é mesmo tudo o resto.
Chega-me só agora às mãos, e depois de muitas perguntas e tentativas, e em (in)suficiente fotocópia, um aqui muito sussurrado trabalho:
Arquitectura Moderna em Moçambique.
Inquérito à Produção Arquitectónica em Moçambique nos Últimos Vinte e Cinco Anos do Império Colonial Português. 1949-1974
O autor é António Manuel da Silva e Sousa de Albuquerque, que o realizou como Prova Final de Licenciatura em Arquitectura na Faculdade de Ciências e Tecnologia, na Universidade de Coimbra em 1998, sob orientação do Prof. Arquitecto Alexandre Alves Costa.
Penso que ao trabalho lhe terá faltado a abordagem às obras públicas de então, por dificuldades de acesso ao arquivo. Mas o interesse da obra, para profissionais e não só, é relevante.

Por razões óbvias (e as imagens que aqui deixo sublinham-nas) muito se deseja a sua passagem de quase invisível fotocópia para a edição em livro. Até pelo ineditismo do trabalho, pois ninguém o seguiu. E como base para a sua extensão, tanto para o período colonial, como para uma recolha analítica do que tem vindo a ser feito nos últimos trinta anos.

Mas essa vontade de edição encontra grande obstáculo. Não se tem conseguido o contacto com o autor, e aqui vai o nome repetido: António Manuel da Silva e Sousa de Albuquerque.
Será que alguma visita deste Ma-Schamba conhecerá esse arquitecto, para que se transforme esta tese em publicação? Ou quiçá os bloguistas A Barriga de Um Arquitecto, Complexidade e Contradição, hARDbLOG, ou outros, possam convocar o colega?
O rosto e o tempo
Cruzam-se num espelho
Rachado. E dialogam.
É uma conversa de surdos.
O rosto e o tempo divergem
Na mesma vertigem do absurdo.
Ambos não se reconhecem.
(Ah, tão misterioso este rosto,
Tão plácido este tempo,
Tão cruel este espelho)
Armando Artur
(Imagem Passa Palavra, Porto, Identidades/Gesto/Faculdade Belas Artes)

[Esmeralda, por Milo Manara]
Há textos que ficam para trás, e é irremediável. Não porque percam a "ocasião", isso da tal "ocasião" não é mais do que estupidez armada em razão. Mas porque se lhes perde a intensidade, vai-se-lhes diluindo a lenga-lenga e, pior, esbatendo o tom. Acontece-me, sempre. Mas há um em especial que continua a lembrar-me que ainda não saiu à rua. Ainda que agora alquebrado.
Há meses o Bruno Sena Martins narrava a sua primeira experiência numa casa de "alterne", para lá arrastado por um simpático camionista na sequência de uma avaria , umas cervejas partilhadas num meio de estrada enquanto aguardava reboque salvador.
O tom do Bruno era mais que desagradado, com o discurso do camionista e o putedo envolvente, com o qual nem falara. A mim o texto de então provocou-me ânsias de botadura. Talvez porque ele é também antropólogo, decerto por que no Avatares do Desejo se escreve muito, e bem, sobre mulheres (melhor dizendo, sobre ícones). E aqui tão diferente, tão afastado, lhe surgia o olhar.
Ainda comecei a ripostar, aqui coloquei um bocado de uma velha história minha, uma entre outras tantas. Nem era contraposição, queria apenas um cruzar de olhares, óbvio rescaldo de biografias, andanças e lugares bem diversos. E, parece-me notório, de idades diferentes.
Mas depois outras coisas se disseram urgentes e isto, vejo-o agora afinal tão mais cá do fundo, foi ficando para trás. Claro que já não tenho o afã da lenga-lenga nem a clareza do tom. Esse tal texto que desejei morreu, com pena minha. Mas cá dentro ainda resmunga um eco que o Bruno recebeu. Dizia um comentador, ali algo cúmplice no des-gosto, no des-prezo: "Espero que tenhas bebido pelo gargalo" (às tais cervejas, é claro).
E é mesmo com esse nojinho, esse arrepiozinho, que há meses que cá por dentro algo resmunga, e não se cala. Então é para tais desconfortos que aqui trago esta minha amiga, com quem costumo partilhar os copos neste bar

[Esmeralda, por Hugo Pratt]
Dirão, alguns mais sozinhos, que a Esmeralda não é uma qualquer, que nunca a encontram por aí. Sim, garanto que não é, concordo. Mas também, qual o problema? Pois ainda que por esses bares todos da minha vida tenha encontrado um ou dois Steiner nunca vi (nem em blogs) nenhum Corto. Nem mesmo o Rasputine, nessa sua radical maldade porque tão ingénua. Pois não somos todos tão mais mortais?
Semana das eleições, aí no meio dela, dois dias de votos e depois a contagem. Essa sobre a qual tanta polémica anda no ar.
Ter amigos nos diferentes partidos dá isto. Todos acreditam, e realmente, na vitória. Até o novo (e pequeno) PDD acredita vir a tornar-se a tão ansiada "terceira força", partido-charneira, decisivo em coligação governamental e até em segunda volta presidencial. Esperançosos no voto do centro, em particular lá pelas banda dos ma-sena.
Dos grandes nem se fala, todos entusiasmados e crentes na vitória.
Alguém, muito alguém, ficará desiludido. A gestão da desilusão é a maior arte política. A ver vamos.
Ele há coisas...naco de alentejo a aportar e, como que sabendo, o homem a acompanhá-lo na sua prosa que não se iguala, buscando memórias da Costa do Sol.
A ler, como guia. Para mim guia do hoje, sábado à tarde. Para outros, guia do futuro (ouviu, amigo Eufigénio?)
Nem lhe vi a cara, ao carteiro, hoje em dia visita tão rara. Foi chegar a casa e deparar-me com naco do longe, desses de ler com o papel na mão, que melhor não há, anunciando-se em "Estamos chegando ao reino do gerúndio, enquanto expressão da santidade do tempo, que faz com que as coisas não sejam, porque vão sempre sendo", diz "prefaciando"

o senhor José Carlos Albino, mesmo à porta da "Mesa da Malta" que se enceta assim "O borrego é carne de excelência e sustento que por si só faz a alegria da casa da malta. E que diríamos se irmanado com o chispe, o toucinho, os ossos e o rabo de porco, vindos da salgadeira, mais o acrescento das peças de carne da chaminé. E por que não folgar a entrada nesta comezaina a um viçoso e tenro molho de cardinhos, que ali, na beirinha da seara, pediam participação na festarola. Dia de esmero para a cozinheira, que de qualquer maneira é pessoa opiniosa mesmo nas açordas de alho. Cozido de grão, pitéu de fazer um moiral!".
É destes modos que se faz este Alentejanando. Estórias e Sabores. Falares de druida, confirmo-o agora que me deixei folheando. Cânticos muito belos, já o sabia antes, que quem assim Alenteja não engana.
Coisa de tais saberes adornando tamanha prosa que nunca poderá deixar-se esgotar. Um abraço, compadre Isidoro de Machede. Que não estou mandando, é declaração de dívida, eu seja ceguinho se não o hei-de ir entregar em pessoa, lá nos ares do Vimieiro,

em repasto de emigrante, saudoso e glutão.

