O que é o pânico?
a. dilúvio fora de estação, imediato corte de energia, retoma, queda de raio, corte de energia, retoma, tvcabo cheia de problemas, quase invisível captação, "só podemos arranjar a avaria depois da chuva terminar", isto tudo a duas horas do jogo, a duas horas....Arranjam? Vemos aos piquinhos? Vai-se a electricidade outra vez?
ou
b. a televisão está ligada, ainda que quase invisível, e há um enorme (ENORME) bocado a estação pública portuguesa (RTP-África) transmite, filmado de helicóptero, o percurso rodoviário de um autocarro contendo a selecção nacional de futebol entre o (hoje em dia) arrabalde Alcochete e o estádio de futebol. E eu sou português.
Pânico. O que é o pânico?
[Uma tostazita com presunto (hoje há imensos acepipes cá em casa), um gole na cervejita (um apressado teclar de blog)....] Reflexão, resposta:
A Carolina está em pânico com a trovoadona, aninhada ao colo da mãe (estremosa, um presépio não fora a minha cerveja). E eu estou tão em pânico como ela (alínea b.). Mas disfarço, a mãe Marília está longe, não tenho colo que me sossegue. Mas que esses gauleses são loucos são.
se está disposto a ler sobre política a sério visite sff este texto e o anterior. Se não conhecia a casa em causa aviso que lhe é costume a inteligência e cultura.
Sigamos, agora sobre o Santana eu acho que...bem...enfim.
Bem, decidirei depois da bola. Aliás, será ele aplaudido em Alvalade ou vaiado? Sim, sim, é essa a verdadeira questão. O efectivo barómetro!
Ou será que se esqueceram? Atolados nos Campos de Belém?
nada mal o Aviz. Novas eleições darão três meses para PSL se vitimizar, imparável.
(Re)ganhando os votos dos hojes desiludidos e/ou irados. De alguns deles pelo menos. De todas elas, quase certo.
E eu? Felizmente voto nos Olivais, nunca mudei morada de recenseamento. Dia de votos é ida à Fernando Pessoa, domingo calmo, almoço em casa dos pais, ida ao café, algumas caras conhecidas, se calhar até amigos no mesmo. Depois, gente do ontem na mesa de voto, até aqueles abraços entre votantes. Depois cervejinha no café, já com os velhos amigos, tudo no mesmo reprise. Jantar ainda em casa dos pais, e até a família a congregar-se.
Que pena. Estarei em Maputo. Pelo menos não terei que votar. Se caso disso.
O Site Meter, instalado há três meses e pico, e o qual dizem algo falho, marcou hoje 10 000 visitas. O contador interno Webalizer que é mais gentil (e certeiro nas palavras do patrão) dá para o mesmo período 36 000. Ontem anunciou o maior número de entradas diárias que tenha eu reparado, 730, e a maior média diária mensal, 500.
Quando em Março o Ma-schamba desmatou no weblog julgo que tinha cerca de 60 visitas diárias. A dimensão de uma aula, achava eu. Agora tende para a multidão, ainda que multidãozita comparada com os super-blogs.
É agradável, claro. Mas também quebra-cabeças. Tanta gente a chegar que eu me dou, até angustiado, a pensar "que raio vou hoje dizer a estes tipos?".
Assim a esquecer-me que isto é apenas um diário. Narcísico, claro, como qualquer blog. Mesmo os de agenda. Mesmo os anónimos.
É que hoje não tenho nada a dizer. Nada sobre Moçambique, nenhuma crónica. Nada sobre a exploração de África, nenhuma crítica ideológica. Nada sobre o meu país, nenhuma ideia sobre santana, lisboa, a alma penada e ameaçadora de guterres.
É um diário. Ontem não vi nada, não li nada, fui beber um café com amigos, comprei uns livritos porque o Horácio me arrastou até lá. A miúda está com prisão de ventre - e isso é o mais importante. Na escola a educadora dela mudou. Há-de habituar-se à nova, mas é uma pena, adorava a Margaret.
