O que é o pânico?
a. dilúvio fora de estação, imediato corte de energia, retoma, queda de raio, corte de energia, retoma, tvcabo cheia de problemas, quase invisível captação, "só podemos arranjar a avaria depois da chuva terminar", isto tudo a duas horas do jogo, a duas horas....Arranjam? Vemos aos piquinhos? Vai-se a electricidade outra vez?
ou
b. a televisão está ligada, ainda que quase invisível, e há um enorme (ENORME) bocado a estação pública portuguesa (RTP-África) transmite, filmado de helicóptero, o percurso rodoviário de um autocarro contendo a selecção nacional de futebol entre o (hoje em dia) arrabalde Alcochete e o estádio de futebol. E eu sou português.
Pânico. O que é o pânico?
[Uma tostazita com presunto (hoje há imensos acepipes cá em casa), um gole na cervejita (um apressado teclar de blog)....] Reflexão, resposta:
A Carolina está em pânico com a trovoadona, aninhada ao colo da mãe (estremosa, um presépio não fora a minha cerveja). E eu estou tão em pânico como ela (alínea b.). Mas disfarço, a mãe Marília está longe, não tenho colo que me sossegue. Mas que esses gauleses são loucos são.
se está disposto a ler sobre política a sério visite sff este texto e o anterior. Se não conhecia a casa em causa aviso que lhe é costume a inteligência e cultura.
Sigamos, agora sobre o Santana eu acho que...bem...enfim.
Bem, decidirei depois da bola. Aliás, será ele aplaudido em Alvalade ou vaiado? Sim, sim, é essa a verdadeira questão. O efectivo barómetro!
Ou será que se esqueceram? Atolados nos Campos de Belém?
nada mal o Aviz. Novas eleições darão três meses para PSL se vitimizar, imparável.
(Re)ganhando os votos dos hojes desiludidos e/ou irados. De alguns deles pelo menos. De todas elas, quase certo.
E eu? Felizmente voto nos Olivais, nunca mudei morada de recenseamento. Dia de votos é ida à Fernando Pessoa, domingo calmo, almoço em casa dos pais, ida ao café, algumas caras conhecidas, se calhar até amigos no mesmo. Depois, gente do ontem na mesa de voto, até aqueles abraços entre votantes. Depois cervejinha no café, já com os velhos amigos, tudo no mesmo reprise. Jantar ainda em casa dos pais, e até a família a congregar-se.
Que pena. Estarei em Maputo. Pelo menos não terei que votar. Se caso disso.
O Site Meter, instalado há três meses e pico, e o qual dizem algo falho, marcou hoje 10 000 visitas. O contador interno Webalizer que é mais gentil (e certeiro nas palavras do patrão) dá para o mesmo período 36 000. Ontem anunciou o maior número de entradas diárias que tenha eu reparado, 730, e a maior média diária mensal, 500.
Quando em Março o Ma-schamba desmatou no weblog julgo que tinha cerca de 60 visitas diárias. A dimensão de uma aula, achava eu. Agora tende para a multidão, ainda que multidãozita comparada com os super-blogs.
É agradável, claro. Mas também quebra-cabeças. Tanta gente a chegar que eu me dou, até angustiado, a pensar "que raio vou hoje dizer a estes tipos?".
Assim a esquecer-me que isto é apenas um diário. Narcísico, claro, como qualquer blog. Mesmo os de agenda. Mesmo os anónimos.
É que hoje não tenho nada a dizer. Nada sobre Moçambique, nenhuma crónica. Nada sobre a exploração de África, nenhuma crítica ideológica. Nada sobre o meu país, nenhuma ideia sobre santana, lisboa, a alma penada e ameaçadora de guterres.
É um diário. Ontem não vi nada, não li nada, fui beber um café com amigos, comprei uns livritos porque o Horácio me arrastou até lá. A miúda está com prisão de ventre - e isso é o mais importante. Na escola a educadora dela mudou. Há-de habituar-se à nova, mas é uma pena, adorava a Margaret.
Faço 40 anos na sexta. Devo estar em crise, senão sou insensível. A Inês diz que sim, estou insuportável. Eu não me acho pior do que o habitual, o que não a contradiz. A mulher do Mário diz que aquando dele andou impossível, "sem paciência para ele próprio". Reconheço-me, mas não só agora.
Se faço 40 devia fazer um rescaldo. Mas não me apetece, não tenho de quê. De manhã fui levar a miúda à escola, agora fui buscá-la. Daqui a bocado mecânico, mudar amortecedores no carro da Inês. Tenho que ir à Matola.
Se faço 40 devia reflectir. Sobre a sua importância. Ou não. Uma abordagem à abstracção do calendário. [ainda ontem, e por causa de uns problemas alheios, "Moraes, que idade tem o seu filho? Hum...18, 19, mais ou menos" para logo depois "Luísa, que idade tem o seu irmão? 32, parece"]. Devia abordar esta mania, dita matriz, que nos faz pensar a vida como um caminho, balizado por números (a pedirem rescaldos, ou melhor balancetes). Um caminho que é um projecto. Como se fosse isso natural. Mas não é, nem natural, nem projecto, nem caminho. Temos que comprar roupa para a Carolina, cresce rápido, as meias estão esgaçadas (é assim que se diz?). O Tomané vai-se (outra vez) embora de vez, quem é que convidamos para jantar junto? Onde se compram ameixas secas para a miúda, dizem que são boas para a prisão de ventre?
Se faço 40 devo perguntar ou afirmar "se tem valido a pena". Rijo, "só lamento o que não fiz, etc". Mas tenho que arranjar uma casa em Inhambane, uns diazitos na próxima semana, a ver se sim. E ir a Neilspruit buscar umas mobílias encomendadas, quem é que vai emprestar um camião? E falta tempo para tudo isso, uma chatice.
"O que é que eu vou dizer a estes tipos?".
"On the pretext that Sudan was making anti-American bombs (and some people felt to correct the negative image created by the Monica Lewinsky scandal, to look decisive and presidential, even if meant risking lives and flattening foreign real estate), President Clinton ordered air strikes against the Sudan. He succeeded in destroying a pharmaceutical factory outside of Khartoum in August 1998. This bomb crater would be on my itinerary, for after the bombs were dropped no one in the United States took much interest. Though we become hysterical at the thought that someone might bomb us, bombs that we explode elsewhere, in little countries far away, are just theater, of little consequence, another public performance of our White House, the event factory."
Não!

