A Delagoa é há muito tempo companhia frequente do Ma-Schamba. Agora decidiu abrir o seu Chuinga. É de esperar que, entre outras coisas, por lá deixe a África dela. Boa sorte, boas teclas.
Agora eleições no Botswana, onde o Partido Democrático de Festus Mogae se deverá manter no poder, que ocupa desde 1966. Nada de estranho se espera, nem sequer haverá missão de observação eleitoral dos "fazedores de democracia", a U.E. não se fará representar.
No próximo mês eleições na Namíbia. Em Dezembro em Moçambique. E, finalmente, em Março próximo no Zimbabwe.
Em todos estes processos eleitorais se aplicará o código eleitoral adoptado pelos países da SADC, subscrito neste último Agosto na cimeira das Maurícias. Um tratado endógeno, a implicar profunda aceitação e aplicação, para lá das pressões internacionais. Um processo regional histórico. Um privilégio de assistir a tão rico período.
A Madalena Santos do Chora Que Logo Bebes foi amável, avisou da publicação

de "Diário de Uma Terapia", de Ana de Sousa, uma edição de Ela por Ela.
No Chora Que Logo Bebes apresenta-se o livro. A visitar.
Foi para aí há vinte anos, a ler ex-austríacos, que me certifiquei, como se tal fosse necessário, que o futuro está em aberto...
(E se te pagam, bem, para trabalhar futuros e não o sabes então...não serves)
O LNT, com o qual ao longo dos meses tenho vindo a perder várias blogodiscussões (e que, no seu pujante heterónimo institucional, não esteve nada mal aqui) acaba de me convidar para um copo.
Aceito, claro, ainda para mais hoje, sexta-feira "dia dos homens" aqui. Mas tenho um problema grave, é que desde há dias que nos mercados de Maputo não se encontra

- afinal o mercado, ainda que sagrado, não é perfeito.
E sem ela nem pensar, tal como me informou logo à chegada o grande engenheiro em Pemba e, logo logo, me ensinou a empiria.
Assim sendo LNT vamos antes a um

enquanto a "Mão Invisível" não brota dos posts lusos e vem animar a realidade?
Confesso que tenho sempre, e ainda mais nestes meses que vêm aí , uma enorme inveja do Lutz.
Em tempo de guerra não se limpam armas (retóricas). "Não se pode conviver com os Árabes. São o povo mais porco do mundo e figuram igualmente na lista dos que maior fedor exalam. O campo cheira todo a urina, a quatro mil anos de urina. É o cheiro característico do Norte de África."
(John Steinbeck, "Algures no teatro de guerra do Mediterrâneo, 29 de Setembro de 1943", Correspondente de Guerra, Livros do Brasil, 165)
Que eu tenha conhecimento as primeiras aproximações ao micro-crédito em blogs portugueses, um texto de Maria Manuel Leitão Marques que merece toda a atenção, e um outro, com ligações a acompanhar, no Blogo Social Português.
Ainda que as realidades sociológicas aqui sejam abissalmente diferentes funciona o paradigma.
O Blogo Social Português é um blog excelente, muito informado, e prova de que a reflexão se quer nada demagógica.
Isto a propósito de um texto sobre transgénicos, em que também disponibiliza ligações a um conjunto de documentação muito apetecível. Ainda para mais sobre matéria em que, sendo leigo, sempre me surge como um labirinto "ideológico" de aparência "científica".
Face às imposições que os doadores colocam aos países africanos em receber alimentos transgénicos, o que já aqui abordei, esta é temática a não perder.
Neste caso, guardar as referências ali disponibilizadas para leitura no futuro imediato.
Interessante como a expressão "caça ao voto", a qual no português de Portugal tem conotação algo sarcástica, crítica do marketing político, é aqui assumida de modo neutral, descritivo. De recorrente utilização na televisão e jornais, sem pinga de ironia, explicitamente "o candidato Armando Emílio Guebuza" ou "o partido da perdiz" (por exemplo) "continua(m) nas suas actividades de caça ao voto".
Demonstrará isso que por aqui há uma melhor e mais acertada compreensão do que é a "política"? Mais descomplexada? Parece.

O edifício dos Correios de Moçambique, na 25 de Setembro, é um dos mais antigos de Maputo. Brilha numa Baixa algo descaracterizada nas últimas décadas e que actualmente sofre alguma desqualificação, talvez inexorável, pois o centro da cidade dela se vai afastando. Até ao longo da própria avenida, algumas centenas de metros apenas, com a zona da FACIM animada durante os últimos anos por via de novas construções de uma arquitectura anódina.

Também por isso a manutenção do edifício dos Correios, bem como o muito similar que alberga a Biblioteca Nacional, assume particular importância, a preservação de uma memória arquitectónica, de uma identidade histórica da cidade.

Mas para além disso a sede dos Correios tem uma componente belissima. A sua enorme sala de atendimento é ladeada por dois antigos balcões em madeira, peças únicas e que lhe dão um insubstituível carisma.
Pois soube-se agora que uma parte de um dos balcões vai ser removido para possibilitar o acesso a uma sala pública de internet, a instalar.
O pressuposto é óbvio. Há a consciência da importância histórica, e até da beleza dos balcões. E da importância da sua manutenção. Mas esta não implica a sua completude. Ou seja, a ideia de que o património (identitário) se mantém ainda que fragmentário. Um compromisso letal, que assume a parcela como a coisa-em-si. Compromisso que não sente a estética, que não entende a função. Compromisso que desvaloriza os itens a preservar e que, em última instância, os condena ao desaparecimento, num futuro dia em que serão desvalorizados porque inúteis e, exactamente, fragmentários.
Pois um diferente, e mais esclarecido, entendimento do que é uma peça patrimonial poderá salvar a integridade destes balcões. Que um dia poderão orlar uma sala de visitas ou até núcleo museológico dos correios moçambicanos. Que por enquanto aconchegam e servem os utentes.
Os correios têm instalações amplas. Decerto que com alguma imaginação poderão encontrar uma opção, fácil e barata, para outra via de acesso à muito bem-vinda sala pública de internet.
Consta que nos finais dos anos 1980s houve um projecto de remoção destes balcões. Então os alunos de Arquitectura intervieram, assumindo a sua manutenção como causa. Será que os arquitectos de hoje e alunos de ontem ainda terão tempo e paciência (e energia) para colaborar numa outra solução?
Apesar de discordar da sua visão, apesar de discordar da sua atitude face ao caso Casa Pia, fico estupefacto com o que a justiça portuguesa - cujos agentes de todos níveis violam o segredo de justiça - decidiu relativamente a António Balbino Caldeira, do Do Portugal Profundo. Hipócrita legalismo.
Não sou jurista, não sei que responsabilidades recaem sobre quem quebra o segredo de justiça. Mas as declarações de Eduardo Ferro Rodrigues, cidadão que creio impoluto e vítima de uma tenebrosa manobra de diversão, referem juízes nada anónimos que avisaram membros da direcção do PS do que se passava na investigação. Espero pois que esses juízes sejam de imediato apresentados à justiça. E não apenas o bloguista.
Nos comentários ao post em que António Balbino Caldeira [permanent link defeituoso] narra a revista a sua casa por membros da polícia há um a reter, da autoria do autor do blog Tugulandia [que desconhecia]: "Eu bem digo que isto é uma cretinocracia". É isso. Cretinos perigosos.
A afirmação do Parlamento diante dos generais do Império, esses quasi-bárbaros acantonados para lá e para cá do Rubicão, é uma vitória da cidade. E esse ibero não é um Flávio.
Agora vou ler o Roma Antiga.

WASTEBAND, de Patrícia Portela
- Prémio Reposição de "O Teatro na Década" do Clube Português de Artes e Ideias.
- Menção Honrosa do Prémio Acarte / Maria Madalena de Azeredo Perdigão 2003.
28 de Outubro a 1 de Novembro 04, às 21h30
(sáb. e dom. também às 17h)
Centro de Animação do Hospital Miguel Bombarda, Rua Dr. Almeida Amaral, Lisboa
Este espectáculo tem uma lotação limitada a 30 lugares. Entrada Livre
(Informações e reservas: 96 3965525)
Como ser virtual sem ser digital?
"Wasteband" é um espectáculo entre um ambiente de ficção científica e os "encontros tupperweare" onde tentaremos vender ao público o espectáculo do futuro.
Uma performance virtual para um actor/astronauta, um músico, um power point e uma mesa eliptica onde se projectam verticalmente imagens vídeo e onde se reunem à volta, sentados, espectadores e performers.
Um kit interactivo sobre cada passo a tomar para viver uma performance virtual em casa, sem recorrer à tecnologia, mas mantendo uma lógica de links.
O pano de fundo é reconstrução de um ritual chinês que prevê em cada ano um dia em que é possível a lua cair nos oceanos de acordo com probabilidades científicas.
O tema é a espera como ritual do desejo. Só espera quem acha que pode acontecer.
***
Um espectáculo a que muito gostaria de assistir - impossibilidade que traduz os tais custos da emigração. E quem o poderia trazer a Moçambique? Nessas embaixadas culturais? Difícil, pois normalmente, e porque aqui, são elas muito tradicionalistas. Mas seria um bom arrojo! Integrá-lo no Festival de Agosto (teatro)? As gentes do ACERT, de Tondela, aqui siameses do Motumbela Gogo e M'Beu, lerão o Ma-Schamba? Ou as culturais e cooperantes instituições?
Aqui o bloguista, tamanha a curiosidade e em cúmulo de mecenato (ou de cooperação, já que actividades aqui seguem com esse nome), até cederia os catres aos artistas. Com águas correntes, quentes e frias.
Aterrou na minha caixa postal uma petição para impedir a demolição da casa de Almeida Garrett em Lisboa, solicitando sua transformação em instrumento cultural. A ideia, que não me parece descabida de todo, foi lançada no Cidadania LX e poderá ser subscrita aqui.
Já agora, foi através deste mail que conheci o Cidadania LX. E para por lá encontrar, mesmo vizinho ao post da petição, uma pérola, um pequeno tratado de ciência política, um "subsídio para o estudo da produção do hiato entre representantes e eleitores num sistema democrático". Ou, de como para ser cidadão é necessário ter paciência e um pouco de mau-feitio.
Já várias vezes o referi, gosto de ir ao Blogame Mucho e, não desfazendo claro está, gosto em particular de ler o residente Besugo.
De novo o ecoei anteontem a propósito de um belo texto sobre a doença e o medo.
Um texto belo e perturbador. Que ecoei, que me levou ao desabafo. Ao esconjuro. O Besugo não gostou. Paciência, ainda que o lamente. Que não escreva ele textos perturbadores, que não mexa nos meus medos, que não cutuque a minha "atitude" (como se traduz "panache"?), que não me obrigue a praguejar com a puta de vida.
Quanto ao resto que me veio à cabeça a propósito do seu texto (não está lá, veio-me à cabeça), quanto ao Direito à Morte, à informação, à eutanásia, ao suicídio assistido. Quanto às interrogações sobre quem decide o quê, e na base de que direitos. Quanto à estranha, e até xamanística, relação que continuamos a ter com os médicos. Quanto a isso tudo de que pouco ouço falar. Pois posso começar eu a escrever por aqui. Meia dúzia de balelas, meio demagógicas, pouco informadas. Passo...Mas continuo assustado, foda-se.
E sim, Besugo, espero nunca te ter como médico. Que adormeça e desista de acordar, aí como o meu mano velho. Se possível quando a Carolina só precisar de mim para ensinar alguma coisa sobre vinhos bons a um qualquer morcão ignorante, tatuado, escarafunchado, ganzado, que me tenha metido lá em casa. Que para levar os putos ao Alvalade XXI,5 já me cheira tarde, com todos estes maus tratos auto-infligidos. E talvez ainda bem, assim a evitar a terrível desilusão de ter netos benfiquistas. A retirar qualquer sentido à vida.
Luís Aguiar-Conraria, dono do mais do que visitável Nas Fronteiras da Dúvida regressa, uma semana depois, ao Público, com artigo de quem pensa sobre o ensino superior em Portugal.
Abaixo o transcrevo, para quando a ligação falecer.
Como Financiar o Ensino Superior: Uma Proposta Concreta
Por LUÍS AGUIAR-CONRARIA
Quarta-feira, 27 de Outubro de 2004
o artigo "Quem tem medo das avaliações?" (PÚBLICO - 20/10/04) defendi que os professores deviam ser submetidos a avaliações pedagógicas e que, para melhorar a qualidade do ensino superior, é necessário tornar os estudantes mais exigentes e obrigar as universidades e os politécnicos a escutarem essas exigências. Acrescento outro desafio: garantir a universalidade do acesso a uma universidade com padrões de qualidade muito mais elevados que os actuais.
Há duas importantes ideias-base. Primeira: quem estuda na universidade tem benefícios privados (melhor situação profissional, social e económica). Segundo: todos nós beneficiamos, se toda a população for mais educada e mais culta. Portugal tem falta, e não excesso, de pessoas com formação superior.
A primeira ideia é óbvia. De resto, num estudo publicado no boletim de Março do Banco de Portugal, Pedro Portugal mostra que, no nosso país, os benefícios privados com a educação são maiores do que na maioria dos outros países.
A segunda ideia exige mais cuidado. Na minha opinião, é tão óbvia como a primeira e muitos trabalhos estimam o impacto da educação no crescimento económico. Podemos verificar, numa publicação da OCDE, "Education at a glance", que se estima que o aumento de um ano na escolaridade média de uma população se traduz, num prazo de 20 anos, num aumento do rendimento 'per capita' de 6 a 22 por cento. Se nos lembrarmos que, em média, a população portuguesa tem pouco mais de 8 anos de escolaridade e que a média dos restantes países da União Europeia anda acima dos 12 anos, talvez não seja necessário fazer grandes exercícios para descobrir a causa do nosso atraso, ou, pelo menos, uma das causas.
Não basta, no entanto, aumentar o número de licenciados. Há que melhorar a qualidade no nosso ensino superior. Como? Quando se paga um serviço é-se mais exigente. O ensino (quase) gratuito diminui a exigência dos estudantes. Se os estudantes pagarem uma propina que cubra uma parte substancial dos custos da universidade (digamos 50 por cento), serão muito mais exigentes. Por sua vez, as universidades, ao ficarem directamente dependentes das propinas dos alunos, têm de oferecer qualidade. A educação é um bem misto, ou seja, apresenta características de bem privado e de bem público. É socialmente justo, e economicamente eficiente, que o financiamento seja simultaneamente público e privado. Não vale argumentar que actualmente já existem muitas universidades privadas e que estas não oferecem qualidade. Todos sabemos o motivo: essas universidades captam os estudantes que foram recusados pelas públicas, logo os piores alunos. Não surpreende que não se especializem na qualidade.
Para que exista uma verdadeira concorrência entre universidades, é necessário que elas possuam maior autonomia para, por exemplo, pagar a professores de forma diferenciada. Se uma universidade portuguesa quiser contratar um potencial prémio Nobel da Física, não lhe vai poder pagar o mesmo que aqui se paga a um professor associado comum. Sejamos de esquerda ou de direita, é bom que aceitemos que para termos qualidade num serviço temos de fomentar uma concorrência saudável. Teremos universidades a especializarem-se em cursos baratos e de baixa qualidade? Claro que sim. Teremos também universidades a especializarem-se num ensino e numa investigação de alta qualidade. Neste momento, essas são apenas excepções que muitas vezes resultam de puro voluntarismo dos responsáveis por esses departamentos.
Se aceitarmos que os estudantes têm de pagar um valor de propinas substancial, outro problema se levanta. Como garantir que ninguém fique excluído apenas por razões financeiras?
Um sistema de bolsas não resolveria o problema e teríamos muitos estudantes que vão de carro para as aulas a serem financiados pelo Estado. Indexar propinas ao IRS é um disparate, dados os níveis de fuga aos impostos. Aceitando que não há soluções óptimas, é importante garantir que todos têm a oportunidade de ingressar no ensino superior.
Se pura e simplesmente se cobrasse uma propina de mil contos por ano, muitos jovens não teriam possibilidades financeiras de estudar. Nos EUA existe um sistema de empréstimos em que os estudantes nada pagam até terminarem o curso. A partir desse momento, pagam juros e amortizam o empréstimo normalmente. Não me parece que tal seja razoável em Portugal. A decisão de estudar é uma decisão de risco. Aumentam as probabilidades de mais sucesso financeiro no futuro, mas isso está longe de estar garantido. A ideia de contrair um empréstimo de alguns milhares de contos poderá atemorizar bastantes jovens que não têm a certeza de quais as suas possibilidades de pagar esse empréstimo. Ora o nosso país não se pode dar ao luxo de excluir estudantes por motivos meramente financeiros.
O que proponho é diferente. O Estado continuará a fazer transferências directas para as universidades, mas de valores substancialmente mais modestos que os actuais. Além disso, cada universidade cobrará as propinas que muito bem entenda, sujeitando-se às regras do mercado.
Independentemente do rendimento das famílias, todos os estudantes terão de pagar as propinas pedidas pela universidade. Mas todos os estudantes terão a opção de receber transferências do Estado no valor da totalidade das propinas, ficando em dívida para com o Estado. Dívida que o estudante começará a pagar quando se empregar. Pode pagar, por exemplo, 10 por cento do seu salário bruto. A questão do risco de estudar é minimizado, uma vez que cada um paga consoante as suas possibilidades numa percentagem fixa do seu rendimento. Não se cobram juros, fazendo-se apenas correcções de acordo com a inflação.
Pedro Portugal mostra que o salário médio de um licenciado com menos de 35 anos é de cerca de 300 contos por mês (ilíquidos). Se as propinas forem de 1000 contos por ano e o estudante se licenciar em quatro anos, demorará menos de 10 anos para pagar a dívida. Se a vida lhe não correr tão bem, demorará mais uns anos a pagá-la. Se correr melhor, paga depressa. Como a dívida não vence juros, financiam-se mais aqueles que têm menos possibilidades financeiras, pois têm mais tempo para pagar a dívida. Não se trata de uma questão de justiça social, mas de solidariedade.
Algumas arestas têm de ser limadas. Como lidar com aqueles que emigram e saem do país? Como lidar com os que se tornam profissionais liberais e declaram ganhar menos de 100 contos por mês?
Este esquema é bastante flexível e pode ser ajustado a diferentes contextos, como o decorrente do processo de Bolonha caso o Governo apenas mantenha o financiamento dos primeiros 3 anos de licenciatura e os estudantes tiverem de pagar integralmente pelo segundo ciclo de 2 anos, o que levaria à exclusão de muitos por motivos financeiros. Uma forma de executar o que proponho seria manter o financiamento actual nos primeiros 3 anos e os últimos 2 anos integralmente financiados por propinas que seriam pagas da forma descrita.
Nalgum momento teremos de deixar de apostar na massificação do ensino e passar a apostar na sua democratização. Dado que actualmente são poucos os jovens que não encontram colocação numa universidade ou num politécnico, chegou a altura de apostar na qualidade.
Esta proposta responsabiliza o Estado, o estudante e a universidade. Tem custos para o Estado que têm de ser pagos pelos contribuintes? Claro que sim. É o custo de garantir que ninguém deixe de estudar por não ter dinheiro para as propinas. De qualquer forma, esses custos são muito mais baixos do que os actuais, uma vez que as transferências para as universidades serão mais modestas e as transferências para os estudantes serão reembolsadas. Este sistema responsabiliza a universidade, visto que o seu financiamento está ligado à sua capacidade de atrair estudantes. Apenas as melhores poderão cobrar propinas mais elevadas. Finalmente, este sistema responsabiliza o estudante, que passa a financiar o respectivo curso, mas garante que nenhum estudante deixará de estudar por motivos financeiros.
Doutorando de Economia na Cornell University
Cá de longe também me preocupo. As declarações do pro-comissário Buttiglione parecem-me avisadas. Mas deixaram-me dúvidas angustiadas. Se as mães solteiras são más mães (ou "menos boas") isso aplicar-se-á às viúvas?
Um tipo chamado Eufigénio Lagoa, afinal Apenas Mais Um a começar no blogar. E a começar em grande, com um texto de arromba.
Fico já fã. Ou fan. Ou seja, visita mais que frequente. Mas de onde saem estes tipos?
Estou a gostar da lusa blogoatenção com o jogo bush-kerry. Todos votam, perdão, botam. E contam. E apontam. E todos com conhecimento de causa(s). ...end of the day, we are all americans, assim vão dizendo os mais pró e os mais pró.
Lembra-me uma série de TV, muito fraquita, com mais de 20 anos e da qual esqueci o título. Emigrantes italianos, início de XX, e lá na coberta à visão da Estátua da Liberdade o frágil actor gemia, arrastado, olhos esbugalhados, "L' Ámérica, L' Ámérica" (ficou uma "piada privada" lá no meu meio, metáfora da imbecilidade. Será que alguém se recorda do título do raio da série?).
Aqui também há eleições à porta. É o que me vale para encher a vida com algum sentido. E também eu vou dizendo, arrastadissimo, "Áfricaaa, Áááfricaa, Ááááfricaaa". E escrevendo posts sobre quem vai ganhar e porquê. E em quem votaria eu, e todos os detalhados porquês de tais opções. After all, "no fim do dia" we are all africans, specially lusophone africans...
"Áfricaaa, Áááfricaa, Ááááfricaaa"
O excelente Janela Indiscreta ecoa a apresentação da exposição fotográfica "Iluminando Vidas. Ricardo Rangel e a Fotografia Moçambicana", na Culturgest do Porto até 9 de Dezembro.
[Também aqui referida]
Da Janela Indiscreta aproveito ainda reprodução do cartaz.