Faço 40 anos na sexta. Devo estar em crise, senão sou insensível. A Inês diz que sim, estou insuportável. Eu não me acho pior do que o habitual, o que não a contradiz. A mulher do Mário diz que aquando dele andou impossível, "sem paciência para ele próprio". Reconheço-me, mas não só agora.
Se faço 40 devia fazer um rescaldo. Mas não me apetece, não tenho de quê. De manhã fui levar a miúda à escola, agora fui buscá-la. Daqui a bocado mecânico, mudar amortecedores no carro da Inês. Tenho que ir à Matola.
Se faço 40 devia reflectir. Sobre a sua importância. Ou não. Uma abordagem à abstracção do calendário. [ainda ontem, e por causa de uns problemas alheios, "Moraes, que idade tem o seu filho? Hum...18, 19, mais ou menos" para logo depois "Luísa, que idade tem o seu irmão? 32, parece"]. Devia abordar esta mania, dita matriz, que nos faz pensar a vida como um caminho, balizado por números (a pedirem rescaldos, ou melhor balancetes). Um caminho que é um projecto. Como se fosse isso natural. Mas não é, nem natural, nem projecto, nem caminho. Temos que comprar roupa para a Carolina, cresce rápido, as meias estão esgaçadas (é assim que se diz?). O Tomané vai-se (outra vez) embora de vez, quem é que convidamos para jantar junto? Onde se compram ameixas secas para a miúda, dizem que são boas para a prisão de ventre?
Se faço 40 devo perguntar ou afirmar "se tem valido a pena". Rijo, "só lamento o que não fiz, etc". Mas tenho que arranjar uma casa em Inhambane, uns diazitos na próxima semana, a ver se sim. E ir a Neilspruit buscar umas mobílias encomendadas, quem é que vai emprestar um camião? E falta tempo para tudo isso, uma chatice.
"O que é que eu vou dizer a estes tipos?".
"On the pretext that Sudan was making anti-American bombs (and some people felt to correct the negative image created by the Monica Lewinsky scandal, to look decisive and presidential, even if meant risking lives and flattening foreign real estate), President Clinton ordered air strikes against the Sudan. He succeeded in destroying a pharmaceutical factory outside of Khartoum in August 1998. This bomb crater would be on my itinerary, for after the bombs were dropped no one in the United States took much interest. Though we become hysterical at the thought that someone might bomb us, bombs that we explode elsewhere, in little countries far away, are just theater, of little consequence, another public performance of our White House, the event factory."
Não!

Paul Theroux, Dark Star Safari. Overland from Cairo to Cape Town, Penguin Books, 2003, pp. 12-13
Enfim, a ganhar crédito neste a posteriori. Por muito que custe a quem o costuma menosprezar.
+
até porque
[não há nada melhor do que um post-insónia para aclarar ideias]
Tem Xicuembo [espírito, deus] o Carlos Gil. Aqui, porventura com ajuda transcendental, a resolver o problema político nacional. A fundação que espere.
Neste Ma-schamba escrevo demais sobre política portuguesa, não era nada disto que eu pretendia quando desmatei. Talvez desvio profissional, antropólogo mais virado à política (local). Talvez porque emigrante espantado ao de longe.
Volta e meia prometo a mim mesmo inflectir e escrevo-o aqui, para que as visitas me cobrem em forma de um "cala-te, pá!". Ainda há pouco mo prometi de novo, um último post sobre política, a propósito de uma troca de galhardetes com o socialista, mas simpático, LNT do Tugir.
O que me faz regressar não é a moral, uma mera irritação contra essa partidocracia tendencialmente cleptocrática. Pois acredito que a corrupção política e social pode servir (ou pelo menos coexistir) com processos de desenvolvimento, até extraordinários: os casos pós II Guerra Mundial do Japão e da Itália serão canónicos.
O que me produz estas jeremiadas é a evidência de que aí a representação política se tornou apropriação: apropriação de recursos económicos e de recursos políticos. Botei-o aqui há bem pouco, a propósito da aprovação da constituição europeia. Mas irrita-me sobremaneira o facto dessa cleptocracia ser incompetente.