Paul Theroux, Dark Star Safari. Overland from Cairo to Cape Town, Penguin Books, 2003, pp. 12-13
Enfim, a ganhar crédito neste a posteriori. Por muito que custe a quem o costuma menosprezar.
+
até porque
[não há nada melhor do que um post-insónia para aclarar ideias]
Tem Xicuembo [espírito, deus] o Carlos Gil. Aqui, porventura com ajuda transcendental, a resolver o problema político nacional. A fundação que espere.
Neste Ma-schamba escrevo demais sobre política portuguesa, não era nada disto que eu pretendia quando desmatei. Talvez desvio profissional, antropólogo mais virado à política (local). Talvez porque emigrante espantado ao de longe.
Volta e meia prometo a mim mesmo inflectir e escrevo-o aqui, para que as visitas me cobrem em forma de um "cala-te, pá!". Ainda há pouco mo prometi de novo, um último post sobre política, a propósito de uma troca de galhardetes com o socialista, mas simpático, LNT do Tugir.
O que me faz regressar não é a moral, uma mera irritação contra essa partidocracia tendencialmente cleptocrática. Pois acredito que a corrupção política e social pode servir (ou pelo menos coexistir) com processos de desenvolvimento, até extraordinários: os casos pós II Guerra Mundial do Japão e da Itália serão canónicos.
O que me produz estas jeremiadas é a evidência de que aí a representação política se tornou apropriação: apropriação de recursos económicos e de recursos políticos. Botei-o aqui há bem pouco, a propósito da aprovação da constituição europeia. Mas irrita-me sobremaneira o facto dessa cleptocracia ser incompetente.
Esta apropriação dos recursos políticos, este "esquecimento" de ser o poder político uma representação serve de mecanismo de acumulação. E de reprodução. E isso é tão evidente que o marxismo espontâneo dos jornalistas ignorantes crismou acriticamente os políticos de "classe política" (o que passou para o discurso vulgar). Os escribas não retiram a conclusão das patacoadas que escrevem, mas não há dúvida, se assumirmos o discurso marxista, em Portugal os políticos tendem a ser uma "classe". O que é ilegitimador.
Reprodução de uma camada política que não produz o desenvolvimento possível em Portugal. [para quem vê Portugal "por um canudo televisivo" é interessante reparar que, na política, o conceito "modelo de desenvolvimento" surge recorrentemente apenas na linguagem de Carvalho da Silva - o que sendo aqui um elogio ao nº 1 da CGTP é também um drama para o país, que assim não se pensa sistemática e constantemente].
Reprodução de uma camada política que não é o suficientemente capaz. E aqui discordo do Aviz: "Convém perceber que há uma diferença essencial entre “governar” e “gerir”. Gerir com bom-senso, qualquer burocrata, contabilista ou jovem diplomado pode fazer, com maior ou menor competência.". Pois acho que nem esse mínimo exigível, essa gestão de bom-senso, é assumida, realizada. Pois o bom-senso é bem escasso. E alimenta-se das implicações dos actos e dos constrangimentos da representação política. Nem isso é cumprido.
[como mero exemplo desta ausência de bom senso narro, de memória e sem documentos para o ilustrar, um episódio de há anos: o primeiro secretário de Estado da Indústria guterrista exarou um despacho que, para ser cumprido, exigiria a nacionalização da empresa a que se destinava. Foi demitido? Foi para um curso de formação? Nada, continuou, jovenzinho rosita, nos seus 28 aninhos de imbecilidade a andar para a frente]
Este deficit de representação não só coincide como também implica um deficit de competência. O país está melhor, muito melhor do que há décadas. O discurso miserabilista é intelectualmente miserável e factualmente falso. Mas podia estar muito melhor. E é isso que dói.
Esta presumível mudança de primeiro-ministro é sinal absoluto dessa ausência de consciência do que é, na essência, a representação política. Um contrato, um contrato a cumprir de boa-fé. Rompida a boa-fé torna-se ilegítimo esse contrato. Ora não há boa-fé quando a política se torna mecanismo de apropriação privada de recursos públicos e de recursos sociais. E o mesmo quando se torna apropriação partidária desses mesmos recursos. [o que é óbvio com todas as trafulhices de financiamentos partidários via câmaras e concomitantes "impedimentos" judiciários]
Esta violação da representação política, da boa-fé presente no contrato explicita
Uma ruptura em que os representantes não se revêem nos representados. E não vice-versa.. Estes são traços do sistema político, não do partido A ou B. É o modus vivendi.
Neste contexto os socialistas vão surgir contestando a substituição anunciada. Que é legal, constitucional. A mim surpreende-me. Pela sua radical hipocrisia. Ora a hipocrisia mina, nega, a boa-fé que é o âmago do contrato político entre representantes e representados.
Escrevi, a propósito do que acho ser um escândalo anticonstitucional, o dos
constrangimentos à liberdade de voto dos deputados, uma ilegalidade que deveria levar a tribunal todos os lideres parlamentares dos últimos anos: Estranho essas vontades, pois parece-me que são nessas votações que se levantam questões centrais quanto à adesão a determinados valores: concepções de vida, de vida em sociedade, de limites fundamentais da acção do Estado, etc. (mas poucos etcs.). Ora é nessas questões que se pressuporia que houvesse uma radical homogeneidade intra-partidária. Ou seja, que os partidos fossem constituídos por pessoas que partilham um pequeno mas fundamental quadro de valores que as unisse para lá das normais (e salutares) distinções nas perspectivas do exercício político corrente.
Acredito que isto seja pacífico. Se não o é então o que serão e para que servirão os partidos políticos?
Ora António Guterres, então incontestado lider do PS, disse há 3/4 anos uma frase lapidar, letal. Acossado pela degenerescência do seu exercício político informou-nos que para ele, Primeiro-Ministro, "a ética da República é a lei". Ora esta ideia, este valor, é de uma profundidade imensa, tem que ser integrada no "pequeno mas fundamental quadro de valores" que unem os membros de um partido, na forma como conceptualizam a acção política, como conceptualizam a própria sociedade.
Então nenhum [negrito, sublinhado, maísculas, repetido, gritado: nenhum] socialista contestou essa perspectiva. Esse valor tornado âncora do exercício político.
Esta mudança de primeiro-ministro, se assim acontecer, mina a credibilidade, mina a legitimidade da representação política. Mas é legal. Os socialistas não têm qualquer argumento para a contestar. É legal. Donde para os socialistas esta mudança é ética. Estão prisioneiros dos valores que afirmaram em uníssono.
Se a negarem, se a contestarem, demonstram radicalmente que mentiram e calaram, desavergonhadamente, quando no poder. Ou que estão agora a mentir, desavergonhadamente.
Melhor, demonstram que a cleptocracia partidária ultrapassa partidos. E que argumenta apenas ao correr dos ventos. Sem princípios. Sem honra. Sem legitimidade.
E que estamos, politicamente, num beco! Estaremos?
(insónia dominical, para além de pruridos formais)
Quem não está em Lisboa (ou perto das Amoreiras) vá aqui sorrir este sorriso. Obrigado Povo de Bahá
Grande azáfama lá pela santa terrinha.
a) o sistema político português permite, com toda a legitimidade, que se mude de primeiro ministro. Os eleitores votam em partidos, segundo opção programática, elegem deputados ao orgão máximo (Assembleia de República). Esta propõe governo ao Presidente da República. Ponto final parágrafo.
b) algum esvaziamento político-ideológico, alguma inércia de cidadania e uma imensa e intensa comercialização (marketing) da política, levou a uma gradual pessoalização das eleições. Mas só ignaros e preguiçosos acham que estão a votar no candidato X. Votam, e deviam sabê-lo, num determinado partido (ou coligação).
Para quê tanto barulho? Tanto espanto, tanta virgem ofendida?
c) Quando em 1999, aos 35 anos, farto do guterrismo então ainda ascendente, votei pela primeira vez na vida no PSD achei-o por bem para o meu país e também que estava a envelhecer naturalmente (ainda que um pouco depressa): "conservador (só) aos 40" é o batido lema.
Mas apesar disso, tanto em 1999 como em 2001, e apesar de todos os socialistas, todos os queijos limiânicos, todos os cunhados de Primeiro-Ministro, todos os narcisos e gomes no governo, toda a italianização do país, nunca mas nunca teria votado no PSD se Santana Lopes fosse o seu Presidente e óbvio candidato a primeiro-ministro. É que "ele" há limites...
d) paradoxo?
e) sei que sou só um voto. Mas serei o único?
1. Dia de constituição da Frelimo (1962).

FRELIMO/KATIKA KUPIGANA NA/UKOLONI NA UBEBERU/25 SETEMBRO, offset 2 cores, Frelimo, Dar-es-Salaam 19 (AHM 80)
retirado de B. SALSTROM, A. SOPA (1988), Catálogo dos Cartazes de Moçambique, AHM
2. Independência antecedida da viagem de Samora Machel "De Norte a Sul de Moçambique" - a célebre viagem "do Rovuma ao Maputo"

retirado de A. SOPA (coord.) (2001), Samora. Homem do Povo, Maputo, Maguezo Editores
3. Declaração da Independência de Moçambique (1975)

25 de JUNHO DE 1975/INDEPENDÊNCIA DE MOÇAMBIQUE, offset 2 cores, José Freire, DNPP, Maputo 1975 (AHM 96)
retirado de B. SALSTROM, A. SOPA (1988), Catálogo dos Cartazes de Moçambique, AHM

Discurso no estádio da Machava, proclamando a independência de Moçambique (colecção Telecine)
retirado de A. SOPA (coord.) (2001), Samora. Homem do Povo, Maputo, Maguezo Editores

