Leio [artigo abaixo transcrito pois as ligações ao Público são perecíveis] as declarações do porta-voz da Comissão Europeia, congratulando-se dado que "A UE varreu os seus concorrentes", afirmou Kemppinen, com um sorriso largo...[pois] conquistou 286 (82 de ouro) [medalhas olímpicas] entre os 25 países que actualmente a constituem".
Poderiam ser palavras de um qualquer importante dignitário, que valeriam como sua opinião individual. Mas é um porta-voz, ainda que o possamos imaginar informal, "de sorriso largo". Daí que, apenas e muito, ecoa o sentido da dita Comissão Europeia.
Irrita-me. Pois é um cúmulo de ideologia burocrática, a querer impor identidades, sentidos, ao mundo. A narrativa que a Comissão quer inculcar, escondida no tal "sorriso largo", prazenteira, "como quem não quer a coisa".
Nem discuto se a Comissão está mandatada para isso (haverá mandato explícito para a construção de identidades colectivas?). Mas irrita-me a vertigem do funcionário, aflito para produzir a "sua" identidade europeia, aflito para ultrapassar essoutra identidade europeia fluída, complexa, contraditória, antagónica, mítica, construída e também sempre (re)construível , e, para ele(s) talvez pior do que tudo, que não lhe(s) cabe no relatório de actividades. Porque dele(s) não deriva.
Sobre esta vontade de sobreposição, esta incapacidade de entender a dimensão actual de representação identitária que se joga no desporto, e que se cobre de ridículo (e de anti-corpos?) nos seus meneios, já aqui escrevi, em tempos de Ma-schamba menos frequentada.
Vou, por isso, repetir o pecado da auto-referência (a idade, implacável). Foi a propósito do último França-Inglaterra do torneio das 6 Nações de râguebi que botei sobre os hinos e as identidades nacionais no desporto. Para quem não tenha paciência para o clic aqui deixo o final:
Mas se eles [Gales] não estiverem é a Inglaterra. [O que eu torci há uns meses, manhã de sábado ao calor da praia em Pemba, durante a final da Taça do Mundo. Ainda para mais ao meu lado uma galesa, doente de rivalidade a torcer pelos australianos...]
Daí que hoje sentei-me. As equipas perfilaram-se e eu também, no sofá. Pronto para, português, ateu e republicano fundamentalista, respeitar e sentir o ansiado "God Save the Queen", ali a anteceder a Marselhesa hino dos pavões.
Mas fico estupefacto, a banda avança com Beethoven. "Que raio é isto?" ainda me perguntei para logo aparecer um plano aéreo com a bandeira da UE lá posta à frente dos jogadores: o hino da Europa, lembro-me e lamento-me eu, desalentado.
Que monstruoso ridículo. Que artificialidade ridícula. Ali a fingir-se símbolo de uma identidade comum. Como se não fosse o próprio torneio muito mais do que o torneio. Ele próprio o símbolo, já secular, dessa identidade comum, vivida, lembrada, reforçada, no embate anual.
Que coisa burocático-politiqueira, aquele Beethoven ali postado.
Depois, depois, os ingleses cantaram (com tudo o que tinham dentro deles) o seu hino. E foram para o jogo levar uma sova.
Eu entretanto fui jantar, nem vi. Mal-disposto.
UE Louva Supremacia Sobre EUA
Público
Terça-feira, 31 de Agosto de 2004
Comissão Europeia congratula-se com as 286 medalhas conquistadas contra as 103 dos norte-americanos
Nenhuma nação obteve em Atenas, tantas medalhas (103, 35 de ouro) como os EUA, mas verifica-se que ficaram a léguas da União Europeia, que conquistou 286 (82 de ouro) entre os 25 países que actualmente a constituem. Como se de arqui-rivais se tratassem, o porta-voz da Comissão Europeia, Reijo Kemppinen, não perdeu a oportunidade de fazer esta comparação, ontem, em Bruxelas.
"A UE varreu os seus concorrentes", afirmou Kemppinen, com um sorriso largo, referindo que os europeus se distinguiram sobretudo nos desportos aquáticos e decepcionaram no boxe e no halterofilismo. "Daqui até 2008, o nosso nível deverá melhorar", afiançou.
A prestação dos EUA foi, no entanto, elogiada pela imprensa local. "Os americanos prolongam o domínio nas medalhas", titula o "USA Today", lembrando que os norte-americanos tiveram o mais elevado número de medalhas desde as 108 de Barcelona; mas acrescenta que as 35 de ouro representam o total mais baixo desde Montreal. Os elogios à organização grega são unânimes por parte dos diários mais importantes, embora o "New York Times" mencione a "factura" que a Grécia terá de pagar nos próximos anos pelo investimento feito.
A China, com menos três medalhas de ouro que os EUA, rendeu homenagem aos atletas que a representaram. "Bandeira vermelha de cinco estrelas, estamos orgulhosos de ti", escreveu o jornal "Quotidiano" em editorial do orgão central do PC.
Os russos balançavam entre o sucesso dos seus atletas e a desconfiança. Mesmo tendo ganho mais quatro medalhas do que em Sidney, o facto de terem perdido cinco de ouro em relação há quatro anos lançou o alerta.
A Alemanha foi o país europeu mais bem classificado, na sexta posição, atrás do Japão e da Austrália, mas os responsáveis apelaram a modificações na estrutura desportiva de alta competição. Com um total de 48 medalhas (56 em Sidney), o ministro dos Desportos, Otto Schily, fez um balanço globalmente bom, mas sublinhou que houve "grandes decepções em algumas modalidades". Rodrigo Cordoeiro, com AFP
Alguém se surpreendeu por eu considerar "feiosa" a Sé de Maputo. Não me atrevo a aqui discutir arquitectura, assunto no qual os oficiais desse ofício são muito renitentes em aceitar foice alheia. E ainda menos transformar esta casa num sítio turístico-exótico, assuntos aos quais os oficiais do meu ofício ainda são mais renitentes em aceitar como seara própria. Mas, ainda assim, aqui fica amostra da dita para consideração alheia.

(Fotografia de Miguel Mansilha, postal Edição Futur)
A Leonor do Fazendo Caminho tem partilhado poesia, e muito em especial poesia moçambicana. E muito Knopfli, o que muito nos fica e faz bem. Ter-se-á cansado, decidiu encerrar a casa, até argumentou haver muitos outros blogs de divulgação poética. O que é verdade, e muito bom.
Agora reconsiderou (conheço bem a sensação) e abriu o Fazendo Caminho II. A acompanhar e a agradecer. [E a regressar ao primeiro, que tem armazém cheio].
A agradecer-lhe o bom gosto que partilho de quando em noite, a iluminar-me, aqui deixo um bocadito do que ela gosta:
"...Para quê
querer incendiar os astros se, dentro de nós,
ainda não acendemos todas as luzes"
(Knopfli, Ars Poética, Mangas Verdes com Sal)

Um dos livros mais interessantes nos últimos anos, uma verdadeira delícia e uma preciosidade: "Borboletas de Moçambique" da autoria de Augusto Cabral, publicado em 2000. Uma edição mecenática do grupo empresarial IPG.
O autor, director do Museu de História Natural há cerca de 30 anos, apresenta um breve texto introdutório à morfologia destes insectos e cerca de 145 ilustrações suas, identificando estes exemplares da fauna moçambicana. O livro conta ainda com um prefácio de Mia Couto aqui, quase como nunca, biólogo e escritor.

É o Pululu que refere a proposta apresentada por António Borga, envolver a RTP na criação de um serviço AfricaNews.
Seria uma bela iniciativa. Desejavelmente uma articulação de estações noticiosas de língua portuguesa. Mas melhor ainda seria ter a clarividência (ainda que tardia) de constituir esse serviço na integração constante de notícias e reportagens dedicados à globalidade africana, provenientes de estações internacionais, africanas ou não.
Ou seja, produzir um serviço informativo em língua portuguesa sobre África (incluindo a legendagem, que é também instrumento de manutenção e disseminação da língua, nunca será demais repeti-lo aos mais puristas). E não apenas sobre a África de língua oficial portuguesa, como continua a ser a tendência.
Refere o Pululu que António Borga sustentou a apreciável proposta considerando-a como possível dinamizador da identidade cultural dos africanos. Que (também) seja! Mas a qual aqui me parece ser justa justificação, é certo, mas pouco mais do que um discurso "politicamente correcto", algo a-conceptualizado. Pois um verdadeiro e activo AfricaNews televisivo, aproveitando a rede RTP-África, poderá ser bem mais do que uma força motora dessa fluída "identidade cultural".
Mais informação é democracia e desenvolvimento. E criar mecanismos de informação sobre o continente e as suas diversas áreas e problemáticas regionais é acima de tudo isso, potenciar democracia e desenvolvimento, por via da "integração" regional e continental em sentido amplo.
Note-se, é ainda muito escassa essa informação a nível regional, tão dependentes e secundárias surgem as matérias africanas no "mercado noticioso" internacional, pesem embora esforços como este, sempre balizado pelo padrão exógeno daquilo "que interessa" e do "como noticiar". Nesse "mainstream" África é catástrofe e guerra, África é ainda o extraordinário noticioso: o exótico actual.
Finalmente este alargamento dos serviços noticiosos a uma África total seria ainda (muito) benéfico em Portugal. Sedimentaria a ideia, nada peregrina, de que a África noticiável é mais vasta do que a de língua oficial portuguesa.
Troque-se por miúdos, o Império acabou.
Acabaram os de Atenas. Ao que julgo saber participaram 202 países.
Gostaria que nas olimpíadas de Beijin participasse pelo menos mais um: o Tibete. Se assim entendessem, livremente, os tibetanos. Os tibetanos, não os colonos chineses.
Mas como pressionar um país com 300 milhões de telemóveis e tantos mais por vender? Ainda por cima com uma bandeira vermelha hasteada?
Pressionando, claro está.
Em 1980 o urso Misha parecia indestrutível, imorredoiro. E aquela Indonésia idem.
Para quem de Portugal aqui chega deixo o elo para um apelo solidário que o Púrpura Secreta decidiu desencadear.
Porque assim também é mudar o mundo.
Abaixo deixei a dúzia de postais de Santos Rufino que reproduzi no Ma-schamba ao longo de alguns meses. Aproveitando a chamada de atenção do Abrupto, a qual implicará a chegada de leitores desconhecedores deste blog e dos postais e álbuns em questão, e o início da sua cuidada apresentação no Companhia de Moçambique. Espero que esta curta série incentive o interesse geral na tarefa a que o Rui se vai dedicar.

Fortaleza de S. Sebastião, Ilha de Moçambique
(Santos Rufino, 1928)

"Lourenço Marques, Praça 7 de Março"
Edição de Santos Rufino (1928).
Nota: terça-feira, dia 13, no Varieta passaria "Danger Girl" com Priscilla Dean; no dia 20 seria "O Inferno" de Dante Aligheri.
[doação de António Botelho de Melo]

A construção do exótico típico:
"Africa Oriental Portuguêsa. Uma figura exotica da Zambezia"
Edição de Santos Rufino (1928)

Edição de Santos Rufino (1928)
[doação de António Botelho de Melo]

Gare da Estação Central dos Caminhos de Ferro, Maputo (ex-Lourenço Marques).
Postal editado por Santos Rufino (1928).
[Doação de António Botelho de Melo]

Condutor de "ricshaw". Postal editado por Santos Rufino (1928), série "Tribos Nativas, Hábitos e Costumes".
Excelente exemplo da criação de um imaginário.

Rua Consiglieri Pedroso (Main Street), Maputo (ex-Lourenço Marques). Edição de Santos Rufino (1928).
(doação de António Botelho de Melo)

"Vila de João Belo: Paraíso", pertencente à colecção editada por Santos Rufino (1928).
[doacção de António Botelho de Melo].

Leitor e amigo, António Botelho de Melo ofertou ao Ma-schamba alguns exemplares originais dos postais de Santos Rufino. Vale a pena ter um blog. E amigos. Nem vale a pena reforçar os agradecimentos diante de tamanha oferta.
Aqui vai o primeiro exemplar, acompanhando ainda saudação para o Sépia, também adepto destas maravilhas.
Eis o antigo jardim municipal Vasco da Gama, hoje jardim Tunduru.

