A Delagoa é há muito tempo companhia frequente do Ma-Schamba. Agora decidiu abrir o seu Chuinga. É de esperar que, entre outras coisas, por lá deixe a África dela. Boa sorte, boas teclas.
Agora eleições no Botswana, onde o Partido Democrático de Festus Mogae se deverá manter no poder, que ocupa desde 1966. Nada de estranho se espera, nem sequer haverá missão de observação eleitoral dos "fazedores de democracia", a U.E. não se fará representar.
No próximo mês eleições na Namíbia. Em Dezembro em Moçambique. E, finalmente, em Março próximo no Zimbabwe.
Em todos estes processos eleitorais se aplicará o código eleitoral adoptado pelos países da SADC, subscrito neste último Agosto na cimeira das Maurícias. Um tratado endógeno, a implicar profunda aceitação e aplicação, para lá das pressões internacionais. Um processo regional histórico. Um privilégio de assistir a tão rico período.
A Madalena Santos do Chora Que Logo Bebes foi amável, avisou da publicação

de "Diário de Uma Terapia", de Ana de Sousa, uma edição de Ela por Ela.
No Chora Que Logo Bebes apresenta-se o livro. A visitar.
Foi para aí há vinte anos, a ler ex-austríacos, que me certifiquei, como se tal fosse necessário, que o futuro está em aberto...
(E se te pagam, bem, para trabalhar futuros e não o sabes então...não serves)
O LNT, com o qual ao longo dos meses tenho vindo a perder várias blogodiscussões (e que, no seu pujante heterónimo institucional, não esteve nada mal aqui) acaba de me convidar para um copo.
Aceito, claro, ainda para mais hoje, sexta-feira "dia dos homens" aqui. Mas tenho um problema grave, é que desde há dias que nos mercados de Maputo não se encontra

- afinal o mercado, ainda que sagrado, não é perfeito.
E sem ela nem pensar, tal como me informou logo à chegada o grande engenheiro em Pemba e, logo logo, me ensinou a empiria.
Assim sendo LNT vamos antes a um

enquanto a "Mão Invisível" não brota dos posts lusos e vem animar a realidade?
Confesso que tenho sempre, e ainda mais nestes meses que vêm aí , uma enorme inveja do Lutz.
Em tempo de guerra não se limpam armas (retóricas). "Não se pode conviver com os Árabes. São o povo mais porco do mundo e figuram igualmente na lista dos que maior fedor exalam. O campo cheira todo a urina, a quatro mil anos de urina. É o cheiro característico do Norte de África."
(John Steinbeck, "Algures no teatro de guerra do Mediterrâneo, 29 de Setembro de 1943", Correspondente de Guerra, Livros do Brasil, 165)
Que eu tenha conhecimento as primeiras aproximações ao micro-crédito em blogs portugueses, um texto de Maria Manuel Leitão Marques que merece toda a atenção, e um outro, com ligações a acompanhar, no Blogo Social Português.
Ainda que as realidades sociológicas aqui sejam abissalmente diferentes funciona o paradigma.
O Blogo Social Português é um blog excelente, muito informado, e prova de que a reflexão se quer nada demagógica.
Isto a propósito de um texto sobre transgénicos, em que também disponibiliza ligações a um conjunto de documentação muito apetecível. Ainda para mais sobre matéria em que, sendo leigo, sempre me surge como um labirinto "ideológico" de aparência "científica".
Face às imposições que os doadores colocam aos países africanos em receber alimentos transgénicos, o que já aqui abordei, esta é temática a não perder.
Neste caso, guardar as referências ali disponibilizadas para leitura no futuro imediato.
Interessante como a expressão "caça ao voto", a qual no português de Portugal tem conotação algo sarcástica, crítica do marketing político, é aqui assumida de modo neutral, descritivo. De recorrente utilização na televisão e jornais, sem pinga de ironia, explicitamente "o candidato Armando Emílio Guebuza" ou "o partido da perdiz" (por exemplo) "continua(m) nas suas actividades de caça ao voto".
Demonstrará isso que por aqui há uma melhor e mais acertada compreensão do que é a "política"? Mais descomplexada? Parece.

O edifício dos Correios de Moçambique, na 25 de Setembro, é um dos mais antigos de Maputo. Brilha numa Baixa algo descaracterizada nas últimas décadas e que actualmente sofre alguma desqualificação, talvez inexorável, pois o centro da cidade dela se vai afastando. Até ao longo da própria avenida, algumas centenas de metros apenas, com a zona da FACIM animada durante os últimos anos por via de novas construções de uma arquitectura anódina.

Também por isso a manutenção do edifício dos Correios, bem como o muito similar que alberga a Biblioteca Nacional, assume particular importância, a preservação de uma memória arquitectónica, de uma identidade histórica da cidade.

Mas para além disso a sede dos Correios tem uma componente belissima. A sua enorme sala de atendimento é ladeada por dois antigos balcões em madeira, peças únicas e que lhe dão um insubstituível carisma.
Pois soube-se agora que uma parte de um dos balcões vai ser removido para possibilitar o acesso a uma sala pública de internet, a instalar.
O pressuposto é óbvio. Há a consciência da importância histórica, e até da beleza dos balcões. E da importância da sua manutenção. Mas esta não implica a sua completude. Ou seja, a ideia de que o património (identitário) se mantém ainda que fragmentário. Um compromisso letal, que assume a parcela como a coisa-em-si. Compromisso que não sente a estética, que não entende a função. Compromisso que desvaloriza os itens a preservar e que, em última instância, os condena ao desaparecimento, num futuro dia em que serão desvalorizados porque inúteis e, exactamente, fragmentários.
Pois um diferente, e mais esclarecido, entendimento do que é uma peça patrimonial poderá salvar a integridade destes balcões. Que um dia poderão orlar uma sala de visitas ou até núcleo museológico dos correios moçambicanos. Que por enquanto aconchegam e servem os utentes.
Os correios têm instalações amplas. Decerto que com alguma imaginação poderão encontrar uma opção, fácil e barata, para outra via de acesso à muito bem-vinda sala pública de internet.
Consta que nos finais dos anos 1980s houve um projecto de remoção destes balcões. Então os alunos de Arquitectura intervieram, assumindo a sua manutenção como causa. Será que os arquitectos de hoje e alunos de ontem ainda terão tempo e paciência (e energia) para colaborar numa outra solução?
Apesar de discordar da sua visão, apesar de discordar da sua atitude face ao caso Casa Pia, fico estupefacto com o que a justiça portuguesa - cujos agentes de todos níveis violam o segredo de justiça - decidiu relativamente a António Balbino Caldeira, do Do Portugal Profundo. Hipócrita legalismo.
Não sou jurista, não sei que responsabilidades recaem sobre quem quebra o segredo de justiça. Mas as declarações de Eduardo Ferro Rodrigues, cidadão que creio impoluto e vítima de uma tenebrosa manobra de diversão, referem juízes nada anónimos que avisaram membros da direcção do PS do que se passava na investigação. Espero pois que esses juízes sejam de imediato apresentados à justiça. E não apenas o bloguista.
Nos comentários ao post em que António Balbino Caldeira [permanent link defeituoso] narra a revista a sua casa por membros da polícia há um a reter, da autoria do autor do blog Tugulandia [que desconhecia]: "Eu bem digo que isto é uma cretinocracia". É isso. Cretinos perigosos.
A afirmação do Parlamento diante dos generais do Império, esses quasi-bárbaros acantonados para lá e para cá do Rubicão, é uma vitória da cidade. E esse ibero não é um Flávio.
Agora vou ler o Roma Antiga.

WASTEBAND, de Patrícia Portela
- Prémio Reposição de "O Teatro na Década" do Clube Português de Artes e Ideias.
- Menção Honrosa do Prémio Acarte / Maria Madalena de Azeredo Perdigão 2003.
28 de Outubro a 1 de Novembro 04, às 21h30
(sáb. e dom. também às 17h)
Centro de Animação do Hospital Miguel Bombarda, Rua Dr. Almeida Amaral, Lisboa
Este espectáculo tem uma lotação limitada a 30 lugares. Entrada Livre
(Informações e reservas: 96 3965525)
Como ser virtual sem ser digital?
