
Na Associação Moçambicana de Fotografia uma individual de Magupela, Nwehty Yossima, até ao 26 de Outubro. A agradar o seu público. Muito típico, nos temas. E no tom também. Muito Chichorro jovem. E Miro também, cuja morte deixou campo para os seus seguidores.
A ver como vai ele seguir.

Uma exposição individual de Jacob Estevão Macambaco no Instituto Camões. A perder-se a oportunidade de um trabalho historiográfico, integrando-o no advento em Moçambique de uma concepção ocidentalizada de arte. Macambaco reclama-se o primeiro pintor moçambicano, com uma primeira exposição de trabalhos em 1951. Não será o registo o mais importante, mas o seu percurso é demonstrativo da formação de um campo artístico aqui, ao nível da actividade dos artistas e para entender as modalidades da sua recepção.
Repito, teria sido um bom momento para essa reflexão.
A memória que ficará da exposição de Macambaco, o desdobrável que por aqui continua a levar o nome de "catálogo" é miserável no seu verde-branco esbatido. Mais valia não o fazer.
Retiro este texto e também este, coisas sobre o espólio. Coisas distraídas, por ali as armas são já outras.
Estou, a cada dia que passa, mais igualzinho ao meu pai.
Desde a puberdade, e não exagero, que me irritou a expressão "gloriosos capitães de abril".
Treze anos de uma guerra absurda, quinze anos de tardo-colonialismo absurdo, meio século de autocracia anti-desenvolvimentista sucedendo a década e meia de constante intromissão golpista. Tudo isto acabou, súbito, quando desabaram os preceitos da "instituição castrense", quando o "castrense" se tornou sociológica e culturalmente aberto.
Ou seja, quando o recrutamento foi extensivo e quando o oficialato foi "conspurcado" (esta a causa motriz primeira de toda essa "glória", nunca esquecer).
Matar essa dinâmica é viver numa sociedade sem memória. É crer no mito do "fim da história", que este "estado da arte" é insubstituível. É também crença demiúrgica, numa deusa "europa" que não deixará de intervir se...
E é um triste fundamentalismo igualitarista, sentado num projectismo planificador, crente na hiper-antecipação do futuro, no seu desenho total. E que não compreende que "as sortes" são a vida.
As forças armadas são um instrumento de paz. São um exercício de cidadania.
Adenda: Esta é a minha opinião há quinze anos, formulada tal e qual quando atravessei a porta de armas de Mafra, espólio feito.
Cheguei lá pelas "sortes", então uma raridade num doutorzito de letras. Gritei o azar, protestei a seca, resmunguei a chatice, gritei a inútil perda de tempo, brami a terrível interrupção na minha vida, constatei a desgraça nos planos de futuro, lamentei as oportunidades perdidas, gemi a violência psicológica (honestamente foi mais a física), etc e tal. Mas o menino saíu inteirinho e a vida continuou.
O Legislador, sequioso de simpatia, e o Eleitor, coitadinho, bem que podiam amadurecer.
Por razões biográficas, que alguém também poderia chamar sociológicas, há no Food-I-do algo que não existe em mais lado nenhum na lusoblogosfera.
A mais do que acompanhar, para quebrar a monotonia mas acima de tudo para assistir ao engenho com que o homem se recusa a deixar cair os hifens.
Pois, esta minha costela do futebol. Premonição? Nada. Mera empiria. Hoje de manhã a lembrar que a continuação da carreira vitoriosa do grande treinador Camacho clamava, com notória urgência, pela contratação do galáctico Cunha Leal.
E hoje à noite a ver que o homem se demitiu. Não foi possível a contratação? O Benfica não vendeu o seu most valuable player?
O Luís Aguiar-Conraria a apresentar dois importantes e esclarecidos textos sobre questões da educação. A não perder.

Intermark E.E., encomenda FAO/UN, 1983
[reproduzido de Upfront and Personal. Three Decades of Political Graphics. From the United Kingdom plus Southern African Political Graphics, British Council South Africa, 2004]

Design: ANC / Unwembi Communications
(1994)
faz parte da minha biografia. E como os meus exemplares estão em Lisboa, reproduzo-o do catálogo "Upfront and Personal. Three Decades of Political Graphics", editado pelo British Council.
foi reabilitado, está em bom estado, depois da ameaça de derrocada do quarteirão no ano passado, fruto de obras no edifício vizinho.
Já agora o CEB, com nova directora, reestabeleceu as muito saudáveis sessões musicais de sexta-feira à noite, algo que há anos a Fernanda Verissimo tinha lançado com grande sucesso. A partir das 19 h. Sexta passada esteve muito bem. Que eu saiba para a semana estará o "Timbila Project". Eu não, estarei em Lisboa. Mas em Outubro continuará.

Uma belissima exposição de grafismo socio-político dos últimos trinta anos, incluindo material do Reino Unido, Botswana, África do Sul e Moçambique: "Upfront and Personal. Three Decades of Political Graphics from the United Kingdom plus Southern Africa Political Graphics", uma produção do British Council. Exposição originalmente dedicada ao material britânico e sul-africano e que tem vindo a ser complementada (e bem, em particular no caso moçambicano) com material dos países na qual ela é apresentada.
A exposição é muito bem conseguida. Mas, e em particular no caso britânico, é politicamente enviesada, ou seja há um total predomínio do grafismo socio-político de esquerda, como se essa técnica comunicacional não fosse utilizada em todos os locais do espectro ideológico. A mim parece censura. Uma censura do comissariado do British Council. Típico de alguma esquerda, estas derivas censórias (um censor é sempre ignorante, claro). Mas não só.
É também um caso típico do apagamento das forças mais conservadoras para "africano ver", um processo que procura apresentar as sociedades dos ex-colonizadores como desprovidos daquilo que mais rapida e superficialmente possa aqui ser associado ao regime colonial, ou aos seus herdeiros.
"Public relations" que é generalizado aos ex-colonizadores, tiques que se reconhecem de imediato. Aparentando pontes ideológicas entre as sociedades, falsas não porque ideológicas mas porque escondendo as diferentes realidades, as diferentes complexidades. Enfim, uma exposição de grafismo socio-político que é ela própria, e falo no material britânico em particular, um caso de grafismo político. (Ou seja, uma censura não apenas ignorante. Uma enviesamento que é arma política: o "sempre simpático" neo-colonialismo da esquerda europeia).
Enfim, um piscar de olhos à opinião pública dos países receptores da exposição? Talvez. Mas, curiosamente, mais abrangentes são as exposições relativas ao material desses países. Enfim, as eternas contradições que os "mais papistas que o Papa" provocam.
Mas esta crítica não impede de a considerar uma exposição a não perder. Até 8 de Outubro no Centro de Estudos Brasileiros. E ainda de assinalar, guloso, a distribuição gratuita de catálogos exaustivos e de muito boa qualidade. Bela oferta do BC.

[prefácio de José Forjaz; noções gerais sobre o problema da visão das cores; cor e representação: teoria da cor; a percepção visual; o olho humano e a visão da cor; a mão; a imagem sonora]
António Quadros, Curso de Comunicação Gráfica, Maputo, Faculdade de Arquitectura e Planeamento Físico, UEM, 1998
[oferta de Luís Lage]
Texto de António Quadros, homem que foi de plurais actividades, e grande poeta. Deixo o poema que finda esta publicação.
Palavra de Ordem:
Matar a Árvore!
Campo de jogar à bola
machamba de fraca espiga
eis as palavras de ouro!
Desde a Machava à Matola
a árvore é inimiga
e aqui tem o seu matadouro.
Num futuro, já de luto
com sêde, fome e sol quente
buscaremos sombra e fruto
na estupidez do presente...
Hoje no Público uma declaração assombrosa. Diz Mário Mesquita: "Certo é que, nesta Europa de 2004, para reavivar o espírito de Lord Keynes, a justiça social e a intervenção do Estado na economia, é necessário possuir alma de guevarista. Após a queda do muro de Berlim, o reformismo transfigurou-se, ficando, subitamente, revolucionário."
Percebo, é uma metáfora este "guevarismo". Mas metáfora alimentada de um pobre mito, já o resmunguei.
Ernesto Guevara é um ícone pop, t-shirts, cintos, cartazes e afins. Tornado símbolo porque bela presença e bem fotografada, um cadáver bonito ainda para mais.
Ernesto Guevara foi um líder sanguinário e um político inepto, buscando um ideologia totalitária. Como "exportador de revoluções" foi intolerante, incompetente, preconceituoso. Lê-lo é ler a sua extraordinária incapacidade para compreender o que o rodeava. E a sua profunda arrogância, o seu auto-convencimento.
Bastará a beleza, alguma valentia e uma morte em acção para ser metáfora, servir para pensar o real?
Estes discursos do "che" não são coisa de geração, como se diz. São palavras de gente incapaz de metaforizar o real, de o simbolizar, pobres no mastigar (eterno?) destes símbolos alheios às confusas ideias que lhes associam, gente assim desprovida dos meios de pensar o real. Nada a esperar sobre o futuro destes tristes guevaristas metafóricos. Foi chão que deu uvas. Alimentado à Onan.
Ou então, porque também os há, são palavras de quem é realmente "guevarista". Gente inimiga, sanguinária, tal como o ícone que acolhem nas suas roupitas de marca. Sem qualquer pudor.
à população o direito à alegria do espólio foi uma asneira.
Neste assunto é óbvio o mandamento - o "povo tem sempre razão" desde que não se trate de coisa realmente fundamental.
Amanhã falar-se-á da gestão "empresarial" da actividade e, quiçá, nomear-se-ão gestores civis para "racionalizar" o assunto.
Depois do depois de amanhã voltar-se-á "à primeira forma", talvez em "passo de corrida", lamentando a "borregada" anterior.
já a travar-se no meu país. Haverá "sistema"?, duvidam alguns.
Entretanto em Espanha o supramilionário Real Madrid soma derrotas, agora na versão desse Extraordinário e Vencedor treinador, Camacho. Ou muito me engano ou este em breve exigirá outro Galáctico, trave-mestra da sua vitoriosa carreira. O Benfica que diga o preço - Cunha Leal vai assinar pelo Real.
O Carlos Gil, coitado, sonha com jackpots alhures. Então é para ele que segue esta velharia:
UM EMIGRANTE DE SUCESSO
Como vos comuniquei tornei-me um emigrante de sucesso, tendo aqui ganho há quinze dias o totobola moçambicano, nele obtendo um treze e seis dozes, produtos que foram de uma calculada aposta múltipla.
De imediato me equiparei aos meus patrícios que são bafejados pela sorte na fracção da imensa lotaria americana, lá pelos cafés de New Bedford, ou mesmo beijados pelo engenho, na gestão do bicho carioca.
Ah, e logo imaginei o regresso a Lisboa, algo a fazer em grande, a festa digo, certo que subtil pois será a discrição burguesa a mandar, mas em grande mesmo assim ou seja, refinada. E depois dela, o deixar-me por aí ficar, quem sabe se desta vez de vez.
E à minha futura imagem condimentei-a com algum romantismo, minha felicidade, vaidade até, contemporâneos e vindouros por aí comentando à minha passagem, aos meus dizeres: este é o Zé Flávio, o Zézé, o (Pimentel) Teixeira, meu amigo, muito meu conhecido, um ex-colega ou mesmo colega, era meu vizinho, é agora meu vizinho, o meu tio ou o meu tio-avô, aquele que enriqueceu ao jogo lá pelas Áfricas. “Foi-se para lá nas culturas e regressou rico”, dirão ainda, aumentando a curiosidade sobre quem assim dobrou o destino, “culturas de quê?”, acrescentarão os interlocutores, sem o saberem sequiosos desses caminhos. “Não, não me fiz perceber, essas culturas das letras, dos intelectuais”, rematarão então os meus já sequazes, assim deixando para sempre a dúvida sobre a lisura deste meu percurso.
Ah, as dúvidas, que melhor coroar deste meu sucesso económico, que maior romantismo, do que gerar algum negrume sobre o meu passado africano?
Um dos prémios inclusos foram as largas dezenas de respostas ao anúncio desta minha vitória, desta minha transição, respostas recebidas nesses dias subsequentes, uma pleiâde de amigos congratulando-se com o acontecido, aqui e ali polvilhadas com alguma ironia, um ou outro aviso de prudência. Prudência pessoal, para que não me deixasse cair na dissipação imoral, mas também prudência pelos perigos que tão inopinada riqueza agora divulgada me faria correr por estas paragens.
Imediato regresso a conradianas cores, perigosos inimigos e pérfidos falsos amigos provenientes destas tórridas paragens, todos eles conluiados com seus espíritos protectores, todos eles desejosos, tudo isto ameaçando a minha segurança. Tropicais paragens as quais, e só por si mesmos, também elas ameaçando o meu equilíbrio moral, em momentos de enriquecimento vertiginoso, abrindo pois caminho a ainda maiores desvarios plurais.
Em todos esses conselhos detecto alguma inveja E a essa, filha da curiosidade, apresto-me a esconjurar.
Pois a cada um o sucesso que merece, que este vem-nos por mérito, e há justiça no mundo, lá bem no fundo. Acredito que sim. O sucesso chega-nos na medida em que o merecemos, o mérito, por mais fluído ou desconhecido que surja, está aí para nós o vermos, e assim se traduz nas felicidades ou desventuras, facilidades ou problemas que encontramos.
Por isso, só por isso, o meu quinhão de mérito, embrulhado neste meu quedar-me face ao eterno coaxar nocturno no jardim fronteiro, e a modorra pachorrenta e burguesa que me enche a alma nos últimos anos, reduziu-se a 65 000 meticais, aproximadamente 3 USD a preços correntes (um bocadinho menos).
Digo-o para que saibam que aceito esta medida do destino. E que a festejo, ou melhor a festejei.
Aceitar o que a vida nos dá, o que nela merecemos é pois a lição desta história que de fábula nada tem a não ser que me achem um animal.
Ah, resmungo eu hoje, mesmo sabendo que riqueza não dá felicidade, ao reparar que não garanti a minha independência económica, e a dos meus. Porque não emigrei eu para Caracas, EUA, o Brasil, Macau? Porque não persegui eu, ou os antepassados Pimentel Teixeira, a aventura amazónica, os baleeiros do leste americano, a àrvore de moedas. Enfim, destinos.
Agora, saio, hoje frio e chuva em Maputo, regresso à varanda, pequena, fumar e ouvir o coaxar. Que vale bem os 3 usd ganhos.
E mais triste também.
Espero que aqui dotem os comensais de uma boa mesa.
O Rui Curado Silva continua a desenvolver a sua reflexão crítica sobre as críticas ao sistema de ensino superior português. A acompanhar, que o que por lá se passa está muito bem estruturado, sem facilitismos.
O Atrium finalmente voltou das longas férias, e tem uma empenhada crítica ao artigo metabloguístico de Pacheco Pereira, hoje apresentado no Público.
O Pululu dá sinais de incrementar a sua actividade, as suas Liberdadade de Kota Lobitango. Aproveito para avisar as visitas, ainda distraídas, que este é blog a merecer acompanhamento, um olhar atento sobre África.
O Cócegas na Língua ofereceu-nos um belo panteão.
Este leigo diverte-se imenso no Físicos de Lisboa.
Elogios e chamadas de atenção à Rua da Judiaria são já desnecessários. Mas vai-se lá e aprende-se sempre algo.
E, talvez mais do que tudo, o Quim tem um blog do caraças, mete-se lá dentro com tudo. Boa. (E ando para escrever isto há que tempos).

