setembro 23, 2004

Magupela

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Na Associação Moçambicana de Fotografia uma individual de Magupela, Nwehty Yossima, até ao 26 de Outubro. A agradar o seu público. Muito típico, nos temas. E no tom também. Muito Chichorro jovem. E Miro também, cuja morte deixou campo para os seus seguidores.

A ver como vai ele seguir.

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Macambaco

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Uma exposição individual de Jacob Estevão Macambaco no Instituto Camões. A perder-se a oportunidade de um trabalho historiográfico, integrando-o no advento em Moçambique de uma concepção ocidentalizada de arte. Macambaco reclama-se o primeiro pintor moçambicano, com uma primeira exposição de trabalhos em 1951. Não será o registo o mais importante, mas o seu percurso é demonstrativo da formação de um campo artístico aqui, ao nível da actividade dos artistas e para entender as modalidades da sua recepção.

Repito, teria sido um bom momento para essa reflexão.

A memória que ficará da exposição de Macambaco, o desdobrável que por aqui continua a levar o nome de "catálogo" é miserável no seu verde-branco esbatido. Mais valia não o fazer.

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setembro 22, 2004

JÁ TARDA

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qu'isto é assim mesmo. (O nosso Del Bosque).

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Espólio e armas

Retiro este texto e também este, coisas sobre o espólio. Coisas distraídas, por ali as armas são já outras.

Estou, a cada dia que passa, mais igualzinho ao meu pai.

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setembro 21, 2004

JÁ, IMEDIATAMENTE

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qu'isto é assim mesmo. (O nosso Del Bosque).

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Arquivo

de Junho republicado. E o Ma-Schamba volta a estar completo.

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setembro 20, 2004

De novo o espólio

Desde a puberdade, e não exagero, que me irritou a expressão "gloriosos capitães de abril".

Treze anos de uma guerra absurda, quinze anos de tardo-colonialismo absurdo, meio século de autocracia anti-desenvolvimentista sucedendo a década e meia de constante intromissão golpista. Tudo isto acabou, súbito, quando desabaram os preceitos da "instituição castrense", quando o "castrense" se tornou sociológica e culturalmente aberto.

Ou seja, quando o recrutamento foi extensivo e quando o oficialato foi "conspurcado" (esta a causa motriz primeira de toda essa "glória", nunca esquecer).

Matar essa dinâmica é viver numa sociedade sem memória. É crer no mito do "fim da história", que este "estado da arte" é insubstituível. É também crença demiúrgica, numa deusa "europa" que não deixará de intervir se...

E é um triste fundamentalismo igualitarista, sentado num projectismo planificador, crente na hiper-antecipação do futuro, no seu desenho total. E que não compreende que "as sortes" são a vida.

As forças armadas são um instrumento de paz. São um exercício de cidadania.

Adenda: Esta é a minha opinião há quinze anos, formulada tal e qual quando atravessei a porta de armas de Mafra, espólio feito.

Cheguei lá pelas "sortes", então uma raridade num doutorzito de letras. Gritei o azar, protestei a seca, resmunguei a chatice, gritei a inútil perda de tempo, brami a terrível interrupção na minha vida, constatei a desgraça nos planos de futuro, lamentei as oportunidades perdidas, gemi a violência psicológica (honestamente foi mais a física), etc e tal. Mas o menino saíu inteirinho e a vida continuou.

O Legislador, sequioso de simpatia, e o Eleitor, coitadinho, bem que podiam amadurecer.

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Food-I-do

Por razões biográficas, que alguém também poderia chamar sociológicas, há no Food-I-do algo que não existe em mais lado nenhum na lusoblogosfera.

A mais do que acompanhar, para quebrar a monotonia mas acima de tudo para assistir ao engenho com que o homem se recusa a deixar cair os hifens.

Publicado por JPT em 10:08 AM | Comentários (2) | TrackBack

Costela

Pois, esta minha costela do futebol. Premonição? Nada. Mera empiria. Hoje de manhã a lembrar que a continuação da carreira vitoriosa do grande treinador Camacho clamava, com notória urgência, pela contratação do galáctico Cunha Leal.

E hoje à noite a ver que o homem se demitiu. Não foi possível a contratação? O Benfica não vendeu o seu most valuable player?

Publicado por JPT em 12:25 AM | Comentários (3) | TrackBack

setembro 19, 2004

Educação

O Luís Aguiar-Conraria a apresentar dois importantes e esclarecidos textos sobre questões da educação. A não perder.

Publicado por JPT em 07:19 PM | Comentários (0) | TrackBack

Cartaz

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Intermark E.E., encomenda FAO/UN, 1983

[reproduzido de Upfront and Personal. Three Decades of Political Graphics. From the United Kingdom plus Southern African Political Graphics, British Council South Africa, 2004]

Publicado por JPT em 02:35 PM | Comentários (3) | TrackBack

Este cartaz


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Design: ANC / Unwembi Communications
(1994)


faz parte da minha biografia. E como os meus exemplares estão em Lisboa, reproduzo-o do catálogo "Upfront and Personal. Three Decades of Political Graphics", editado pelo British Council.

Publicado por JPT em 02:25 PM | Comentários (1) | TrackBack

O Centro de Estudos Brasileiro

foi reabilitado, está em bom estado, depois da ameaça de derrocada do quarteirão no ano passado, fruto de obras no edifício vizinho.

Já agora o CEB, com nova directora, reestabeleceu as muito saudáveis sessões musicais de sexta-feira à noite, algo que há anos a Fernanda Verissimo tinha lançado com grande sucesso. A partir das 19 h. Sexta passada esteve muito bem. Que eu saiba para a semana estará o "Timbila Project". Eu não, estarei em Lisboa. Mas em Outubro continuará.

Publicado por JPT em 02:13 PM | Comentários (0) | TrackBack

Upfront and Personal

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Uma belissima exposição de grafismo socio-político dos últimos trinta anos, incluindo material do Reino Unido, Botswana, África do Sul e Moçambique: "Upfront and Personal. Three Decades of Political Graphics from the United Kingdom plus Southern Africa Political Graphics", uma produção do British Council. Exposição originalmente dedicada ao material britânico e sul-africano e que tem vindo a ser complementada (e bem, em particular no caso moçambicano) com material dos países na qual ela é apresentada.

A exposição é muito bem conseguida. Mas, e em particular no caso britânico, é politicamente enviesada, ou seja há um total predomínio do grafismo socio-político de esquerda, como se essa técnica comunicacional não fosse utilizada em todos os locais do espectro ideológico. A mim parece censura. Uma censura do comissariado do British Council. Típico de alguma esquerda, estas derivas censórias (um censor é sempre ignorante, claro). Mas não só.

É também um caso típico do apagamento das forças mais conservadoras para "africano ver", um processo que procura apresentar as sociedades dos ex-colonizadores como desprovidos daquilo que mais rapida e superficialmente possa aqui ser associado ao regime colonial, ou aos seus herdeiros.

"Public relations" que é generalizado aos ex-colonizadores, tiques que se reconhecem de imediato. Aparentando pontes ideológicas entre as sociedades, falsas não porque ideológicas mas porque escondendo as diferentes realidades, as diferentes complexidades. Enfim, uma exposição de grafismo socio-político que é ela própria, e falo no material britânico em particular, um caso de grafismo político. (Ou seja, uma censura não apenas ignorante. Uma enviesamento que é arma política: o "sempre simpático" neo-colonialismo da esquerda europeia).

Enfim, um piscar de olhos à opinião pública dos países receptores da exposição? Talvez. Mas, curiosamente, mais abrangentes são as exposições relativas ao material desses países. Enfim, as eternas contradições que os "mais papistas que o Papa" provocam.

Mas esta crítica não impede de a considerar uma exposição a não perder. Até 8 de Outubro no Centro de Estudos Brasileiros. E ainda de assinalar, guloso, a distribuição gratuita de catálogos exaustivos e de muito boa qualidade. Bela oferta do BC.

