Pós-post, depois de uns dias a dizer que não valia a pena. Mas não resisti, há gente (e seus apoiantes) que não merecem o silêncio.
[É uma fala de etnógrafo]
1. Sempre me irritou a auto-imagem (reconfortante) da superioridade da esquerda (até quando me pensava como sendo de esquerda).:
- Superioridade intelectual: "Antes de mais, não considero que um intelectual exista sem ser "de esquerda". É certo que há pessoas que escrevem livros e que pertencem à direita. Mas para mim, não basta que um homem faça funcionar a sua inteligência para que seja um intelectual. Neste caso, não existiria já qualquer distinção entre um manual e os homens que lêem..." (J.-P. Sartre, O Escritor não é Político?, D.Quixote, 1971) - [é um mero exemplo, até arqueológico pois hoje pouco se lê o homem. Deste género abundam os exemplares.];
- Superioridade moral [não tenho o célebre A Superioridade Moral dos Comunistas, de Cunhal, não posso partilhar trecho elucidativo]. A afirmação da superioridade moral dos mais ou menos M-L, dizendo-se dedicados à causa radical da minoria maioritária dos desapossados da terra, dos pauperizados. Esta já não me irrita tanto. Crescido que fui no tempo de Xiaopings, Polpots, Brejnevs e seus clones é indignação para a qual já dei, em tempo útil.
Mas também a superioridade dos mais ou menos Sociais-Democratas, dedicados à estranha causa do "bem comum", como se a sociedade fosse um caldeirão de alquimista ou mera "sopa de pedra" (o "diálogo não-optativo" como paradigma). Que hoje não se legitimam moral e politicamente por defenderem "explorados" mas porque se vêem como equidistantes aos pérfidos "interesses": eles são a razão, aquela que se quer ordenadora dos egoísmos alheios, colectivos e individuais. É o fio de prumo, moral e político, cuja independência induz justiça social.
2. Acredito na necessidade e bondade da Ajuda Pública ao Desenvolvimento (vulgo cooperação). Porque as disparidades são gigantescas. Inenarráveis mesmo.
É uma obrigação moral. Como não ajudar populações que em média vivem menos de 40 anos? Em subnutrição crónica? Pejados de doenças facilmente debeladas? Com taxas de nados-mortos e de mortalidade infantil astronómicas?
Que significariam conceitos de "civilização", "humanismo", "desenvolvimento", ou até de "complexo judaico-cristão" se se negasse esta necessidade?
É uma obrigação ecológica. Um dos factores de destrução radical dos ecossistemas é absoluta pauperização de centenas de milhões de pessoas.
É uma obrigação política. Global, pois o combate à pobreza ajuda a paz regional. Reduz (previsivelmente) as migrações. Desenvolve as relações internacionais, políticas, diplomáticas, culturais e, não esquecer, comerciais.
Mas também nacional. Pois Portugal comprometeu-se a fazer crescer a percentagem do seu PIB para a APD [0,7%, 0,8%?]. Ainda que não cumpra esse compromisso, aí acompanhando grande parte dos países da OCDE.
E porque no âmbito das suas relações externas, em especial com os PALOP, a "cooperação" pode ser forte instrumento de política externa, se eficientemente conduzida. Portanto válida para os interesses nacionais, nos países onde se coopera mas também na própria UE, afirmando-se como polo de diálogo internacional.
3. Há iluminados que negam a validade da "cooperação". Porque a vêm como donativos para regimes de cleptocracias corruptas. Para essa gente abaixo do Sahel tudo é similar, negro. Não aprenderam nada com a história. De tal forma que nem percebem o presente.
Esquecem que os regimes não são todos iguais, ainda que todos sejam criticáveis (é da ontologia do poder o ser criticável). Que Angola não é África do Sul. Que Zâmbia não é Libéria. Que Tanzânia não é Quénia. Que Botswana não é Zimbabwe. Que Gana não é Burundi.
Esquecem que os regimes são todos criticáveis, ainda que nem todos iguais. Que a corrupção é endémica às sociedades modernas. As mais industrializadas. As menos.
E esquecem que as cleptocracias não são apenas africanas. Há-as por aí. E houve-as. De cleptocracia terratenente basta ir ler o More, nas nossas origens. Ou reler toda a história dos EUA e Austrália, aqui misturado com genocídio. Ou a história irlandesa. Ou a história dos nossos queridos irmãos brasileiros (onde com Lula aumentou o abate da floresta virgem). Ou a cleptocracia terratenente estatal russa. Que agora mudou, pois já não é estatal. [Um povo que insulta Eduardo dos Santos mas que se orgulha com o Chelsea é um povo de imbecis]. E tantos outros casos. Antes e hoje.
Mas abaixo do Sahel é tudo negro. Para os iluminados. E para alguns outros também.
Esses iluminados, e seus pares, esquecem também que de "crise" em "crise" vivem numa sociedade de espantosa abundância, que lhes é segura pelo contrato social entre riquissimos, ricos e remediados: as sociedades "ocidentais". Gente que come muito. Literalmente. Mesmo que tenha os seus salários congelados dois anos, coitados...Ainda assim obesos. É um contrato social. E a lutazinha que vai havendo é pela distribuição dos respectivos quinhões intra-muros.
[Porque vem isto? É a fala de um etnógrafo]
4. Na "crise" política portuguesa sai o poeta/ficcionista Manuel Alegre a candidatar-se. Cantando, sendo, a "esquerda", aquela social-democrata, socialismo democrático, o que seja. A independente dos interesses malévolos. A da justiça social (mesmo que só fabiana). Aquela a quem ninguém cala, lutando contra a mercantilização da política, o "tvísmo", a "imagem". O vácuo. A heroína dos povos.
A seu lado apenas uma pessoa, ali simbólica. Maria de Belém Roseira, a ex-ministra de saúde. Ela também a esquerda solidária, independente. Franca. De conteúdo. Eles o inverso da decadência alheia. O inverso do vácuo, da imagem. Da alienação, da heroína dos povos.
Há alguns anos Maria de Belém Roseira esteve em Maputo como Ministra. Veio então com uma comitiva de 30 e tal pessoas (!?). Jornalistas de jornais de referência. Que fimdesemanaram na Inhaca "tudo tratado pelo dr. X", um comitivo aqui em representação de indústria farmacêutica.
Maria de Belém contactou com este sistema de saúde. Paupérrimo. Mas estruturado ainda assim. Defeituoso. Mas de pé. Corrompido? Talvez, mas acima de tudo subremunerado. Um mundo muito para lá de Dickens. Mas um mundo, não um caos.
[Um mundo que me diz muito, não só por solidariedade. Também pelo kms a pé em busca de quem me explicasse ser mera sarna aquilo que não conhecia e aterrorizava; que me sossegasse diarreias quando sanguinolentas; que me acalmasse quando esses outros sangues se rebelavam por outros orifícios; que me desiludisse das doenças mortais que afinal não tenho; que me acordasse dos delírios da malária - um mundo de Dante, o qual nós, brancos ricos, vivemos como breve e acidental interregno, apenas paliativo até à clínica particular da "cidade grande", mas vivêmo-lo juntos a quem o tem como horizonte definitivo]
Maria de Belém, a esquerda independente, corajosa, sem que ninguém lhe tivesse pedido foi a Nampula (com os 30 e tal comitivos, jornalistas pré-Inhaca inclusos), acompanhada pelo ministro moçambicano. Sem que ninguém lhe tivesse pedido afirmou, confirmou, discursou que iria dar 1,5 milhões de contos para reabilitar o Hospital Provincial de Nampula.
Maria de Belém colheu fotos disso. Não se coíbiu à gentileza moçambicana. Foi descerrar a cerimónia de entrega de uma frota de ambulâncias ao Ministério de Saúde em Nampula. O representante holandês, o doador, nem queria acreditar e lá se esforçou por aparecer na foto. Acho que conseguiu. Os jornalistas pré-Inhaca fotografaram, e narraram.
A mim disseram-me aqui, sete meses depois: "pois, desde que apanharam o avião nem mais um telefonema". Nunca mais disseram nada. Prometeu, em nome de Portugal, uma ajuda ao hospital da capital provincial, da província mais populosa, onde se vive em condições terriveis de saúde. E, em nome de Portugal, nunca mais disse nada.
Depois, quando lhe tiraram o ministério da saúde, ainda protestou, que queria que lhe criassem o Ministério da Cooperação. Só para ela, decerto devido a este tipo de pergaminhos.
(os iluminados dirão que não tinha nada que oferecer o dinheiro português. Nem discuto. Mas então não o dizia. Não o prometia em meu nome. Acompanhada pelos representantes das farmacêuticas. E pelos jornalistas pré/pós Inhaca. A fotografarem e a narrarem).
Eu não tenho liberdade de sentir vergonha do meu país. É uma violência sobre mim, não é uma liberdade.
Maria de Belém e os seus são a esquerda independente, a trova do vento que passa, a justiça social democrática, o combate aos interesses escondidos. O conteúdo. A superioridade moral. E, até, a superioridade intelectual.