"Wasteband" é um espectáculo entre um ambiente de ficção científica e os "encontros tupperweare" onde tentaremos vender ao público o espectáculo do futuro.
Uma performance virtual para um actor/astronauta, um músico, um power point e uma mesa eliptica onde se projectam verticalmente imagens vídeo e onde se reunem à volta, sentados, espectadores e performers.
Um kit interactivo sobre cada passo a tomar para viver uma performance virtual em casa, sem recorrer à tecnologia, mas mantendo uma lógica de links.
O pano de fundo é reconstrução de um ritual chinês que prevê em cada ano um dia em que é possível a lua cair nos oceanos de acordo com probabilidades científicas.
O tema é a espera como ritual do desejo. Só espera quem acha que pode acontecer.
***
Um espectáculo a que muito gostaria de assistir - impossibilidade que traduz os tais custos da emigração. E quem o poderia trazer a Moçambique? Nessas embaixadas culturais? Difícil, pois normalmente, e porque aqui, são elas muito tradicionalistas. Mas seria um bom arrojo! Integrá-lo no Festival de Agosto (teatro)? As gentes do ACERT, de Tondela, aqui siameses do Motumbela Gogo e M'Beu, lerão o Ma-Schamba? Ou as culturais e cooperantes instituições?
Aqui o bloguista, tamanha a curiosidade e em cúmulo de mecenato (ou de cooperação, já que actividades aqui seguem com esse nome), até cederia os catres aos artistas. Com águas correntes, quentes e frias.
Aterrou na minha caixa postal uma petição para impedir a demolição da casa de Almeida Garrett em Lisboa, solicitando sua transformação em instrumento cultural. A ideia, que não me parece descabida de todo, foi lançada no Cidadania LX e poderá ser subscrita aqui.
Já agora, foi através deste mail que conheci o Cidadania LX. E para por lá encontrar, mesmo vizinho ao post da petição, uma pérola, um pequeno tratado de ciência política, um "subsídio para o estudo da produção do hiato entre representantes e eleitores num sistema democrático". Ou, de como para ser cidadão é necessário ter paciência e um pouco de mau-feitio.
Já várias vezes o referi, gosto de ir ao Blogame Mucho e, não desfazendo claro está, gosto em particular de ler o residente Besugo.
De novo o ecoei anteontem a propósito de um belo texto sobre a doença e o medo.
Um texto belo e perturbador. Que ecoei, que me levou ao desabafo. Ao esconjuro. O Besugo não gostou. Paciência, ainda que o lamente. Que não escreva ele textos perturbadores, que não mexa nos meus medos, que não cutuque a minha "atitude" (como se traduz "panache"?), que não me obrigue a praguejar com a puta de vida.
Quanto ao resto que me veio à cabeça a propósito do seu texto (não está lá, veio-me à cabeça), quanto ao Direito à Morte, à informação, à eutanásia, ao suicídio assistido. Quanto às interrogações sobre quem decide o quê, e na base de que direitos. Quanto à estranha, e até xamanística, relação que continuamos a ter com os médicos. Quanto a isso tudo de que pouco ouço falar. Pois posso começar eu a escrever por aqui. Meia dúzia de balelas, meio demagógicas, pouco informadas. Passo...Mas continuo assustado, foda-se.
E sim, Besugo, espero nunca te ter como médico. Que adormeça e desista de acordar, aí como o meu mano velho. Se possível quando a Carolina só precisar de mim para ensinar alguma coisa sobre vinhos bons a um qualquer morcão ignorante, tatuado, escarafunchado, ganzado, que me tenha metido lá em casa. Que para levar os putos ao Alvalade XXI,5 já me cheira tarde, com todos estes maus tratos auto-infligidos. E talvez ainda bem, assim a evitar a terrível desilusão de ter netos benfiquistas. A retirar qualquer sentido à vida.
Luís Aguiar-Conraria, dono do mais do que visitável Nas Fronteiras da Dúvida regressa, uma semana depois, ao Público, com artigo de quem pensa sobre o ensino superior em Portugal.
Abaixo o transcrevo, para quando a ligação falecer.
Como Financiar o Ensino Superior: Uma Proposta Concreta
Por LUÍS AGUIAR-CONRARIA
Quarta-feira, 27 de Outubro de 2004
o artigo "Quem tem medo das avaliações?" (PÚBLICO - 20/10/04) defendi que os professores deviam ser submetidos a avaliações pedagógicas e que, para melhorar a qualidade do ensino superior, é necessário tornar os estudantes mais exigentes e obrigar as universidades e os politécnicos a escutarem essas exigências. Acrescento outro desafio: garantir a universalidade do acesso a uma universidade com padrões de qualidade muito mais elevados que os actuais.
Há duas importantes ideias-base. Primeira: quem estuda na universidade tem benefícios privados (melhor situação profissional, social e económica). Segundo: todos nós beneficiamos, se toda a população for mais educada e mais culta. Portugal tem falta, e não excesso, de pessoas com formação superior.
A primeira ideia é óbvia. De resto, num estudo publicado no boletim de Março do Banco de Portugal, Pedro Portugal mostra que, no nosso país, os benefícios privados com a educação são maiores do que na maioria dos outros países.
A segunda ideia exige mais cuidado. Na minha opinião, é tão óbvia como a primeira e muitos trabalhos estimam o impacto da educação no crescimento económico. Podemos verificar, numa publicação da OCDE, "Education at a glance", que se estima que o aumento de um ano na escolaridade média de uma população se traduz, num prazo de 20 anos, num aumento do rendimento 'per capita' de 6 a 22 por cento. Se nos lembrarmos que, em média, a população portuguesa tem pouco mais de 8 anos de escolaridade e que a média dos restantes países da União Europeia anda acima dos 12 anos, talvez não seja necessário fazer grandes exercícios para descobrir a causa do nosso atraso, ou, pelo menos, uma das causas.
Não basta, no entanto, aumentar o número de licenciados. Há que melhorar a qualidade no nosso ensino superior. Como? Quando se paga um serviço é-se mais exigente. O ensino (quase) gratuito diminui a exigência dos estudantes. Se os estudantes pagarem uma propina que cubra uma parte substancial dos custos da universidade (digamos 50 por cento), serão muito mais exigentes. Por sua vez, as universidades, ao ficarem directamente dependentes das propinas dos alunos, têm de oferecer qualidade. A educação é um bem misto, ou seja, apresenta características de bem privado e de bem público. É socialmente justo, e economicamente eficiente, que o financiamento seja simultaneamente público e privado. Não vale argumentar que actualmente já existem muitas universidades privadas e que estas não oferecem qualidade. Todos sabemos o motivo: essas universidades captam os estudantes que foram recusados pelas públicas, logo os piores alunos. Não surpreende que não se especializem na qualidade.
Para que exista uma verdadeira concorrência entre universidades, é necessário que elas possuam maior autonomia para, por exemplo, pagar a professores de forma diferenciada. Se uma universidade portuguesa quiser contratar um potencial prémio Nobel da Física, não lhe vai poder pagar o mesmo que aqui se paga a um professor associado comum. Sejamos de esquerda ou de direita, é bom que aceitemos que para termos qualidade num serviço temos de fomentar uma concorrência saudável. Teremos universidades a especializarem-se em cursos baratos e de baixa qualidade? Claro que sim. Teremos também universidades a especializarem-se num ensino e numa investigação de alta qualidade. Neste momento, essas são apenas excepções que muitas vezes resultam de puro voluntarismo dos responsáveis por esses departamentos.
Se aceitarmos que os estudantes têm de pagar um valor de propinas substancial, outro problema se levanta. Como garantir que ninguém fique excluído apenas por razões financeiras?
Um sistema de bolsas não resolveria o problema e teríamos muitos estudantes que vão de carro para as aulas a serem financiados pelo Estado. Indexar propinas ao IRS é um disparate, dados os níveis de fuga aos impostos. Aceitando que não há soluções óptimas, é importante garantir que todos têm a oportunidade de ingressar no ensino superior.