Lá por onde as pessoas pensam das coisas do mundo há alguns pólos, nortes e suis. Alguns até magnéticos. Um deles, sempre-em-pé, é o que anuncia gentes na direita, conservadores pessimizando na malévola natureza dos homens, e outras gentes mais p'rá esquerda, progressistas animados nas infinitas potências (virtudes) dessa mesma natureza humana.
E essas ditas gentes também assim se afirmam, como se reclamando uso capeão de um qualquer rincão de onde logo se passam a apedrejar mutuamente.
Fumo um cigarro. Pois se tal coisa não existe, como poderá ser ela boa ou má? É que até como metaforazita é fraquinha.
Ao meu texto Rodrigo Moita de Deus dedicou uma nota. Respondo, já atrasado, até fora de moda, que isto de dialogar com blogs colectivos é difícil, ainda para mais se atentarmos na azáfama que vai no Acidental.
Sobre Buttiglione pouco poderei avançar. Acho que a questão é política e não religiosa mas isso já foi escalpelizada até ao queixo, para quê insistir? Concordo com RMD que muitos políticos separaram a religião do exercício do poder (e alguns até em termos absolutos, infelizmente, que há sempre uns mandamentos que conviria não esquecer). E nada tenho contra gente de fé a exercer o poder: o maldito "motor de busca" não me dá acesso às minhas falas de ateu, mas não me vejo numa "condição ateia" face à política (ou a outra coisa qualquer). Mas desconfio de quem se vê numa condição religiosa face ao poder. Mas lá está, isso não é sinónimo de um religioso no poder.
RMD citou Guterres e eu resmunguei. Diz ele que embora católico pouco praticante também se teria ajoelhado face ao Papa. Nem contesto. Eu próprio, ateu não baptizado comporto-me de modo diferente, mais grave, diante dos padres - sorrio ao exemplo, mas ainda há meses, jantando cá em casa com um padre bom amigo, homem especial de décadas aqui, saíu-me um "porra" ou "merda" qualquer, tão habituais me são estes, mas então fiquei atrapalhadissimo, a pedir-lhe desculpa, e o homem a rir-se num "ó zé, deixa-te disso".
Mas eu não escrevi resmungo por António Guterres se ter ajoelhado diante do Papa. Eu escrevi resmungo porque António Guterres, primeiro-ministro da minha República, se ajoelhou diante do Papa. O que é totalmente diferente. E inadmissível.
Finalmente, e regressando a Buttiglione, apenas porque ele é a fonte desta questão sobre o papel dos católicos na política. Lamento que ninguém que dele se sinta próximo tenha por aqui passado para responder à minha irónica pergunta, serão as viúvas piores mães?
Mas insisto, agora sem ironia: a minha mãe enviuvou muito jovem, com três filhos. Assim viveu cerca de dez anos. Foi má mãe para os meus irmãos? Conviria trazerem-me a teologia para mo explicar. E um viúvo, a criar robots [robots na teologia?]?
Deixemo-nos de coisas, Buttiglione é apenas um ultramontano, anacrónico. De moral execrável. E não é o facto de se escudar numa "condição católica" que lhe apaga esse negrume, moral e intelectual (essa impiedade?). Ou seja, não serve para ser base de uma reflexão sobre as ligações entre a religião católica e a política.
E mais não digo, que se RMD já teme parecer beato também eu já entrevejo o anti-cristo no espelho.
O LNT do Tugir foi até aqui e por lá descobriu que "shamba" significa "sábado" em Afegão, Curdo e Urdu. Que isso não me associe a organizações mais aguerridas, dessas que grassam por tais paragens.
Mas se afinal este blog se chama "Sábados", talvez deva passar a semanário. Vou pensar nisso. E nos suplementos. E no saco de plástico - como se poderá plastificar um blog?
A instituição de utilidade pública "Ene & Queridos" decidiu acariciar-me o ego. Eu ronrono aqui.
No meu blogoPortugal continua-se a discutir o caso de Buttiglione, o ex-futuro-comissário europeu. Em particular no sempre activo Blasfémias.
Sobre este caso lamento-me. Ainda que apenas neste modesto blog coloquei uma pergunta à qual nenhum dos visitantes entendeu patrocinar resposta: "Se as mães solteiras são más mães (ou "menos boas") isso aplicar-se-á às viúvas?". Será desta que algum apoiante do ex-candidato poderá elucidar?
Terá sido legítimo o seu afastamento? Confesso que formalmente me agrada a questão que colocam: pode um católico exercer cargos políticos sendo católico? É que Buttiglione defendeu-se muito bem, com extrema elegância [e ironia, benção do(s) deus(es)]. E diante dos seus apurados argumentos torna-se difícil deixar de lhe dar razão.
A não ser que se pense como CAA, o qual, vero Blasfemo nega essa hipótese, implicando tais crentes de fundamentalistas.
Eu ateu (e nisso fundamentalista) assusto-me. Pois lendo CAA et al parece que alguns querem fazer do ateísmo a religião oficial do Estado. Mau, este é laico, não ateu. [Sobre isto há meses pus para aí uns "A Fala do Ateu I e II", mas o motor de busca está (sempre) inacessível, pelo que não há auto-link]
Rodrigo Moita de Deus de imediato se revolta, convocando católicos que separaram religião da política, citando entre outros Guterres. Isto é um terreno difícil, porque muito dificilmente avaliável, não é algo só formal. Mas enfim. Aceite-se que houve distinção. Mas Guterres, Rodrigo Moita de Deus? Um homem que sendo primeiro-ministro da minha República ajoelhou diante do Papa? Estamos todos a brincar? Devemos estar pois isso passou incólume.
E já nem falo da trapalhada missão de cooperação a Timor, sob orientação do padre Melícias. Que de cooperação sabia nada. Mas aqui calo-me, que sendo cooperante e mudando os ventos de Lisboa ainda me faltará para o leite da miúda...que religiosos serão, mas pecadores exímios. E dos grandes.
Adenda: numa agitadissima caixa de comentários CAA nega essa deriva ateísta. E com fundamento. Ok, fico-me apenas com a impressão que a tecla lhe correu grossa.

O Ferroviário de Nampula é campeão nacional de futebol: saalama Nampula.
Em 28 anos de campeonato é a terceira vez que o campeão não é de Maputo.

Em 1976 o Textáfrica, em 1981 o Têxtil de Púngue. E agora! E o primeiro campeão do Norte. Certo que houve a guerra, este domínio das equipas de Maputo não é apenas efeito da macrocefalia da capital.
É a descentralização. Ainda que sempre a torcer pelo Maxaquene fico contente. Vakani-Vakani, mas contente.
[Foto e Tabela retirada do Jornal "Desafio", 22 de Novembro de 2004]
(um email d'amiga)
On Monday, 8 November the SADC Firearms Protocol entered into force when the ninth country deposited its instrument of ratification with the SADC Secretariat in Gaborone. This is a significant achievement for Southern Africa as it represents the first legally-binding treaty to regulate small arms in Africa. The impetus behind the ratification should lead to a reinvigoration of the work of the SADC small arms committee and greater political action on small arms in the subregion.