Pois, cá debaixo do pedestal, diante deles eu sou só um cão...mas um cão que de pecadilho em pecadilho ainda tem honra suficiente para a apalavrar junto ao que escreve. E para se envergonhar dessa gente. Para os desprezar, ainda que eles se digam superiores. "Eu seja ceguinho" se não os desprezo. "Eu seja ceguinho" se os esquecer.
[há uns anos, aquando das terríveis cheias de 2000 em Moçambique, o Público colocou uma carta de leitor minha, apelando à ajuda. Em Portugal a esquerda superior no poder demorava a reagir às imagens da RTP-África, à espera de não sei o quê (sei muito bem, demorava à espera da associação com a UE, para que fosse mais visível a intervenção portuguesa, e para que surgissemos como motores dessa ajuda). Já aí fui o tal cão envergonhado. Fica essa carta abaixo, para qualquer interessado]
TIMOR E MEIO DEBAIXO DE ÁGUA
Um Timor e meio levado pelas águas e tanto tardamos a acordar. Porque não havia o complexo de culpa como despertador? Ou porque não havia um ciclo imperial para, sonâmbulos, fecharmos? Daí chegam os jornais e o rosário de críticas. Percebe-se a raiva da impotência. Praguejemos então, juntos!
Com efeito o Infulene, o Maputo, o Inkomati, transbordaram há já um mês. Há quanto tempo publicou o "Público" o triste lamento do Nelson Saúte? Ontem saíam botes holandeses para a zona de Marracuene. Lamento, a ajuda é sempre bem vinda, mas as águas já baixaram, já há gente na praia da Macaneta - as gentes do mundo são bem estranhas, provou-o o frenético Carnaval nesta baixa de Maputo.
Claro que os governos reagem às televisões. Horrível? E se elas não existissem, que fariam os governos? Talvez nada. O estranho é que a RTP-África acompanhou o desaguar. Será que a água filmada pela equipa da RTP não é tão assustadora como a da BBC? Ou será que ninguém vê a RTP-África - o que explicaria esse inprojecto?
Tarde chegou a ajuda de emergência! Mas chegou, urge deixar o praguejo e planear uma rápida e futura ajuda na reconstrução, efectiva, realista e desinteresseira. Diz o Ministro que "Não somos uma potência global" e di-lo com muito acerto. É que logo no aeroporto de Mavalane as memórias do Império impregnam a nossa administração pública. Incluam pois a frase na cartilha das delegações.
Que fazer?, a velha questão. Só prometer o possível, em termos de financiamentos e recursos humanos. Óbvio? Só para quem não conhece a prática do Estado português em Moçambique, a falta de respeito e, acima de tudo, a falta de auto-respeito das missões palradoras. Neste momento a fraternidade com Moçambique exige um Estado burguesmente decente e honesto. Nada mais! Até porque, por maior que seja o desespero local, e talvez ainda mais por isso, quem não se dá ao respeito não é respeitado.
Para começar pode o Ministério da Saúde avançar de imediato com o milhão e meio de contos para o Hospital de Nampula e para o projecto de cooperação na saúde em Gaza (sim, é a agora célebre Xai-Xai) que a senhora ministra aqui prometeu (sem que ninguém lhe tivesse pedido tal) em Julho passado, rodeada dos seus trinta e tal comitivos. Como me diz um amigo da área da saúde "desde então nem mais um telefonema". Só esta piada da Sra. Ministra significa mais do que toda a ajuda de emergência por nós entregue!
PS1. Em Julho acontecerá em Maputo a cimeira da CPLP. Será um bom momento para frente a esta baía cremarmos o sonho de Aparecido de Oliveira. É que se nem agora funcionou...e, pior, ninguém reparou!
Sairemos então da baía, para lá da Inhaca, deixando ao mar as suas cinzas. Xanana poderá fazê-lo, nesta terra tão mais fraterna para os seus, nunca aqui escondidos detrás de tapumes ou de ministeriais agendas cheias.
PS2. Quem não se dá ao respeito não é respeitado! E quem não respeita os seus mais velhos ainda pior! E Mário Soares é o mais velho da nossa II República, goste-se ou não. Deixar desrespeitá-lo "Por um Punhado de Dólares" significa que o nosso Estado não é nem decente nem honesto, pelo que o atrás escrito prescreve.
Maputo, 7 de Março de 2000
Publicado no Público de 9 de Março de 2000
Um blog é uma ilusão. A ilusão de ser lido. E de isso ter alguma importância. É uma bela ilusão.
Para os amigos que cá vieram fica o abraço. Às amigas o beijo. E o aviso, de que há o email. E o telefone. E, imaginem, as cartas.
Aos outros visitantes, regulares ou não, um obrigado por terem aparecido. Alimentando a ilusão.
Então adeus.
Post-mortem [a la Cruzes Canhoto]:
Tentei sair à western, pela calada da madrugada, via oeste fugindo ao arame farpado, deixando a beldade loura, já madura, devastada mas firme, e o rapazito orfão surdamente choroso mas desde agora com um exemplo a seguir. Mas está visto, não sou o mais duro a oeste de Pecos. Regresso a agradecer, tanto comentário aqui e aquelas notas em alguns blogs. Envelhecido confesso até, envergonhado claro, aquele toque de comoção com uns poemas que por aí foram dedicados.
A forma de agradecer é um "grande obrigado" pelas palavras que foram aqui deixadas. E também alguma explicação. Desnecessária, redundante, em especial para os outros bloguistas que por aqui passaram, presumo que todos mais tarde ou mais cedo tenham dúvidas sobre isto do blogar.
Mas sinto um bocadito de obrigação para quem botou quente sobre o Ma-schamba. [e também é desculpa para "só mais um postezinho, só mesmo mais um"]. E também quero espernear à ironia do "sindrome de Vitorino" que amigavelmente puseram por aí (vade retro).
1. Não fechei de surpresa. Para aí há um mês pus um "tecto de blog": foto Zé Cabral + O homem do leme. A intenção era fechar nos meus quarenta anos, dali a dias. O LE percebeu. Mas como me estava a divertir continuei.
2. Tem cansaço, não desmotivação. Há quem não se importe se é lido ou não. Mas esse é o artista. Aqui não havia arte, houve alguma (menos do que o desejável) divulgação, e croniquetas e opiniões. Para serem lidas, e se possível discutidas. Ora nunca como neste mês foi o Ma-schamba foi tão visitado e tão ligado. Mas isso cria dependência, quantos mais leitores mais me sentia impelido a estar aqui. Escrevi qualquer coisa como "O que vou dizer a estes tipos?". Acho que o LE percebeu outra vez, num "cala-te" cúmplice.
3. Um blog individual toma tempo, demasiado tempo, e para mais quando o maluquinho ao teclado quer dizer imensa coisa (o que é diferente de dizer imenso). Também escrevi, acho que dedicado ao Alex, que "a vida não é um blog".
Acho que a Inês concorda comigo. Para a semana, quando chegar de Bruxelas, há-de estranhar eu não estar tanto tempo "ao blog". E, talvez até disfarce num "que pena...", mas vai ficar aliviada, qu'afinal o homem está menos taradinho. A Carolina não sabe o que é um blog, mas gostará de certeza que o "ZSSéé" (como aprendeu agora, com um ar matreiro de quem sabe estar um bocado ao lado da norma, ainda que por mim seja uma ternura) não esteja tanto tempo encerrado na sala vedada, onde há imenso fumo.
4. Há outras coisas para escrever. Por obrigação profissional. A ver se faço carreira, que no dia do regresso a casa ninguém terá complacências com o bloguista. E também por prazer, coisas assim "de antropólogo" que se impõem, a quem tem tantos anos daqui.
E um livro das tais croniquetas que está pronto. Ou seja, tem editor, tem quem faça a capa, tem as ilustrações, tem o prefaciador ("o autor é fantástico, escrita brilhante" essas coisas), tem as fotos, tem o título ["Ao Balcão da Cantina"]. Mas, ridículo, só lhe faltam mesmo os textos. Não é um blog em livro. Os textos são anteriores ao Ma-schamba, alguns estiveram aqui, outros ainda não acabei, rebusquei. Coisas naquele jeito que o Dr. Besugo dissecou, o sacana. E assim passarei, até orgulhoso, a ser autor publicado no estrangeiro. E decerto que de edição esgotada, que os 300 exemplares entre as minhas ofertas, os do patrocinador esperado e alguns literatos coleccionadores tudo há-de sair.
5. Um blog é um vício de raciocínio (ou foi-o para mim). Matei o Ma-schamba ontem. Hoje levei a miúda à "escolinha". À saída encontrei o Gilberto Mendes, do Gungu: "então já estiveste com o José Carlos Oliveira?" (o realizador; "Preto e Branco"), e eu que "não", que "nem tenho que estar". Está cá outra vez, para filmagens. Entro no carro e saio a pensar que nunca escrevi o texto sobre o "Preto e Branco", cinema nulo mas ideologicamente abjecto, mas por pura ignorância e tontice, e ainda por cima aqui apresentado por Sec. de Estado da Cultura como exemplo de uma atitude nova [a cara dos moçambicanos, meu Deus]; mas isto é tudo rápido, porque ainda vou na Kaunda e há que colocar o texto do Mia no Savana onde diz ser "natural" o apoio moçambicano à selecção portuguesa - e não é nada natural, e há que explorar o assunto; mas vou a guiar e tenho um texto sobre um acidente que tive; e o atropelamento mortal na Matola que vi na semana passada ("porra, mas tenho tantos textos parados"). E alguém que pediu transcrição de poemas do Armando Artur. E, sempre em sequência, tenho que scannar o raio dos postais do Rufino, o Sopa mata-me que os tenho há que tempos. E ainda não cheguei a casa...