Edição de Santos Rufino, Maputo, 1928.
A grande blogonotícia vem do Companhia de Moçambique, anunciando que irá proceder à blogoedição de uma selecção de fotos editadas por Santos Rufino. A não perder.
Desse conjunto aqui coloquei cerca de uma dúzia. E aqui deixo uma já apresentada, como aperitivo para os que não conheçam estes álbuns sobre o Moçambique da década de 1920. Para que passem a ser visita desse magnífico Companhia de Moçambique. E, se me permitem, se chegarem lá atraídos pelas fotos não se acanhem, mergulhem nos arquivos da casa, textos desses não se desactualizam.
Em boa hora o Canto do Xirico recupera um artigo de 1995 de Fernando Dacosta sobre os "retornados".
Ao (não)discurso sobre o regresso de África sempre o achei como o grande silêncio de um país que muito se desenvolveu nesses anos subsequentes. Mudanças e desenvolvimento sempre (e bem) atribuídos à democracia e à integração europeia. Mas nos quais o peso da disseminação de quase milhão de pessoas com experiências e horizontes tão mais vastos decerto teve uma importância extraordinária.
Foi já por aqui, contactando alguma gente da minha geração por ora regressada a África, que passei boas conversas partilhando as suas recordações desses tempos de meninice, eles então feitos "retornados". Epopeias familiares. Pouco contadas ainda.
[Se até hoje, quando antevemos o regresso, a ser planeado, desejado, estruturado, calmo, ficamos transidos, aterrorizados, com o que nos esperará, imagine-se o abismo que terá parecido o torna-viagem de então]
Fernando Dacosta, no artigo transcrito, refere uma tese de mestrado de então, da autoria de Ana Simões SottoMayor de Almeida, intitulada "O luto no retorno dos portugueses das ex-colónias africanas". Terá passado a livro? Haverá literatura sobre este assunto? Pois a mim parece-me que, 30 anos depois, continua o silêncio do esquecimento.
Um agradecimento pela memória ao vizinho Canto do Xirico, um blog espaçado que merece o olhar atento às suas actualizações.
Obikwelu nos Jogos Olímpicos veio fazer falar sobre a nacionalidade portuguesa. A prata de Obikwelu nos Jogos Olímpicos veio pacificar (calar) a conversa sobre a nacionalidade portuguesa.
Eu gostaria de saber quantos obikwelus coxos serão tão bem aceites por estas vozes públicas. Estrangeiros, pobres e pretos. Ainda por cima coxos... Ainda se forem saudáveis.
É que isto fia mais fino do que a prata deixa ver.
Eu sou compatriota de Miguel de Cervantes e nunca o ouvi dizer.
Num claro sinal de reclamação de modernidade o Ma-schamba desde hoje que ostenta um dístico - para os que não entendem "dístico" significará aquilo que os servos mais alienados do capitalismo globotransnacional aculturador apelidam "banner".
Para os mais distraídos está colocado ali à coluna da direita, logo abaixo do (inútil?) item "Pesquisa".
Não será um exemplo histórico da estética agit-prop, mas quem arranja o que pode a mais não é obrigado.
PS: Só entre nós amigo LE, há alguns meses quem diria que eu iria ser capaz de tais habilidades tecnológicas, ainda que singelas?
-Suponho que isso é a esperança.
- Sim, é a esperança, eu sei. Isso apesar de tudo é a esperança. E de quê? De nada. É a esperança da esperança.
- Se as pessoas fossem todas como o senhor nunca chegávamos a parte nenhuma.
- Mas olhe, menina, ao fundo de cada uma das alamedas desse jardim via-se o mar. Ver ou não o mar, naquilo que me diz respeito, não me faz grande diferença, mas o que acontecia ali era que as pessoas estavam todas a olhar, todas, mesmo as que tinham nascido ali, e mesmo os leões, parece-me, pelo menos foi o que pensei. Por isso, como é que não havemos de olhar para onde as pessoas olham, mesmo que seja uma coisa que habitualmente nos interessa muito pouco?
M. Duras, O Jardim, Livros do Brasil, 63
É no Portugal dos Pequeninos que reencontro chamada de atenção para uma recente entrevista de Derrida. E com direito a citação, o que obriga a futura leitura (lá mais para a noite dentro).
Não resisto a transcrever algo que também o João Gonçalves considerou de realce:
"Si j'étais législateur, je proposerais tout simplement la disparition du mot et du concept de "mariage" dans un code civil et laïque. Le "mariage", valeur religieuse, sacrale, hétérosexuelle - avec vœu de procréation, de fidélité éternelle, etc. -, c'est une concession de l'Etat laïque à l'Eglise chrétienne - en particulier dans son monogamisme qui n'est ni juif (il ne fut imposé aux juifs par les Européens qu'au siècle dernier et ne constituait pas une obligation il y a quelques générations au Maghreb juif) ni, cela on le sait bien, musulman. En supprimant le mot et le concept de "mariage", cette équivoque ou cette hypocrisie religieuse et sacrale, qui n'a aucune place dans une constitution laïque, on les remplacerait par une "union civile" contractuelle, une sorte de pacs généralisé, amélioré, raffiné, souple et ajusté entre des partenaires de sexe ou de nombre non imposé. Quant à ceux qui veulent, au sens strict, se lier par le "mariage" - pour lequel mon respect est d'ailleurs intact -, ils pourraient le faire devant l'autorité religieuse de leur choix - il en est d'ailleurs ainsi dans d'autres pays qui acceptent de consacrer religieusement des mariages entre homosexuels. Certains pourraient s'unir selon un mode ou l'autre, certains sur les deux modes, d'autres ne s'unir ni selon la loi laïque ni selon la loi religieuse."
O sublinhado é meu, claro. Já agora acho que a Derrida faltou uma referência, o de afirmar a indeterminação das categorias de parentes às quais essas uniões contratuais seriam acessíveis, ou seja, o final da proibição de incesto.
Atrevo-me, cúmulo da arrogância, a dizer que à minha maneira, de modo obviamente mais ligeiro, menos reflectido e sábio (valerá a pena dizer o óbvio?), e com conclusões diferentes e quiçá opostas, já pus para aqui um texto abordando o casamento.
E agora sem nada a ver com Derrida: sempre me confundiu perceber que os pensadores que mais querem desregulamentar a economia sejam aqueles que mais querem regulamentar as outras áreas da vida social.
E também sempre me confundiu perceber que os pensadores que mais querem regulamentar a economia sejam aqueles quem mais querem desregulamentar as outra áreas da vida social.
Às vezes penso que talvez eles julguem que a economia é algo diferente do resto.
Mas não deve ser isso, deve ser mesmo má percepção minha. Pois se eles são tão profundos.
[há uns meses escrevi isto. Agora biso, até porque a Carolina quando chega à Escolar Editora vai logo a correr para o cantinho dos livros infantis, onde já sei qual a colecção que prefere. ]
***
Este Natal ofereci à minha mais-que-tudo a sua primeira Anita, "No Jardim Zoológico", ainda que ela mal fale (disse hoje "abião").
Primeiro (egoísta) pus-me a ler, e a reviver as maravilhosas recordações daquelas cores, das ilustrações, e de quem me lia tudo aquilo, me encantava (e me dava sumo de groselha).
Segundo (papá) deliciei-me a mostrar todos os animais do Zoo, "o Gato" (é leão, mas há gato em casa), "a Girafa", "o Urso", "a Zebra", e os outros, e a animar todos eles com os bonecos correspondentes que por cá abundam - e a miúda a apontar um homem gordo diante de uma jaula, e a gritar feliz "papá, papá!!" e o meu ego, enfim, o meu ego coitado...
Terceiro (motorista) pus o carro na revisão, para irmos rápido ao Kruger avivar os bichos todos.
Mas, passo atrás, volto ao Natal. Ao comprar-lhe o livro trouxe outro, o extraordinário "Anita no Circo", para ofertar à filha de três anos de um casal aqui expatriado que viria partilhar a ceia. Chegada a hora dos presentes e os pais da miúda um bocado engasgados, até desagradados "ah, nunca lemos isso", e a mãe quasi entre-dentes a dizer que já os seus pais achavam aquilo muito reaccionário (e isto há mais de trinta anos), e portanto nunca tal tinha entrado em sua casa. E eu meio-aflito, mais valia ter estado quieto, que não me quero meter na educação de cria alheia. Enfim, foram gentis e à saída lá levaram a peçonha sexista e fascista para casa, não sei que destino lhe deram.
"Pronto, paciência, o que vale é a intenção", ecoava-me a mãe da minha, a acalmar-me os resmungos enquanto levantávamos a mesa da janta, eu para ali num "ele há cada um, é só malucos, que paranóias...". Realmente que triste gente é esta que consegue desgostar da Anita por causa de uns pinduricalhos que lhes meteram na cabeça.
Não há dúvida: "estes romanos são loucos". Como se existissem coisas para miúdos, e das quais eles gostassem, que não tivessem, fossem, estereótipos. E como se valesse a pena tais protestos com estes feminismos serôdios, cegos ao ridículo e eles-próprios os maiores reprodutores de clichés, por puro fastio, diga-se.
Lembro-me a chatear os meus (óptimos) pais, a querer pistolas. E eles fiéis ao "não dar armas às crianças". E a desistirem, talvez já fartos da minha insistência, talvez por terem percebido que combatia eu com armas emprestadas e a melancolia que isso me causava.
A alegria que eu tive com a minha pistola de fulminantes! Ah, e a minha bisnaga vira-bicos, ainda hoje me aviva lembrá-la. Tais experiências, se fossem tão pérfidas, ter-me-iam tornado um assassino em série ou, pelo menos, um militarista exarcebado. Mas não, apenas me tornaram cansável face a estas ininteligências disfarçadas de hermeneutas.
[e falta-me o tempo para aqui lembrar todas as maravilhas da Enid Blyton, Salgari, Os Pequenos Vagabundos, Verne, Karl May, mais os etcs, já para não falar nesse terrível "brincar aos médicos". Tudo isso carregado de estereótipos, como é óbvio - mas que gente infeliz]
(E agora lembro-me desses iluminados americanos que há pouco tempo queriam proibir a leitura de Mark Twain, pecado de racismo, claro está).
Num país Portugal onde tanto se fala da necessária credibilização da justiça e dos seus agentes sempre me espanta o silêncio das ordens coorporativas face à participação de vultos juristas (e do referido, muito em especial) nos meneios futebolísticos.
O futebol é visto e vivido por grande parte da população. E os adeptos sabem do estado das coisas, ainda que o possam episodicamente apoiar, "quando a sua equipa ganha". Serão incalculáveis os custos para a imagem colectiva dos profissionais da justiça, devidos aos seus colegas que participam nessa vergonha anualmente repetida.
Ideia excêntrica, esta minha? Não tanto. Os juízes foram bem avisados, há alguns anos, para deixarem de participar na roda-viva.