A mudança de bandeiras: "Independência de Moçambique" de Dino Jehá
retirado de F. RIBEIRO (coord.) (2003), Exposição Moçambique: Vida e História em Psikhelekedana
"...Estou a falar dessa coisa do futebol. Do Euro 2004.
Embora eu não seja apreciador de futebol, como sabes, também não tenho nada contra quem gosta de jogar ou assistir. E, portanto, acho perfeitamente natural que muitos moçambicanos estejam entusiasmados a ver os jogos na televisão.
O que já acho menos agradável é notar que grande parte dos moçambicanos parece ter feito sua a equipa de Portugal. E não é por ter alguma coisa contra esse país. Muito pelo contrário é um país de que gosto. Só que esta adesão generalizada dos moçambicanos no apoio à equipa portuguesa me parece um cortão umbilical mal cortado. Ou, talvez, cortado e voltado a amarrar...."
Machado da Graça,
Correio da Manhã, nº 1855, 24.06.04
Comentar criticando este trecho, com o qual discordo não palavra por palavra, não letra por letra, sim de haste de letra a traço de letra, exige mais do que eu posso dar a um blog. Exigiria um livro talvez, se quisesse ser comentário mesmo.
Assim só para o café a tomar deixo-te, Machado (como é bom variar, referir alguém sem ter que fazer a "ligação" informática), duas pequenas ideias:
- que no processo da construção de uma "moçambicanidade" o jogo de identidades/alteridades já não se depara com o polo antagónico "Portugal" como norteador.
Épocas...crescimento...história...nacionalismo...pós-colonialismo...(outros)neo-colonialismos. [repito-me: tanta coisa para dizer]
- que será interessante ires ler na biografia do Mário Coluna o episódio em que ele foi interrogado pela PIDE: vê as causas e interroga o argumento d'hoje.
Abraço, até ao tal café.
para Joanesburgo o Valdir Peres. Cabisbaixo. Um dia ainda alguém me há-de agradecer tudo o que tenho feito.
Agora estou concentrado no grupo de apuramento para o Mundial-06 na Alemanha. Uns dias de paragem e iniciarei os contactos.
Quanto a este torneio já foi preocupação. Trabalhou-se bem. E está feito.
Parabéns a todos. É bom sermos campeões.
Já o disse, Valdir Peres visitou-me. E, decerto que agradado com mesa e conversa, ficou. Está aí no quarto dos hóspedes. Educado aceitei a estadia. Prometeu (avisou, melhor dizendo) que partirá amanhã. Rumo a Joanesburgo.
Quando ele se ausenta, pouco tempo que estou de cicerone, fico no futebol. Resmungando-lhe o patrício Scolari. Sobre este tudo está dito. Não acompanhou os jogos nem os treinos - Mourinho foi implacável no seu uso da verdade. O Scolari ridículo ao dizer que não conhecia os jogadores. O homem foi relapso ao trabalho. Foi preconceituoso, ainda que o pobre uso da língua por parte dos jornalistas o diga "teimoso".
Sobre ele tudo está sistematizado n'A Praia onde se conclui, certeiramente "É pois Scolari o cretino fundamental. Oxalá o seu papel nos próximos jogos seja o de contar sempre cada vez menos".
De todos os preconceitos preguiçosos de Scolari o público se apercebeu. E contra eles se rebelou. Agora, até já brilhando pelas vitórias e pela mediocridade dos meros assessores de imagem em que se transformaram a maioria dos jornalistas desportivos, Scolari tem a equipa que o povo exigiu. Ainda não joga exactamente como o povo quer (como bem diz Mourinho). Mas mais um joguinho ou dois e vai lá.
O único recuo que o homem não faz é o impossível. Baía não está (bem, Meira também devia estar, mas isso só virá à baila em caso de duplo impedimento de centrais, vade retro). Porque o caso deles são exactamente iguais: sobre Baía e sobre os outros jogadores quem tinha razão éramos todos nós, não o seleccionador, arrotando a sua arrogante prebenda.
Imune à preguiça de Scolari, Valdir Peres continua por cá. A comer-me o caranguejo e o camarão, sorrindo, mais para o calado. A ver se se vai embora amanhã. Cabisbaixo.
Mas até agora as pedras nada dizem.
1. O Lutz saíu-se com um gesto "à antiga". Panache, dizia-se. Tiro o chapéu e junto vénia.
2. Já aqui o referi no texto fundamentalismos, mas eis que volta. No Mar Salgado regressam à exigência do comparativismo entre grupos terroristas e a política estatal americana. Julgam ser argumento pró-americano, pró-democracia. Não conseguem compreender (o plural não é desvalorizador por impessoal, refiro textos de diferentes autores) a autofagia da argumentação. Já o referi, é exactamente pela nossa proximidade política, valorativa e ideológica com os EUA (porventura não tanto com a administração actual, mas isso é conjuntural) que os desmandos não podem ser comparáveis com actos de grupos terroristas.
3. Um extremo agradecimento à My Moleskine pelo delicioso Ovídio matinal.
4. O Companhia de Moçambique está em período activissimo. Obrigatório, e não só para quem se interessa por "África". Pois aquele blog é (também) sobre Portugal (colonial).
Gosto muito do Causa Nossa. Inteligente, elegante, oposicionista (por enquanto, nesta última característica). Só qualidades, mesmo que se discorde aqui e ali. Tive até o prazer de integrarem nele dois ou três comentários que lhes enviei via mail, para mim uma elevação.
Ontem Luís Filipe Borges colocou o Ó tempo volta para trás lamentando o desaparecimento da empatia e solidariedade intra-bloguística, assassinadas, ironiza ele, pela introdução dos contadores de visitas (logo uma hora após os blogs). A maldita concorrência, sempre inimiga da harmonia, lá está o paradigma.
Talvez, estou longe e cheguei depois. Não conheci essa Idade (Hora) de Ouro.
Mas ainda noto alguns tiques bloguísticos dessa "comunidade perdida" que LFB lembra. Não só a entreajuda - os malditos sistemas (só cá estou porque o LE interrompeu o seu garimpar poético para me ajudar a desmatar a terra), as referências, os comentários, as ligações, sei lá. Ainda que tudo isso a indique, uma articulação de gente desconhecida em actividade gratuita (grátis e inutilitária).
Falo de traços verbais que denotam igualitarismo entre bloguistas. Visível nas formas de nomeação, de denominação, de tratamento. Notável, no português de Portugal, inchado de títulos e hierarquias explícitas e implícitas.
A maioria dos interlocutores trata-se por "tu", mesmo desconhecendo-se (o que ainda é mais explícito nos "comentários"). Para além da idade (quantas vezes só presumida) ou do sexo. Ou então, mais raro, por um "você" indizível mas com o nome próprio a aproximá-lo (em que outro sítio é que alguém me chamaria "José"?).
As pessoas são conhecidas pelo nome próprio (ou alcunha assumida, o que é denota ainda maior proximidade: em que outras condições é que eu trataria o, obviamente insigne, Dr. ... por "grande besugo"?). E são assim nomeadas (p.ex acabei de falar no LE, numa entrada mesmo anterior no Lutz: nada de apelidos). Quando há maior distância, vá lá, transige-se e junta-se-lhe o apelido, num ó Carlos Gil.
O tratamento é pessoalizado ao extremo. Os habituais "o meu amigo", "o meu querido", etc. surgem com frequência associados a algo como "apesar de não nos conhecermos pessoalmente".
Mas também se pessoaliza a outro nível. Pela utilização do artigo definido. Todos escrevemos "agradeço ao Francisco José Viegas...". Mas se em jornal, rádio, tv, etc os mesmos diremos "agradeço a Francisco José Viegas...". Faltando o artigo, impessoalizámos.
O "tu" (ou o “V”. muito próximo, igualitário), o "nome próprio", o "o/a". Também com isto se constrói uma comunidade, um "estamos a falar" entre iguais, sem hierarquias. Comunidade construída, como todas. Construída porque feita e porque exagerada, ficcionada. Com rivalidades e concorrências (as tais do site meter, como sorri saudoso LFB, e outras) como qualquer outra. Que isso da Hora de Ouro parece concurso da RTP-África.
E é a construir tal ficção de comunidade que eu falo com o Luís, com a Margarida [aqui com o V. da diferença de sexos, coisas da nossa idade], com o Alex, com o Isidoro (no V. porque nunca comemos juntos e ele é mais velho, decide). E com todos os outros. Todos "queridos amigos", "blogoamigos" que desconheço (só conheço nove bloguistas, de outras andanças).
Mas neste moldar de proximidades há excepções. Nunca li ninguém referir-se ao José. Nem ao José. Nem ao Vital
Porque não? Por estatuto. Pois se todos chegam com algum estatuto distintivo [excepto os anónimos, claro] só a alguns é aceite viver in-blog de acordo com esse lugar prévio. E, por isso, são tratados de modo diferente. Em outros, pelo contrário, esse lastro estatutário é "esquecido" pelos interlocutores: atrever-me-ia eu, noutro contexto, a invocar publicamente o Velho, ainda que ele o saiba sinal de admiração bloguística?