Tenho que deixar de fumar. E outras drogas não.
6. A razão fundamental: com o Ma-schamba comecei a ler vários blogs. Há muitos bons. Alguns óptimos. Fantástico. Mas há muito blog político. Virado a Portugal. E muitos fantásticos. De cor diferente, mais ou menos alinhados. Óptimos, bons. Francamente, a blogosfera portuguesa tem um belo nível de discussão política. Mas ao mergulhar nela (re)mergulhei em Portugal. Pensei e preocupei-me mais com Portugal nos últimos dois meses do que nos últimos sete anos e tal.
E isso não me faz bem. Não por arrogância, superioridade de "estrangeirado". Apenas porque não me faz bem. E porque estou aqui. Saudoso, é certo. Mas bem. E não preciso do fel que o Portugal blogado me provoca. Nem de reviver e escrever as memórias que o terrível período guterrista me deixou. Que estavam passadas, por vis que tenham sido. E que voltaram.
Desse fel nada brota, nada cresce. É um fel socialista. Que não muda. E esta conclusão não é ideológica. Já o escrevi, "a minha ideologia de hoje é a higiene". E por isso o trabalho nesta machamba, que o húmus político tornou memorialista, sem que eu o tenha controlado, tornou-se doloroso. Irado.
Neste último texto "Ilusão" escrevi e botei, duro e mal-criado. Mas logo depois regressei e apaguei um bocado, não queria acabar o Ma-schamba parecendo ressentido, indignado.
Mas agora aqui fica, em versão mais mansa: um patrimonialista, um compadre, é um cobarde, que só se sabe defender do mundo que é grande. Sem saber que é essa a sua beleza. Sem poder saber.
E porque é assim não vale a pena andar em torno disso. Se o mundo é grande é andar. Que eles ficam onde estão. Malignos. Mas cobardes. Por isso, para fugir desse (só desse) Portugal que não me interessa, isto morre.
Zé Boné, marca lá o restaurante irlandês-argentino para Setembro, que é quando este bijagó se apresenta ao serviço
P.S. (tinha que ser) Em muita teoria antropológica o Feiticeiro é uma personagem que promove e defende a Ordem Social. Com o feitiço, o esconjuro que hoje o Feiticeiro desta Aldeia do Elos convocou talvez alguma Ordem sobrevenha. Assim seja.
Agora sim, então Adeus.
hão-de ser outras coisas. Umas conhecidas outras (ainda) desconhecidas (pareço aquele francês Palisse): por enquanto estão a mudar, e bem, às mãos de coisas semelhantes ao já existente [livros, revistas]. Pus na Aldeia de Elos os excelentes exemplos disso: o Livro e o Ordálio.
só para quem acha que se anda nos peditórios, favor ler (ainda que em estrangeiro) este pequeno remédio. É que a obesidade mental pode provocar obstrução das veias e artérias, com os concomitantes riscos do "afinal, quem diria, que surpresa, era tão bom homem..." (ou mulher).

Os búzios
iam e vinham
vinham e iam
como um pêndulo do tempo perdido
Que mistério lá havia, afinal?
(Será, realmente, o náufrago
cúmplice dum crime impossível?)
- Talvez. Pois da redoma dos astros
ressoa a marcha fúnebre dos deuses
(Armando Artur, Estrangeiros de Nós Próprios, Associação de Escritores Moçambicanos, 1996)
"A importação em grande escala de produtos estrangeiros permite às massas de hoje gozar os luxos dos ricos de ontem. Estes produtos são o fruto do trabalho desenvolvido nos países mais pobres, tendo as diferenças internas nos padrões de vida dos habitantes dos países industrializados diminuído, pelo menos nas fases iniciais, à custa do crescimento do abismo existente entre o consumo das regiões e nações e o do Terceiro Mundo"
(J. Goody, Cozinha, Culinária e Classes, Lx., Celta, 1998:3)
[ainda para o LNT]
Por imprensa e blogosfera portuguesa encontro, nos últimos dias, uma verdadeira escatologia. O país moribundo, o "vinte e cinco de abril" morto, o futuro comprometido, a nação traída, a democracia rasgada. Gente chorosa, alquebrada, suicídio de blogs, enfim, uma ladaínha. As carpideiras soltaram-se, e não há quem lhes ponha cobro.
Imbecilidades? Um bocadinho. Mas compreendo-as. Já passei pelo mesmo. Vou contar (o Ma-schamba está-se a tornar numa Autobiografia Oficial antes de tempo, publicada em fascículos. Enfim, mania das grandezas).
Quando Guterres atirou a toalha para o chão, perdão, para o pântano, rejubilei. Estava farto dos nenúfares na boca e do lodo nos pés. E enregelado.
O meu amigo Zé Filipe, que estava cá de férias, lembrar-se-á bem dessa noite de autárquicas, a cada um dos baronetes que vinha gemer a derrota gritávamos como se fosse golo. E a partir das tantas da manhã íamos acordar a Inês, para que viesse ela ver a cara dos bichos, na hora da derrota (o Gomes, a alegria quando o Gomes foi barranco abaixo, até o capachinho lhe parecia descolado).
O João Soares, o que nos rimos apesar de lisboetas (ok,ok). Arrogante imbecil, deitou fora a Câmara - se Santana Lopes chega à Câmara, trampolim para PM a culpa é dele, que lhe ofereceu a dita cuja por menos de 800 votos. Agora ninguém se lembra, mas com o Vasco Lourenço como director de campanha, o Vasco Gonçalves a anunciar o fascismo, idem para o Cunhal, mas que raio é que estava o tonto à espera? Deitou fora por incompetência e ainda anda por aí, a dizer-se pro-califa.
Bem e lá se foi o Guterres. O PS entrou em concílio (literalmente, não esquecer). A Inês voou para Lisboa, o meu amigo Zé Filipe voou para a Ilha e Cabo Delgado. Eu fiquei sozinho uns dias em Maputo, que ia seguir para o Niassa. Nesse entretanto um dia chego a casa, cansado, ligo a RTP-África (estava mesmo cansado) e no telejornal anunciam quem seria o mais que provável próximo nº 1 do PS e, então ainda se pensava, muito provável Primeiro-Ministro.
Fiquei transido, fiquei devastado. Era o pior de tudo, a expectativa da perfídia étnica, do mais puro e abjecto tribalismo no poder, da ascensão do compadrio radical, corrupto e incompetente. O desrespeito total pela cidadania. Coisas sabidas, e de perto.
Levantei-me do sofá, alquebrado como nunca tinha estado desde as porradas que levei na tropa. E assumi uma decisão racional. Esqueci o modesto jantar caseiro (estava em casa sozinho, nada de luxos) e fui até ao Rodízio Real, o mais caro e mais requintado restaurante de Maputo. Fui lá ganhar ânimo, gastar dinheiro para revigorar a alma. Debati-me com um naco de carne, saboreei lenta e solitariamente um Esporão regular que aqui assume preços de hidromel. E convoquei o carrinho das espirituosas, sabendo que no Maputo de hoje é ali o único sítio onde sabem aquecer um balão de aguardente. Aquecidos que foram alguns regressei a casa. Mais animado. Mas ainda aterrorizado. E com a decisão tomada.
Logo que em casa telefonei a dois amigos, feitos aqui. Gente de alguns galões lá no partido do LNT [está a ver, não sou assim tão fundamentalista]. "Estás cá, pá?" foi o que cada um à sua vez logo me disse, surpresos pelo inopinado. "Náááda!!", balbuciei, também a cada um deles. "Estou a telefonar por causa disso do PS! Se vocês escolhem esse filhodaputa para chefe entrego o meu passaporte aqui no consulado. E para visitar os meus pais vou até Badajoz e eles vão lá ter comigo. Não entro mais nessa merda de país". Os gajos riram-se, à vez já o disse. E um deles, sacana, desarmou-me, lesto no "ó zé, não vale a pena, podes entrar com o BI".
Fiquei-me. E não há outro termo para o definir. Fodido!
Bem lá passou um dia, e afinal não foi bem assim, mudaram de chefe proposto. Ao novo chefe, impoluto dizem-no, ainda o vi na televisão no último sábado de campanha eleitoral: manhã em Bragança com Armando Vara; de tarde em Matosinhos com Narciso Miranda (na lota?).
E depois perderam as eleições. Que alívio.
E ainda não fui a Badajoz.
Entre Maio e Julho de 2003 em Portugal nada mais deve ter sido feito do que abrir blogs. Pois se tantos andam a aniversariar por estes dias.
Mas passou-me, e nem tenho desculpa, o aniversário do Alentejanando, um dos meus blogs de referência. Ou seja, um daqueles que eu gosto mesmo.