Nemov, o ginasta russo que foi assaltado, ficará como o Campeão Olímpico, a grande figura dos Jogos de Atenas. O seu exercício final, pedindo ao público para parar o protesto devido à roubalheira em curso e assim permitindo a continuação da competição, é merecedor de nota jamais ultrapassável.
Hoje à noite foi cá em casa, em torno de bola e corridas. "Parece impossível" três vezes (e mais algumas de "quase-quase) me disseram família e amigos.
Nada impossível. E, garanto, em todas me lembrei desse grande vulto português, o Dr. Cunha Leal. E sorri. Bastante. Até ri.
Porque, hoje muito especialmente, gostaria de lhe perguntar se aquelas aventuras da época passada em Moreira de Cónegos, no Funchal e no Porto (Bessa) afinal lhe valeram para alguma coisa.
Não, não é o "Cantinho do Hooligan". Porque o hooligan não é aqui que está.
[Nunca misturar trabalho com blog. Mas de hoje sai esta excepção]
Porque é que as coisas se desarrumam?
FILHA: Papá, porque é que as coisas se desarrumam?
PAI: O que é que queres dizer com isso? Coisas? Se desarrumam?
FILHA: Bem, as pessoas gastam muitíssimo tempo a arrumar coisas, mas nunca parece que gastem tempo a desarrumá-las. As coisas parece que se desarrumam por si próprias. E depois as pessoas têm que as arrumar outra vez.
PAI: Mas as coisas desarrumam-se se tu não lhes tocares?
FILHA: Não, não se ninguém se lhes tocar. Mas se tu lhes tocares – ou se alguém lhes tocar – elas desarrumam-se e desarrumam-se ainda mais se não for eu a tocar-lhes.
PAI: Pois é! É por isso que eu bem tento evitar que mexas nas coisas da minha secretária. Porque as minhas coisas ficam ainda mais desarrumadas se alguém que não seja eu lhes mexer.
FILHA: Mas as pessoas desarrumam sempre as coisas das outras pessoas? Porque é que fazem isso, pai?
PAI: Bem, espera um pouco. Não é assim tão simples. Primeiro que tudo, que queres dizer com “arrumar”?
FILHA: Quero dizer que não consigo encontrar as coisas, e portanto parece tudo desarrumado. É como quando não está nada no lugar certo.
PAI: Bom, mas tens a certeza de que com “desarrumado” queres dizer o mesmo que qualquer outra pessoa?
FILHA: Mas, pai, claro que tenho a certeza, porque não sou uma pessoa muito arrumada e, se eu disser que as coisas estão desarrumadas, bom, tenho a certeza de que toda a gente concorda comigo.
PAI: Pronto, está bem, mas achas que queres dizer o mesmo com “arrumado” que as outras pessoas? Se a mãe arrumar as tuas coisas, sabes encontrá-las?
FILHA: Bem...algumas vezes, porque, sabes, eu sei onde ela põe as coisas quando faz arrumações.
PAI: Sim, eu também tento evitar que ela me arrume a minha secretária. Tenho a certeza de que eu e ela não queremos significar a mesma coisa quando dizemos “arrumar”.
FILHA: Pai, nós os dois queremos significar a mesma coisa quando dizemos “arrumado”?
PAI: Duvido, minha querida, duvido.
FILHA: Mas, pai, não é engraçado que toda a gente queira significar o mesmo quando diz “desarrumado”, mas toda a gente queira significar coisas diferentes quando diz “arrumado”? Mas “arrumado” é o contrário de “desarrumado”, não é?
PAI: Agora começamos a entrar em perguntas mais difíceis. Vamos lá ver isso outra vez. Tu perguntaste “Porque é que as coisas se desarrumam?” Já conseguimos perceber uma ou duas coisas – vamos mudar a pergunta para “Porque é que as coisas ficam num estado a que a Catarina chama “desarrumadas?” Percebeste porque é que eu quis fazer esta alteração?
FILHA: ...Sim, penso que sim, porque, se quero significar uma coisa especial quando digo “arrumado”, então alguns dos outros “arrumados” das outras pessoas parecer-me-ão “desarrumados” a mim, mesmo que concordemos a respeito daquilo a que chamamos “desarrumado”.
PAI: Exacto. Deixa ver agora a que é tu chamas “arrumado”. Quando a caixa de aguarelas está arrumada, qual o sítio dela?
FILHA: Aqui no fim desta prateleira.
PAI: Bem, e se estivesse noutro sítio qualquer?
FILHA: Não estaria arrumada.
PAI: E se fosse no outro extremo da prateleira, aqui? Nesta posição?
FILHA: Não é o sítio dela, e de qualquer maneira teria de estar direita, e não assim de esguelha como tu a puseste.
PAI: Oh, no sítio certo e direita.
FILHA: Sim.
PAI: Bem, iso quer dizer que há muitos poucos sítios onde a tua caixa de aguarelas pode ser arrumada.
FILHA: Só um sítio.
PAI: Não, muito poucos sítios, porque, se a deslocar um pouquito, assim, ainda está arrumada.
FILHA: Está bem, mas muito poucos sítios.
PAI: Pronto, muito poucos sítios. E o urso, e a tua boneca e o Feiticeiro de Oz? E a tua camisola e os teus sapatos? É o mesmo para todas as coisas, não é? Cada coisa tem muito poucos sítios para estar arrumada?
FILHA: Sim, pai, mas o Feiticeiro de Oz pode estar em qualquer sítio nesta prateleira. E sabes que mais, pai, não gosto, não gosto mesmo nada quando os meus livros se misturam com os teus e com os da mãe.
PAI: Eu sei. (Pausa)
FILHA: Pai, tu não acabaste. Porque é que as minhas coisas acabam por ficar da maneira a que chamo “desarrumadas”?
PAI: Mas eu tinha acabado. É exactamente porque há mais maneiras a que tu chamas “desarrumadas” do que a que chamas “arrumadas”.
FILHA: Mas isso não é razão para que ...
PAI: Mas é, é. É a razão real, e a única, e uma razão muito importante.
FILHA: Oh, pai, pára lá com isso.
PAI: Não, não estou a brincar. Essa é a razão, e toda a ciência depende dessa razão. Deixa-me arranjar outro exemplo. Se eu puser areia no fundo desta chávena e açúcar por cima e se depois mexer com uma colher, a areia e o açúcar misturar-se-ão, não é verdade?
FILHA: É, mas, pai, é honesto mudar para “misturado” quando começámos a falar de “desarrumado”?
PAI: Hum ... pergunto a mim próprio ... mas penso que sim ... sim ... porque podemos admitir que encontraremos alguém que pense ser mais arrumado ter a areia toda debaixo de todo o açúcar. E, se quiseres, eu poderei dizer que desejo que isso seja assim.
FILHA: Hum ...
PAI: Está bem, vamos a outro exemplo. Às vezes vê-se nos filmes uma porção de letras todas misturadas e algumas de pernas para o ar. Então a mesa começa a oscilar e as letras começam a mover-se até se juntarem na posição certa par formar o nome do filme.
FILHA: Sim, já vi isso e elas formaram a palavra DONALD.
PAI: Não interessa qual a palavra que formaram. O ponto é que tu viste a mesa a oscilar e, em vez de as letras ficarem mais misturadas do que antes, juntaram-se numa certa ordem, todas direitas, e formaram uma palavra – formaram o que muita gente chamaria uma palavra que faz sentido.
FILHA: Sim, pai, mas sabes que ...
PAI: Não, não sei; o que estou a tentar dizer é que, no mundo real, as coisas nunca acontecem desta forma. Só nos filmes.
FILHA: Mas, pai ...
PAI: Digo-te que é só nos filmes que se podem agitar coisas e elas parecerem organizar-se com mais ordem e significado do que tinham antes.
FILHA: Mas, pai...
PAI: Desta vez espera até eu acabar. Nos filmes, eles conseguem esse efeito filmando tudo de trás para diante. Põem as letras todas por ordem e formam a palavra DONALD; depois começam a filmar e a fazer tremer a mesa.
FILHA: Oh, pai, eu já sabia isso e tenho estado a tentar dizer-to. Depois projectam o filme ao contrário, para parecer que as coisas acontecem na ordem inversa. Mas eles tremem a mesa ao contrário? Têm de filmar de pernas para o ar? Porquê, pai?
PAI: Oh, meu Deus! ...
FILHA: Porque é que eles têm de filmar de pernas para o ar, pai?
PAI: Não, não vou responder-te agora, porque ainda estamos no meio da pergunta a respeito de coisas desarrumadas.
FILHA: Está bem, mas não te esqueças, pai, de que tens de me responder noutro dia a respeito da pergunta sobre a câmara. Não te esqueces, pois não, pai? Porque eu posso não me lembrar. Por favor, pai.
PAI: Está bem, mas noutro dia. Agora, de que falávamos nós? Ah, sim, a respeito de as coisas nunca acontecerem ao contrário. E eu estava a tentar dizer-te que há uma razão para que as coisas aconteçam de determinada maneira se pudermos mostrar que há mais possibilidades de acontecerem dessa maneira do que de maneira diferente.
FILHA: Pai, não comeces a dizer disparates.
PAI: Não, não estou a dizer disparates: vamos começar outra vez. Só há uma maneira de escrever DONALD. Concordas?
FILHA: Sim.
PAI: Bem. E há muitas e muitas maneiras de misturar seis letras em cima da mesa. Concordas?
FILHA: Sim. Acho que sim. Podem algumas dessas maneiras ser de pernas para o ar?
PAI: Podem. Da mesma forma como eram mostradas no filme. Mas podia haver muitas e muitas como essa, não podia? E só um DONALD:
FILHA: Está certo. Mas, pai, as mesmas letras podiam formar OLD DAN.
PAI: Isso não interessa. As pessoas do filme não queriam escrever OLD DAN. Só queriam DONALD.
FILHA: Porque é que eles queriam isso?
PAI: As pessoas do filme que vão para o diabo.
FILHA: Mas foste tu que falaste delas primeiro, pai.
PAI: Sim, mas era para tentar explicar-te que as coisas acontecem de determinada maneira porque há mais possibilidades de acontecerem dessa maneira. Agora é altura de ires para a cama.
FILHA: Mas, pai, tu ainda não acabaste de me dizer porque é que as coisas acontecem dessa maneira, da maneira que tem mais possibilidades.
PAI: Está bem. Mas aguenta aí os cavalinhos – um já chega. De qualquer forma, já estou cansado do DONALD; vamos arranjar outro exemplo. Vamos atirar uma moeda ao ar.
FILHA: Pai, ainda estás a falar a respeito da mesma pergunta com que começámos? “Porque é que as coisas se desarrumam”?
PAI: Estou.
FILHA: Então, o que estás a dizer é verdade para a moeda ao ar, para o DONALD, para o açúcar com a areia e para a minha caixa de aguarelas?
PAI: Sim, é verdade.
FILHA: Oh, só estava a perguntar, mais nada.
PAI: Bom, vamos lá a ver se eu consigo dizer isto desta vez. Voltemos à areia e ao açúcar e vamos supor que há quem diga que ter a areia no fundo é “arrumado” ou “ordenado”.
FILHA: Pai, tem alguém de dizer qualquer coisa desse género antes de continuares a falar de como as coisas se vão misturar quando lhes mexeres.
PAI: Sim, é exactamente esse o ponto. As pessoas dizem o que esperam que aconteça e então eu digo-lhes que não acontecerá porque há muitas outras coisas que podem acontecer. E eu sei que é mais natural que aconteça uma das muitas coisas que podem acontecer do que uma das poucas ...
FILHA: Pai, tu estás sempre do contra, apostando em todos os cavalos contra aqueles em que eu quero apostar.
PAI: É verdade, minha querida. Eu faço-os apostar naquilo que eles chamam o caminho “arrumado”. Eu sei que há infinitamente mais caminhos “desarrumados”, e portanto as coisas tenderão sempre para desarrumadas e misturadas.
FILHA: Mas porque não disseste isso ao princípio, pai? Eu tê-lo-ia percebido logo!
PAI: Sim, penso que sim. De qualquer maneira, são horas de ir para a cama.
FILHA: Pai, porque é que os adultos fazem guerra, em vez de lutarem como as crianças fazem?
PAI: Não. São horas de ir para a cama. Falaremos de guerras noutra altura.
Gregory Bateson, Metadiálogos, Lisboa, Gradiva
que afinal não servem para grandes causas. Enfim, opções de cada um.
A este propósito um abraço com empatia, e outro ao Orlando, o qual teve o espírito de abrir as suas Letras a uma petição assinável.
É que ele há coisas que, afinal, servem para grandes causas. Normalmente, são pequenas coisas. Mas, enfim, opções de cada um. E cada um como cada qual.
Este blog e tudo que fosse weblog esteve-me inacessível durante todo o dia. Parece que não foi universal, ao que me emailam.
Lá está, a vingança dos nigerianos.
para ecoar o Isidoro de Machede. Mas não é tal coisa, apenas o raio do homem tem aquele jeito especial de dizer as coisas certas no dia certo. Hoje a raspar no vidro até ao arrepio.
a amolecer, e se calhar a Carolina empurra-me.
E provo-o nestas coisas dos Jogos Olímpicos, aos quais estou hoje desatento, indiferente a todos esses comboios da química, até querendo esquecer os meus meros patins nesses inflaccionados modos, antigos já de vinte anos.
Provo-o também, a esse amolecimento, ao ver a reportagem sobre o lutador português, ali de sorriso rasgadissimo a sonhar uma medalha, para a dedicar à filha, e um ar de quem até se envergonha do atrevimento. Esse lutador que, já agora, também é surdo-quasemudo.
No sofá, ao vê-lo, logo arranjo um cigarro para acender, a esconder a cara da Inês, não me vá ela surpreender os olhos agora traidores da idade e me dê um qualquer olhar de carinho que me desmanche a pose, estúpido envergonhado. Enfim, sampaíces.
Vai-te a eles, pá! E que, só neste caso, não se lixem as medalhas. Porra, ganda gajo!
A ver se te enchem o Marquês. Eu irei apitar para a Nyerere!
No Instituto Superior de Ciências e Tecnologia de Moçambique uma interessante palestra de Teresa Rios sobre Pedagogia, ela uma professora brasileira doutorada em Filosofia da Educação, do departamento de Teologia da PUC.
E uma bela saída "costumo ouvir muitos professores a lamentarem-se que já não há alunos como antes, mas a quererem continuar a ser professores tal como se era antes"
Foi no Causa Nossa que tomei conhecimento, e fui ao Expresso online ver a "Morre-se mais nas estradas do que no Iraque". Deixei lá protesto, coisas destas não deveriam passar. E pelo menos, imagino, poderá chatear alguém:
Impõe-se um protesto com o título e o conteúdo desta notícia. Não confundamos as coisas: é positivo, e saúdo-o, um constante alerta para o morticínio rodoviário que grassa em Portugal. Títulos chocantes serão parte de uma sensibilização. Não contesto.
Mas a contabilização dos mortos do Iraque incluindo unicamente os mortos das forças ocidentais, é algo que esquece e esconde o facto de na guerra do Iraque morrerem também iraquianos.
Ao longo deste ano temos assistido a notícias que vão detalhando as mortes dos soldados (e também civis) integrantes das forças aliadas. E nunca com o mesmo detalhe quanto aos mortos iraquianos. Isso eu não critico, são critérios de notícia e não se pode ser fundamentalista nestas coisas, é comprensível que os mortos das forças estrangeiras (e aliadas) tenham mais atenção em Portugal. Agora este é um trabalho diferente, usando essas estatisticas para outro fim que o noticioso.
Dela se retira um espantoso e serôdio etnocentrismo (um aliadocentrismo), cego às mortes dos outros. E perdoem-me, negar a morte alheia é o cúmulo da negação da condição humana, o extremo desse etnocentrismo.
Não vos escreve um qualquer paladino dos iraquianos. Escreve-vos um leitor espantadissimo com a profunda incompetência cultural do jornalista responsável pela peça. E pela distracção do responsável da edição.
O Expresso tem obrigação de se retratar. Não afirmando um "erro". Porque não é de um erro que se trata. É de uma insuportável visão da realidade. Há muito tempo que eu não assistia a uma expressão tão explícita de racismo em Portugal.
Que vergonha, Expresso. Que gigantesca vergonha.
Adenda: o persistente comentador anónimo, o dos "erros ortográficos + imputações morais", há alguns dias que regressou da sua sabática . Mais uma vez aqui veio na ânsia da denúncia de pecado ortográfico, agora acusando um "retratar" no lugar de "retractar". Mais uma vez apago o comentário porque anónimo, e mais uma vez lhe digo, leia com atenção, perceba o sentido, conclua depois: "retractar" é confessar um erro, e o que está no meu texto, e explícito, tão explícito que logo de seguida, é que este episódio não é um erro. Pelo que V. se deparou com um mero jogo de palavras. Caramba homem, que coisa.
Já o disse, até fora de portas, cometo erros ortográficos. Ainda há bem pouco o Walter me avisou de um, outros o farão depois, eu também já o fiz a alguns bloguistas. Alguns erros são distracção, outros são "gralhas", outros são ignorância, e em muitos reconheço o malefício do sotaque. Agora, e tal como há alguns meses a propósito de um "invocar" e "evocar", a sua "denúncia" e a sua "ironia" esbatem-se na incompreensão dos textos. V., mesmo que sozinho no seu anonimato, manterá o sorriso numa situação destas? Decerto que amanhã vai aqui apanhar um verdadeiro erro ortográfico. Mas então, honestamente, de que lhe valerá a ironia? A provocaçãozita? Quem, realmente, é o verdadeiro iletrado relativo? O que, aqui e ali, comete um erro ortográfico? Ou o que aqui e ali não compreende um texto na sua língua? Provavelmente nenhum, que isto não há gente nem agente de perfeição. Caramba, homem! Seja feliz, já lho disse. E repito. E em conseguindo, não erre. Na escrita. E na leitura.
E ainda: só quando distraído lhe leio os comentários. Tem sido assim, mal reconheço os tiques e origens o "apagar" é imediato. À pronta respostazita aconteceu-lhe isso. Mais uns diazitos e talvez outra distracção, nunca se sabe.
Insisto, seja feliz.
1. Luis Rainha do Blogue de Esquerda integrou-me numa lista de blogs de direita, entre prestigiada companhia e até a de um blog fascista (ao qual ele, posterior e candidamente, nomeia como "blog sobre o movimento fascista"). Depois, impávido, argumenta "que eu não percebi nada", que apenas procurou evidenciar as diferenças existentes entre esse grupo.
Ira! Qual incompreensão, ira total! Qual a pertinência de alguém se entreter a distinguir-me de um fascista? Que identidade comum haverá entre nós que apele à necessidade dessa destrinça? Qual a semelhança básica que LR procura matizar?
Respondi. Irado, com toda a franqueza, sem rodeios. Lá deixei, como corolário, um PQP, única forma que o meu limitado português tem para significar o repúdio por um ultraje destes. Mas LR, apesar de reafirmar que não tem vida para isto, insiste, com desfaçatez regressa a este blog do "senhor Flávio" para lamentar a facilidade com que insulto e propondo, até em tom constrangido, que lhe apresente eu as minhas desculpas.
Insulto público, por escrito e a alguém que nem conheço (nem leio) é a primeira vez na minha vida! E já aturei muita porcaria, já levei muita pancada. Foi preciso muito para que ele brotasse. Este muito! Pois cada um tem o seu Muito, algo que o bloguista LR não compreende, é dele a incompreensão.
Mais, é óbvio que um PQP não é uma expressão literal. É, disse-o antes, um "esconjuro insultuoso", e aqui meramente reactivo. Mas a associação, ainda que matizada, que com total despropósito LR efectuou é literal, é pessoalmente direccionada, é absolutamente atentatória da minha dignidade, da minha honorabilidade, do meu bom-nome, do meu intelecto, da minha moralidade. Absolutamente inadmissível, absolutamente injustificada. E totalmente inopinada. Quem é este Luís Rainha? De onde saíu? Não o conheço, não temos conhecimentos comuns, não o leio, não faço a mínima ideia de quem seja. E não tenho nada a ver com as polémicas em que se coloca. Estou totalmente no escuro. A que propósito, com que direito, é que o homem surge com estas coisas? Isto é demais. E ainda tem o atrevimento de me vir aqui pedir satisfações.
2. Antes do último comentário de LR, antes de me irritar outra vez, ensaiei um texto mais geral, mais calmo. Não o vou acabar, que isto só me faz mal. Fica assim. Nele procuro interpretar o texto de LR, articulando-o com a minha visão sobre o seu movimento político e o desgosto (e des-gosto) que tenho pela sua influência no meu país. Fica aí para quem tiver paciência. E interesse.
Ei-lo:
Recebi algumas mensagens dizendo exagerada a minha resposta ao texto de LR. Há quem me diga ser democrático aceitar as opiniões alheias. Como se isso implique aceitar todas as opiniões e, acima de tudo, todos os processos categorizadores. É por essa invocação da democracia que volto ao assunto, aqui deixando dois pontos que sublinham (não é justificar, é sublinhar) a minha ira: sobre o texto que li, sobre o seu contexto.
Texto: LR tem um pensamento topológico. Organiza-se intelectualmente colocando-nos num espaço por ele construído. Mas nada adianta sobre os critérios que utiliza, como constrói as suas coordenadas. Não diz quais os conteúdos das entidades espaciais que tece (ou herda). Seria interessante que o fizesse, pois se os locais que vai mapeando são classificadores presumo que correspondam a algo de substantivo. Não o fazendo depreendo que é na própria arrumação que fundamenta as classificações que opera. Significa com isso que as entende como evidentes. É uma lógica de pensamento invertida.
Também não explicita quais os locais existentes. Afirmando uma "direita" presume-se a existência, pelo menos, de uma "esquerda". Nada mais. Haverá "centro" no cosmos de LR? [Esse "centro" tão desvalorizado hoje em dia, o "centro sociológico" do actual jargão politiquês de Portugal, ou o "centrão" de conotações pimba, agitado para dar a entender que o verdadeiro intelecto anda pelas extremidades.] Ou outro qualquer lugar? Haverá, pelo menos, algum outro tipo de graduação no interior dos polos referidos, que ultrapasse o sensitivo de LR: a direita "interessante" ou "alerta" ou "troglodita"? Não se pode adivinhar.
Neste tipo de discurso aparenta que apenas sobrevive o pensamento dicotómico, ancorado no sacro par "esquerda/direita". Um par que é agente de exclusão: "não pensas como eu, és dos outros". Elogie-se ou não alguma elegância ou acuidade desses "outros".
Mas é também um pensamento classificatório que só sobrevive nessa dicotomia, sem ela perde a capacidade conceptual de operar, de mapear.
(Veja-se: LR cita um texto em que afloro a estafada questão de uma "superioridade intelectual e moral da esquerda". Como a nego, depreende que sou de direita. "Não pensas como eu, és dos outros"?)
Assim sendo, este é um tipo de raciocínio recorrente, alimentado de pressupostos. Baseado em implícitos, em percepções não desvendadas (as tais evidências). Isto nada mais é do que uma retórica de blindagem, pois a qualquer argumento que se lhe contraponha poderá dizê-lo inexacto: "eu nunca disse isso", "eu nunca pensei isso", "isso é uma suposição". Claro, se o discurso não se fundamenta, se não apresenta os seus elementos organizativos e substantivos, como pode ser efectivamente rebatido?
Mas estamos diante de uma qualificação política, algo que na sua essência é público. Portanto discutível. Ao não referir os seus constituintes o discurso impede a discussão, a contra-argumentação, pelo que deixa de ser democrático. Neste caso particular é apenas um produtor de epítetos. E, noutros contextos, de slogans.
Entenda-se, a não explicitação dos fundamentos e dos conteúdos substantivos não é uma fragilidade intelectual, pelo contrário é uma eficaz retórica para fortificar (e esconder) um discurso que se quer baseado no indizível, no invisível. A estas características que induzo no pensamento de LR não as considero pessoais, elas derivam do seu
Contexto: será grave o dizerem-me "bloguista de direita"? As categorizações não são absolutas, a sua consideração depende de quem é o agente classificador, tal como os seus conteúdos implícitos e explícitos.
LR é, confirmam-me, um activista do BE, escreve num blog de cariz político, e disserta sobre política. E é nessa condição que lhe interpreto a referência. No entanto crispa-se porque o associo ao movimento político que anima. Num contexto destes, um texto político num blog político, acho essa crispação uma mera elisão. Porque estou face a um discurso que é (pelo menos também é) prática política, e que deriva de um conjunto de perspectivas políticas colectivas. LR não tem autonomia pessoal? Claro que tem, mas não estou diante de um blog poético, intimista, de divulgação cultural, etc. Estou face a um blog que é também acção política. Colectiva. E isso é de realçar, pois estruturador do seu discurso.
LR despreza que eu lembre a história dos partidos que constituem o BE. O que é recorrente nesse movimento, pouco atreito a relembrar o passado próprio. Ora o facto do BE ser uma associação de partidos de extrema-esquerda de inspiração maoísta, estalinista e trotskista serve mais do que para a mera ironia de ser aquilo um albergue espanhol. Essa herança é um facto que contribui para a sua inteligibilidade. A compreensão do BE não se reduz aos passados dos seus constituintes. Mas não se faz sem ela. Refutar isso é mais uma manobra de elisão. E, repito-me, a elisão no político é anti-democrática.