Deste modo a minoria a quem é atribuído o seu estatuto anterior (pré-blog) é tratada de modo diferente. Um respeito verbalmente explicitado. Claro que eles são da tal "comunidade" de blogs (e Pacheco Pereira fê-la explodir). Mas não são da tal "comunidade" de blogs, daquela que LFB lamenta o fim. O que não lhes é devido, à sua prática. Mas sim devido a todos nós, outros, porque os tratamos de modo diferente. Todos nós assumimos, de imediato, uma "estratégia de distinção" diante desses alguns. Educação, bons modos, respeito, claro. Mas assumpção de hierarquias, claro. Estratégia de distinção que nos habita.
Porquê este arrazoado? LFB lamenta a concorrência (o mercado) como factor de dissolução de uma era de comunhão. Eu discordo. Entendo "comunidade" uma outra coisa, bem menos ídilica (ai as utopias terroristas). E veja a sua hipotética dissolução com outras causas (ai os paradigmas).
Olho para o Causa Nossa e leio, logo a seguir a LFB um texto de Vicente Jorge Silva (lá está: nome completo e sem artigo): "Apesar da modéstia dos nossos propósitos, a festa do Causa Nossa, ontem à noite, assumiu a dimensão de verdadeiro acontecimento histórico: pela primeira vez, os bloguistas portugueses aceitaram descer do olimpo blogosférico e conviver uns com os outros".
Ora até eu aqui em Maputo sei que já houve uma série de encontros, almoços, reuniões de bloguistas. Vicente Jorge Silva não sabe isso, é normal, terá imenso que fazer na vida, e está a escrever com prazer sobre o encontro que co-organizou. Não vem mal ao mundo com este escrito, nem grande nem pequeno. Nem há ponta de acinte ou ironia no que aqui escrevo. Pego-lhe porque indicativo. Explicativo.
Pois acredito que se fosse o Vicente a escrever não lhe brotaria a ideia de que a sua festa tivesse sido início de algo, causa primeira de coisa primeira. Que se os bloguistas o chamassem, se lhe referissem, em cúmulo de respeito como entre nós, como o Vicente essa compreensão do fazer parte e de não ser motor seria mais fácil, mais imediata. Em suma, se assumissemos também para estes pesos-pesados out-blog o tratamento integrativo, menos a-comunitário seria o seu raciocínio. E a sua ironia (vide LFB).
Onde quero chegar? A que não é a concorrência que disturba a tal comunidade ironizada/imaginada pelo Luís Filipe. São os estatutos (legítimos, porque provenientes da meritocracia. Ainda que esta seja mera ideologia, como sabemos). As ordens. Digamo-las pré-modernas. Não como o mercado (dos site meter). Onde, mesmo que não liberais, nos tratamos pelo primeiro nome. E por tu, ou por um V. igualitário. E onde não somos demiurgos. Porque não temos estatuto para isso. Mas temos consciência disso. De ser apenas homens/mulheres, a estrategizar em comunidade, cheia de concorrências esta. E onde nada começamos, porque não Enormes.
Excelente entrevista de João Nuno Coelho na última Pública. [abaixo transcrita] Mais do que aconselhável leitura. Da futebolização do país Portugal (e do Ma-schamba??). Não resumo, acho que vale a pena ler tudo.
Apenas dois retoques. Ainda que não criticas, pois estamos diante de uma mera entrevista, não é decerto um discurso acabado (se é que os há). Diz JN Coelho:
"O futebol propicia a criação da tal unidade nacional, que é a pedra de toque do nacionalismo, fazendo-nos crer que somos todos iguais, todos portugueses e todos juntos. E esse é o grande perigo, porque esse discurso de unidade facilmente faz esquecer as tais diferenças que são salutares. E porque o futebol faz a tal representação da nação como interesse supremo é que muitas vezes o discurso reproduzido pelos jornalistas e também pelos políticos coloca o interesse da selecção acima de todos os outros interesses, dizendo, em termos simbólicos, que o que interessa é a nação. Aliás, se há ideologia bem sucedida é o nacionalismo, que é apresentado como mais importante do que a própria vida."
a. mas todas as sociedades produzem rituais e/ou festividades, mais ou menos cíclicas, onde se propaga momentaneamente essa igualdade, essa comunhão (muitas vezes até invertendo hierarquias), se sedimenta uma pertença conjunta, esse interesse superior. E esses momentos existirão também porque no quotidiano a comunhão, a igualdade não são totalmente assumidos. Não há aqui particularismo. Portanto, onde está o perigo? Pelo menos, onde está o perigo particular?
b. o discurso dominante é o do reduzido nacionalismo português. Aliás muitas vezes associado à decadência do país, o constante "decadentismo". Ora por um lado encontramos um país que se auto-considera pouco nacionalista (ou que o diz, o que será algo diferente). Ou pelo menos que pouco pratica o nacionalismo, nesta época europeísta. Por outro temos um país radicalmente futebolizado.
Então como manter a equação que o trecho citado afirma?
Gostava de encontrar o homem. Seja ele pouco académico e dará para uma boa conversa.
A Excessiva Importância Social e Política Que Damos ao Futebol É Ditatorial e Asfixiante
Por JOÃO NUNO COELHO
Domingo, 20 de Junho de 2004
Natália Faria Fernando Veludo
Começou por fazer parte da alta burguesia ligada aos ingleses. Depressa se alargou a todas as classes sociais e Salazar não tardou em usá-lo como instrumento legitimador. Hoje, a sociedade portuguesa está totalmente futebolizada, espelhando um país litoralizado e imobilista. O sociólogo João Nuno Coelho diz que há uma total futebolização da sociedade portuguesa e havemos de pagar um preço depois do Euro 2004.
P. Em que momento é que, em Portugal, o futebol deixou de ser um fenómeno de elites para se democratizar e tornar num espectáculo de massas?
Nos anos 1920 e 1930. O primeiro jogo de futebol envolvendo portugueses foi em 1888, promovido pela aristocracia e alta burguesia de Lisboa, que tinham contactos com os ingleses ou alguns filhos a estudar em Inglaterra, e que trouxeram bolas e começaram, no fundo, a convidar os seus pares para jogar futebol. Até ao final do século XIX, é essa a realidade: um desporto praticado de forma desinteressada, sem estruturas, sem clubes, apenas brincadeira de amigos.
P. Mas expande-se rapidamente a toda a sociedade.
Curiosamente, o futebol teve alguma dificuldade de inserção por causa do Ultimato inglês, que levou a que se considerasse mau tudo o que estivesse conotado com os ingleses. O futebol era, aliás, chamado o "jogo do coice" dos ingleses. Só no início do século XX é que surge o primeiro clube de base claramente popular, quando diversos casapianos se juntam para criar o Sport Lisboa e Benfica (na altura Sport Lisboa de Belém). O Sporting e o Porto, que nasceram também nessa altura, foram criados por pessoas de condição social superior e ainda com muitas ligações aos ingleses.
P. O futebol português não ajudou também a alcandorar à condição de heróis indivíduos de classes baixas?
A popularidade do futebol está muito ligada ao associativismo e às identidades locais. Por volta de 1910, o futebol começa a representar o local em competição com outros locais, proporcionando a sensação de pertença, de fazer parte de algo. É a partir do momento em que se tornam legítimos representantes do local (da nossa cidade do nosso país...) que os jogadores são elevados à condição de heróis. Aquilo que eles dão, no fundo, é a validação da nossa identidade.
P. Essa equiparação dos de condição baixa à condição de heróis não baralhava a lógica salazarista, que promovia a conformação social, o viver pobre e alegremente?
Sim, mas até 1960 não havia profissionalismo no futebol em Portugal. Ninguém podia dizer que havia jogadores profissionais a ganhar imenso dinheiro. Não era legal nem assumido. Ou seja, essa ideia do herói não era correspondida por pagamentos e por capital económico. Por outro lado, Salazar não permitiu que vários jogadores fossem para o estrangeiro. O Eusébio podia ter ido jogar para o estrangeiro ganhar imenso dinheiro nos anos 60, mas foi proibida a sua saída, porque era um símbolo nacional.
P. E daí passa-se para o aproveitamento do futebol enquanto instrumento de afirmação do orgulho pátrio?