Parabéns ao Isidoro de Machede, seu obreiro. E um aviso a quem não conhece ou visita regularmente. Naquela casa escreve-se muitissimo bem. A tecla não lhe treme. E deve-se comer quase tão bem, que o homem avança com umas receitas espantosas. [por isso está um bocado escondido aí na Aldeia dos Elos, rubrica "Caril". Mas onde mais poderia estar?].
A visitar, com urgência. Pelos comes, pela verve. E pelo resto, que é ainda mais.
Os efeitos da retórica são estranhos. Quais serão os mecanismos que fazem actuar? Que critérios agridem ou bajulam? Porque e como reagimos à sua presença?
Nestas férias semestrais em pleno inverno ríspido tenho lido muito. E nada me desagradou tanto como ver o nome do meu PR acrescentado de um segundo apelido (Jorge Branco Sampaio?).
Como factor de óbvia desvalorização, a criar uma situação de afastamento, por infamiliaridade. Como se Sampaio tivesse mudado de nome, de personalidade. Como este desusado apelido simbolizasse algo da sua personalidade só agora conhecido, desvendado. Como a sua descoberta significasse também a da falsidade do indivíduo
Pela manipulação do nome um atentado moral.
Há gente muito estúpida.
etapa de uma forma muito bonita. E cumpriu-a de maneira muito competente e séria. O Argonauta dá-lhe a vénia que Paulo Bento bem merece neste "blogoestádio".
Notam, reparam, no sagrado do poder? O rei sagrado, o chefe tradicional, o ungido pelos deuses, o actual antepassado, o centro da sociedade, o ponto meridiano do cosmos, o descendente e representante do passado, o garante da continuidade, aquele que faz chuva, que ordena as estações, que faz frutificar, aquele que nos leva até ao futuro, o que dá vida.
Esse, NUNCA, mas NUNCA, vai a funerais, não se conspurca com a morte. Não periga a fertilidade de que é representante, garantia, "banco", "carteiro". Não a periga com a poluição do fim. Da morte infértil, caótica.
Afinal? Que maravilha. No nosso Portugal moderno, racionalista. Até laico. Como em tantos, tantos outros lugares. Hoje e antes.
Não há ponta de crítica. Apenas surpresa na constatação. Que é maravilhosa, a mostrar as continuidades.
E esta é decerto uma - não venham com desculpas de "sobrecarregar agendas" ou "dificuldades de critérios optativos".
Continuidades do não-dito. Tantas vezes do não-pensado. O ritual do poder. A essência do poder.
Que maravilha! Que maravilha.
ADENDA: pelos comentários tenho que concluir que o texto foi mal escrito. Não me fiz perceber. Peço desculpa.
Tentarei explicar-me:
1. não há aqui uma ponta de crítica ao cidadão Jorge Sampaio.
2. não há aqui uma ponta de crítica a Sua Excelência o Presidente da República, dr. Jorge Sampaio.
3. não há aqui uma ponta de crítica às instituições nacionais.
4. não há aqui vontade ou opinião que o PR deva ir a funerais.
5. fiquei genuína e deliciadamente (a delícia é uma coisa boa, entenderam-na como crítica, o que denota puritanismo nos leitores, mas isso seria assunto para outro texto) surpreso por saber que a instituição política mais importante de Portugal, dotada de mais simbolismo [mais alto (magistrado), comandante em chefe, garante, árbitro, etc], sub-conceptualizado como figura central do sistema político português, pelo que da própria sociedade, cumpre um tabu (e sai termo vulgar), o tabu da morte, que é recorrente numa pluralidade de outras sociedades. E que é assunto para antropólogos e quejandos (simbólico do poder). E que eu nunca tinha percebido no meu país.
6. espero que me tenha feito compreender. E ao meu agrado. O próximo texto sobre a matéria será quando vir um PR presente num funeral. Pois isso significará algo. E não será para criticar, mas sim para tentar perceber porquê.
[muito provavelmente o PR irá a funerais no estrangeiro, aos dos seus pares: mas isso é fora da sua sociedade, não polui a ordem fértil com essa morte, é uma morte estrangeira, forasteira, exterior, não periga a nossa saúde]
7. Houve um comentador, caústico, que disse que ele iria estar presente no seu próprio funeral. Incorrecto. O PR nunca estará no seu funeral. Pois alguém estará já empossado das suas funções. Políticas e simbólicas. Mesmo que nós, vulgo, não o tenhamos compreendido.
8. Prometo que tentarei ser mais explícito daqui em diante. A ver se sim.
A visitar como sempre o excelente Quartzo, Feldspato & Mica (huf). Para chocar com texto, presumo que uma colaboração de leitor.
Cito trechos (é melhor ler todo, que isto de seleccionar excertos arrisca sempre a manipulação), porque condensam uma série de arrazoados que por aí pululam em nome da democracia, mas que são objectivamente anti-democráticos.
1. "Temia, além disso, o sempre propalado argumento da "estabilidade", usado a torto e a direito por alguns opositores da Democracia Participativa sempre que a sede de poder económico e político se sobrepõem ao interesse nacional..."
Já aqui escrevi (não lembro quando) que a adjectivação da democracia normalmente deriva da recuperação, explícita ou implícita, da velha noção comunista de "democracia formal", siamesa da "democracia burguesa". Fiquemos pois a saber do que se trata.
A democracia exige participação. E há poderosas forças sociais que tendem para a redução dessa dimensão. A qual não se esgota em eleições. Há pois que melhorar a participação, potenciar a cidadania.
O que nos divide é uma questão de hierarquia. Quem concorda que uma democracia participativa é fundamentalmente representativa, que implica uma delegação, ainda que efectiva e activamente controlada.
Ora a representação passa fundamentalmente por legislaturas de quatro anos. Não como dogma. Mas como padrão. E essas são representação e participação. Não é por se votar de dois em dois anos que a participação aumenta.
Ora nestes discursos "participativos" surge, sistematicamente, a desvalorização, a subalternização, da representação face à participação. Aquela deficitária face a esta quanto a legitimidade. E sem que se conceptualizem quais os critérios dos "agentes participativos", e suas "modalidades de acção". Bruaaa, sim. Mas um ruído aconceptual perigoso, porque exclui, porque define os "movimentos sociais correctos", os que têm o direito à palavra - pergunte-se a estes "teóricos" qual o papel dos "espoliados do ultramar", dos "heráldicos nacionais", dos "bloguistas neo-fascistas", das "associações de famílias", das "movimentos cabeça-rapadas", dos sindicatos não-comunistas, etc, e logo lhes recusarão legitimidade participativa, mergulhando-os no "caldeirão adversário", grupos ilegítimos porque manipulatórios.
2. "Santana Lopes formará um governo sem a legitimidade do eleitorado, apoiado por uma coligação que apenas foi sufragada pelo voto na eleições para o Parlamento Europeu, sofrendo uma estrondosa derrota"
2. A coligação no poder não tem legitimidade porque não foi votada. Esta é uma falsidade radical. Houve umas eleições, e do quadro parlamentar estruturou-se um governo de coligação. Situação não original em Portugal. Situação recorrente nas democracias parlamentares. Situação normal. E legítima.
Há dias citei uma afirmação do inefável Prof. Fernando Rosas, que ecoava esta noção, a da ilegitimidade do governo poque não tinha sido votado como coligação.
[Confesso aqui o meu desconforto. Alguns dos meus melhores amigos em Maputo são colegas próximos e bons amigos de Rosas, renomado historiador. E dele dizem maravilhas como pessoa e académico. Mas, honestamente, para um homem da sua cultura este tipo de afirmações só pode indiciar duas abordagens, e que nunca de incompreensão: doença (não estou a ironizar, nem lha desejo) ou uma profundissima desonestidade intelectual. Eu voto nesta segunda hipótese, apesar dos meus amigos.]
Compreendo que gente do BE e do PCP considere as vantagens de ir a eleições coligado: o BE como coligação de partidos de ideologia totalitária e de exclusão socio-política, o PCP como obreiro de uma falsa coligação, hoje pura inércia, em tempos procurando o velho frentismo, signo de liderança.
Mas parece óbvio que não é essa coligação pré-eleitoral a única forma politica e institucionalmente legítima de coligação: dizer o contrário é pura desonestidade. Ou imbecilidade. Para quê repeti-la? Porquê continuar a acreditar que a desonestidade é uma arma política eficaz? Porque continuar a acreditar que a imbecilidade é uma arma política eficaz?
Porquê este elitismo sociocêntrico, esta pequena burguesia letrada que se acha tão distante de um qualquer "povo" que considera que a sua retoricazita o poderá enganar. Que ainda pensa que o ser "letrada" o distingue desse "povo"?
Quando ele é ela, nada mais, que isto mudou para além dos livros. E não lhe compra argumentos made in china. Nem fancaria maoísta, nem fancaria neo-capitalista.
Os dois blogs políticos portugueses mais lidos e de autoria mais sonante, José Pacheco Pereira e Vital Moreira et al estão em momento de colocação [dir-se-á publicação?] de múltiplos textos de índole política da autoria dos leitores desses blogs.
Acho interessante, até elegante por parte de donos dos blogs. E muitos dos trechos apresentados são muito válidos. (Pacheco Pereira publica inclusive algumas críticas, lançando em sua casa o debate sobre o Abrupto como se fosse à sua revelia).