Se pura e simplesmente se cobrasse uma propina de mil contos por ano, muitos jovens não teriam possibilidades financeiras de estudar. Nos EUA existe um sistema de empréstimos em que os estudantes nada pagam até terminarem o curso. A partir desse momento, pagam juros e amortizam o empréstimo normalmente. Não me parece que tal seja razoável em Portugal. A decisão de estudar é uma decisão de risco. Aumentam as probabilidades de mais sucesso financeiro no futuro, mas isso está longe de estar garantido. A ideia de contrair um empréstimo de alguns milhares de contos poderá atemorizar bastantes jovens que não têm a certeza de quais as suas possibilidades de pagar esse empréstimo. Ora o nosso país não se pode dar ao luxo de excluir estudantes por motivos meramente financeiros.
O que proponho é diferente. O Estado continuará a fazer transferências directas para as universidades, mas de valores substancialmente mais modestos que os actuais. Além disso, cada universidade cobrará as propinas que muito bem entenda, sujeitando-se às regras do mercado.
Independentemente do rendimento das famílias, todos os estudantes terão de pagar as propinas pedidas pela universidade. Mas todos os estudantes terão a opção de receber transferências do Estado no valor da totalidade das propinas, ficando em dívida para com o Estado. Dívida que o estudante começará a pagar quando se empregar. Pode pagar, por exemplo, 10 por cento do seu salário bruto. A questão do risco de estudar é minimizado, uma vez que cada um paga consoante as suas possibilidades numa percentagem fixa do seu rendimento. Não se cobram juros, fazendo-se apenas correcções de acordo com a inflação.
Pedro Portugal mostra que o salário médio de um licenciado com menos de 35 anos é de cerca de 300 contos por mês (ilíquidos). Se as propinas forem de 1000 contos por ano e o estudante se licenciar em quatro anos, demorará menos de 10 anos para pagar a dívida. Se a vida lhe não correr tão bem, demorará mais uns anos a pagá-la. Se correr melhor, paga depressa. Como a dívida não vence juros, financiam-se mais aqueles que têm menos possibilidades financeiras, pois têm mais tempo para pagar a dívida. Não se trata de uma questão de justiça social, mas de solidariedade.
Algumas arestas têm de ser limadas. Como lidar com aqueles que emigram e saem do país? Como lidar com os que se tornam profissionais liberais e declaram ganhar menos de 100 contos por mês?
Este esquema é bastante flexível e pode ser ajustado a diferentes contextos, como o decorrente do processo de Bolonha caso o Governo apenas mantenha o financiamento dos primeiros 3 anos de licenciatura e os estudantes tiverem de pagar integralmente pelo segundo ciclo de 2 anos, o que levaria à exclusão de muitos por motivos financeiros. Uma forma de executar o que proponho seria manter o financiamento actual nos primeiros 3 anos e os últimos 2 anos integralmente financiados por propinas que seriam pagas da forma descrita.
Nalgum momento teremos de deixar de apostar na massificação do ensino e passar a apostar na sua democratização. Dado que actualmente são poucos os jovens que não encontram colocação numa universidade ou num politécnico, chegou a altura de apostar na qualidade.
Esta proposta responsabiliza o Estado, o estudante e a universidade. Tem custos para o Estado que têm de ser pagos pelos contribuintes? Claro que sim. É o custo de garantir que ninguém deixe de estudar por não ter dinheiro para as propinas. De qualquer forma, esses custos são muito mais baixos do que os actuais, uma vez que as transferências para as universidades serão mais modestas e as transferências para os estudantes serão reembolsadas. Este sistema responsabiliza a universidade, visto que o seu financiamento está ligado à sua capacidade de atrair estudantes. Apenas as melhores poderão cobrar propinas mais elevadas. Finalmente, este sistema responsabiliza o estudante, que passa a financiar o respectivo curso, mas garante que nenhum estudante deixará de estudar por motivos financeiros.
Doutorando de Economia na Cornell University
Cá de longe também me preocupo. As declarações do pro-comissário Buttiglione parecem-me avisadas. Mas deixaram-me dúvidas angustiadas. Se as mães solteiras são más mães (ou "menos boas") isso aplicar-se-á às viúvas?
Um tipo chamado Eufigénio Lagoa, afinal Apenas Mais Um a começar no blogar. E a começar em grande, com um texto de arromba.
Fico já fã. Ou fan. Ou seja, visita mais que frequente. Mas de onde saem estes tipos?
Estou a gostar da lusa blogoatenção com o jogo bush-kerry. Todos votam, perdão, botam. E contam. E apontam. E todos com conhecimento de causa(s). ...end of the day, we are all americans, assim vão dizendo os mais pró e os mais pró.
Lembra-me uma série de TV, muito fraquita, com mais de 20 anos e da qual esqueci o título. Emigrantes italianos, início de XX, e lá na coberta à visão da Estátua da Liberdade o frágil actor gemia, arrastado, olhos esbugalhados, "L' Ámérica, L' Ámérica" (ficou uma "piada privada" lá no meu meio, metáfora da imbecilidade. Será que alguém se recorda do título do raio da série?).
Aqui também há eleições à porta. É o que me vale para encher a vida com algum sentido. E também eu vou dizendo, arrastadissimo, "Áfricaaa, Áááfricaa, Ááááfricaaa". E escrevendo posts sobre quem vai ganhar e porquê. E em quem votaria eu, e todos os detalhados porquês de tais opções. After all, "no fim do dia" we are all africans, specially lusophone africans...
"Áfricaaa, Áááfricaa, Ááááfricaaa"
O excelente Janela Indiscreta ecoa a apresentação da exposição fotográfica "Iluminando Vidas. Ricardo Rangel e a Fotografia Moçambicana", na Culturgest do Porto até 9 de Dezembro.
[Também aqui referida]
Da Janela Indiscreta aproveito ainda reprodução do cartaz.

Eu sei que não me fica bem ser eu a chamar a atenção, mas o PQ e o LEne poderão ir aqui saber da minha justiça.
Quando um blog, inopinadamente, começa a incluir anedotas, testes e tralhas semelhantes, está tudo visto. Ou seja, está tudo dito. Talvez seja o caso.
Mas como, volta e meia, me irrito com alguns pensamentos liberais mais absolutos aqui deixo esta recém-chegada anedota (quiçá já velha noutros casais). Do estilo de muitas outras (as "personalidades colectivas", as "almas nacionais", caricaturas que nunca deixam de ser dão imenso jeito ao humor simples). E deixo-a porque, ainda que aparentemente muito anti-estado, também é, aparentemente, muito nada-liberal.
Afinal, ainda que pueril, mais complexa do que muito discurso assertivo .
CAPITALISMO IDEAL
Você tem duas vacas.
Vende uma e compra um boi.
Eles multiplicam-se, e a economia cresce.
Você vende a manada e aposenta-se. Fica rico!
CAPITALISMO AMERICANO
Você tem duas vacas.
Vende uma e força a outra a produzir o leite de quatro vacas.
Fica surpreso quando ela morre.
CAPITALISMO JAPONÊS
Você tem duas vacas.
Redesenha-as para que tenham um décimo do tamanho de uma vaca normal e produzam 20 vezes mais leite.
Depois cria desenhinhos de vacas chamados Vaquimon e vende-os para o mundo inteiro.
CAPITALISMO BRITÂNICO
Você tem duas vacas.
As duas são loucas.
CAPITALISMO HOLANDÊS
Você tem duas vacas.
Elas vivem juntas, em união de facto, não gostam de bois e tudo bem.
CAPITALISMO ALEMÃO
Você tem duas vacas.
Elas produzem leite regularmente, segundo padrões de quantidade e horário previamente estabelecido, de forma precisa e lucrativa.
Mas o que você queria mesmo era criar porcos.
CAPITALISMO RUSSO
Você tem duas vacas.
Conta-as e vê que tem cinco.
Conta de novo e vê que tem 42.
Conta de novo e vê que tem 12 vacas.
Você pára de contar e abre outra garrafa de vodka.
CAPITALISMO SUÍÇO
Você tem 500 vacas, mas nenhuma é sua.
Você cobra para guardar a vaca dos outros.
CAPITALISMO ESPANHOL
Você tem muito orgulho de ter duas vacas.
CAPITALISMO BRASILEIRO
Você tem duas vacas.
E reclama porque o seu rebanho não cresce...
CAPITALISMO HINDU
Você tem duas vacas.
Ai de quem tocar nelas.
CAPITALISMO PORTUGUÊS
Você tem duas vacas.
Uma delas é roubada.
O governo cria O IVVA - Imposto de Valor Vacuum Acrescentado.