Publicado por JPT em 02:09 PM | Comentários (0) | TrackBack

Curso de Comunicação Gráfica

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[prefácio de José Forjaz; noções gerais sobre o problema da visão das cores; cor e representação: teoria da cor; a percepção visual; o olho humano e a visão da cor; a mão; a imagem sonora]

António Quadros, Curso de Comunicação Gráfica, Maputo, Faculdade de Arquitectura e Planeamento Físico, UEM, 1998

[oferta de Luís Lage]

Texto de António Quadros, homem que foi de plurais actividades, e grande poeta. Deixo o poema que finda esta publicação.

Palavra de Ordem:
Matar a Árvore!

Campo de jogar à bola
machamba de fraca espiga
eis as palavras de ouro!

Desde a Machava à Matola
a árvore é inimiga
e aqui tem o seu matadouro.

Num futuro, já de luto
com sêde, fome e sol quente
buscaremos sombra e fruto
na estupidez do presente...

Publicado por JPT em 12:37 PM | Comentários (0) | TrackBack

Os mitos e a inteligência

Hoje no Público uma declaração assombrosa. Diz Mário Mesquita: "Certo é que, nesta Europa de 2004, para reavivar o espírito de Lord Keynes, a justiça social e a intervenção do Estado na economia, é necessário possuir alma de guevarista. Após a queda do muro de Berlim, o reformismo transfigurou-se, ficando, subitamente, revolucionário."

Percebo, é uma metáfora este "guevarismo". Mas metáfora alimentada de um pobre mito, já o resmunguei.

Ernesto Guevara é um ícone pop, t-shirts, cintos, cartazes e afins. Tornado símbolo porque bela presença e bem fotografada, um cadáver bonito ainda para mais.

Ernesto Guevara foi um líder sanguinário e um político inepto, buscando um ideologia totalitária. Como "exportador de revoluções" foi intolerante, incompetente, preconceituoso. Lê-lo é ler a sua extraordinária incapacidade para compreender o que o rodeava. E a sua profunda arrogância, o seu auto-convencimento.

Bastará a beleza, alguma valentia e uma morte em acção para ser metáfora, servir para pensar o real?

Estes discursos do "che" não são coisa de geração, como se diz. São palavras de gente incapaz de metaforizar o real, de o simbolizar, pobres no mastigar (eterno?) destes símbolos alheios às confusas ideias que lhes associam, gente assim desprovida dos meios de pensar o real. Nada a esperar sobre o futuro destes tristes guevaristas metafóricos. Foi chão que deu uvas. Alimentado à Onan.

Ou então, porque também os há, são palavras de quem é realmente "guevarista". Gente inimiga, sanguinária, tal como o ícone que acolhem nas suas roupitas de marca. Sem qualquer pudor.


Publicado por JPT em 12:13 PM | Comentários (2) | TrackBack

Retirar

à população o direito à alegria do espólio foi uma asneira.

Neste assunto é óbvio o mandamento - o "povo tem sempre razão" desde que não se trate de coisa realmente fundamental.

Amanhã falar-se-á da gestão "empresarial" da actividade e, quiçá, nomear-se-ão gestores civis para "racionalizar" o assunto.

Depois do depois de amanhã voltar-se-á "à primeira forma", talvez em "passo de corrida", lamentando a "borregada" anterior.

Publicado por JPT em 11:25 AM | Comentários (0) | TrackBack

Polémica futebolística

já a travar-se no meu país. Haverá "sistema"?, duvidam alguns.

Entretanto em Espanha o supramilionário Real Madrid soma derrotas, agora na versão desse Extraordinário e Vencedor treinador, Camacho. Ou muito me engano ou este em breve exigirá outro Galáctico, trave-mestra da sua vitoriosa carreira. O Benfica que diga o preço - Cunha Leal vai assinar pelo Real.

Publicado por JPT em 11:14 AM | Comentários (0) | TrackBack

Arquivo

de Julho republicado.

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Santo António da Polana

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Publicado por JPT em 09:49 AM | Comentários (4) | TrackBack

setembro 17, 2004

Roupa Velha 20: um emigrante de sucesso

O Carlos Gil, coitado, sonha com jackpots alhures. Então é para ele que segue esta velharia:

UM EMIGRANTE DE SUCESSO

Como vos comuniquei tornei-me um emigrante de sucesso, tendo aqui ganho há quinze dias o totobola moçambicano, nele obtendo um treze e seis dozes, produtos que foram de uma calculada aposta múltipla.

De imediato me equiparei aos meus patrícios que são bafejados pela sorte na fracção da imensa lotaria americana, lá pelos cafés de New Bedford, ou mesmo beijados pelo engenho, na gestão do bicho carioca.

Ah, e logo imaginei o regresso a Lisboa, algo a fazer em grande, a festa digo, certo que subtil pois será a discrição burguesa a mandar, mas em grande mesmo assim ou seja, refinada. E depois dela, o deixar-me por aí ficar, quem sabe se desta vez de vez.

E à minha futura imagem condimentei-a com algum romantismo, minha felicidade, vaidade até, contemporâneos e vindouros por aí comentando à minha passagem, aos meus dizeres: este é o Zé Flávio, o Zézé, o (Pimentel) Teixeira, meu amigo, muito meu conhecido, um ex-colega ou mesmo colega, era meu vizinho, é agora meu vizinho, o meu tio ou o meu tio-avô, aquele que enriqueceu ao jogo lá pelas Áfricas. “Foi-se para lá nas culturas e regressou rico”, dirão ainda, aumentando a curiosidade sobre quem assim dobrou o destino, “culturas de quê?”, acrescentarão os interlocutores, sem o saberem sequiosos desses caminhos. “Não, não me fiz perceber, essas culturas das letras, dos intelectuais”, rematarão então os meus já sequazes, assim deixando para sempre a dúvida sobre a lisura deste meu percurso.

Ah, as dúvidas, que melhor coroar deste meu sucesso económico, que maior romantismo, do que gerar algum negrume sobre o meu passado africano?

Um dos prémios inclusos foram as largas dezenas de respostas ao anúncio desta minha vitória, desta minha transição, respostas recebidas nesses dias subsequentes, uma pleiâde de amigos congratulando-se com o acontecido, aqui e ali polvilhadas com alguma ironia, um ou outro aviso de prudência. Prudência pessoal, para que não me deixasse cair na dissipação imoral, mas também prudência pelos perigos que tão inopinada riqueza agora divulgada me faria correr por estas paragens.

Imediato regresso a conradianas cores, perigosos inimigos e pérfidos falsos amigos provenientes destas tórridas paragens, todos eles conluiados com seus espíritos protectores, todos eles desejosos, tudo isto ameaçando a minha segurança. Tropicais paragens as quais, e só por si mesmos, também elas ameaçando o meu equilíbrio moral, em momentos de enriquecimento vertiginoso, abrindo pois caminho a ainda maiores desvarios plurais.

Em todos esses conselhos detecto alguma inveja E a essa, filha da curiosidade, apresto-me a esconjurar.

Pois a cada um o sucesso que merece, que este vem-nos por mérito, e há justiça no mundo, lá bem no fundo. Acredito que sim. O sucesso chega-nos na medida em que o merecemos, o mérito, por mais fluído ou desconhecido que surja, está aí para nós o vermos, e assim se traduz nas felicidades ou desventuras, facilidades ou problemas que encontramos.

Por isso, só por isso, o meu quinhão de mérito, embrulhado neste meu quedar-me face ao eterno coaxar nocturno no jardim fronteiro, e a modorra pachorrenta e burguesa que me enche a alma nos últimos anos, reduziu-se a 65 000 meticais, aproximadamente 3 USD a preços correntes (um bocadinho menos).

Digo-o para que saibam que aceito esta medida do destino. E que a festejo, ou melhor a festejei.

Aceitar o que a vida nos dá, o que nela merecemos é pois a lição desta história que de fábula nada tem a não ser que me achem um animal.

Ah, resmungo eu hoje, mesmo sabendo que riqueza não dá felicidade, ao reparar que não garanti a minha independência económica, e a dos meus. Porque não emigrei eu para Caracas, EUA, o Brasil, Macau? Porque não persegui eu, ou os antepassados Pimentel Teixeira, a aventura amazónica, os baleeiros do leste americano, a àrvore de moedas. Enfim, destinos.