Eu sei que não me fica bem ser eu a chamar a atenção, mas o PQ e o LEne poderão ir aqui saber da minha justiça.
Quando um blog, inopinadamente, começa a incluir anedotas, testes e tralhas semelhantes, está tudo visto. Ou seja, está tudo dito. Talvez seja o caso.
Mas como, volta e meia, me irrito com alguns pensamentos liberais mais absolutos aqui deixo esta recém-chegada anedota (quiçá já velha noutros casais). Do estilo de muitas outras (as "personalidades colectivas", as "almas nacionais", caricaturas que nunca deixam de ser dão imenso jeito ao humor simples). E deixo-a porque, ainda que aparentemente muito anti-estado, também é, aparentemente, muito nada-liberal.
Afinal, ainda que pueril, mais complexa do que muito discurso assertivo .
CAPITALISMO IDEAL
Você tem duas vacas.
Vende uma e compra um boi.
Eles multiplicam-se, e a economia cresce.
Você vende a manada e aposenta-se. Fica rico!
CAPITALISMO AMERICANO
Você tem duas vacas.
Vende uma e força a outra a produzir o leite de quatro vacas.
Fica surpreso quando ela morre.
CAPITALISMO JAPONÊS
Você tem duas vacas.
Redesenha-as para que tenham um décimo do tamanho de uma vaca normal e produzam 20 vezes mais leite.
Depois cria desenhinhos de vacas chamados Vaquimon e vende-os para o mundo inteiro.
CAPITALISMO BRITÂNICO
Você tem duas vacas.
As duas são loucas.
CAPITALISMO HOLANDÊS
Você tem duas vacas.
Elas vivem juntas, em união de facto, não gostam de bois e tudo bem.
CAPITALISMO ALEMÃO
Você tem duas vacas.
Elas produzem leite regularmente, segundo padrões de quantidade e horário previamente estabelecido, de forma precisa e lucrativa.
Mas o que você queria mesmo era criar porcos.
CAPITALISMO RUSSO
Você tem duas vacas.
Conta-as e vê que tem cinco.
Conta de novo e vê que tem 42.
Conta de novo e vê que tem 12 vacas.
Você pára de contar e abre outra garrafa de vodka.
CAPITALISMO SUÍÇO
Você tem 500 vacas, mas nenhuma é sua.
Você cobra para guardar a vaca dos outros.
CAPITALISMO ESPANHOL
Você tem muito orgulho de ter duas vacas.
CAPITALISMO BRASILEIRO
Você tem duas vacas.
E reclama porque o seu rebanho não cresce...
CAPITALISMO HINDU
Você tem duas vacas.
Ai de quem tocar nelas.
CAPITALISMO PORTUGUÊS
Você tem duas vacas.
Uma delas é roubada.
O governo cria O IVVA - Imposto de Valor Vacuum Acrescentado.
Um fiscal vem e multa-o porque, embora você tenha pago correctamente o IVVA, o valor era pelo número de vacas presumidas e não pelo de vacas reais.
O Ministério das Finanças, por meio de dados também presumidos pelo seu consumo de leite, queijo, sapatos de couro, botões, presume que você tenha 0 (zero) vacas e para se livrar do sarilho, você dá a vaca que resta ao inspector das finanças para que ele feche os olhos e dê um jeitinho...
Este caso, aqui apresentado por quem se reclama vítima, será verdade?
Tenho encontrado eco em vários blogs (mas nem tantos assim). Para quem não ainda não leu assim se resume: Orlando Cardoso, residente em Pombal, fez um blog. E, segundo afirma, o que lá escreveu provocou a ira do Presidente da Câmara local, o qual terá pressionado a empresa na qual Cardoso trabalhava, insistindo no seu despedimento. Resultado? Um bloguista desempregado.
Pode ser verdade. Não me custa nada a acreditar, um qualquer cacique local, irado com voz crítica lá na coutada. Mas pode não o ser. O meu cepticismo diante dos politiqueiros impele-me a aceitar a história. Mas, caramba, não se pode ter a certeza. Pode ser invenção, desculpabilização, sei lá.
A notícia já teve eco no Público. E isso sim me surpreende. Pois uma autoridade eleita é acusada de ter pressionado uma empresa privada para despedir um trabalhador, como represália pela actividade de cidadão, pelo exercício de liberdade de expressão. E a notícia vem, semi-escondida, no "Local" (21.10.04, sem elo que as "pesquisas" estão inacessíveis). Que raio de critério é este?
A denúncia reflecte verdade? Mentira? Sei lá. Mas um caso destes, uma putativa caciquada destas, é tratado lá no "localzinho" e não no corpo central? Malditos e medíocres escribas, mundozinho a morrer-se-lhes no terreiro do paço, com mera sucursal "ao dragão".
E quando é que uma hipotética ilegalidade destas, quando é que a investigação sobre possíveis entraves à liberdade de opinião, passa de "local" a "nacional"? Estará no "livro de estilo"?
Preocupações com a língua portuguesa (abaixo transcritas), continuará ou não língua de trabalho na UE?
Sobre o assunto (a babélica cacofonia da eurocracia) não tenho particular ideia. Mas na RTP vi neste fim-de-semana o meu Presidente da República (cargo simbólico, entre outros atributos) deslocado em Huelva, homenageando um "amigo de décadas", e discursando em esclarecido castelhano.
Não, não é o toque provinciano que me irrita. É o silêncio em seu torno. Daí este irritado post de demagogia.
PCP Alerta para Fim do Português na União Europeia
Público
Segunda-feira, 25 de Outubro de 2004
O fim do português como língua oficial de trabalho vais ser discutida na COSA
São José Almeida
Honório Novo, deputado do PCP, declarou ao PÚBLICO que teme o risco de o português vir a desaparecer como língua oficial de trabalho na União Europeia. A preocupação manifestada por Honório Novo surgiu-lhe durante a reunião da comissão parlamentar de Assuntos Europeus e Política Externa de quarta-feira de manhã, quando se deparou com a agenda da próxima reunião da COSAC, agendada para 22 e 23 de Novembro, em Haia, sob a presidência holandesa.
É que na reunião semestral deste órgão, que reúne as comissões parlamentares de assuntos europeus dos Estados-membros da União Europeia, o primeiro ponto é precisamente o regime linguístico da COSAC. De acordo com o relatório da deputada do PSD Maria Eduarda Azevedo sobre a preparação da reunião ficou a saber-se que estará em discussão uma proposta que, segundo a presidência holandesa "consegue, simultaneamente, ir ao encontro da redução dos elevados custos financeiros no cenário da União a 25 suportados por cada presidência e assegurar o respeito pela identidade nacional".
Esta proposta, depois de numa primeira fase ter contemplado a hipótese de as delegações às reuniões da COSAC poderem "exprimir-se na língua mãe", mas se quisessem "dispor de interpretação simultânea" deveriam fazer-se acompanhar do intérprete cujo custo teriam de suportar "integralmente".
Face às resistências que esta proposta provocou na anterior reunião de Dublin, os holandeses apresentaram agora na reunião preparatória do encontro de 22 e 23 de Novembro uma nova formulação "assente num leque de 6 línguas fixas - inglês, francês, alemão, italiano, polaco e espanhol - com custos de interpretação sempre a cargo da presidência". No seu relatório, Eduarda Azevedo ainda explica que alertou para o facto de este caminho "não poder deixar, perversamente, de ressuscitar os fantasmas de estados 'grandes', 'médios' e 'pequenos'".
Perante os factos o deputado comunista protestou também e, depois da discussão, e uma vez que o representante do PCP não tem assento na próxima reunião, o socialista Jaime Gama disponibilizou-se para o deixar ver o texto que os representantes portugueses pretendem levar à reunião. A Assembleia da República tem seis representantes, três fixos do PSD, dois fixos do PS, e mais um que roda entre o CDS e o PCP, cabendo agora a vez ao representante do CDS. Assim estarão em Haia: Maria Eduarda Azevedo, Almeida Henriques, Jaime Gama, Alberto Costa, Anacorreta Correia e mais um representante a indicar pelo PSD.
Mas Honório Novo ficou ainda mais preocupado quando ouviu o deputado social-democrata Almeida Henriques defender que "o melhor era colocarem-se estas questões depois da aprovação da Constituição europeia". Dando a entender, segundo interpretou Honório Novo, que esta discussão sobre o fim do português como língua oficial de trabalho, primeiro na COSAC, depois nas outras instituições da EU poderia prejudicar a campanha do referendo à Constituição europeia.
O deputado do PCP salientou ainda ao PÚBLICO o seu espanto pelo facto de os deputados do PS não terem manifestado oposição a esta proposta de adiamento desta discussão. "Pareceu-me haver ali um procedimento do tipo de quem cala consente.", declarou Honório Novo, concluindo: "Parece-se que a provação desta medida é um primeiro passo para vir a adaptar um regime de reestruturação das línguas de todos os países que fazem parte da União Europeia."
vale mesmo a pena ler blogs.
Ah, só espero que quando me chegar a vez, o médico de então seja outro. Pior escriba porventura. Mas homem o suficiente para me dizer da verdade, a do futuro. E não esta putice da mentira - que nas outras profissões dá direito a processos e até prisão. E que nos curandeiros é vista como deontologia (será?). Merda (para não escrever Foda-se!)! Maldita profissão. Obscurantista.
Pois já são meses o tempo decorrido desde que a Campo de Letras publicou o novo livro de Eduardo White, O Manual das Mãos.
Pois já são meses mas não há sinal do livro em Moçambique. Confesso que cada vez percebo menos do trabalho de editores e livreiros. Cada vez menos.
Esperava ter exemplar do livro para dele fazer pequena nota por aqui. Mas tarda, tarda, tarda...Daí que roube excerto ao À Sombra dos Palmares, que há já tempo trouxe ao bloguismo este novo livro. Está-se sempre atento naquela sombra.
Então aqui fica, bocado do Dino.
MANUAL DAS MÃOS (excerto)
Eu gostava de poder fugir a esta realidade tão fulminante. Dizem-me os amigos para enfrentar o problema, para agarrar o touro pelos cornos. Aliás, dizem-no sempre quando isto não é o que se passa com eles.
Não tenho dinheiro. Gastei-o a exilar-me em mim mesmo. No álcool, algumas vezes. A pagar rodadas dele aos amigos para não ficar sozinho. Tenho um pavor à solidão. É-me corrosiva e não sei viver com ela.
Penso, como consequência, em partir. Para onde? Não sei, se tivesse dinheiro era para uma ilha. A minha ilha. Moçambique. É bela. Antiga. Magistral.
Vejo-a:
Um pássaro revolve as asas por dentro do verde esbatido do mar. Traça a casa líquida que às estrelas, certamente, o seu piar vai dar. A história é-lhe longe, são formas entrecortadas, sobre a espuma amarelecida, dos navios cargueiros que beijam lentos o horizonte e movem silenciosos outras cargas.
A ilha suspende-se entre o vento e um negro reluzente cruza a praia com os olhos lavrando as areias. Não sei se reza, mas que pensa é mais que evidente. Testemunham os brancos cabelos e as mazelas no caqui dos desbotados calções. Cheira a marisco a brisa que inalam as narinas dentro desta paisagem e a cânfora, alguma, das memórias que ela desenha.
As redes que sobre o chão encontro estendidas, são cartas oceânicas que escreve o fundo do mar. Do texto salta a prata dos peixes, o verde amaciado das algas e uma estrela imóvel que explode, por dentro, a terra toda a girar. Claro que a areia as grava. Nessa forma de escrita mais milenar que a geringonça mágica de Gutemberg. Porque Deus descansa aqui, ao cair da noite. Silenciosamente medita por entre as lágrimas das tartarugas que junto a ele vêm desovar, ou de um negro macúa, estirado sobre o desgosto, a chorar um amor que, por teimosia, não quer morrer.
Vão longe, a navegar, os versos da miséria que do Luís de Camões a história quis esconder. Os ducados que nunca teve, nem para voltar nem para morrer, servem outros reinados e engordam a mesa dos que ainda julgam que poeta bom só miserável pode escrever. Lêem e estudam o que não dizem os poemas, sábios doutores esses universos etários, e nem com verdade podem entender, entretanto, o que eles explodem e doem e fazem crescer no coração esquecido dos seus autores.
Por isso a Ilha é calma. Tonta de tanta quietude e, talvez, será o que querem dizer as faces delicadas das suas negras, as mãos talhadas dos seus ourives.
Assim, o meu velho Camões, macúa zarolho só por ter visto sempre demais, terá, talvez, ali, amado o seu negro, seus humanos adamastores e com eles provado essa fatalidade incontornável de ser poeta sem ilha na ilha extensa dos que nela, até hoje, não o sabem ler.
Mas era para lá que eu queria partir.
que coisa, nem parece daqui agora. Hesito no passeio, vontade de me deixar abrigado, antes de cruzar este final de avenida. À minha frente um brand new 4X4, e depois another one, and another, and another, 5 or 6. In a row. Shining.
É a campanha! E atravesso no aguaceiro, o frescote que aqui digo "gélido". E "hum, assim não ganham votos"..."aqui? assim?!".
em excesso de generosidade, elucida sobre um sentido de "cabala". "Estou a agradecer" - não sou purista, o termo ganhou outros sentidos ao longo da história, como bem refere. Mas acho interessante que quem os usa saiba da amplitude semântica daquilo que lhe sai da boca (ao invés das moscas).
Pedi-te dois ou três parágrafos, dos simples, meu caro Nuno. Pois duvido que quem deles mais precisa leia mais do que isso. Mas creio, crente afinal, que haja por aí algum assessor disponível para resumozito. Talvez...
Fernando Madrinha, nome top no Expresso [sem link, que vendem o acesso, a 100 paus (o velho pintor) a notícia], escreveu isto (o negrito é meu):
PS - Entre Rui Gomes da Silva, José Veiga, Pinto da Costa, Alberto João Jardim e Luís Filipe Vieira pode não haver mais nada em comum senão a boçalidade e a intolerância. Mas as suas intervenções por estes dias - e toda a agitação que provocaram - justificam que todos nos interroguemos e reflictamos: como é possível que estas figuras tenham adquirido a projecção e o poder de que dispõem na nossa vida pública? Qual a responsabilidade dos «media» na construção da sua imagem? Quais os riscos, para a democracia e para a sociedade, de os discursos e os métodos que já vigoram no mundo do futebol se generalizarem ainda mais ao mundo da política?
Está visto, Madrinha não é jornalista. Ou, por outras palavras, a culpa é (sempre) dos outros...
O segundo artigo de LR, sobre a futebolização portuguesa. Também publicado no Comércio do Porto, em Maio de 2003.
Contra a Corrente
“Tudo quanto é profissão tem uma componente de aprendizagem. Ser portista ou ser benfiquista são adesões emocionais onde não se aprende nada. Numa é-se sujeito, noutra é-se apenas objecto” – Prof. Sobrinho Simões, Público, 2003-05-18
Tal como muitos, emocionei-me e vibrei com a vitória. À semelhança de muitos menos, vim para a rua festejar com os meus filhos. Ao contrário de 40.000, no dia seguinte fui trabalhar e os meus filhos foram à escola. No final do “day after” já se me tornava insuportável ver televisão, ouvir rádio ou ler jornais, tamanha era a “injecção” sobre futebol e todas as suas futilidades. Não fosse Paulo Pedroso e o eterno folhetim da pedofilia e o “massacre” teria sido muito maior. Curioso (ou talvez não) é que todos os intermináveis e enjoativos debates e entrevistas que se vão sucedendo sobre o futebol, redundam sempre nos habituais lugares comuns e no agitar de emoções baratas, não se conseguindo descortinar um único que consiga analisar o tema de forma estruturante.
É óbvio que o futebol tem alguma importância, se bem que muitíssimo inferior àquela que aparenta e que lhe querem dar; é óbvio que a sua importância transcende em muito o seu peso residual na economia do País (do nosso e de qualquer outro) e se manifesta fundamentalmente no campo das emoções e na capacidade de arrastar multidões; não sendo óbvio, porque tal não interessa, é também verdade que mesmo aqui a sua importância é claramente sobrestimada. Vejam-se a este propósito as audiências televisivas: na final da Taça UEFA, verificou-se uma audiência “record” de quase 30%, ou seja, cerca de 3 milhões de pessoas seguiram a transmissão. Tratou-se de um nível verdadeiramente excepcional e fàcilmente explicável por se tratar de uma final europeia a ser disputada por uma equipa portuguesa e pela estridente e muitas vezes histérica mobilização efectuada nos dias anteriores, que colou aos écrans todos os adeptos e muitos não adeptos do futebol. Em condições mais normais, quando há transmissões de jogos (e considerando nesta “normalidade” apenas jogos entre os três “grandes”) as audiências raramente ultrapassam os 18/20%. Nestas alturas, questiono-me sempre sobre o paradeiro dos 6 milhões de portugueses adeptos de determinado clube...
Devendo a importância do futebol ser devidamente relativizada, reconheço no entanto que há “benefícios colaterais” decorrentes da conquista de um troféu internacional, como a que ocorreu no passado dia 21. Desde logo pela injecção de uma boa dose de auto-estima de que um País resignado ao seu “triste fado” andava tão carenciado; talvez mais importante, pela vitória que tal representa para os “vencidos da vida”, eternos perdedores num quotidiano miserável, repleto de angústias de todo o género; sobretudo, pela atitude demonstrada pelo F. C. do Porto em campo, a agressividade permanente, a capacidade de reacção perante as contingências do jogo, o acreditar que pode ser melhor que os melhores, o porfiar sempre pelo objectivo até finalmente o alcançar. É esta atitude, este espírito de luta, o investir esforço para obter algo, a procura constante da excelência, que o País deveria interiorizar e emular. Assim tal acontecesse aos vários níveis sócio-económicos, e estaríamos decerto vários patamares acima no “ranking” internacional da competitividade.
É porém difícil ver estes exemplos a frutificar entre nós, desde logo porque a sua divulgação enquanto tal, pura e simplesmente não se faz. Nos rescaldos intermináveis e cada vez mais insuportáveis, prevalece a vertente da comoção barata e do espalhafato boçal: assim, assistimos em estúdio ao “espremer” das emoções até à última gota, com a repetição vezes sem conta da sacramental pergunta “o que é que sente?”; nas reportagens de rua, há sempre câmaras e microfones prontos a registar as prestações mais alarves da multidão ululante.
Mas há também danos colaterais, sendo alguns bem quantificáveis, ao contrário dos benefícios. As milhares de horas de trabalho perdidas ou de “gazetas” escolares são o efeito mais visível e também dos mais perversos, com as televisões a não se inibirem de divulgar declarações do género “que o meu patrão me desculpe, mas amanhã não vou trabalhar”. É sobretudo chocante a aceitabilidade que estas reacções estão a ter, validadas que vão sendo por exemplos de membros da Administração Pública que fizeram gala em ir a Sevilha com 2 dias de antecedência, integrando a comitiva da equipa. Esta “osmose” política/futebol, para além da parolice extrema que denota, estabelece muitas vezes “ligações perigosas” que vêm a gerar casos (e cenas) edificantes como está a ser o “folhetim” de Felgueiras.
Contudo, muito pior para o País como um todo, é o empolamento excessivo que se faz do fenómeno do futebol. Haverá hoje em Portugal milhares de cidadãos, cuja actividade intelectual se esgota na leitura do jornal desportivo e na audiência dos “pedagógicos” programas e debates desportivos que preenchem as programações radiofónicas e televisivas. Todos nós conhecemos no nosso dia-a-dia pessoas com este perfil e podemos fàcilmente aferir como a obsessão monotemática as limita na sua evolução, na capacidade de aprendizagem, no seu desenvolvimento. A sua estagnação será causa de inevitáveis frustrações, presentes ou futuras e o refúgio será sempre o futebol, num efeito bola de neve que os fará descambar no grupo dos “vencidos da vida”. Terão, em “anos bons” e no máximo, três dias de alegria que acharão que compensa todas as agruras da vida. Mais uma vez, esta forma de ser e de estar, esta falta de ambição, é validada a nível superior. Quando verificamos que toda a “corte” e “senhores feudais” esgotaram as tribunas de honra em Sevilha, a mensagem transmitida é clara: o futebol é a actividade suprema do País!!! Curiosamente, do lado do adversário, não consegui descortinar a rainha Isabel II, Tony Blair, ou o sequer o “mayor” de Glasgow...
Na interessante entrevista dada ao Público que acima refiro, o Prof. Sobrinho Simões, indefectível portista, reconhecendo embora no FCP a Instituição que mais auto-estima promove nos portuenses, achava porém que tal papel deveria caber à Universidade, aos Hospitais de S. João ou de Stº António, à investigação, à Escola de Arquitectura, à Casa de Serralves. A mensagem aqui também é clara: são as Instituições que usam o conhecimento e que promovem o conhecimento que darão o contributo mais perene ao desenvolvimento de uma cidade, região ou País.