(posto administrativo Mapupulu, distrito Montepuez, Cabo Delgado. Foto entre Outubro 94-Abril 95)
evidencia palavras a mais. De ora em diante mais silêncio, aquele de ouro. E, aqui e ali, fotos, fracas fotos as minhas. Mas fotos sem tese.

É o Besugo que o lembra, ontem fez um ano que morreu Vitor Damas.
Damas é o único adjectivo para o qualificar. Suficiente. Até excessivo.
Entre tantas memórias de Damas trago uma, muito nebulosa, que eu teria 10 anos. Em 1975 ou 1976 a selecçãozinha de então, comandada por Pedroto, foi jogar a Wembley. Jogava um tipo chamado Osvaldinho, do Guimarães. Não me lembro de mais nada.
O Damas fez o melhor jogo que já vi algum guarda-redes fazer. Incomensurável. Inqualificável. Damas.
Chego a este National Geographic avisado pelo avisado Prof. Vital Moreira.
E a este propósito não deixo de me interrogar, ainda que não reduzindo esta dramática questão ao momento actual: como se pode ser tão pró-Bush se o homem não tem o mínimo de sensibilidade ecológica? Se tranca os necessários e urgentíssimos compromissos ecológicos a um estapafúrdio "american way of life" (lembram-se?).
Ou será que a National Geographic agora é um agente dos russos, perdão, dos democratas?
Já agora, e um bocado a despropósito, há em Portugal, e nos seus blogs, uma corrente tão cerradamente pró-Bush que me parece que algum centro e a direita portuguesa (ou blogoportuguesa) está desnorteada nos seus referentes, que nenhuma outra bússola resta para além dos EUA. Um algum centro e uma direita que se diz conservadora, mas que surge absolutamente industrialista, incólume a qualquer preocupação ecológica. Uma total contradição intelectual e ideológica. Enfim.
Um algum centro e uma direita que se reclamam liberais, mas totalmente incólumes ao não liberalismo da política do governo Bush. Enfim.
Ou será que Bagdad é o centro do mundo, como a Jerusalem medieval o era para os incautos desses tempos?
Diga-se que vendo tanto socialista agarrado ao Kerry, jornalando e blogando de bandeirinha hasteada como se num caucus democrata, é óbvio que o mal do desnorte, da "americanização", do empobrecimento intelectual parece ser geral. Que aconteceu à Europa?
Enfim, devem ser anos a mais em África, quem sou eu para me questionar com Europas?
Já agora, e ainda mais a despropósito, e porque referi o Causa Nossa, quando leio Luís Nazaré, homem da elite socialista, afirmar: "Sugiro-te que deixemos os exemplos estrangeiros de lado (porque não se nos aplicam) e a semântica ideológica para os doutorandos em filosofia política, porque do que precisamos é de política para o nosso tempo" (a ligação permanente é inválida) assusto-me, mergulhado neste anti-intelectualismo tecnocrata, o mito do "realismo". E já nem entro no avesso ao "estrangeiro" porque até se poderia contextualizar. Até, só até.
Enfim, a torcer ainda mais o nariz ao que aí vem daquele lado.
Já o tenho referido, um velho texto sobre formas de casamento que aqui coloquei. A minha tese é simples, e nada original decerto: a aceitar o casamento homossexual como reprodutivo dever-se-á terminar com a monogamia prescritiva e com a proibição do incesto. Entenda-se terminar os impedimentos legais e a produção de valores preconceituosos que desvalorizam essas práticas.
Agora o Letras com Garfos descobre esta notícia, um casamento poligâmico de perfil especial. Uma poliandria? À primeira vista poderá parecer, com efeito é uma mulher casada com vários (2) homens.
Mas não é bem uma poliandria, isso seria uma redução. Pois os homens também estão casados entre si. A notícia chama-lhe "Casamento Trionogâmico". Estamos perante o casamento de dois homens entre eles e de cada um deles com a mesma mulher. Enfim, à falta de melhor, um casamento de grupo, integrando uma ligação homossexual e duas heterossexuais (e só aqui coloco estes termos para facilitar a descrição, pois estas categorias complexificam-se num caso destes).
Ao Letras com Garfos isto choca. Não tanto a mim. Acho muito interessante, é até uma das múltiplas conclusões empíricas, etnográficas, possíveis daquele meu textito.
E é também corolário racionalizador das causas semi-assumidas. Ou pelo menos deveria ser, se houvesse a coragem da coerência.
O visitante António Jacinto Pascoal enviou esta contribuição, respeitante a um livro por ele publicado na editora Ela Por Ela dedicado a Violeta Parra. Ei-la, incluindo capa de livro, nota de apresentação e texto crítico.