Agora, saio, hoje frio e chuva em Maputo, regresso à varanda, pequena, fumar e ouvir o coaxar. Que vale bem os 3 usd ganhos.


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O Post mais ácido de sempre

E mais triste também.

Espero que aqui dotem os comensais de uma boa mesa.

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O Protocolo

vale o que vale. Mas ainda assim não acredito neste texto. Ou não quero crer.

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SOCORRO,

Aqui d'el-rei, Ó da guarda .... SOU do SPORTING

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setembro 16, 2004

Notas de leitura

O Rui Curado Silva continua a desenvolver a sua reflexão crítica sobre as críticas ao sistema de ensino superior português. A acompanhar, que o que por lá se passa está muito bem estruturado, sem facilitismos.

O Atrium finalmente voltou das longas férias, e tem uma empenhada crítica ao artigo metabloguístico de Pacheco Pereira, hoje apresentado no Público.

O Pululu dá sinais de incrementar a sua actividade, as suas Liberdadade de Kota Lobitango. Aproveito para avisar as visitas, ainda distraídas, que este é blog a merecer acompanhamento, um olhar atento sobre África.

O Cócegas na Língua ofereceu-nos um belo panteão.

Este leigo diverte-se imenso no Físicos de Lisboa.

Elogios e chamadas de atenção à Rua da Judiaria são já desnecessários. Mas vai-se lá e aprende-se sempre algo.

E, talvez mais do que tudo, o Quim tem um blog do caraças, mete-se lá dentro com tudo. Boa. (E ando para escrever isto há que tempos).

Publicado por JPT em 04:04 PM | Comentários (1) | TrackBack

Msiro no interior

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(Nropa; foto entre Out. 94 - Abril 95)

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Nropa (ex-Namwenda)

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(posto administrativo Mapupulu, distrito Montepuez, Cabo Delgado. Foto entre Outubro 94-Abril 95)

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Republicação

evidencia palavras a mais. De ora em diante mais silêncio, aquele de ouro. E, aqui e ali, fotos, fracas fotos as minhas. Mas fotos sem tese.

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Arquivo

de Maio republicado. (Quanta tralha).

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setembro 15, 2004

Arquivo

de Abril republicado.

Publicado por JPT em 02:27 PM | Comentários (0) | TrackBack

Vitor Damas

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É o Besugo que o lembra, ontem fez um ano que morreu Vitor Damas.

Damas é o único adjectivo para o qualificar. Suficiente. Até excessivo.

Entre tantas memórias de Damas trago uma, muito nebulosa, que eu teria 10 anos. Em 1975 ou 1976 a selecçãozinha de então, comandada por Pedroto, foi jogar a Wembley. Jogava um tipo chamado Osvaldinho, do Guimarães. Não me lembro de mais nada.

O Damas fez o melhor jogo que já vi algum guarda-redes fazer. Incomensurável. Inqualificável. Damas.


Publicado por JPT em 04:44 AM | Comentários (3) | TrackBack

Notas de leitura + coisas a despropósito

Chego a este National Geographic avisado pelo avisado Prof. Vital Moreira.

E a este propósito não deixo de me interrogar, ainda que não reduzindo esta dramática questão ao momento actual: como se pode ser tão pró-Bush se o homem não tem o mínimo de sensibilidade ecológica? Se tranca os necessários e urgentíssimos compromissos ecológicos a um estapafúrdio "american way of life" (lembram-se?).

Ou será que a National Geographic agora é um agente dos russos, perdão, dos democratas?

Já agora, e um bocado a despropósito, há em Portugal, e nos seus blogs, uma corrente tão cerradamente pró-Bush que me parece que algum centro e a direita portuguesa (ou blogoportuguesa) está desnorteada nos seus referentes, que nenhuma outra bússola resta para além dos EUA. Um algum centro e uma direita que se diz conservadora, mas que surge absolutamente industrialista, incólume a qualquer preocupação ecológica. Uma total contradição intelectual e ideológica. Enfim.

Um algum centro e uma direita que se reclamam liberais, mas totalmente incólumes ao não liberalismo da política do governo Bush. Enfim.

Ou será que Bagdad é o centro do mundo, como a Jerusalem medieval o era para os incautos desses tempos?

Diga-se que vendo tanto socialista agarrado ao Kerry, jornalando e blogando de bandeirinha hasteada como se num caucus democrata, é óbvio que o mal do desnorte, da "americanização", do empobrecimento intelectual parece ser geral. Que aconteceu à Europa?

Enfim, devem ser anos a mais em África, quem sou eu para me questionar com Europas?

Já agora, e ainda mais a despropósito, e porque referi o Causa Nossa, quando leio Luís Nazaré, homem da elite socialista, afirmar: "Sugiro-te que deixemos os exemplos estrangeiros de lado (porque não se nos aplicam) e a semântica ideológica para os doutorandos em filosofia política, porque do que precisamos é de política para o nosso tempo" (a ligação permanente é inválida) assusto-me, mergulhado neste anti-intelectualismo tecnocrata, o mito do "realismo". E já nem entro no avesso ao "estrangeiro" porque até se poderia contextualizar. Até, só até.

Enfim, a torcer ainda mais o nariz ao que aí vem daquele lado.

Publicado por JPT em 04:16 AM | Comentários (0) | TrackBack

Formas de casamento

Já o tenho referido, um velho texto sobre formas de casamento que aqui coloquei. A minha tese é simples, e nada original decerto: a aceitar o casamento homossexual como reprodutivo dever-se-á terminar com a monogamia prescritiva e com a proibição do incesto. Entenda-se terminar os impedimentos legais e a produção de valores preconceituosos que desvalorizam essas práticas.

Agora o Letras com Garfos descobre esta notícia, um casamento poligâmico de perfil especial. Uma poliandria? À primeira vista poderá parecer, com efeito é uma mulher casada com vários (2) homens.

Mas não é bem uma poliandria, isso seria uma redução. Pois os homens também estão casados entre si. A notícia chama-lhe "Casamento Trionogâmico". Estamos perante o casamento de dois homens entre eles e de cada um deles com a mesma mulher. Enfim, à falta de melhor, um casamento de grupo, integrando uma ligação homossexual e duas heterossexuais (e só aqui coloco estes termos para facilitar a descrição, pois estas categorias complexificam-se num caso destes).

Ao Letras com Garfos isto choca. Não tanto a mim. Acho muito interessante, é até uma das múltiplas conclusões empíricas, etnográficas, possíveis daquele meu textito.

E é também corolário racionalizador das causas semi-assumidas. Ou pelo menos deveria ser, se houvesse a coragem da coerência.

Publicado por JPT em 02:59 AM | Comentários (1) | TrackBack

Livro sobre Violeta Parra

O visitante António Jacinto Pascoal enviou esta contribuição, respeitante a um livro por ele publicado na editora Ela Por Ela dedicado a Violeta Parra. Ei-la, incluindo capa de livro, nota de apresentação e texto crítico.

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NOTA DE APRESENTAÇÃO

Violeta Parra, a célebre intérprete da canção Gracias a la vida, é o nome mais alto do cancioneiro popular do Chile. Entre espectáculos, digressões, prémios, casou várias vezes, teve quatro filhos e destacou-se pela qualidade e conteúdo social do seu trabalho artístico, que nos legou uma lírica politicamente comprometida, criativa e singular, misto de alegria e infelicidade, combatividade e desespero.

Alguém lhe chamou a abelha-mestra da Nova Canção Chilena. Mas foi também intérprete de outras artes: pintura, escultura e tecelagem.

Mais tarde, sucumbiu à melancolia, à solidão e à depressão, suicidando-se em 1967, pouco depois de compor Gracias a la vida, em cujos versos diz: “Assim eu distingo a alegria do desalento, / as duas matérias que formam o meu canto/ e o vosso canto, que é o mesmo canto, / e o canto de todos, que é o meu próprio canto”.

Com este livro, o público passa a dispor, pela primeira vez, do essencial da obra poética de Violeta Parra, praticamente desconhecida entre nós, e fundamental para a compreensão do nosso próprio cancioneiro popular.

TEXTO.