Apesar de não gostar nada de futebol, Salazar teve a noção de que ele podia ajudar a manipular os processos identitários. O Benfica (não por culpa sua mas pelo facto de ganhar) tornou-se muito apelativo em termos de discurso identitário. Mas Salazar serviu-se muito do futebol sobretudo na questão da multirracialidade do Império, aproveitando o facto de haver muitos jogadores oriundos das ex-colónias.
P. Isso era usado para legitimar a presença portuguesa nas colónias?
Completamente. Numa altura em que havia enorme pressão internacional no sentido do reconhecimento da independência das colónias, o futebol apresentava essa presença de forma positiva, dando a entender que existia respeito pelos colonizados e uma grande multirracialidade, o que não era verdade.
P. Como é que o futebol, na altura como agora, reproduz a ideia de nação?
O futebol propicia a criação da tal unidade nacional, que é a pedra de toque do nacionalismo, fazendo-nos crer que somos todos iguais, todos portugueses e todos juntos. E esse é o grande perigo, porque esse discurso de unidade facilmente faz esquecer as tais diferenças que são salutares. E porque o futebol faz a tal representação da nação como interesse supremo é que muitas vezes o discurso reproduzido pelos jornalistas e também pelos políticos coloca o interesse da selecção acima de todos os outros interesses, dizendo, em termos simbólicos, que o que interessa é a nação. Aliás, se há ideologia bem sucedida é o nacionalismo, que é apresentado como mais importante do que a própria vida.
P. Que consequências é que isso pode ter no viver colectivo?
O caso português é muito interessante porque faz parte de um conjunto de países em que a identidade nacional está muito ligada ao futebol. E isso decorre, como dizia o [sociólogo] Boaventura Sousa Santos, do défice de produção de cultura e de identidade nacional, na escola e a vários níveis, por parte do Estado português.
P. Que se serve do futebol como muleta para colmatar essa falha?
Sim. E chegamos a esse ponto simbólico que é o Euro 2004, que traduz uma grande e quase patética imaginação do centro: estamos nós a tentar fazer parte do centro. E depois vemos os políticos, que detêm as responsabilidades, a falarem permanentemente da sua importância na auto-estima dos portugueses. É algo que a mim me choca profundamente. Sou um grande apaixonado por futebol, mas acho muito grave ver a auto-estima dos portugueses dependente de um evento futebolístico.
P. Até porque o futebol é um jogo todo ele dominado pela arbitrariedade: a sorte e o azar...
... E por uma bola de futebol que bate num poste e pelo mau momento de um jogador. Estamos a atravessar um momento de total futebolização da sociedade portuguesa. E havemos de pagar um preço, nomeadamente depois do Euro 2004, por esta excessiva importância social e política do futebol, que é ditatorial e asfixiante. Não faz sentido que o futebol profissional, que tem supostamente tantas potencialidades económicas, seja apoiado pelo poder político. O que faz sentido é apoiar o futebol amador.
P. Haverá aqui uma inversão da lógica inicial? A nação usava o futebol para se legitimar e agora é o futebol que se impõe à política.
Na medida em que os políticos esperam que o apoio aos clubes se traduza em votos no dia das eleições. E isso também se passa devido à tal simplicidade do futebol que permite que a maior parte das pessoas o compreenda e se sinta capaz de discutir e de manejar os conceitos. Note que a maior parte das esferas mediatizadas surge como complexas e difíceis de interpretar pelas pessoas, enquanto o futebol é muito simples e por isso é que há tantos treinadores de bancada: as pessoas sentem que controlam esses factores. Para os políticos, a colagem ao futebol é também uma maneira de se tornarem compreendidos.
P. O que é que o futebol português, dentro e fora do campo, diz daquilo que somos?
Por um lado, vemos uma concentração do poder à volta de três clubes. E o facto de os três grandes terem ganho 97 por cento dos títulos diz muito acerca de uma sociedade conservadora e imobilista. E mesmo o Belenenses e o Boavista são clubes das grandes cidades (Lisboa e Porto, respectivamente), o que traduz uma litoralização, uma desigualdade brutal em termos territoriais e sociais.
Depois: como é que um fenómeno social que consegue fazer parar o país várias vezes ao ano e abre telejornais e bate recordes de audiência e tem capacidade para vender mais de 300 mil diários desportivos por dia não consegue ter nos estádios mais de uma média de cinco mil espectadores por jogo? O que é que isso diz acerca do processo de mediatização brutal na sociedade portuguesa? O que é que isso diz acerca da participação dos portugueses nas coisas ou da sua acomodação? Acho que diz muito.
P. Então o que é que se está a jogar verdadeiramente no Euro 2004?
O que se devia estar a jogar era um Campeonato da Europa de Futebol, que é realmente uma festa fantástica. O que me parece é que, ao mesmo tempo, se está a jogar essas representações de pequenez e de grandeza, de decadência, de fazer parte do centro...
P. O investimento de dinheiros públicos no evento está à espera de ser justificado com uma vitória portuguesa?
Sem dúvida.
P. O que é que acontece num cenário de derrota?
Há aqui duas coisas diferentes: organização do campeonato e aspecto desportivo. É mais aceitável que corra mal em termos desportivos - embora me preocupe a forma como foi concebida a ideia de que a auto-estima dos portugueses poderá ficar muito melhorada com uma vitória - do que na própria organização do evento. Se a organização falhar, se houver problemas de segurança, então sim, será grave. De resto, não faz sentido que Portugal, com as suas lacunas em termos económicos, organize um campeonato desta dimensão. Os outros países que organizaram campeonatos europeus são centrais: a França, Alemanha, Inglaterra... A Holanda e a Bélgica optaram por organizar juntas o campeonato.
P. A Inglaterra, por exemplo, tem diários desportivos?
Não. Tem imensas revistas e semanários de desporto, mas, em termos de diários, há jornais generalistas com secções de desporto.
P. E como explica o facto de em Portugal haver três diários desportivos?
Talvez porque o futebol cumpre funções muito mais vastas do que seria desejável e racional. Isso decorre também da tal incapacidade de o Estado promover políticas de cultura, de desporto que não só o futebol, de educação. É um factor do nosso subdesenvolvimento.
P. Pode-se dizer que o futebol tem um efeito terapêutico na vida das pessoas?
Não sei se é terapêutico, é com certeza factor de excitação numa sociedade cada vez mais inexcitante, em que as emoções são cada vez mais controladas. Há todo um processo civilizacional que leva ao controlo dos comportamentos e a uma redução cada vez maior dos espaços de transgressão. Nessa medida, o futebol permite um descontrolo controlado das emoções. Mas tenho um cuidado brutal em não me deixar apanhar pelo discurso legitimador, porque o futebol não pode ser tudo na vida, tem que haver outras formas de êxtase.
P. E tem os ingredientes de que se compõe a vida: a arbitrariedade, a sorte e o azar, a meritocracia.
Porque funciona como uma condensação simbólica das sociedades é que o futebol tem tanta popularidade. E tem, além dos factores que referiu, um elemento neutro, o árbitro, que nos permite justificar as derrotas. Se não houvesse esse bode expiatório, seria terrífico, insuportável para algumas pessoas. Aquele senhor que está ali permite que a derrota nunca seja total.
PERFIL
O adepto racional
João Nuno Coelho, 34 anos, foi pioneiro na eleição do futebol como objecto de estudo em Portugal. Sociólogo desde 1993, soube fintar os narizes torcidos da academia e hoje tem três livros publicados sobre a matéria. O primeiro, "Portugal, a Equipa de Todos Nós - Nacionalismo, Futebol e Media", saiu em 2001 e valeu-lhe o prémio do Centro de Estudos Sociais para Jovens Cientistas Sociais de Língua Portuguesa. No ano seguinte, arrisca uma história do futebol português no livro "A Paixão do Povo", em parceria com Francisco Pinheiro. A mesma dupla regressou, no início deste mês, às livrarias, com a publicação de "A Nossa Selecção em 50 Jogos".