NOTA DE APRESENTAÇÃO
Violeta Parra, a célebre intérprete da canção Gracias a la vida, é o nome mais alto do cancioneiro popular do Chile. Entre espectáculos, digressões, prémios, casou várias vezes, teve quatro filhos e destacou-se pela qualidade e conteúdo social do seu trabalho artístico, que nos legou uma lírica politicamente comprometida, criativa e singular, misto de alegria e infelicidade, combatividade e desespero.
Alguém lhe chamou a abelha-mestra da Nova Canção Chilena. Mas foi também intérprete de outras artes: pintura, escultura e tecelagem.
Mais tarde, sucumbiu à melancolia, à solidão e à depressão, suicidando-se em 1967, pouco depois de compor Gracias a la vida, em cujos versos diz: “Assim eu distingo a alegria do desalento, / as duas matérias que formam o meu canto/ e o vosso canto, que é o mesmo canto, / e o canto de todos, que é o meu próprio canto”.
Com este livro, o público passa a dispor, pela primeira vez, do essencial da obra poética de Violeta Parra, praticamente desconhecida entre nós, e fundamental para a compreensão do nosso próprio cancioneiro popular.
TEXTO.
De António Jacinto Pascoal a tradução de Violeta Parra em “O Canto de Todos”, antologia poética, prefaciada, anotada e acrescida de duas missivas epistolográficas da chilena para o seu amado Chinito, aliás, o músico suíço Gilbert Favre.
Lembra-nos, ou anuncia-nos o tradutor, que para Violeta Parra, irmã do também poeta Nicanor Parra, “La muerte no es tan importante como la vida. La gente solo se assusta se no ha sembrado nada.”, possível explicação para o seu tão entusiasmado envolvimento na vida, no amor, na luta, nas observações, nas vitórias e nas derrotas, que, como qualquer entusiasmo, requeria esfriamentos, pedaços de morte para contrabalançar o corpo e, provavelmente, destruir e imbuir a mente de derradeiros impulsos para uma luta fatalmente maior que o homem. Poderemos encontrar, nos meandros desse espaço, a marca de muitos heróis e anti-heróis, misto em que, possivelmente, mitigou Violeta os seus anos de vida. Tal torna-se igualmente visível na tradução directa dos poemas que existe neste livro, e directa, não por ter sido efectuada directamente do castelhano, mas porque tenta evitar os espaços do poeta tradutor ao mínimo, e evita.
Ficam-nos depois, os poemas musicados, e para música escritos, de Violeta, que com toda a rapidez se voltam a transformar, buscando a fonia original, que muito lamentavelmente não é incluída.
Talvez toda a poesia seja simultaneamente música, ainda que no seu estado mais ancestral, cru, mais visceralmente emitido que falado; mas esta foi impulsivamente música, onde ganhará outra dimensão, que não perde, todavia, em força e luta, quando apenas tomada na aspereza e beatitude das palavras: lágrimas, gemidos, verbos de força, força dos braços, força dos Homens, força intra-uterina acrescida, facto que possivelmente fez acrescer o interesse da editora Ela por Ela neste livro.
As forças que desconstruímos destes versos avisam-nos um Chile com a datação de uma determinada mulher e da sua vida, mas vivem encharcados de uma mesma carne arrepiante que pode ser descoberta no blues do Mississipi, na soul de Filadélfia; sempre uma apropriação humana do vento que varre as casas – agora os prédios – obrigatoriamente abandonadas para vislumbrar a vida.
No caso de Violeta e dos seus trabalhadores, cavou uma terra humedecida com sangue e inflamou-se de amor e morte; lenga-lengas iniciadas À uma, muitas vezes cantadas, mas desde o inicio comprometidas.
Artur Aleixo
Arronches
Estou a recolocar os textos do arquivo, já cheguei a meio de Abril. Um a um, sem censura. Confesso que muitos gostaria de deitar fora, mas para quê a auto-censura. A outros, confesso, acho piada, já esquecidos.
Aqui recoloco um, que tinha esquecido, deixado a 12 de Abril. Porque sintetiza toda a tralha indigente que ganhou estrado no meu país. E que se mantém activa.
Ei-lo, com um sorriso:
"Dizem-me (e até eu, em alguns dias) a caminhar para a direita. Mas nego-o. Pois não é de direita ficar com os cabelos em pé quando se lê o que aqui transcrevo, via Mar Salgado:
Fausto Bertinotti, convidado ... do 5º aniversário do Bloco de Esquerda: "...para enfrentar o novo capitalismo é preciso uma nova língua que incorpore o apelo dos indígenas, dos homossexuais, das lésbicas, dos presos, dos palestinianos".
E ele que me desculpe, se aqui algum dia chegar, mas lembro-me de imediato de um bom amigo moçambicano a contar-me um episódio de uma das suas deslocações (militantes, frise-se) ao Forum Social Mundial de Porto Alegre: desfilavam várias organizações e tudo ia gritando "Viva o Movimento X", "Vivam os ...Ys" quando passou uma organização lésbica e todos avançaram num "Viva as lésbicas!" e ele, claro, também mas a interromper-se, caído em si no resmungo "porra, vivam as lésbicas? qu'é que estou para aqui a fazer a gritar isto?".
Optima memória esta, porque me acalenta a ideia de que independentemente de onde se estiver nem todos estarão loucos por ali.
[nota para quem me achar homófobo: sê-lo-ei, comerei o meu chapéu até, se algum iluminado me conseguir provar que um palestiniano não é um indígena. Ou até mesmo se me mostrar uma lésbica ou homossexual (perdão, repito-me...) que não o seja também, indígena digo. Quanto aos presos nem digo nada, coitados, como se não lhes bastasse estarem presos e ainda aparece um blog a chamar-lhes coisas]"
Para a semana vou a Lisboa, um ano passado. Há três anos que não faço férias em Portugal, apenas curtas passagens de azáfama. Aqui deixo texto velho, obviamente muito datado, crónica dessas últimas férias, já em 2001. Para depois comparar.
Ao relê-lo não posso deixar de sorrir, desalentado, com as minhas optimistas referências acerca do Portinho da Arrábida.
AS FÉRIAS DO EMIGRANTE
Madrugar na Portela de Sacavém, relembrar o frio apesar do Julho. O avião cheio, vários amigos ou conhecidos moçambicanos em férias, trânsito ou trabalho. De passaporte em punho todos serão lentamente esquadrinhados. Será necessário, FEDER oblige, mas aqui ao novo-rico acontece-lhe corar.
Uma hora e vinte minutos esperando as malas! Uma transpirada e sonolenta saudade do dinamismo do Aeroporto Internacional de Mavalane.
A Gata Joana também veio de férias, que se deprime quando fica só. Levamo-la ao controle sanitário, obrigatória e oficial formalidade. Entre cães e gatos, enfileiramos à espera que nos atendam. Lá está o número do sacrossanto telemóvel, os interessados que chamem o senhor doutor para que ele cumpra o que o Estado exige na fronteira. Telefona-se, que remédio, espera-se 45 minutos entre a vergonha nacional e a ironia estrangeira embrulhando a irritação. O veterinário de aeroporto “há-de chegar”, olha os papéis, não vê o bicho, cobra 20 USD, e siga a bicha.
Com Sol ainda fresco, protector de turistas, o Terreiro do Paço lindo, liberto de carros e obras. O Rossio e a Praça da Figueira quase prontos. O Marquês, onde construíram bem, completando a traça arquitectónica, excelente. A minha primeira visita demorada à Expo. Perfeição, imponência e beleza. Sou um austral pacóvio, boca aberta no Oceanário, a célebre pala, a Torre, a nova FIL. E o meu rio. Lisboa está cada vez mais bela, de viver, de visitar. Estamos contentes com a nossa cidade, orgulho nada piroso. E menos carros, muito menos arrumadores. Com os parquímetros as famílias deixaram de pagar a taxa de heroína, passada a imposto municipal. Concordo!
Chegámos assustados pelos jornais, mas agora desdizemos a crise. Uma Lisboa em construção, novos prédios sucedem a novos prédios. E a que preço, como conseguem comprar casa? E lojas, lojas, lojas, roupa, roupa, roupa, saldos, saldos, saldos. Porque compram tão mais caro o que podem comprar tão mais barato três meses depois? Empregados africanos e brasileiros, eslavos ainda não, que estes serão empregadores daqui a uns anos. Sou solidário, de emigrante para emigrante. Crise? As classes médias aparentam estar bem e recomendam-se. Crise? Só se for de barriga cheia.
Produtos? Espanhóis...
Burocracias. Renovação urgente do BI, cinco horas de bicha, dezenas de pessoas na rua, sentadas no chão ali ao Areeiro. Dia seguinte na Segurança Social, duas horas de espera para saber que não há nada a fazer, “caiu o sistema”. Ah, nem tudo mudou no velho país.
O regresso a Lisboa é também ao anonimato da cidade grande, as caras conhecidas são os edifícios. O Tivoli abandonado, as madeiras estaladas sem tinta. Ao lado a novidade do Fórum Tivoli, escritórios e lojas caras, moeda de troca para manter de pé a futura ruína? Nele uma cave feita esplanada, para os almoços no trabalho. Mas pelo menos já não se come de pé, como antes era por aqui hábito. Um gaspacho frio e logo surgem um, dois, três, quatro, cinco personagens conhecidas. Para primeiro dia de viagem é engraçado, mesa de conversas soltas, surpresas. Cidade Grande?
À hora de almoço os jovens empregados saem à rua, de tanto fato preto julgo cruzar um funeral. Entende-se, filhos e netos de malteses, primeira geração que chega ao terciário, não sabem esse preto como luto, oficial ou traje de noite. Seguem, “doutores”, assim fardados, tal como antes reinventaram as capas negras quando bêbedos candidatos a licenciados. Mas, é óbvio, desde que de uniforme sentem-se seguros face aos patrões. Alguns mais velhos, ou atrevidos ou seguros, arriscam mesmo o fato azul, aquele tipo velho funcionário da Carris. Graduação cromática dos quadros?
Certo que aqui também as mulheres há muito que cobrem a noite vestindo o preto. Uma Nazaré, este país! Constato que as "senhoras" agora pintam as unhas dos pés, antes não o faziam. Repugnante, porquê seguir modelos de dona de casa inglesinha?
Amigos ausentes, ou já distantes. Então cinema, exposições, passeios, praia. Um filme excepcional, iraniano a contar curdos, “Um dia de cavalos bêbados”. Nos outras salas da capital estão filmes há muito vistos na provinciana Neilspruit. No CCB a SIC expõe “100 Imagens, COM legendas”, que pena não ser “100 legendas”. A ver, a não ler! Para mais comparações, a exposição Altamira com dez Grandes, Siza et al, propõem o novo mobiliário. Credo, quero as lojas de Whiteriver, viva a mobília do quasi rústico inglesinho.
A Comissão dos Descobrimentos, à qual tanto devo, despede-se para sempre com uma exposição nas Janelas Verdes. Peças fabulosas, obrigatório ver. Compreender? Como, se nem uma informação? E será que todos sabem quem foi o ourives Gil Vicente, o dito Cantino, ou o Duarte Barbosa? Um amigo avisa-me que nela fiz uma circum-navegação. Obrigado, Jorge, que não se tinha percebido. E numa sala cheia de turistas nem uma palavra em língua estrangeira. A Comissão contra a globalização? Ou apenas esgotada?
Praia, o Meco que resiste a Lisboa, o Portinho da Arrábida, muito bem preservado e arranjado, recomendável na sua beleza. Se o litoral sobrevive o país vai melhorando, digo-me, optimista. Mas a Natureza foi inclemente com estas paragens, a água do mar é gélida. E do Algarve avisam-nos para não irmos, que já está a adornar, tamanha a multidão aboletada.
Instalámo-nos na Margem Sul, convívios gastronómicos no Atlântico. As docas de Setúbal, peixe glorioso, esplendor ao jantar a preços aceitáveis. Os amigos vão resmungando com o que lhes toca. Na Aroeira, que já foi campo, vão construir milhares de fogos, quem para ali fugiu ficará sem o arvoredo. E com tanta água que será necessária, mais o golfe que substituiu o picadeiro, lá se irão salgar os lençóis subterrâneos. “É o poder local”, concluem os habitantes, tristes na antevisão.
No caminho de Sesimbra mais amigos a resmungar. O pinhal fronteiro vai ser destruído por uma urbanização camarária. É ilegal, mas envolve tão grande transacção de terrenos na capital Seixal que tudo vale. Quem está no movimento de cidadãos que à barbárie se opõe já mudou o número de telemóvel, já não atende o telefone de casa, só para evitar anónimos insultos e ameaças de morte, que os camaradas daqui não hesitam nos meios - herança revolucionária?. Amigos decentes os nossos, nossa riqueza.
No belo Azeitão, mais amigos. Uma delícia o Moscatel velhíssimo que nos oferecem. Mas de onde brotaram todos estes prédios habitação social, tão escondidos da estrada principal? O dono da casa e da garrafa vai resmungando que aos do poder local só interessa lotear, que lhes dá bom dinheiro, que “isto está como no terceiro mundo”, como se eu o reconhecesse. Imprecações contra patos-bravos e autarcas, sempre vou dizendo que depois se oferecem dois ou três jogadores ao Benfica e tudo sossega: “Benfica? Queres ouvir a história do centro de estágio no Seixal?”, fulmina-me. Não, piedade, chega! Mais uma lágrima de vinho, s.f.f.
Mais à frente, lá pela Cotovia, mais amigos, mais lamentos, outro pinhal que se preparam para substituir por casas. Outra Câmara, outro partido, mas face ao vil metal o resultado é o mesmo. Em tempos que se dizem de fim das ideologias alegro-me, a nossa esquerda sempre fiel aos seus princípios, algo actualizados. PS e PC juntos, malteses e afins, defendendo que “A TERRA A QUEM A CONSTRUA”.
Jornais diários no dia, prazer de emigrante. Em plena “Estação Estúpida” os habituais inquéritos aos populares. O “Público” interroga imigrantes, o que acham de Portugal e seu povo. Vão coincidindo no positivo da convivência, da boa mesa, no negativo do pouco amor-próprio, da falta de capacidade de indignação. Mas como se podem indignar, estes filhos e netos de malteses agora pequenos burgueses?
No velho bairro, imperial e tremoços. O Luís, o mais-velho dos malucos residentes dos Olivais morreu. Desde o liceu que me lembro do seu “dá-me um cígarrrriiiiiinho!”, tantas vezes tornado copo-de-leite e sanduíches, sempre acarinhado por todos, o louco simpático e inofensivo. Pois nestes Santos Populares uns jovens atearam-lhe fogo, ainda foi morrer ao hospital.
Que se pode fazer com estes filhos e netos de malteses?
Jantar com grande amigo feito no Maputo, bebé recém-chegado, bonita mulher, altas tarefas, o génio de sempre. Belo caril, excepcionais tintos, alternando os franceses e os nossos. E é dele a frase letal, “como posso ser feliz num país infeliz?”.
Estamos de férias, seguimos para Bruxelas amanhã.
Agosto 2001
Isto de ter um blog dá para surpresas! Amigo muito próximo acaba de me enviar a transcrição de declarações de uma testemunha do caso Casa Pia, proposta óbvia para que eu aqui as coloque. E que suculentas elas se apresentam. Isto demonstra que o paradigma Portugal Profundo se está a impor. E que as pessoas de bem (como é o caso, até extremo, deste meu amigo) deixaram de acreditar na justiça portuguesa [e este é o Verdadeiro Escândalo]. E significa também que por todo Portugal a rede de email fervilha com os documentos relativos a este caso.
Acredito que o António Caldeira esteja convicto da justeza da sua atitude e da existência de uma rede protectora de uma elite socialista pedófila que ele procura combater. E que, tal como este meu amigo e tantos outros (e eu também, vide "O Polvo" à mostra no caso Apito Dourado, felizmente ainda sem assassinatos [sublinhem o ainda, sff]), não tem qualquer confiança no sistema de justiça português.
Mas não acredito nessa elite socialista pedófila. Racionalmente procuro evitar cair nas armadilhas das "teorias da conspiração". Mas décadas de violações, centenas de vítimas, n+1 testemunhas e que temos de acusados? O maluquinho de serviço, o seu chefe, duas ou três alcoviteiras, um doente terminal, duas ou três figuras públicas ou quase. E, vox populi, a liderança do partido da oposição. Bem, ou esta meia dúzia de homens tem uma pujança sexual infinda ou há qualquer coisa que nos escapa.
E depois há este canibalismo, o de que é necessário apanhar os famosos. Eu gostava que se apanhasse o santos da padaria, o alves da EDP, o silva do caixa geral, o mendes taxista, o dono do restaurante X, o sr. engenheiro do mazda, o enfermeiro gordo do centro de saúde, esses gajos. Estou-me, e aqui cito Eduardo Ferro Rodrigues, "a cagar" para os famosos.
Meu caro Amigo, estou absolutamente convicto de que isto foi muito bem urdido. Posso estar enganado, e não ponho as mãos no fogo por ninguém: nem por ti (nem por mim). Mas juraria que rebentaram as investigações queimando a liderança do PS.
Mais, gosto do Ferro Rodrigues. Gosto da irascibilidade dele, do emotivo desbragado, do "tirem-me este gajo daqui senão vou lá eu". Nele, modestamente, me revejo. Gostei daquela demissão extemporânea, pois ainda que haja quem a diga planificada para Belém ela é certidão de óbito política. Gosto porque é um enorme "que se foda!" já na areia da praia (parece óbvio que as próximas eleições eram dele) - e essa é uma atitude que me é querida (infelizmente?).
Gosto dele, meu caro, porque sendo "Todo Poderoso" Ministro levanta o cu da cadeira e vai buscar a sua cerveja, e fartei-me desses palhacitos a prazo que acham que deles todos são criados.
E nunca me esqueço que as acusações sobre sexo são lixadas. Porque javardas. E porque se colam, nunca limparemos as manchas o suficiente, nisso esgaçamos a roupa, chagamos a pele. A esta minha história lembro-ta, meu amigo, pois já a conheces. No meu ante-ante-antepenúltimo emprego, muito bem pago era ele, aqui apareceu um tipo, muito bem protegido e a muito querer ganhar o taco, dizendo diante de 50 muito ilustres culturais portugueses que eu dava bolsas de estudo em Portugal às estudantes moçambicanas que fossem para a cama comigo.
Pois, é disso que eu não gosto no Ferro Rodrigues e no Pedroso e no Costa e nos outros. É que sejam e se digam camaradas desta escumalha e dos seus protectores.
Pois, é disso que não gosto neles. E é isso que deles me faz incomensuravelmente superior. E que me faz escarrar quando eles passam. Por aquilo que eles são, pela forma como vivem. E não por causa de algo que alguém inventou...
Apesar de alguns conselhos amigos a Matacanha continua a devorar-me as extremidades. Lá em baixo o sabugo e o cantineiro já desapareceram. O Ma-schamba vai desaparecer, roído pelo apetite alheio? Talvez antes isso do que pela própria malvadez...
Espicaçado pelo comentador referido, enquanto dei cabo do tal coirato recomendado (acompanhado, como mandam todas as regras, de um Sumol de laranja) terminei a republicação de todas as entradas dos meses entre Dezembro e Março, inclusive. Abril e Maio ainda estão muito incompletos, mas lá chegarei.
perguntava há meses se haveria isso de escritores de blog. Subentendi que perguntava se haveria um estilo e um método adequado ao blog, ou pelo menos privilegiado. Não sei que respostas teve.
Mas lendo por aí parece que sim. Vejo várias notas de parabéns ao blog Barnabé nas quais se afirma que ali se sabe escrever para blog. Donde se entende que há uma concepção de como escrever num blog, um estilo, um método talvez.
Luís, tens aqui a resposta?
E conviria escrever sobre isso, talvez sistematizar.
Numa quase velha "Visão" que aportou cá em casa vejo um artigo sobre blogs - foi a Inês antes de se ir embora que me chamou a atenção, sabedora da minha distracção, quase repúdio por revistas, um desagrado sem razão nem razões. (Porque será que revista para mim é viagem impessoal, fora disso poucas são as que agarro).
Volto ao artigo. A atenção é sobre os blogs políticos, da gente política famosa. Paupérrima abordagem, o facilitismo dos nomes é certo. Mas acima de tudo porque é jornalista procurando nos blogs o que de mais parecido há consigo mesmo, a coluna política. Enfim, o processo classificatório constante - a busca do idêntico: um turista, ponto final.
Nem um olhar sobre coisas que me parecem do mais interessante, a explosão da auto-edição. Entre o imenso que há pus uma série de gente aí sob as categorias "Contadores" e "Cantores" (a actualização é impossível; e desnessária, entra-se e depois é um labirinto de blogs a percorrer por cada um). Onde há coisas mais e menos para o meu gosto, mas esse é apenas o meu gosto. E mais dado à prosa do que à poesia.
O Alexandre Soares Silva que foi dos primeiros blogs do Brasil que apanhei, agora finalmente caído sob a atenção dos líderes de blogopinião e divulgado. E para aqueles lados gente menos conhecida, e de escrita não polemista, como o Vai Meu Filho, o Kafka Sumiu em Belo Horizonte e os outros blogs do seu autor. Em Portugal só como exemplo do meu gosto, o Caneta sem Tinta, o Pequenas Histórias, já para não falar do Ene, mas este já é afamado.
Nem uma palavra sobre algo que acho um máximo, o ecumenismo bloguístico, explícito na bela iniciativa do Terra da Alegria, visível em vários dos blogs seus participantes.
E os múltiplos blogs regionais (acomodei alguns em Colinas), a furarem a dicotomia entre locais e globais, sem tentativas desse "glocalismo" quase sempre falível.
Há tanta coisa por aí e os artigos/reportagens a ficarem-se nos blogoescaparates, por modorra claro, mas também por um vão politicocentrismo.
Enfim, ainda não foi desta que me afeiçoei às revistas.
De crucial importância a legislação da semana passada na África do Sul (The Traditional Health Practitioners Bill), o reconhecimento oficial como profissionais de saúde dos "sangoma", os curandeiros tradicionais sul-africanos .
O reconhecimento legal do "curandeirismo", de modo muito grosseiro definível como mescla da religião de ancestrais com ervanária, e a constituição de concelhos de controle e legitimação (atribuição de "licenças profissionais") da sua prática, é um passo fundamental. Porque quebra os preconceitos dominantes da "biomedicina" desvalorizadores das práticas médicas assumidas pela maioria da população, assim permitindo (incrementando? - não o posso afirmar de modo absoluto, não conheço a realidade sul-africana em detalhe) a sua integração na saúde pública.
E porque cria mecanismos auto-controladores do charlatanismo e, esperemos, de divulgação dos seus limites - veja-se a proibição da "cura" de doenças mortais como sida e cancro.
É um passo esclarecido.
Quanto à medicina tradicional refiro algo que considero fundamental. Com a praga da Sida ela surge como um poderoso, e quantas vezes único, produtor de esperança para doentes e seus familiares.
É uma situação limite. Pois por um lado é necessário combater a crença das possibilidades dos médicos tradicionais curarem a Sida, a cuja afasta doentes da medicina oficial e possibilita a disseminação da doença.
Mas por outro, dada a impossibilidade de cura e a desprotecção da população face à fragilidade dos serviços públicos e à renitência em praticar o sexo protegido, a medicina tradicional surge como único produtor desse recurso social fundamental: esperança.
A ver como corre esta integração na África do Sul.
Em Moçambique há longo tempo que estes passos, esclarecidos, foram realizados, com a oficialização dos curandeiros e a criação da sua associação regulamentadora, a AMETRAMO.
São visitas ao passado recente que me agitam o espectro da preguiça. Pois quando fechei a barraca pus tudo em rascunho, e agora tenho vindo a republicar texto a texto, devagarinho, com a tal preguiça. Enfim, um arquivo incompleto é o que para aí está. Tarefa a privilegiar nos tempos futuros.
Tenho sempre dúvidas de que alguém visite as Arcas ou o Celeiro destas Ma-schamba. E dos outros blogs também. Acho que as visitas preferem os últimos apontamentos, aqui e alhures. E isso é interessante, demonstra a vontade de actualidade dos leitores de blogs, assim aproximando estes de jornais mais do que de diários. E é uma pena, acho eu.
Por isso acho óptimo quando recebo qualquer sinal, explícito ou implícito, de que andaram a vasculhar no passado daqui. E disso acabo de receber um sinal explícito, um rarissimo comentário sobre texto antigo, este já de Dezembro passado.
Abaixo transcrevo a opinião expressa, pois presumo que poucos leitores vão até esse Dezembro. E porque muitos leitores do Ma-schamba recentemente me disseram que é necessário aceitar as opiniões alheias, que isso é "democrático" (ponho aspas porque multi-cito), aqui coloco uma que poderia passar despercebida, residente num arquivo pouco visitado. Ainda que a sua compreensão apele à leitura do tal velho texto. É uma opinião burilada, tal e qual outras. E, confesso, que me é refrescante, pois há que estar na moda, actualizado, e por isso cada vez mais gosto das tipologias, que tanto ajudam a... tipificar os outros. Ainda que não sirvam para mais nada.
Eis:
"ó homem, nao seja etnocentrico! O que ele (JAC) quer dizer é que emite para todos os portugueses emigrantes espalhados pelo mundo. Sao esses portugueses é que pagam a RTP. Ela nao se dirige aos seus camaradas pretos mas sim ás comunidades lusas. Essa sua cabecinha de libertario feito à pressao é que ainda esta cheia de teias de aranha do antigamente e fica logo a pensar em racismos e tretas dessas. Deixe-se disso, vá beber uma Sagres e roer um coirato, que isso passa-lhe! A muamba com peixe frito e aguardente dá cabo da figadeira."
Será isto mentira (e isto chama-se condições sociais do uso dos fármacos)? Será isto é uma vil campanha de alguns retrógados e desonestos profissionais de medicina apoiada por um jornal pasquim? Dou de barato.
Mas se for verdade alguém se importa de dar um pontapé no rabo dessa tonta borndiep? Imbecil, a falar sem pensar só para gozo próprio.
Há Mulheres Que Usam Fármaco para Abortar
Por CATARINA GOMES
Público
Sexta-feira, 10 de Setembro de 2004
e têm bebés prematuros
Em Portugal as mulheres não precisam que activistas holandesas lhes venham dar a conhecer que o misoprostol pode ser usado para abortar. A "prática é corrente" e o seu uso tardio leva a que mulheres usem este remédio para interromper a gravidez acabando por ter bebés prematuros com graves problemas de saúde, denuncia a presidente da Comissão Nacional para a Saúde Infantil e do Adolescente, Maria do Céu Machado, com base num estudo científico que coordenou.
A polémica foi lançada pela responsável da organização pró-aborto Women on Waves. Rebecca Gomperts disse, terça-feira, num programa televisivo português, ter adquirido misoprostol numa farmácia sem receita médica. Ensinou depois a melhor forma de abortar usando um fármaco comercializado em Portugal: a substância activa misoprostol que é vendida como Cytotec ou Arthrotec. No "site" da organização recomenda-se o aborto com recurso a este remédio até às nove semanas numa dose de quatro comprimidos de cada vez (www.womenonwaves.org).
Maria do Céu Machado, que é pediatra e neonatologista no Hospital Amadora-Sintra, afirma que dão entrada mulheres em trabalho de parto com "a vagina cheia de comprimidos de misoprostol", às vezes com "seis vezes a dose terapêutica", o que provoca "dores fortes" - "É tudo feito com muito sofrimento."
A responsável afirma que há "um número crescente de grávidas que fazem um uso tardio do fármaco, por vezes depois das 24 semanas de gestação (seis meses), não tendo noção da viabilidade daquele feto". O misoprostol isolado é pouco eficaz no primeiro trimestre da gravidez, com expulsão do feto em apenas 9 a 20 por cento dos casos. Nos segundo e terceiros trimestres é mais fácil induzir o parto, refere.
Como se trata de gravidezes não vigiadas, muitas mulheres ignoram quando ficaram grávidas. "Não percebem que "não vão expulsar um embrião mas um feto vivo e viável". "Para estas mães o nascimento de um filho vivo é uma surpresa com a qual têm grande dificuldade em lidar", salienta.
"Estas mulheres acabam por ficar com uma criança viva cheia de problemas de saúde", por vezes "sequelas neurológicas, como a paralisia cerebral". Os bebés nascidos desta forma adoecem mais com problemas cardíacos e pulmonares, refere a pediatra Manuela Escumalha, autora do estudo efectuado na Unidade de Neonatologia daquele hospital.
A investigação dá conta de 30 bebés com menos de 1,5 kg em que as mães admitiram o uso de misoprostol e comparou-os com prematuros com o mesmo peso nascidos de partos espontâneos. O período do estudo foi de 1996 ao fim de 2003. "São quatro crianças por ano num total de 80 crianças por ano com aquele peso." Ou seja, "cinco por cento dos prematuros com menos de quilo e meio nascidos naquela instituição durante aquele período foram resultado de abortos induzidos por misoprostol", refere a autora do estudo. Seria importante ter a dimensão do problema a nível nacional, acrescenta.
As conclusões têm base num estudo científico realizado no Hospital Amadora-Sintra. A tese de mestrado em bioética foi apresentada em Julho deste ano na Faculdade de Medicina de Lisboa por Manuela Escumalha e foi coordenada por Maria do Céu Machado. O estudo foi apresentado no Congresso Europeu de Perinatologia e deixou muita gente "estupefacta" com uma situação "muito grave", que revela "uma ignorância que é reflexo da falta de educação sexual e reprodutiva nas escolas, em pleno século XXI", reforça a autora.
São "crianças não desejadas" que em 30 por cento vão para a adopção e para instituições de acolhimento. Em 70 por cento dos casos as mães acabam por ficar com os bebés, acrescenta a investigadora.
Comprimidos a 7,5 euros
Maria do Céu Machado afirma que cada comprimido de misoprostol é facilmente adquirido no mercado negro a cerca de 7,5 euros, sendo fácil de comprar, especialmente "nos meios africanos e brasileiros", refere. É um pouco mais caro do que na farmácia. O Arthrotec custa entre 5 e 24 euros (dependendo do número de unidades de cada embalagem) e o Cytotec entre 10 e 26 euros.
O fármaco é de uso corrente pelos obstetras para provocar partos em tempo normal e para fazer os abortos previstos na lei (malformação do feto, violação e perigo para a saúde da mulher). "Quando o aborto é feito no primeiro trimestre é uma atitude pensada em que se medem os prós e contras"; nestes casos [os da automedicação] "parecem quase tentativas de suicídio, quando o companheiro as deixa ou ficam no desemprego", considera Maria do Céu Machado.
A pediatra afirma que este uso coloca questões éticas que foram levantadas neste estudo: "Estamos a fazer reanimação de crianças prematuras que não são desejadas pelas mães..." Nos Estados Unidos, nestas situações, pergunta-se aos pais se autorizam a reanimação.
A médica afirma que há que pensar se este fármaco deve ser apenas de uso hospitalar, para dificultar a sua venda clandestina. Mas a principal questão passa pelo reforço da educação sexual e reprodutiva. "Estamos a meter a cabeça na areia, sem barco ou com barco, quanto mais se discutir melhor", remata.
Fala-se muito de causas. Há uma cosmologia de causas. Há, e é evidente, uma blogocosmologia de causas no meu Portugal.
E depois há causas, que são também perguntas. Neste caso os alimentos transgénicos e a sua exportação / experimentação através dos programas de ajuda alimentar, muito bem lembrada pelo Blogo Social Português. Estas causas sim, a serem, realmente, discutidas. Haja gente.
Sobre esta matéria há alguns argumentos contraditórios. Eu sou leigo, mas profundamente desconfiado. Claro, tenho referido aqui o meu crescente conservadorismo. Num caso destes as opiniões (grátis, como todas) têm que ser cientificamente fundamentadas, o que não as torna nem certas nem absolutas, apenas honestas.
O que nunca poderá ser aceite como honesto é a obrigatoriedade dos países pauperizados aceitarem (?!) ser cobaias via recepção dos excedentes dos países industrializados. Ou, doutra forma, serem consumidores/viabilizadores de uma (agro)indústria em arranque, e deste modo financiada pelos Estados (liberais???), enquanto não houver nesses países industrializados um contrato social interno sobre esta matéria.
Aos sessenta minutos do Portugal-Estónia. Contributo imortal de Luís Baila para o futebolês:
"Esta equipa joga sempre com dez jogadores atrás da linha da bola e agora, no canto, com onze"!
Absolutamente incontornável este iluminado texto no Céu Sobre Lisboa.
E, em minha opinião, demonstrando que a questão é outra, e não tanto aquela que tem vindo a ser gritada. Porque o objectivo do grito é também outro, e não tanto aquele que tem vindo a ser gritado.
É mais a televisão que me traz ao ouvido gente do interior de Portugal ou desses litorais que não são os meus. O que os traz cá a casa são os incêndios, as cheias, um mais macabro assassinato, afogamentos, a visita de algum dignitário, uma qualquer indignação tipo "de freguesia a concelho, já", a vitória do clube da região, coisas dessas, do local, que o para o geral há outros que o pensam.
Chegam eles com os seus sotaques carregados, nem precisam de ser ilhéus, portugueses aquele bocadinho diferente pelo som, pelas entoações, expressões ditas "o vernáculo", até caretas e já nem digo vocabulário e sintaxe.
Comentar isso, afivelar sorriso público com tais falares? Nem pensar, aceitar a diferença é bom, é valor. Ainda para mais esta, mera herança das gentes, como posso eu sorrir com o falar do povo, tão legítimo exactamente porque do povo, tão legítimo porque herdado, os sons de antanho, coisa imorredoira e nunca estratégia. Natural, pois então.
Mas se me chega a pronúncia de alguns urbanos, carregada, um português aquele bocadinho diferente pelo som, pelas entoações, expressões, até caretas e já nem digo vocabulário e sintaxe? Toca a rir desse sotaque, a invectivá-lo. Pois não é "natural". Pois nele não é mera herança, não são os sons do passado, aquela natureza dos simples. São estes sons coisa estratégica, construída, mero modismo.
Pois, e sabe-se, tal como Deus Nosso Senhor o sabe, o povo é passivo, e também nos seus sotaques, é essa a sua natureza. Só os ricos, burgueses, são activos, estratégicos, nada dados ao que neles é puro e são. E, claro, são-no também nos seus sotaques.
Gozemo-los pois, a esses ricos, a essa gente da cidade grande, à sua pronúncia. Construída. Se falsos até no som, quanto mais serão naquilo que entoam.
Sim, gozemos, desmascaremos. É nossa obrigação, nossa missão, nós que nascemos bem, nós os sem-sotaque, reduzir esse linguajar novo-rico e acarinhar os falares naturais e simples, e ainda por vezes a estes elevar, traduzindo-os.
(Por vezes à noite tremo: e se Junot regressa, com as suas guilhotinas?)
Nota: não há nenhuma ligação (vulgo "link"). Pois nós escrevemos vários posts em vários blogs, nós temos muita palavra. Pesada, concisa. E, claro, sem sotaque.
Ontem cumpriram-se 30 anos sobre o Acordo de Lusaka. No qual se consagrou a Frelimo como o movimento político moçambicano, ultrapassando a vontade de alguns em proceder a referendo/eleições, e onde se marcou a modalidade de transição para a independência e a sua data. Data simbólica, a protocolizar o fim de décadas de colonialismo, quase um século em algumas regiões.
Nessa data também se deu o ínicio do último estertor do regime em Moçambique, com o sonho breve, e já em desespero, de uma Rodésia em português.
Há muitas versões sobre esta última matéria. E em Portugal um relativo silêncio.
Como memória aqui transcrevo William Minter no seu "Os Contras do Apartheid" (Maputo, Arquivo Histórico de Moçambique, 1998: 13):
"7 de Setembro de 1974: em Moçambique colonos brancos exaltados ocupam a estação nacional de rádio protestando contra o facto de Portugal ter concordado com a independência, decorridos dez anos de guerra. Ao grupo FICO e a ex-comandos auto-apelidados de "Dragões da Morte" juntam-se uma mão-cheia de negros opostos à Frelimo, que lutara pela libertação do país. Os manifestantes afirmam querer também um Moçambique independente, só que sem ser governado pela Frelimo. Mas a bandeira que empunham é a de Portugal.
Os rebeldes libertam membros da antiga polícia política que entretanto haviam sido presos. Vigilantes brancos circulam pelos subúrbios africanos, disparando contra civis negros. Em algumas zonas os negros retaliam com paus e catanas. Colonos que haviam partido para a Rodésia e para a África do Sul começam a regressar a fim de apoiar a rebelião. Segundo números oficiais, nos dias que se seguiram morreram catorze brancos e setenta e sete negros. Segundo rumores, houve centenas ou, mesmo, mais de um milhar de mortos."
Continuação: Em forma de comentário o Rui deixou este trecho e ponho aqui mais visível:
"Quando se esboroa um império, quando o poder cai na rua, a densidade histórica espessa-se mas, paradoxalmente, os testemunhos extremam-se e impera subjectividade. E quando o que está em causa é o próprio âmago do Poder, as provas materiais do registo histórico, a documentação oficial e outros registos da mesma proveniência, deixam de existir porque o poder que as instituiu também deixou de existir.
Tudo isto para te dizer, Meu Caro Amigo, que essa história do 7 de Setembro de 74, tal como até agora nos tem sido transmitida, seja pelos saudosistas do regime colonial, seja pelos empenhados e militantes Minters deste mundo, está demasiado a «preto e branco». Um dia, mas só daqui a muitos anos, descobrir-se-á uma outra leitura dos factos."
Mais do que agradeço o ponto. Há várias versões (aliás como sempre na história), li muito poucas, ouvi uma mão-cheia. Bocados da história a desenvolver sobre a memória existente.
Registo aqui que o Carlos Gil evocou a data.
Em comentário recente a IO, amiga da casa, dizia que apesar da sua memória afectiva de Lourenço Marques e da sua Sé não gostava da Praça.