A nossa classe política opta pelo embrutecimento. É pena. E, pior do que isso, empobrecedor!!!...
Porto, Maio de 2003
Abaixo referi os artigos que LR publicou no Comércio do Porto em Maio de 2003. Há coisas que não envelhecem. Aqui deixo o primeiro, reflexão sobre as ligações do futebol, política e economia.
O “negócio da bola”: razão, emoção e religião
“Tu és um portista demasiado racional e por isso, nem acredito que o sejas verdadeiramente. Ser do F. C. do Porto e senti-lo, vai muito para além dessa tua lógica economicista. É algo que mexe com os afectos profundos das pessoas e tal não é passível de ser reflectido num balanço, conta de exploração ou capitalização bolsista”. Se não com estas palavras mas com este sentido, esta foi uma das muitas réplicas que ouvi nas intermináveis discussões por alturas do folhetim do Plano de Pormenor das Antas, quando eu assumia a defesa das posições da Câmara Municipal do Porto (CMP). Esta foi então acusada por muitos de cometer um autêntico crime de lesa-cidade e erigida desde logo como o inimigo público nº 1 da instituição F. C. do Porto a quem pretenderia destruir. Ironia do destino, logo no 1º campeonato com o “inimigo” aqui tão perto, o FCP acaba de se sagrar campeão de uma forma categórica e a propiciar espectáculos, aquém e além fronteiras, como há muito não se viam. Se for igual a si própria, a equipa fará o pleno na temporada e ganhará naturalmente a Taça UEFA e a Taça de Portugal. Curiosamente, nos 3 anos anteriores e com uma Câmara “amiga” (por sinal muito íntima), o FCP vinha decaindo de forma confrangedora e a tal ponto que, na última época, já se comentava à boca cheia a eminência da catástrofe-mor, a perspectiva de uma irremediável “benfiquização”. Donde se pode tirar desde já uma 1ª ilação: não é necessário qualquer apoio dos poderes públicos para que o FCP, ou qualquer outra equipa de alta competição, seja vitoriosa. Basta que se concentre e saiba ser competitiva naquilo que é o seu “core business”: jogar bem, marcar golos e ganhar jogos e troféus.
Num país normal, isto constitui uma verdade de La Palisse. Mas num país doente mental como se me afigura que é o nosso, as coisas não são assim tão lineares. Desde logo porque há que dissecar cuidadosamente não só as causas do sucesso, mas também os seus efeitos, com realce aqui para a vertente política. E no serão do último domingo já se ouviram os primeiros acordes da “sinfonia” a que iremos assistir nos próximos dias: desde a “boutade” de Rebelo de Sousa a interrogar-se sobre as hipotéticas felicitações de Rui Rio ao FCP (são ou não são transmitidas? e quando? dir-se-ia que a atribuição do título de campeão está pendente de tal mensagem...) à “enormidade” de Santana Lopes, propondo de forma irónica a intervenção de Mário Soares como pacificador entre Rio e Pinto da Costa, utilizando a sua larga experiência pessoal de reconciliação com antigos adversários (fiquei sem perceber se o País se encontra paralisado pela “guerra quente” CMP/FCP, se pela “guerra fria” entre putativos candidatos presidenciais...). Pelo meio, assistimos à manifestação de uma enorme angústia por parte dos jornalistas de vários órgãos de comunicação, verdadeiramente pesarosos pela ausência de comemorações no edifício da Câmara. Festejos de campeonato ou de taças que se prezem, terão de passar pela transformação da varanda exterior dos Paços do Concelho em “passerelle”, para o ritual obrigatório destas ocasiões: o inevitável desfile dos “donos da bola” e seus artistas, culminando pela sua recepção pelos edis que, perante uma multidão em delírio, se deverão vergar em comovida e respeitadora homenagem aos heróis de tão épicos feitos.
Todas estas questões, obviamente de extrema relevância para o País, irão agora ser discutidas até à náusea em profundíssimos e participadíssimos debates que se prolongarão até muito depois do final da época (fico sempre estupefacto pela amplitude dos temas discutidos, que preenchem tanta hora de emissão...). Os participantes são-nos familiares: os nossos conhecidos, mui eruditos e encartados “intelectuais da bola”, sempre repartidos democraticamente pelos 3 grandes e os aspirantes a tal cátedra, incluindo-se aqui uma plêiade muito diversificada que vai de autarcas e ex-autarcas (os mais assíduos) a membros do governo, passando por deputados da Nação e outros altos magistrados. Completa-se o painel geralmente com telefonemas dos ouvintes ou de tele-espectadores, a revelarem sistematicamente uma argúcia fora do comum e as inevitáveis e irritantes mensagens SMS, sempre muito sintéticas, mas riquíssimas em conteúdo...
Esta “osmose” política/futebol é muito visível e não menos risível nos camarotes VIP dos grandes jogos. É tristemente hilariante apreciar a pose beatífica dos magistrados da Nação (às vezes os mais altos, mas sempre com os autarcas em maioria), sentados à direita, à esquerda e atrás do “prelado-mor” da “catedral” em que se realiza a “cerimónia litúrgica”, num sempre compenetrado render de vassalagem a que vamos assistindo - e o objectivo é esse - de forma cada vez mais recorrente.
Terá de facto o futebol tal importância que justifique tamanho investimento em tempo (e recursos) e tanta conversa fiada? Em termos económicos é duvidoso. É uma actividade que se insere na indústria do lazer, que tem, efectivamente, um grande potencial de crescimento nas sociedades modernas. Mas o peso do segmento do futebol na indústria é reduzido, e não só em Portugal. De acordo com um estudo divulgado recentemente, o volume de negócios agregado dos clubes da 1ª liga foi, na época passada, pouco superior a 200 milhões de euros, com prejuízos que terão ultrapassado bastante os 50 milhões. O Manchester United, o maior clube do mundo e um modelo de gestão, facturou, por si só, 232 milhões de euros e alcançou um lucro de 50 milhões. Isto equivale, grosso modo, à facturação anual da cervejeira Unicer que, entre outros produtos da sua variada gama, detém a prestigiada Super Bock. Ou seja, uma só empresa portuguesa de média dimensão factura tanto como o maior clube do mundo e mais do que todos os clubes da 1ª liga. Ao contrário destes que acumulam prejuízos, gerando pobreza, aquela está num contínuo processo de inovação e de investimento, de expansão para o exterior, de criação de empregos, em suma, de criação sustentada de riqueza. Não me consta ainda que, dos largos milhões que a Unicer investe anualmente haja algum financiamento de dinheiros públicos; o mesmo não se poderá dizer do futebol, que irá ter 10 estádios megalómanos e respectivos acessos financiados maioritàriamente pelos nossos impostos. “Mas - dirão os homens do futebol - uma tal análise é extremamente limitativa; não se pode aferir o impacto de um sector na economia considerando apenas a sua facturação; há que ver os efeitos indutores a montante e a juzante”. E é verdade. Mas se compararmos os efeitos indutores da Unicer e da indústria do futebol, esta continuará a perder e perderia em comparações análogas com muitas outras empresas ou sectores. Senão vejamos e começando pelo futebol:
Ø Influencia a montante de forma significativa a indústria de equipamentos desportivos de que é um importante veículo promocional, a qual está porém dominada pelas grandes multinacionais que concentram a maioria das unidades produtivas no extremo oriente. Efeito pràticamente nulo na nossa indústria;
Ø Ainda a montante, vai a curto prazo beneficiar muito a indústria de construção civil, mas numa base não recorrente: depois de construídos os 10 (malfadados) estádios, as encomendas às construtoras restringir-se-ão a tarefas de manutenção, de valores marginais para este sector;
Ø A juzante, tem um impacto significativo na indústria do audio-visual, mas nos últimos anos isto tem-se consubstanciado numa transferência maciça de prejuízos para as cadeias de televisão, em Portugal e não só;
Ø Também a juzante, haverá a considerar as encomendas relativas à actividade de “merchandising” (ainda pouco relevante nos clubes portugueses), mas também de efeito residual na nossa indústria, dada a concentração da oferta nos países do sudeste asiático;
Ø Algum efeito haverá ainda na indústria hoteleira e de restauração e no pequeno comércio, nunca vital à sua sobrevivência, mas às vezes fatal pelo vandalismo dos “hooligans”;
Ø A montante e a juzante em simultâneo, verificam-se enormes “benefícios colaterais” numa classe ascendente, tão dinâmica quanto opaca, designada pomposamente por “empresários”, muito embora raramente se lhes conheçam as empresas, camufladas que estão em longínquos e não menos opacos centros “offshore”.
Relativamente à Unicer:
Ø Os milhões que investe anualmente fazem-na grande consumidora de bens de equipamento, fornecidos em grande parte pela indústria nacional;
Ø É provàvelmente o maior consumidor português de embalagens de vidro, abastecendo-se integralmente junto de produtores nacionais;
Ø Potencia a produção cerealífera, designadamente a de cevada, a sua principal matéria prima;
Ø Tem patenteadas em seu nome inovações no processo de fabrico de cerveja, já adoptadas pelas principais cervejeiras europeias;
Ø É um dos maiores clientes no mercado publicitário, contribuindo em grande medida para minorar o prejuízo das televisões com as transmissões televisivas de futebol;
Ø Está num processo de internacionalização das suas marcas, as quais, estando ainda muito longe no estrangeiro da notoriedade das marcas F. C. do Porto, Benfica ou Sporting, já criaram muitíssimo mais valor para o País.
“Mas a análise continua redutora – argumentarão os “teóricos da bola” – o futebol não pode ser apenas visto numa perspectiva de deve e haver; há a componente emocional, importantíssima para a sociedade, pois o futebol é a alegria do povo!” E muitas vezes a tristeza, deverá acrescentar-se!... Mas se deve ser analisado principalmente na óptica das emoções, do sentimento, dos afectos, não se vê razão para o seu materialismo prático, consubstanciado numa tão grande delapidação de recursos (em grande parte públicos) e sua transformação em lucros (muitas vezes imorais) de alguns.
Donde se poderá concluir que, muito mais do que um negócio de lazer, o futebol em Portugal lidera aquilo que poderemos designar por “indústria das emoções”. Como não é um negócio passível de ser rentabilizado em moldes racionais, tendo em atenção a total incompetência dos seus dirigentes enquanto gestores, necessita de uma completa “osmose” com o Estado para assim garantir a sua perenidade. As emoções representam aqui o dogma da fé e o futebol passou a ser a nova religião, que tudo comanda e condiciona. Qual nova teocracia do Ocidente, assistimos à completa submissão do poder temporal aos “imãs” das diferentes seitas, convencido do imenso poder destes sobre os respectivos fiéis. Qual Galileu do século XXI, Rui Rio é a voz da razão, mas só se livrará da “fogueira” mediante acto de contrição público.
A dimensão do futebol não se reflectirá integralmente num balanço e numa conta de exploração, mas o que lá falta está bem expresso no excesso de despesa pública custeada também pelos meus impostos. E se a análise para chegar a tal conclusão é pretensamente economicista e racional, a revolta que sinto é bem do foro emocional.
Porto, Maio de 2003
1. Excelentíssimo texto do Francisco, sobre o gostar da bola. Calço-o "que nem uma luva".
2. Creio que a bola autóctone é uma roubalheira pegada. O meu Futebol, a sério é sobre o não-gostar da bola: a futebolização do meu país aliada à suspeição geral. Irrita-me que algo assim tenha cada vez mais peso e eco no meu país. Peso e eco crescentes que têm efeitos sociais - distracção, distracção, distracção. E também cristalização do valor aldrabice em favor próprio ("é natural, né?"). Em marxês chamo-lhes alienação. Em sociologês produção social de valores. É isso que me irrita na adesão ao futebolês. Hoje omnipresente.
A bola tornou-se quotidiano e, portanto, (muito) produtora e ressonância dos valores comuns. Por isso quando jocosamente reproduzimos (sublinhem esta 1ª pessoa do plural, sff) os seus valores dominantes estamos a ser cúmplices dessa produção social de ícones aldrabões. Daí o meu "intrinsecamente desonestos" - pois dou-nos a dignidade de agentes, não de meras e passivas vítimas.
3. O blasfemo quasi-chuabo (vantagem) portista (desgraça) LR ripostou, elegante. Pois tinha usado o dogma bolês "roubadinho ainda sabe melhor", esse mesmo que eu vitupero. Sabe LR que não lhe estou a negar a honestidade pessoal (e mostra sabê-lo também pelo tom da troca de emails). Ainda assim considera avisado que eu retire o "intrinsecamente desonesto" ao meu post - mesmo que este não tenha ligação [link] ao seu, pois não é uma referência pessoal, a expressão/sentimento é dogma quasi-universal no mundo da lusa bola, dos tatuados arruaceiros aos educadissimos adeptos de sofá.
Ao assumir o meu texto como pessoalmente direccionado LR coloca-me numa posição algo difícil. Ou mantenho inalterável o post, podendo transpirar a minha intenção de o considerar desonesto. O que não é minha intenção, pois presumo (a 100%) que seja ele homem de bem. Ou altero o texto, o que implica retirar-lhe qualquer coerência.
Nem hesito, que se dane o textito. Aqui fica, creio radicalmente que LR não é "minimamente desonesto". Penso que não se poderia retirar isso do texto mas que não fiquem dúvidas, aqui fica em corpo explícito.
4. Além disso é gentil, enviou-me dois belos artigos sobre o futebol, que publicou em Maio de 2003 no Comércio do Porto. Desmontando-lhe a importância económica (de modo delicioso) e social. [LR, V. não quer republicar os textos? Aí no colectivo blasfemo? É que há coisas que, sendo datadas, não envelhecem. Caso não vos caiba no atarefado Blasfémias seria um prazer e uma honra colocá-los nestas hortas menos visitadas. Dar-me-á licença para tal?].
5. Num desses artigos LR escreveu: "Contudo, muito pior para o País como um todo, é o empolamento excessivo que se faz do fenómeno do futebol. Haverá hoje em Portugal milhares de cidadãos, cuja actividade intelectual se esgota na leitura do jornal desportivo e na audiência dos "pedagógicos" programas e debates desportivos que preenchem as programações radiofónicas e televisivas. Todos nós conhecemos no nosso dia-a-dia pessoas com este perfil e podemos facilmente aferir como a obsessão monotemática as limita na sua evolução, na capacidade de aprendizagem, no seu desenvolvimento...A nossa classe política opta pelo embrutecimento. É pena. E, pior do que isso, empobrecedor!!!...."
Estamos em total sintonia. O que eu acrescento, não resisto a voltar ao tema, é que a produção deste "interesse monotemático" é, hoje em dia, também produção de valores aldrabões. E que quando com eles pactuamos estamos a ser agentes dessa produção social de valores. Ao sorrirmos às imagens do tipo a atirar-se para a área estamos, de certo modo, a produzir semi-cidadãos que se atiram para a área nos outros domínios da vida. Somos agentes corruptores, somos cúmplices, colaboracionistas. Não o seríamos se a bola fosse só bola. Mas ela está em todo o lado. E portanto mudou o contexto do relacionamento com esse mundo e seus dogmas.
Assim sendo somos, ainda que distraídos, semi-cidadãos. Esse o sentido, que presumi claro, do meu "intrinsecamente desonestos".
6. LR, que se lixe o tal poker, onde não sou grande artista para mal dos meus trocados. Mas espero partilhar os tais lagostins ou caranguejos, conforme o continente.
Pois soa o aviso, António Jacinto Pascoal (afinal também fotobloguista) , imparável, dá mais pistas sobre o poeta Vilanova. O texto revisto e aumentado está aqui, no sempre recomendável Universos Desfeitos. A acompanhar.
Um obrigado ao Aulil pelo sino anunciador.
que o Nuno ou o Francisco têm tempo para alinhavar dois ou três parágrafos, para explicar a algumas pessoas o que é isso de cabala?
Faz favor, se possível. Mas têm que ser muito muito resumidos, e fáceis...e fáceis. Senão não servem.
Eu, e Portugal, agradeceríamos.
Tenho a caixa de emails cheia, Fws de escrutinadores, não há assalto que se lhes escape, verdadeiras repórteres do crime, aliás, do social, quasi-profissionais de jornais mais tablóides. Tenho que sair, vou meter segurança electrónica em casa, família oblige.
Não, não vale a pena fazer de veterano e dizer que antes de todas as eleições o clima é este. É que estes Fws são como aparelhos de ar condicionado, fazem clima.
Enquanto procuro a morada dessas empresas de segurança vou estranhando que todos esses assaltos escrutinados tenham sido a estrangeiros. Espantoso país. Ou espantosos escrutinadores. Que o mundo se lhes acaba na cor.
Hoje sou expatriado. Amanhã regressará o emigrante.
claro, ia sem a máquina. Domingo fim de tarde, primeiro dia de campanha, Julius Nyerere fora, mesmo mesmo à frente da Presidência uma bem velha carrinha de caixa aberta, nem machibombo se dizia, no regresso da Costa do Sol ali esforçadamente empurrada por uns vinte tipos ou até mais. Era a caravana da Renamo, diziam-no as perdizes dos cartazes e bandeiras, as vestes do grupo.
Imagem polissémica, essa a que falhei. Ou apenas avaria.
Só para visitantes portugueses, sff, recuperação de Guerra Junqueiro, lembrada pelo Portugalidades.
É no Babugem que sei, da sua morte - sei-o assim pela net, mas uma net especial, pessoalizada neste belo, e certeiro, "Saudade das Mornas Futuras" que o R. Gross dedica à Voz.
E lembro-me de ver/ouvir Ildo Lobo num espectáculo de Tubarões no Coliseu dos Recreios (velho) de Lisboa há para aí uns vinte anos, ou talvez mesmo mais. E de protestar "este gajo é tão bom como o Sinatra" - comparação inútil apenas a expressar o meu espanto de então. Um monstro, ele sim. Hoje dançar-se-á bem, lá no futuro.
Emigrante na terrinha, ao 2º dia casório. Quinta dos Azulejos, ali à estrada da Luz. Ao lado a igreja, como quase sempre horrível estatuária e belos azulejos, é a longa missa quem mo diz. Mas a Carolina álibi para o cá fora. Muitas crianças álibis, diga-se.
Tinham-me requerido o fraque. Apresento-me de fato, vá lá, que o possível charme se requer discreto, vou murmurando. É a segunda vez que a Carolina me vê engravatado. Ao meu colo agarra-me o trapo, abana-o e, olhos brilhantes, ri-se, largo. Dele, e já de mim, está a crescer... Como negar o ridículo se ele surge aos olhos de uma criança que ainda só balbucia?
E assim me lembro de um outro belo casamento, já tão antigo, eu então de padrinho do amigo Pacheco, a rapaziada muita apenas toda fardada, a velhada apenas também, e Assis Pacheco superlativo de camisa colorida. De longe o mais bem vestido. E o mais asseado, indiscutivelmente.
Ao jantar, entre as 200 pessoas, hei-de-me reparar emigrante desactualizado. Pois nestes anos os nós das gravatas alargaram e muito. Agora todos os homens se apresentam com um babete ao pescoço, eu de longe com o mais piquinino nó em pista. Moda, claro está, vou pensando, enquanto alargo o colarinho que me aperta a papada. E ainda hei-de resmungar "estes gajos pensam nestas merdas?", que "bijagós!" culmino, lusocinéfilo.
Noivos a acabar os vintes, idem para os amigos e amigas. Se os rapazes se acinzentam, ainda inexperientes no que julgam aprumo, já as moçoilas se apresentam frescas, bonitas, no vistoso bem vestido, alegres elegantes. À mesa da nossa geração nisso concordamos e temos a anuência das nossas mulheres. Diga-se que estas também não estão nada mal, nada mesmo. E muito melhor que alguns de nós, o que não será nada difícil, veja-se o meu espelho.
Súbito a Carolina, plantada no meu colo, aponta outra mesa e diz-nos, insistentemente, solidária no susto, "dói-dói!", "dói-dói!", "dói-dói!". Nem percebo à primeira meia dúzia de exclamações mas finalmente todos compreendemos, está-nos a apontar uma bela beldade, o ombro desnudado e, na continuação, as costas abandonando-nos uma vistosa tatuagem.
Rio-me, sem lhe negar a preocupação, "pois é, querida, pois é!". Pois como negar o ridículo se ele se entreabre aos olhos de uma criança que ainda só balbucia?
É que, afinal, tanto estilo e pose, uma burguesota com tão cuidada produção, e tudo isso para mimar uma puta de piratas, a sífilis do Caribe? Que coisa.