Um fiscal vem e multa-o porque, embora você tenha pago correctamente o IVVA, o valor era pelo número de vacas presumidas e não pelo de vacas reais.
O Ministério das Finanças, por meio de dados também presumidos pelo seu consumo de leite, queijo, sapatos de couro, botões, presume que você tenha 0 (zero) vacas e para se livrar do sarilho, você dá a vaca que resta ao inspector das finanças para que ele feche os olhos e dê um jeitinho...
Este caso, aqui apresentado por quem se reclama vítima, será verdade?
Tenho encontrado eco em vários blogs (mas nem tantos assim). Para quem não ainda não leu assim se resume: Orlando Cardoso, residente em Pombal, fez um blog. E, segundo afirma, o que lá escreveu provocou a ira do Presidente da Câmara local, o qual terá pressionado a empresa na qual Cardoso trabalhava, insistindo no seu despedimento. Resultado? Um bloguista desempregado.
Pode ser verdade. Não me custa nada a acreditar, um qualquer cacique local, irado com voz crítica lá na coutada. Mas pode não o ser. O meu cepticismo diante dos politiqueiros impele-me a aceitar a história. Mas, caramba, não se pode ter a certeza. Pode ser invenção, desculpabilização, sei lá.
A notícia já teve eco no Público. E isso sim me surpreende. Pois uma autoridade eleita é acusada de ter pressionado uma empresa privada para despedir um trabalhador, como represália pela actividade de cidadão, pelo exercício de liberdade de expressão. E a notícia vem, semi-escondida, no "Local" (21.10.04, sem elo que as "pesquisas" estão inacessíveis). Que raio de critério é este?
A denúncia reflecte verdade? Mentira? Sei lá. Mas um caso destes, uma putativa caciquada destas, é tratado lá no "localzinho" e não no corpo central? Malditos e medíocres escribas, mundozinho a morrer-se-lhes no terreiro do paço, com mera sucursal "ao dragão".
E quando é que uma hipotética ilegalidade destas, quando é que a investigação sobre possíveis entraves à liberdade de opinião, passa de "local" a "nacional"? Estará no "livro de estilo"?
Preocupações com a língua portuguesa (abaixo transcritas), continuará ou não língua de trabalho na UE?
Sobre o assunto (a babélica cacofonia da eurocracia) não tenho particular ideia. Mas na RTP vi neste fim-de-semana o meu Presidente da República (cargo simbólico, entre outros atributos) deslocado em Huelva, homenageando um "amigo de décadas", e discursando em esclarecido castelhano.
Não, não é o toque provinciano que me irrita. É o silêncio em seu torno. Daí este irritado post de demagogia.
PCP Alerta para Fim do Português na União Europeia
Público
Segunda-feira, 25 de Outubro de 2004
O fim do português como língua oficial de trabalho vais ser discutida na COSA
São José Almeida
Honório Novo, deputado do PCP, declarou ao PÚBLICO que teme o risco de o português vir a desaparecer como língua oficial de trabalho na União Europeia. A preocupação manifestada por Honório Novo surgiu-lhe durante a reunião da comissão parlamentar de Assuntos Europeus e Política Externa de quarta-feira de manhã, quando se deparou com a agenda da próxima reunião da COSAC, agendada para 22 e 23 de Novembro, em Haia, sob a presidência holandesa.
É que na reunião semestral deste órgão, que reúne as comissões parlamentares de assuntos europeus dos Estados-membros da União Europeia, o primeiro ponto é precisamente o regime linguístico da COSAC. De acordo com o relatório da deputada do PSD Maria Eduarda Azevedo sobre a preparação da reunião ficou a saber-se que estará em discussão uma proposta que, segundo a presidência holandesa "consegue, simultaneamente, ir ao encontro da redução dos elevados custos financeiros no cenário da União a 25 suportados por cada presidência e assegurar o respeito pela identidade nacional".
Esta proposta, depois de numa primeira fase ter contemplado a hipótese de as delegações às reuniões da COSAC poderem "exprimir-se na língua mãe", mas se quisessem "dispor de interpretação simultânea" deveriam fazer-se acompanhar do intérprete cujo custo teriam de suportar "integralmente".
Face às resistências que esta proposta provocou na anterior reunião de Dublin, os holandeses apresentaram agora na reunião preparatória do encontro de 22 e 23 de Novembro uma nova formulação "assente num leque de 6 línguas fixas - inglês, francês, alemão, italiano, polaco e espanhol - com custos de interpretação sempre a cargo da presidência". No seu relatório, Eduarda Azevedo ainda explica que alertou para o facto de este caminho "não poder deixar, perversamente, de ressuscitar os fantasmas de estados 'grandes', 'médios' e 'pequenos'".
Perante os factos o deputado comunista protestou também e, depois da discussão, e uma vez que o representante do PCP não tem assento na próxima reunião, o socialista Jaime Gama disponibilizou-se para o deixar ver o texto que os representantes portugueses pretendem levar à reunião. A Assembleia da República tem seis representantes, três fixos do PSD, dois fixos do PS, e mais um que roda entre o CDS e o PCP, cabendo agora a vez ao representante do CDS. Assim estarão em Haia: Maria Eduarda Azevedo, Almeida Henriques, Jaime Gama, Alberto Costa, Anacorreta Correia e mais um representante a indicar pelo PSD.
Mas Honório Novo ficou ainda mais preocupado quando ouviu o deputado social-democrata Almeida Henriques defender que "o melhor era colocarem-se estas questões depois da aprovação da Constituição europeia". Dando a entender, segundo interpretou Honório Novo, que esta discussão sobre o fim do português como língua oficial de trabalho, primeiro na COSAC, depois nas outras instituições da EU poderia prejudicar a campanha do referendo à Constituição europeia.
O deputado do PCP salientou ainda ao PÚBLICO o seu espanto pelo facto de os deputados do PS não terem manifestado oposição a esta proposta de adiamento desta discussão. "Pareceu-me haver ali um procedimento do tipo de quem cala consente.", declarou Honório Novo, concluindo: "Parece-se que a provação desta medida é um primeiro passo para vir a adaptar um regime de reestruturação das línguas de todos os países que fazem parte da União Europeia."
vale mesmo a pena ler blogs.
Ah, só espero que quando me chegar a vez, o médico de então seja outro. Pior escriba porventura. Mas homem o suficiente para me dizer da verdade, a do futuro. E não esta putice da mentira - que nas outras profissões dá direito a processos e até prisão. E que nos curandeiros é vista como deontologia (será?). Merda (para não escrever Foda-se!)! Maldita profissão. Obscurantista.
Pois já são meses o tempo decorrido desde que a Campo de Letras publicou o novo livro de Eduardo White, O Manual das Mãos.
Pois já são meses mas não há sinal do livro em Moçambique. Confesso que cada vez percebo menos do trabalho de editores e livreiros. Cada vez menos.
Esperava ter exemplar do livro para dele fazer pequena nota por aqui. Mas tarda, tarda, tarda...Daí que roube excerto ao À Sombra dos Palmares, que há já tempo trouxe ao bloguismo este novo livro. Está-se sempre atento naquela sombra.
Então aqui fica, bocado do Dino.
MANUAL DAS MÃOS (excerto)
Eu gostava de poder fugir a esta realidade tão fulminante. Dizem-me os amigos para enfrentar o problema, para agarrar o touro pelos cornos. Aliás, dizem-no sempre quando isto não é o que se passa com eles.
Não tenho dinheiro. Gastei-o a exilar-me em mim mesmo. No álcool, algumas vezes. A pagar rodadas dele aos amigos para não ficar sozinho. Tenho um pavor à solidão. É-me corrosiva e não sei viver com ela.
Penso, como consequência, em partir. Para onde? Não sei, se tivesse dinheiro era para uma ilha. A minha ilha. Moçambique. É bela. Antiga. Magistral.
Vejo-a:
Um pássaro revolve as asas por dentro do verde esbatido do mar. Traça a casa líquida que às estrelas, certamente, o seu piar vai dar. A história é-lhe longe, são formas entrecortadas, sobre a espuma amarelecida, dos navios cargueiros que beijam lentos o horizonte e movem silenciosos outras cargas.