O BE poderia ter produzido uma nova identidade teórica. Que eu o saiba não o fez (mas reconheço, aqui de longe talvez me tenha escapado). Apesar de ser muito activo nos domínios da retórica, da mobilização, da intervenção atomística. Apesar de colher forte apoio no meio intelectual e académico português, onde não faltarão profissionais da escrita sistémica potenciais reorganizadores do seu quadro último de referência teórica. Não terá havido urgência nisso. A este propósito lembro um devastador texto no Jaquinzinhos sobre a realidade do BE (não será um texto final, é um mero "post" corrosivo. Mas é uma bela ilustração).
É esta realidade do BE que me orienta, não as actuais agitações, as últimas e mediáticas iniciativas. Quais os modelos socioeconómicos e de organização política que esse aglomerado de organizações defende? Muito se ouve falar de uma democracia participativa. O termo parece inócuo, agradável até. Como não defender uma maior participação dos cidadãos na vida política? Uma maior atenção, uma melhor opinião, uma mais constante acção?
Mas "democracia participativa" não é isso. É uma concepção comunitarista de vida política, de redução da dimensão representativa da organização política. Privilegiando a influência dos "movimentos sociais" - há algum tempo Pacheco Pereira, penso que no Público, colocava a questão central: quais "movimentos sociais"? Quem os define, quem lhes atribui legitimidade, quem os hierarquiza? Que organização institucional e política os permite e integra? Quais os seus fundamentos? Nada disto está explícito.
Repito-me: no político o que fica implícito, falsamente evidente, quer-se indiscutível. Ou seja, é anti-democrático. E, também aqui, esta não-explicitação não é defeito, é uma característica fundamental de uma prática política não democrática.
O que nesse jargão "participativo" se encontra, sob a capa de uma proposta igualitária e democratizadora, é a vontade de uma sociedade que seja regulada por instituições que delimitem e hierarquizem o peso e a legitimidade respectiva de cidadãos e suas associações, segundo critérios político-ideológicos escolhidos e manipulados por uma particular formação política. Aliás, tudo isto é história recente. Aliás tudo isto é, alhures, actualidade.
Dir-se-á que na democracia representativa isso também surge, principalmente em torno dos partidos. Certo, mas neste sistema (imperfeito é mais do que sabido, mas neste caso também eu sigo a célebre definição de Churchill) os processos de atribuição de paridade de cidadania são muito mais universais. Nesse sentido a aparentemente simpática democracia representativa é uma perversão do sistema democrático como o reconhecemos.
O BE e os seus militantes são um perigo para a democracia portuguesa? Quem vai lendo o Ma-schamba aperceber-se-á que para mim o grande perigo para a jovem (sublinhem o jovem, sff) democracia portuguesa é o patrimonialismo cleptocrático que tem vigorado, inscrito no coração dos grandes partidos nacionais. Ele polui as instituições democráticas, rompe a confiança entre população e seus representantes. E tenta des-politizar a sociedade. É essa cleptocracia que alimenta os populismos, os sidonismos. Que nunca estão no horizonte até que se assumem. Urge incrementar a democracia representativa, fundamentalmente pela democratização institucional. [reconheço que esta frase é um truísmo, mas este aspecto exigiria/á um texto só por si. Até porque este já vai longo].
No contexto político português o BE é algo marginal. Mas o seu espaço, ainda que pequeno, denota a fragilidade da democratização da sociedade portuguesa. Pois só assim se compreende que um movimento com este tipo de matriz e de propostas estruturalmente anti-democráticas, mas de grande capacidade retórica, e com grande apelo junto a algumas camadas sociais devido à actualização de causas sonantes [o "fracturante" que não é realmente fracturante], ganhe algum relevo social e enorme eco mediático. Tudo isto denota, em minha opinião, alguma generalizada incultura política. Mas também denota o envelhecimento decadente dos partidos tradicionais, incapazes de um discurso crítico da sociedade, de um atitude projectiva para o país e, pior do que tudo, de uma cristalina prática democrática. Mas estes, e apesar de tudo isso, são partidos democráticos, melhoráveis. Em meu entender Portugal vive uma partidocracia de partidos democráticos. Urge "despartidocratizar", não mergulhar em partidos estatizadores, comunitaristas, anti-democráticos (ou no seu mero inverso).
A um outro nível acho que a expansão do discurso BE serve ainda para descaracterizar uma reflexão democrática, para a sedimentação de problemáticas, conceitos e de modelos de acção alheios a este sistema, os quais se vão instalando fora do BE, sem que sejam devidamente combatidos (até devido ao seu apelo, ao modismo que acarinha).
Em suma, LR surpreendeu-se com a minha reacção, pois entende que a sua categorização era elogiosa. Refuto-a. Pela inadmissibilidade de ver associado (seja de que forma for) a um blog de inspiração fascista.
Mas mais, a minha reacção é também uma defesa contra estas categorizações, estes rótulos elaborados por agentes políticos de movimentos deste teor. Não aceito. Porque não me entendo de direita? Não é essa a questão, isso estará a outro nível.
Neste caso tudo é diferente. O meu repúdio nasce da minha total desconfiança relativamente ao BE, nos seus apoiantes. Devido à sua matriz, devido às suas aspirações. Pois, e mesmo que a sua retórica surja "jovem e fresca", creio que o seu modelo é o meu silêncio.
Muitos dizem que o BE nunca chegará ao poder, e que apesar de algum "pedigree" menos democrático, cumpre um papel político importante, coloca questões, dinamiza as oposições. [E neste "muitos" integro apoiantes seus, tantos deles por aqui passados, com lugar à mesa por prazeres de amizade e hospitalidade, e sempre inquiridos sobre o "então como está Portugal?"] A esse nível nem contesto. Mas espanta-me o raciocínio.
Pois é o facto de não se perspectivar a sua ascensão ao poder que se vão aceitar as suas visões no debate quotidiano? Esquecendo que, até pelo talento comunicacional evidenciado, vão influenciar a cultura política nacional? Num sentido perverso?
Mais, não será isso um mísero tacticismo, albergar um movimento do qual não partilhamos os princípios apenas porque tem utilidade conjunturall? Não é esta atitude de alguns dos seus apoiantes e (semi) apoiantes, bem como dos seus coniventes, uma radical e perigosa contradição? Uma, e peso bem a palavra, imoralidade?
Mais, no Ma-schamba já tive a péssima experiência de ser indexado. Pelo mesmo tipo de processos, sem argumentação, sem discussão. Não gosto da atitude intelectual. Mas acima de tudo temo este tipo de atitude política. Pois revisitando a sua matriz e espreitando as suas aspirações temo-os. Não confio.
E para mim desconfiança e temor não me levam para casa. Tenho toda a consciência de que uma afirmação destas quando lida poderá parecer quixotesca, ridícula. Mas ainda assim ponho-a aqui. A mim a desconfiança e o temor irritam-me e levam-me ao protesto, ao grito se for possível.
Gritar ao LR? Será ele um apparatchik, desses que as revoluções deles logo usam para devorar os seus filhos? Ou um desses intelectuais (orgânicos) que as revoluções deles logo devoram? Não sei, não o conheço. Nem agora me interessa. O que me interessa é repudiar categorizações deste tipo, indexações elaboradas por esta linha de pensamento.
Porque LR e os seus são o ovo da serpente.
Uma mambinha porventura. Mas mamba ainda assim. Predadora.
E ninguém, minimamente consciente, traz a mamba para dentro de casa.
Tem toda a razão Almerindo Marques quando afirma "É preciso eliminar o lugar comum de que o futebol é serviço público".
Apenas gostaria de lembrar dois factos. Há milhões de emigrantes e de lusodescendentes que adoram ver os jogos de futebol, e que os vivem também como paliativo às constantes saudades. Durante décadas não viram os jogos, ouviram-nos. Mas de há anos a esta parte passaram a vê-los. Somos animais de hábitos e de amores. Habituámo-nos a ver, semanalmente, esses nossos amores clubísticos. Agora retiram-nos essa possibilidade. Não é isto um deficit induzido?
E uma outra questão. Por mais que custe aos téoricos e aos práticos da "lusofonia" o grande traço que vai amigando Portugal e os povos antes colonizados é o futebol. Acompanhado apaixonadamente. Semanalmente.
Que me perdoe Almerindo Marques, ao que consta excelente administrador da RTP e lúcido desfutebolizador do país. Concordo, e por mais que lhe vá sentir a falta, que "dar futebol aos emigrantes" não seja "serviço público".
Mas o actualizar de mecanismos de alguma identidade e afectividade comuns com povos distantes, e cujas relações com Portugal são complexas e não tão afectivas como os "lusófonos" gostam de imaginar, é indiscutivelmente uma acção de política externa. E isso é serviço público. Indubitavelmente.
Não acredito na inexistência de possibilidades tecnológicas que permitam a transmissão dos jogos da Superliga na RTP-África e na RTP-I para o estrangeiro, impedindo a sua retransmissão no território português, assim garantindo os legítimos interesses comerciais da concorrente TVI.
Julgo que para isso bastará alguma sensibilidade para assuntos de política externa. E, já agora, algum apreço pelos emigrantes
Acerca dos comentários colocados aqui o JPN (é mais do que óptimo reencontrar alguém dos tempos de liceu, abraço) deixou isto: "(...) Não gostei, mas isso é uma questão pessoal, que a favor da higiene deste blog (...) ainda não tenhas dito a um ou dois comentaristas que te elogiam de forma totalmente destrambelhada, que elogios desses são desmanchos...".
Agradeço a nota. Mas realço dois pontos:
- os comentários, e em especial aqueles que presumo terem provocado a tua intervenção, estão assinados e têm contacto incluído. Mais, na sua maioria são de bloguistas, têm casa aberta. Já aqui escrevi o suficiente sobre comentários anónimos (e sobre blogs políticos anónimos), que tanto me desgostam. Agora o que está assinado pertence a quem assina, o teor e o tom.
- tens absoluta razão quando dizes que há "elogios [que] são desmanchos". E é exactamente por isso que me irritei com um aparente elogio. Para "questões de higiene" basta-me esta.
Ainda sobre esses comentários Luís Rainha vê-me: "confortado com alucinações de gente que ia arrotando postas como esta...". Presume e inventa, é óbvio. E associa, de imediato enceta a constituição de um grupo (eu mais os meus amigos comentadores ), isso surge implícito num texto e explícito neste último. Tique de pensamento, indubitavelmente.
Já agora, para Luís Rainha passei a ser "o senhor Flávio". Sobre estas manipulações (as quais denotam um profundo classismo) das formas de tratamento deixei aqui, um texto referente ao Presidente Sampaio. Acho que o texto se adequa ao momento, ainda que não literalmente.
Luís Rainha está ofendido com um esconjuro insultuoso que lhe deixei em comentário. Ofendeu-se por razões de decência (ou seja, por razões ideológicas).
Que os visitantes do Ma-schamba entendam que são exactamente razões de decência (ou seja, ideológicas) que me provocaram a ira, ao tomar conhecimento que alguém do BE me catalogou de direita.
Há algum tempo, no rescaldo do Europeu de Futebol em Portugal, aqui pus um texto irritadissimo com o que considerei um total "demissionismo" nacional, um sintoma de mediocridade, de preguiça mental e executiva, por parte dos agentes dos diferentes poderes.
Foi a propósito de coisa pouca. Mas essa coisa pouca entendi-a como gigantesco sintoma.
Logo recebi algumas mensagens, vituperando o tom e criticando o teor do meu texto. Eu próprio me arrependi do título, nitidamente exagerado. Penitenciei-me quanto a ele. Mas não quanto à vergonha e irritação em relação a um país que não tem uma ordem legislativa e uma prática que puna os infractores.
Hoje ao ler notícia [abaixo transcrevo o texto] sobre algo semelhante acontecido nos Jogos Olímpicos, e tomando conhecimento da reacção ponderada da justiça grega, sem exageros mas punitiva como se exige num caso destes, lembro a minha irritação pátria. E tenho inveja.
Cinco Meses de Prisão para Invasor de Piscina Olímpica
Público
Quinta-feira, 19 de Agosto de 2004
O cidadão canadiano que na passada segunda-feira mergulhou na piscina olímpica de saltos em Atenas foi condenado a cinco meses de prisão, mas segundo fonte policial permanecerá em liberdade. O indivíduo de 31 anos lançou-se à água nu, com sapatos de palhaço calçados e tinha escrito no tronco o endereço electrónico de uma empresa conhecida por golpes publicitários em eventos desportivos. O homem foi ainda condenado a uma multa de 300 euros por violar as regras de funcionamento de provas desportivas. Devido ao incidente o comité organizativo dos Jogos reforçou já as medidas de segurança
Ao longo destes meses de Ma-schamba recebi algumas mensagens notando-me excessivamente ácido, demasiado crítico no que a Portugal diz respeito. Na sua maioria foram mensagens dos amigos (por ora em férias, presumo) pré-blog.
Extra-blog vou procurando estudar política, a política local, não sou praticante de ciência política. Quando se analisam processos políticos em África, em particular quando se procuram entender as lógicas de institucionalização em sistemas democráticos e respectivos funcionamentos, logo se levantam questões sobre as concepções de Poder. Entenda-se, como as visões locais (chamem-lhes cultura se quiserem, desde que seja só para facilitar) sobre as cadeias causais e sobre as legitimidades de acção vão influenciar o comportamento dos indivíduos em contextos políticos. E como tal marca os sistemas políticos (democráticos) e as modalidades de actuação dos cidadãos e das hierarquias políticas.
Nestas matérias logo surgem aqueles que pensam a enorme distância entre sistemas sociais "ocidentais", com outras perspectivas históricas (mais uma vez chamem-lhe cultura para facilitar) sobre o exercício do Poder político, sobre as capacidades (o poder) de agir. O Ocidente, e portanto Portugal, tem outra história, outra cultura, e esse húmus facilita a institucionalização dos sistemas democráticos, de uma cidadania de pares. África, vivendo outras realidade em desenvolvimento, encerra indivíduos com outras e mais hierarquizadas noções de legitimidade de acção, de capacidade de acção, de Poder(es). [Há até sábios que torcem o nariz à existência de "indivíduos" em África]. Daí a dificuldade em instituir a democracia, uma paridade de cidadãos, dotados dos mesmos efectivos direitos políticos.
Aos meus amigos acima lembrados, e também aos outros leitores, peço-lhes que vão ler este terrível texto, e compreendam a vertigem. Porque não usar neste caso os mesmos princípios da análise (desvalorizadora) que se costumam utilizar para as interrogações sobre África?
Há imbecis que acham que esta ignorância política se deve à preguiça dos indivíduos, à sua falta de capacidade de trabalho e análise, à sua distracção relativamente aos seus direitos e deveres de cidadão [há um texto no último Público, da autoria de Maria Filomena Mónica que se poderá enquadrar nessa linha]. Pois as gentes daí aprendem imenso sobre futebol, sabem pilhas de coisas sobre merdas de coisas. Mas não sabem sobre o que é importante. Realmente importante. A culpa (e é de culpa que falo, não de responsabilidade), a culpa é dos indivíduos. Eu sou um dos imbecis que pensa assim, a culpa é das pessoas sempre prontas a embarcar no "comboio descendente", sempre prontas "a rir à gargalhada" ainda que "sem ser por nada".
Há outros imbecis que acham que a responsabilidade não é dos indivíduos. Que a sombra em que vivem é ideológica, que não há quem lhes efectivamente ensine sobre os seus direitos e deveres, quem lhes ensine realmente a utilização dos intrumentos analíticos da sociedade e da sua posição nela. Ou seja, que a cidadania não é ensinada, provocada, produzida. É uma teoria da conspiração, que imagina alguns grupos sociais interessados na manutenção de um véu sobre a maioria dos indivíduos, para que não percebam eles realmente como funcionam as coisas do social (e do económico, claro). Para que não sejam eles mais cidadãos (quanto ao melhores cidadãos isso seria outra coisa). Eu também sou desses imbecis.
Contradigo-me? Acho que não. Apenas acho que o imbróglio é tão complexo que para o compreender é preciso vê-lo de vários lados.
Temo que o imbróglio seja górdio. E que venha a ser desatado. Pois os especialistas em górdios são, como se sabe, caciques altaneiros. Nada mais.
PS. e vem a propósito. Que dizer de um país que gasta milhões e milhões para arranjar dez hectares de campos relvados, milhões e milhões para gastar meia dúzia de hectares na zona oriental de Lisboa, e não tem dinheiro para ter uma efectiva frota aérea de combate aos incêndios que há décadas devastam milhares e milhares de hectares? Que não a soma a uma prática planificada (entenda-se, politizada) e obrigatória de limpeza de matas e de penalização e rápida expropriação aos refractários? Que não o faz não por inexistência de recursos, mas porque os atribui estupidamente.
(Se o lóbi do material bombeiro fosse tão forte como o lóbi do cimento poucos fogos existiriam, mas isso é a tal teoria da conspiração).
A esse país Eça di-lo-ia "uma choldra". Eu, que sou só eu, digo-o uma foda. Rapidinha.
Adenda: visitar aqui, para ilustração parcial de tese.
Do belo Espelhos Velados retiro:
"A melancolia e a tristeza são já o começo da dúvida; a dúvida é o começo do desespero; o desespero é o começo cruel dos diferentes graus da maldade."
Isidore Ducasse, Conde de Lautréamont - Poesias
A Paz pode ser picada. Caminho. Via qualquer. Estrada. Mas seja como for tem sempre linha de horizonte. O resto é beco.
Que os meus cunhados andem. Mesmo que devagar. Mesmo que por vezes parem.
Porque o resto é beco.
Desde que definitivamente adulto sempre me questionei sobre as causas dos comportamentos extremados. Por que é que no quotidiano pacífico há tanta acção objectivamente horrível?
Por razões profissionais esta angústia implicou que me perguntasse, muito em particular, porque é que tanto académico peca por auto-centramento histriónico, por práticas patológicas? Há-os maravilhosos, há-os normais, mas abundam os terríveis. Pejados de ambições que nos estupefactam, tão poucas parecem ser as recompensas disponíveis para tamanhas atitudes.
Não estou só nesta inquietação. Por vezes partilho com amigos colegas este espanto. Que nos é alimentado pelo desprazer da paisagem. Mas acredito que secretamente também é alimentado pelo medo em que nos tornemos assim, apenas membros de bandos de predadores esfaimados. Ou, pior, solitários roídos pelas maleitas da idade, mais perigosos e erráticos ainda.
São conversas, esconjuros, que quase sempre terminam num "para quê tudo aquilo?", pois, e repito-me, as recompensas são poucas. Simbólicas sim, estatutárias sim. Mas, bem lá no fundo, nada que valha trocar pelo apreço dos seus pares humanos.
Então nas gentes das ciências sociais estes feitios tortuosos ainda mais me confundem. Não só por aí conhecer uns muitos. Mas fundamentalmente por razões metodológicas: pois se os objectos de trabalho são as pessoas, como poderão tão execráveis pessoas proceder às suas investigações, como poderão eles organizar o necessário contacto, como poderão eles conceber sem preconceitos desvalorizadores aqueles que estudam?
[há aqui uma explicação possível. Académicos arrogantes e umbiguistas, pisadores militantes, coisificam os seus objectos de estudo, os indivíduos. Assim podem tratá-los bem, lá do alto da Ciência. Regressando aos seus pares, aqueles não-coisas mas homens, regressam à sua "natureza de escorpião" (para usar a célebre fábula). Se isso tem efeitos na qualidade das suas análises sobre tais "coisas-homens" quem serei eu para opinar.]
Aos historiadores ainda os justifico, uma vida encerrada em arquivos bafientos e mal iluminados, difícil é-lhes manter a prática do contacto pessoal saudável. Agora a gentes outras, sociólogos, antropólogos, psicólogos, etcs, a essas nunca percebi. Quando assisto ou escuto relatos dos mais vis egocentrismos, por vezes até torpes atitudes, sempre procuro imaginar como será essa gente diante dos seus interlocutores aquando no trabalho de pesquisa.
Quais as causas para tudo isto? Cultura profissional? Ambiente de formação? Maus tratos paternos? Esta é uma velha angústia, que tanto me desassossegou ao longo dos anos.
[O Prezado Leitor já sofreu a investida de um bando de intelectuais profissionais? Uma inopinada emboscada solitária? Se sim compreender-me-á. Caso contrário, e para contextualizar alterne Kafka, o Alien de Ridley Scott (espantosa metáfora) e um pouco de Dante. Ficou em pânico? Vá ler o Robinson Crusoe, que me parece ser o único remédio pacificador, imaginando-se claro o herói ANTES do Sexta-Feira chegar].
Mas hoje encontrei princípio de resposta para tudo isto. Rejubilo. E ainda bem que tenho um blog para partilhar com alguns este meu alívio. Ei-la:
"O homem citadino não consegue continuadores. O político julga-se insubstituível; o literato cuida que depois dele ninguém mais saberá escrever; o industrial pensa que o seu génio empreendedor estancou as fontes da habilidade comercial.
Só o camponês deixa herdeiros. Exactamente porque nenhum homem da terra se considera uma excepção, pode ensinar naturalmente ao filho todas as aquisições da sua experiência, e torná-lo um igual e um sucessor"
Bem haja Miguel Torga, Diário V, Círculo de Leitores, p. 426 (22 de Abril de 1949)
[Mensagem recebida]
Há uns dias vi que chamou a atenção no seu blogue para a crise humanitária no Darfur. A crise do Darfur tem atraído muita atenção da comunidade internacional. Ainda bem, se isso se revelar positivo para a situação das vítimas que, desde 2003, não têm visto sinais de melhorias.
Venho chamar a sua atenção para uma outra crise humanitária. Não é tão recente como a do Darfur, nem tem dado origem a títulos sensacionais, mas grave, muito grave, é a situação das pessoas que viviam ou vivem no Congo. No passado dia 13 um grupo de refugiados e deslocados congoleses que fugiram do conflito no Congo e se refugiaram no Burundi sofreram mais um ataque, deste resultando 180 vítimas mortais e 105 feridos.
Se estiver interessado em obter mais informação, o "site" da ong Médicos Sem Fronteiras tem uma "boa selecção" de informação independente sobre alguns aspectos desta crise humanitária. O Comité Internacional da Cruz Vermelha também publica informação sobre as suas actividades na zona.
Obrigada pela sua atenção.
Cumprimentos.
Berta Maia
Lido o Bruno incorro no pecado de auto-citação:
"...e electricidade. Abençoada, que ainda refresca as cervejas, e que vai deixando a roufenha discoteca a céu aberto, as ténues luzes chamando milhentos mosquitos, "pagas uma bebida, tio?", putas de fronteira neste ermo, "claro, mana", "pagas também à minha prima?", "vá lá, uma rodada", Castles que são aqui um elixir de velhice, meninas pesadas, tão cansadas já andam elas nestas noites, "vieste viver aqui, tio?", e eu envelhecendo com elas, "vá lá, bebe a cerveja", até que algum assimilado venha dizer para não incomodarem o senhor doutor, que raio sempre são putas de ermo, sem ver que já são fronteiras do meu carinho..."
(hei-de continuar, lá pelo amanhã)
No mesmo dia dois blogs a trazerem o assunto putas: o Aulil em mais um grande momento; o Avatares de Desejo algo traumatizado, e ao qual hei-de voltar.
Dois mundos.
Acho que no in-blog actual há dois pontos altos, a merecer toda a atenção:
a. O Luís Ene está a devolver-nos o prazer da leitura em fascículos (para mim um regresso à criancice) com a edição periódica da sua ficção "O Regresso", já em 4º episódio.
Há semanas o Ene perguntava/provocava se existiriam escritores de blog, se este meio provocará uma qualquer nova forma de escrita. Não tenho a resposta. Mas há prazeres na blogoleitura, muito para além das visitas clic-clic. Neste Ene Coisas (e no mano velho N (1001) Pequenas Histórias) há indícios de antevisão.
b. O Luís Carmelo está a publicar uma excelente série de entradas, as "ficcionalidades de prata". Após 36 entradas já não me posso enganar. Este é o melhor momento seguido que já li na blogosfera.
Espero que o fim da série, quando chegar, não esgote o blog. Pois a partir daí muito difícil será manter-lhe o nível. (Não é agoiro, é espanto).