Pois...ei-la, no seu estilo magestático, o ritual do Império. Ao cimo o então Palácio da Câmara Municipal (hoje Conselho Municipal), a seu lado a Igreja protectora, no centro Mouzinho, a enigmática personagem que a necessidade de mito tornou Conquistador. Ali altaneiro protegendo a Baixa (então coração) da Cidade - o Marquês de Pombal em África, impossível não associar.
Tudo isto olhando o braço de mar e, para lá, a terra dos Tembe.
Hoje Mouzinho repousa, digno, ao fundo da avenida, no centro da Fortaleza pastiche. E a Praça leva o nome de Independência.
[Fotografia de Carlos Alberto, retirada de Fernando Couto (coord.) Moçambique. Imagens da Arte Colonial, Maputo, Ndjira, 1998]
A concordar com o Aviz: os caminhos que têm aproximado o Brasil de Lula a África, e aos países de língua oficial portuguesa, são etapas do protagonismo desejado pelo Brasil no eixo Sul-Sul.
A "CPLP" é aqui um instrumento nesse caminho. Nada que a minore. Ela, em Portugal, também é semi-assumida como um meio de (algum)protagonismo no eixo Norte-Norte.
Digo semi-assumida pois a CPLP nunca foi realmente assumida. Será (ou já é?) um interessantissimo objecto de estudo da história portuguesa.
Entretanto, e nesse comboio político-diplomático, as relações comerciais do Brasil com Moçambique cresceram e muito. Os produtos brasileiros, baratos e de mais qualidade do que os orientais, enchem os mercados de Maputo. Presumo que o mesmo esteja ou venha a acontecer em outras paragens africanas.
Bons sinais. Mas serão economicamente sustentáveis? E politicamente, este sul-sul resistirá ao fim de Lula?
Quanto à CPLP, tal como diz o FJV, é outra conversa. Mas nunca será conversa enquanto houver "rivalidade" Portugal-Brasil. Que é o que há, diga-se.
Adenda: o meu amigo Fernando C., o qual não imaginava entretido com bloguices, enviou-me texto com relação a esta matéria. Uma entrevista com André Malamud, publicada no Portugal News, a revista do ICEP. Abaixo transcrevo o texto.
Entrevista com André Malamud: A Europa e a América Latina
Progressionismo e neo-liberalismo na América Latina, os casos do Chile e da Venezuela e as aspirações do Brasil a potência liderante, em entrevista do politólogo argentino ao DN
Que significado tem, para a América Latina, o referendo na Venezuela?
O referendo venezuelano, para além do resultado, é uma boa notícia para a América Latina. A boa notícia é o acentuar do facto de que o voto é o único instrumento válido para mudar ou manter Governos. Que se questione a transparência das eleições e não a sua legitimidade é já grande avanço, em termos de institucionalidade democrática. Na Venezuela, o futuro depende da vontade dos sectores em que se dividiu o país de tolerar o outro - e o direito de este governar caso ganhe eleições. Mas a experiência chavista, pomposamente chamada de revolução bolivariana, dificilmente se difundirá pelo Continente. Além do petróleo, nada mais tem a oferecer do que sonhos de grandeza.
Diferente do caso venezuelano é o dos grandes países do Mercosul. Quando Lula, no Brasil, e Kirchner, na Argentina, assumiram a Presidência houve uma aproximação. Mas o discurso inicial acabou por se diluir.
Há uma certa afinidade ideológica e pessoal entre os presidentes Lula e Kirchner. O problema é que as questões estruturais do Brasil e da Argentina são muito diferentes. E a primeira diferença é que o Brasil tem uma política externa com continuidade - além dos Governos e até além dos regimes - e na Argentina ela muda. Não só quando se passa da ditadura para a democracia, mas mesmo em Governos do mesmo partido - peronistas, como Ménem e Kirchner, têm políticas externas diferentes. Lula e Kirchner têm ainda uma antipatia comum pelo unilateralismo, embora um e outro tenham tido boas relações com Bush.
Os discursos conjunturais são diferentes, interesses a prazo também.
O discurso conjuntural é diferente. O Brasil tem um acordo com o FMI, enquanto a Argentina tem de negociar a sua dívida externa e o Brasil não quer ficar colado. O interesse a prazo do Brasil não é negociar um acordo com os EUA, é ter um lugar no mundo, a começar por um no Conselho de Segurança. As palavras são bonitas, os interesses divergentes.
Aprofundar o Mercosul diluiu-se também na estratégia externa de Lula?
A estratégia do Brasil, nesse sentido, é considerar que sozinho não tem o nível de uma potência mundial. Mas com a América do Sul, sim - fala claramente da América do Sul e não da América Latina. De resto, o México e a América Central ficaram de fora, preferem os EUA, e o Brasil tem capacidade de influir apenas sobre o espaço sul-americano. A Argentina é a parte que falta ao Brasil para ser uma potência crível. Mas, para a Argentina, tal não é incondicional. Também quer um assento no Conselho de Segurança, etc.
Daí a busca de outros acordos a Sul?
Por isso, o Brasil quer fazer acordos a Sul. Com a África do Sul e com a Índia, as grandes democracias africana e asiática, com a China, um grande mercado, e com a CPLP, embora de menor importância. Mas tal não quer dizer que o Mercosul seja secundário, é prioridade para o Brasil. Mas é enquanto serve o seu interesse permanente de obter um lugar no mundo. A questão é saber se pode pagar isso.
Um debate antigo no Brasil...
O Governo anterior, pela voz do ministro Luís Fernando Lampreia, disse um dia: «Era muito bom liderar a América do Sul e ser uma potência no mundo, mas não podemos pagar isso». Lula acha que sim e procura apoio de outros países. A minha percepção é que o Brasil não pode pagar a liderança.
A posição do Chile parece dúbia no contexto latino-americano. Aproxima-se do Mercosul, depois assina um acordo com os EUA.
O Chile é um dilema para todos os que acreditamos na integração regional, porque mostra que se pode progredir sem integração regional. O Chile é por uma integração mundial, mas em termos de negociação bilateral com cada actor importante: EUA, União Europeia, Coreia, China, até o Mercosul. Mas o Chile nunca traiu. Sempre disse que se o Mercosul fosse uma história de sucesso, solicitava o ingresso. O Chile, de resto, é uma história de sucesso muito particular na América Latina. No continente haverá só três países, entre os 20 da América Latina, que têm possibilidades de sucesso: o Chile, o Brasil e o México. O resto está dependente da situação internacional e da capacidade de atracção de cada um destes três países. O Brasil pode atrair, o México também, mas escolheu ser atraído pelos EUA. Uma opção racional: a sua economia depende em 90% da americana.
Nesta fase de transição de Governos liberais para outros de centro-esquerda, há um caso interessante: o de Hugo Chávez na Venezuela. Mas ninguém, neste momento, se quer aliar a Chávez.
Chávez tem limitações domésticas e não pode aspirar à liderança regional. Há problemas estruturais, que afectam a visão de liderança. A Venezuela é um país pobre - tem 80% de pobres, uma tremenda fraqueza institucional, uma Constituição que muda o nome da República sem consenso. E, portanto, incapacidade para manter a longo prazo uma política coerente.
Há ainda a componente externa.
Chávez escolheu uma espécie de parceria ou aliança com Fidel Castro, que o deixou ainda mais isolado. Se alguém alguma vez falou de um eixo Cuba-Venezuela-Equador-Brasil-Argentina, enganou-se. Nada disso se passou. No Equador, o Presidente apoiado pelos índios decidiu alinhar-se com os EUA. Brasil e Argentina decidiram também ficar no mundo: negoceiam, não concedem gratuitamente, mas estão do lado de dentro. Chávez escolheu o lado de fora.
Como vê as recentes mudanças no xadrez político da América do Sul? Chávez na Venezuela, mudanças de Governo na Argentina, um Presidente socialista no Chile, mudanças na Bolívia, maior poder dos indígenas no Equador. Tudo muda para que tudo fique igual?
Em geral, a região mexeu-se por vagas. Quando um adoptava a democracia, adoptam todos. Se um voltava atrás, voltavam todos. Agora já não é bem assim. Há países bem sucedidos, países incertos e países falhados. Falhados no sentido em que a próxima geração será mais pobre do que a actual, o que é admitido pelas Nações Unidas. A maioria dos países que não têm futuro na próxima geração estão na região andina e na América Central. Os países bem sucedidos, por agora, são o Chile, o Brasil e o México. Os países que não sabem ainda o que lhes poderá vir a suceder são a Argentina e o Uruguai.
Falou da região andina - Bolívia, Equador, Peru - países de maioria indígena. Na Bolívia, um índio, Evo Morales, pode vir a tornar-se Presidente.
No Peru, o actual Presidente é um cholo, um mestiço. Se o mundo continuar a ser o que é, os indígenas até podem chegar ao Poder, mas têm de aplicar certas regras - há questões práticas e questões estruturais. Como em todo o lado, seja- -se marxista ou conservador, são poucos os que governam e muitos os que obedecem.
Como vão as esquerdas e as ideologias na América Latina?
Uma questão interessante essa das ideologias. Lagos, o Presidente socialista do Chile, já disse que o progressismo actual visa criar igualdade de oportunidades, o mesmo que dizia Adam Smith há 250 anos. As esquerdas são... liberais. Uma coisa não muito diferente da Europa, com o liberalismo socialista ou o socialismo liberal. Mais interessante, ainda, é o que disse há pouco tempo Alan García, o antigo presidente aprista (socialistas) do Peru: progressista é aquele governante que atrai capitais. Interessante, ainda, é o facto de, na América Latina, ninguém que seja de centro-esquerda o admitir, auto-proclamando-se progressista; e os direitistas chamam-se a si mesmos centristas. As palavras iludem, porque estão, em parte, associadas a falhanços históricos. Aqueles que aprenderam, que estão a fazer alguma coisa agora, são os que passaram por dramáticos problemas no passado. É o caso chileno.
E a Argentina, saída também de uma ditadura militar, o que aprendeu?
A Argentina parece ter aprendido também. Apesar do falhanço da Aliança - a coligação, dita progressista, que governou entre 1999 e 2001 e acabou no meio de um colapso político e económico. E, apesar do peronismo, que foi de direita e é de esquerda, no espaço de dois anos. Mas existe uma democracia, existem instituições e não se massacram pessoas nas ruas por motivos políticos - o que representa uma melhoria. Desde 1983, a Constituição é respeitada. O continente tem países mais estáveis.
Há ainda a fragilidade do Estado, característica muito comum na América Latina. Daí o falhanço das políticas neo-liberais?
Essa é a questão-chave. Na Europa, discutem-se políticas dentro da democracia. Na América Latina, durante anos, discutiu-se a democracia - das políticas não se falava; não era claro se era o povo que escolhia, se os militares. Atingida a democracia, pensou-se que éramos democracias normais e que poderíamos discutir políticas. Mas descobriu-se que falta o instrumento - o Estado. Um partido político ganha uma eleição, entra no carro, pega no volante e vira à direita ou à esquerda, mas o carro não tem motor e não se move. O motor é o Estado - aquilo que faz o carro andar. Só quando este andar, podemos ir para um lado ou para o outro. Descobrimos, portanto, que não havia Estado e é em parte por isso que chegamos ao neo-liberalismo. Thatcher ou Reagan, ao diminuírem o peso do Estado na economia, fortaleceram o peso total do Estado, em termos de capacidade de intervenção externa e interna. Em termos externos, por exemplo, os EUA venceram a Guerra Fria. Em termos internos, o Estado tinha Poder para dividir a mais importante multinacional americana, a Microsoft - e só o não fez por mudança de Governo; não por fraqueza. Na América Latina isso é impensável. O Estado não tem poder para fora e nem para dentro. Diferenças de partido e de ideologia contam pouco.
Até nos países mais bem sucedidos?
Claro que não é igual em todo o lado. O Estado chileno é forte, o que se discute é a força da sociedade civil. Na Argentina, há um Estado falhado. No Brasil, há um Estado muito forte em determinados aspectos e fraco noutros. Forte funcionalmente, mas fraco territorialmente, há zonas onde não chega - as favelas das grandes cidades, a Amazónia, etc. Na Colômbia é tudo muito claro, metade do território está fora da influência do Estado. A grande questão, agora, é a reconstrução do Estado.
E o neo-liberalismo foi uma resposta?
Sim. Mas, em muitos países, foi uma resposta errada, porque foi mal implementado. Quando se diz que o neo-liberalismo foi um falhanço, há um erro de generalização. No Chile funcionou bem, falhou na Argentina. No Chile, de resto, funcionou a ditadura e funciona a democracia. Na Argentina, nenhuma das duas. O Brasil é um caso intermédio. A ditadura funcionou relativamente bem com um Estado desenvolvimentista, a democracia funciona relativamente mal, há muita exclusão, mas ainda com um Estado desenvolvimentista. Há uma continuidade - o Estado. E uma mudança - o regime. A mudança de regime teve menos efeito do que se pensava. Durante a ditadura, nós, os democratas, pensávamos: com a democracia estará tudo solucionado. Vimos que não era assim.
«Na América Latina só há três países bem sucedidos»
Doutorado em Ciências Políticas e Sociais pelo Instituto Universitário Europeu de Florença, Andrés Malamud, argentino, 36 anos, é investigador no Centro para Investigação e Estudos em Sociologia (CIES), do Instituto Superior de Ciências do Trabalho e da Empresa, em Lisboa. Foi, até há pouco, professor na Universidade de Buenos Aires. No CIES, coordena um projecto sobre a Europa e a América Latina - área de interesse que inclui a integração regional, os partidos políticos e a comparação entre as instituições democráticas. Tem matéria publicada em livros e revistas dos EUA, Europa e América Latina.
«O único país a não beneficiar com o ALCA é o Brasil»
Que representa o projecto do Acordo de Livre Comércio das Américas (ALCA) para a América Latina?
O ALCA pretende ser um acordo de livre comércio, não tem mais pretensões do que isso. Depende, sobretudo, dos EUA e do que eles possam oferecer. A maior parte dos países da América Latina - segundo os próprios estudos económicos da ONU e da CEPAL, sem ter nada que ver com ideologia - beneficiária do acordo. Porque esses países têm produtos primários que não são competitivos com os produzidos nos EUA. E, sobretudo, porque são escassos. Os EUA podem permitir-se conceder mercado aos produtos destes países. O único país que não beneficiaria com o ALCA é o Brasil, porque tem uma indústria mais desenvolvida e mais competitiva em certos aspectos que a dos EUA. Mas pode beneficiar com ele, se houver uma modificação dos termos, isto é, se os EUA abrirem certos mercados. O anterior presidente do Brasil, Fernando Henrique Cardoso, foi muito claro: «Se os EUA abrirem o seu mercado de aço, calçado e sumo de laranja, eu assino hoje o ALCA». Enquanto os EUA não fizerem isso não faz sentido, porque eles querem vender, não querem comprar.
A velha questão do proteccionismo...
Nós, os latino-americanos, temos muito a ganhar com o livre comércio, o problema é o proteccionismo, e essa é a discussão do ALCA. Se nos abrirem mercado nós fazemos tudo o resto. Porque estamos a falar de um imenso mercado. Os EUA representam 32 a 33 por cento do mercado mundial e 75 por cento do mercado dos 34 países da América. Vendendo nesse mercado, nós não precisamos de mais nada. A questão é que os EUA querem vender e não querem comprar, são mercantilistas. E não são apenas os EUA, o problema é também com a União Europeia. A UE está baseada na política agrícola comum...
Há a tentativa de estabelecer um acordo com a UE, mas também há o proteccionismo europeu.
Os europeus querem também fazer negócio. E para isso querem que o Brasil abra o mercado de investimentos, de telecomunicações, etc. O Brasil responde: nós abrimos, mas deixem-nos vender-lhes leite, açúcar. Algo que os europeus não podem. Eu acho que o cenário provável é que o acordo com os dois espaços - ALCA e UE - seja light, que cada lado ofereça pouco e diga que tudo se irá resolvendo no futuro. O Mercosul e, sobretudo, a América Latina têm mais simpatia pela UE do que pelos EUA, que têm uma história de intervenção no Continente. Mas a simpatia baseada na ideologia precisa de um substrato material, que até agora a UE não ofereceu. A UE é um produto de três factores: o sentimento de culpa alemão, o dinheiro alemão e a capacidade francesa para combinar um com o outro. Na América do Sul não há nada parecido. O Brasil não tem esse percurso histórico e não tem dinheiro; a Argentina não tem a capacidade diplomática francesa. O desenvolvimento do Mercosul fica atado ao desenvolvimento económico, não há decisão política que possa superar isso. Brasil e Argentina vão falar muito de moeda comum e de parlamento comum, é só conversa. Não há substrato suficiente para fazer avançar o Mercosul, até que os países cresçam
[António Rodrigues, José Manuel Barroso, Diário de Notícias, 31-08-04]
Pois o Expresso apresentou essa inenarrável capa, "Morre-se mais na estrada do que no Iraque". Escrevi aqui sobre isso, transcrevendo carta de leitor que lhes enviei, explicitando o meu espanto pelo apagar dos mortos iraquianos numa guerra. Grotesca forma de pensar. Inqualificável racismo.
Claro que não posso exigir a publicação de uma carta de leitor, ainda para mais minha. Mas poderia esperar uma nota própria do jornal sobre o assunto.
Na edição on-line nada. Um inacreditável nada. No papel alguma coisa?
Se também aí nada então o Expresso explicita não ser distracção esse, muito pouco subliminar, pensamento racista, essa negação do iraquiano, do "Árabe". O silêncio sobre o assunto afirma-o um projecto, explícito.
Pouco tenho com isso, cada um como cada qual. Mas já me surpreende que no próximo sábado mais de cem mil dos meus compatriotas, tantos deles educadissimos pais e mães de família, vão comprar um jornal que deixa transpirar tamanho preconceito "rácico".
Ou será que a peçonha racista é, afinal, um truque de mercado? Porque absolutamente partilhada com a educadissima clientela?
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No mercado o mais eficiente dos protestos é a não aquisição.
Lembro que há muitos anos me fui cansando do Independente, ainda de Paulo Portas. Gente óptima a escrever, mas imensas tolices. A que mais me repugnava era a imbecil corrente monárquica, veiculando as ideias mais abstrusas, oscilando entre o então solteiro candidato ao trono e um seu primo.
Mas não era suficiente para abandonar o jornal.
Uma semana a manchete era explícita, na guerra a Cavaco Silva, jogando na insegurança: "Gangs de Negros em ...", mais ou menos isso.
Nunca mais comprei o jornal, e já lá vão mais de dez anos acho eu.
Pois um racista é um filho da puta (Ai, ai, os insultos do zé teixeira). Escreva ele no independente do antes ou no expresso do hoje. E o comprador distraído, seja do independente do antes ou o expresso do hoje, dele é cúmplice.
Calma, um racista pode ser só um pobre ignorante. Aceito. Mas então que vá para a escola e deixe os jornais ("de referência" - LOL como escrevem os gajos dos nicks) para quem já sabe assinar.
No seguimento da conversa sobre livros moçambicanos e a publicação de algumas obras em Portugal pela editora "Ela por Ela", o visitante António Jacinto Pascoal aqui deixou em comentário um texto relativo à obra "As Clandestinas", da autoria de Ana Barradas, uma publicação dessa editora.
Desconhecia a existência deste livro, aliás tal como a da editora (custos da emigração?). Por isso mesmo dobro os agradecimentos aos comentários a Ana Barradas (como editora) e a António Jacinto Pascoal. E trago o texto deste último para letra mais visível. Já agora, se tiverem imagem digitalizada do livro enviem que eu coloco. E a "Ela por Ela" tem sítio informático? Pode ser que passe por aqui alguém interessado no catálogo.
E aos agradecimentos junto o aviso: esta casa está aberta, estas ma-schamba precisam de quem venha por "ganho-ganho".