Comum às diferentes publicações é um discurso desempoeirado e uma recusa de olhar o futebol enquanto fenómeno limitado ao relvado. Se calhar porque o seu conhecimento sobre o objecto de estudo vai muito para além da mera perspectiva teórica: além de frequentador assíduo dos estádios, João Nuno Coelho é treinador numa escola para miúdos até aos 10 anos de idade. Afinal, como dizia Ernest Hemingway, só quem vive as coisas pode aspirar a compreendê-las e essa é uma máxima que o sociólogo segue religiosamente. Ou não considerasse ele que as investigações académicas só fazem sentido quando partem de inquietações. No seu caso, a inquietação advém da época em que, ainda miúdo, acompanhava os passos do pai até ao Estádio das Antas. Dez anos de estudo, garante, permitiram-lhe racionalizar a sua condição de adepto. A paixão pelo FC Porto, essa, mantém-se intocável.
Destaques:
A identidade nacional está ligada ao futebol devido ao défice de produção de cultura e de educação por parte do Estado
O Euro 2004 traduz uma grande e quase patética imaginação do centro: estamos nós a tentar fazer parte do centro.
não estrutura o futuro, não ensina o passado, não desvenda o presente. Mas a este alegra-o (ou entristece-o).
Daí o prazer que retiro de uma derrota alemã. Sempre. Porque lhes entristece um bocado o presente. Ou muito.
Preconceito meu? Sim, claro. Mas não só. Reacção à arrogância, à superioridade que do alemão desponta. Não lhes é universal? Claro que não. Mas (muito) recorrente. De uma superioridade racional. De uma superioridade de princípios. Talvez não moral, pois o longo século XX alemão não lhes permitirá a reclamação de uma superioridade moral. Mas de superioridade de princípios activos.
Estou no futebol, apenas. Nesse imperfeito espelho das coisas.
O jogador alemão de que mais me lembro é Karl Heinz Rumenigge. O avançado que no Mundial de 1982 dizia aos jornalistas que todas as mães alemãs gostariam de ter um filho como ele: alto, louro, olhos azuis. A FIFA mandou-o para casa, para pensar nos ecos da filhadaputice que tinha dito? Não, nada disso. Foi até à final. (Hoje, com toda a luta contra o racismo no desporto, talvez tivesse sido diferente).
O jogo alemão de que mais me lembro é um Alemanha-Portugal (6.9.97). Apuramento para o Mundial de França, se Portugal ganhasse eliminaria a Alemanha, com todos os prejuízos para a organização que se podiam prever. Este foi o jogo em que Rui Costa foi expulso quando ia ser substituído, Portugal ganhava 1-0. O homem ia saindo algo lento mas nada demais. Nunca tinha visto nada semelhante, nunca mais vi nada assim. O árbitro era (claro) francês: Marc Batta. Ali a corporização explícita do eixo euro-estruturante Berlim-Vichy, perdão, Bona-Paris.
Depois dessa infame roubalheira Batta viria nesse ano a apitar a final da Taça Uefa. Condigna recompensa aos bons serviços prestados. A quem já tinha carregado os anfitriões ingleses às meias-finais do Euro-96, roubando descaradamente a Espanha. Um bom árbitro para as ocasiões, n'est-ce pas? O homem a chamar para os momentos difíceis.
O evento desportivo alemão de que mais me lembro é o da escolha do país hospedeiro do Mundial-2006. No final aparentemente a candidatura alemã estava perdida. Mas na votação supresa geral: o velhote representante da Oceânia votou contrário às instruções da sua federação, favorecendo a Alemanha, assim invertendo o resultado, possibilitando uma vitória tangencial. Logo foi ele suspenso na sua sede, mas qual o problema? Acautelado estava já o final da carreira no dirigismo, tão óbvia e escandalosa malandrice aquilo foi.
Hoje os alemães amantes de futebol estão tristes? (nem deviam, bastava um árbitro honesto no jogo com a Letónia, que marcasse as grandes penalidades contra a Alemanha, e hoje já estariam livres de ilusões). Pois ainda bem! Aleluia. Que merecem todas as tristezas. Das da bola, digo.
Mas preparemo-nos. No próximo Mundial, em casa, sob a capa daquela magnífica organização, dos princípios, do rigor, vai ser um fartar vilanagem. Vilanagem técnico-científica, não o festim amador a que estamos habituados entre a rapaziada.
Viva a Letónia. Viva a Checa. Viva a Holanda.
E viva o Becker, a avisar o mundo que não lhes entregassem os Jogos Olímpicos, que lhes viria o fundo ao de cima. E viva os beckeres que por lá ainda devem ser muitos. Esperemos! Esperemos! Roguemos.
Ainda anteontem estive em gabinete alheio em discussão política, a articular argumentos com colegas moçambicanos. Encalhei no Fernando Rosas, ali defendido como político. Não, não apenas como historiador, apesar de estarmos abrigados em corredores académicos. Abreviei, para quê?, a 11 000 kms de distância a discutir com gente tão amiga o meu ranger de dentes com estes estalinistas/trotskistas mas "livres pensadores", tão giros ao espelho vão eles.
Ficámo-nos pois, os meus amigos com o Rosas do BE e eu sem ele.
Amanhã ou depois vou levar, bem impresso, esta maravilhosa entrada do Jaquinzinhos, dedicado ao ilustre professor e activista político. Para lhes dar durante o cafezito da manhã. Mas sem discussão seguinte.
Que a minha maldade não chega a tanto.
Há meses as declarações de Luís Villas Boas, presidente da Comissão de Acompanhamento da Lei da Adopção, tiveram grande repercussão. Aqui escrevi sobre elas, primeiro criticando-as e em seguida aqui colocando um texto antigo sobre a questão da adopção por homossexuais. Tinha-o escrito em Lisboa, induzido por um artigo de Miguel Vale de Almeida publicado no Público em Junho ou Julho de 2002.
Não me quero repetir. Mas como então tinha o Ma-schamba muito menos visitas deixo curtissimo resumo. Grosso modo achei infelizes e medíocres as ideias expressas por Villas Boas. Quanto ao fundo da questão dizia (e digo) que se a reprodução é um direito individual, ainda que socialmente codificado, como impedir as pessoas de o realizarem? Quanto à reprodução assistida e à adopção já são socialmente (no sentido de institucionalmente) delimitadas e executadas. E nesses casos sou contra o direito dos casais homossexuais. E lá expliquei a minha ideia. Boa ou má. Imbecil ou clarividente. Ou média, talvez acima de tudo média.
Há uma semana o Bota Acima ecoou estar colocado numa lista de homófobos. Tive curiosidade e fui ver que coisa seria.
E lá estou. Uma organização chamada Obra Homossexual incluíu o Ma-Schamba no Index de Homófobos.
Fico-me? Apenas desprezando? Ou resmungo, até insulto? Tratando tal "obra" como outra qualquer destas "obras" coorporativas que por aí pululam? Acho que calar-me seria o cúmulo do preconceito. Esse sim homófobo. Não, não me fico, trato esta baixeza como outra qualquer.
Irrita-me gente que faz listas negras. Neste caso sem discussão nem argumentação. Num apenas "Quem não está ca'gente é inimigo". E logo vai para a lista com o cognome adequado.
Não me interessa que grupo é. O processo mental é sempre o mesmo. Terrorista. Insultável. Seja minoritário, seja maioritário.
Desprezo? Sim, claro. E radical. Mas não por serem homossexuais. Sim por serem assim.
Nota: para que não venham com reduções literais está aqui Homofobia, substantivo, é a rejeição ou aversão a quem seja homossexual ou à homossexualidade.
Sou, assumidamente, "terroristófobo".
ADENDA: Elucidativo do carácter dessa gente, e para quem não vai aos comentários, aqui reproduzo o que o Lutz do Quase em Português comenta/informa (para meu maior espanto): "O que realmente diz tudo sobre os autores deste blogue, é que o Paulo Gorjão, pelo simples facto de ter recomendado a leitura dos teus posts, também consta na lista negra!". Sem comentários.
Há que saber ganhar, bem mais difícil do que aprender a perder. Mas isso não invalida a obrigatoriedade de visitar esta maldade com que o Povo de Baha'i nos brinda.
Machado da Graça! Jornalista. Cronista. Humorista. Crítico. Cáustico. Sacana.
E editor. Tradutor. Escritor. Actor. E decerto mais algumas coisas. Assim o apresento às visitas deste Ma-schamba que não o conheçam. Pois colaborador amigo, o que muito me agrada. E o melhor ainda está para vir, como verão nas próximas semanas.
Mas claro, homem com defeitos, fragilidades. Hedonista materialista Machado é, apesar da sua sábia experiência, cego e surdo às realidades transcendentes. Aos destinos traçados pelas invocações. Que o Ma-schamba vos tem demonstrado. Que o Ma-schamba vos tem proporcionado. A que o Ma-schamba tem apelado.
É esse seu desconhecimento que o fez enviar-me este aviso, "Porque é que Portugal não vai ganhar o Europeu", chama-lhe ele, julga-o ele.
Acolho-o reconfortado. Pois os espíritos escrevem direito por linhas tortas. E estão, via Machado, a anunciar a força dos poderes xamânicos nossos aliados. A acalmar-nos, pois tudo foi tratado.
Aqui vos deixo o "Porque é que Portugal vai ganhar o Europeu", a ver por ordem claro está.