"Desajustados na estrada", fotografia de João Subtil, Inhamitanga, Agosto 1999, sob Ssangyong Musso
Ando a reler o O Algodão e o Ouro, talvez aqui deixe algo sobre o livro. Entretanto dele retiro uma frase, aqui deixada para os saudosistas e para os moralistas críticos, que venha o diabo escolher quais os que menos compreendem o mundo. Mas é frase também para o agora.
"Era preciso que fôssemos livres de escolher o nosso próprio destino para que tivéssemos a responsabilidade de cometer pecados ou praticar actos virtuosos" (14).
Cheguei a Merquior no final da universidade, pela mão do meu amigo Zé Filipe Verde. A primeira coisa que me passou foi o "The Veil and the Mask". Chegou para que de então em diante tudo o que dele encontrasse logo fizesse meu: José Guilherme Merquior era a personificação da inteligência.
Foi por causa de umas mui lidas blogodiscussões alheias, cheias das certezas da arrogância discursiva, que me lembrei deste livro

Não para recomendar a sua leitura, quem serei eu diante dos sábios faladores (e auto-denominados defensores e divulgadores da ideia). Até porque esta é uma introdução, obra primeira, nunca de chegada. Mas que excelente obra primeira, diga-se.
Trago o livro à memória apenas porque começa assim:
"Este é um livro liberal sobre o liberalismo, escrito por alguém que acredita que o liberalismo, se entendido apropriadamente, resiste a qualquer vilificação"
E não há pior instrumento de "vilificação" do que as simplificações. E, pior, quando estas se querem naturalizações. [nestas coisas a "natureza" serve de pompa para dourar o mero contraplacado]
Nos tempos que correm já devíamos saber, nós os leitores, que não há piores defensores das ideias do que os exegetas. E cansativos ainda para mais.
Já agora, quando me chegam ecos "criacionistas" da "língua primeira" natural e das nações "naturais" nem hesito, sorrio um apelo ao "alcatrão e penas". Mas quando ouço a naturalização da Economia já não sorrio. Porque aí já estamos no campo do artifício. Estatutário.
[uma entrada incompreensível para quem não lê blogotralhas sobre o liberalismo. Se o simpático leitor se encontra nesse número não se preocupe, passe à frente...]
Não tenho grande simpatia pelo tal recanto sul-americano que nos narra. Mas o diagnóstico de há 500 anos é muito actual. Principalmente visto cá de down south:
"Por isso quando considero e avalio no meu pensamento todas essas comunidades que florescem hoje em dia por toda a parte, assim Deus me ajude, não vislumbro senão uma certa conspiração de ricos procurando as suas próprias vantagens em nome e sob a tutela da comunidade. Inventam e planeiam todos os meios e possibilidades (...) para usar e abusar do trabalho e labor dos pobres pelo mínimo possível de dinheiro. Esses planos, quando o rico os decretou (...) são tornados leis"
(Utopia)
Poética, de Manuel Bandeira, a encher-me bocado de noite.
Contínua arte de escrever diálogos. Inveja, a minha.
O "Põe os pés no chão" era isto .
Ainda "cantam folhas" em Aljezur?.
E mais que tudo.
2004, ano dos quarenta anos:
“É raro conseguir que as pessoas de mais de 40 anos se convençam permanentemente de alguma coisa. Aos 18 anos as nossas convicções são montanhas a partir das quais tudo contemplamos; aos 45 são cavernas em que nos escondemos.”
(Scott Fitzgerald, Bernice Corta o Cabelo, Europa-América, 18)
que mestre Isidoro costuma estar mui bem, a justificar visita regular. E não digo diária porque este é blog nada dado a pressas. Há que o visitar quando há vagares para ficar um pouco, por ali ensaiando a aprendizagem no alentejanar.
Mesmo assim, apesar dessa normalidade excelente, justifica-se o registo de um aprimorado momento. Pelo texto partilhado. Pelo (fundamental) livro recordado.
E porque o seu autor, José Capela, pseudónimo de José Soares Martins, é Homem e Historiador credor das nossas homenagens.
Sai daqui uma vénia para o Isidoro de Machede.
Anteontem um colega foi-se despedindo de mim com um simpático "Estás com um ar jovem!". Gelei, foi a minha primeira vez. Agora só me falta que alguém me sorria estar eu "com um ar saudável!". Depois a morte...
LIBERDADE PARA BOBBY FISCHER, JÁ!
FREE BOBBY FISCHER!