Esta apropriação dos recursos políticos, este "esquecimento" de ser o poder político uma representação serve de mecanismo de acumulação. E de reprodução. E isso é tão evidente que o marxismo espontâneo dos jornalistas ignorantes crismou acriticamente os políticos de "classe política" (o que passou para o discurso vulgar). Os escribas não retiram a conclusão das patacoadas que escrevem, mas não há dúvida, se assumirmos o discurso marxista, em Portugal os políticos tendem a ser uma "classe". O que é ilegitimador.
Reprodução de uma camada política que não produz o desenvolvimento possível em Portugal. [para quem vê Portugal "por um canudo televisivo" é interessante reparar que, na política, o conceito "modelo de desenvolvimento" surge recorrentemente apenas na linguagem de Carvalho da Silva - o que sendo aqui um elogio ao nº 1 da CGTP é também um drama para o país, que assim não se pensa sistemática e constantemente].
Reprodução de uma camada política que não é o suficientemente capaz. E aqui discordo do Aviz: "Convém perceber que há uma diferença essencial entre “governar” e “gerir”. Gerir com bom-senso, qualquer burocrata, contabilista ou jovem diplomado pode fazer, com maior ou menor competência.". Pois acho que nem esse mínimo exigível, essa gestão de bom-senso, é assumida, realizada. Pois o bom-senso é bem escasso. E alimenta-se das implicações dos actos e dos constrangimentos da representação política. Nem isso é cumprido.
[como mero exemplo desta ausência de bom senso narro, de memória e sem documentos para o ilustrar, um episódio de há anos: o primeiro secretário de Estado da Indústria guterrista exarou um despacho que, para ser cumprido, exigiria a nacionalização da empresa a que se destinava. Foi demitido? Foi para um curso de formação? Nada, continuou, jovenzinho rosita, nos seus 28 aninhos de imbecilidade a andar para a frente]
Este deficit de representação não só coincide como também implica um deficit de competência. O país está melhor, muito melhor do que há décadas. O discurso miserabilista é intelectualmente miserável e factualmente falso. Mas podia estar muito melhor. E é isso que dói.
Esta presumível mudança de primeiro-ministro é sinal absoluto dessa ausência de consciência do que é, na essência, a representação política. Um contrato, um contrato a cumprir de boa-fé. Rompida a boa-fé torna-se ilegítimo esse contrato. Ora não há boa-fé quando a política se torna mecanismo de apropriação privada de recursos públicos e de recursos sociais. E o mesmo quando se torna apropriação partidária desses mesmos recursos. [o que é óbvio com todas as trafulhices de financiamentos partidários via câmaras e concomitantes "impedimentos" judiciários]
Esta violação da representação política, da boa-fé presente no contrato explicita
Uma ruptura em que os representantes não se revêem nos representados. E não vice-versa.. Estes são traços do sistema político, não do partido A ou B. É o modus vivendi.
Neste contexto os socialistas vão surgir contestando a substituição anunciada. Que é legal, constitucional. A mim surpreende-me. Pela sua radical hipocrisia. Ora a hipocrisia mina, nega, a boa-fé que é o âmago do contrato político entre representantes e representados.
Escrevi, a propósito do que acho ser um escândalo anticonstitucional, o dos
constrangimentos à liberdade de voto dos deputados, uma ilegalidade que deveria levar a tribunal todos os lideres parlamentares dos últimos anos: Estranho essas vontades, pois parece-me que são nessas votações que se levantam questões centrais quanto à adesão a determinados valores: concepções de vida, de vida em sociedade, de limites fundamentais da acção do Estado, etc. (mas poucos etcs.). Ora é nessas questões que se pressuporia que houvesse uma radical homogeneidade intra-partidária. Ou seja, que os partidos fossem constituídos por pessoas que partilham um pequeno mas fundamental quadro de valores que as unisse para lá das normais (e salutares) distinções nas perspectivas do exercício político corrente.
Acredito que isto seja pacífico. Se não o é então o que serão e para que servirão os partidos políticos?