The countries that have ratified the Protocol are:
· Botswana
· Lesotho
· Malawi
· Mauritius
· Mozambique
· Namibia
· South Africa
· Tanzania
· Zambia
The countries that remain to ratify are the DRC, Swaziland, Zimbabwe and Angola.
Hip, hip hurray!
(obrigado tia Ana)
Cada vez mais me convenço que o melhor observatório de Portugal está aqui. E que melhor exemplo do que este?
Excelente memória a do Abre-Surdo, a recuperar o excelente e sempre actual O Problema dos PALOP de Miguel Esteves Cardoso.
Essa questão da constituição europeia encheu os blogs e não só. Até produziu um blog próprio.
Eu permito-me insistir: os portugueses que vivem fora da proto-confederação europeia têm direito a voto no próximo referendo? Ou, como vivem fora da proto-confederação europeia, são considerados portugueses de segunda?
Caso negativo, a concordar com o que acontece com as eleições para o parlamento europeu, não será isso uma violação constitucional? Falo do espírito, aquele da igualdade dos cidadãos, não falo do tricot de artigos que tanto me ultrapassa.
Votar para uma constituição de modo inconstitucional seria interessante.
O Tó-Mané Botelho de Melo já aqui botou algumas faladuras, das muitas que vai escrevendo, sempre entre o cortante e corrosivo. Agora que se foi de Moçambique para um porto qualquer transferiu, para mal dos meus pecados, as suas incursões bloguísticas para a vizinha Passada. Assim, e ainda que roído de inveja, muito aconselho o seu "partir a loiça toda" nesta Laranja Dourada.
Claro. Claro porque Aly Silva se pergunta: a. porque não saem (mais) das capitais os trabalhos da RTP-África? porque são portugueses os delegados nos países? Permito-me, meio utópico, a acrescentar, porque não fazer rodar jornalistas dos países de expressão portuguesa? Enfim, coisas aparentemente simples e estruturantes. Mas...e o preconceito sobre hierarquias? Mas...e as coorporações?

Desde que bebezinho de berço até hoje mesmo, nos 2 anos e meio, em que exige o "bebé" apontando para as colunas. É a música preferida da Carolina, antes para adormecer até naquelas noites (bem-haja o compositor, dele sejam os céus) hoje para fazer os joguinhos de braços e corpo que nos dão os céus, pai e mãe.
É a música preferida da Carolina, esta "do bebé". Feita por Raimond Lap e sobre a qual tudo também se descobre em www.atxilipu.com.
Música para sossego e encanto dos pais. Música para filhos.
Publicidade sim, mas não enganosa. Especialmente no quase Natal.
Copo(s) fim-de-tarde, aquela já noite longa. A "fazer o governo", claro, que as eleições são já para a semana. E eu "então e se a Renamo ganha?". Risos, os do "é pá, então vais ver o viracasaquismo"
é liberdade, dizer um bocado o que nos vem à cabeça. Não um emprego ou negócio, não mais do que expressar opiniões e gostos. Um espaço de liberdade, repito. Descomprometido.
Escrevi para aí uma lenga-lenga implicitando que há uma responsabilidade social na blogoescrita: milhares de caracteres para dizer o óbvio. Mas que não seja ela fundamentalista. Que isto do blog em blog não é escola de virtudes. Borregue-se aqui o que não se borrega out-blog.
Mas ainda assim. É por FNV, cujo recente regresso ao blogando foi óptimo acontecimento, que dou de ecrãs com esta prosa de Ana Gomes:O "Kroes" da Comissária Nelly, lê-se Cruz. Será que tanto talento empresarial não se explica por costela de antepassado judeu/cristão novo português, como é marca de boa parte da elite holandesa (quem ficou a perder fomos nós!) ?.
Lido à letra, assim citação desencaixada, apenas pré-conceitos históricos, até despropositados, de quem esquece Espinoza (ainda que ostracizado pelos seus) ou nem a divulgação de Le Goff leu. Informações e memórias contextualizadoras e complexificadoras destes pré-conceitos.
Mas se não lido à letra, se contextualizando este recuperar da imagem de uma tendência colectiva (imanente) do judeu para o comércio e usura (no texto implicita-se o mercenário), é óbvio que não são pré-conceitos são explícitos preconceitos, desvalorizadores. Indutores de atitudes. Agitados ao vento por mera política. E pequena.
Ainda que neste espaço descomprometido só posso lamentar. Sem repúdio, que está calor demais para tais fluxos. E lamentar também que quem isto (re)agita seja embaixadora da minha República.
Este Ma-schamba gentio é também quixotesco (imbecil, é isso). E diante disto dá-lhe para a "atitude", decerto nada importante: apesar de cidadãos como MMLM ou VM a ligação com o Causa Nossa é apagada. Porque há limites. Ainda que em blogs.
E só para que não digam que isto é sharonite aguda, sobre esta trama este Ma-schamba não só gentio como ateu tem este norte, que descobriu no Estaleiro: Arafat foi o rosto visível de uma causa que todos nós consideramos justa." (Cardeal José Policarpo).
ADENDA: o Lutz comentou, discordando e considerando-me rigoroso em demasia. Talvez. Tentei colocar resposta mas não consigo inserir o comentário - o próprio Ma-Schamba a revoltar-se com o exagerado "rigor"? A ganhar vida?
Devido a essa resistência técnica ponho aqui o quereria colocar nos comentários, mas só é explícito lendo o que lá foi anteriormente comentado.
"1. Meu caro, não misturemos o que não é de misturar. Uma coisa é a política, em que Brandt tinha mais do que razão. Outra coisa é isto do blogar. Diferentes em grau e natureza. Se há algo que eu possa comparar com o blogar é não a política mas sim o "conversar". E não converso com isto.
2. Rigoroso? Se estas afirmações estivessem num blog encimado com o Infante D. Henrique, a cruz de cristo ou outro símbolo "muito Estado Novo" o que se diria? Se fossem num blog num político conhecido de um partido de direita (há-os, escuso-me à deselegância de citar nomes) o que se diria?
3. Nem acho anti-semitismo perigoso. Acho mero reflexo preconceituoso (nem me passa pela cabeça que a senhora se ponha a perseguir indivíduos). É apenas, e lendo o post é óbvio, anti-barrosismo. Pequena política fazendo apelo "a tudo o que vem à mão" (à cabeça) - Brandt não tem a nada a ver com isto, e estarás de acordo.
4. Não é uma cidadã qualquer a brincar aos blogs. É deputada, foi dirigente política e, mais do que tudo, foi (e voltará a ser?) Embaixadora do meu país. Representou e representará a República, até simbolicamente (com a bandeira à porta, não esqueças). Este ecoar público de preconceitos rasteiros è inadmissível. Se quiseres, conspurca a minha bandeira.