Imperativo ver a exposição individual de Peter Magubane na Associação Moçambicana de Fotografia, integrada na PhotoFesta.
Ainda que eu preferisse vê-la apenas como AnaNdebele, sem as pobres reproduções das fotos políticas. Que retiram coerência à exposição. E que surgem como se cartão de visita de quem não precisa de tal.
é visitante do Ma-Schamba que, em cúmulo de simpatia, já por três vezes ofereceu textos para inclusão. A simpatia ainda é mais simpática pois não nos conhecemos, nem tão pouco havia esse virtual conhecimento prévio, o infodiálogo.
Agora o Aulil, atento perspicaz, desvenda um pouco desta (também) literária personagem. A consultar, enquanto não chegam mais textos.
Chego hirsuto, algum olhar conjugal impele-me à tosquia.
Véspera de casório, lá por onde nos aboletámos percorro dois ou três cabeleireiros, esses recantos andróginos que transformaram o simples cortar o cabelo num acto de resistência política. Lá entro, feito colaboracionista, de imaginário chapéu nas mãos para logo ser expulso, qual ralé na pedinchice. Finalmente, aleluia, dou com um velho e raro salão de barbearia, coisa digna de antanho, velhote de bata branca, dois outros velhos só na companhia, o jornal a Bola, o Record e um qualquer sucedâneo do Correio da Manhã, Acqua Velva no ar, creme Palmolive, o império da caspa, a navalha presumida. A liberdade. Avanço-lhe para a cadeira, enquanto lhe digo, sorriso estampado, na felicidade do alívio, "é para aparar a barba!".
O "barbeiro" abre-me os olhos e, até destilando alguma piedade, condena-me "não fazemos esse serviço". Estanco ali no meio da pequena sala, petrificado da surpresa. Para logo me retirar, envergonhado de mim mesmo, disfarçando-me como quem não quer a coisa em "então bom dia" repetidos, um para um do trio de velhos.
Até lá fora, onde no ar livre me livro do rubor, agora tornado num "foda-se, isto está um país andrógino". Melhor dizendo, um país glabro.
a blogar está a Passada, descobri agora a presumível (aka, minha) patrícia. Bem-vinda, boas teclas.
[é um post para levar porrada]
Há alguns meses, durante o Europeu de futebol, e enquanto aqui me divertia a gozar com o misticismo que tinha afogado o meu país (com a espantosa prestação totémica da mulher do PR, esse que se quer instituição simbólica mas, República exigiria, acima de tudo instância racionalizadora), verborrei: "O Futebol não é importante, não estrutura o futuro, não ensina o passado, não desvenda o presente. Mas a este alegra-o (ou entristece-o)."
Com isto não nego (como poderia?) o meu sportinguismo doentio. Nem as palpitações até assustadoras no Portugal-Inglaterra, que me ia dando o badagaio.
Vem isto a propósito dos gemidos que atravessam Gibraltar e sobrevoam toda a África (download mp3 p.ex. aqui). Vem isto a propósito de eu considerar que o futebol português é tipo o boxe dos filmes lá dos 30s-50s, um jogo tantas vezes combinado.
Para mim roubar ao jogo é igual, seja qual for ele. Um tipo que se delicia com a roubalheira em seu favor ou do seu clube é exactamente igual ao tipo que faz batota a uma mesa de cartas. O tipo do "roubadinho ainda sabe melhor" na bola é o tipo com o qual me recuso a sentar para um poker (a muito pouco mais que feijões). É um tipo intrinsecamente desonesto, mesmo que pantomine que a bola é um departamento à parte na vida (e um joguito de cartas entre amigos ou conhecidos não o será também?). Dantes dir-se-ia que "não é um cavalheiro", hoje resume-se a um "não é confiável" (passe o anglicismo).
E não se arvore a diferença entre o agente corrupto e o mero espectador. É a corrompida cumplicidade deste último que corrompe os agentes da bola, nunca esquecer.
Seja, esses milhões de gajos e dezenas de bloguistas, por ora em pranto diante do roubo protestado, são os mesmos (ou quase todos, honra máxima às excepções) que se alegraram o ano passado com o segundo lugar benfiquista. Que há pouco torceram contra o Anderlecht, uma indignidade aceitarem estar presentes nessa competição. Que sorriram, satisfeitos primeiro, exultantes meses depois, com o que se viu na época passada no Moreirense-Sporting, no Marítimo-Sporting, no Boavista-Sporting.
Disse há meses, repito, que "o futebol...não desvenda o presente". Estava errado. O futebol, que não é um departamento à parte na ética das pessoas, desvenda o meu país. De adeptos da aldrabice, desde que em proveito próprio. De adeptos aldrabrões. De indivíduos assim. De gente assim.
Sou eu diferente? Vou ser juíz em ética própria? Talvez não, talvez não. Mas ainda assim com gente desta não me sento à mesa de jogo. Ainda que também português.
Todos os dias os motores de busca nos trazem gente com as preocupações mais distintas, estranhas quantas vezes, cómicas até, descabeladas mesmo. E é tendência geral dos bloguistas aqui e ali ecoarem algumas delas, quase medalhas ao blog.
Hoje acabo de receber alguém que vinha à procura de "frases bonitas carinho jpg". Uma delícia, o Ma-Schamba agradece. Rejuvenescido. Ilibado até.
Pequenas notas sobre pequenas férias, um ano depois em Portugal.
***
Cartaz (já velho e desbotado) afixado nos tapumes das obras do Marquês de Pombal:
LISBOA, CAPITAL DO ROCK E DO FUTEBOL
Ok.
Face a esses movimentos que querem refazer a história e retomar Olivença não deixo de sorrir. Que raio, são uns patuscos. Com toda a legitimidade, mas patuscos. E a minha simpatia vem também de me fazerem lembrar a mais que juventude, quando Olivença era símbolo da Aliança Operário-Camponesa (AOC) - qual seria a razão? -, essa inventora de uma espantosa peça de agit-prop "cada deputado eleito pela AOC será uma espinha na garganta de Cunhal". E lembra-me ainda o grande Primeiro-Ministro Pinheiro de Azevedo, um homem idiossincrásico mas que tinha a coragem física de, em plena jacquerie, mandar à merda os hooligans circundantes.
Enfim, uma geneologia de patuscos, a rapaziada do pro-Olivença.
Que haja censura, que a polícia lhes arranque os cartazes seja lá porque razão seja, como narra o Blasfémias, é gravissimo. Nada patusco.
Um país Portugal que andou no Aqui d'el-rei, no Ó da Guarda, por causa da recente zanga de cortesãos, que tanto gemeu a censura da vichyssoise, que tanto bramiu a influência do governo sobre o "pérfido" grande capital, agora cala-se diante de um explícito (aqui não há silêncios nem explicações a dar, é claro como água cristalina), e decerto ilegal, acto de censura realizado pelas instituições policiais? Decerto sob instruções do poder central?
A polícia do meu país a arrancar cartazes? Onde está o PR, garante constitucional? A que horas irá fazer a comunicação ao país? Para que eu sintonize a RTP-África. Que esta não é hora para o seu silêncio. Se nele se mantiver, "que isto anda mal" como confidencia, será não só cúmplice mas também agente de censura.
Bote faladura homem, pronuncie-se Sua Excelência, é o que este seu bi-eleitor reclama. Exige. Mesmo que de forma elíptica diga lá que assim não.
Pois esta censura explicitamente realizada pelas instituições estatais, pelas "forças da ordem", é INCOMPARAVELMENTE mais grave do que o Caso Vichyssoise. Pela importância dos censurados? Sim, tão cidadãos como o professor. Mas acima de tudo pelo que demonstra da degenerescência do sistema democrático. E da sua inteligência, porque censurar esta patusca questão não cabe na cabeça de ninguém.
E, sem fundamentalismos, é esta imbecilidade institucional que mais custa.
Domingo à noite, da estante retiro o "A Civilização Latina. Dos Tempos Antigos ao Mundo Moderno" [Georges Duby (coord.), D. Quixote, 1989]. Por lá um artigo de Umberto Eco, "As linhas e o labirinto: as estruturas do pensamento latino". Começa assim:
"Est modus in rebus: sunt certi denique fines
Quos ultra citraque nequit consistere recto
Estes versos de Horácio poderiam ser considerados um epítome do modus cogitandi latino."
Mas os versos não são traduzidos, tal como todo o restante latim citado ou utilizado no artigo. E, peço desculpa, não leio latim. Certo, capta-se o argumento no texto mas perde-se o (tal) epítome. Há por aí algum latinista que me dê uma ajuda?
Ao deficit de compreensão somo-lhe a inquietação noite fora, o "qualquer coisa" que me ficou em falta. E fica-me ainda a irritação com esta (até comum) estratégia de distinção, tradutores afirmando-se sábios ao não traduzirem expressões citadas ou conceitos utilizados, dando-lhes estatuto de senso comum - como se o futuro leitor tenha obrigações (poliglotas) para entrar no distinto e reservado clube dos leitores dessa editora, no clube de clientes dessa editora. Sim "porque nós trabalhamos para gente especial, o nosso público-alvo é elite".
Uma mísera estratégia de distinção que mais não é do que defeito de tradução, revisão e [maísculas] edição. Um tique de afirmação social, arrivismo sociológico presente em gentes académicas, tão comum na sua linguagem oral, recorrente na escrita, mas imperdoável na edição.
E valerá a pena protestar? Escrever ao editor? Pois um livro editado em 1989 ainda é protestável? Não é já passado longínquo, o protesto então um anacronismo? Eis como um detalhe me levanta a questão crucial, quando começa o presente?
E valerá a pena protestar? Não cairá em saco roto? Há meses aqui comprei um livrito de I. Wallerstein, "O Albatroz Racista" (Afrontamento/Centro de Estudos Sociais da U.C.) [o livro é o texto de uma conferência]. E lá estava o mesmo (recorrente) tique. Neste caso os conceitos ou títulos em alemão (ui, que signo de prestígio, o alemão é tão fino) não são traduzidos. Ou são explicados no texto pelo próprio autor [ex. "das andere Osterreich, essa outra Áustria" (6)] ou assim ficam [ex. "Paul Lazarsfeld, cuja obra Die Arbeitslosen von Marienthal..."(6), "deste Methodenstreit" (28), "a história wie es eigentlich gewesen ist" (28)]. Ok, os iniciados reconhecem ou compreendem - mas porquê tanta relutância numa mera nota de rodapé, feita tradução/contextualização?
Neste último caso enviei um mail, educada crítica à tradução. Nem um "reply" a acusar. Nem um "vá bugiar" ou "fuck you" (perdão, não sei construir sobre "futere" - é o termo correcto? - nem conheço o equivalente em alemão ou em outro qualquer sânscrito de sábio). Não sou eu um cliente quando compro um livro? Ou é com a livraria que devo ir ter, protestando a qualidade das traduções?
ADENDA: A Laurindinha do Abrigo da Pastora aprestou-se a resolver-me a dúvida (em baixo, nos comentários).
"Em todas as coisas há um meio termo; existem, afinal, limites definidos, além ou aquém dos quais não se pode manter o bem."
Os meus mais que agradecimentos. Sinto-me um ibero feito cidadão. Um vero Flávio.
Há meses deixei pequena nota sobre este vinho.
Encontro agora a mesma atenção no Expresso:

(fotografia de Rui Ochôa)
Mas para que seja uma atenção atenta conviria ler "O Vinho para o Preto" de José Capela (Afrontamento). Ou de como a exportação da zurrapa foi um eixo fundamental do estabelecimento colonial. E das políticas que implicou. E seus efeitos.
Porque sem isso apenas fica o sorriso. Triste.
A campanha oficial começa hoje. Na noite de Maputo grupos de coladores de cartazes, alguns mesmo festivos. Trouxe ofertas para a minha colecção.

[reprodução da capa do programa, fotografia de Kok Nam]
A 2ª edição da PhotoFesta. Que se tornou no maior acontecimento cultural em Moçambique. Uma organização independente, a dita "sociedade civil", brotada da Associação Moçambicana de Fotografia. Exemplar.
Abaixo segue o programa, as actividades de um mês inteiro.








No As Visitas do Dr. Valdez coloquei em adenda texto e entrevista que entretanto saíram no suplemento Mil Folhas.
Adenda à Adenda: E aqui transcrevo (para não inchar o post anterior) nota sobre o livro, publicado no suplemento Actual do jornal Expresso.
Memórias do futuro
Expresso, 17.10.04
DÓRIS GRAÇA DIAS
Uma obra onde as premonições são do género feminino
A História ensina-nos que não há colonialismos gloriosos. E os aspectos culturais da História fixam as épocas coloniais num tempo em que o mundo exterior era eminentemente masculino. A palavra colono não tem género, mas a vogal final, aparentemente, exclui as mulheres das acções que construíram aquele universo. Não que estivessem ausentes do mesmo, mas porque se apresentam como figuras secundárias reduzidas ao espaço dos ambientes domésticos. Colonialismo, na sua acepção lata, enquanto controlo repressivo de um povo por outro, é nos homens que tem os protagonistas activos. Ocuparam, mandaram, decidiram, definiram, exploraram, destrataram, castigaram, «educaram», e as mulheres, as esposas, as companheiras estavam ali, ao lado, observando passivamente estas práticas e beneficiando do «respeito» conquistado. Quando os maridos fogem ou morrem e elas se vêem sozinhas, o «respeito» conquistado mantém-se e a vida, ainda que mais solitária, pode prosseguir em ambiente colonial propício. É num cenário como este que as duas figuras femininas de As Visitas do Dr. Valdez se movem, acompanhadas pelo respectivo mainato (criado) herdado, o qual servirá para manter a memória de um tempo em que as presenças masculinas configuravam um qualquer conceito colonial. Ainda que minado por uma ideia de superioridade-inferioridade, este trio espelha a possibilidade de estabelecer laços afectivos para lá da distinção de raças e posições de força.
Estas duas mulheres e o seu criado - elementos frágeis de um sistema em fase de desconstrução - são a metáfora da morte lenta, mas inevitável, do universo colonial. Entretanto, chegados os reflexos de revoluções distantes que condicionam novas realidades nacionais, a natureza desbasta as existências e as duas mulheres passam a uma (e o seu criado).
Há franjas de miscigenação que circunstâncias económicas e emocionais conformam às novas Repúblicas/Estados, e que o tempo do mundo assimila e sedimenta. Outras, nem a memória já as justifica. Regressa-se de onde se partiu, derrotado, como se nada tivesse valido a pena, personagem dispensável para o decurso do mundo, das épocas e da inevitabilidade da História.
As Visitas do Dr. Valdez
de João Paulo Borges Coelho
Caminho, 2004, 222 págs., €12,60
O visitante António Jacinto Pascoal renovou a sua simpatia e ofertou ao Ma-Schamba a publicação em primeira mão deste seu texto (literário-detectivesco) sobre o poeta João Maria Vilanova, de quem a Caminho acaba de publicar o livro Poesia. Como desconheço em absoluto a literária personagem, cuja "vera identidade" é aqui revelada, todo este enigma ainda mais me agrada.