Ora António Guterres, então incontestado lider do PS, disse há 3/4 anos uma frase lapidar, letal. Acossado pela degenerescência do seu exercício político informou-nos que para ele, Primeiro-Ministro, "a ética da República é a lei". Ora esta ideia, este valor, é de uma profundidade imensa, tem que ser integrada no "pequeno mas fundamental quadro de valores" que unem os membros de um partido, na forma como conceptualizam a acção política, como conceptualizam a própria sociedade.
Então nenhum [negrito, sublinhado, maísculas, repetido, gritado: nenhum] socialista contestou essa perspectiva. Esse valor tornado âncora do exercício político.
Esta mudança de primeiro-ministro, se assim acontecer, mina a credibilidade, mina a legitimidade da representação política. Mas é legal. Os socialistas não têm qualquer argumento para a contestar. É legal. Donde para os socialistas esta mudança é ética. Estão prisioneiros dos valores que afirmaram em uníssono.
Se a negarem, se a contestarem, demonstram radicalmente que mentiram e calaram, desavergonhadamente, quando no poder. Ou que estão agora a mentir, desavergonhadamente.
Melhor, demonstram que a cleptocracia partidária ultrapassa partidos. E que argumenta apenas ao correr dos ventos. Sem princípios. Sem honra. Sem legitimidade.
E que estamos, politicamente, num beco! Estaremos?
(insónia dominical, para além de pruridos formais)
Quem não está em Lisboa (ou perto das Amoreiras) vá aqui sorrir este sorriso. Obrigado Povo de Bahá
Grande azáfama lá pela santa terrinha.
a) o sistema político português permite, com toda a legitimidade, que se mude de primeiro ministro. Os eleitores votam em partidos, segundo opção programática, elegem deputados ao orgão máximo (Assembleia de República). Esta propõe governo ao Presidente da República. Ponto final parágrafo.
b) algum esvaziamento político-ideológico, alguma inércia de cidadania e uma imensa e intensa comercialização (marketing) da política, levou a uma gradual pessoalização das eleições. Mas só ignaros e preguiçosos acham que estão a votar no candidato X. Votam, e deviam sabê-lo, num determinado partido (ou coligação).
Para quê tanto barulho? Tanto espanto, tanta virgem ofendida?
c) Quando em 1999, aos 35 anos, farto do guterrismo então ainda ascendente, votei pela primeira vez na vida no PSD achei-o por bem para o meu país e também que estava a envelhecer naturalmente (ainda que um pouco depressa): "conservador (só) aos 40" é o batido lema.
Mas apesar disso, tanto em 1999 como em 2001, e apesar de todos os socialistas, todos os queijos limiânicos, todos os cunhados de Primeiro-Ministro, todos os narcisos e gomes no governo, toda a italianização do país, nunca mas nunca teria votado no PSD se Santana Lopes fosse o seu Presidente e óbvio candidato a primeiro-ministro. É que "ele" há limites...
d) paradoxo?
e) sei que sou só um voto. Mas serei o único?
1. Dia de constituição da Frelimo (1962).

FRELIMO/KATIKA KUPIGANA NA/UKOLONI NA UBEBERU/25 SETEMBRO, offset 2 cores, Frelimo, Dar-es-Salaam 19 (AHM 80)
retirado de B. SALSTROM, A. SOPA (1988), Catálogo dos Cartazes de Moçambique, AHM
2. Independência antecedida da viagem de Samora Machel "De Norte a Sul de Moçambique" - a célebre viagem "do Rovuma ao Maputo"

retirado de A. SOPA (coord.) (2001), Samora. Homem do Povo, Maputo, Maguezo Editores
3. Declaração da Independência de Moçambique (1975)

25 de JUNHO DE 1975/INDEPENDÊNCIA DE MOÇAMBIQUE, offset 2 cores, José Freire, DNPP, Maputo 1975 (AHM 96)
retirado de B. SALSTROM, A. SOPA (1988), Catálogo dos Cartazes de Moçambique, AHM

Discurso no estádio da Machava, proclamando a independência de Moçambique (colecção Telecine)
retirado de A. SOPA (coord.) (2001), Samora. Homem do Povo, Maputo, Maguezo Editores

A mudança de bandeiras: "Independência de Moçambique" de Dino Jehá
retirado de F. RIBEIRO (coord.) (2003), Exposição Moçambique: Vida e História em Psikhelekedana
"...Estou a falar dessa coisa do futebol. Do Euro 2004.