Mas também me questiono, a publicação de tantos trechos de leitores não tende, mesmo que inconscientemente, à afirmação de um estatuto colectivo das opiniões do(s) dono(s) de blog? Uma retórica afirmação de serem estes blogs um representante colectivo?
Qual o estatuto de um blog? Representa o seu autor? Ou, como me parece indicar esta deriva, quer-se porta-voz de movimentos sociais, de colectivos de opinião/pressão (mesmo que não herméticos, como prova a multiplicidade interna no Abrupto)?
Aquele Bazonga foi das primeiras casas que conheci. Quando desmatei para o Ma-schamba fui à vizinhança só para saudar, não fossem os diabos locais tecerem desses feitiços, que a gente daqui é assim, tem dessas ruindades. Naquela casa fui bem recebido, afinal sempre são patrícios, água e sal até, vieram depois aqui à machamba só para conhecer, alguma ajuda se necessário fosse.
Passei a visitá-los lá pela manhã, no cedo fresco. Tem clima ameno lá na colina, palavra amiga quando estão bem, mas nunca escorraçam quando não. Um alambique acolhedor, e até uma outra amiga dessas que jingam, e que eles sempre fazem o favor de apresentar, que não são gente egoísta, e sobra sempre um bocado de companhia.
Lá na cidade há muitos patrícios com manias de África, do antigamente que "aquilo é nosso, vejam lá os pretos ladrões miseráveis", do novamente d'agora "que é só para ajudar" e isso do "desenvolvimento" e dos "projectos". Mas é uma boa merda, se me dá licença, que depois nunca dizem nada, e ainda bem, que é bem melhor do que os disparates que têm lá nas cachimónias, que não percebem nada disto. Estou a falar dessa gente que está lá no conforto da ventoínha e das geleiras, nem querem sair. Também sempre foi assim, porque é que ia mudar agora?
Agora estes ali da machamba Bazonga não são assim. Até são os únicos, amais aquela senhora muito séria que trabalha naquela ong eclésis, são os únicos que por aqui andam, falam com a gente, ficam a saber das coisas. E acho que as dizem lá onde querem.
Às vezes arranjam problemas, põem-se a protestar com o administrador do distrito, com os chefes, coisas assim. São jovens, também é isso. Mas depois lá me vêm as queixas "esses teus patrícios, não se sabem comportar, não têm respeito". Eu lá os desculpo como posso, pago umas garrafas, cervejas que desse tontonto não bebo, que não é bebida p'á gente. E assim lá os vou safando. Digo aqui nas estruturas que nem são maus rapazes, aquilo é da juventude, e depois bebem um bocado e depois falam aquelas coisas, é da idade, tá-se a ver, e nem são bem eles, é o vinho, não que tenham mau vinho, não há história de arranjarem confusões, é só as coisas que dizem. Também aqui o que é que um homem pode fazer, senão for isso a distrair a gente? Para além das mulheres, está-se a ver, não é assim?
É boa gente, é boa gente. Uma rapaziada assim, como dizer, moderna. Está a ver como é que é?
Gosto bastante do Quase em Português. Não, não é pela ironia do título, nem apenas pela forma como nos prova de como ele é falso. Nem só pelos belas reproduções com que nos brinda (p.ex.). Mas também porque é um belo sinal, tão contrário aos gemidos lancinantes que se ouvem. Porque um estrangeiro residente na minha terra, e com ares e sensações de que também já é dele, opina calma e livremente sobre o que lhe apetece.
Leiam-lhe o blog. E calem os gemidos. Que enjoam. Porque o país não é só jogo de bola. É uma democracia. Raios vos partam, que meninas...
A arrogância e a falta de educação, e mais quando se unem em complexo de "prima-donice", são poderoso obstáculo epistemológico ao entendimento do real.
Desde sempre me lembro da sua existência, e concomitante debate sobre necessidade e modalidades de combate à sua realidade. Ora eu tenho uma preocupação com o conceito de "deficit". Preocupação reforçada nos dias que correm, pois as questões do deficit surgem no cerne retórico da crise política no meu Portugal.
Na realidade, e como não sou economista, não compreendo bem o conceito. Esse meu deficit intelectual provoca-me duas estranhezas:
1. dizem-no "estatal". Mas a separação Estado/Sociedade é mera falácia disciplinar, o Estado mais não é do que mera forma organizativa intra-sociedade (societal é palavrão aqui). Daí que o deficit é da sociedade.
2. dizem-no "factor de desenvolvimento". Mas então não deveria ser conjuntural, cíclico no máximo? Só que surge estrutural, constante. Dir-se-ia não só perene (qual o ano civil em que não existiu?) mas eterno.
Esta preocupação deriva de contexto e brota de dilema.
Contexto: procuro nestes bloguísticos apontamentos, não sei se o conseguindo, deixar imagem de relativa dúvida, de gente ao teclado sem grandes certezas ou esperanças solarengas (espelho deformado?).
Mas tenho também causas últimas, utopias mesmo que autoritárias, adesões acríticas e radicais, valores absolutos. Fundamentalismos. Pelos quais trabalharei insanamente se possível (e necessário). E darei, ainda que pestanejando de medo e desilusão, a vida. Sobre isso escrevi já algumas vezes, e até o sistematizei aqui.
Creio, ainda que não baseado em estudos profundos ou sondagens recentes, que será uma crença de adesão generalizada. Até pelos efeitos da socialização (educação, para leigos) relativamente comum que os portugueses têm.
Ora o dilema impõe-se-me: este deficit constante, estrutural (bem como a sua defesa implícita ou explícita) não chocará com os objectivos fundamentais a que aderi, os da realização, libertação e optimização da minha causa radical?
Haverá algum leitor economista disponível para me sossegar?
(voltando à velha questão do papel do intelectual na sociedade)
Já aqui referi o respeito intelectual que tenho por Augusto Santos Silva. O sociólogo é um mestre.
Mas não é por esse a priori que muito apreciei este texto [abaixo transcrito]. Do melhor extra-blog sobre o momento do meu Portugal. Texto analítico e prospectivo. Límpido. Educado (no sentido amplo da palavra). Entenda-se, "urbano". Não desvairado. Não obscurantista.
Os imbecis anti-intelectuais - esses que abundam sob a palavra chic, a verve escorreita e o preconceito hábil, não conseguem compreender que é isto que se espera de um intelectual. Alinhado ou não (que tem ele todo o direito de alinhar, se assim o entender). No nosso campo ou não.
Os imbecis intelectuais também não o conseguem compreender.
Como Se Deve Enfrentar Santana
Por AUGUSTO SANTOS SILVA
Público
Sábado, 10 de Julho de 2004
[O] cronista escreve sem saber, mas é possível que o leitor já saiba qual é a decisão do Presidente da República. Ao cronista, duas coisas parecem certas: viveremos proximamente um clima de campanha eleitoral - mais breve se as eleições forem convocadas para o Outono, mais longa se for empossado um novo Governo; e a liderança política da direita está nas mãos do par formado por Santana Lopes e Paulo Portas. À frente de um Governo gerado pela mesma maioria parlamentar ou de um bloco eleitoral, Santana constitui o adversário do momento para um campo social e político bastante amplo.
Ora, perguntam muitos, e alguns com angústia: como se deve enfrentá-lo, a ele que tem fama de imbatível em manipulação e propaganda? A sua conjugação com Portas não representa apenas uma dada linha política dentro do mesmo regime, mas sim a possibilidade de uma mudança significativa na natureza institucional e na qualidade democrática do regime. Contudo, também é certo que, puxando o "PPD-PSD" para ainda mais perto do PP e impondo-lhe uma lógica populista, Santana aliena parte importante do centro político português. Perderá deste lado muito mais do que o que ganha no outro.
Não duvido de que Santana e Portas são campeões do populismo e, por isso, ameaçam realmente a qualidade institucional e democrática da república. Populismo quer dizer demagogia infrene, exploração das emoções, primarismo ideológico, culto quase messiânico do líder, cumplicidade activa com a comunicação social tablóide, espectacularização da política, atenção exclusiva ao curto prazo, desprezo pelas regras institucionais. É preciso não deixar o povo nas mãos dos populistas, mas não é menos necessário confrontar o povo com uma alternativa não populista, claramente distinta, claramente enunciada.
O que implica, a meu ver, alguns cuidados. Não se pode cair no erro de seguir ou imitar os populistas, na imagem e no estilo: o original ganha sempre à cópia, o emulado ao emulador. Não se poderá fulanizar demasiado o combate político e muito menos atacar "ad hominem" pela via da diabolização: primeiro, os Berlusconis agradecem a promoção que esse tipo de ataques lhes garante e são mestres na autovitimização; segundo, a reacção histérica e a arrogância intelectual não são antídotos, mas vitaminas do populismo. Não se pode responder ao adversário de hoje com as palavras e as atitudes de ontem: os eleitorados castigam severamente as apreciações desproporcionadas, do tipo "regresso ao fascismo", e quem fala, por exemplo, em "resistência ao avanço da extrema-direita" ou exagera o "fulgor" e a "projecção mediática" dos seus caudilhos coloca-se implicitamente, à partida, na posição de acossado e perdedor.