A vida verdadeira de João-Maria Vilanova
João-Maria Vilanova é o pseudónimo de um presumível escritor angolano, de identidade desconhecida, ou, nalguns casos, identificada com João Guilherme Fernandes de Freitas, personalidade inexistente, que serve apenas para despistar os incautos e avolumar o mito. Alguns autores já procuraram esclarecer o mistério, advogando tratar-se de Luandino Vieira (texto de Mateus Makunda, no Jornal África, 1988-10-19) e Pepetela (texto de Pires Laranjeira, Colóquio Letras, 1993), ou ambos (texto de Pires Laranjeira, Ensaios Afroliterários, Novo Imbondeiro, 2001). Acontece que de Mateus Makunda nada se sabe e o mais certo é tratar-se de alguém que pretende alimentar o mito. Também Jorge Macedo se referiu a João-Maria Vilanova, num texto entre o pseudo-ensaio e a circunstanciada observação de alguém que com ele privou (há alusões ao skoda em que ambos viajaram por Luanda).
Ora, quando alguém quer manter um mito, tem várias hipóteses: tornar-se invisível, mascarando-se por detrás de nomes falsos que avolumem as histórias em redor da personalidade; tornar-se visível, mas mantendo um discurso crítico neutral ou distanciado sobre a figura em questão; tornar-se visível e «próximo» da personagem em questão, enveredando por uma estratégia investigadora que pode resultar na assunção do anonimato daquela personagem (da qual se distancia) e no aventar de hipóteses (pistas falsas) que a configurem dotada de personalidade, sob qualquer forma de pacto do tipo «eu digo que és tu e tu não dizes nada, porque somos amigos, e se for necessário retribuo-te com encómios literários»; mas pode também fiar-se em dois ou três amigos a quem confia a preservação da mistificação do nome literário.
Na edição recente da Editorial Caminho, sob o título Poesia, João-Maria Vilanova (JMV) publica os dois livros da sua produção, sabendo-se que ambos (Vinte Canções para Ximinha, 1971; Caderno de um Guerrilheiro, 1974) eram já do domínio público, aquando da sua publicação em Angola. Mas o que interessa, para além do texto, é o contexto e o para-texto. Dois outros nomes se inscrevem neste livro de JMV: A. Vidigal e Pires Laranjeira. Do primeiro facilmente se depreende tratar-se de pseudo-nome forjado para enformar o mito (tratar-se-á do próprio Pires Laranjeira ou de JMV, ou de alguém por ele, e note-se que o discurso de Vidigal decalca expressões de Laranjeira: «linguagem contida, sincopada, vigiada»; «discurso contido, subtil, alusivamente vigiado»; e notar o lexema «vigiado», presente em outros lugares críticos do homem por trás de JMV). Do segundo há a dizer o seguinte: induz-nos em erro, ao repetir excessivamente as possibilidades identitárias de Vilanova: Luandino (repare-se que Fernanda Cavacas e Aldónio Gomes vão no engodo, referindo que é atribuído a Luandino o pseudónimo João-Maria Vilanova), Pepetela. Como não há quem venha perturbar as águas calmas do lodo, mantém-se o logro e deixam-se as hostes tranquilas.
Confesso que me deixei arrastar pela possibilidade de o próprio Pires Laranjeira (que viveu em Angola) ter sido o autor de tão digna forja literária, até porque quem escreve, entre outras coisas, Figuras de Estilo e outras Figuras é bem capaz de burilar a palavra até níveis minimalistas, muito próximos da síntese do haiku japonês, do aforismo universalista e das formas proverbiais; depois seria também necessário recriar uma linguagem sincopada, entrecortada, em que se decompõem os versos ou se processa a cesuras das palavras que permitem o enjambement. O que Pires Laranjeira não parece dominar tão bem é o umbundo e o kimbundo, línguas que banham o território estético de Vilanova. A palavra lancetada e ambígua são os grandes trunfos de Vilanova, algo que só discortinamos nas poéticas de Corsino Fortes (Cabo Verde), Jofre Rocha (mais dificilmente), Arnaldo Santos (quase impensável), Jorge Macedo, algum Arlindo Barbeitos e David Mestre, e, mais recentemente, Lopito Feijoó. Porém, Vilanova parece atirar-nos para as mãos poéticas de um pretenso Luandino em versão lírica, tantas são as referências à sua obra [vejam-se as alusões a personagens presentes em A cidade e a infância (Joana Maluca), «Estória da Galinha e do ovo» de Luuanda (Zefa e Beto)], inclusicamente a possibilidade de ter criado o pseudónimo a partir do conto «O exemplo de Job Hamukuaja», de Luandino, cujas personagens centrais são Mário João (branco) e Job Hamukuaja (negro). Mário João permitiria a troca: João Maria. Vilanova viria do nome do livro em que está integrado o conto: Vidas Novas. Além disso, Job está ligado ao topónimo Terra-Nova (veja-se também o poema Job e «as manhãs de cacimbo» intertextuais). Mas isto são conjecturas que não é possível por enquanto provar. Interessa ainda referir que Vilanova recorre frequentemente ao lexema Tarrafal (bem como a formas sintácticas de Luandino), como se a todo o custo quisesse escudar-se na figura de Luandino Vieira, seu maior expoente intertextual. Isso permite-nos, como é óbvio, colocar de lado tão insistente figura. Convém adicionar as dicas falsas que Vilanova implica: Manuel Rui, Corsino, Craveirinha, António Jacinto, Mutimati Barnabé João (António Quadros) e Viriato da Cruz: tudo formas e temas ao serviço de uma estratégia de despistagem, que o próprio intertexto encerra. Aliás, esta edição da Caminho resulta de um plano concertado entre dois homens, pelo menos: Pires Laranjeira e Vilanova. Mas depois há os imponderáveis ocasionais: o prémio que não quis receber, os livros que não resgatou, e os artigos que escreveu numa revista angolana, Ngoma, que (helas!) «não passou do primeiro número».
O que causa espanto é apurar que Luís de Miranda Rocha, Fernando J.B. Martinho, Francisco Soares, Ana Mafalda Leite, Ana Maria Mão-de-Ferro Martinho, Manuel Ferreira (?), Xosé Lois Garcia, Eugénio Lisboa (?) e outros ainda mais ingénuos deixaram escapar, mesmo nas barbas, pormenores tão simples como: a) «quem escreveu sobre Vilanova?»; b) «de quem escreveu Vilanova?»; e c) «que personalidade é comum a a) e b)?». Muito simplesmente se percebe que toda a crítica como postura judicativa é relativa e falível, cabendo enxotar os paternalismos («A paternal mão» do napalm neocolonialista), e permitir condições a que os angolanos sejam os seus próprios críticos, em vez de estarem entregues às pachouvadas paroquiais passadas entre Coimbra e Lisboa.
Porque juntei a) mais b), cheguei a Vilanova (também aconselho a leitura atenta da «canção do sape-sape». Hoje sei que nasceu em Arronches (concelho de Portalegre), quase em 1950, onde tem uma casa retirada da vila, seu verdadeiro nome é Manuel Maria Caetano, foi correspondente epistolar do poeta indiano de Moçambique Jall Hussein, trabalhou para a empresa Cuca-gado onde misturava a saliva à cerveja, foi actor de cinema (muitas vezes) e diseur, além de negociar na venda de livros a brancos. Teve um cancro no pulmão, quis dizer país em vez de Paris, teve aulas de canto, negociou em relógios e aprendeu Braille numa escola de Luanda. Foi também premiado com o prémio «Fillipe Guimarães», pelo livro Uma tribo de Tansos. Recebi, desde há uns tempos, imensa correspondência em sobrescritos lacrados que ele me enviava de uma escola primária onde trabalhou e onde não havia sequer dinheiro para escrever no quadro. Da última vez que me escreveu disse-me que queria repartir um pingo de café comigo, na sua casa de Arronches, porque achava que «Pascoal não dorme». Dias depois, visitei-o e entregou-me o seu mais recente poema, que passo a divulgar, como ele também assim quis. É que nem tudo é o que parece:
CANÇÃO-FALA NA ARDÓSIA
para Jorge Macedo, Lopito Feijoó e A.J.P.
Mestre da (dis)simula
acção
eis que a
teia
na palma da mão os (re)teve
frente aos antolhos
no mento deles na palma
a folha quando dorme
eu vi ser o corpo bífido
então ele
que
resmunga
entre a Intifada
e a estrela de David
mester do sexo na puíta
o som do gar
galo de duas cabaças
meu corpo
e voz
suspensos
no arimbo ou na dikangalakata
não mais gado calado
perfil
ado dos dois
lados
António Jacinto Pascoal
Monforte, 13 de Outubro de 2004
sobre o líder comunista Ernesto Guevara o sempre excelente Aulil apresenta peça da sua iconologia, esta de origem cabo-verdiana.
A este propósito, e não me querendo eternizar nesta minha irritação com a persistência acrítica deste nó de imaginário, recupero as palavras do Machado da Graça. Como ele afirma nesta matéria a minha distinção deve ser de geração. Para mim o símbolo de uma atitude no mundo é mais Corto Maltese.
Não me alongarei mais no assunto, o desprezo pelas t-shirts estampadas não me levará a mais (ainda no domingo era uma menina de três anos, brincando com a Carolina, que horror). Que passeiem as trombas (bonitas, concedo) de um lider comunista, que ensinem as belezas de um adepto dos fuzilamentos, que adorem um autor de uma ditadura infecta e inspirador de algumas outras, que rezem e cantem um exportador de revoluções indesejadas. E que sigam o exemplo de quem não percebia os locais e os homens que exigia mudar (não é um problema de método, Machado, é um problema de conceptualização) . E que atravessou este mundo carregado das suas certezas. Façam isso. E vistam as criancinhas. Os adolescentes tardios.
Eu, quando me der a angústia, vou ler o Corto (que também morreu abatido, e neste caso pelos fascistas explícitos). Ou o Blueberry, que tem a desvantagem de ser imortal.
À laia de adenda: nunca gostei de roupa com informação. Publicitária ou outra. Vá lá, um crocodilo Lacoste acompanhou a minha juventude. E um pequenissimo trapo vermelho acampou no meu rabo, nomeando as calças de ganga. E ainda lá está. Prova que não sou fundamentalista.
No Aviz ecos de uma decisão de uma escola de Colares proibir a mini-saia às suas alunas. E de como isso é anti-constitucional, nas palavras de Jorge Bacelar Gouveia (excelente jurista e com larga experiência moçambicana, já agora, sem que aqui haja causa-efeito claro está).
Se assim o diz Bacelar Gouveia não serei eu a atrever-me a negá-lo.
Mas isso levanta-me uma questão. Poder-se-á estipular algum regulamento quanto a vestes e adornos no interior das escolas, ou noutro sítio qualquer?
Isto lembra-me um episódio. Há anos, numa aula em que participei como professor, uma jovem aluna abriu a boca para uma qualquer afirmação que não recordo. Mas logo percebi um piercing bem plantado no centro da língua.
Irritei-me (odeio todos os piercings que não sejam brincos. Abomino ainda mais os seus portadores. Preconceito meu? Sim, mas não maior do que o dos imbecis que escarafuncham o corpo apenas pelo preconceito de fazer como outros o fazem)!
E disse-lho. Que não admitia tal coisa numa aula em que fosse eu o professor. A jovem rapariga nem percebeu a razão de tamanha irritação. Tive que lho explicar, coitadinha. Disse-lhe explicitamente que não admitia que viesse para as aulas com artefactos eróticos. Abriu os olhos (surpresa?), foi-se embora. Daí até ao fim do ano nunca mais se lhe viu tal adorno, nunca mais deu a entender que me abocanharia a glande.
Fui inconstitucional? Talvez. Mas fui professor, comigo aprendeu alguma coisa. Pelo menos isso.
Machado da Graça enviou o seu "contraditório" (como agora se diz) às minhas opiniões muito pouco positivas sobre Ernesto Guevara, sublinhadas pela irritação face a tantas t-shirts e quejandas estampadas com o ícone.
Aqui o deixo, cumprindo a obrigação, que o Ma-Schamba é blog democrático, ainda que por vezes mal-disposto e azedo. E também porque corrompido por esses "os frescos anos" com que o Machado me brinda...
O Ernesto
Machado da Graça
12 Outubro 2004
Há dias, no teu blog, desancaste violentamente o Ernesto. Chamaste-lhe tudo, de sanguinário para diante. Li e resolvi deixar passar. Os teus frescos anos não dão para compreender o que ele significou para a minha geração.
Dias depois uma dessas recolhas de efemérides lembrou-me que fazia não sei quantos anos que ele disse a um soldado meio aterrorizado: “Coragem, dispara, vais matar um homem”. Coisa que o soldadito fez, disparando-lhe uma rajada de metralhadora para cima. Isto numa pequena escola, atrás do sol posto, na Bolívia.
A decisão de lhe dispararem aquela rajada parece ter sido tomada muito mais a norte, provavelmente num gabinete alcatifado na sede da CIA. E veio, pelos canais hierarquicos do costume: CIA – Generais no poder na Bolívia – militares nas montanhas.
Aparentemente havia quem o quisesse manter vivo para ser julgado, mas a CIA não foi nisso. O Ernesto vivo continuaria a ser sempre uma dor de cabeça.
Era o tempo da guerra do Vietnam. Centenas de milhares de soldados americanos andavam atascados até aos tomates nos arrozais a levar tiros que vinham não se sabia bem de onde. E voltavam à América, limpos e bem fardados, em bonitas caixas de madeira cobertas por uma bandeira. E como se gastou madeira para fazer essas caixas naqueles anos...
E o Ernesto queria fazer dois, três, muitos Vietnams. Queria espalhar Vietnams por todo o lado, para multiplicar as caixas cobertas de bandeiras.
Sanguinário, portanto? Sim, como todos os militares. E ele, desde a Sierra Maestra tinha passado a ser um militar. Subiu para lá como médico mas um dia, no meio de um combate, teve que escolher entre salvar o saco dos medicamentos ou uma caixa de munições. E escolheu salvar as munições. Foi uma opção que continuou até à morte.
Mas é preciso pensarmos que há dois principais tipos de militares: os que são militares porque a isso são obrigados (serviços militares obrigatórios e quejandos) e os que o são por escolha própria. E, nestes últimos, os que o são seja qual for a guerra e os que só o são se estiverem de acordo com a guerra a travar.
E o Ernesto, é claro, era destes últimos. Era ele quem escolhia a guerra. Não era apanhado, desprevenido, no meio dela.
Escolheu ir para Cuba quando ele, argentino viajante, conheceu o Fidel no México. Escolheu vir para África para tentar pôr em prática a Teoria do Foco no Congo. Escolheu ir para a Bolívia pela mesma razão, julgando que conseguiria comunicar melhor com os sul-americanos do que com os africanos.
Mas porquê essa vontade permanente de fazer a guerra?
Porque o Ernesto verificou, em Cuba, que uns tiros dados no momento certo podem mudar um país de bordel dos americanos para qualquer coisa de decente. E de bordeis identicos estavam a África e a América Latina cheias. E não eram coisas que se mudassem com boas palavras e agitar de raminhos de oliveira.
Em África não foi o objectivo que esteve errado. Foi o método. Muito provavelmente na Bolívia também.
Agora que os regimes da altura só sairiam à porrada veio a comprovar-se pelas inúmeras gravuras juntas. Não foi porque um achasse que era necessária a guerra e outro não que o Ernesto e o Mondlane discordaram. Foi porque um queria fazer o foco no Congo, ganhar o controlo do país e espalhar a revolução pelos vizinhos e o outro queria fazer a guerra apenas no seu país, onde era mais fácil mobilizar os combatentes para uma guerra que lhes daria frutos imediatos.
`
De qualquer forma o Ernesto aparecia como o pequeno David que enfrentava, quase com as mãos nuas, o Golias americano, imponente e opressor.
Com as mãos nuas e limpas, porque podendo ter ficado no governo de Cuba a beneficiar das mordomias próprias dos cargos governamentais, preferiu voltar para o mato a arriscar o pêlo pelas coisas em que acreditava.
Por cima de tudo isso teve a sorte de ser fotogénico e ter encontrado fotógrafos que o imortalizaram (mesmo depois de morto, como bem notaste).
É por isto tudo que não concordo com a descrição que publicaste dele.
Talvez o Ernesto tivesse em si um pouco do D. Quichote, arremetendo, de Kalash em riste, contra os B 52.
Mas, que diabo, o D. Quichote continua a entusiasmar gente ao fim deste tempo todo.
E espero que o Ernesto também continue. Apesar de tudo continuo a achar que é preciso dizer aos jovens que devem lutar por aquilo em que acreditam em vez de fazer uma vida acomodadinha de discoteca e campo de futebol.
E o Ernesto continua a ser um modelo muito aceitável, na minha modesta opinião.
"Ao acabar o SMO, resta aos cidadãos um único sacrifício para com a comunidade: pagar os impostos...
A ideia está em o Estado não olhar os cidadãos como se estes fossem clientes a quem é preciso contentar. A ideia é vê-los como gente que tem direitos e deveres. E que os deveres não podem ser reduzidos ao simples acto de pagar impostos.
Não existem comunidades de meros pagantes."
e ainda
"Dos ideais anticastrenses pacifistas, e apátridas próprios da extrema-esquerda, passou-se às concepções mais ou menos individualistas das "Jotas". Primeiro da JS, e, depois, da JSD, ambas vendo na exigência do fim do SMO uma oportunidade para garantirem apoio fácil. Afinal, que jovem gosta de interromper a vida para passar uma temporada na tropa?
(Henrique Monteiro, Expresso, 25 Setembro 2004)