5. o causa nossa não precisa da ligação para nada. Tem gente fantástica? tem, mas também não tem ninguém que se tenha demarcado do tom - e há blogs colectivos onde isso acontece. Mas isso não é da minha conta, cada blog como cada qual
abraço"
Ecos no Público [artigo abaixo transcrito] da presença das representações do Movimento de Arte Contemporânea (Muvart) e da Associação Moçambicana de Fotografia (AMF) no Arte Lisboa, ainda a decorrer.
António Pinto Ribeiro, comissário da Arte Lisboa, cujas deslocações a Maputo têm tido importante impacto no mundo artístico, e quais desejo venham a ser estruturantes [modesta saudação do Ma-schamba], tem toda a razão: "Uma das minhas maiores satisfações é que ambas [AMF, MUVART] voltem a Maputo como galerias profissionais, e com experiência. Acho que isso pode ser muito importante para o mercado da arte local".
Gemuce e Jorge Dias (Muvart) telefonaram ontem, tudo a andar muito bem, satisfeitos.
Se eu estivesse em Lisboa iria durante o fim-de-semana até à FIL.
Moçambique X 2 na Arte Lisboa
Público
Por VANESSA RATO
Sábado, 20 de Novembro de 2004
Até este ano, nem a Muvart nem a A.M.F. poderiam ter participado na Arte Lisboa pela simples razão de não existirem. Na verdade, as duas galerias moçambicanas que este ano estão na feira, foram fundadas quase expressamente para a vinda a Portugal e com o apoio da organização do próprio evento.
Há pouco mais de seis meses tanto a Muvart como a A.M.F. eram associações sem fins lucrativos - organizavam exposições, mas não transaccionavam arte. A Muvart correspondia a um movimento homónimo de autores contemporâneos que, na maior parte dos casos, tinham estudado em países como a França, a Alemanha, o Brasil e Cuba e que começaram a voltar a Moçambique a partir de 1999. A sigla A.M.F. é a mesma da Associação de Fotógrafos de Moçambique, fundada em 1981 mas praticamente inactiva de meados dos anos 80 a meados da década de 90, período em que o próprio material fotográfico era difícil de encontrar.
"Uma das minhas maiores satisfações é que ambas voltem a Maputo como galerias profissionais, e com experiência. Acho que isso pode ser muito importante para o mercado da arte local", diz António Pinto Ribeiro, ex-director artístico da Culturgest que este ano comissariou a Arte Lisboa.
Quando em Maio foi convidado para ajudar a feira a estrear um formato especializado em arte e artistas do Sul, a começar por Angola, Cabo Verde, Moçambique e Brasil, Pinto Ribeiro já estava há dez anos a trabalhar nessa área. "Nenhum dos países africanos de língua oficial portuguesa tem um mercado de arte nos moldes da Europa, EUA ou da América Latina", diz.
Em geral, são os artistas que vendem os seus trabalhos directamente a um comprador e o valor destes é estabelecido em função do perfil de quem os compra. Nessas circunstâncias, seria impossível a presença num evento como a Arte Lisboa, uma feira para galerias profissionais. Parte fundamental do trabalho de comissariado foi, por isso, no terreno: primeiro, a ajudar na fundação das galerias e na criação dos seus estatutos legais, depois a estabelecer os primeiros contactos com apoios financeiros locais para a deslocação a Portugal.
Angola e cabo Verde falharam
Em Angola e Cabo Verde esse trabalho acabou por não dar frutos. Em Cabo Verde haveria apoio político e financeiro, mas para um núcleo de artistas que não o escolhido pela Arte Lisboa. Em Angola não foi dada continuidade aos contactos que a feira tinha ajudado a estabelecer. Segundo António Pinto Ribeiro, muito artistas preferiram mesmo não vir.
Integrados em colecções importantes de África, são artistas cujas obras têm, localmente, uma cotação entre os 40 mil e os 60 mil euros. O confronto com o mercado e a massa crítica da Europa levaria, provavelmente, a uma descida desses valores. Daí a recusa, que foi também a resposta de alguns artistas moçambicanos.
Em Lisboa, a Muvart tem representados sete dos seus 11 associados mais quatro artistas convidados. Dois têm mais de 50 anos, mas, a maioria está nos 30. "Conhecemo-nos todos, temos as mesmas preocupações", diz Jorge Dias, um dos dois responsáveis pela galeria mas também um dos artistas.
Entre obras de escultura, desenho, pintura e instalação há trabalhos muito diferentes. Na peça de chão "Passas-te por aqui?", de Anésia Manjate e a mais cara em exposição (mil euros), uma espiral de búzios sobre pires de cerâmica queimados explora a influência da tradição na contemporaneidade - apropria-se de elementos usados na medicina e rituais tradicionais africanos para lhes conferir um novo estatuto, reinterpretando-os. O olhar de Marcos Muthwuye é mais irónico: a partir de formas reconhecíveis do quotidiano ou da arte tradicional africana constrói símbolos, como antenas parabólicas, num comentário aos paradoxos da realidade de um país em vias de desenvolvimento.
Só no primeiro dia da feira, a galeria vendeu sete trabalhos, entre os quais dois do mais jovem e surpreendente artista representado, Pinto, de 23 anos, que tem exposta uma série de desenhos de carga negra e profusão de elementos surrealizante (200 euros cada). Com um perfil muito diferente, dedicando-se exclusivamente à fotografia, a A.M.F. também já vendeu trabalhos.
Bito Macovela, um dos fotógrafos da associação, é responsável pelo "stand". Segundo explica, apesar das tentativas, a galeria não conseguiu apoios e teve que custear a vinda a Portugal, com excepção da sua viagem, paga pelo Instituto Camões. Fora o preço do "stand" na feira, houve toda a produção das fotografias, que são impressas na África do Sul. Muitas acabaram por viajar na sua bagagem de mão e por isso não estão emolduradas e sim empilhadas sobre uma mesa.
São, no geral, trabalhos muito ligados à tradição do fotojornalismo e virados, essencialmente, para temas do quotidiano. Os trabalhos a cor são uma excepção recente e prática mais comum a autores mais jovens. Os que venderam até agora foram, contudo, fotógrafos mais velhos, como Martinho Fernando e Mueche mas os valores, aqui, não estão cotados pelos nomes dos autores - estabeleceram-se valores de 350 e 450 euros para formatos maiores e mais pequenos
Augusto Santos Silva sobre política cultural. [texto transcrito].
A Esquizofrenia Cultural da Direita Portuguesa
AUGUSTO SANTOS SILVA
Público
Sábado, 20 de Novembro de 2004
1. No reino das palavras, a direita portuguesa exalta o património histórico-cultural. Ou por causa do valor próprio da tradição, ou porque o acesso às obras herdadas fosse condição necessária da criação contemporânea, ou porque esta última seria, em bloco, indesejável, ou porque o Estado só conseguisse manifestar "isenção de gosto", se se restringisse à protecção dos cânones classicizados, ou porque a política pública tivesse de ser selectiva, não podendo atalhar a tudo ao mesmo tempo e, escassos sendo os recursos, melhor fosse canalizá-los para "valores seguros", o certo é que o discurso habitual é a celebração quase mística da "herança" espiritual e dos seus testemunhos materiais. O que se faz de forma mais ou menos civilizada, com maior ou menor uso das estafadas acusações à "subsidiodependência" dos artistas ou, até, da velhíssima teoria de que o estômago vazio aguça o engenho. Mas faz-se e fazer-se constitui uma trave-mestra da doutrina da nossa direita em matéria cultural. Ela revê-se inteiramente no entendimento de que dá prioridade ao património sobre a criação, assim se distinguindo da esquerda, que preferiria o inverso.