As Clandestinas
Encontra-se à venda, a partir do dia 14 de Junho, o livro «As Clandestinas» (Ed. Ela por Ela), de Ana Barradas, obra essencial para a compreensão da dimensão oposicionista ao antigo regime salazarista e do fenómeno da clandestinidade.
O que é espantoso nesta obra é a virtude de cada parágrafo condensar uma enorme quantidade de informação, transmitida de forma simples, o que implica um significativo esforço de recolha e tratamento de dados, para além de uma sobriedade narrativa que quase atenua a dimensão vasta da informação, ainda que reportada a um período limitado. Fica-se com a sensação de uma leitura escorreita, sobre um tema que se poderia pensar, à partida, pouco produtivo, porque linear. Ao contrário, é-nos apresentada, sem concessões a liberdades emotivas ou a curiosidades exóticas, uma visão multifacetada (a mulher-mãe, a mulher e os filhos, a sexualidade e a moral comunista, a mulher-militante, a mulher-solteira, a mulher-não politizada, a redactora do 3 Páginas; e outras cambiantes) de uma realidade até aqui quase oculta: o envolvimento das mulheres nas actividades clandestinas e conspirativas da oposição ao Estado Novo, sobretudo na ligação ao Partido Comunista.
E é exactamente a vertente de «retaguarda» da clandestinidade que este livro, meritoriamente, desoculta, pois que trata duas formas de clandestinidade: a política e oposicionista, por um lado; a feminina e sustentacular, por outro. De facto, o papel destinado à mulher, designada como «camarada das casas do partido», tem sido subestimado (foi-o, em parte, naquela época) ao longo do tempo, mas verifica-se aqui como parte fundamental de uma empresa que o PC manteve durante décadas e sem o qual toda a estratégia do Partido seria impensável. Nomes como o de Aida Paulo, Odete Santos, Albina Pato, Maria Lamas, e tantas outras, saem de um anonimato e desenham a traços imperceptíveis o retrato de heroínas esquecidas.
A leitura parece-me obrigatória. A partir daqui estão traçados os caminhos para uma releitura dos tempos da clandestinidade e fundadas as bases para o surgimento de novos dados que a história teima em esconder.
António Jacinto Pascoal
Professor
Arronches
Li há algum tempo num jornal (portanto vale o que vale) que no Egipto se pratica o aborto preferencial aos fetos femininos. Há anos li um livro de Amin Maalouf ficcionando a mesma realidade na China, "O Primeiro Século depois de Beatriz" (?, não me lembrava do título, fui ao google. Aliás não aprecio Maalouf, para além do "As Cruzadas Vistas pelos Árabes" e este apreço não é por razões literárias).
Ou seja, dentro de um quadro de valores locais quanto a expectativas sobre recursos e disponibilidades económicas e afectivas, as famílias ponderam e abortam preferencialmente as possibilidades de vida feminina.
Vamos defender? Vão as organizações pró-escolha ou as organizações femininas defender? Claro que não. Vão criticar. Devido aos critérios que subjazem a prática abortiva.
Então e os critérios próprios? Materialistas, psicologistas. Não são eles próprios criticáveis?
Não. Porque, como é óbvio, os nossos critérios são sempre os justos ou os inevitáveis. Só os alheios estão errados. Ou são evitáveis.
Aborto sim ou não? A possibilidade de abortar, em casos não terapêuticos.
Para mim é o maior obstáculo intelectual. Moral. Nada como isto me impede a coerência. Nada como isto me destrambelha o raciocínio. Me desassossega.
Mas já há meses aqui o escrevi. Sou contra o aborto mas passível de o praticar. Nunca abortei, acasos da vida decerto, mas já me ofereci para pagar um, não sendo o pai (o miúdo está aí, medrou bem).
Mas com a consciência de que é o acto mais abjecto que se pode fazer. Mais nojento, mais inumano.
É até mais nojento do que defendê-lo, do que dizê-lo um direito. Consegue mesmo ser isso.
Mas não somos nós apenas uns animais abjectos? Que devoram as suas crias?
Não. Pensando bem não! Os animais nunca são abjectos. São animais.
É essa a sua dignidade.
É essa a nossa dignidade. A única.
O Aborto existe, é real.
(Bem, talvez menos que antes, talvez não, não sei)
Houve um tempo, quando eu era miúdo, que se falava em mudar o real.
Passou muito tempo, e nem reparei bem. Estou velho.
Sobre esta crença, a de que resume a questão do aborto a um assunto das mulheres e do seu corpo, a uma responsabilidade e direito individual.
Quero aqui citar um grande professor meu, que quase certo não concordará comigo neste aspecto e que se souber que o cito a este respeito há-de pensar que me estou a apropriar das suas ideias e a perverter o seu sentido. Ainda por cima porque cito (o que é traição pior do que traduzir, pois soma o cortar ao descontextualizar e ao enxertar). Além disso o que abaixo transcrevo não foi escrito, nem de perto nem de longe, sobre esta matéria.
Com estas (respeitosas) ressalvas aqui deixo este trecho:
"Torna-se necessário relembrar a necessidade de um distanciamento crítico por relação à ideologia individualista que caracteriza a modernidade ocidental. Um dos seus processos centrais é a naturalização da identidade pessoal através de uma atribuição de maior verdade à pessoa física do que aos laços sociais. Erigiu-se todo um edifício médico-legal cuja principal finalidade é radicar os laços sociais em laços ditos "biológicos", considerados mais verdadeiros (por serem "naturais" e, portanto, por um lado, não arbitrários e, por outro, supostamente comprováveis por meios científicos).
(...)
Com esta naturalização da pessoa física combina-se uma concepção dos fenómenos culturais como essencialmente radicados na consciência e emoções individuais"
(João de Pina Cabral, O Homem e a Família, Lx, ICS, 2003, 154-155)
O aborto tem a ver com a mulher, ela é dona do seu corpo.
Eu sou pelo Estado regulador. Interventor. E não me parece estar sozinho nisso. E portanto sou pela medicina pública. Eu quero entregar parte do meu corpo aos cuidados da minha sociedade. Eu quero que me protejam a saúde e a vida enquanto for possível e aprazível. [Pela eutanásia, pelo suicídio assistido, claro - apesar destas não serem causas fracturantes, pois claro os terminais não têm energia para manifestações]
Mas se as mulheres acham que o corpo é só com elas, então quando tiverem cáries, pernas partidas, varizes incómodas, tumores benignos, enxaquecas, diabetes, cancros, sei lá, tudo o que aparecer, amanhem-se: os corpos são delas, se estão fora da sociedade então a sociedade nada tem a ver com as suas maleitas.
Não venham para os nossos hospitais. Dos meus impostos não, sff.
Des-sacralizar o real. Des-naturalizar o real. Em tempos isso foi um projecto.
Imaginar esse real foi importante. Imaginar, dar imagem.
Quando se nega a SIDA, ainda para mais doença tão pouco atreita a abordagens moralistas, que fazer? Mostrar os efeitos, mesmo chocando os valores ocidentais de esconder doença e morte, coisas ditas "privadas"?
[Ainda há dois anos Maputo acolheu uma terrível exposição fotográfica sul-africana nesse sentido]
Quando se combate a destruição da floresta virgem e da fauna nela acolhida, que fazer? Mostrar, mostrar, mostrar [e quanto falta mostrar para evitar o fim total].
Quando se combate uma guerra dar imagem ao sofrimento. Ainda que isso, por vezes, olvide as razões . Ou que as desenterre.
Se se fala da selvática caça às focas, aos golfinhos, às baleias, que mais vale do que mostrar as imagens?
Se temos uma vaga de desempregados ou refugiados, não há que mostrar as imagens?
Se queremos falar de direitos de animais não será de mostrar aviários e matadouros?
A imagem, a fotográfica, em movimento, o Goya e o Picasso, sempre vista como um instrumento legítimo de causas. Sejam quais forem, mesmo que não concordemos com elas. Ou que procuremos discutir a sua pertinência.
E sempre criticando os que as querem esconder, aqueles que as dizem "demagógicas" porque não apelam à reflexão, porque imediatas. Claro que imediatas, aparentemente não mediatizadas por um discurso (aparentemente, que a imagem é discurso, claro).
Súbito do mesmo molde sociológico, sempre imagi-nativo, uma mole de discursos contra a utilização de imagens. Porque demagógicas, porque a imagem não leva à reflexão, etc.
Estou, claro, a falar de quem acha negativo, demagógico, mostrar a imagem de fetos abortados.
Mas que amanhã estarão de acordo com as outras imagens.
Que concluir?
Perguntei-me por aí, em comentário a elogio a um post que achei demagógico: será Portugal ainda um país de Catarinas Eufémias, com a canga de séculos de exploração classista e machista, carregando hordas de filhos indesejados e famintos à ilharga?
Ou, e isso já não o disse por lá, não estarão as suas netas todas acumuladas ao lado do Shopping de Almada, vivendo no país que volta e meia tem a mais baixa taxa de natalidade da Europa?
Exploradas? Claro. Apesar do nevoeiro da TV+bola+shopping+causas fracturantes.
Mas Catarinas Eufémias? Haja respeito pelas suas avós...
Se para viver é preciso ter assegurado tanto item a priori, e se os direitos humanos devem ser universais...
Caminho por esta terra, e poderei fazê-lo por tantas outras (sim, de novo naquilo a que os ignorantes chamam, desconfortáveis, "exótico"), as pessoas que me rodeiam, ricas e pobres, doentes e saudáveis, miseráveis e felizes, escolham mais polos que não o são porque tudo cabe nestas vidas, as pessoas, dizia eu, destas quantas teriam nascido?
(Eugenia? não é uma coisa das raças?)
Não, estou diante de uma eugenia de tipo religioso, profético.
Na defesa do direito a abortar normalmente surge o repúdio pelo discurso religioso. Melhor dizendo, o repúdio por algum discurso cristão radical.
Mas parece-me que uma perspectiva que desvaloriza "possibilidades (embrionárias) de vida humana" devido às expectativas negativas relativamente às disponibilidades económico-afectivas que lhes estão reservadas, é um discurso que se aspira (inconscientemente) demiúrgico.
Demiúrgico porque assenta na reclamação de uma previsão absoluta do futuro. Absoluta porque implica a refutação radical de um projecto de vida.
É pois um discurso de índole religiosa. Subordinada a determinados valores, que nunca relativiza, porque neles crê.
Neste caso a crença na equação dignidade-posse.
E, ainda, que conceptualiza "afectos" como recurso - e estamos aqui no cúmulo da produção capitalista, a da mercantilização dos afectos, do "homem".
Na discussão que dominou os blogs portugueses dos últimos dias li algo que não resisto a transcrever. Porque é elucidativo, um corolário das considerações anteriores: de que para se nascer se deve ter assegurado um conjunto de recursos e disponibilidades.
Atenção, acho um corolário. Não quero afirmar que todos os defensores do aborto ou do pró-escolha (o que é semanticamente diferente) pensem assim.
Encontrei esta afirmação num comentário a um “post” de um blog com imagens durissimas. Coloco a ligação, claro, mas não apelo a que as vão ver. Porque são duras e não são necessárias para pensar. Mas não impedem o pensar. Não estou a censurar o blog, apenas digo que são chocantes as imagens.
No Partículas Elementares li este comentário adverso: "Já agora, essas vidas eram conscientes? Preferias que tivessem crescido sem carinho nenhum e se calhar matassem alguem que te fosse querido num assalto? Ou que andasse por ai metido na droga porque não lhe deram a educação porque nunca foi querido. Ou fosse para um orfanato e viver uma vida infeliz (sim porque por muito carinho que depois lhe possam dar irá sempe carregar o estigma de ter sido abandonado, principalmente se for adoptado muito tarde." (é um comentário anónimo, infelizmente)
Um corolário, repito, e particularmente cru.
Mas, em minha opinião, é denotativo do que está no fundo desta concepção que considera necessário um quadro prévio de disponibilidades económico-afectivas para que esse “algo” tenha direito a nascer: um absoluto eugenismo.
[não há ponta de ironia no “algo”: é humano, é pessoa, é projecto, é embrião/feto? Alma nunca lha reconhecerei, personalidade social ainda não, consciência duvido muito, dor não faço ideia; “projecto” subentende projectista, que não entrevejo. Fico com o “algo” neutral, uma “possibilidade” de vida]
Dizer eugenismo é forçado? Não. Nesta concepção têm direito à vida aqueles aos quais se reservam determinadas capacidades e dos quais se esperarão determinadas características (comportamentais, donde sociais).
Se isto não é eugenia, o que é a eugenia?
Outras sociedades históricas (e não digo todas porque não o posso empiricamente comprovar) usam e usaram práticas abortivas como mecanismos de controle de natalidade. Controle global e controle individual da reprodução. Ligados a concepções sobre os recursos existentes, gerais e os disponíveis em cada caso particular.
Também é (ou foi) recorrente a prática do infanticídio. Como forma de controle da reprodução legítima, ligada a concepções de descendência legal. Como efeito de concepções simbólicas e/ou de saúde/normalidade [em algumas sociedades africanas o infanticídio de albinos e/ou gémeos, p.ex.].
O infanticídio horroriza-nos. Mas, se não formos anacrónicos, poderemos entendê-lo (também) como prática de controle em sociedades onde a concepção de pessoa, ou de início do percurso da pessoa social, é algo diverso.
Mesmo entre nós ainda não há muitas décadas se baptizava as crianças, se lhes dava nome, personalidade social, apenas após aquele ano em que elas provavam poder medrar. Vingavam.
Em quantas sociedades as recém-nascidos não são "chorados", ou seja, não são carpidos, não são ainda pessoa social, a sociedade não cumpre luto (claro que são chorados por pais e parentes, mas isso é outra dimensão).
Ligeiro exemplo: onde vivo posso perguntar a quem acabou de ter um filho, "então que nome tem?" que a resposta será "vamos ver", ou seja ainda há-de ser pessoa, ainda há que escolher (ou ser escolhida) o laço com os antepassados [lá está ele com o "exótico" dirá o mais imbecil dos visitantes, que os há decerto; não, apenas o "igual", com outro requebro, mas isso entenderão os outros visitantes]
Este argumento apenas para salientar, não é apanágio da sociedade ocidental, portuguesa, esta vertigem de controle da natalidade, nem esta manipulação estratégica dos corpos das mulheres (porque é disso que se trata, da manipulação social dos corpos das mulheres, ainda que sob ideologia individualista, onerando-as dos custos morais ainda para mais).
É fenómeno recorrente. O que será novidade é o facto de se estabelecer em sociedades de opulência. Sim, coloquei o termo que pensei, "opulência" não está ao correr da tecla.
Insisto na citação que o Nuno Guerreiro faz do texto do rabino Abraão Assor:
"Há certas ocasiões em que as razões que as levam a esta decisão são de carácter económico, porque o casal, ou a pessoa, considera que não tem os meios necessários para manter a criança que iria nascer, tomando em conta as exigentes necessidades que a nossa sociedade impõe aos seus membros."
É similar ao que Eduardo Nogueira Pinto escreve, ainda que este opinando em sentido inverso (e, integrando alguma ironia caústica que, em meu entender, algo desvaloriza o texto, mas não o seu argumento):
"Quem nasce deve nascer com dignidade. Este tipo de argumento, que pressupõe sempre por parte de quem o invoca que a dignidade está ligada ao conforto físico e material, é, quanto a mim, o mais perigoso de todos. Se se considerar que apenas se deve tutelar a vida ou expectativa de vida daqueles que podem e vão nascer saudáveis, prósperos, com quarto, cama, tecto, mesada, limpos, bonitos, fortes, novos, a rir, com perspectivas de carreira, com perspectivas de ter o que comer, daqueles que não vão dar trabalho, ou mais trabalho, ou muito mais trabalho, daqueles que não vão pesar no orçamento, na lista do supermercado, que não correm riscos de ir parar à casa pia ou a uma qualquer sarjeta, ou ser vendidos, ou ser mortos à pancada, que não vão sofrer, ter dor, ou medo, daqueles que obrigatoriamente vão ter que ser felizes, então está bem - defenda-se a liberdade de quem os carrega na barriga em definir quem vai ser feliz e a liberdade de, prevendo a sua infelicidade, abortar. Se não, se se considerar que a dignidade é algo que se tem pelo simples facto de existir, esse argumento já não vale."
Em ambos os textos vemos explícito o que surge sistematicamente nos defensores do “direito à escolha”. A procriação é aqui vista como algo social (portanto que não diz respeito exclusivamente ao indivíduo-mãe e, quiçá, ao indivíduo-pai), e essa “socialização” da pater/maternidade implica um conjunto de expectativas (sociais): que haja um conjunto de recursos, melhor dizendo, de disponibilidades económico-afectivas para que o nascimento seja “legítimo”.
“Legítimo” é palavra forte? Então use-se “socialmente desejável”.
Estamos, parece-me óbvio, num domínio de pensamento balizado por um forte materialismo a montante e por um psicologismo (pouco teorizado?) a jusante.
Há muita gente e muita organização que defende a possibilidade ou o direito (os termos são diferentes e significam coisas algo diferentes) de abortar.
Mas poucos o fundamentam coerentemente. Como se houvesse um mal original que poluísse a noção do que defendem.
Não li nada tão explícito, ponderado, tolerante, tão certeiro como isto“:
"Por motivos diferentes, muitas mulheres optam por interromper a gravidez, abortando o feto que têm em seu ventre. Há certas ocasiões em que as razões que as levam a esta decisão são de carácter económico, porque o casal, ou a pessoa, considera que não tem os meios necessários para manter a criança que iria nascer, tomando em conta as exigentes necessidades que a nossa sociedade impõe aos seus membros. Outras pessoas optam pelo aborto porque consideram que emocionalmente não podem enfrentar todas as implicações que significa trazer um ser humano a este mundo. Certas sociedades modernas estimulam o controlo da natalidade por considerarem que não podem solucionar os problemas que um aumento de população representa. Um dos métodos de controlo é o aborto.
Toda a mulher deve poder decidir por si própria o que deseja fazer com o seu corpo. O Talmude afirma: “Úbar yérej imó”, que significa que o feto faz parte do corpo da mulher e por isso carece de individualidade própria."
O último parágrafo tem um valor extremo, como num particular contexto teológico se conceptualiza a relação mulher / feto. E, portanto, como se conceptualiza este último.
Aceitando esta concepção ou não a aceitando, ela não deixa de ter esse estatuto. A de um particular contexto cultural/religioso/teológico (escolha-se). Alto estatuto, digo. Mas particular.
Portanto dificilmente reclamável como certeiro porque universal por quem se levanta contra outros (pre)conceitos religiosos/teológicos/culturais particulares.
[Quem exige um pensamento laico não pode andar à cata de uma concepção religiosa particular que caiba na sua concepção - e isto não se refere obviamente ao autor do blog em causa, que a cada post que passa mais prezo]
Já o parágrafo primeiro descreve um conjunto de razões para abortar. Reconhecíveis para as sociedades que conhecemos. Todas derivadas de e ancoradas em valores sociais. Nenhuma restrita à relação mulher/feto e sua concepção.
Um blog é um diário. Aos bocados. Pouco interessante. Pouco arrumado. Até estúpido. E, visto depois, envergonhável.
A arrumação, o sistema, o texto bem acabado, a consistência, a coerência. Belos, belas.
Narcisices, acima de tudo
Não acho a vida humana inviolável. Sobre ser ateu escrevi, o que me impediria de a sacralizar.
Nem proporia uma sociedade actual desprovida de meios de defesa armada.
Repugna-me a pena de morte. Mas mesmo esse princípio, dos poucos que sigo, aceito violar. Porquê não abater Eichmann? Beria? Pol Pot? Apenas por princípio.
Mas não sou fundamentalista. Aos meus valores vivo-os incoerentemente.
Tenho muito respeito por quem conduz o seu raciocínio e a sua acção por princípios elevados. Mas quem cai nestas contradições (dramáticas) perde a razão. Ainda que se mantenha com razões.
Cá no meu entender ficaria bem a quem tanto se contradiz baixar o tom de voz, mantendo-a claro está.
Há pessoas e organizações que negam a hipótese de interromper a gravidez, explicitam ou implicitam a vida humana como inviolável.
Vi e li gente que recusa tais interrupções em qualquer altura. Vi outros que a consideram inaceitável após determinado momento da gestação.
Outros, furibundos de certezas, gritam-nos de hipócritas. Não os vejo assim. Apenas incoerentes. Pois não encontro as mesmas pessoas exigindo, com igual veemência, a proibição de outras formas de possível violação da vida humana.
Admitem a existência de forças armadas. Admitem condições atenuantes em legítima defesa para os cidadãos. Admitem que as forças policiais estejam armadas e que, em condições extremas, tirem a vida.
Dir-se-á que o objecto da violação é diverso. Um agente inimigo é diverso de uma vida embrionária / ou projecto de vida (não quero nem posso argumentar este ponto médico/filosófico/religioso, tudo matérias que me ultrapassam). Concordo.
Mas se é um princípio entendido como tão fundamental e defensável de forma tão arreigada, então coerentemente tem que ser assumido em qualquer circunstância.
Agora que a discussão sobre o aborto e seus veículos promocionais amainou gostarei de aqui colocar uns pontos, não sistematizados, que para tais arrumações me faltam saber e certezas
Pulex Penetrans (pulga penetrante)
Pois o Ma-Schamba está atacado pela matacanha. Explico enquanto peço socorro.
Lá no baixios de tudo, nas solas do blog, instalei aqueles mecanismos robóticos. O Referring Web Pages que nos diz da proveniência dos visitantes, e os contadores de visita, eu instalei o Extreme-Tracking e o Site Meter.
Mas súbito a doença. Primeiro desapareceu-me o Referring Web Pages, depois foi-se o Site Meter e logo depois o Extreme-Tracking. A este ainda consegui reinstalar nova versão (a contar do zero) mas quanto ao Site Meter impossível.
Tudo acontece quando actualizo o "Índice Principal", onde estão os códigos destes mecanismos. As últimas referências são sempre comidas, desaparecem. Assim desapareceram um a um todos os contadores. E quando eu copio os códigos e os reinstalo ficam incompletos.
Deste modo estou impossibilitado de actualizar o tal "índice", com medo que a matacanha, partindo dessas extremidades, perfure ainda mais o já debilitado corpo, devorando orgãos mais importantes.
Maldita matacanha.
Alguém tem mão firme e uma agulha? Para ma arrancar debaixo da pele sem rebentar, que se espalha?
Ou será lepra? Com estas pontas a cairem-me, sem que me doa....já nem sei.
Machado da Graça, o editor na Promedia, anuncia ter firmado contrato na passada semana (nem de propósito estas notas aqui) com a Moçambique Editora (Texto em Portugal) para que esta editora proceda à distribuição das suas edições em Moçambique - onde a distribuição também tem sido difícil. E que há ainda a promessa da referida Moçambique Editora proceder à distribuição pelos restantes países de língua portuguesa.
Assim seja. Chegar a esses mercados é um passo fundamental, o prioritário. A seguir seria interessante ter recepção junto dos mercados institucionais. A ver vamos.
Quanto a reedições avisa ainda que a cooperação suíça não as financia, preferindo apostar em novas edições. Legítima opção. Aí talvez o mercado possa funcionar, espero eu. Ao que sei tanto "Espíritos Vivos, Tradições Modernas" e "Cem Anos de Economia na Família Rural Africana" se esgotaram, e com o crescente número de estudantes e quadros de ciências sociais decerto que haverá mercado interno para uma calculada reedição.
Na recente entrada "Livro", respeitante à edição do "Paz na Terra, Guerra em Casa" de Isabel Casimiro recebi um comentário da leitora Ana Barradas que, pelo seu interesse, deixo transcrito de modo mais visível:
"Ao contrário do que pensa JPT, a Ela por Ela, a única editora feminista portuguesa, que dirijo, tem procurado editar livros da Promédia que interessem à sua linha editorial e chegou a acordo nesse sentido com ela, na pessoa do Machado da Graça. Assim, já saíram e foram postos à venda no mercado português "Espíritos Vivos, Tradições Modernas" de Alcinda Honwana e "Género e Poder" de Ana Maria Loforte.
Infelizmente, a recepção do público foi muito desencorajadora e as duas edições deram prejuízo, apesar de terem sido subsidiadas em parte pelo Instituto Português do Livro e das Bibliotecas e estarem presentes em cerca de 160 bibliotecas espalhadas pelo país.
Gostaria muito de poder editar o livro da Isabel Casimiro, bem como o "Mulheres Invisíveis" de Benigna Zimba, mas receio bem, para grande pena minha, não ser isso possível se não houver interesse por parte de potenciais leitores. Aceitam-se sugestões promocionais, se alguém tiver ideias brilhantes a esse respeito.
Ana Barradas
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1. Muito agradeço o comentário e a novidade. Sabia da edição do livro de Alcinda Honwana, mas não do da Ana Loforte (surpresa total). E desconhecia qual a editora bem como o referido apoio estatal.
A respeito deste último já por aqui deixei escrita, e mais do que uma vez, a minha opinião: o Instituto Português do Livro e das Bibliotecas tem sido desde há anos o mais clarividente organismo estatal no que à cooperação cultural diz respeito - mesmo que não seja esse o cerne da sua actividade. E a este propósito lembre-se a estúpida e ignorantemente enterrada Comissão dos Descobrimentos a qual, apesar de também não estar especialmente vocacionada para estas matérias, cumpriu tarefas nesta área com inegável interesse e competência.
Friso ainda, e isso nunca aqui o escrevi, que a capacidade demonstrada nestas áreas pelos citados organismos não depende(u) dos respectivos recursos económicos mas sim, fundamentalmente, da competência e seriedade das suas direcções e [ponham maíscula e triplo negrito neste "e"] quadros técnicos. Mas isso são contas de um outro rosário, o da "sociologia da administração pública".
2. Os livros editados pela Ela e Ela são muito interessantes e se não colheram público isso não deixa de me surpreender. Saúdo a editora e muito lamento o insucesso comercial. Quanto a promoção nada sei, de distribuição idem. Mas o meu senso comum acredita que nestas matérias a existência de uma colecção especializada (e refiro-me a questões moçambicanas e/ou mais gerais, ou seja especializada geograficamente) poderia ser mais viável.
Esses são dois dos melhores trabalhos de antropólogos feitos em Moçambique e dão pistas extraordinárias para o entendimento da(s) sociedade(s) daqui. Mais, serão de interesse para quem olha para Moçambique mas também para esse mercado das ciências sociais. Nem esse olhou? (talvez a comprarem a enésima colectânea de artiguitos do Giddens, o último Bourdieu et al, a última "visão geral sobre...", e de portugueses nem falo, que o pelotão de fuzilamento sempre espera, entre sorrisos e abraços)
Talvez alguns dos leitores portugueses do Ma-schamba se interessem. Talvez. A ver vamos, Ana Barradas.
3. De volta ao assunto. Na minha nota sobre o livro nem me referia à edição em Portugal. O que apelava era à capacidade de fazer chegar aí (e a outros mercados com leitores em português) parcelas destas edições. Ambições mais reduzidas, por um lado. Mas talvez maiores, ou seja, integrar também uma dimensão de possibilitar o crescimento de editoras locais.
Aqui estão a Escolar Editora, a Europa-América, a Caminho, a Texto, a Porto. São diversos os perfis das suas presenças, mas creio que todas essas editoras (algumas também distribuidoras) tenham capacidades para esta tarefa. Se ganharam algo com isso, claro! Ou então outras empresas, desde que tenham acesso e sabedoria de mercado, claro, não proponho uma qualquer ONG ou pequena empresa formada para este efeito por um qualquer ex-funcionário ou seu "sobrinho".
Nem sequer estou a falar de grandes quantidades, mas pego no que Ana Barradas referiu: 160 bibliotecas em Portugal. O mercado institucional será esse, o individual não será enorme, mas nestas dimensões de edição seria importante distribuir. E seria inestimável a sua divulgação.
Mais, e isso é muito importante nesta matéria, os livros da Promedia têm qualidade. Na capa, no papel, na colagem (bem, melhorou neste aspecto), na revisão. Ou seja, aguentar-se-iam (repito, nestas pequenas dimensões de um universo de leitores interessados) no seio de um mercado que é exigente nessas questões. E refiro isso pois nem sempre este é o caso com outros editores locais.
4. Há nesta colecção um conjunto de livros apreciáveis. De memória, guiada pelos meus interesses, lembro "O Trabalho Migratório e a Agricultura do Sul de Moçambique" de Luís Covane, "Os Cem Anos de Economia da Família Rural Africana" de José Negrão (esgotado), "Os Camponeses e os Caminhos de Ferro e Estradas em Nampula" de Arlindo Chilundo, "A Questão Linguística da África Pós-colonial" de Gregório Firmino e outros.
Aqui os recordo não para desvalorizar outros. Mas porque me servem de exemplos para referir ainda outro ponto. Em princípio (especulo, claro) a sua hipotética edição não caberá na, muito legítima linha editorial da Ela e Ela.
E a mim parece-me que uma colecção ligada a questões moçambicanas e / ou africanas teria maior capacidade de fidelização de um público e também de acesso ao mercado livreiro (o qual, ao que me consta, não é um mercado livre, apesar da ideologia liberal que por aí anda). Mas, repito, de mercado editorial nada sei.
5. Finalmente, a difusão de ensaios sobre Moçambique teria ainda um aspecto crucial. Possibilitaria um maior conhecimento sobre a história colonial recente e a actualidade. E isso quebraria, estou certo, a linha de imbecilidades "pós/neo/pré coloniais" que em Portugal continuam a brotar sobre África. A repetição ad eternum da especificidade positiva do colonialismo português e o coitadismo dos "solidários".
Assim sendo a divulgação de textos deste calibre seria, também, um acto de cooperação com a sociedade portuguesa, ainda tão orfã do colonialismo, tão ignorante desta sua história.
E, no fim do arrazoado, obrigado Ana Barradas pelo comentário, e que após estes textos alguns leitores vão comprar os livros mais do que recomendáveis da Alcinda Honwana e da Ana Loforte. E os seguintes, assim espero.
O Babugem foi de férias e deixou pendurado um dos excepcionais bocados de Raduan Nassar (esse mesmo que acoitei na epígrafe). É de ir lá. E se não conhecer será uma bela surpresa. Boa leitura.
É conhecida a "legislarreia" portuguesa (queixam-se alguns juristas). Então no meio de tanta lei, decreto e regulamento bem que podiam estipular penas de prisão para os imbecis que invadem actos públicos para gozo próprio. E não venham com a "liberdade de expressão": não foi disso que se tratou em Julho na Luz, nem em Agosto na piscina de Atenas, nem agora no lamentável ataque ao maratonista brasileiro.
Não estou a pedir a proibição de manifestação públicas (as cujas têm regulamentares prévios avisos, diga-se). Estou a resmungar contra os mais imbecis dos hooligans. Travestidos de engraçados.
Ou está tudo à espera de um Lennon desportivo?
O ENE, Luís (org.) propõe-se publicar um livro colectânea de bloguistas. Acaba de lançar o desafio a quem queira participar, que lhe enviem por e-mail as referências de meia dúzia de textos seleccionados dos respectivos blogues.
Ainda há poucos dias aqui escrevi sobre a importância do futebol nas relações entre os países de língua oficial portuguesa. Melhor dizendo, entre as populações desses países. Agora volto, mas em tom diferente.
Leio no jornal O Jogo ecos da insatisfação da Federação Moçambicana de Futebol em relação à congénere portuguesa. Para quem não sabe há um acordo entre ambas, a ser tutelado e financiado pela FIFA e (presumo) pelo governo português, que atribui à FPF estabelecer apoio técnico e organizacional (para simplificar, "cooperação").
Esta é uma modalidade de cooperação generalizada, as Federações europeias, em particular França e Inglaterra, têm este tipo de associação com outras federações, e tenho ideia (sem garantir) que pelo menos a Alemanha e a Holanda também: para os mais atentos, quando se ouve falar dos técnicos desses países como seleccionadores de países do sul normalmente essa é a causa.
Agora surgem queixas. Alguns dirão logo "lá está o anti-portuguesismo". Muito honestamente não. Aliás, bastará lembrar que há largos anos o presidente da FMF é Mário Coluna, homem livre mas que dificilmente poderá caber nesse chavão.
Mais, há anos que em conversas aqui e ali com gente do futebol ouço o mesmo lamento desiludido. E, ciclicamente, notícias de jornal referindo o assunto. Que Portugal (FPF) não actua realmente, não tem tido uma prática efectiva. Eu chamar-lhe-ia prática competente. Sim, vieram treinadores, sim fez-se mais algo. Mas não ao nível esperado (e possível). E não com a organização sistémica possível. Enfim, aparenta que este convénio inter-federações é na Praça da Alegria vivido como um fardo.
Leio agora as espantosas declarações do espantoso Gilberto Madaíl (o tal do relatório dos 69 pontos no pós-Coreia, escarrando na cara da sociedade portuguesa): "Nem merecem resposta" diz ele, sobranceiro. Pois se já deu esmola...
Francamente não posso afiançar se a Federação Moçambicana de Futebol merece resposta. Mas com toda a certeza que eu mereço resposta, quando o dirigente de uma instituição de utilidade pública e de representação nacional torpedeia de modo ignaro a imagem e a política externa do meu país.