"Os blogues não são todos iguais. Uns (assinados por nomes conhecidos na vida pública) serão mais credíveis, ou até responsabilizáveis, do que outros."
(Joaquim Furtado, "Contar com os Blogues", Público, 3 de Outubro de 2004)
Dois ou três pontos sobre este texto:
Trouxe recorte de Lisboa para escrever sobre o "Contar com os Blogues" de Joaquim Furtado, no Público de 3 de Outubro [interessante, tão importante é o cargo de Provedor do Leitor do Público que no sítio apenas estão colocados os publicados entre 11 de Janeiro e 21 de Março. Significativo.].
O assunto é conhecido. Uma jornalista do Público, Isabel Braga, citou sem referir o Do Portugal Profundo, houve reacção ao facto, ela fez de cândida "o que é que se faz com uma informação lida num blogue?" (francamente! E se não sabia n ão fazia, é claro), o Gabriel Silva do Blasfémias apresentou o caso ao Provedor do Leitor, e o Joaquim Furtado disse o que parece óbvio, a menos que se goste de plagiar (bela jornalista acolhe o Público...): que se deve citar um blog.
Sobre as relações blog-jornalismo que o texto de J. Furtado levanta já botou o LASantos no Atrium. E, num plano mais global o Paulo Querido praticamente esgotou o assunto. Ainda assim tenho algo a dizer.
1. Já atrás resmunguei contra as abordagens aos blogs que sobrevalorizam as suas relações (existentes e potenciais) com o jornalismo. Vejo-as baseadas num politicocentrismo empobrecedor. Já antes o afirmei, considero que o mais interessante nos blogs é a explosão da auto-edição (e da auto-colectânea), fenómenos que em muito ultrapassam o político e o jornalístico. E que muito mais prometem em termos de continuidade da expressão, em particular se sonharmos os inevitáveis desenvolvimentos tecnológicos dos sistemas.
Para mais em algumas dessas abordagens há uma implícita ligação entre verdades desvendadas e o anonimato. Já protestei contra esse anonimato político-opinativo nos blogs. Considero o anonimato legítimo em blogs com tom "artístico", "cultural", "diarístico", "intimista". Mas quando se centram em reflexões sobre a realidade sociopolítica acho exigível o nome do agente - é o mínimo de credibilidade. [É evidente que nos outros tipos de blog também há opiniões, nem que seja na selecção. Mas será fácil apreender esta fluída divisão de objectivos]
E mais, é óbvio que o anonimato opinativo surge como uma retórica de afirmação, de confirmação. Criando a impressão de que se o autor não se desvenda é porque terá alguns riscos de exposição dadas as (difíceis, perigosas) verdades que anuncia. Nada mais enganador.
Finalmente, saber em profundidade é pesquisar. E um blog, grátis e gratuito, coisa amadora, não é decerto o local de produção de saber que ombreie com o jornalismo, em especial o de investigação. Porque não tem os recursos.
Acho pois que há muito ruído nestes discursos blogo-jornalísticos.
2. Regresso ao texto de J. Furtado, e ao que realmente me irritou. Já antes abordei as questões dos "estatutos prévios" na blogosfera, querendo afirmar o vácuo reaccionário que isso implica.
Furtado vem agora afirmar (ver acima) que os blogs serão mais credíveis consoante o estatuto social prévio do seu autor. Não me ocorre negar a importância das reputações. Mas raramente se vê explicitado tamanho dislate sociológico. Para Furtado uma elite sociocomunicacional (os conhecidos, pois é apenas de uma elite de fama que ele fala) são, até a priori, mais credíveis, mais honestos que o homem e a mulher vulgar. Enfim, mais dignos. Estamos de novo no Antigo Regime e Furtado afirma-se em plena corte, distante desse "povo". Entre os dignos de confiança, os donos da palavra, os confiáveis. Nobres decerto (ou os mais inteligentes saídos do seminário).
Peço desculpa do agreste, mas este texto de Joaquim Furtado é a coisa mais bolorenta, preconceituosa, reaccionária, ultramontana que li nos últimos tempos. Um lixo. E as gentes aprovam. E até lhe chamam provedor.
Rais parta a ignorância.
A propósito do blog do parlamentar português Carlos Rodrigues, e sem me querer armar em censor e em moralista. O homem, arqueólogo amador decerto, decidiu homenagear a FLAMA. Até teria piada se fosse aqui no weblog ou no blogspot ou afins.
Mas ao usar os meios meios informáticos do Parlamento, da República, para o fazer não estará a pisar o risco? Claro que é deputado, politicamente inimputável. Mas isto não transgride nenhuma lei? É legítimo usar os meios da República para defender organizações separatistas?
Quanto ao bom senso, enfim, vindo de onde vem...hoje no telejornal Jardim subindo para cima do elefante disse tudo. E votei eu nestes merdas...

foi-se hoje embora. Assim mesmo.
Nunca foi machambeiro, reconhecíamos o

o antigo marinheiro em todo esse mar,

nesses tons do impressionista do bairro Romão.
Dizem-me que procuraste a água no fim, esse que chegou súbito, ainda sem teres arranjado aquele barco que era teu sonho desejo.
Fico-me com um mar teu na parede, que sempre me lembra o dia que o carreguei, aquele dia do Bento Mukezwane. Fico-me sem te ter ido buscar ao Infulene, com Idasse claro está, porque é natureza deitarmos fora a vida. Fico-me a lembrar, hoje, coisas comuns lá pelo "Franco", breve breve mas ainda deu para qualquer coisa, essa exposição mais que tudo. Fico-me, e estou-o agora, a lembrar essa gargalhada de corpo grande, prantada num célebre rodízio com Sitoe, Gemuce e o Dentinho, num antes-do-Porto, tempos tão mais felizes, mais imortais ainda. E fico-me nos almoços no teu Romão, nessa casa de portão grande, e lá ao fundo, tão fundo, recortando o mar aquela linha de árvores que te enchia as telas...fico-me sem termos bebido aquele copo combinado.
Andamos a desperdiçar a vida Zanda. Fico-me com palavras, essas que dizias terem "ritmo, teixeira, tens ritmo". Sim, talvez, mas sem cores.
(foto e reprodução inicial do catálogo da individual "Um Homem com Muitos Amores, 2001; 2ª reprodução do catálogo de "Outros Olhares", Fundação Júlio Resende, 1999).

João Paulo Borges Coelho, As Visitas do Dr. Valdez, Caminho, 2004
Do coqueiral do Mucojo (onde, na minha opinião, realmente tudo o que será tudo se passa) e do Ibo até à Beira, essa "onde as pessoas circulam sem que se saiba a quem pertencem", vê-se o estertor do Império no final das já velhas filhas de Ana Bessa - "mulher do Ibo", essa sim - Sá Caetana e Sá Amélia, ali ombreadas por Vicente, esse jovem que se transmuta em Dr. Valdez para os breves e fantasmagóricos regressos de uma velha ordem. Coisa erótica, parece-me eu, ordem e livro muito eróticos. De certa maneira, de certa maneira...
*****
Estive lá em Lisboa no lançamento, ainda bem. Deu para encontrar o Patraquim, que não via há anos, bebeu-se um ou outro gin, a maldizer a vidinha enquanto se saudava a vida, e sabe-se lá porquê acabámos no Porto, o vinho claro está. E deu ainda para (re)conhecer um tal "de Machede", ilustre bloguista, também apreciador desta prosa, e do prosador. Que valem muito a pena. Quanto à prosa já anda pelos escaparates lisboetas. Não tanto por aqui. A ver se chega.
Já agora, As Duas Sombras do Rio,

o primeiro atrevimento deste género do JPBC, que já aqui elogiei menos que o suficiente, foi agora reeditado, esgotado que estava.
O caro visitante aproveite a dose dupla, se assim o entender.
Adenda: consta-me que o último Mil Folhas dá relevo ao lançamento e seu autor. [Em baixo anexo texto e entrevista]
O Fim do Império Português Público
Sábado, 09 de Outubro de 2004
Jorge Heitor
Uma infinita tristeza é o que nos domina no fim da leitura do romance "As Visitas do Dr. Valdez", no qual João Paulo Constantino Borges Coelho, professor na Universidade Eduardo Mondlane, de Maputo, nos conta a estória de duas velhas senhoras e de um seu empregado, nos tempos finais do império colonial português em Moçambique.
A irreversibilidade da história, que faz uns países encurtarem-se e outros nascerem, ao sabor dos séculos, está aqui retratada de forma magistral por um investigador que nasceu em 1955 na cidade do Porto mas optou pela nacionalidade moçambicana, tendo já o ano passado publicado a sua primeira obra de ficção: "As Duas Sombras do Rio", também ela sobre guerra e sobrevivência, memória e presente.
Com "As Visitas", ilustradas por Ivone Ralha, com base numa máscara de "mapiko", das cerimónias de iniciação dos jovens macondes, das terras altas do Nordeste moçambicano, na província de Cabo Delgado, João Paulo Borges Coelho fala-nos de amos e criados, de amores e conflitos, da ilha do Ibo e da cidade da Beira.
Para todos aqueles que um dia viveram numa fazenda em África, ou que se criaram à beira de um coqueiral, de um palmar, e que depois tiveram de fazer a mala e partir, este é um livro de saudade, pelo que foram outrora, no antigamente do tempo. E para os que não andaram por lá no século passado uma forma de talvez começarem a compreender um pouco os grandes traumas do fim da pátria multicontinental e do regresso ao velho torrão lusitano.
Caetana, Amélia e Vicente são as mais recentes criações da literatura moçambicana de raiz portuguesa, para que se perceba como é que os jovens países africanos estão agora a ser criados a partir da realidade, quiçá opressiva, que neles se vivia há 35 ou há 40 anos, durante as lutas pela independência.
As duas velhas senhoras eram o produto de um cruzamento de sangues, de culturas; representavam ali o passado em vias de extinção. O rapaz, negro, era o futuro, ainda incipiente, sem saber muito bem o que é que o esperava.
"Acontecia tudo tão depressa!" Era o 25 de Abril, os acordos de paz negociados em Lusaca, a debandada dos colonos, a proclamação de uma nova República... o consulado de Samora Moisés Machel e seus companheiros.
ENTREVISTA
"A Actividade Científica É Apenas Uma das Maneiras de Dar Conta da Realidade"
Sábado, 09 de Outubro de 2004
Jorge Heitor
João Paulo Constantino Borges Coelho, doutorado em História Económica e Social pela Universidade de Bradford, no Reino Unido, é um dos muitos intelectuais moçambicanos que têm as suas raízes fora da África Austral e que assim conseguiram enriquecer o espólio cultural da jovem nação, em cujos pergaminhos coexistem um Mia Couto e um Malangatana, um Craveirinha e um Aquino de Bragança.
PÚBLICO - O que é que faz com que uma pessoa nascida em Portugal opte por uma nacionalidade africana?
BORGES COELHO - O nascimento no Porto foi um acaso. Fui para Moçambique com alguns meses, de modo que, de alguma maneira, nasci lá. Pertenço a uma família muito dividida, no sentido em que o meu pai é daqui, mas a minha mãe é de lá. E foi lá que tive consciência de mim.
P. - Como é que recebeu o 25 de Abril e a independência de Moçambique?
R. - Em princípios de 73 vim estudar para Lisboa, tendo regressado a Moçambique dois meses depois da proclamação da independência (em 1975). Fiz um percurso ao contrário do normal. Era uma altura de grandes dificuldades, mas também de grande entusiasmo. Havia um projecto social, do ponto de vista de construir um país. Foi uma época de grande entusiasmo.
P. - Como é que evoluiu o mundo académico em Moçambique?
R. - A universidade era ainda um espaço de elite, herdado do período anterior; mas foram tempos muito positivos, na medida em que Moçambique era uma experiência nova, que despertava muita curiosidade entre os intelectuais. Na área das Ciências Sociais, beneficiámos da visita de grandes académicos da França, dos Estados Unidos, do Canadá, do Reino Unido. Era um período de grande debate intelectual. Uma zona privilegiada, a universidade, apesar das dificuldades. A partir da década de 80, as coisas tornaram-se um pouco mais complicadas, em termos de recursos. Mas passa por aí também a autonomia da própria universidade, como espaço de pensamento.
P. - Não tem sido particularmente difícil ter uma vida académica num país bastante pobre?
R. - A universidade foi sempre tida como um espaço importante. Paradoxalmente, é nos tempos mais recentes que as suas dificuldades se acentuam, porque a rota natural da massificação traz consigo problemas em relação à qualidade. Talvez não seja actualmente encarada como tão importante como o foi no passado. Aumentou imensamente o número de estudantes na Eduardo Mondlane, que era praticamente a única; e agora já há em Moçambique muito mais universidades, tanto estatais como privadas.
Pouca influência sul-africana
P. - Grande influência das universidades sul-africanas?
R. - Curiosamente, não. É agora que procuramos estabelecer mais pontes. Até 1992/1993, havia uma grande barreira. Era mais do que um oceano ou do que um continente a separar-nos. O Centro de Estudos Africanos era uma excepção e em grande medida funcionava com académicos sul-africanos no exílio (como Ruth First).
P. - Para além da carreira de investigador, chegou a fazer banda desenhada e dedicou-se ultimamente ao romance.
R. - Envolvi-me muito na área da História Contemporânea, mas sempre tive claro que a actividade científica é apenas uma das maneiras de dar conta da realidade. A literatura é um processo importante de interpretar aquilo que nos cerca.
P. - Que influências é que teve na sua escrita?
R. - Sempre li tudo o que me chegou às mãos, procurando não me ligar directamente a nenhum tipo de influência, mas fazer antes com que fosse um resultado de uma amálgama. Os clássicos europeus, alguma literatura africana. Lembro-me particularmente de António Quadros, pintor, escritor, homem de sete ofícios, que teve grande influência em mim. A poesia de Craveirinha, que era uma forma de racionalizar aquele presente.
P. - Que obra é que tem agora mais avançada, para próxima publicação?
R. - Um conjunto de narrativas extensas, que se desenvolvem ao longo de toda a costa de Moçambique, de 2500 quilómetros, virada para o Índico, um espaço de cruzamento de rotas, muito complicado. Um projecto que procura dar conta da alma de cada lugar, ao longo da costa. Corresponde a um caminhar do Sul até ao Rovuma, à fronteira com a Tanzânia.
P. - Como é que está a literatura moçambicana?
R. - Está numa falsa crise, numa encruzilhada. Havia um tipo de literatura, nichos muito restritos; e tenho esperança de que brevemente seja possível um novo período, com muita gente a escrever, novos ângulos, novas maneiras de dar uma realidade que temos hoje, muito complexa, mais complexa do que tudo o que vivemos desde a proclamação da independência, com uma muito maior curiosidade sobre o que hoje se passa no mundo. Vivemos uma espécie de transição arrastada.
P. - Alguém terá dado já como morta a literatura que se fazia nos últimos dez anos?
R. - Houve um período de relativo amadurecimento, em duas vagas. E um factor que me parece muito importante é a existência cada vez mais nítida de uma crítica literária importante, com nomes como Fátima Mendonça, Gilberto Matusse, Francisco Noa, Almiro Lobo... O que é importante para favorecer o surgimento de uma literatura mais consistente, consolidada e alargada. Mas infelizmente é ainda uma literatura muito de Maputo e um pouco da Beira, com pequenas iniciativas em cidades como Quelimane e Inhambane.
Do marxismo ao seu oposto
P. - Já estamos muito longe de um país que foi criado com base nas doutrinas marxistas?
R. - Estamos talvez no campo oposto. Houve uma grande abertura em termos políticos, com o acordo de paz de 92. As questões são mais complexas e os desafios tão grandes ou ainda maiores do que nos primeiros anos. O futuro resultará de um debate intenso de diferentes pontos de vista.
P. - O aumento dos valores macroeconómicos não correspondeu a um bem-estar geral.
R. - Em certo sentido, as assimetrias até são mais acentuadas do que nunca. Há um grande dinamismo na construção de elites; mas há também grande número de moçambicanos a sobreviver nas margens. A pobreza está muito longe de ser erradicada. É o resultado de uma ordem neoliberal que prevalece a nível internacional e que nos entra pelas portas e pelas janelas e que não conseguimos suster.
P. - Há muito a fazer, no sentido de tornar mais homogénea a sociedade moçambicana?
R. - Há a diferença clássica entre a cidade e o campo. Há diferenças entre um Sul relativamente mais desenvolvido e um Centro e Norte ainda muito na margem e que é preciso integrar. A parte meridional do país, mais próxima da África do Sul, está mais dotada de infra-estruturas, enquanto o Norte sofre muito com a actual crise no Zimbabwe.
P. - Como vai o trabalho de alfabetização?
R. - Já se fez melhor. O regime socialista, porventura mais autoritário, tinha políticas sociais mais nítidas, no campo da saúde e da educação. Agora, no regime neoliberal, o índice de analfabetismo é porventura maior do que já foi no passado. E o mercado para a literatura é ainda muito frágil.

Nelson Saúte (org.) Maputo. Desenrascar a Vida, Comissão Nacional para as Comemorações dos Descobrimentos Portugueses / Ndjira, 1997
Confesso que por este livro tenho um particular carinho. 123 fotos que nos dão o Maputo que vive, que se "desenrasca" claro está. Uma cronologia da cidade dada pelo António Sopa. Belos textos do Nelson Saúte. Um livro muito bem conseguido.

("Retrato de Mulher", foto de Ana Rodrigues, 1994)
Há anos esgotado. Há anos procurado. A reeditar, claro.
Uma reedição que será complexa. Pois um editores desapareceu: a Comissão dos Descobrimentos. E quem assegura o seu espólio? Seus direitos? Mas talvez mais causas existam para tal inércia.
Mas seria tão racional (e lucrativo?) juntar todos os intervenientes e dar uma 2ª a tão bela edição.

(reprodução do convite para a exposição no Museu Nacional de Etnologia, Nampula, decorrida em Maio de 2004)
Inaugurou ontem, 9 de Outubro, na Galeria Culturgest no Porto a exposição Iluminando Vidas. Fotografia Moçambicana 1950-2001. Ricardo Rangel & the Next Generation, e demorar-se-á até 12 de Dezembro.
Mais do que aconselhável. Para o apreciador de Moçambique. Para o curioso da fotografia. Vice-versa. E para os amantes de ambos.
Fotos de Rangel, Kok Nam, Rui Assubuji, Luís Basto, José Cabral, Joel Chiziane, Funcho, Alexandre Fenias, Martinho Fernando, Albino Mahumana, Fehart Vali Momade, Alfredo Mueche, Alfredo Paco, Sérgio Santimano, Naíta Ussene.