Os factos não acompanham, porém, as palavras. E a prova é simples. Acaba de ser aprovado, na generalidade, o Orçamento do Estado para 2005, que regista um aumento global do Ministério da Cultura na ordem dos 4 por cento. Procuremos, então, as verbas previstas para os serviços e organismos de funções predominantemente patrimoniais: são os mais penalizados!
Os dois principais institutos perdem inclusivamente dinheiro: o Ippar, que trata do património edificado, leva um corte de 5 por cento, o IPM, que trata dos museus, perde 10 por cento. O corte atinge sobretudo o investimento; mas também não poupa as verbas do funcionamento, que baixarão 3 por cento no Ippar e subirão 1,7 por cento no IPM, ou seja, abaixo do valor previsto pelo Governo para a inflação. Ora, nós sabemos que ambos os institutos estão no limite das suas possibilidades e, portanto, menos dinheiro para as despesas correntes significará horários de funcionamento (ainda) mais reduzidos, mais salas de exposição permanente fechadas, menos programas educativos, menos exposições temporárias, menos pessoal para a guarda, a conservação e a divulgação, maior degradação do serviço prestado...
Alguns dos restantes institutos patrimoniais serão também atingidos. O Instituto de Arqueologia e o dos Arquivos têm aumentos reais, mas o primeiro ficará abaixo do valor de que dispunha no início de 2002. O mesmo acontece à Cinemateca, que é o outro organismo a registar subida. A Biblioteca Nacional ficará no mesmo nível de penúria que hoje conhece, o Centro Português de Fotografia (CPF) e o Instituto Português de Conservação e Restauro perdem orçamento. E a questão não é apenas financeira: o Ippar e o IPA estão paralisados, o IPM não dispõe de condições para concretizar o salto qualitativo que representou a recente aprovação da lei-quadro dos museus, e está agora colocada a ameaça de extinção do CPF, por via de uma espécie de dissolução no Instituto das Artes, o que, a concretizar-se, significaria um enorme retrocesso.
Parece haver, pois, alguma esquizofrenia. A mesmíssima gente que proclama aos quatro ventos o seu amor ao património não tem nenhum pejo em sacrificá-lo, em todas as decisões políticas concretas que é chamada a tomar. Até porque é da lógica do santanismo a reserva de um dinheirito para cativar tal nicho de "soi-disant" artistas, ou enfeitar este ou aquele evento de repercussão popular...
A direita esquerdizou? Nada disso, o que não faz nenhum sentido é continuar a distinguir políticas pela ponderação relativa da atenção ao património e do apoio à criação. Uma política cultural digna desse nome tem de ser de largo espectro: não é dizer-se "agora vamos cuidar da formação de públicos" ou "agora vamos incentivar a descentralização", é avançar articuladamente na frente patrimonial e no apoio à criação, na estruturação cultural do território e na internacionalização, na qualificação e profissionalização dos agentes e meios artísticos e na formação cultural dos cidadãos. E isso requer clareza e coerência na definição dos objectivos e reforço sustentado do nível de financiamento público, estatal e autárquico, nos bens e práticas culturais.
Foi, aliás, o que aconteceu, ao longo da segunda metade dos anos 90, como os dados recentemente divulgados pelo actual Ministério da Cultura comprovam. Avaliado pela comparação das sucessivas dotações orçamentais iniciais, esse esforço significou um aumento progressivo da proporção da despesa em cultura no total da despesa do Estado, passando de 0,5 por cento do Orçamento em 1995 para 0,7 em 2001 e 2002. Avaliado pela evolução da despesa realmente executada, a evolução foi mais lenta e difícil, designadamente por via da redução que já em 2001 se verificou, mas ainda assim positiva. Foi preciso que a direita regressasse ao poder para que este difícil percurso e os seus ainda escassos resultados fossem brutalmente interrompidos, com um desinvestimento deliberado, como nunca antes se conhecera, e quer no lado financeiro, quer mesmo no lado da acção política. E aí lá se esvaiu o amor doutrinário ao património! Este foi e continua a ser sacrificado, não porque os supostos "lobbies" subsidiodependentes se tenham malevolamente infiltrado no Ministério da Cultura, mas, pura e simplesmente, porque, onde não há outra razão que uma expectativa pré-eleitoral todas as áreas culturais são abandonadas.
2. Duas notas finais de actualidade:
a) a próxima quarta-feira será o Dia Nacional da Cultura Científica. À hora em que escrevo, a única iniciativa governamental que se conhece é o anúncio da inauguração da ampliação das instalações em que funciona o Programa Operacional de Ciência e Tecnologia... Entretanto, nada se sabe do orçamento da Agência Ciência Viva para 2005 e há três anos que não há qualquer concurso nacional para projectos de educação científica nas escolas;
b) o mesmo Governo que havia invocado a Alta- Autoridade para impedir a fiscalização parlamentar do caso Marcelo chama-lhe agora um "cadáver". Eis, pois, a teoria constitucional do santanismo: sim à liberdade de opinião, se não for contra nós; sim à independência dos órgãos de regulação, se deliberarem a nosso favor. E ainda há quem se sinta descansado...
Professor universitário
O Xicuembo elencou (elinkou) os blogs com olhar a Moçambique.
Panic on the streets of london
Panic on the streets of birmingham
I wonder to myself
Could life ever be sane again ?
The leeds side-streets that you slip down
I wonder to myself
Hopes may rise on the grasmere
But honey pie, you’re not safe here
So you run down
To the safety of the town
But there’s panic on the streets of carlisle
Dublin, dundee, humberside
I wonder to myself
Burn down the disco
Hang the blessed dj
Because the music that they constantly play
It says nothing to me about my life
Hang the blessed dj
Because the music they constantly play
On the leeds side-streets that you slip down
Or provincial towns you jog ’round
Hang the dj, hang the dj, hang the dj
Hang the dj, hang the dj, hang the dj
Hang the dj, hang the dj, hang the dj
Hang the dj, hang the dj
Hang the dj, hang the dj
Hang the dj, hang the dj, hang the dj
Hang the dj, hang the dj
Hang the dj, hang the dj
Hang the dj, hang the dj, hang the dj
Hang the dj, hang the dj
Hang the dj, hang the dj
Hang the dj, hang the dj
Thankyou ...
Que tem a tal elite in-blog a ver com isto? Lobi, neste caso.
Mas há uma outra dimensão de violência, mais estritamente política, a qual se pode considerar inter-blogs. Nada confundível com a anterior, de natureza diferente. Menos grave porventura, com toda a certeza menos criminosa.
Mas é uma violência que de modo explícito deriva de quem escreve. Do que opina, das opiniões que induz. E neste campo há necessidade de um efeito apaziguador. Via elite?