A ilha suspende-se entre o vento e um negro reluzente cruza a praia com os olhos lavrando as areias. Não sei se reza, mas que pensa é mais que evidente. Testemunham os brancos cabelos e as mazelas no caqui dos desbotados calções. Cheira a marisco a brisa que inalam as narinas dentro desta paisagem e a cânfora, alguma, das memórias que ela desenha.
As redes que sobre o chão encontro estendidas, são cartas oceânicas que escreve o fundo do mar. Do texto salta a prata dos peixes, o verde amaciado das algas e uma estrela imóvel que explode, por dentro, a terra toda a girar. Claro que a areia as grava. Nessa forma de escrita mais milenar que a geringonça mágica de Gutemberg. Porque Deus descansa aqui, ao cair da noite. Silenciosamente medita por entre as lágrimas das tartarugas que junto a ele vêm desovar, ou de um negro macúa, estirado sobre o desgosto, a chorar um amor que, por teimosia, não quer morrer.
Vão longe, a navegar, os versos da miséria que do Luís de Camões a história quis esconder. Os ducados que nunca teve, nem para voltar nem para morrer, servem outros reinados e engordam a mesa dos que ainda julgam que poeta bom só miserável pode escrever. Lêem e estudam o que não dizem os poemas, sábios doutores esses universos etários, e nem com verdade podem entender, entretanto, o que eles explodem e doem e fazem crescer no coração esquecido dos seus autores.
Por isso a Ilha é calma. Tonta de tanta quietude e, talvez, será o que querem dizer as faces delicadas das suas negras, as mãos talhadas dos seus ourives.
Assim, o meu velho Camões, macúa zarolho só por ter visto sempre demais, terá, talvez, ali, amado o seu negro, seus humanos adamastores e com eles provado essa fatalidade incontornável de ser poeta sem ilha na ilha extensa dos que nela, até hoje, não o sabem ler.
Mas era para lá que eu queria partir.
que coisa, nem parece daqui agora. Hesito no passeio, vontade de me deixar abrigado, antes de cruzar este final de avenida. À minha frente um brand new 4X4, e depois another one, and another, and another, 5 or 6. In a row. Shining.
É a campanha! E atravesso no aguaceiro, o frescote que aqui digo "gélido". E "hum, assim não ganham votos"..."aqui? assim?!".
em excesso de generosidade, elucida sobre um sentido de "cabala". "Estou a agradecer" - não sou purista, o termo ganhou outros sentidos ao longo da história, como bem refere. Mas acho interessante que quem os usa saiba da amplitude semântica daquilo que lhe sai da boca (ao invés das moscas).
Pedi-te dois ou três parágrafos, dos simples, meu caro Nuno. Pois duvido que quem deles mais precisa leia mais do que isso. Mas creio, crente afinal, que haja por aí algum assessor disponível para resumozito. Talvez...
Fernando Madrinha, nome top no Expresso [sem link, que vendem o acesso, a 100 paus (o velho pintor) a notícia], escreveu isto (o negrito é meu):
PS - Entre Rui Gomes da Silva, José Veiga, Pinto da Costa, Alberto João Jardim e Luís Filipe Vieira pode não haver mais nada em comum senão a boçalidade e a intolerância. Mas as suas intervenções por estes dias - e toda a agitação que provocaram - justificam que todos nos interroguemos e reflictamos: como é possível que estas figuras tenham adquirido a projecção e o poder de que dispõem na nossa vida pública? Qual a responsabilidade dos «media» na construção da sua imagem? Quais os riscos, para a democracia e para a sociedade, de os discursos e os métodos que já vigoram no mundo do futebol se generalizarem ainda mais ao mundo da política?
Está visto, Madrinha não é jornalista. Ou, por outras palavras, a culpa é (sempre) dos outros...
O segundo artigo de LR, sobre a futebolização portuguesa. Também publicado no Comércio do Porto, em Maio de 2003.
Contra a Corrente
“Tudo quanto é profissão tem uma componente de aprendizagem. Ser portista ou ser benfiquista são adesões emocionais onde não se aprende nada. Numa é-se sujeito, noutra é-se apenas objecto” – Prof. Sobrinho Simões, Público, 2003-05-18
Tal como muitos, emocionei-me e vibrei com a vitória. À semelhança de muitos menos, vim para a rua festejar com os meus filhos. Ao contrário de 40.000, no dia seguinte fui trabalhar e os meus filhos foram à escola. No final do “day after” já se me tornava insuportável ver televisão, ouvir rádio ou ler jornais, tamanha era a “injecção” sobre futebol e todas as suas futilidades. Não fosse Paulo Pedroso e o eterno folhetim da pedofilia e o “massacre” teria sido muito maior. Curioso (ou talvez não) é que todos os intermináveis e enjoativos debates e entrevistas que se vão sucedendo sobre o futebol, redundam sempre nos habituais lugares comuns e no agitar de emoções baratas, não se conseguindo descortinar um único que consiga analisar o tema de forma estruturante.
É óbvio que o futebol tem alguma importância, se bem que muitíssimo inferior àquela que aparenta e que lhe querem dar; é óbvio que a sua importância transcende em muito o seu peso residual na economia do País (do nosso e de qualquer outro) e se manifesta fundamentalmente no campo das emoções e na capacidade de arrastar multidões; não sendo óbvio, porque tal não interessa, é também verdade que mesmo aqui a sua importância é claramente sobrestimada. Vejam-se a este propósito as audiências televisivas: na final da Taça UEFA, verificou-se uma audiência “record” de quase 30%, ou seja, cerca de 3 milhões de pessoas seguiram a transmissão. Tratou-se de um nível verdadeiramente excepcional e fàcilmente explicável por se tratar de uma final europeia a ser disputada por uma equipa portuguesa e pela estridente e muitas vezes histérica mobilização efectuada nos dias anteriores, que colou aos écrans todos os adeptos e muitos não adeptos do futebol. Em condições mais normais, quando há transmissões de jogos (e considerando nesta “normalidade” apenas jogos entre os três “grandes”) as audiências raramente ultrapassam os 18/20%. Nestas alturas, questiono-me sempre sobre o paradeiro dos 6 milhões de portugueses adeptos de determinado clube...
Devendo a importância do futebol ser devidamente relativizada, reconheço no entanto que há “benefícios colaterais” decorrentes da conquista de um troféu internacional, como a que ocorreu no passado dia 21. Desde logo pela injecção de uma boa dose de auto-estima de que um País resignado ao seu “triste fado” andava tão carenciado; talvez mais importante, pela vitória que tal representa para os “vencidos da vida”, eternos perdedores num quotidiano miserável, repleto de angústias de todo o género; sobretudo, pela atitude demonstrada pelo F. C. do Porto em campo, a agressividade permanente, a capacidade de reacção perante as contingências do jogo, o acreditar que pode ser melhor que os melhores, o porfiar sempre pelo objectivo até finalmente o alcançar. É esta atitude, este espírito de luta, o investir esforço para obter algo, a procura constante da excelência, que o País deveria interiorizar e emular. Assim tal acontecesse aos vários níveis sócio-económicos, e estaríamos decerto vários patamares acima no “ranking” internacional da competitividade.
É porém difícil ver estes exemplos a frutificar entre nós, desde logo porque a sua divulgação enquanto tal, pura e simplesmente não se faz. Nos rescaldos intermináveis e cada vez mais insuportáveis, prevalece a vertente da comoção barata e do espalhafato boçal: assim, assistimos em estúdio ao “espremer” das emoções até à última gota, com a repetição vezes sem conta da sacramental pergunta “o que é que sente?”; nas reportagens de rua, há sempre câmaras e microfones prontos a registar as prestações mais alarves da multidão ululante.
Mas há também danos colaterais, sendo alguns bem quantificáveis, ao contrário dos benefícios. As milhares de horas de trabalho perdidas ou de “gazetas” escolares são o efeito mais visível e também dos mais perversos, com as televisões a não se inibirem de divulgar declarações do género “que o meu patrão me desculpe, mas amanhã não vou trabalhar”. É sobretudo chocante a aceitabilidade que estas reacções estão a ter, validadas que vão sendo por exemplos de membros da Administração Pública que fizeram gala em ir a Sevilha com 2 dias de antecedência, integrando a comitiva da equipa. Esta “osmose” política/futebol, para além da parolice extrema que denota, estabelece muitas vezes “ligações perigosas” que vêm a gerar casos (e cenas) edificantes como está a ser o “folhetim” de Felgueiras.