E será mais do que avisado levar para casa o livro. Moçambique. Um Moçambique de história e pessoas. Umas fotógrafas outras fotografias. Se não estiver à venda restar-vos-á a inveja.
Uma nota, nem muito lateral. Vejo que a Culturgest escolheu para o cartaz uma célebre foto de Rangel (que já aqui reproduzi).

Uma foto emblemática, simbolizando uma história que alguns continuam a querer barrar com o mel da luso-tropicalismo, da lusofonia, o que quiserem. Acima de tudo armados de essencialismos. E tudo isso desnecessário - mas isso é assunto para outros textos.
Nem atentei. Ontem, sábado o 9, fez 10 anos que pisei aqui pela primeira vez. Quem mo diria, então?
Parece que foi ontem? Hum...passou muito tempo. Bolas.
1. Antes do embarque vou levantar jornais e revistas, balcão da "leitura a bordo". Cartão de embarque numa mão, a outra com a Carolina ao colo, já exausta de esperas, andanças e baldrocas:
"Bom dia, desejo o Público, o Record...e o Diário Económico, sff", mas não pois "Os passageiros só têm direito a duas publicações", diz-me a funcionária. Riposto que "nós somos três", até indicando a Carolina ali prantada no meu cotovelo. "Tem os cartões de embarque?" mas não "aqui só tenho o meu, paciência deixe estar" abandono eu a publicação mais economicista. Mas não é necessário, pois "Então, a título excepcional" diz-me a jovem pau-sa-da-men-te para que eu re-al-men-te a compreenda "vou-lhe fazer o favor" enquanto me entrega o trio de jornais.
2. Come-se mal nos aviões, já se sabe. A TAP até sublinha tal evidência. Daí que trazemos farnel. Para acompanhar a sanduiche do meio da tarde a Inês, que está na coxia, vai-me buscar uma cerveja. Logo volta desiludida pois "há poucas cervejas e estão guardadas para as refeições", foi como a despacharam. Lá vou eu tratar do assunto, informo a antiga rapariga que "quero comprar uma cerveja" e ela num "já não tenho cervejas" que me terá emudecido tudo menos os olhos. Então abre a cortina, desaparece, para logo voltar com um "Vou-lhe fazer este favor, esta está bem fresca".
3. Mais umas horas, estou ali de pé, à conversa com o JP, e lembramo-nos de ir beber um whisky. Vamos até ao fundo e peço-os. Mas estoutra troca-me o pedido por um "Vamos agora servir as refeições!" como obstáculo. Deixo-lhe um "Óptimo, então vão servir de aperitivo". Mas não a desarmo pois "Já não temos whisky", algo que se quer final. A converseta anterior estava animada, bem-disposta, daí que não desisto "Veja lá bem, ainda deve haver por aí alguns esquecidos". E eis que lhe ouço "Vou-lhes fazer o favor..." enquanto abre uma gaveta, decerto mágica, de onde brotam duas miniaturas, estou crente que as últimas de todo o avião, sorte a nossa. E lá fomos, quase travessos.
4. Mas quem é que terá ensinado estes funcionários que o trabalho deles é um favor aos passageiros? Quem lhes instigou esta mentalidade do "favorzinho"? E quem é que lhes ensinará que profissionalismo, simpatia e disponibilidade não é favor nenhum, é o trabalho deles. Pura e simplesmente.
E que isso não equivale a ter que aturar os passageiros imbecis. Mas apenas a não "fazer favores" ao passageiro mediano. Que deles não precisa. Apenas de ser servido. Por quem não está acima dele, pronto a fazer-lhe algum favor, se assim o entender, segundo o seu juízo individual.
Ainda aqui não o tinha referido. Para quem quer informações sobre Moçambique, e também sobre as relações Portugal-Moçambique, o sítio da Associação Portugal-Moçambique está muito completo e recomenda-se.
A visitar.
[Transcrição do protesto]
Lisboa-Maputo-Joanesburgo (5 de Outubro 2004)
Habituados a (e escaldados com) atrasos e cancelamentos telefonámos duas vezes para a TAP durante a tarde a confirmar hora de saída (18.15). Bi-confirmada.
Chek-in cumprido às 17.10. Aí mesmo reconfirmam a hora de saída.
Logo de seguida, ainda a caminho da sala de embarque, muito pouco antes das 17.30, o quadro de informações muda. Às 19 h. seremos informados sobre novo horário, assim reza.
[Adiamos o controle de passaportes e entrada na sala de embarque. Eis-nos esperando no free-shopping centre]
Às 19.10 nova mudança, no quadro surge que seremos informados às 20 h. [Decidimos dar jantar à Carolina, passageira com 2 anos, cujo bilhete é de 80% dos inacreditáveis 170 contos - compare-se este com os preços de outras companhias entre Europa-JHB].
Às 19. 40 o voo deixa de figurar no quadro de informações. Sem mais.
Desloco-me a um longínquo balcão TAP ["Tranferências"]. A funcionária nada sabe. Telefona e nada lhe dizem. Insisto, ali solitário. Telefona de novo, agora para uma misteriosa "secção técnica" onde lhe dizem que "o voo será cancelado". Ela relativiza-me a informação pois, segundo afirma, "este tipo está a dizer isto desde as 5 da tarde".
[Sublinhe-se isto, os técnicos sabiam da impossibilidade de voar, ninguém avisou os passageiros e os procedimentos de embarque continuaram.]
Regresso, são cerca de 19.45, e aviso os passageiros expectantes do mais que iminente cancelamento do voo. São estes cerca de 70, só de um grupo organizado com destino a Joanesburgo se anunciam 50. Gente minha conhecida é vária, ali estão inclusive os dois maiores escritores moçambicanos - fantástica acção de "public relations/marketing" estes tratos de polé aos especialistas da palavra pública. Outros aguardam desde a passada 6ª feira, inocentes vítimas dessa misteriosa figura do "over-booking".
Todos esperam alguma notícia que venha confirmar o cancelamento. No quadro informativo, já não consta repito. No sistema audio nada. Funcionários ambulantes idem.
Pouco depois das 20 h. regresso ao tal longínquo balcão "Tranferências". A espantada funcionária confirma-me, e aos que me seguem, que o voo foi cancelado, e nem quer acreditar que ninguém nos tenha avisado.
Nenhuma informação. A explicação é simples, o comissário / controlador de serviço (não decorei o nome do posto), o responsável de momento, do qual ninguém me pode informar o nome para que eu o coloque no protesto (os bois pelo seu nome, não é assim?) presumiu que todos estávamos na sala de embarque (quem presume é presunçoso, e isto para além da etimologia) e não ordenou um aviso via audio. Mandou hospedeiras avisar na sala de embarque, assim esquecendo todos os outros.
Incompetência pura. E é óbvio que associada ao desejo de não publicitar junto de todos os passageiros presentes no aeroporto o cancelamento de um voo TAP.
20.15 h. Podemos retirar a bagagem já embarcada? Que sim, quem o desejar, mas não será obrigatório. É a informação do balcão "Transferências". A solução óptima. Mas há que confirmar com as hospedeiras que estão a acompanhar os passageiros.
Dirigimo-nos para junto destas. Acolhe-me uma funcionária, MIRA é o apelido que ostenta. Caústica, "nem pensar em levantar a bagagem", ri-se. Quando lhe pergunto porque não fomos informados do cancelamento diz-me explicitamente que estou a mentir, que ela própria foi informar. Calo-me para não lhe bater, alguns dos muitos passageiros que a rodeiam desmentem-na confirmando ter sido eu a avisá-los. É a vez dela se calar.
Uma senhora de idade insiste em retirar a bagagem, a tal MIRA diz-lhe rindo-se "para que é que vocês querem a bagagem, de que é que vão precisar"? [Atente-se no "vocês", não há qualquer "os senhores" ou o mais que exigível "a minha senhora" dado que estava a responder a uma interpelação directa]. A passageira insiste, até triste no seu desejo "de roupa, de produtos de higiene", dado que a partida será amanhã. Nada, implacável, não se levanta nada.
Eu, repito, para não lhe bater não digo nada. Mas, note-se, do que eu precisava era da cadeira para transportar a minha filha no automóvel. Aquela que a lei portuguesa me exige para transportar uma criança. Essa que a TAP, no fim deste dia, se recusa a devolver-me. Talvez o fizesse se eu "armasse escândalo", um qualquer torniquete no colarinho destas MIRAS, falsas louras, criadas de servir julgando-se patroas só porque já foram ao estrangeiro.
Dia seguinte lá partimos. Ainda assim com quase uma hora de atraso.
Desde 1997 foi a terceira vez que falhei um voo (Fevereiro de 1997, Agosto de 2002). Que regressei a casa para passar a noite. Isto é cerca de 20% de partidas abortadas. Sempre por compreensíveis problemas técnicos. Sempre inaceitavelmente destratado pelo pessoal de terra da TAP, sempre desinformado, sempre rebaixado.
Gosto do administrador Fernando Pinto. Que ordenou essa barraca-sorvedouro, essa TAP. Mas abomino os seus funcionários. A falta de respeito por quem lhes paga os ordenados. A falta de educação. E, sublinhe-se, o arrivismo.

"Reflexões da Vida"
Inaugura hoje, 9 de Outubro, na MaxDesign (Av. Eduardo Mondlane, 2116).
Encerrará a 23 de Outubro.
Maputo-Lisboa.
A máquina de raios X do aeroporto de Mavalane está, sabe-se, avariada há cerca de um mês e meio. Ainda assim no acesso ao check-in não me abrem as malas, não por qualquer consideração especial pelo tal "dr. Teixeira" pois aos mais imediatos vizinhos de "bicha" também acontece o mesmo.
Claro que não irá acontecer nada, só alguém com paranóia securitária poderá preocupar-se com isso, lembrar-se dos 80 e tal gnrs nas arábias, da conferência dos Açores, da guerra que só acabou para os formalistas.
Decerto que só alguém com paranóia securitária, esquizofrenia talvez, se lembraria de que, apesar das taxas de aeroporto, o bilhete (e tão caro é este) foi comprado à TAP, é esta empresa a responsável pela sua segurança no ar.
Em suma, só um maluquinho se lembraria de escrever protestando com a TAP pelo gigantesco (e estrutural) deficit de segurança desta ligação aérea.
Dentro de umas semanitas devo receber em casa o agradecimento padronizado, tipo "a TAP tomou conhecimento dos seus comentários, mas...".
Total irresponsabilidade, digo.
Mas talvez esteja eu doente.
E hoje é um deles, e por todas as razões do mundo.
As de gente gigante a mostrar-nos um caminho.
Aos outros não louva a história. Ainda que nisso não acreditem.
da já lamentada doença do main index - a dolorosa queda de extremidades inferiores - procedi a reassentamentos na Aldeia dos Elos. Alguns (poucos) novos convivas, muitos entretanto falecidos, uma pandemia decerto. Outros ainda que mudaram de vizinhança, coisas da mobilidade social.
Lembro que há anos a minha amiga Inês me enviou um teste político, tipo "conheça-se a si mesmo". Preenchi-o 2 ou 3 vezes, ainda que as perguntas sejam um pouco enviesadas, lá pela direita tudo um bocado para o troglodita, para a esquerda assim para o simpático. Mas gostei do meu auto-conhecimento, sempre a cair ali pela zona onde colocam o meu ícone político, presidente Mandela. E ao lado do Gandhi. Mesmo que o teste seja o que seja dá para afagar este ego, decentissimas companhias (as mais decentes diga-se). Em suma, belo teste.
Agora nesta insónia visito o JCD (grande "anedota com barbas" a que hoje encima o blog) e dou com a tradução do teste. Aprestei-me a repeti-lo, agora em luso. E dei-me mesmo em cima do Fernando Gomes. Credo! Em suma, maldito teste. Ou a culpa será da língua?
Um texto velho (2002), do qual me lembrei devido ao post do Klepsýdra que abaixo referi, liguei e aplaudi.
Aqui o transcrevo, o todo estará ultrapassado, por isso deixo em negrito o parágrafo que se relaciona com o assunto que o Rui Curado Silva tão apropriadamente lembrou.
CANAL PÚBLICO?
16 de Abril, durante o Telejornal noticia-se que o Conselho de Redacção da RTP é adverso à proposta do novo governo de alienar um dos canais públicos, brandindo o argumento que os serviços da empresa realizam "mais de 10 horas diárias de informação de qualidade", que assim será ameaçada.
16 de Abril ainda, no Telejornal uma hora exacta de notícias sobre Portugal e os portugueses (onde se inclui extractos sobre o fetiche timorense e Chirac e o Liceu Português). Crimes, crimes, tribunais, tribunais, nada mais do que o velho Correio da Manhã! Mas enfim, lá matamos as emigradas saudades desse país de salteadores, pedófilos, falsários, incendiários, violadores, assassinos psicopatas, polícias corruptos, ladroagem heroinómana, condutores desabridos, alternadeiras incompreendidas. E do Jardel, vá lá.
Depois, 6 minutos exactos sobre o "resto do mundo", esboços sobre Cisjordânia, Itália, Venezuela. A abrir esse piscar de olho lá está o mapa mostrando onde é Israel, esse mesmo que há já longos dias vem sendo apresentado: exactamente a leste do mar Mediterrânio.
Será isto o viver longe, não acompanhar as revisões ortográficas?
Antes, entre outras preciosidades, uma bem pitoresca. A zanga de uma aldeia onde um anónimo distribuiu panfletos acusando o pároco local de "andar a comer as mulheres" da terra. Por duas vezes o dito panfleto nos é dado a ler em longos grandes planos, e assim ficamos bem cientes do conteúdo das calúnias e das personagens alvejadas. E ainda termina o repórter afirmando que o tal padre até é considerado pessoa de bem, apesar de ter uma carreira sempre "acompanhada por estes rumores". Puro linchamento!
Será isto o serviço público, uma gigantesca caixa de ressonância dos mexericos nas nossas aldeolas?
Entretanto vem o intervalo para publicidade, o qual nas RTP-África / Internacional é ocupado com anúncios às suas próprias programações. Entre os quais é obrigatório o longo apelo ao inefável Goucha, como sempre surgindo a publicitar a sua astróloga residente a qual "todos os dias prova que diz a verdade!".
Sem fundamentalismos racionalistas, será esta a função do serviço público, a apologia de uma determinada crença mística?
Fico-me com uma última questão, esta ao Conselho de Redacção da RTP: não se importam de repetir? Ou, no português deste Maputo, "está a dizer o qué?".
Abril de 2002
o Machado da Graça fez o favor de aqui vir e ao ler o meu Emigrante de Sucesso, velho texto onde comemorei a minha vitória no totobola, mandou-me um belo naco (ou posta, fosse ele bloguista como o deveria ser). Aqui o transcrevo (e se alguém se lembrar da totalidade da canção...):
Teixeira
Depois de umas semanas fora voltei, fui à tua machamba e soube que te tinha calhado o Totobola. Provavelmente és novo demais para te lembrares de uma cantiga que contava uma história igual à tua. O que me lembro da letra era assim:
Manuela, acertei no Totobola
agora sou um cartola
de carteira recheada.
Foi a lógica
não falhei um resultado
agora vou comprar
um foguetão dourado
para ir jogar na Lua
e acertar no resultado.
Continuava por ali além até descobrir que tinham sido milhares a acertar e lhe cabiam apenas uns trocos. Como vês não estás só...
Machado
já tinha escrito, com ligação ao Blasfémias. Foi a 22 de Setembro [bom dia para antevisões, o outro post de então também está muito actual].
E o Rui Curado Silva é disso prova provada.
Este texto sobre o (agora) célebre contraditório é fulminante. Vale mais do que toda a tralha reinante. Não pelo que diz do trálálá, mas pelo profundo que diz da imbecilidade reinante. E à qual os (agora) Justiceiros Solitários nem atentam.
(são cinco os gajos que estão a desconversar na RTP-I , cansei-me da arrogância de quem se julga capaz de reduzir o "debate da nação" à mesquinhez de curto prazo e vim blogar. Obrigado Klepsydra, pelo verdadeiro debate da nação).
na santa terrinha. Deixei-a em mera vichyssoise.
(E no entanto ela mexe-se. A sopita, claro está).