A linha de conduta para enfrentar Santana Lopes parece-me, pois, óbvia. Não subestimar a sua capacidade e influência, mas recusando-lhe qualquer hipótese de colocar o debate no registo histriónico que ele adora. Não dar por adquirido qualquer desenlace do combate político que se avizinha, cortando cerce todas as cenarizações mais ou menos fantasiosas sobre o dia seguinte, que só dispersam e malbaratam energias preciosas para o próprio dia. Ser moderado, falando não para os "santanistas" e na sua linguagem, mas para as pessoas e nos seus problemas, e falando com equilíbrio e convicção tranquila.
Se for esta a linha, não percebo por que se há-de sobrevalorizar a dimensão do par Santana/Portas. Desde logo, pertence-lhes o ónus da crise política. Só há crise e só há eleições antecipadas ou Governo de precária legitimidade política porque Durão Barroso desertou, rasgando um compromisso que assumira e reiterara, e tomando uma decisão que, à luz dos seus próprios critérios, configura uma fuga à responsabilidade.
Depois, é Santana que responde pelo legado de dois anos de Governo da direita. Por mais piruetas que queira fazer, é ele que agora representa a coligação e é sobre ele que recaem as consequências do juízo político que os portugueses têm de fazer sobre o que é esta direita a governar. Nesse sentido, por mais festanças que agora prometa, Santana é a cara da crise. A sua posição é dilemática: se assumir o legado, pagará por ele; se romper com o legado, pagará por mais uma demonstração das cambalhotas que são a sua imagem de marca.
O que se compara são as qualidades dos programas, das equipas e das pessoas, para o exercício efectivo da governação - não para as capas de revistas ou os estúdios de televisão, mas sim para dirigirem o Estado, responderem pelo país e realizarem obra em favor das populações. Ora, conhecem-se as ideias de Ferro Rodrigues, mas quais são as de Santana? Conhecem-se as virtudes e os defeitos dos rostos do centro-esquerda para as diferentes áreas políticas e sectoriais, mas quem são os "santanistas", quem há neles de relevante para lá dos homens de mão e das mulheres em pose? Onde está a obra de Santana Lopes, há 25 anos na política, mas sem uma iniciativa que tenha marcado positivamente os lugares por que passou? Qual é a sua obra: a revista no teatro nacional, a plantação de palmeiras na Figueira ou as ilusões desfeitas e os buracos por tapar em Lisboa? Levou alguma coisa até ao fim, mostrou estabilidade política e emocional em algum lado, manteve alguma coerência em coisa alguma?
Eu sei que, na hipervalorização de Santana operada por críticos não menos devotos que os seguidores, espreita a mal disfarçada inveja pelo "animal político" - pela luz dos holofotes, pela sedução pessoal, pelo à-vontade na polémica e no combate, até pela desfaçatez. Mas duvido que esta atitude, realmente influente no campo político-mediático, tenha grande repercussão na generalidade das pessoas. O que estas querem saber é que soluções concretas, práticas e razoáveis lhes são propostas, para sair da profunda crise de meios e de esperança em que as mergulhou o Governo mais desastrado da democracia constitucional portuguesa. E intuem que isso é o contrário da fantasia, do sorriso fácil, do "glamour" das festas e das revistas.
Como se enfrenta melhor Santana? Pois não lhe passando muito cartão. Antes falando com sentido de responsabilidade para as pessoas, de modo a que elas percebam o que estará em jogo nas escolhas que serão chamadas a fazer, se e quando o forem. Para dizer numa frase e para o caso de a saída ser a antecipação de eleições: não se trata de evitar que Santana ganhe, trata-se de ganhar.
Sobre política todos temos a mania de botar (já o platão resmungava sobre isso). E dizem-se muitas asneiras.
De blog em blog nestes últimos dias, e a propósito da crise governamental no meu país, pude comprovar isso. Mas também comprovei que há muito bom texto, de opinião ou sotaque diferente. Mais alinhado ou menos. Muito bom texto.
Sossegue o seleccionador. Matéria-prima existe.
Há muitos anos, vinte e picos ou quasi-vinte também não interessa, passei uma noite eleitoral, daquelas ainda muito longas maratonas televisivas, com o meu pai. Ele nesse dia saído de mais uma derrota eleitoral, o que o magoava, militante descrente nas críticas, fervoroso na sua verticalidade do tamanho da Torre dos Clérigos, politizado até aos ossos, coisa de geração achava eu.
(o politicocentrismo é um mal como outros).
Nessa noite protestava o assim, e saía-lhe o protesto em forma de lamento prévio pelo meu futuro, antevisto como brumoso devido aos terríveis rumos que ali imaginava, e eu, tardo-adolescente, num encolher de ombros, ouvindo-o de um outro lado, que não dO outro lado.
Passaram estes anos, ele continua rijo de terceira idade e convicções, e assim se mantenha. Desse meu futuro, já passado, de nada me queixo, coisas boas e más, mas muito mais do que positivo
(e mais que não fosse, ainda que felizmente haja muito mais, a Inês e, agora, a Carolina bastariam para apagar qualquer politicocentrismo escatológico se este fosse hereditário).
Afinal!
(e as filhasdaputice vistas e sofridas até vieram mais das bandas próximas das dele do que daquelas então tão receadas)
Esta lembrança veio-me com o LNT, neste aqui do Tugir, co-autor de um blog assumidamente socialista, com o qual me venho "pegando" de quando em vez. Ânimo homem.
Já aqui falei várias vezes deste "As Duas Sombras do Rio" de João Paulo Borges Coelho, edições Caminho/Ndjira do ano passado. Pois ainda que saiba que a amizade tolhe o entendimento não tenho, ainda assim, nenhum pejo em afirmar a minha opinião, a de que é a melhor ficção moçambicana.
As duas boas notícias do dia foram:
a. o livro está tecnicamente esgotado (ou seja poder-se-á ainda encontrar algum exemplar nas livrarias, mas não há para reposição), o que em apenas um ano é de assinalar para uma primeira obra. Ainda por cima porque não foi alvo de particular promoção, nem em Moçambique nem em Portugal. (E porventura tê-la-ia merecido).
b. vai ser reeditado. A ver se deste mais promovido (já que vem aí segundo livro lá para o fim do ano "As visitas do dr. Valdez" [?]. E se a Ndjjira faz bastantes exemplares, que há-de ser procurado aqui. E, aposto, o mesmo lá pelo Portugal.
E assim sendo, um aviso amigo ao visitante interessado. Compre e leia. Se não gostar proteste aqui no Ma-schamba. Diga-me nepotista.
Sexta-feira à noite jantar cá em casa, a boa comida de sempre, e como um vulgar vinho do Redondo pode saber bem! Em especial quando casado com bela conversa, casal amigo, argentino, discorrendo sobre Buenos Aires. E também sobre outras tantas coisas, viagens feitas, episódios de todos, memórias. Risos e até sustos, do passado. E eles também sobre a crise que lá por casa tiveram e do belo Presidente que arranjaram (confesso-me muito mal informado sobre a Argentina).
Antes passou o Francisco, a mostrar e a dar
, 11º número já, que aventura a dele, que trabalheira, a valer a pena.
No meio disto telefonema de amigo lisboeta, surpresa, está cá em workshop de música para dança, a correr na Casa Velha. Chegado ontem, primeira vez em Maputo. Boa nova, um pouco de cicerone, pretexto para mesa e sede. E fala.
Amanhã pic-nic na escola da Carolina. Obrigatório. E começo de duas semanas em que regresso ao estatuto de pai-mãe. A ver vamos como reage ela desta vez.
Tudo crucial.
o Substrato aniversariou ontem. Daqui segue para o horrendo postador uma palmadinha nas costas.
Bazongueiros estão hoje a aniversariar. Imagino-lhes o kwassa kwassa, que aquilo não é gente para kuduru.
António Balbino Caldeira exerce a sua cidadania no Portugal Profundo, com alguns textos procurando pensar o estado do sistema político português.
Reconheço-me, nesta distância, concordâncias e discordâncias. Mas acima de tudo gosto da vontade de pensar e falar. Livre.
A propósito de um pequeno texto que aqui pus recentemente recebi um email acusando-me de uma auto-reclamada "superioridade moral". Está estafada a acusação, cada vez que alguém critica ou faz juízos de valor lá lhe atiram com o papão da arrogância moralista. Papão que se quer inibitório.
Mas quando leio, concordando ou não, textos como os últimos do Portugal Profundo, reconheço a tal "superioridade moral". Que não é papão nenhum. Mas apenas um cidadão livre, preocupado, a reflectir. Livre dos amolgaduras morais que as militâncias clubístico/partidárias vão causando estrada fora, blogovias ou não.

"Na vida dos imperadores há um momento...desesperado em que se descobre que este império que nos parecera a soma de todas as maravilhas é uma ruína sem pés nem cabeça, que a sua corrupção está demasiada gangrenada para que baste o nosso ceptro para a remediar, que o triunfo sobre os soberanos adversários nos faz herdeiros da sua longa ruína."