Contudo, muito pior para o País como um todo, é o empolamento excessivo que se faz do fenómeno do futebol. Haverá hoje em Portugal milhares de cidadãos, cuja actividade intelectual se esgota na leitura do jornal desportivo e na audiência dos “pedagógicos” programas e debates desportivos que preenchem as programações radiofónicas e televisivas. Todos nós conhecemos no nosso dia-a-dia pessoas com este perfil e podemos fàcilmente aferir como a obsessão monotemática as limita na sua evolução, na capacidade de aprendizagem, no seu desenvolvimento. A sua estagnação será causa de inevitáveis frustrações, presentes ou futuras e o refúgio será sempre o futebol, num efeito bola de neve que os fará descambar no grupo dos “vencidos da vida”. Terão, em “anos bons” e no máximo, três dias de alegria que acharão que compensa todas as agruras da vida. Mais uma vez, esta forma de ser e de estar, esta falta de ambição, é validada a nível superior. Quando verificamos que toda a “corte” e “senhores feudais” esgotaram as tribunas de honra em Sevilha, a mensagem transmitida é clara: o futebol é a actividade suprema do País!!! Curiosamente, do lado do adversário, não consegui descortinar a rainha Isabel II, Tony Blair, ou o sequer o “mayor” de Glasgow...
Na interessante entrevista dada ao Público que acima refiro, o Prof. Sobrinho Simões, indefectível portista, reconhecendo embora no FCP a Instituição que mais auto-estima promove nos portuenses, achava porém que tal papel deveria caber à Universidade, aos Hospitais de S. João ou de Stº António, à investigação, à Escola de Arquitectura, à Casa de Serralves. A mensagem aqui também é clara: são as Instituições que usam o conhecimento e que promovem o conhecimento que darão o contributo mais perene ao desenvolvimento de uma cidade, região ou País.
A nossa classe política opta pelo embrutecimento. É pena. E, pior do que isso, empobrecedor!!!...
Porto, Maio de 2003
Abaixo referi os artigos que LR publicou no Comércio do Porto em Maio de 2003. Há coisas que não envelhecem. Aqui deixo o primeiro, reflexão sobre as ligações do futebol, política e economia.
O “negócio da bola”: razão, emoção e religião
“Tu és um portista demasiado racional e por isso, nem acredito que o sejas verdadeiramente. Ser do F. C. do Porto e senti-lo, vai muito para além dessa tua lógica economicista. É algo que mexe com os afectos profundos das pessoas e tal não é passível de ser reflectido num balanço, conta de exploração ou capitalização bolsista”. Se não com estas palavras mas com este sentido, esta foi uma das muitas réplicas que ouvi nas intermináveis discussões por alturas do folhetim do Plano de Pormenor das Antas, quando eu assumia a defesa das posições da Câmara Municipal do Porto (CMP). Esta foi então acusada por muitos de cometer um autêntico crime de lesa-cidade e erigida desde logo como o inimigo público nº 1 da instituição F. C. do Porto a quem pretenderia destruir. Ironia do destino, logo no 1º campeonato com o “inimigo” aqui tão perto, o FCP acaba de se sagrar campeão de uma forma categórica e a propiciar espectáculos, aquém e além fronteiras, como há muito não se viam. Se for igual a si própria, a equipa fará o pleno na temporada e ganhará naturalmente a Taça UEFA e a Taça de Portugal. Curiosamente, nos 3 anos anteriores e com uma Câmara “amiga” (por sinal muito íntima), o FCP vinha decaindo de forma confrangedora e a tal ponto que, na última época, já se comentava à boca cheia a eminência da catástrofe-mor, a perspectiva de uma irremediável “benfiquização”. Donde se pode tirar desde já uma 1ª ilação: não é necessário qualquer apoio dos poderes públicos para que o FCP, ou qualquer outra equipa de alta competição, seja vitoriosa. Basta que se concentre e saiba ser competitiva naquilo que é o seu “core business”: jogar bem, marcar golos e ganhar jogos e troféus.
Num país normal, isto constitui uma verdade de La Palisse. Mas num país doente mental como se me afigura que é o nosso, as coisas não são assim tão lineares. Desde logo porque há que dissecar cuidadosamente não só as causas do sucesso, mas também os seus efeitos, com realce aqui para a vertente política. E no serão do último domingo já se ouviram os primeiros acordes da “sinfonia” a que iremos assistir nos próximos dias: desde a “boutade” de Rebelo de Sousa a interrogar-se sobre as hipotéticas felicitações de Rui Rio ao FCP (são ou não são transmitidas? e quando? dir-se-ia que a atribuição do título de campeão está pendente de tal mensagem...) à “enormidade” de Santana Lopes, propondo de forma irónica a intervenção de Mário Soares como pacificador entre Rio e Pinto da Costa, utilizando a sua larga experiência pessoal de reconciliação com antigos adversários (fiquei sem perceber se o País se encontra paralisado pela “guerra quente” CMP/FCP, se pela “guerra fria” entre putativos candidatos presidenciais...). Pelo meio, assistimos à manifestação de uma enorme angústia por parte dos jornalistas de vários órgãos de comunicação, verdadeiramente pesarosos pela ausência de comemorações no edifício da Câmara. Festejos de campeonato ou de taças que se prezem, terão de passar pela transformação da varanda exterior dos Paços do Concelho em “passerelle”, para o ritual obrigatório destas ocasiões: o inevitável desfile dos “donos da bola” e seus artistas, culminando pela sua recepção pelos edis que, perante uma multidão em delírio, se deverão vergar em comovida e respeitadora homenagem aos heróis de tão épicos feitos.
Todas estas questões, obviamente de extrema relevância para o País, irão agora ser discutidas até à náusea em profundíssimos e participadíssimos debates que se prolongarão até muito depois do final da época (fico sempre estupefacto pela amplitude dos temas discutidos, que preenchem tanta hora de emissão...). Os participantes são-nos familiares: os nossos conhecidos, mui eruditos e encartados “intelectuais da bola”, sempre repartidos democraticamente pelos 3 grandes e os aspirantes a tal cátedra, incluindo-se aqui uma plêiade muito diversificada que vai de autarcas e ex-autarcas (os mais assíduos) a membros do governo, passando por deputados da Nação e outros altos magistrados. Completa-se o painel geralmente com telefonemas dos ouvintes ou de tele-espectadores, a revelarem sistematicamente uma argúcia fora do comum e as inevitáveis e irritantes mensagens SMS, sempre muito sintéticas, mas riquíssimas em conteúdo...
Esta “osmose” política/futebol é muito visível e não menos risível nos camarotes VIP dos grandes jogos. É tristemente hilariante apreciar a pose beatífica dos magistrados da Nação (às vezes os mais altos, mas sempre com os autarcas em maioria), sentados à direita, à esquerda e atrás do “prelado-mor” da “catedral” em que se realiza a “cerimónia litúrgica”, num sempre compenetrado render de vassalagem a que vamos assistindo - e o objectivo é esse - de forma cada vez mais recorrente.