Apaziguamento por três motivos: para prevenir a eclosão de alguma violência real (de novo, antes de Hollywood), rescaldo/efeito destes calores; garantindo a blogolândia como local social de produção de valores de tolerância; e, mais do que tudo, sublinhando o direito de cada um publicitar a sua opinião sem ser ameaçado.
No fundo exige-se afirmação de limites à expressão pública, que existem em todos os meios de comunicação pública. E que parece inexistirem no bloguismo.
Não falo de apaziguamento de divergências, das discussões. Para alguns muitas destas podem parecer vazias, muitas até totalmente ocas. Mas essa "animação" é motor de alguma blogolândia. Mas urge (auto)controlar o tom. Pois a forma é conteúdo. Não por decreto ou por robot. Via elite? Ou via elite.
Por um lado há o que se induz. Por exemplo o Luís Ene introduziu algo que começa a ser comum "Atenção - os comentários são da exclusiva responsabilidade de quem os escreve". Num delicioso blog como o Ene Coisas isso parece óbvio, qualquer maluquinho que apareça lá a disparatar só se poderá ter enganado no número da porta.
Mas, em última análise, os comentários são da responsabilidade do(s) dono(s) de blog. Directa, porque tem obrigação de seleccionar o que acoita e ecoa. Claro que não se pode exigir que os bloguistas fiquem de plantão, à espera do comentário que aí vem. Mas é ele o dono da casa, donde o dono do critério. Indirecta, pois é ele que produz opinião, induz opinião e cria ambiente de comentário. O que lá está brota, em grande parte, do autor do blog.
Por outro lado há o que se produz, o que se afirma. Opiniões publicadas, aparentemente sem limites, tornando o bloguismo refúgio do insulto que não passaria em qualquer outro media, mas aqui sob o falso disfarce do "privado".
Honestamente neste campo apenas leio curtos ecos. Não frequento nem estabeleço ligações aos blogs radicais. É a minha participação, falível e modesta. Há muito que inquiri sobre a blogs de extrema-direita. Há bastantes mas nada sei sobre o que neles se passa. Não só porque não leio. Mas porque eles não ecoam no mainstream, não são comentados, contraditos, hiperligados. E, importante, nada sabendo do que lá se escreve e comenta não posso presumir nada, um mínimo de honestidade impede-me de antever um tom violento, global ou direccionado. Posso suspeitá-lo, mas apenas por mero preconceito.
Na extrema-esquerda não é assim. Também não visito, não leio, não hiperligo. Mas ela penetrou o núcleo central do bloguismo, constantemente citada, criticada, referida. "Linkada" para usar o termo arrivista . Daí o desiquilíbrio do meu conhecimento. Haverá evidentemente, tanto num lado como noutro, uma enorme pluralidade de tons, gente diferente a escrever, muitos com decência, alguns sem ela.
Mas não é admissível que alguém acoite aquilo com que O Acidental se deparou. E com ele(s) todos nós. É absolutamente inaceitável. Por mais atoardas que possam nele brotar. Ou em todos nós.
Hoje, e por via de uma espúria polémica em que elementos deste Acidental despoletaram, usando um tipo de argumentação similar à que me irritou aqui, fui dar com isto: "O partido pequeno (ou será o grande?) anda zangado e o goês Coissoró até já disse que não fez nenhuma jura de amor." (sem ligação, evidentemente), um exemplar do mais soez racismo, mal escondido de argumentação política, e que nenhum jogo de palavras a posteriori poderá esconder. E ninguém diz nada, toda esta indignidade se presume normal no Portugal de hoje.
Resmungam os atacados, se bloguistas. E chega. E vai começando a valer tudo. Ou já vale tudo?
Elite? Dava jeito, como tenho vindo a dizer. Mas como Luís Ene, se é esta gente a elite? Os maquinistas deste comboio descendente, com tantos à gargalhada. Obviamente sem ser por nada.
Censura? Controle policiário? Não estou a falar disso. Mas urge reflectir seriamente sobre algo que tem dimensão pública.
Reconheço dois grandes tipos de violência na blogolândia lusa. Face a um relativo primado da política há um tipo que tem sido muito pouco falado. Nos últimos meses três bloguistas me escreveram dizendo-se ameaçadas via email, sucessivamente ameaçadas por leitores anónimos. Ameaças onde se misturavam os tradicionais devaneios pornoviolentos com as questões de índole político-ideológica. A duas delas aconselhei a queixa policial mas optaram pelo silêncio.
Outras bloguistas foram alvo de notórias violações de privacidade, abuso de blog, chamemos-lhe assim, ao nível de utilização do blog, apropriação de identidade informática ou invasão de caixas de comentários. Presumo que estes casos não se esgotem em bloguistas mulheres, mas são estes que tenho conhecimento.
Se das ameaças ninguém duvidará quanto à violência psicológica envolvida, dos restantes abusos só cada um(a) poderá aquilatar do penalizador que é.
Esta dimensão da invasão de propriedade [o Ma-Schamba é minha propriedade, tem o meu nome, tem um registo, e pago (um quasi-nada é certo) por isso] tem que ser atentada.
Não estou a falar dos comentadores chatos, já por aqui tive um. De vez em quando lá aparece um ou outro a ameaçar-me, o "vê lá se te calas", que perco o emprego, que em África isto e aquilo, etc. É o censorzito que há por aí, sempre escondido no torpe anonimato. Agora anda o J. Neto do Africanidades às voltas com o seu "moscardo". Mas isso faz parte...Falo de abuso de confiança. E falo de violência psicológica.
Esta dimensão, da violência pessoalizada, não será a violência inter-blogs, directa ou indirectamente acicatada por bloguistas e/ou comentadores. Mas articula-se, e porventura potencia-se, com um clima de crispação, de agressividade, de impunidade informática. E tem que ser controlada, tem que ser denunciada.
Dirão alguns, ninguém é obrigado a blogar, se há episódios desses que se abandone. Sim, mas francamente, não terão os cidadãos direito a fazer coisas a que não estão obrigados tendo para isso protecção eficaz? Urge legislar. E actuar.
Talvez que em breve Hollywood nos ofereça um qualquer Anthony Hopkins série B, rejuvenescido, devorando incautas blogadoras ou gay bloggers. O manancial para o argumento anda por aí. E então aí pensaremos.
(cont.)
Há a dimensão legal. Nesta sou completamente ignorante, mas ainda assim atrevi-me a questionar sobre a necessidade de uma regulamentação específica para o bloguismo. Em comentário o NTC do Arcabuz veio negá-la, ainda que jocosamente, afirmando que o que serve para a internet chega para o bloguismo. Talvez, é mais do que possível. A palavra a quem realmente percebe do assunto. Mas, insisto, a palavra urgente.
Mas há mais aspectos que se levantam. Face à proeminência de jornalistas (e de proto-jornalistas) no bloguismo luso (e não só) impôs-se uma preocupação com o controle da veracidade e da legitimidade do que é publicado (pesei a palavra)*, o que o que o PQ aqui ecoa. Esta dimensão ganho enorme impacto público com a polémica em torno do Do Portugal Profundo. Creio, ainda que leigo, que o enquadramento legal e a deontologia jornalística poderão cobrir esta vertente. Mas, e mais uma vez, a palavra a quem realmente percebe do assunto.