(As Cidades Invisíveis)
dúzia de vezes com gente dessa e com quem lhes acha piada, ecoa, e respeita. Até gente de bem cai nisso. Tenho até amigos que simpatizam com essa gente. Daí que não resisto a reenviar-vos para um "post" histórico. Pois para os incautos depois de um texto destes não há absolutamente nenhuma desculpa, nenhuma, para a indigência intelectual e moral do "achar piada" ao terrorismo autocrático desta gente.
e ainda nem tomei banho...e fico-me, sorrindo, mas triste, com esta ideia.
Não sei quantos reais leitores passam por aqui. De alguns amigos certo, de uns poucos comentadores idem. Mas quantos mais?
Enchi o Ma-schamba de feitiço, curandeiros, dizendo-os em apoio à selecção da bola portuguea.
Antecipei-me (mas era um a priori muito fácil) ao misticismo que caiu sobre Portugal. Não a magia mariana (Fátima, que horror), mas mesmo o tão vilipendiado "paganismo" (a palavra está aqui pesada, para traduzir todos esses preconceitos que escondem as semelhanças tão evidentes).
Não sei quantos reais leitores passam por aqui, disse. Repito. Mas nem um me comentou "V. está parvo?".
Da minha ironia aqui (pouco vista é certo), de todas as bandeiras (que alguns intelectuais assumiram como "recuperação moderna dos símbolos nacionais, antes cativados pelo serôdio Estado Novo" - meu Deus, diz o ateu, estupefacto com o argumento), de todas as velas, das idas a Fátima (viva Jorge Andrade, o central iluminista "que tinha mais que fazer"), das rezas nos estádios, da senhora de caravaggio, das ironias com gravatas e camisas da sorte, das ausências ou presenças benéficas no estádio, de tudo isso fica uma ideia sobre o meu Portugal
A que há uma profunda ideia de que os actos humanos influem à distância no devir das coisas, neste caso num jogo de bola. Não a crença religiosa, da intervenção divina no destino (com muitas matizes, mas sempre presente). Não a crença científica da manipulação causal influenciando efeitos. Apenas a da indução aleatória.
Amante de futebol torci pela selecção. Fiquei doente nas derrotas. Ia-me dando uma coisa má no jogo com a Inglaterra.
Mas não posso deixar de sorrir, amargo, com todo esse misticismo. Sociologicamente transversal.
Um misticismo cuja comunhão com mistificação não é apenas etimológica. Comunhão essa que é política, e não apenas no sentido etimológico.
E nem um "V(s). não está(ão) parvo(s)"?
JPP promete blogar um texto absolutamente seminal que escreveu sobre a crise do Buzinão (se o encontrar). Esperemos que sim, que ainda o encontre. Vem-me muitas vezes à memória, uma crónica "neo-realista" sobre a vida quotidiana de um casal da Outra Banda. Lendo-o a explicação do Buzinão era óbvia, para lá de todas as teorias conspirativas de então. E a necessidade desse texto ser escrito demonstrava, e demonstra ainda, o gigantesco hiato que o poder constrói face à população.
Para mim esse texto de JPP e um outro em que explicou porque a ponte de Entre-os-Rios caíu são antológicos. Sem qualquer hipérbole. Espero que o autor também volte a partilhar connosco este último texto.
Terminado o Euro-04, aglutinador que foi, e grande diversão acima de tudo. Prestes a terminar a "crisesita" política portuguesa, espantosa que foi, e grande discussão acima de tudo. Está, portanto, chegada a hora de terminar as férias do Ma-schamba. (Aeroporto Internacional de) Mavalane no horizonte, e regresso a Moçambique, um olhar para aqui. Até que enfim, confesso o stress que Lisboa sempre me causa, apesar do gosto, das saudades, da família e amigos. E dos queijos e vinhos. Assim sendo despeço-me de patrícios, vizinhos, familiares. Maputo, de novo, para mais uns largos meses.
Como recado último, se mo permitem, deixo uma longa citação, recolhida num blog do qual cada vez gosto mais (até tem valentes discussões entre o colectivo autoral). Citação que é diagnóstico e terapêutica. Da lavra de um homem que deve estar tanto à esquerda como eu, talvez que apenas com sotaque ligeiramente diferente: o já afamado Dr. Besugo, um dos melhores teclados que por aí anda, no corrosivo, no iconoclasta. Bem haja, sô dôtor!
O relatório clínico completo encontra-se aqui. Para os impacientes transcrevo o receituário: Se eu fosse Presidente da República, independentemente de ser de esquerda ou não, independentemente de toda a lógica da "virtual politik", decidiria que a coligação formaria novo governo e acabaria o seu ciclo de poder legitimado. Porque Portugal é onde nós vivemos e, embora não aprovando grandes fatias do projecto governativo em curso, nós queremos ver onde isto vai dar no tempo que lhes resta. E porque, sejamos honestos: se o povo português não sabe que se vota em partidos, em ideias, em programas, se cuida que se vota em líderes partidários, está em muito boa altura de o aprender. É que é importante saber para que se vota e em que se vota, que votar é importante. Se não é, para as próximas eleições também vou para a praia, que é agradável se estiver bom tempo." [meu itálico]
Depois desta ida ao farmacêutico sigam, sff, ao ervanário e adquiram o saber sobre os v(n)ossos futuros anos (décadas?).
Entretanto eu segui para Maputo. Qualquer coisinha em que vos possa ser útil, à disposição. Por aí tratem-se, sff.
não foi vá visitar o Velho à Rua da Judiaria, que ontem apresentou a tradução de um poema antigo. Absolutamente imperdível, perdoem-me o advérbio.
Há momentos assim. Súbito, e quando menos se espera, a vergonha de ser português.
De vergonha, de repúdio por uma ordem jurídica imbecil, laxista. De uma corja de profissionais e legisladores eunucos, preguiçosos, miserandos. De vergonha de ser daí, de um país incivilizado.
Onde alguém pode estar preso mais que um ano sem ser acusado. E onde, ao mesmo tempo, num extremo de incoerência teórica, filosófica, prática, um qualquer filho-da-mãe pode cometer um público desmando e sair incólume. Garantido no garantismo, nos aparentes direitos do cidadão.
Esse garantismo que logo no caso a seguir será violado à última. Consoante as preguiças do Legislador.
Este indivíduo [abaixo transcrito] vai ter lucros, simbólicos, afectivos e se calhar económicos. Vai lucrar com a sua indecência. Mas acima de tudo vai lucrar com a sua ilegalidade.
Uma ordem jurídica que é incapaz, que está desarmada, de punir severamente um troglodita destes, não é ordem. Durante anos discute-se a violência no futebol, durante anos se preparou o Euro. Ninguém legislou contra uma invasão de campo? Porquê? Estiveram "ausentes do plenário, reunidos em comissão"?
Há dias como estes. Por causa de um quase nada, envergonho-me de onde venho. Da sua incivilização. Da sua falta de amor-próprio.
Imagine o leitor este exemplo ficcional: o jogador Paíto, internacional moçambicano ao serviço do Sporting rescinde contrato e assina pelo Benfica; passados anos vem ao estádio da Machava jogar pela sua selecção, um encontro decisivo (p.ex. apuramento para o CAN, Campeonato de África das Nações). Em momento culminante do jogo, súbito aqui o Zé Teixeira, em acesso furibundo de idiotice, entra em campo, finta a polícia, e vai agredir/gozar/perturbar o jogador.
Se chegaram até aqui, façam ainda o favor de imaginar a trabalheira que advogados variados, embaixada, consulado, amigos, conhecidos e colegas, mais o psicólogo, o psiquiatra e o padre contratados, todos eles juntos, iriam ter para safar o tal idiota Zé Teixeira dos trabalhos em que se tinha metido.
Lá embaixo terminei um texto com uma bela e festiva foto alusiva ao Europeu, e que muito apreciei. Reza ela "ser português é um orgasmo". Bastaram dois ou três dias para, com este caso, voltar à realidade: é um orgasmo sim, mas precoce.
CATALÃO JIMMY JUMP
De louco a herói bastou um salto
Jaume Marquet, aliás Jimmy Jump, o catalão que atirou a bandeira do FC Barcelona à cara de Figo, foi posto em liberdade pelas autoridades portuguesas e já se encontra em Espanha. Ontem, divertia-se na famosa festa de San Fermin, em Pamplona, no País Basco.
Saiu de Lisboa de carro com uma multa para pagar (a "peña" Juan Gamper, de Santander, já se ofereceu para o fazer) e para já tem escapado aos jornalistas catalães que o querem entrevistar na qualidade de novo herói dos adeptos "culé".
Apesar das palavras em contramão do presidente Joan Laporta, recriminando a utilização do símbolo do clube naquele tipo de acções, o sentimento geral na Catalunha é de puro agradecimento ao "louco" Jimmy, um saltador de barreiras, como se auto-intitula, apesar de parecer muito pouco provável que tenha entrado no Estádio da Luz sem bilhete, como querem os jornais fazer crer.
Para Jimmy Jump - na vida real trabalha numa imobiliária -, tudo faz parte de uma lenda. "O salto é o meu tesouro, a fama a minha liberdade, a força minha lei, o vento a minha única pátria". O poema, da sua autoria, serve de introdução ao seu "site" na Internet.
Pai orgulhoso
Na ausência de Jimmy, contactámos o pai em Barcelona, que pediu aos portugueses para não levarem o filho a mal: "Ele não tem nada contra a selecção portuguesa. Só contra Figo. Este plano já estava formado há muito tempo e nunca pensou em fazer mal a alguém. Queria apenas atirar à cara de Figo a sua própria vergonha."