Foi ontem lançado este "Paz na Terra, Guerra em Casa". Feminismo e Organizações de Mulheres em Moçambique", de Isabel Casimiro, editado pela Promédia. O livro corresponde à sua tese de mestrado realizada em Coimbra.
Não costumo mostrar aqui os livros que ainda não li, isto não é um jornal. Mas isso nem regra é, será talvez mania, daí que nem preciso de me desculpar com a "excepção à regra". Aqui fica a notícia, o tema é deveras interessante, a autora é boa amiga, a capa é bonita e o título sugestivo, "Paz na Terra, Guerra em Casa", grande frase. Tudo isto chega como aperitivo. E como chamariz.
A este propósito será interessante lembrar que é já o 27º lançamento nesta colecção da Promédia dedicada a ensaios académicos. Muito sinceramente nela se incluem textos de valor desigual, mas a colecção tornou-se incontornável para quem queira ter um conhecimento sobre o Moçambique actual. E muitos vão ficando esgotados ou de difícil acesso, decerto pelo pequeno número de exemplares - julgo que o padrão de tiragem será 500 livros, o que se adequará ao mercado esperado e às disponibilidades financeiras da editora.
Todo este projecto, que terá para aí cinco anos (Machado, quando passares por aqui corrige, sff), tem sido possível pelo constante financiamento da cooperação suíça. Não estou em homenagem, mas há que referir a presença sui generis desta cooperação. Possibilita estas edições, absolutamente vitais para o mundo académico moçambicano. E vem financiando alguns trabalhos e edições de instituições estatais culturais. É uma postura interessante por dois aspectos: porque não procura intervir directamente, como é padrão na maioria das suas congéneres, mas sim induzir. E, mais historicamente, porque me parece ser esta uma via que de certa forma é de continuidade com a tipologia da presença suíça aqui desde o início do período colonial, o da associação (e antes formação via missionários) e "possibilitação" com a / da camada intelectual local. Mas aqui especulo.
Finalmente, sei que há anos, e antes deste projecto, foi proposto à cooperação portuguesa um projecto semelhante. O qual não veio a ser possível. Mas custa-me que com tanto livro editado, e de tal interesse, não tenha ainda sido tomada iniciativa de uma associação que se impõe à primeira vista (ou leitura): o viabilizar a distribuição internacional, institucional e mercantil, de parcelas destas edições.
Seria uma louvável e interessante forma de cooperação cultural. Não seria caro. E seria fácil. Pois nem teria que ser feita de forma directa pelas instituições estatais, sempre pesadas e algo inábeis nestas coisas de ligação aos mercados. Pois estão presentes em Moçambique editoras e distribuidoras portuguesas. Que poderiam ser "induzidas": palavra mágica.
A andar num Durrell não dos melhores: O Labirinto das Trevas (Ulisseia). Mas ainda a um terço, pode ser que...
Ainda assim a chocar com: "Já não sentimos nada, nem ódio nem piedade. É como se tivéssemos cãibras na alma".
Sei muito pouco sobre a matéria, apesar de ouvir falar dela há décadas (lembro-me de em casa dos meus avós ver Arafat no telejornal, não teria ainda dez anos).
No blogozapping há semanas que leio muita tralha e alguma sensatez sobre Israel e Palestina. Repito, sei muito pouco sobre a matéria, ainda que não menos do que alguns dos opinativos, a crer no tom e nas certezas apresentadas. Por isso também quero brincar aos "fazedores de opinião".
Aqui fica o meu texto:

Sobre a questão do aborto li, e muito gostei, três textos de sentidos diferentes: no Rua da Judiaria, no Projecto e no Acidental. Posições, ideias e sentimentos diferentes. E todos discutíveis. Que melhor elogio?
Sobre o assunto também tresli muita tralha.
Quem acompanha o Ma-Schamba sabe que costumo andar de "candeias às paralelas" com o Luís Novaes Tito, um pouco de masoquismo meu pois são vigorosas as pancadas (socialistas) que dali costumam chegar, discussões que por vezes prolongamos no privado do e-mail.
Mas não desisto de o importunar. Mal chegou de férias avisei-o que ainda cá estou, embuscado. E ele logo deu sinal de vida, claro que discordando (mal seria o contrário).
Mas para além disso enviou-me (como aqueles amigos que nos trazem um "souvenir" das férias alhures) uma belissima prenda. Desvanecido agradeço, e aqui a partilho com as prezadas visitas e em especial, "não desfazendo" claro está, com o Rui. Ei-la:
"Como já vi que é coleccionador de imagens sobre temas antigos de Moçambique, fiz a imagem e reverso de um sinete da Companhia de Moçambique - Circunscrição de Sofala, que lhe envio em anexo.
É uma herança que recebi faz tempos. Trata-se de uma peça de bronze encastoada em marfim (que como se vê pela imagem está bastante estalado)"