De António Jacinto Pascoal a tradução de Violeta Parra em “O Canto de Todos”, antologia poética, prefaciada, anotada e acrescida de duas missivas epistolográficas da chilena para o seu amado Chinito, aliás, o músico suíço Gilbert Favre.

Lembra-nos, ou anuncia-nos o tradutor, que para Violeta Parra, irmã do também poeta Nicanor Parra, “La muerte no es tan importante como la vida. La gente solo se assusta se no ha sembrado nada.”, possível explicação para o seu tão entusiasmado envolvimento na vida, no amor, na luta, nas observações, nas vitórias e nas derrotas, que, como qualquer entusiasmo, requeria esfriamentos, pedaços de morte para contrabalançar o corpo e, provavelmente, destruir e imbuir a mente de derradeiros impulsos para uma luta fatalmente maior que o homem. Poderemos encontrar, nos meandros desse espaço, a marca de muitos heróis e anti-heróis, misto em que, possivelmente, mitigou Violeta os seus anos de vida. Tal torna-se igualmente visível na tradução directa dos poemas que existe neste livro, e directa, não por ter sido efectuada directamente do castelhano, mas porque tenta evitar os espaços do poeta tradutor ao mínimo, e evita.

Ficam-nos depois, os poemas musicados, e para música escritos, de Violeta, que com toda a rapidez se voltam a transformar, buscando a fonia original, que muito lamentavelmente não é incluída.

Talvez toda a poesia seja simultaneamente música, ainda que no seu estado mais ancestral, cru, mais visceralmente emitido que falado; mas esta foi impulsivamente música, onde ganhará outra dimensão, que não perde, todavia, em força e luta, quando apenas tomada na aspereza e beatitude das palavras: lágrimas, gemidos, verbos de força, força dos braços, força dos Homens, força intra-uterina acrescida, facto que possivelmente fez acrescer o interesse da editora Ela por Ela neste livro.

As forças que desconstruímos destes versos avisam-nos um Chile com a datação de uma determinada mulher e da sua vida, mas vivem encharcados de uma mesma carne arrepiante que pode ser descoberta no blues do Mississipi, na soul de Filadélfia; sempre uma apropriação humana do vento que varre as casas – agora os prédios – obrigatoriamente abandonadas para vislumbrar a vida.

No caso de Violeta e dos seus trabalhadores, cavou uma terra humedecida com sangue e inflamou-se de amor e morte; lenga-lengas iniciadas À uma, muitas vezes cantadas, mas desde o inicio comprometidas.

Artur Aleixo
Arronches


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Recolocar textos

Estou a recolocar os textos do arquivo, já cheguei a meio de Abril. Um a um, sem censura. Confesso que muitos gostaria de deitar fora, mas para quê a auto-censura. A outros, confesso, acho piada, já esquecidos.

Aqui recoloco um, que tinha esquecido, deixado a 12 de Abril. Porque sintetiza toda a tralha indigente que ganhou estrado no meu país. E que se mantém activa.

Ei-lo, com um sorriso:

"Dizem-me (e até eu, em alguns dias) a caminhar para a direita. Mas nego-o. Pois não é de direita ficar com os cabelos em pé quando se lê o que aqui transcrevo, via Mar Salgado:
Fausto Bertinotti, convidado ... do 5º aniversário do Bloco de Esquerda: "...para enfrentar o novo capitalismo é preciso uma nova língua que incorpore o apelo dos indígenas, dos homossexuais, das lésbicas, dos presos, dos palestinianos".

E ele que me desculpe, se aqui algum dia chegar, mas lembro-me de imediato de um bom amigo moçambicano a contar-me um episódio de uma das suas deslocações (militantes, frise-se) ao Forum Social Mundial de Porto Alegre: desfilavam várias organizações e tudo ia gritando "Viva o Movimento X", "Vivam os ...Ys" quando passou uma organização lésbica e todos avançaram num "Viva as lésbicas!" e ele, claro, também mas a interromper-se, caído em si no resmungo "porra, vivam as lésbicas? qu'é que estou para aqui a fazer a gritar isto?".

Optima memória esta, porque me acalenta a ideia de que independentemente de onde se estiver nem todos estarão loucos por ali.

[nota para quem me achar homófobo: sê-lo-ei, comerei o meu chapéu até, se algum iluminado me conseguir provar que um palestiniano não é um indígena. Ou até mesmo se me mostrar uma lésbica ou homossexual (perdão, repito-me...) que não o seja também, indígena digo. Quanto aos presos nem digo nada, coitados, como se não lhes bastasse estarem presos e ainda aparece um blog a chamar-lhes coisas]"

Publicado por JPT em 12:51 AM | Comentários (0) | TrackBack

setembro 14, 2004

Roupa Velha 19: As Férias do Emigrante

Para a semana vou a Lisboa, um ano passado. Há três anos que não faço férias em Portugal, apenas curtas passagens de azáfama. Aqui deixo texto velho, obviamente muito datado, crónica dessas últimas férias, já em 2001. Para depois comparar.

Ao relê-lo não posso deixar de sorrir, desalentado, com as minhas optimistas referências acerca do Portinho da Arrábida.

AS FÉRIAS DO EMIGRANTE

Madrugar na Portela de Sacavém, relembrar o frio apesar do Julho. O avião cheio, vários amigos ou conhecidos moçambicanos em férias, trânsito ou trabalho. De passaporte em punho todos serão lentamente esquadrinhados. Será necessário, FEDER oblige, mas aqui ao novo-rico acontece-lhe corar.
Uma hora e vinte minutos esperando as malas! Uma transpirada e sonolenta saudade do dinamismo do Aeroporto Internacional de Mavalane.

A Gata Joana também veio de férias, que se deprime quando fica só. Levamo-la ao controle sanitário, obrigatória e oficial formalidade. Entre cães e gatos, enfileiramos à espera que nos atendam. Lá está o número do sacrossanto telemóvel, os interessados que chamem o senhor doutor para que ele cumpra o que o Estado exige na fronteira. Telefona-se, que remédio, espera-se 45 minutos entre a vergonha nacional e a ironia estrangeira embrulhando a irritação. O veterinário de aeroporto “há-de chegar”, olha os papéis, não vê o bicho, cobra 20 USD, e siga a bicha.

Com Sol ainda fresco, protector de turistas, o Terreiro do Paço lindo, liberto de carros e obras. O Rossio e a Praça da Figueira quase prontos. O Marquês, onde construíram bem, completando a traça arquitectónica, excelente. A minha primeira visita demorada à Expo. Perfeição, imponência e beleza. Sou um austral pacóvio, boca aberta no Oceanário, a célebre pala, a Torre, a nova FIL. E o meu rio. Lisboa está cada vez mais bela, de viver, de visitar. Estamos contentes com a nossa cidade, orgulho nada piroso. E menos carros, muito menos arrumadores. Com os parquímetros as famílias deixaram de pagar a taxa de heroína, passada a imposto municipal. Concordo!

Chegámos assustados pelos jornais, mas agora desdizemos a crise. Uma Lisboa em construção, novos prédios sucedem a novos prédios. E a que preço, como conseguem comprar casa? E lojas, lojas, lojas, roupa, roupa, roupa, saldos, saldos, saldos. Porque compram tão mais caro o que podem comprar tão mais barato três meses depois? Empregados africanos e brasileiros, eslavos ainda não, que estes serão empregadores daqui a uns anos. Sou solidário, de emigrante para emigrante. Crise? As classes médias aparentam estar bem e recomendam-se. Crise? Só se for de barriga cheia.
Produtos? Espanhóis...

Burocracias. Renovação urgente do BI, cinco horas de bicha, dezenas de pessoas na rua, sentadas no chão ali ao Areeiro. Dia seguinte na Segurança Social, duas horas de espera para saber que não há nada a fazer, “caiu o sistema”. Ah, nem tudo mudou no velho país.

O regresso a Lisboa é também ao anonimato da cidade grande, as caras conhecidas são os edifícios. O Tivoli abandonado, as madeiras estaladas sem tinta. Ao lado a novidade do Fórum Tivoli, escritórios e lojas caras, moeda de troca para manter de pé a futura ruína? Nele uma cave feita esplanada, para os almoços no trabalho. Mas pelo menos já não se come de pé, como antes era por aqui hábito. Um gaspacho frio e logo surgem um, dois, três, quatro, cinco personagens conhecidas. Para primeiro dia de viagem é engraçado, mesa de conversas soltas, surpresas. Cidade Grande?