Hoje o Machado da Graça enviou-me esta crónica. Deliciosa:
O Xanana Gusmão fez anos aqui em Moçambique. 58. Nascido em 1946 (foi um bom ano para nascer. Eu próprio também o utilizei para esse efeito).
Ontem houve um encontro com ele. Moçambicanos e timorenses todos de fato e gravata (excepto eu, é claro). Ele chegou de Tshirt às riscas. Cantou-se os parabéns e ele cortou o bolo.
Mando-te foto exclusiva do momento.
Machado

Nota: bem que me podiam ter convidado.

[oferta de Machado da Graça]
E muito a propósito, agora que a IURD quer construir uma catedral na Julius Nyerere.
João Tunes do Bota Acima dedicou-me um texto, ainda que não me nomeando explicitamente. Como acho que as pancadas, mesmo que deste calibre, devem ser totalmente às claras aqui fica a ligação. Sem mais...

[Évora, Set. 97]

[Bazar, Ilha de Moçambique, Jul. 98]
(Mais uma dádiva ao Ma-schamba do Tó-Mané Botelho de Melo)
Do Nascer do Metical
António Botelho de Melo
Savana, 18.6.04
As gerações mais jovens que hoje estão aqui connosco, mais de metade das quais nasceram muito depois dos eventos abaixo referidos, pouco ou nada sabem deste projecto, inerente à construção do Edifício Nacional, que foi a introdução do Metical em Moçambique, algo extremamente delicado e sensível, como aliás foi observado quando se introduziu o Euro em partes da União Europeia há cerca de três anos, sendo que aquando da introdução do Metical, não havia praticamente qualquer aparato em termos de meios logísticos, de comunicações, e informáticos que apoiaram, neste caso, a mudança para o Euro.
Foi uma ocasião que ninguém que passou por ela esquecerá, em que se destacou uma enorme capacidade organizativa e participativa, extremamente sigilosa, gerida na altura a partir da direcção do Partido Frelimo e do Governo, por forma a que fosse reduzida ao mínimo a chance insucessos da operação.
Houve autênticas epopeias de sacrifícios consentidos pelos jovens na época e velhos de hoje, muitos deles que já não vivem. Hoje é interessante falar das várias fases ou frentes do processo que nortearam a operação do Rovuma ao Maputo e como tudo foi desencadeado noutras partes do País.
Na altura, quantas histórias não se ouviram. O impacto em toda a população, a nível nacional, foi enorme. O pânico dos que guardavam as suas poupanças nos colchões, os sacos e sacos de dinheiro para trocar e como reagiram ao processo, os constrangimentos psicológicos, a sua abordagem no processo de troca nos balcões da banca nacionalizada, tudo isso todos sentiram na pele.
Em Tete, por exemplo, a troca e a recepção de todos os Escudos e entrega de Meticais provindos das equipas constituídas, foi feita a partir da Cidade de Tete. Esta operação foi do conhecimento antecipado do Gerente da Filial de Tete. Havia apoios por forma a organizarem-se equipas a serem integradas nas brigadas distritais chefiadas maioritariamente por Directores Provinciais do BM. A coordenação da operação a nível nacional envolvia o Governo, a Administração do Banco de Moçambique, o Serviço Nacional de Segurança Popular e a Força Popular de Libertação de Moçambique.
No dia 15 de Junho 1980, um domingo, foram convocados e concentrados em locais pré-definidos todos os elementos das equipas para estudo dos documentos e impressos a serem utilizados no período da troca de moeda. Uma tipografia escolhida para a produção dos impressos foi selada com os operários lá dentro pela tropa durante dois dias, tendo os empregados que dormir no chão, as suas famílias ansiosas pelo que se passava. As restantes pessoas convocadas não tinham conhecimento prévio do que se passava e a apreensão sentia-se naturalmente. Havia tropa por todos os lados para proteger os valores em circulação e a logística. À meia-noite desse domingo, dia 15 de Junho de 1980, todos ouviram na emissão nacional da Rádio Moçambique o discurso do Presidente, Samora Machel à Nação, em que se revelou o objecto das movimentações. Samora Machel formalmente decretou o fim de circulação da moeda em Escudos e a introdução do Metical como moeda de circulação nacional.
A designação da moeda - o Metical - deriva do nome de uma moeda de troca utilizada nas transacções entre as populações em partes de Moçambique algumas centenas de anos antes (aparentemente uma pitada de ouro aluvial enfiada na parte oca de uma pena de ave).
Findo o anúncio presidencial (formalizado nas Leis 2 e 3/80) foram então dadas as instruções a todas as equipas. Durante a noite, fizeram-se os preparativos.
Seguramente, dormiu-se mal nessa noite.
Às sete horas da segunda feira seguinte, dia 16 de Junho de 1980, arrancou o processo junto das populações, algumas das quais haviam sido avisadas previamente pelas estruturas locais da Frelimo. Todas as brigadas estavam já no terreno (nas cidades, distritos, localidades) já prontas para a operação, que consistia em trocar, nos caixas e nos locais de troca, apenas o equivalente, em Meticais, de cinco contos. Assim, cinco mil Escudos de Moçambique colonial (Moçambique tinha as suas próprias notas e moedas, diferentes de Portugal “continental”) dava cinco mil Meticais - que, por tradição, o povo continuou a até hoje a chamar “cinco contos”. Para os restantes Escudos que as pessoas tinham em sua posse, era passado um recibo de entrega do valor, que seria creditado em conta após averiguação da sua proveniência, o que em muitos casos era assunto considerado muitíssimo problemático para quase toda a gente com algum dinheiro, dadas as circunstâncias sociais de “vigilância revolucionária” e possibilidade de acusações de sabotagem, traição, etc. O saldo na conta do titular era automático.
Naturalmente que houve imensos problemas. Houve pessoas, principalmente comerciantes mais abastados da diáspora asiática, que mandavam os seus empregados e familiares trocarem os tais cinco contos, como forma de contornar as restrições e não dar nas vistas. Houve brigadas que, à boleia de carroças de bois com sacos de dinheiro, enfrentaram animais selvagens, leões e elefantes principalmente. Houve o caso de dois cidadãos em Angónia que morreram de ataque cardíaco porque não se recordavam aonde haviam enterrado o seu dinheiro. Houve sacos de dinheiro novo esquecido nos comboios em Mutarara e que acabaram sendo resgatados na Beira. Houve desvios, algumas pessoas penalizadas pelo aproveitamento ilícito da situação.
No entanto, consideraram-se satisfatoriamente concretizados os três grandes objectivos estratégicos: trocar a moeda sem grande impacto no quotidiano das populações, evitar-se a introdução de moeda falsa no processo de troca, e retirar-se a capacidade de manobra a indivíduos ou grupos considerados opostos ao processo em curso e supostamente detentores de vultuosas quantias em notas do tempo colonial, que estariam a utilizar em esforços de desestabilização (o sucesso aqui foi relativo: pouco depois o governo de Ian Smith entregava via Lancaster House o poder a Robert Mugabe e a África do Sul já na era do “Grande Crocodilo” - Pieter Willem Botha - passou a apoiar esses esforços, com as consequências que se conhecem).
Nessa altura houve muita gente boa que, a troco de nada, e face às dificuldades que então havia, aderiram com evidente sentido de patriotismo nesta que foi uma das operações pós independência mais sigilosas, bem organizadas e provavelmente mais bem sucedidas.
Exactamente um ano depois, em 1981, o General Alberto Chipande, em farda militar solene, liderou uma cerimónia simbólica do “enterro” do escudo colonial, incinerando perante uma audiência e um fotógrafo da “Tempo”, uns largos maços de notas de Escudos dentro de um caixão - que hoje, ironicamente, renderiam dezenas de milhares de Euros nas feiras numismáticas em Portugal.
E assim se fez um pouco a História