Entendo, no entanto, que esta é apenas uma parte da questão, até quase de índole profissional. Fundamental. A ser discutida. Mas apenas uma parte. A questão ultrapassa o domínio das "notícias", e sua legitimidade. Prende-se também com opiniões, opiniões publicamente expressas. E, também, com a indução de opiniões.
Adianto, há uma violência (de novo, pesei a palavra) crescente por aí fora. Inaceitável. Inaceitável para um bloguista. E, presumo, dentro de em breve inaceitável para o extra-bloguismo.
Leio blogs há cerca de ano e meio, o Ma-schamba tem onze meses. O clima abrasivo da blogolândia lusa tem vindo a crescer a um ritmo absurdo. Há seis meses ninguém diria isto. Efeito do inverno europeu, dirá o irónico. De uma agitação política, dirá o partidarizado. Não acho, não acho nada mesmo. Considero mesmo bastante grave, presumo-o até estrutural, ainda que não lhe intua verdadeiras causas sociológicas.
Não me arrogo acima desta tolice. Atiro-me para dentro do caldeirão a ferver da imbecilidade radical, eu próprio um dia me irritei o suficiente e insultei publicamente um outro bloguista. Hoje arrependo-me de não ter mantido a calma olímpica, de não ter mastigado o insulto, de não ter ignorado, assim mantendo a minha hipócrita tentativa ficcional do quasi-cavalheiro ao teclado. Ainda assim presumo que afirmar esse episódio como um apelo à violência será um bocado de auto-flagelação excessiva. Mas que isso não minimize o mea culpa, mea maxima culpa...
Impõe-se discutir questões de ética (deontologia do bloguista?) e de enquadramento institucional, combater a presente instigação à violência. Lembrando o mote desta série de textos, falo do papel de uma elite bloguista (agente ou não de blogs) que sistematize um travão a tudo isto.
*o constante evitamento da palavra "publicação" é um mecanismo retórico falsificador, propondo implicitamente o carácter privado do bloguismo, donde da sua desresponsabilização.
(cont.)
Na sequência do encontro de Beja o Luís Ene ilustre blogólogo, questiona-se sobre o estatuto e/ou pertinência de uma elite nos blogs lusos. Por essa questão recebe dois deliciosos textos da Vitriolica, que julgo rematarem a coisa.
(Sem me querer pôr em bicos de pés lembro um velho texto que pus sobre a hipótese dessas elites, ainda que sem a blogologia do LEne e sem o encanto da Vitriólica, e respectivo vice-versa).
Assim resmungo, enquanto este espaço parecer infinito deixemos as elites lá fora.
Depois, livre no infinito, hei-de visitar outro blogólogo que se tem vindo a questionar. Sobre o enquadramento de tudo isto. Sobre a ética de tudo isto.
Na soma destas interrogações multiplicada pelo que tenho lido fico a duvidar das minhas opiniões, até implícitas no tal velho texto igualitário. Pergunto-me, haverá uma elite bloguística? Ou melhor, deverá haver uma elite bloguística?
Talvez não a elite que Luís Ene abordou. Decerto que não uma elite do site meter ou do technorati. Nem tão pouco uma elite estética.
Refiro-me ao enquadramento e a questões éticas numa actividade que é eminentemente pública - acho que é uma absoluta falsificação afirmar o carácter privado do bloguismo.
Que articulação com as elites terão estas questões éticas ou jurídicas? Pois creio, e radicalmente, que produção e reprodução dos valores, éticos ou jurídicos, são actos de elites. O conteúdo destas é muito diversificado, consoante os contextos. A forma de aceitação desses valores pode ser por mais ou menos aceitação ou imposição. Mas os seus agentes são elite. [E com isto não estou a valorizar "elite", estou a descrever]. Previsivelmente sufragada, se em democracia.
(cont.)
O excelente Causa Nossa está a desenvolver uma muito interessante coluna, a propósito do seu aniversário: "a minha causa", abrindo ecrãs aos seus leitores para lá expressarem a respectiva causa privilegiada.
Então aqui boto o meu contributo para tão feliz iniciativa.
A Minha Causa

(fotografia Tatiana Pinto)
Excelente texto no Cartas de Londres (e também este). Não resisto a citar um trecho do primeiro:
"Francofobia primária. Já aqui nos referimos a este fenómeno em expansão em Portugal (ainda mais, diria, do que nos States). Mas ele continua a prosperar numa blogosfera e comentariado nacional que não primam exactamente pelo interesse pela realidade internacional, e tendem a usar a realidade internacional como arma de arremesso nas guerrilhas políticas internas."
E seria interessante analisar o porquê de uma direita (ou blogodireita?) portuguesa tão fervorosamente pró-americana (versão republicana, claro está) e tão francófoba ou europófoba (que raio de palavra). O espartilho europeísta decerto, mas também a tal falta de reflexão sobre o exterior, o tal "olhar para fora". E, acima de tudo, muita contradição.
No pano de fundo, uma política neo-colonial francesa absolutamente calamitosa. Isto não é francofobia. É, quanto muito, francofonia.
A citação do Embriaguez da Metamorfose no texto de 16 de Novembro - um suave toque de demagogia para dizer uma boa verdade.
É o avisado WR que chama a atenção: a política como elemento racionalizador tendente ao bem comum? a política como elemento racionalizador defendendo interesses particulares?
Agora vou ali ao nyamussoro, saber quem ganhará as eleições de Dezembro.
Vou no meu carro, velho, mas em primeira mão.
[Texto do Público reproduzido abaixo, pois as ligações são perecíveis]
Alto Astral
Por JOSÉ VITOR MALHEIROS
Terça-feira, 16 de Novembro de 2004
"Eu quero que o país vá subindo no seu astral!" Estas palavras de Santana Lopes, proferidas do púlpito no discurso de encerramento do último congresso do PPD-PSD-PSL, são o que se chama um grito de alma. Não é "Cogito ergo sum", nem "I have a dream", mas cada nação produz o que produz. No nosso caso é mais bolos.
Não fique preocupado, se não souber ao certo o que é "o astral". Uma breve consulta ao "Dicionário da Língua Portuguesa Contemporânea" da Academia das Ciências de Lisboa explica que a expressão (para além de querer dizer "relativo aos astros" quando é usada como adjectivo, mas não é isso que interessa) vem da teosofia e do ocultismo e descreve o "plano intermediário entre o físico e o espiritual, povoado de almas e espíritos, só observado pelos videntes e hipnóticos" ou a "parte fluida do ser humano, intermediária entre o corpo físico e a alma". Claro que a expressão vem do Brasil, onde, ainda segundo o DLPC, quer dizer "disposição de espírito" ou "humor". De onde vem este significado? Você tá bobo, cara? De astro mesmo, né? Todo mundo sabe que humor e amor é coisa de astro, são eles que ficam colocando a gente nesse plano ou no outro e sobem ou baixam o astrau da gente. Não sabia mesmo? Santana sabe.