Contou ainda que este ímpeto anormal de Jaume já vem da infância: "Sempre foi muito traquinas. O que faz é inato. Em pequeno, frequentou um colégio da Opus Dei e os padres não o deixaram acompanhar os colegas a Roma para ver o Papa. Tinham medo do que podia fazer."
Defende que o filho "não é um louco" e diz sentir-se orgulhoso, "independentemente do que alguns dizem". "Não faz mal a ninguém e todos se divertem", sublinha. Pois, todos menos Luís Figo, pelo menos.
vive um homem, e também há o futebol para nos encher a vida, façam o favor de ir aqui. Um excelente texto, abordando de modo sucinto e sistemático, até brilhante, as correlações existentes entre existência colectiva, os espectáculos desportivos e actividade política.
O POETA
Um poeta que anda descalço, sobre a língua, tem muitos sonhos na cabeça e não tem cabeça nenhuma. Tem o céu, que é, por isso, estrelado, vinte quatro horas por dia e que azula sempre que aquele adormece. Vadio em si, o poeta é uma rua longa dentro do peito que não tem normalmente saída tal como ele. Empobrecido, o poeta escreve normalmente o que não lhe pagam para isso mas o que lhe pagam para ele continuar a sê-lo. Imagine-se um poeta que não tivesse dentro de si um homem com vencimento? Morreria, não de fome mas por falta de empregado assalariado que o ajudasse a exercê-lo.
O poeta tem lebres por entre os dedos quando escreve e curandeiros dentro da boca a fumar rapé e a tossir muito por de entre os versos. Geralmente amalucado, o poeta consulta não os seu falecidos mas os falecidos que são ele e que toda a gente vê e tenta matar uma segunda vez. Um poeta está literalmente nu se escreve e vestido quando ama. Desabotoada a nudez dos seus papéis o poeta é todo uma longa lapiseira a rebolar-se pela lisura da escrita ou, então, quando se veste, gosta da tontura da profunda escuridão onde mergulha.
O poeta não é um fingidor. Foi. E isso, há muito tempo. O poeta, agora, é um não fingidor a tentar mostrar que é muito mais sério do que parece. Não tendo verdades, nem terríveis nem altíssimas, o poeta é um vulto que está sempre a perguntar por onde é que andam os outros. Mais fingidores que o fingidor que lhe atribuem, menos clarividentes que o tonto com que o rotulam. O poeta não é um chato. O poeta é um chato nos chatos dos outros. Um chato que se chateia com a chatice dos chatos que têm chatos onde o poeta é chato.
Um poeta não é para se perceber, é para sentir-se. Por essa razão tem muita gente que não entende um poeta, nem a razão porque anda nas nuvens, nem a razão porque está sempre enuvoado, nem a certeza das suas luas nem a estranheza de ser aluado. Alguém perceberá porque usará um poeta, óculos escuros à noite? Por certeza que não. É que o poeta gosta de se bronzear a essa hora, porque a mudez é um segredo e os banhistas são muito mais verdadeiros no sol onde se situam. O poeta, ao contrário dos outros, por essa altura, pode até pôr um chapéu e uma gabardina que o proteja do calor do sol. É que o poeta não tem razão de suar, tem a razão como sua.
Um poeta pode ver numa formiga um leão e fugir apavoradamente dele. Chamar-lhe-ão, por esse facto, de delirante ou de um louco escrevinhador. O que não sabem os que assim agem é que não foge o poeta da grandeza do leão mas da pequenez da formiga. Sendo pequeno, um verdadeiro poeta, e tendo disso consciência, como poderia ele não assustar-se com a minusculidade dos que lhe chamam louco ou de delirante? Um poeta é um libertador, não de causas, mas de firmezas. É um soldado a devastar a estratégia dos libertadores. E isto só porque ele sabe, que as mesmas prisões do escravizador são as mesmas do acorrentador. Um poeta é um silêncio que é um comovido gritador. É uma existência que embora não cante vive apenas do seu cantor.
Por isso, os poetas são poucos, muito poucos, muito embora hajam muitos que se percebam poetas. É que embora a poesia seja um movimento encantador é uma espécie de movimento que no poeta é só dor. E sendo assim, silêncio dentro do texto, silêncio, um poeta não é uma espécie de estratagema, é uma espécie que odeia os estratagemas, não dos textos mas dos que encontram nele as razões dos seus pretextos.
Ora, deste modo, se reafirma: o poeta não é um fingidor, é uma dor que finge não ser poeta. E não é isso encantador?
Eduardo White
Requerimento de um cidadão desiludido consigo mesmo
por Eduardo White
Ilustríssima Senhora Vida
Distinta,
Quero um poço fundo para morrer. Um poço fundíssimo onde morto eu não me possa rever. Um poço escuro, Ilustríssima senhora, um poço que arda entre o silêncio e a escuridão, um poço que doa só de nos vermos na sua vertigem, um poço que abra as vísceras terrenas da solidão. Quero um poço fundo, um fundo poço para morrer e não outro poço que seja este em que me estou a perder. Longo, obtuso, fantasmagórico, com chamas que queimem, que subam aos olhos de quem me queira reaver.
Um poço por favor, é tudo o que estou a pedir-lhe, é tudo o que eu pretendo ter, um poço onde morra intranquilo como me condenou a viver. Porra que quero um poço, é tão difícil um poço onde a morte me possa merecer? Então dê-me, com urgência, com a veemência concreta de um ódio qualquer, mas que seja puro e mau e perverso e tenha lanças que me trespassem a barriga e me partam em absoluto a minha espinha dorsal.
Eu quero um fundo, um poço fundíssimo, um poço escuro para que possa morrer tão perfeito e completamente como nunca assim pude viver. Porra, um poço. E isso custa dar-me sem pedir-lhe deferimento? Custa tanto autorizar o que a faz rir? Senhora minha e Ilustríssima, um poço bem mais fundo que o seu, bem mais escuro, bem mais vertiginoso, bem mais lamacento que o corpo com que a ele me vou atirar. Um poço, Digníssima, onde morto eu não a oiça nem falar nem tão pouco doer-se de respirar. Um poço que seja talqualmente este fosso de onde lhe requeiro isto e onde a vida, depois que demitida, seja em si um sólido quisto.
Atenciosamente
Um baixíssimo cidadão
Eduardo White
periscópio-quatro, blog que ainda tem um bocado lá do norte. Parabéns e aguentem-se;
e do Oficina das Ideias, que se cuide o meu "Quintal". Idem.
Das desventuras televisivas nos grandes momentos desportivos portugueses esta saltou-me logo à memória.
Nos Jogos Olímpicos de Montreal (1976) tudo era Carlos Lopes. Há décadas que Portugal não ganhava nenhuma medalha olímpica. E, ainda por cima, as longínguas derradeiras vinham da pouco conhecida e muito elitista vela. Hoje é difícil recordar a importância que uma medalha olímpica tinha nesses tempos, tempos de inêxito, sorumbáticos. Um país virgem de vitórias, era o que era.
Ainda no tiro veio uma medalha de prata, totalmente inesperada, mas que pouco mais foi do que o aperitivo para a vitória no atletismo, então a começar a ser desporto de todos. O país Portugal parou para ver o seu Campeão. Lopes perdeu para Viren, o finlandês sprinter, espantoso corredor de então.
Terrível desilusão. Passados minutos a RTP interrompeu a emissão para "compromissos publicitários", a render o peixe, que anunciantes e empresa esperariam ser aquele momento de glória e contavam, certeiramente, que todos estaríamos presos à espera da bandeira a subir (ainda que sem hino, que o 2º lugar não o dá).
A pior campanha publicitária de sempre. Pois o anúncio do

impediu-nos de ver em directo a "cerimónia protocolar" dos 10 000 metros, o grande Lopes lá em cima, ainda que à direita do vencedor. E como ele tinha sido esperado.
Vinte e oito anos depois posso afiançar, sob palavra de honra, que nunca comprei ou consumi uma caixa que fosse do Atum Tenório.
Vitória da Grécia. Consta que o povo reagiu bem, tamanho o ânimo acumulado que sobrou para aguentar. Com elegância e sem choros de "morte na praia", que ninguém se afogou.
Mas nem todos. Quem escreve e fala público protesta. Como se a posse da palavra pública lhes exija algum tosco "dever nacional".
Feito troiano esse coro, lúgubre, grita tragédia, a morte da bola. Até traição, apontando o "cavalo" defensivo dos gregos. Cobardia deles, claro está. Outros rogam imprecações, amaldiçoam a protecção dos deuses helénicos: nestes dias de racionalismo chamam-lhe, envergonhados, motivação.
[é muito interessante ver como na actualidade as imputações causais mágico-religiosas foram substituídas pelas psicologistas, estas cheios de aparência científica]
Um carpir que me regressa aos antepassados. A lamúria aquando dessa outra grande e inesperada derrota. Também ela injusta. O adversário não corria, (só) se defendia e, pérfido, atacava de um só golpe, traiçoeiro. Sem qualquer mérito diante do nosso Cavaleiro.