Alguém se lembra quando o seu génio foi bandeira da liberdade?
Para quê este fundamentalismo administrativo, este revanchismo absurdo?
Não tem tudo isto tanta semelhança com aquele outro que vigiava cada lance, cada roque, de Spassky? Cada abertura, cada sacrifício de Korchnoi?
Onde estão os que amam o génio? Onde estão os cantores da liberdade?
Fischer não fica bem como causa? Porque solitário irredutível? Excêntrico? Não bannerizável?
Onde estão os democratas? E onde estão os libertários? E os liberais? Onde está a solidariedade com um homem tão especial? Tão gigante? Que efectivo crime cometeu ele?
Onde está a indignação da coerência?
Distraídos? Ou tudo é mero ruído?
LIBERDADE PARA BOBBY FISCHER, JÁ!
e só para os poucos que não frequentam tais sítios, recentemente tive honras de participar numa das aulas que o Professor dedicou à ortografia. E hoje mesmo, lá na cantina, atrevi-me a imiscuir-me na conversa de homens sobre semântica e copos, ainda que mero comentário.
durante uma conversa em pleno Alpendre, que no Blogal grassa uma epidemia de opinionite aguda. Da estirpe típica, temível pois particularmente virulenta, letal quantas vezes.
É lamentável tal pandemia. Pois ainda que incurável quando em estado avançado, este síndrome opinionítico é debelável se tomados alguns cuidados primários: o uso recorrente de um espelho é fundamental. Uma alimentação saudável, necessariamente aliada ao exercício com Contadores, Cantores, Artesãos e Tambores, são medidas mui apropriadas. Há ainda que referir a eficácia, muito maior do que a dos placebos, da utilização de Casa e Esteira, as quais induzem metabolismos impeditivos da eclosão opinativa. No entanto, quem não tenha acesso a estas últimas deverá recorrer aos antibióticos generalistas Putas, ainda que os seus efeitos secundários não recomendem exagerada utilização.
Há cultores de tratamentos ervanários, vulgo Suruma, mas a biomedicina garante que ao hipotético alívio passageiro dos padecimentos se sucedem delírios exponenciais da verve, somados ao entupimento dos vasos sanguíneos.
Para casos quasi-desesperados há ainda a metodologia, dita transcendental, Exo-Blogal. Ao que sei os resultados desta homeopatia são variáveis. Doentes há que sucumbem rapidamente nessa atmosfera estranha, perigando ainda a disseminação da doença. Mas noutros pacientes o mal regride, ambivalência para a qual a ciência não tem ainda resposta.
Certo é que as convalescenças sendo algo debilitantes são humanamente possíveis de suportar. Para o decurso destas recomendo um princípio basilar: "hoje não opino"! Nunca procurar mais do que este horizonte, ele próprio desafio suficiente.
Hoje não opino.
Até amanhã...
1. Cagança minha
2. Vontade minha
3. Falta de novidades
4. Quando atentei contra o ma-schamba pus tudo em arquivo através de um "menu de edição avançada". Em lotes de vinte. Mas agora não consigo inverter do mesmo modo, vai um a um, devagarinho, em pequenos lotes de paciência. E há velhas entradas às quais, assim aparecidas, me apetece tirar o pó. De facto tudo isto não é mais que uma colecção de bibelots.
Há quase dez anos que aqui não chegava, longe e difícil que o é minto-me, envelhecendo no acomodado e desinteressado que me fui ficando. Vim a indicar o caminho e estranharam pois lembro-o, nervoso, de aldeia em aldeia, curva a curva, colina a colina, e até os rios, apesar de estes não estarem que ainda não choveu este ano, enquanto exclamo aos belos da paisagem que já nem julgava esquecidos.
Aporto de surpresa, como avisar?, saio no bazar aterrorizado que não me lembrem, pois se nem ali? Mas logo me rodeiam, aleluia pelo alívio, e é reconhecimento feito de espanto. Cheguei também temeroso, a estrada toda a remoer as mortes a que terei faltado, e é assim mesmo, que a cada "o velho... está?" logo me dão um "esse morreu...!", e eu sigo "e o velho.. está cá?" para me repetirem "esse morreu...!", e não desisto no insistir "então e o velho...?", "também morreu!", "e a velha...?", "qual?...aquela lá? Foi morrer à aldeia...", "e a velha...?" "hum, também morreu...", ainda que neste ou naquele haja dúvida sobre quando e onde. E nesta sucessão há até sorrisos doces a embrulhar tudo aquilo que partiu, e tantos foram que me chega, mudemos de assunto, fiquemos entre nós, os que cá estamos, por enquanto, é claro.
Mas o meu mano ainda está, lá no "arame" dizem, esse que não só é vedação como também dá o nome à moribunda empresa, pois o algodão cada vez devolve menos. Hão-de ir chamar? Claro que sim, logo sai alguém para isso, mas atrasado pois a Cruz já chegou que um branco goooordo está a precisar dele. Enquanto isso carrego as grades de cerveja e as garrafas de aguardente que trouxe do distrito para o terreiro dele, a cunhada ali desavisada ajoelha-se quando chego - como podemos, quando poderemos, mudar o mundo disto? - imponho-lhe os beijos que logo se tornam risos, beijos que o mano e o velho Kalamo quando ali chegados me ensinarão ser por cá também coisas de entre-homens (áfinal??), e bem repenicados no pescoço por sinal. Antes que se beba levam-me a visitar algumas velhas viúvas ali vizinhas, do mettho delas já só percebo os sorrisos da lembrança e "fotografia", até alguém vai entre risos rebuscar nas arcas o seu velho, ainda ali tão presente, de súbito trazido de volta nas fotos que há tanto mandei, "lavadas" que foram lá na Nação.
Entretanto apressou-se a chegar o hiena, para que eu saiba que não veio a suceder ao tio, enganámo-nos ele e eu em tais cálculos, decerto que essa sede, ainda hoje tão viva, lhe foi fatal às ambições. Depois, e até com alguma pompa, chegará aquele que foi meu intérprete, então jovem, hoje já não tanto e ainda menos pois elevou-se - sim senhor - a "autoridade comunitária", lídere dizem-no. Rio-me num "Ich, você subiu, Albino!", riso sem malícia que lhe desmonta um pouco a pose, mas não há ofensas nisto que não lhe abaixo o alto a que subiu. Pois o grupo, entretanto crescendo, aceita-me no brincar, ganhei o direito quando todos lhe éramos mais velhos e ele quase menino. E isso mesmo apesar de ali mergulhado em tamanhas rivalidades, dessas que apelam a cuidados de diplomata. "Há problema em virem até aqui?" perguntei antes a Cruz, sentados naquela casa de genro de chefe tradicional, terreno por demais marcado para juntar facções há anos zangadas, e ele próprio sabendo que amanhã lhe repetirão acusações e zangas de ter andado "a gingar com o branco", naqueles meus tempos, e agora até outra vez. Mas "Nada!, hão-de vir...!" soube logo ele, sorrindo devagar, e estava certo, vieram os amigos de antes...
E as histórias dos tempos já antigos acompanham as primeiras cervejas mornas, são-me repetidos os velhos que partiram no entretanto, comungamos nas memórias mais jocosas sobre cada qual. E chegaremos ainda aos suaves lamentos do como a vida por ali corre ou sobre como ela não anda, e isso depende de quem está agora a falar, mas tudo se finge num relativo "vakani-vakani" um pouco-pouco mais ou menos, que agora é momento de festa, e inesperada, não é para grandes protestos. E, nem que seja por isso, há também todas essas coisas boas, quem está está bem, vivo, famílias crescendo, e eu envergonhado e com pena, não trouxe a fotografia da minha sorte que logo pediram, saudando a sua notícia. Pois também dou notícias minhas, que vou bem, e todos riem do óbvio, do gordo que estou, destes quase trinta quilos que pus em cima, sinal tão claro de bem-estar, saúde, beleza até. E riem também por esta mulher que hoje me acompanha e que digo não ser a minha, pois claro "a esta ainda não conhecíamos" riem-se cúmplices, com a ironia inventando-me, entre acrescentos, um passado atrevido que vale mais risos de entre-homens e o qual não nego, até agradado, estou já bêbedo, do jejum, dos kms, das Castles tão gordas e tantas, desta toda terra vermelha.
Mas ainda nem acabámos as cervejas, as aguardentes ali à espera por abrir e temos que abalar, o motorista já impacientado e nada encantado, pois as ordens, tão repetidas, vetam-nos a noite, essa que está aí e há muito. É então de partir mesmo que ali ao lado vizinho, perto, perto, estejam os sons de dança, que foi mais pelos tambores que percebemos os inícios da noite, bem mais do que pela luz que se pôs a escassear. É isso, temos mesmo que ir. Ainda que as aguardentes estejam por começar.
A tudo isso resmungo um falso Ok, enquanto vou fintando o tempo em todas estas demoras de partir que aumentam sem vergonha, que estou já bêbedo, do jejum do dia, dos kms tantos, das Castles tão gordas, desta toda terra vermelha. Então, ali entre os vagares, peço uma fotografia, aquela de todos nós agora, e juntamo-nos sorrindo à espera de um flash que não há-de sair, recusa súbita e nunca anunciada, ele que tanto me tem acompanhado até hoje. E nisso sinto de rajada, num forte de primeira vez, o arrepio da morte, profundo, cortante, inopinado. Ali a dizer-me, explícito no quase gritado, a fazer-me sentir, mesmo cruel, que esta fotografia, esta memória, já não se devesse ter, já não pertença à minha história, um capítulo excessivo, como se o meu lugar já ali não fosse.
Já disse, estou bêbedo, do jejum do dia, dos kms tantos, das Castles tão gordas, desta toda terra vermelha. Estou bêbedo e gelado no arrepio, mas ainda me invento sorridente a maldizer o raio da máquina, que sempre me pintei mais rijo do que o que sou, ali a falhar quando não devia, e tento insistir repetindo o fracasso, e finjo a grandeza num "paciência, fica no coração", abandonando-me até à próxima visita, e prometo-me entre beijos e nos abraços. Mas o hiena, ainda que ele, e por isso já cambaleando, sabe, soube. E sabe também que eu percebi. Há-de sair comigo, a acompanhar até lá quase ao carro, é também ele que faz a despedida, num até breve, até à próxima que os seus olhos de já velho desmentem no então constante baixarem-se. E neste por dizer nos ficamos, vou morrer antes da ali voltar, e sei-o enquanto parto, na noite.
Andava eu nisto, nas coisas do desenvolvimento, Pnud e isso, tantos são eles que lhes perdemos os rótulos, quando chegou o Rodrigues, esse mesmo, o padre apóstata, que sabemos quebrado nas torturas da vida, cá na terra, missionário rendido resmungado um japão mais sofrido do que o que tinha imaginado. E pôs isso no relatório:
“Este país é um pântano...Um pântano sim, e muito mais espantoso do que imagina.... o Deus em que os japoneses então acreditavam não era o nosso Deus. Eram os seus deuses. Ignorámos isso demasiado tempo e quisemos acreditar que se tinham feito cristãos...É provável que ninguém acredite no que eu digo e me dê ouvidos ... Você não compreende nada. Nem você, nem essa turba de excursionistas que para aqui vêm dos conventos de Goa e Macau e se dizem apóstolos. Já desde o princípio que os japoneses que confundiam Deus com Dainichi [o Grande Sol] começaram a deformar e a adaptar à sua maneira o nosso Deus, criando algo diferente... [não] acreditavam no Deus cristão. Acreditavam, sim, na sua propria distorção...um Deus acomodado à sua mentalidade, incompreensível para nós.”
[S. Endo, Silêncio, D. Quixote, 181-183]
Esplanada de fim de tarde, cervejas partilhadas com ídolos do antes, um do atletismo, o outro do basquetebol. Súbito, lance de três pontos de Morgado, desses cesto-a-cesto, beleza tal que nem lhe confirmo os passos da dicção:
Senhor
Tende piedade também do técnico de farmácia
Que queria ser doutor
E não o é
(Vinicius de Moraes)
Obrigado, poeta-cantor, pela tua solidariedade. E também a ti, velho poste, pela memória, arguta.
(dezembro 03, pré-blog)
Seymour mandou que todos nós engraxássemos - sempre - os sapatos, independentemente do que os outros achem ou sejam. Sempre, e por causa da Senhora Gorda. A qual está sempre à escuta, como se sabe, como deveríamos saber. Os manos podem imaginá-la velha sentada, pejada de varizes, até cancerosa (porque imaginamos sempre a fealdade como doentia?), mas estão enganados, muito enganados.
Pois Seymour, sábio, avisa que ela, a Senhora Gorda, é Cristo, deus ele mesmo.
J.D., um amigo da família, e que me levou lá a casa, é-lhes muito querido. E apreciado. Talvez porque homem talentoso, se bem que esquivo.
(Salinger, Franny e Zooey, Relógio d’Água)
Aconselhável ler;
Concordando (entristecido);
A sublinhar o elogio;
A abandonar tamanha petulância;
Agradecimentos ruborescido e comovido;
Uma bela descoberta;
Ok assim farei;
A desejar;
Estou à espera;
Ainda me estou a rir com a borregada;
A espantar-me (ele há cada um);
A admirar;
A aplaudir (de pé).
Adenda: o humor ou é humor ou é imbecil! Dependerá do tom. Mas esse é tão difícil na escrita...
A perderes o medo desse Gigante