De mão em mão, como é aqui costume, chega-me um já velho "Jornal de Letras". Nesta edição Eugénio Lisboa, homem daqui nunca é demais lembrar, escreve sobre Pintasilgo. Retenho uma bela frase: "...as conclusões são lugares habitados pelos que se cansam de pensar".
No edição de hoje do semanário "Zambeze" Florentino Dick Kassotche publica "Um Adeus ao Raul Honwana - meu - nosso professor", uma sentida e bela homenagem a Raul Honwana. E muito merecida.
Quando se escreve sobre um país estrangeiro deve-se antes passar a mão sete vezes pelo teclado. É o que fazem os sábios. E os aspirantes.

[Imagem de Carlos Alberto Vieira. Reproduzida em Fernando Couto (coord.) Moçambique. Imagens da Arte Colonial, Maputo, Ndjira, 1998]

A primeira catedral (1879), demolida em 1936 para se erguer a actual.
[imagem não identificada. Reproduzida em Luigi Corvaja, Maputo. Desenho e Arquitectura, Maputo, Faculdade de Arquitectura e Planeamento Físico, 2003 (retirado do mercado)]
Nota: infelizmente não possuo nenhuma obra com informações substantivas sobre autoria e construção de ambos os edifícios. Assim sendo restrinjo-me a imagens e datas de construção.
Há meses arvorei-me em jurista e botei opinião sobre a inconstitucionalidade radical na Assembleia da República: a disciplina de voto. Enfim, argumento decerto pueril, nem o implacável e temível LNT se deu ao trabalho de o destroçar.
Ainda assim lembro-me desse textito, agora em tempos de discussão sobre o aborto. Aqui fica auto-citação, de trecho então marginal ao argumento central:
"Sempre estranhei que os deputados dos partidos reclamem liberdade de voto para questões especiais, eu chamar-lhe-ia as grandes questões. Como a recente votação sobre a Interrupção Voluntário de Gravidez.
Estranho essas vontades, pois parece-me que nessas votações se levantam questões centrais quanto à adesão a determinados valores: concepções de vida, de vida em sociedade, de limites fundamentais da acção do Estado, etc. (mas poucos etcs.). Ora é nessas questões que se pressuporia uma radical homogeneidade intra-partidária. Ou seja, que os partidos fossem constituídos por pessoas que partilham um pequeno mas fundamental quadro de valores que as unisse para lá das normais (e salutares) distinções nas perspectivas do exercício político corrente.
Assim sendo seria natural que nessas "grandes" votações todos votassem em massa, sem se apelar a qualquer "liberdade de voto" [diga-se que esta deveria ser constante, mas enfim]. E que no dia a dia pudessem votar diferentemente segundo as distintas percepções da acuidade ou legitimidade das propostas em causa.
Em suma, nunca percebi porque não exigem a liberdade de voto relativa à qualidade de um OGE, de uma qualquer lei sobre sardinhas ou reformas, para depois a virem reclamar quando têm que legislar sobre aquilo que, efectivamente, os deveria unir como um bloco partidário, ideológico e sensitivo."
O emigrante também assiste. E pergunta-se, preocupado à distância. Se numa coisa destas o governo do meu Portugal vai para este despautério como reagirá caso surja alguma coisa realmente séria?
Que tudo corra bem é o meu desejo. Porque caso contrário é óbvio que estes não o aguentam.
Maldito destino este, o do "Atrás de mim virá...".