À hora de almoço os jovens empregados saem à rua, de tanto fato preto julgo cruzar um funeral. Entende-se, filhos e netos de malteses, primeira geração que chega ao terciário, não sabem esse preto como luto, oficial ou traje de noite. Seguem, “doutores”, assim fardados, tal como antes reinventaram as capas negras quando bêbedos candidatos a licenciados. Mas, é óbvio, desde que de uniforme sentem-se seguros face aos patrões. Alguns mais velhos, ou atrevidos ou seguros, arriscam mesmo o fato azul, aquele tipo velho funcionário da Carris. Graduação cromática dos quadros?

Certo que aqui também as mulheres há muito que cobrem a noite vestindo o preto. Uma Nazaré, este país! Constato que as "senhoras" agora pintam as unhas dos pés, antes não o faziam. Repugnante, porquê seguir modelos de dona de casa inglesinha?

Amigos ausentes, ou já distantes. Então cinema, exposições, passeios, praia. Um filme excepcional, iraniano a contar curdos, “Um dia de cavalos bêbados”. Nos outras salas da capital estão filmes há muito vistos na provinciana Neilspruit. No CCB a SIC expõe “100 Imagens, COM legendas”, que pena não ser “100 legendas”. A ver, a não ler! Para mais comparações, a exposição Altamira com dez Grandes, Siza et al, propõem o novo mobiliário. Credo, quero as lojas de Whiteriver, viva a mobília do quasi rústico inglesinho.

A Comissão dos Descobrimentos, à qual tanto devo, despede-se para sempre com uma exposição nas Janelas Verdes. Peças fabulosas, obrigatório ver. Compreender? Como, se nem uma informação? E será que todos sabem quem foi o ourives Gil Vicente, o dito Cantino, ou o Duarte Barbosa? Um amigo avisa-me que nela fiz uma circum-navegação. Obrigado, Jorge, que não se tinha percebido. E numa sala cheia de turistas nem uma palavra em língua estrangeira. A Comissão contra a globalização? Ou apenas esgotada?

Praia, o Meco que resiste a Lisboa, o Portinho da Arrábida, muito bem preservado e arranjado, recomendável na sua beleza. Se o litoral sobrevive o país vai melhorando, digo-me, optimista. Mas a Natureza foi inclemente com estas paragens, a água do mar é gélida. E do Algarve avisam-nos para não irmos, que já está a adornar, tamanha a multidão aboletada.

Instalámo-nos na Margem Sul, convívios gastronómicos no Atlântico. As docas de Setúbal, peixe glorioso, esplendor ao jantar a preços aceitáveis. Os amigos vão resmungando com o que lhes toca. Na Aroeira, que já foi campo, vão construir milhares de fogos, quem para ali fugiu ficará sem o arvoredo. E com tanta água que será necessária, mais o golfe que substituiu o picadeiro, lá se irão salgar os lençóis subterrâneos. “É o poder local”, concluem os habitantes, tristes na antevisão.

No caminho de Sesimbra mais amigos a resmungar. O pinhal fronteiro vai ser destruído por uma urbanização camarária. É ilegal, mas envolve tão grande transacção de terrenos na capital Seixal que tudo vale. Quem está no movimento de cidadãos que à barbárie se opõe já mudou o número de telemóvel, já não atende o telefone de casa, só para evitar anónimos insultos e ameaças de morte, que os camaradas daqui não hesitam nos meios - herança revolucionária?. Amigos decentes os nossos, nossa riqueza.

No belo Azeitão, mais amigos. Uma delícia o Moscatel velhíssimo que nos oferecem. Mas de onde brotaram todos estes prédios habitação social, tão escondidos da estrada principal? O dono da casa e da garrafa vai resmungando que aos do poder local só interessa lotear, que lhes dá bom dinheiro, que “isto está como no terceiro mundo”, como se eu o reconhecesse. Imprecações contra patos-bravos e autarcas, sempre vou dizendo que depois se oferecem dois ou três jogadores ao Benfica e tudo sossega: “Benfica? Queres ouvir a história do centro de estágio no Seixal?”, fulmina-me. Não, piedade, chega! Mais uma lágrima de vinho, s.f.f.

Mais à frente, lá pela Cotovia, mais amigos, mais lamentos, outro pinhal que se preparam para substituir por casas. Outra Câmara, outro partido, mas face ao vil metal o resultado é o mesmo. Em tempos que se dizem de fim das ideologias alegro-me, a nossa esquerda sempre fiel aos seus princípios, algo actualizados. PS e PC juntos, malteses e afins, defendendo que “A TERRA A QUEM A CONSTRUA”.

Jornais diários no dia, prazer de emigrante. Em plena “Estação Estúpida” os habituais inquéritos aos populares. O “Público” interroga imigrantes, o que acham de Portugal e seu povo. Vão coincidindo no positivo da convivência, da boa mesa, no negativo do pouco amor-próprio, da falta de capacidade de indignação. Mas como se podem indignar, estes filhos e netos de malteses agora pequenos burgueses?

No velho bairro, imperial e tremoços. O Luís, o mais-velho dos malucos residentes dos Olivais morreu. Desde o liceu que me lembro do seu “dá-me um cígarrrriiiiiinho!”, tantas vezes tornado copo-de-leite e sanduíches, sempre acarinhado por todos, o louco simpático e inofensivo. Pois nestes Santos Populares uns jovens atearam-lhe fogo, ainda foi morrer ao hospital.
Que se pode fazer com estes filhos e netos de malteses?

Jantar com grande amigo feito no Maputo, bebé recém-chegado, bonita mulher, altas tarefas, o génio de sempre. Belo caril, excepcionais tintos, alternando os franceses e os nossos. E é dele a frase letal, “como posso ser feliz num país infeliz?”.

Estamos de férias, seguimos para Bruxelas amanhã.

Agosto 2001

Publicado por JPT em 11:45 AM | Comentários (8) | TrackBack

Sexo, Mentiras e Acusações

Isto de ter um blog dá para surpresas! Amigo muito próximo acaba de me enviar a transcrição de declarações de uma testemunha do caso Casa Pia, proposta óbvia para que eu aqui as coloque. E que suculentas elas se apresentam. Isto demonstra que o paradigma Portugal Profundo se está a impor. E que as pessoas de bem (como é o caso, até extremo, deste meu amigo) deixaram de acreditar na justiça portuguesa [e este é o Verdadeiro Escândalo]. E significa também que por todo Portugal a rede de email fervilha com os documentos relativos a este caso.

Acredito que o António Caldeira esteja convicto da justeza da sua atitude e da existência de uma rede protectora de uma elite socialista pedófila que ele procura combater. E que, tal como este meu amigo e tantos outros (e eu também, vide "O Polvo" à mostra no caso Apito Dourado, felizmente ainda sem assassinatos [sublinhem o ainda, sff]), não tem qualquer confiança no sistema de justiça português.

Mas não acredito nessa elite socialista pedófila. Racionalmente procuro evitar cair nas armadilhas das "teorias da conspiração". Mas décadas de violações, centenas de vítimas, n+1 testemunhas e que temos de acusados? O maluquinho de serviço, o seu chefe, duas ou três alcoviteiras, um doente terminal, duas ou três figuras públicas ou quase. E, vox populi, a liderança do partido da oposição. Bem, ou esta meia dúzia de homens tem uma pujança sexual infinda ou há qualquer coisa que nos escapa.

E depois há este canibalismo, o de que é necessário apanhar os famosos. Eu gostava que se apanhasse o santos da padaria, o alves da EDP, o silva do caixa geral, o mendes taxista, o dono do restaurante X, o sr. engenheiro do mazda, o enfermeiro gordo do centro de saúde, esses gajos. Estou-me, e aqui cito Eduardo Ferro Rodrigues, "a cagar" para os famosos.