e a torná-lo tal e qual o Baloo

agora que quando algum deles surge logo é gritado "Páái!!", e logo esse "Zsséé", com um ar malandro que não sei de onde te veio.
foi dos que mais calorosamente me recebeu em Moçambique. Ainda eu recém-chegado, fui por ele arrastado até ao Zé Verde para uma noite de fados, forma excelsa de boas-vindas. À viola e guitarra lá estavam o Pico Soares e o Castel-Branco, acompanhando a dita "rouxinol da Mafalala" e um fadista cego de Quelimane, absolutamente espantoso nos seus tiques, trejeitos e até trinados alfacinhas.
Agora traz-me a angústia de uma amizade que não acarinhei o suficiente. Porque me obscureço com as múltiplas "coisas a fazer", mito a esconder um mísero umbiguismo. Deixa-me também o lamento de não ter conseguido alguns projectos comuns, discutidos em tempos já tão recuados. Ter-me-á então faltado o tempo, desculpo-me. Mas, pesando bem, talvez me tenha faltado uma correcta hierarquia de objectivos. Projecto de verdadeira cidadania foi o que Raul Honwana quis compartilhar. Pois haverá algo mais digno, cidadão, do que realizar centros de leitura para cegos, leitura audio e braille? Pois através deles oferece-se aos seus financiadores e executores a dignidade e o humanismo. Mas também um máximo de verdadeiro desenvolvimento, pois aí estarão sociedades a apoiar as minorias, sinal de bom.
Cruzámo-nos há uns tempos na AEMO, lamentámos umas rasteiras sofridas. Ficámos de continuar a conversa. Não sou crente, não há outro qualquer sítio onde possamos acabar o interrompido. Ficou assim, é a morte.

o Ma-schamba tinha uma ideia do que almejava. Um projecto de blog. Nunca o consegui realizar, e talvez por isso algum descontentamento meu com a colheita havida.
Por isso mesmo é com um misto de algum prazer e muita inveja que tenho acompanhado o ainda recente Aulil, um belissimo sítio para vermos um Cabo Verde que o Silvenius entende partilhar.
Não sei se tem tido muito destaque no meio da cacofonia bloguística. Mas merece-o, e de que maneira. Visite, sff.
Gentil e saborosa oferta que acabo de acolher.

Contributo importante às delícias da vida, inesgotáveis estas, por isso mesmo sempre solicitando quem nos guie, sistematizando quinhão delas.
Para espicaçar apetites alheios aqui fica amostra, a qual é muito cá de casa.