Terá de facto o futebol tal importância que justifique tamanho investimento em tempo (e recursos) e tanta conversa fiada? Em termos económicos é duvidoso. É uma actividade que se insere na indústria do lazer, que tem, efectivamente, um grande potencial de crescimento nas sociedades modernas. Mas o peso do segmento do futebol na indústria é reduzido, e não só em Portugal. De acordo com um estudo divulgado recentemente, o volume de negócios agregado dos clubes da 1ª liga foi, na época passada, pouco superior a 200 milhões de euros, com prejuízos que terão ultrapassado bastante os 50 milhões. O Manchester United, o maior clube do mundo e um modelo de gestão, facturou, por si só, 232 milhões de euros e alcançou um lucro de 50 milhões. Isto equivale, grosso modo, à facturação anual da cervejeira Unicer que, entre outros produtos da sua variada gama, detém a prestigiada Super Bock. Ou seja, uma só empresa portuguesa de média dimensão factura tanto como o maior clube do mundo e mais do que todos os clubes da 1ª liga. Ao contrário destes que acumulam prejuízos, gerando pobreza, aquela está num contínuo processo de inovação e de investimento, de expansão para o exterior, de criação de empregos, em suma, de criação sustentada de riqueza. Não me consta ainda que, dos largos milhões que a Unicer investe anualmente haja algum financiamento de dinheiros públicos; o mesmo não se poderá dizer do futebol, que irá ter 10 estádios megalómanos e respectivos acessos financiados maioritàriamente pelos nossos impostos. “Mas - dirão os homens do futebol - uma tal análise é extremamente limitativa; não se pode aferir o impacto de um sector na economia considerando apenas a sua facturação; há que ver os efeitos indutores a montante e a juzante”. E é verdade. Mas se compararmos os efeitos indutores da Unicer e da indústria do futebol, esta continuará a perder e perderia em comparações análogas com muitas outras empresas ou sectores. Senão vejamos e começando pelo futebol:
Ø Influencia a montante de forma significativa a indústria de equipamentos desportivos de que é um importante veículo promocional, a qual está porém dominada pelas grandes multinacionais que concentram a maioria das unidades produtivas no extremo oriente. Efeito pràticamente nulo na nossa indústria;
Ø Ainda a montante, vai a curto prazo beneficiar muito a indústria de construção civil, mas numa base não recorrente: depois de construídos os 10 (malfadados) estádios, as encomendas às construtoras restringir-se-ão a tarefas de manutenção, de valores marginais para este sector;
Ø A juzante, tem um impacto significativo na indústria do audio-visual, mas nos últimos anos isto tem-se consubstanciado numa transferência maciça de prejuízos para as cadeias de televisão, em Portugal e não só;
Ø Também a juzante, haverá a considerar as encomendas relativas à actividade de “merchandising” (ainda pouco relevante nos clubes portugueses), mas também de efeito residual na nossa indústria, dada a concentração da oferta nos países do sudeste asiático;
Ø Algum efeito haverá ainda na indústria hoteleira e de restauração e no pequeno comércio, nunca vital à sua sobrevivência, mas às vezes fatal pelo vandalismo dos “hooligans”;
Ø A montante e a juzante em simultâneo, verificam-se enormes “benefícios colaterais” numa classe ascendente, tão dinâmica quanto opaca, designada pomposamente por “empresários”, muito embora raramente se lhes conheçam as empresas, camufladas que estão em longínquos e não menos opacos centros “offshore”.
Relativamente à Unicer:
Ø Os milhões que investe anualmente fazem-na grande consumidora de bens de equipamento, fornecidos em grande parte pela indústria nacional;
Ø É provàvelmente o maior consumidor português de embalagens de vidro, abastecendo-se integralmente junto de produtores nacionais;
Ø Potencia a produção cerealífera, designadamente a de cevada, a sua principal matéria prima;
Ø Tem patenteadas em seu nome inovações no processo de fabrico de cerveja, já adoptadas pelas principais cervejeiras europeias;
Ø É um dos maiores clientes no mercado publicitário, contribuindo em grande medida para minorar o prejuízo das televisões com as transmissões televisivas de futebol;
Ø Está num processo de internacionalização das suas marcas, as quais, estando ainda muito longe no estrangeiro da notoriedade das marcas F. C. do Porto, Benfica ou Sporting, já criaram muitíssimo mais valor para o País.
“Mas a análise continua redutora – argumentarão os “teóricos da bola” – o futebol não pode ser apenas visto numa perspectiva de deve e haver; há a componente emocional, importantíssima para a sociedade, pois o futebol é a alegria do povo!” E muitas vezes a tristeza, deverá acrescentar-se!... Mas se deve ser analisado principalmente na óptica das emoções, do sentimento, dos afectos, não se vê razão para o seu materialismo prático, consubstanciado numa tão grande delapidação de recursos (em grande parte públicos) e sua transformação em lucros (muitas vezes imorais) de alguns.
Donde se poderá concluir que, muito mais do que um negócio de lazer, o futebol em Portugal lidera aquilo que poderemos designar por “indústria das emoções”. Como não é um negócio passível de ser rentabilizado em moldes racionais, tendo em atenção a total incompetência dos seus dirigentes enquanto gestores, necessita de uma completa “osmose” com o Estado para assim garantir a sua perenidade. As emoções representam aqui o dogma da fé e o futebol passou a ser a nova religião, que tudo comanda e condiciona. Qual nova teocracia do Ocidente, assistimos à completa submissão do poder temporal aos “imãs” das diferentes seitas, convencido do imenso poder destes sobre os respectivos fiéis. Qual Galileu do século XXI, Rui Rio é a voz da razão, mas só se livrará da “fogueira” mediante acto de contrição público.
A dimensão do futebol não se reflectirá integralmente num balanço e numa conta de exploração, mas o que lá falta está bem expresso no excesso de despesa pública custeada também pelos meus impostos. E se a análise para chegar a tal conclusão é pretensamente economicista e racional, a revolta que sinto é bem do foro emocional.
Porto, Maio de 2003
1. Excelentíssimo texto do Francisco, sobre o gostar da bola. Calço-o "que nem uma luva".
2. Creio que a bola autóctone é uma roubalheira pegada. O meu Futebol, a sério é sobre o não-gostar da bola: a futebolização do meu país aliada à suspeição geral. Irrita-me que algo assim tenha cada vez mais peso e eco no meu país. Peso e eco crescentes que têm efeitos sociais - distracção, distracção, distracção. E também cristalização do valor aldrabice em favor próprio ("é natural, né?"). Em marxês chamo-lhes alienação. Em sociologês produção social de valores. É isso que me irrita na adesão ao futebolês. Hoje omnipresente.
A bola tornou-se quotidiano e, portanto, (muito) produtora e ressonância dos valores comuns. Por isso quando jocosamente reproduzimos (sublinhem esta 1ª pessoa do plural, sff) os seus valores dominantes estamos a ser cúmplices dessa produção social de ícones aldrabões. Daí o meu "intrinsecamente desonestos" - pois dou-nos a dignidade de agentes, não de meras e passivas vítimas.
3. O blasfemo quasi-chuabo (vantagem) portista (desgraça) LR ripostou, elegante. Pois tinha usado o dogma bolês "roubadinho ainda sabe melhor", esse mesmo que eu vitupero. Sabe LR que não lhe estou a negar a honestidade pessoal (e mostra sabê-lo também pelo tom da troca de emails). Ainda assim considera avisado que eu retire o "intrinsecamente desonesto" ao meu post - mesmo que este não tenha ligação [link] ao seu, pois não é uma referência pessoal, a expressão/sentimento é dogma quasi-universal no mundo da lusa bola, dos tatuados arruaceiros aos educadissimos adeptos de sofá.
Ao assumir o meu texto como pessoalmente direccionado LR coloca-me numa posição algo difícil. Ou mantenho inalterável o post, podendo transpirar a minha intenção de o considerar desonesto. O que não é minha intenção, pois presumo (a 100%) que seja ele homem de bem. Ou altero o texto, o que implica retirar-lhe qualquer coerência.
Nem hesito, que se dane o textito. Aqui fica, creio radicalmente que LR não é "minimamente desonesto". Penso que não se poderia retirar isso do texto mas que não fiquem dúvidas, aqui fica em corpo explícito.
4. Além disso é gentil, enviou-me dois belos artigos sobre o futebol, que publicou em Maio de 2003 no Comércio do Porto. Desmontando-lhe a importância económica (de modo delicioso) e social. [LR, V. não quer republicar os textos? Aí no colectivo blasfemo? É que há coisas que, sendo datadas, não envelhecem. Caso não vos caiba no atarefado Blasfémias seria um prazer e uma honra colocá-los nestas hortas menos visitadas. Dar-me-á licença para tal?].
5. Num desses artigos LR escreveu: "Contudo, muito pior para o País como um todo, é o empolamento excessivo que se faz do fenómeno do futebol. Haverá hoje em Portugal milhares de cidadãos, cuja actividade intelectual se esgota na leitura do jornal desportivo e na audiência dos "pedagógicos" programas e debates desportivos que preenchem as programações radiofónicas e televisivas. Todos nós conhecemos no nosso dia-a-dia pessoas com este perfil e podemos facilmente aferir como a obsessão monotemática as limita na sua evolução, na capacidade de aprendizagem, no seu desenvolvimento...A nossa classe política opta pelo embrutecimento. É pena. E, pior do que isso, empobrecedor!!!...."