Meu caro Amigo, estou absolutamente convicto de que isto foi muito bem urdido. Posso estar enganado, e não ponho as mãos no fogo por ninguém: nem por ti (nem por mim). Mas juraria que rebentaram as investigações queimando a liderança do PS.

Mais, gosto do Ferro Rodrigues. Gosto da irascibilidade dele, do emotivo desbragado, do "tirem-me este gajo daqui senão vou lá eu". Nele, modestamente, me revejo. Gostei daquela demissão extemporânea, pois ainda que haja quem a diga planificada para Belém ela é certidão de óbito política. Gosto porque é um enorme "que se foda!" já na areia da praia (parece óbvio que as próximas eleições eram dele) - e essa é uma atitude que me é querida (infelizmente?).

Gosto dele, meu caro, porque sendo "Todo Poderoso" Ministro levanta o cu da cadeira e vai buscar a sua cerveja, e fartei-me desses palhacitos a prazo que acham que deles todos são criados.

E nunca me esqueço que as acusações sobre sexo são lixadas. Porque javardas. E porque se colam, nunca limparemos as manchas o suficiente, nisso esgaçamos a roupa, chagamos a pele. A esta minha história lembro-ta, meu amigo, pois já a conheces. No meu ante-ante-antepenúltimo emprego, muito bem pago era ele, aqui apareceu um tipo, muito bem protegido e a muito querer ganhar o taco, dizendo diante de 50 muito ilustres culturais portugueses que eu dava bolsas de estudo em Portugal às estudantes moçambicanas que fossem para a cama comigo.

Pois, é disso que eu não gosto no Ferro Rodrigues e no Pedroso e no Costa e nos outros. É que sejam e se digam camaradas desta escumalha e dos seus protectores.

Pois, é disso que não gosto neles. E é isso que deles me faz incomensuravelmente superior. E que me faz escarrar quando eles passam. Por aquilo que eles são, pela forma como vivem. E não por causa de algo que alguém inventou...


Publicado por JPT em 10:30 AM | Comentários (1) | TrackBack

setembro 13, 2004

Caro endividado

caso ainda não tenha lá ido faça o favor de se ir ler, que aqui está o seu retrato.

Publicado por JPT em 07:50 PM | Comentários (0) | TrackBack

O Ataque da Matacanha (parte II)

Apesar de alguns conselhos amigos a Matacanha continua a devorar-me as extremidades. Lá em baixo o sabugo e o cantineiro já desapareceram. O Ma-schamba vai desaparecer, roído pelo apetite alheio? Talvez antes isso do que pela própria malvadez...

Publicado por JPT em 07:43 PM | Comentários (4) | TrackBack

Arquivo do blog (3)

Espicaçado pelo comentador referido, enquanto dei cabo do tal coirato recomendado (acompanhado, como mandam todas as regras, de um Sumol de laranja) terminei a republicação de todas as entradas dos meses entre Dezembro e Março, inclusive. Abril e Maio ainda estão muito incompletos, mas lá chegarei.

Publicado por JPT em 05:53 PM | Comentários (2) | TrackBack

O Luís Ene

perguntava há meses se haveria isso de escritores de blog. Subentendi que perguntava se haveria um estilo e um método adequado ao blog, ou pelo menos privilegiado. Não sei que respostas teve.

Mas lendo por aí parece que sim. Vejo várias notas de parabéns ao blog Barnabé nas quais se afirma que ali se sabe escrever para blog. Donde se entende que há uma concepção de como escrever num blog, um estilo, um método talvez.

Luís, tens aqui a resposta?

E conviria escrever sobre isso, talvez sistematizar.

Publicado por JPT em 12:35 PM | Comentários (5) | TrackBack

Artigo sobre blogs e o politicocentrismo

Numa quase velha "Visão" que aportou cá em casa vejo um artigo sobre blogs - foi a Inês antes de se ir embora que me chamou a atenção, sabedora da minha distracção, quase repúdio por revistas, um desagrado sem razão nem razões. (Porque será que revista para mim é viagem impessoal, fora disso poucas são as que agarro).

Volto ao artigo. A atenção é sobre os blogs políticos, da gente política famosa. Paupérrima abordagem, o facilitismo dos nomes é certo. Mas acima de tudo porque é jornalista procurando nos blogs o que de mais parecido há consigo mesmo, a coluna política. Enfim, o processo classificatório constante - a busca do idêntico: um turista, ponto final.

Nem um olhar sobre coisas que me parecem do mais interessante, a explosão da auto-edição. Entre o imenso que há pus uma série de gente aí sob as categorias "Contadores" e "Cantores" (a actualização é impossível; e desnessária, entra-se e depois é um labirinto de blogs a percorrer por cada um). Onde há coisas mais e menos para o meu gosto, mas esse é apenas o meu gosto. E mais dado à prosa do que à poesia.

O Alexandre Soares Silva que foi dos primeiros blogs do Brasil que apanhei, agora finalmente caído sob a atenção dos líderes de blogopinião e divulgado. E para aqueles lados gente menos conhecida, e de escrita não polemista, como o Vai Meu Filho, o Kafka Sumiu em Belo Horizonte e os outros blogs do seu autor. Em Portugal só como exemplo do meu gosto, o Caneta sem Tinta, o Pequenas Histórias, já para não falar do Ene, mas este já é afamado.

Nem uma palavra sobre algo que acho um máximo, o ecumenismo bloguístico, explícito na bela iniciativa do Terra da Alegria, visível em vários dos blogs seus participantes.

E os múltiplos blogs regionais (acomodei alguns em Colinas), a furarem a dicotomia entre locais e globais, sem tentativas desse "glocalismo" quase sempre falível.

Há tanta coisa por aí e os artigos/reportagens a ficarem-se nos blogoescaparates, por modorra claro, mas também por um vão politicocentrismo.

Enfim, ainda não foi desta que me afeiçoei às revistas.

Publicado por JPT em 12:26 PM | Comentários (5) | TrackBack

Sangomas

De crucial importância a legislação da semana passada na África do Sul (The Traditional Health Practitioners Bill), o reconhecimento oficial como profissionais de saúde dos "sangoma", os curandeiros tradicionais sul-africanos .

O reconhecimento legal do "curandeirismo", de modo muito grosseiro definível como mescla da religião de ancestrais com ervanária, e a constituição de concelhos de controle e legitimação (atribuição de "licenças profissionais") da sua prática, é um passo fundamental. Porque quebra os preconceitos dominantes da "biomedicina" desvalorizadores das práticas médicas assumidas pela maioria da população, assim permitindo (incrementando? - não o posso afirmar de modo absoluto, não conheço a realidade sul-africana em detalhe) a sua integração na saúde pública.

E porque cria mecanismos auto-controladores do charlatanismo e, esperemos, de divulgação dos seus limites - veja-se a proibição da "cura" de doenças mortais como sida e cancro.

É um passo esclarecido.

Quanto à medicina tradicional refiro algo que considero fundamental. Com a praga da Sida ela surge como um poderoso, e quantas vezes único, produtor de esperança para doentes e seus familiares.

É uma situação limite. Pois por um lado é necessário combater a crença das possibilidades dos médicos tradicionais curarem a Sida, a cuja afasta doentes da medicina oficial e possibilita a disseminação da doença.

Mas por outro, dada a impossibilidade de cura e a desprotecção da população face à fragilidade dos serviços públicos e à renitência em praticar o sexo protegido, a medicina tradicional surge como único produtor desse recurso social fundamental: esperança.

A ver como corre esta integração na África do Sul.

Em Moçambique há longo tempo que estes passos, esclarecidos, foram realizados, com a oficialização dos curandeiros e a criação da sua associação regulamentadora, a AMETRAMO.

Publicado por JPT em 06:59 AM | Comentários (0) | TrackBack

Arquivo do blog (2)

São visitas ao passado recente que me agitam o espectro da preguiça. Pois quando fechei a barraca pus tudo em rascunho, e agora tenho vindo a republicar texto a texto, devagarinho, com a tal preguiça. Enfim, um arquivo incompleto é o que para aí está. Tarefa a privilegiar nos tempos futuros.