Outro primeiro-ministro poderia ter falado de brio, de projecto, de ânimo, de sonho, de ambição, de futuro, de trabalho, de empenhamento, de desafio, mas Santana sabe falar ao povo na sua própria língua e saiu o astral!
Mas não se pense que saiu por acaso. O astral presta-se mais à banha da cobra do que o projecto e até do que o sonho, porque o astral não depende nem do trabalho (lagarto, lagarto), nem do desejo, nem sequer de nós. Só depende dos astros, dos deuses, dos alinhamentos siderais, dessa coisa etérea que é a coisa nenhuma. Nem é preciso querer, astral é astral, acontece à gente sem a gente querer. Além de que o astral é sentimental ("Me liga!"), tem a ver com destino, com coisas escritas nos céus com pozinho de estrelas e não exige nenhum mas nenhum esforço. Astrau é assim mesmo! Como se faz para melhorar o astral? Incríveu! Você não sabe? Relaxe! Nada melhor para o astrau! Não sabe como? Beba uma caipirinha. Duas!
O astral é ainda melhor do que a Nossa Senhora de Fátima (Paulo Portas foi definitivamente ultrapassado), porque é mais moderno, não fere susceptibilidades e não acarreta nenhuma obrigação. A Nossa Senhora é uma mãe severa que persevera, mas o austral é uma boa. A Nossa Senhora estava bem para os tempos de austeridade, mas a austeridade já era. Agora é o astral.
Desvendado o astral percebemos melhor o novo símbolo do PSD-PPD-PSL: é um satélite a ser colocado em órbita, em direcção aos astros, uma espécie de guerra das estrelas, mas para criar alinhamentos de Mercúrio com Vénus, para fortalecer o astral. Será que José Sócrates já percebeu que a sua ideia das novas fronteiras acaba de lhe ser roubada mesmo debaixo do nariz?
Depois do astral já percebemos porque é que a palavra de ordem do primeiro dia do congresso era "verdade" e a do segundo dia "confiança". É que, quando se prega a verdade, o povo pode ficar com ideia de que tem direito a alguma coisa e até pode começar a fazer perguntas, mas com a confiança não há riscos. Confie! Não pergunte, não diga, não duvide! Suba o astral! Relaxe. Deixe tudo na mão do PSLPSDPP. Beba mais uma caipirinha. Me liga!
O LNT exerce o contraditório ao meu Boliqueime .... Arranca-me um sorriso, não sei se de cornaca se de ...
Mas fico na minha, aquela do "com a verdade me enganas".
Novo blog em Moçambique, o do Do Rovuma ao Maputo. Por enquanto fotos corridas, a ver vamos.
Em tempos aprendi que os "testes" de QI serviam para medir a inteligência. E que a "inteligência" era aquilo que os testes mediam. Não era piada, era um discurso analítico crítico sobre a construção do conceito, da sua métrica. E também da sua utilização, pois foi ele socialmente aferido de molde a valorizar características culturais (mais) presentes nos indivíduos de determinados grupos sociais, étnicos, até nacionais e, também, de género.
Mais ou menos sociocêntricos, mais ou menos etnocêntricos, os "testes de QI" surgiam como instrumentos desqualificadores de grupos sociais, reprodutores de hierarquias sociais. Justificando-as como "naturais", em cúmulo de repressão social, em cúmulo de inculcação auto-culpabilizadora dos desapossados, pois derivadas essas hierarquias, e respectivos lugares, das capacidades em "inteligência", apresentadas como algo praticamente inato.
Entenda-se, os testes de QI apresentam uma hierarquia social como se que natural. Assente no critério mais valorizado nas sociedades modernas, a racionalidade individual, essa "Razão".
Esta naturalização ideológica implica que os "testes de QI" surgem como mecanismos de exclusão social. De exploração. Produtos de técnicas engenheirísticas cuja aparente cientificidade lhes brota do cardápio de números alinhados que agitam sob o nariz dos incautos.
Mas isto aprendi há já uns tempos. Talvez tudo tenha mudado desde então.
Ainda assim, e porventura desactualizado, nestes últimos dias, ao ver uma pretensa esquerda brandir, de blog em blog, a tabela QI médio por estado (americano) / sentido de voto Bush vs Kerry, já não me surpreendi: porque esta não é uma "esquerda caviar" é uma esquerda "salsicha Nobre".
E daqui sai um abraço, sobre as nossas hipotéticas diferenças, ao WR.
O previsto e previsível regresso de Cavaco Silva de imediato fez regressar a desvalorização de Boliqueime, a ironia sobre as origens sociais e familiares do político. Com esse insuportável reaccionarismo elitista já aqui me irritei. Mas ainda o processo vai no adro e já "Boliqueime" polvilha os blogs, e também os da minha preferência.
A coerência é um direito, nunca um dever. Acho mesmo que o verdadeiro dever é a incoerência, que o tudo que nos rodeia impede-nos o certinho coerente. Mas ainda assim este elitismo, disfarçado de ironia, muito me espanta proveniente que é de gente, bloguista e não-bloguista, que se afirma de "esquerda", mais ou menos igualitária mas sempre avessa a discriminações sociais.
Sei que não se restringe a isto. Como arma de arremesso político "Boliqueime" é um avatar de "Santa Comba". Fruto dos constrangimentos de um pensamento analógico encerrado entre o sebastianismo tardo-medieval e o salazarismo dickensiano. Então não só preconceituoso, mas também pobre.
Há ainda um outro factor. Cavaco Silva é inculto, e isso há-de chegar: o filho do gasolineiro de Boliqueime desprovido da cultura certa, também por isso mesmo salazarento. Esta é a "correcta" noção de cultura: se se confundir a escala de Richter com a de Mercali quanto muito recebe-se um sorriso complacente e suave explicação, se se disser que Pedro Gilles foi amigo de Thomas Mann é-se um imbecil, apupado na rua. É muito interessante ver como a crítica ao reducionismo economicista casa tão bem, e com tanto afinco, com tamanho outro reducionismo.
Dir-se-á que são factores diversos na formação individual, com diferentes efeitos na personalidade de um cidadão, de um político. [Já agora, permito-me dizer que de um primeiro-ministro do meu pais espero que esteja atento aos devaneios utópico-totalitários. Mas também às necessidades da construção anti-sísmica]. Com toda a certeza, mas a cegueira face a estes preconceitos muito diz da profundidade analítica das vozes críticas.
Sobre este último aspecto consulto as minhas memórias. Há alguns anos Cavaco Silva visitou Moçambique, então convidado para um seminário sobre a introdução do Euro. Nessa altura proferiu uma conferência na Universidade, sobre a integração europeia. Nunca aqui assisti a um conferência tão concorrida, gente sentada no estrado, nos degraus do anfiteatro, no chão, em pé nos corredores. Mas para além de concorrida a conferência foi absolutamente luminosa. Lembro bem a quantidade de moçambicanos nada cavaquistas que me vieram saudar, até explicitamente surpresos pela dimensão patenteada, apenas por ser patrício.
Se tivesse falado de Fichte, Bruckner, o