Irritou-se Luís Figo com as críticas que a ele e a outros dos "mais velhos" são feitas. [artigo abaixo transcrito]
Não gosto da forma, mas concordo em absoluto com o que disse. Nem discuto se deve ou não ser titular (Deve!!!!). Mas irrita-me, enoja-me, essa gente cuja forma de amar os seus ídolos é esgravatar-lhe os pés gritando ser barro o que boa e sofrida carne é.
Mole mesquinha, frustrada. Onanista de alma. Que tanto gozam o sucesso dos seus como se comprazem no seu falhanço, este o bálsamo para a inveja que logo têm de qualquer vizinho que suba um bocadinho para lá da taberna do bairro.
Figo foi há anos para Barcelona. Juntou ao grande talento um grande trabalho. Alma ou raça, chamam a isso. Por lá assumiram o profissional como um deles, reconhecendo-o. Quando ele que era o melhor quis ser pago como os melhores negaram-se. Porque tinham determinado que "ele era um deles". Cumprindo o contrato foi embora, para onde pagam ao profissional como a um dos melhores, que o é. Mercenário, "pesetero" chamaram-lhe os antigos patrões.
Ele explicou, é um português, o seu clube é o Sporting, foi apenas profissional (como sempre o foi, e bem), chamar-lhe ali "traidor" é um contra-senso. Não só porque o futebol é negócio. Mas porque ele não traíu ninguém. Mudou de patrão. A fidelidade que lhe exigiam só em Lisboa o poderiam ter pedido. E ainda assim...
Qual a reacção do tuga de merda? Engrandece-se com estas declarações, num "assim sim"? Não, resmunga-lhe o êxito que ele próprio não tem na vida, a Mariazinha a infernizar-lhe a vida em casa, ou o Sr. Santos lá no emprego. Assume-se ele próprio catalão, chama-lhe pesetero, chama-lhe traidor. Porque todo o Figo lhe dá a alegria do triunfo de um dos seus e a tristeza, horrível, do espelho da sua mediocridade.
E agora dizem-no "prima dona", "acabado". Mas não se lembram da estrela, milionária, carregada de triunfos, a rojar-se no chão lá na anarquia da Coreia, lesionado a correr atrás da bola como mais ninguém? O que mais queria ganhar, ele que tão mais tinha ganho do que todos os outros. "Prima dona"?
Resmungam-lhe os patrícios a inveja que sempre tiveram a todos os campeões. Nem à Rosa Mota perdoavam, despejando diante do marido-treinador. A salvo dessa má-língua apenas o gigante Agostinho. Ainda que se rissem da bicicleta no portão da maison. Mas perdoavam porque ele nunca mais acabava, quarentão sem fraquejar, e depois morreu. E porque tão simples, tão simples, que o julgavam ainda como no princípio, ainda o simplório de brejenjas.
Que isto todos os que sobem acima do seu lugar têm defeito, a cada um como cada qual, tugazinho conservador, tugazinha invejoso, tugazinho "tudo como Deus manda", a ordem natural das coisas.
Viva Figo!!!
E espero, e exijo, que dentro de alguns anos, quando ele quiser, já mais velho, mais lento, mais cansado e magoado de todas as porradas, regresse ao Sporting para terminar a carreira. E que todos nem discutem, libertem logo o nº 7. Para ele. Porque o futebol é ele.
E que eu esteja lá com a Carolina. E com mais alguém se brotar. Para lhes mostrar que há gente. De talento e trabalho. Livre, por isso.
E nesses dias, lá na bola, lhe(s) ensinar o que há de mais precioso: o que desde que se vá em pé "Que se Foda a Taça!!"
Viva Figo!!
Portugal joga amanhã contra a Espanha
Luís Figo pede mais respeito pelos "históricos"
Publico
19 Junho 2004
Luís Figo pediu hoje respeito pelos jogadores mais antigos da selecção portuguesa, na véspera do jogo decisivo contra a Espanha, que Portugal precisa de vencer para chegar aos quartos-de-final do Euro 2004.
"Não tenho razão de queixa de ninguém, pois cada um pode opinar sobre o que bem entender, mas não admito que pessoas de outras actividades não tenham respeito para comigo, pois eu também não opino sobre agricultura, pescas ou cinema", afirmou o jogador do Real Madrid.
"Tento estar um pouco à margem, mas às vezes certas coisas fartam um pouco. Somos ser humanos e queremos algum respeito, eu e vários companheiros que estão há mais tempo na selecção", explicou Figo.
O médio português não estranhou as provocações que vieram de Espanha: "Não me surpreende que isto aconteça, pois é normal em jogos importantes, que podem decidir-se em pequenos pormenores. Estão a tentar desestabilizar e desconcentrar. Há coisas vindas de Espanha e outras de Portugal que tentam criar conflitos entre nós, só temos é de ser fortes", enfatizou o número sete da selecção, que conta 106 internacionalizações "AA".
Do primeiro para o segundo jogo Scolari procedeu a quatro alterações no onze e Figo ficou como único sobrevivente da "geração de ouro" do futebol português, que conquistou dois títulos mundiais de juniores em 1989 e 1991."Em termos tácticos e técnicos não entro, pois não vou comentar as opções do treinador. Estou aqui para jogar e mais nada do que isso", disse.
Quanto à entrada de Deco para o lugar de Rui Costa, Figo considerou que o médio do FC Porto "é sempre uma mais-valia para qualquer equipa, como são todos os elementos que não puderam actuar frente à Rússia."
Já quanto as palavras de Scolari, que utilizou termos como "guerra" e jogo de "vida ou morte" para qualificar o encontro de amanhã frente à Espanha, Figo afirmou que se lhes está a tentar dar a conotação errada: "É apenas uma forma de expressar o grande significado do jogo, nada mais do que isso".
A finalizar, Luís Figo sossegou os jornalistas espanhóis quanto à arbitragem de Anders Frisk diz: "Não têm de recear nada, pois nós não temos tanta força como pensam. Em termos gerais somos sempre prejudicados."
destes que andam cá fora a ganhar a vida. Foi lá nas Arábias, uma dessas minas que por aqui e ali brotam no caminho de quem sai dos trilhos que lhe querem. Dele fico a saber o nome, António José Monteiro Abelha, de Elvas. E imagino-o, decalcando-o de outros nós que nos vamos cruzando. Desses rijos no fazer a vida, sem que tenhamos prosápias ou elogios públicos, sempre prontos ao "isto não há-de ser comigo", numa segurança do "só cá estou a trabalhar", a segurança risonha do esconjuro, segurança também arrogante, a arrogância honesta de quem aprende a torcer o destino.
É o meu minuto de escrita por Você, amigo Abelha.

Muitos desculpam a guerra como favoravel ao progresso humano, e dizem que, por meio d'ella, os homens que gosam privilegio de uma civilisação adeantada, aproveitam a sua força attractiva para arrastar os povos mais atrazados...
Eu admitto, apesar de tudo, esse modo de pensar. Consinto em acceitar que a civilisação conduz em si uma força activa e educadora. Mas pergunto tambem: onde reside a civilisação? Porque razão quereis que eu forçosamente a colloque na Europa?....
Ha quem diga que, na presente guerra, já que um ou outro povo tem de ser o vencedor, a justiça manda que o Japão seja o vencido, pois que os japonezes foram os primeiros a atacar.
Os que assim falam, estarão verdadeiramente certos de que o Japão tenha sido o aggressor?
Qual é o verdadeiro responsavel? O que dispara o primeiro tiro, ou aquelle que tem andado a exasperar o adversario, impellindo-o a uma desesperada violencia?...
E porque razão hão de os japonezes ser um povo inferior, como pretendem alguns? ... Seguem o seu caminho e adquirem a consciencia do que são e do que valem. Ha coisa mais legitima? Com que direito pode o Occidente impedir esse desenvolvimento?...
Á falta de outras razões, allega-se que a raça amarella está muito mais atrazada do que a branca, e accrescenta-se que a sympathia do branco deve estar, portanto, ao lado do combatente branco. Isto é simplesmente falho de toda a razão....
Mas nós, os europeus, conhecemos muito mal o mundo asiatico....
Os povos europeus apparecem em toda a sua barbarie quando intentam colonizar os que consideram selvagens. A França, a Allemanha, a Russia, a Italia, a propria Inglaterra no caso do Transvaal; todas as nações procedem de modo igual. Onde encontrar um pensamento de verdadeira civilisação na obra colonizadora da Europa?...
[Texto de há cem anos ??]

tempo do vinil, esse de casa da mana que eu, tão novo, novinho, ainda nem o tinha.
Tanta canção
"olha a voz que me resta...por favor, deixa em paz meu coração, que ele é um pote até aqui de mágoa..." (Gota d' água)
e, quando era eu menino, tanto estranhava o saber ele tão bem escrever como mulher. Para, afinal, crescer a saber que é assim mesmo, que não há diferença. Dessas...
Tanta canção
deixo aqui duas das tantas letras da minha vida. Da minha alma de vinil. Riscada até...
Com açúcar, com afeto
(1966)
Com açúcar, com afeto
Fiz seu doce predileto
Pra você parar em casa
Qual o quê
Com seu terno mais bonito
Você sai, não acredito
Quando diz que não se atrasa
Você diz que é operário
Vai em busca do salário
Pra poder me sustentar
Qual o quê
No caminho da oficina
Há um bar em cada esquina
Pra você comemorar
Sei lá o quê
Sei que alguém vai sentar junto
Você vai puxar assunto
Discutindo futebol
E ficar olhando as saias
De quem vive pelas praias
Coloridas pelo sol
Vem a noite e mais um copo
Sei que alegre ma non troppo
Você vai querer cantar
Na caixinha um novo amigo
Vai bater um samba antigo
Pra você rememorar
Quando a noite enfim lhe cansa
Você vem feito criança
Pra chorar o meu perdão
Qual o quê
Diz pra eu não ficar sentida
Diz que vai mudar de vida
Pra agradar meu coração
E ao lhe ver assim cansado
Maltrapilho e maltratado
Ainda quis me aborrecer
Qual o quê
Logo vou esquentar seu prato
Dou um beijo em seu retrato
E abro os meus braços pra você

Bom conselho
(1972)
Ouça um bom conselho
Que eu lhe dou de graça
Inútil dormir que a dor não passa
Espere sentado
Ou você se cansa
Está provado, quem espera nunca alcança
Venha, meu amigo
Deixe esse regaço
Brinque com meu fogo
Venha se queimar
Faça como eu digo
Faça como eu faço
Aja duas vezes antes de pensar
Corro atrás do tempo
Vim de não sei onde
Devagar é que não se vai longe
Eu semeio vento na minha cidade
Vou pra rua e bebo a tempesta