Publicado por JPT em 06:24 AM | Comentários (0) | TrackBack

setembro 12, 2004

Arquivo do blog

Tenho sempre dúvidas de que alguém visite as Arcas ou o Celeiro destas Ma-schamba. E dos outros blogs também. Acho que as visitas preferem os últimos apontamentos, aqui e alhures. E isso é interessante, demonstra a vontade de actualidade dos leitores de blogs, assim aproximando estes de jornais mais do que de diários. E é uma pena, acho eu.

Por isso acho óptimo quando recebo qualquer sinal, explícito ou implícito, de que andaram a vasculhar no passado daqui. E disso acabo de receber um sinal explícito, um rarissimo comentário sobre texto antigo, este já de Dezembro passado.

Abaixo transcrevo a opinião expressa, pois presumo que poucos leitores vão até esse Dezembro. E porque muitos leitores do Ma-schamba recentemente me disseram que é necessário aceitar as opiniões alheias, que isso é "democrático" (ponho aspas porque multi-cito), aqui coloco uma que poderia passar despercebida, residente num arquivo pouco visitado. Ainda que a sua compreensão apele à leitura do tal velho texto. É uma opinião burilada, tal e qual outras. E, confesso, que me é refrescante, pois há que estar na moda, actualizado, e por isso cada vez mais gosto das tipologias, que tanto ajudam a... tipificar os outros. Ainda que não sirvam para mais nada.

Eis:

"ó homem, nao seja etnocentrico! O que ele (JAC) quer dizer é que emite para todos os portugueses emigrantes espalhados pelo mundo. Sao esses portugueses é que pagam a RTP. Ela nao se dirige aos seus camaradas pretos mas sim ás comunidades lusas. Essa sua cabecinha de libertario feito à pressao é que ainda esta cheia de teias de aranha do antigamente e fica logo a pensar em racismos e tretas dessas. Deixe-se disso, vá beber uma Sagres e roer um coirato, que isso passa-lhe! A muamba com peixe frito e aguardente dá cabo da figadeira."

Publicado por JPT em 05:11 AM | Comentários (5) | TrackBack

setembro 11, 2004

Quem me dera

crazy.gif


ter este meu disco aqui. E um prato.

Publicado por JPT em 02:10 PM | Comentários (1) | TrackBack

setembro 10, 2004

Uso social dos medicamentos

Será isto mentira (e isto chama-se condições sociais do uso dos fármacos)? Será isto é uma vil campanha de alguns retrógados e desonestos profissionais de medicina apoiada por um jornal pasquim? Dou de barato.

Mas se for verdade alguém se importa de dar um pontapé no rabo dessa tonta borndiep? Imbecil, a falar sem pensar só para gozo próprio.

Há Mulheres Que Usam Fármaco para Abortar
Por CATARINA GOMES
Público
Sexta-feira, 10 de Setembro de 2004

e têm bebés prematuros

Em Portugal as mulheres não precisam que activistas holandesas lhes venham dar a conhecer que o misoprostol pode ser usado para abortar. A "prática é corrente" e o seu uso tardio leva a que mulheres usem este remédio para interromper a gravidez acabando por ter bebés prematuros com graves problemas de saúde, denuncia a presidente da Comissão Nacional para a Saúde Infantil e do Adolescente, Maria do Céu Machado, com base num estudo científico que coordenou.

A polémica foi lançada pela responsável da organização pró-aborto Women on Waves. Rebecca Gomperts disse, terça-feira, num programa televisivo português, ter adquirido misoprostol numa farmácia sem receita médica. Ensinou depois a melhor forma de abortar usando um fármaco comercializado em Portugal: a substância activa misoprostol que é vendida como Cytotec ou Arthrotec. No "site" da organização recomenda-se o aborto com recurso a este remédio até às nove semanas numa dose de quatro comprimidos de cada vez (www.womenonwaves.org).

Maria do Céu Machado, que é pediatra e neonatologista no Hospital Amadora-Sintra, afirma que dão entrada mulheres em trabalho de parto com "a vagina cheia de comprimidos de misoprostol", às vezes com "seis vezes a dose terapêutica", o que provoca "dores fortes" - "É tudo feito com muito sofrimento."

A responsável afirma que há "um número crescente de grávidas que fazem um uso tardio do fármaco, por vezes depois das 24 semanas de gestação (seis meses), não tendo noção da viabilidade daquele feto". O misoprostol isolado é pouco eficaz no primeiro trimestre da gravidez, com expulsão do feto em apenas 9 a 20 por cento dos casos. Nos segundo e terceiros trimestres é mais fácil induzir o parto, refere.

Como se trata de gravidezes não vigiadas, muitas mulheres ignoram quando ficaram grávidas. "Não percebem que "não vão expulsar um embrião mas um feto vivo e viável". "Para estas mães o nascimento de um filho vivo é uma surpresa com a qual têm grande dificuldade em lidar", salienta.

"Estas mulheres acabam por ficar com uma criança viva cheia de problemas de saúde", por vezes "sequelas neurológicas, como a paralisia cerebral". Os bebés nascidos desta forma adoecem mais com problemas cardíacos e pulmonares, refere a pediatra Manuela Escumalha, autora do estudo efectuado na Unidade de Neonatologia daquele hospital.

A investigação dá conta de 30 bebés com menos de 1,5 kg em que as mães admitiram o uso de misoprostol e comparou-os com prematuros com o mesmo peso nascidos de partos espontâneos. O período do estudo foi de 1996 ao fim de 2003. "São quatro crianças por ano num total de 80 crianças por ano com aquele peso." Ou seja, "cinco por cento dos prematuros com menos de quilo e meio nascidos naquela instituição durante aquele período foram resultado de abortos induzidos por misoprostol", refere a autora do estudo. Seria importante ter a dimensão do problema a nível nacional, acrescenta.

As conclusões têm base num estudo científico realizado no Hospital Amadora-Sintra. A tese de mestrado em bioética foi apresentada em Julho deste ano na Faculdade de Medicina de Lisboa por Manuela Escumalha e foi coordenada por Maria do Céu Machado. O estudo foi apresentado no Congresso Europeu de Perinatologia e deixou muita gente "estupefacta" com uma situação "muito grave", que revela "uma ignorância que é reflexo da falta de educação sexual e reprodutiva nas escolas, em pleno século XXI", reforça a autora.

São "crianças não desejadas" que em 30 por cento vão para a adopção e para instituições de acolhimento. Em 70 por cento dos casos as mães acabam por ficar com os bebés, acrescenta a investigadora.

Comprimidos a 7,5 euros

Maria do Céu Machado afirma que cada comprimido de misoprostol é facilmente adquirido no mercado negro a cerca de 7,5 euros, sendo fácil de comprar, especialmente "nos meios africanos e brasileiros", refere. É um pouco mais caro do que na farmácia. O Arthrotec custa entre 5 e 24 euros (dependendo do número de unidades de cada embalagem) e o Cytotec entre 10 e 26 euros.

O fármaco é de uso corrente pelos obstetras para provocar partos em tempo normal e para fazer os abortos previstos na lei (malformação do feto, violação e perigo para a saúde da mulher). "Quando o aborto é feito no primeiro trimestre é uma atitude pensada em que se medem os prós e contras"; nestes casos [os da automedicação] "parecem quase tentativas de suicídio, quando o companheiro as deixa ou ficam no desemprego", considera Maria do Céu Machado.

A pediatra afirma que este uso coloca questões éticas que foram levantadas neste estudo: "Estamos a fazer reanimação de crianças prematuras que não são desejadas pelas mães..." Nos Estados Unidos, nestas situações, pergunta-se aos pais se autorizam a reanimação.

A médica afirma que há que pensar se este fármaco deve ser apenas de uso hospitalar, para dificultar a sua venda clandestina. Mas a principal questão passa pelo reforço da educação sexual e reprodutiva. "Estamos a meter a cabeça na areia, sem barco ou com barco, quanto mais se discutir melhor", remata.

Publicado por JPT em 01:15 PM | Comentários (10) | TrackBack

setembro 09, 2004

Por falar em causas

Fala-se muito de causas. Há uma cosmologia de causas. Há, e é evidente, uma blogocosmologia de causas no meu Portugal.