Dantes alguns sectores diziam "ler e divulgar". Actualizemos o refrão: "ler, ofertar e divulgar".
É hoje o lançamento pelas 18.30, na Associação Moçambicana de Escritores.
O poeta vagabundo, homem de esconjuros gentis, Amin Nordine (esse que há anos, afiançou-mo, me infestou o futuro) apresenta

onde regressa a dizer
Desaguada
Carícia Dentária
Desenfeijoada em desprateada meia-lua de xima
Do Lado da Ala-B
Qual sol se atreva na treva!
Sinto saudade de mim...
Nordine antes, e já bastante antes, botou em edições dele próprio

umas "Duas Quadras para Rosa Xicuachula" onde foi deixando, singelo,
Os Colibris
que vão colorir
ninharias no arco-íris
isto tudo depois de eu o ter conhecido em

onde discursou o "discurso do vagabundo desgraçado", no qual a partes cinco rabujou
Rabujentas bocas de falar sem medida
Há muito que Deus sumiu por estas bandas
Ele agora não passa de um céu limpo
Sem lua, sem estrela
Ele agora não passa de um moribundo...
foi ofertada ao dono do Ma-schamba. E já há algum tempo. Em tempos aqui afirmei o meu gosto pelos postais editados por Santos Rufino nos longínquos anos 1920s. Cheguei a reproduzir alguns, para aparente gáudio de vários leitores.
Machado de Graça, reconhecido iconoclasta cujas tendências ímpias já aqui ecoei, teve então a extrema gentileza de me ofertar exemplar de rara e valiosissima obra, "Lourenço Marques. Panoramas da Cidade. Vistos em 1929 pelos fotógrafos ao serviço de Santos Rufino. Revistos em 2001 por Machado da Graça".

Rarissimo exemplar sublinho, pois desta edição só são conhecidos dois exemplares. Aqui o deixo ao conhecimento público, reproduzindo ainda dois dos postais nela incluídos. Considero que seria um crime deixá-la no limbo em que tem subsistido. O Ma-schamba presta pois um serviço público, internacional até.

"Um interessante grupo de tocadôras de "marimbas", em Mocodoene"

"Machileros"

Um livro sobre arte maconde, a chegar-se aos conteúdos e a trazer entrevistas com vários artistas. Bastante interessante, do melhor que tenho lido, mais até por trazer a fala de quem esculpe, grava e molda, tão raras lhes são as palavras públicas. Ainda assim confesso que não me enche, podia ser bem mais profundo no sobre a arte. E muito mais profundo no quem são os artistas. Mas está feito, e bem. Para inveja de quem não o escreveu.
Uma pequena nota, sem nenhuns purismos , e ainda menores fundamentalismos. Porque raio publica a Ndjira (e a Caminho) o livro "Mestres Macondes" com o título "Makonde Masters"? Mercado? Que coisa. Bastava manter o K e mudar o grafismo da capa para deixar um bem-esgalhado "Mestres Makondes Masters". Well, I think...
da Escolar Editora, a defronte à Interfranca, descobri este

"Chipangara" de Alípio Ferreira, Edições Tartaruga, já de 1991. Pequenos contos daqui, não será grande obra literária, é mais para uma leitura carinhosa de quem gosta do sobre o que se narra. Retive o conto "Churo - o pugilista", sobre o boxe na Beira colonial, cá por coisas minhas.
Pois esse boxe beirense foi-me há meses apresentado no "As Visitas do Dr. Valdez" de João Paulo Borges Coelho. Esse que vem já aí, a ser lançado em finais de Setembro. A acolher, acho eu.

Até finais de Agosto a exposição de Arte Contemporânea em Moçambique, no Museu Nacional de Arte. 37 artistas, 27 nacionais. É a terceira iniciativa do Movimento de Arte Contemporânea, e a primeira grande exposição. Sem grandes apoios, há ali muita coisa que saiu do bolso da gente.
Tem catálogo bom. E o texto de Alda Costa explica muito. Não vale a pena repetir. Mas sublinhar aqui um ponto. Fazer arte. Ou fazer. Sem ter que ser "africano". Sem deixar de ser "africano". Sem deixar alguém, de cá ou alhures, congelar (ainda que neste calor) o que se deve ser, o ser "africano".
Fala-se muito de arte. Está ali. Fala-se muito de "sociedade civil". Está ali. Fala-se muito de "desenvolvimento". Está ali. Fala-se muito de "rupturas". Estão ali. Tem página e tudo: é este sítio informático

As coisas estão a mudar. Devagar, mas vão mudando. Com um bocado de provocação à mistura. Como devem. Mas a olhar para trás. Ainda que sem estar preso ao detrás. Como devem.
Fantástico. Obrigado Gemuce por me meteres misturado nisso.
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Esta semana na Casa Velha um workshop de música contemporânea. Dinamizado por Nuno Rebelo (o jantar foi porreiro).
Repito tudo o que disse acima.
Acima de tudo, as coisas estão a mudar por aqui.

(imagem retirada de Beco das Imagens)
Abaixo falei de "anti-intelectuais". Há anos estavam em voga em Portugal. Daqui de longe não sei como será agora. Talvez já não, talvez sejam apenas uma sobrevivência, uma moda antiga. Aliás, vou abordar um exemplo tão institucional que indicia o fim dessa moda.
Sobre o mundo "anti-intelectual" não vale a pena aqui detalhar muito. Habitualmente era gente intelectual encenando a recusa de si própria. Misturando teclas bem esgalhadas, superficialidade agressiva e preconceitos hábeis e rápidos, sempre inibitórios [desconfio que raramente cumpridos pelos próprios]: coisas a não fazer, a não ler, a não ouvir [lembram-se da ditadura do "in" e "out"?]. Tom jocoso, o orador sempre como maître à non penser, num "já está tudo dito" quase enfastiado, para quê essas "pseudo-intelectualices" (lembram-se?).
E por isso mesmo, por tudo estar já dito, "intelectualices" vãs. Mas também porque sempre falsas, apenas (ridículas) tentativas de ascensão. Qualquer fumo de intelectual logo despromovido a falsário, como teatralização procurando esconder a ignorância e o vazio de cada um.
Essa "onda" sempre me pareceu mera estratégia, a procura de naturalizar a inteligência do orador/escriba - num "olha eu aqui tão bom e sábio, e virgem dessas leituras horrorosas".
Que assim se promovia, tão superior aos infelizes embrenhados, lutando (e, claro, falsificando) para ascenderem aos píncaros onde alguns já estavam, como que por direito natural. E também assim despromovidas as obras consumíveis, porque poluidoras de um saber natural, desse dom.
O estilo é velho, na minha geração chegou ao púlpito em algum "Independente".
Mas ainda se encontra, até in-blog: li há tempos (sem elo, é mero exemplo), acerca da bola, alguém insultar outrém que tinha citado Norbert Elias. O tal bloguista arengava que não só nunca tinha lido como nunca viria a ler tal autor. E terminava negando a possibilidade de conhecimento sociológico, pois "Uma pessoa que não perceba a inaptidão do cérebro do Miguel para jogar à bola sobre pressão não pode falar de mim" [como rearranjará a teoria depois do Euro-04?] - os tiques estão lá todos, bem como o habitual recurso ao humor violento.
Humor que esconde o âmago boçal pela contundência do tom. É uma estratégia retórica que inverte a realidade: os textos surgem como se tivessem uma aparência boçal (um humor rude) mas um conteúdo elegante, um divertido pôr-em-causa. Quando é exactamente o contrário, pois trata-se de um humor pacífico, raramente inquiritivo porque não analítico. Provoca na forma, nada mais. Nada pondo em causa, a aparência é o seu verdadeiro conteúdo. Boçal, exactamente.
Mas tudo isto estará em desaparecimento. Pois o que me levou a estas memórias foi encontrá-lo citado no simpático Beco das Imagens. E, ironia, oriundo do institucional Jornal de Letras, Artes e Ideias (JL), tantas vezes apodado de "coito de intelectuais". Pois se o tom foi absorvido pelas instituições mais pesadas (como é o caso do JL) então é porque já faleceu, pois é nestas que as correntes de pensamento moribundas se cristalizam, definham, mumificam.
[Digo o JL institucional pois dependente da publicidade institucional/estatal e das aquisições institucionais/estatais. O que tem repercussões em algum conservadorismo político (em sentido lato)]
Nesse trecho do JL dedicado à banda desenhada Disney, lá surge o velho autoritarismo censório, a acusação preconcebida de falsa intelectualidade, de mentira, a quem não segue os cânones do escriba, João Ramalho Santos. Este, falando da edição de "A Saga do Tio Patinhas", insurge-se a priori contra os não incondicionais do "Patinhas". E, claro, insulta-os de falsários, de arrivistas :
"A conotação é de tal modo negativa que, quando se fala em banda desenhada da Disney, um leitor que se preze só pode declarar que, desde os dez anos (quando pegou no "Ulisses" de Joyce pela primeira vez), que não liga aos "patinhas"."
Acontece que sou admirador da animação Disney (não incondicional, há alguns filmes que pouco me dizem). Mas não tanto da banda desenhada. Abandonei-a até antes dos tais "dez anos".
Segundo o censor JR Santos apenas o afirmo porque quero hoje dar a impressão de então me ter iniciado em Joyce.
Ora o censor JR Santos não conhecerá o mercado de troca de "livros de quadradinhos" dessa altura. Em que trocávamos os nossos exemplares, então cotados segundo apetências, modas, raridade. Um pouco à imagem das colecções de cromos. Verdadeiras bolsas, posso afiançar para quem nunca conheceu o fenómeno.
Líamos e trocávamos. E, ainda na primária, os "Patinhas" iam sendo desvalorizados, não procurados. E onde era necessário ter vários para trocar por um ou outro exemplar de outras correntes. Sem Joyce à mistura.
Falo de uma geração que via, antes de saber ler, Asterix, Tintin, Lucky Luke. Que leu com Alix e Blake & Mortimore. Que cresceu com o "Tintin de semana", com esses atrás, que eram obrigatórios, mais Bernard Prince, Comanche (e antes Jugurtha), Michel Vaillant, Ric Hochet e tantos outros, aos seis anos. E, ao lado, com o Marsupilami. E depois Blueberry. E que aos 10-12 teve a revolução tintiniana (aka coperniciana), a chegada de Simon du Fleuve, os mundos de Derib, Cosey e, acima de tudo, Pratt (que polémica houve então nas cartas de leitores).
E fora desse mundo franco-belga tinha o Mundo de Aventuras, a colecção Apache, a colecção Combate, o Condor (Kalar, Hogan, etc.), o brevissimo Jornal do Cuto. E o Príncipe Valente dos irmãos mais velhos. E o Mosquito, de tios ou pais fans, já para não falar do Papagaio (ok, ok, lá em casa era beneficiado, havia tradição de décadas nos "quadradinhos"). E, acima de tudo, herói dos heróis, James Eduardo de Cook e Alvega, o valente ribatejano.
Quem cresceu com tudo isto não se contentava com o mundo Disney aos quadradinhos. Não lhe chegava o Patinhas, o Zé Carioca.. Mesmo que hoje, trinta anos depois, adore o Rei Leão ou a Branca de Neve. Que são coisas diferentes.
Quanto ao Joyce uns terão lido outros não. Mas isso bem depois.
JR Santos não analisa, não narra, não pesquisa, não pergunta. Não tem prazer. Imputa. Censor, autoritário. Está, pelos vistos, acantonado no JL.
Com estes pergaminhos um dia destes abre um blog. Será decerto muito "linkável", "citável", "topavel". E fresco. Pois a blogosfera portuguesa adora terroristas. Deste tipo.
Eu sei que isto acabou, mas tendo este "cantinho de orador" disponível não quero deixar de o utilizar para ecoar a minha alegria com o
AcordonaOrganização Mundial do Comércio.
É um passo, mas não um pequeno passo. É um grande passo. Não irá resolver tudo, claro. Nem nada o fará. Talvez nem tenha os efeitos grandiloquentes que se antecipam. Mas é um extraordinário momento. Talvez o mais importante dos últimos anos - ainda que os media ocidentais não lhe irão dar essa dimensão, coisa pouca decerto.
É um grande momento para o desenvolvimento das áreas mais miseráveis do mundo. Falo com uma alegria gradualista, entenda-se, sem sonhar com amanhãs dourados. Mas sonhando com amanhãs em que haja menos fome e menos dor. Menos morte adiável.
É também um grande momento para o desenvolvimento do "mundo ocidental". Desenvolvimento ético e alimentar. Porque é uma decisão menos omnívora do que a estrutura de pensamento que o domina, esse contrato social entre grande capital e populações. Omnívoro não, antes vampírico, canibal.
Curiosidade: ver como os "movimentos sociais" aí de cima vão reagir. Entender onde se lhes acaba a "esquerda".
E, já que ando em releituras, aqui fica trecho muito apropriado (nem de propósito):
"Nada e mais doloroso na sociedade humana, e daí mais difícil de conseguir, do que a mudança das estruturas de direitos...Direitos e privilégios são o mote das revoluções" (R. Dahrendorf, Ensaios Sobre o Liberalismo, Fragmentos, 1993, 24).
É isso que aqui estou a saudar.
Posso estar a ser ingénuo, mas esta é a melhor segunda-feira de manhã de que me lembro.
[Ah, e porque a minha alegria não é utópica, quanta mais amazónia cortada para pastarem as vacas agora liberalizadas? Quantos mais machambeiros sem-terra, esta agora bem mais apetecível à agro-indústria?]
os comentários ao agripost abaixo, bem como os blogoecos. E são estes últimos, turbo-leitores arrastando incautos até ao Mato d'agora, que me obrigam a aqui deixar algo para dessedentar quem venha mais de longe.
Então eis cabaça de água fresca:
"Pragmatismo é conservadorismo com aparência de acção. Conserva o existente dando a ideia de haver movimento."
(R. Dahrendorf, Ensaios Sobre o Liberalismo, Lisboa, Fragmentos, 1993, 21)