Estamos em total sintonia. O que eu acrescento, não resisto a voltar ao tema, é que a produção deste "interesse monotemático" é, hoje em dia, também produção de valores aldrabões. E que quando com eles pactuamos estamos a ser agentes dessa produção social de valores. Ao sorrirmos às imagens do tipo a atirar-se para a área estamos, de certo modo, a produzir semi-cidadãos que se atiram para a área nos outros domínios da vida. Somos agentes corruptores, somos cúmplices, colaboracionistas. Não o seríamos se a bola fosse só bola. Mas ela está em todo o lado. E portanto mudou o contexto do relacionamento com esse mundo e seus dogmas.
Assim sendo somos, ainda que distraídos, semi-cidadãos. Esse o sentido, que presumi claro, do meu "intrinsecamente desonestos".
6. LR, que se lixe o tal poker, onde não sou grande artista para mal dos meus trocados. Mas espero partilhar os tais lagostins ou caranguejos, conforme o continente.
Pois soa o aviso, António Jacinto Pascoal (afinal também fotobloguista) , imparável, dá mais pistas sobre o poeta Vilanova. O texto revisto e aumentado está aqui, no sempre recomendável Universos Desfeitos. A acompanhar.
Um obrigado ao Aulil pelo sino anunciador.
que o Nuno ou o Francisco têm tempo para alinhavar dois ou três parágrafos, para explicar a algumas pessoas o que é isso de cabala?
Faz favor, se possível. Mas têm que ser muito muito resumidos, e fáceis...e fáceis. Senão não servem.
Eu, e Portugal, agradeceríamos.
Tenho a caixa de emails cheia, Fws de escrutinadores, não há assalto que se lhes escape, verdadeiras repórteres do crime, aliás, do social, quasi-profissionais de jornais mais tablóides. Tenho que sair, vou meter segurança electrónica em casa, família oblige.
Não, não vale a pena fazer de veterano e dizer que antes de todas as eleições o clima é este. É que estes Fws são como aparelhos de ar condicionado, fazem clima.
Enquanto procuro a morada dessas empresas de segurança vou estranhando que todos esses assaltos escrutinados tenham sido a estrangeiros. Espantoso país. Ou espantosos escrutinadores. Que o mundo se lhes acaba na cor.
Hoje sou expatriado. Amanhã regressará o emigrante.
claro, ia sem a máquina. Domingo fim de tarde, primeiro dia de campanha, Julius Nyerere fora, mesmo mesmo à frente da Presidência uma bem velha carrinha de caixa aberta, nem machibombo se dizia, no regresso da Costa do Sol ali esforçadamente empurrada por uns vinte tipos ou até mais. Era a caravana da Renamo, diziam-no as perdizes dos cartazes e bandeiras, as vestes do grupo.
Imagem polissémica, essa a que falhei. Ou apenas avaria.
Só para visitantes portugueses, sff, recuperação de Guerra Junqueiro, lembrada pelo Portugalidades.
É no Babugem que sei, da sua morte - sei-o assim pela net, mas uma net especial, pessoalizada neste belo, e certeiro, "Saudade das Mornas Futuras" que o R. Gross dedica à Voz.
E lembro-me de ver/ouvir Ildo Lobo num espectáculo de Tubarões no Coliseu dos Recreios (velho) de Lisboa há para aí uns vinte anos, ou talvez mesmo mais. E de protestar "este gajo é tão bom como o Sinatra" - comparação inútil apenas a expressar o meu espanto de então. Um monstro, ele sim. Hoje dançar-se-á bem, lá no futuro.
Emigrante na terrinha, ao 2º dia casório. Quinta dos Azulejos, ali à estrada da Luz. Ao lado a igreja, como quase sempre horrível estatuária e belos azulejos, é a longa missa quem mo diz. Mas a Carolina álibi para o cá fora. Muitas crianças álibis, diga-se.
Tinham-me requerido o fraque. Apresento-me de fato, vá lá, que o possível charme se requer discreto, vou murmurando. É a segunda vez que a Carolina me vê engravatado. Ao meu colo agarra-me o trapo, abana-o e, olhos brilhantes, ri-se, largo. Dele, e já de mim, está a crescer... Como negar o ridículo se ele surge aos olhos de uma criança que ainda só balbucia?
E assim me lembro de um outro belo casamento, já tão antigo, eu então de padrinho do amigo Pacheco, a rapaziada muita apenas toda fardada, a velhada apenas também, e Assis Pacheco superlativo de camisa colorida. De longe o mais bem vestido. E o mais asseado, indiscutivelmente.
Ao jantar, entre as 200 pessoas, hei-de-me reparar emigrante desactualizado. Pois nestes anos os nós das gravatas alargaram e muito. Agora todos os homens se apresentam com um babete ao pescoço, eu de longe com o mais piquinino nó em pista. Moda, claro está, vou pensando, enquanto alargo o colarinho que me aperta a papada. E ainda hei-de resmungar "estes gajos pensam nestas merdas?", que "bijagós!" culmino, lusocinéfilo.
Noivos a acabar os vintes, idem para os amigos e amigas. Se os rapazes se acinzentam, ainda inexperientes no que julgam aprumo, já as moçoilas se apresentam frescas, bonitas, no vistoso bem vestido, alegres elegantes. À mesa da nossa geração nisso concordamos e temos a anuência das nossas mulheres. Diga-se que estas também não estão nada mal, nada mesmo. E muito melhor que alguns de nós, o que não será nada difícil, veja-se o meu espelho.
Súbito a Carolina, plantada no meu colo, aponta outra mesa e diz-nos, insistentemente, solidária no susto, "dói-dói!", "dói-dói!", "dói-dói!". Nem percebo à primeira meia dúzia de exclamações mas finalmente todos compreendemos, está-nos a apontar uma bela beldade, o ombro desnudado e, na continuação, as costas abandonando-nos uma vistosa tatuagem.
Rio-me, sem lhe negar a preocupação, "pois é, querida, pois é!". Pois como negar o ridículo se ele se entreabre aos olhos de uma criança que ainda só balbucia?
É que, afinal, tanto estilo e pose, uma burguesota com tão cuidada produção, e tudo isso para mimar uma puta de piratas, a sífilis do Caribe? Que coisa.

Imperativo ver a exposição individual de Peter Magubane na Associação Moçambicana de Fotografia, integrada na PhotoFesta.
Ainda que eu preferisse vê-la apenas como AnaNdebele, sem as pobres reproduções das fotos políticas. Que retiram coerência à exposição. E que surgem como se cartão de visita de quem não precisa de tal.
é visitante do Ma-Schamba que, em cúmulo de simpatia, já por três vezes ofereceu textos para inclusão. A simpatia ainda é mais simpática pois não nos conhecemos, nem tão pouco havia esse virtual conhecimento prévio, o infodiálogo.
Agora o Aulil, atento perspicaz, desvenda um pouco desta (também) literária personagem. A consultar, enquanto não chegam mais textos.
Chego hirsuto, algum olhar conjugal impele-me à tosquia.
Véspera de casório, lá por onde nos aboletámos percorro dois ou três cabeleireiros, esses recantos andróginos que transformaram o simples cortar o cabelo num acto de resistência política. Lá entro, feito colaboracionista, de imaginário chapéu nas mãos para logo ser expulso, qual ralé na pedinchice. Finalmente, aleluia, dou com um velho e raro salão de barbearia, coisa digna de antanho, velhote de bata branca, dois outros velhos só na companhia, o jornal a Bola, o Record e um qualquer sucedâneo do Correio da Manhã, Acqua Velva no ar, creme Palmolive, o império da caspa, a navalha presumida. A liberdade. Avanço-lhe para a cadeira, enquanto lhe digo, sorriso estampado, na felicidade do alívio, "é para aparar a barba!".
O "barbeiro" abre-me os olhos e, até destilando alguma piedade, condena-me "não fazemos esse serviço". Estanco ali no meio da pequena sala, petrificado da surpresa. Para logo me retirar, envergonhado de mim mesmo, disfarçando-me como quem não quer a coisa em "então bom dia" repetidos, um para um do trio de velhos.
Até lá fora, onde no ar livre me livro do rubor, agora tornado num "foda-se, isto está um país andrógino". Melhor dizendo, um país glabro.