E depois há causas, que são também perguntas. Neste caso os alimentos transgénicos e a sua exportação / experimentação através dos programas de ajuda alimentar, muito bem lembrada pelo Blogo Social Português. Estas causas sim, a serem, realmente, discutidas. Haja gente.

Sobre esta matéria há alguns argumentos contraditórios. Eu sou leigo, mas profundamente desconfiado. Claro, tenho referido aqui o meu crescente conservadorismo. Num caso destes as opiniões (grátis, como todas) têm que ser cientificamente fundamentadas, o que não as torna nem certas nem absolutas, apenas honestas.

O que nunca poderá ser aceite como honesto é a obrigatoriedade dos países pauperizados aceitarem (?!) ser cobaias via recepção dos excedentes dos países industrializados. Ou, doutra forma, serem consumidores/viabilizadores de uma (agro)indústria em arranque, e deste modo financiada pelos Estados (liberais???), enquanto não houver nesses países industrializados um contrato social interno sobre esta matéria.

Publicado por JPT em 01:52 PM | Comentários (3) | TrackBack

Futebolês

Aos sessenta minutos do Portugal-Estónia. Contributo imortal de Luís Baila para o futebolês:

"Esta equipa joga sempre com dez jogadores atrás da linha da bola e agora, no canto, com onze"!

Publicado por JPT em 01:23 AM | Comentários (5) | TrackBack

setembro 08, 2004

Ainda o aborto/IVG

Absolutamente incontornável este iluminado texto no Céu Sobre Lisboa.

E, em minha opinião, demonstrando que a questão é outra, e não tanto aquela que tem vindo a ser gritada. Porque o objectivo do grito é também outro, e não tanto aquele que tem vindo a ser gritado.

Publicado por JPT em 06:40 PM | Comentários (1) | TrackBack

sons

É mais a televisão que me traz ao ouvido gente do interior de Portugal ou desses litorais que não são os meus. O que os traz cá a casa são os incêndios, as cheias, um mais macabro assassinato, afogamentos, a visita de algum dignitário, uma qualquer indignação tipo "de freguesia a concelho, já", a vitória do clube da região, coisas dessas, do local, que o para o geral há outros que o pensam.

Chegam eles com os seus sotaques carregados, nem precisam de ser ilhéus, portugueses aquele bocadinho diferente pelo som, pelas entoações, expressões ditas "o vernáculo", até caretas e já nem digo vocabulário e sintaxe.

Comentar isso, afivelar sorriso público com tais falares? Nem pensar, aceitar a diferença é bom, é valor. Ainda para mais esta, mera herança das gentes, como posso eu sorrir com o falar do povo, tão legítimo exactamente porque do povo, tão legítimo porque herdado, os sons de antanho, coisa imorredoira e nunca estratégia. Natural, pois então.

Mas se me chega a pronúncia de alguns urbanos, carregada, um português aquele bocadinho diferente pelo som, pelas entoações, expressões, até caretas e já nem digo vocabulário e sintaxe? Toca a rir desse sotaque, a invectivá-lo. Pois não é "natural". Pois nele não é mera herança, não são os sons do passado, aquela natureza dos simples. São estes sons coisa estratégica, construída, mero modismo.

Pois, e sabe-se, tal como Deus Nosso Senhor o sabe, o povo é passivo, e também nos seus sotaques, é essa a sua natureza. Só os ricos, burgueses, são activos, estratégicos, nada dados ao que neles é puro e são. E, claro, são-no também nos seus sotaques.

Gozemo-los pois, a esses ricos, a essa gente da cidade grande, à sua pronúncia. Construída. Se falsos até no som, quanto mais serão naquilo que entoam.

Sim, gozemos, desmascaremos. É nossa obrigação, nossa missão, nós que nascemos bem, nós os sem-sotaque, reduzir esse linguajar novo-rico e acarinhar os falares naturais e simples, e ainda por vezes a estes elevar, traduzindo-os.

(Por vezes à noite tremo: e se Junot regressa, com as suas guilhotinas?)

Nota: não há nenhuma ligação (vulgo "link"). Pois nós escrevemos vários posts em vários blogs, nós temos muita palavra. Pesada, concisa. E, claro, sem sotaque.

Publicado por JPT em 02:34 PM | Comentários (4) | TrackBack

7 de Setembro 1974

Ontem cumpriram-se 30 anos sobre o Acordo de Lusaka. No qual se consagrou a Frelimo como o movimento político moçambicano, ultrapassando a vontade de alguns em proceder a referendo/eleições, e onde se marcou a modalidade de transição para a independência e a sua data. Data simbólica, a protocolizar o fim de décadas de colonialismo, quase um século em algumas regiões.

Nessa data também se deu o ínicio do último estertor do regime em Moçambique, com o sonho breve, e já em desespero, de uma Rodésia em português.

Há muitas versões sobre esta última matéria. E em Portugal um relativo silêncio.


Como memória aqui transcrevo William Minter no seu "Os Contras do Apartheid" (Maputo, Arquivo Histórico de Moçambique, 1998: 13):

"7 de Setembro de 1974: em Moçambique colonos brancos exaltados ocupam a estação nacional de rádio protestando contra o facto de Portugal ter concordado com a independência, decorridos dez anos de guerra. Ao grupo FICO e a ex-comandos auto-apelidados de "Dragões da Morte" juntam-se uma mão-cheia de negros opostos à Frelimo, que lutara pela libertação do país. Os manifestantes afirmam querer também um Moçambique independente, só que sem ser governado pela Frelimo. Mas a bandeira que empunham é a de Portugal.

Os rebeldes libertam membros da antiga polícia política que entretanto haviam sido presos. Vigilantes brancos circulam pelos subúrbios africanos, disparando contra civis negros. Em algumas zonas os negros retaliam com paus e catanas. Colonos que haviam partido para a Rodésia e para a África do Sul começam a regressar a fim de apoiar a rebelião. Segundo números oficiais, nos dias que se seguiram morreram catorze brancos e setenta e sete negros. Segundo rumores, houve centenas ou, mesmo, mais de um milhar de mortos."

Continuação: Em forma de comentário o Rui deixou este trecho e ponho aqui mais visível:

"Quando se esboroa um império, quando o poder cai na rua, a densidade histórica espessa-se mas, paradoxalmente, os testemunhos extremam-se e impera subjectividade. E quando o que está em causa é o próprio âmago do Poder, as provas materiais do registo histórico, a documentação oficial e outros registos da mesma proveniência, deixam de existir porque o poder que as instituiu também deixou de existir.

Tudo isto para te dizer, Meu Caro Amigo, que essa história do 7 de Setembro de 74, tal como até agora nos tem sido transmitida, seja pelos saudosistas do regime colonial, seja pelos empenhados e militantes Minters deste mundo, está demasiado a «preto e branco». Um dia, mas só daqui a muitos anos, descobrir-se-á uma outra leitura dos factos."

Mais do que agradeço o ponto. Há várias versões (aliás como sempre na história), li muito poucas, ouvi uma mão-cheia. Bocados da história a desenvolver sobre a memória existente.

Registo aqui que o Carlos Gil evocou a data.

Publicado por JPT em 01:48 PM | Comentários (3) | TrackBack

Praça

Em comentário recente a IO, amiga da casa, dizia que apesar da sua memória afectiva de Lourenço Marques e da sua Sé não gostava da Praça.

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Pois...ei-la, no seu estilo magestático, o ritual do Império. Ao cimo o então Palácio da Câmara Municipal (hoje Conselho Municipal), a seu lado a Igreja protectora, no centro Mouzinho, a enigmática personagem que a necessidade de mito tornou Conquistador. Ali altaneiro protegendo a Baixa (então coração) da Cidade - o Marquês de Pombal em África, impossível não associar.

Tudo isto olhando o braço de mar e, para lá, a terra dos Tembe.

Hoje Mouzinho repousa, digno, ao fundo da avenida, no centro da Fortaleza pastiche. E a Praça leva o nome de Independência.

[Fotografia de Carlos Alberto, retirada de Fernando Couto (coord.) Moçambique. Imagens da Arte Colonial, Maputo, Ndjira, 1998]

Publicado por JPT em 11:51 AM | Comentários (4) | TrackBack