Embora eu não seja apreciador de futebol, como sabes, também não tenho nada contra quem gosta de jogar ou assistir. E, portanto, acho perfeitamente natural que muitos moçambicanos estejam entusiasmados a ver os jogos na televisão.
O que já acho menos agradável é notar que grande parte dos moçambicanos parece ter feito sua a equipa de Portugal. E não é por ter alguma coisa contra esse país. Muito pelo contrário é um país de que gosto. Só que esta adesão generalizada dos moçambicanos no apoio à equipa portuguesa me parece um cortão umbilical mal cortado. Ou, talvez, cortado e voltado a amarrar...."
Machado da Graça,
Correio da Manhã, nº 1855, 24.06.04
Comentar criticando este trecho, com o qual discordo não palavra por palavra, não letra por letra, sim de haste de letra a traço de letra, exige mais do que eu posso dar a um blog. Exigiria um livro talvez, se quisesse ser comentário mesmo.
Assim só para o café a tomar deixo-te, Machado (como é bom variar, referir alguém sem ter que fazer a "ligação" informática), duas pequenas ideias:
- que no processo da construção de uma "moçambicanidade" o jogo de identidades/alteridades já não se depara com o polo antagónico "Portugal" como norteador.
Épocas...crescimento...história...nacionalismo...pós-colonialismo...(outros)neo-colonialismos. [repito-me: tanta coisa para dizer]
- que será interessante ires ler na biografia do Mário Coluna o episódio em que ele foi interrogado pela PIDE: vê as causas e interroga o argumento d'hoje.
Abraço, até ao tal café.
para Joanesburgo o Valdir Peres. Cabisbaixo. Um dia ainda alguém me há-de agradecer tudo o que tenho feito.
Agora estou concentrado no grupo de apuramento para o Mundial-06 na Alemanha. Uns dias de paragem e iniciarei os contactos.
Quanto a este torneio já foi preocupação. Trabalhou-se bem. E está feito.
Parabéns a todos. É bom sermos campeões.
Já o disse, Valdir Peres visitou-me. E, decerto que agradado com mesa e conversa, ficou. Está aí no quarto dos hóspedes. Educado aceitei a estadia. Prometeu (avisou, melhor dizendo) que partirá amanhã. Rumo a Joanesburgo.
Quando ele se ausenta, pouco tempo que estou de cicerone, fico no futebol. Resmungando-lhe o patrício Scolari. Sobre este tudo está dito. Não acompanhou os jogos nem os treinos - Mourinho foi implacável no seu uso da verdade. O Scolari ridículo ao dizer que não conhecia os jogadores. O homem foi relapso ao trabalho. Foi preconceituoso, ainda que o pobre uso da língua por parte dos jornalistas o diga "teimoso".
Sobre ele tudo está sistematizado n'A Praia onde se conclui, certeiramente "É pois Scolari o cretino fundamental. Oxalá o seu papel nos próximos jogos seja o de contar sempre cada vez menos".
De todos os preconceitos preguiçosos de Scolari o público se apercebeu. E contra eles se rebelou. Agora, até já brilhando pelas vitórias e pela mediocridade dos meros assessores de imagem em que se transformaram a maioria dos jornalistas desportivos, Scolari tem a equipa que o povo exigiu. Ainda não joga exactamente como o povo quer (como bem diz Mourinho). Mas mais um joguinho ou dois e vai lá.
O único recuo que o homem não faz é o impossível. Baía não está (bem, Meira também devia estar, mas isso só virá à baila em caso de duplo impedimento de centrais, vade retro). Porque o caso deles são exactamente iguais: sobre Baía e sobre os outros jogadores quem tinha razão éramos todos nós, não o seleccionador, arrotando a sua arrogante prebenda.
Imune à preguiça de Scolari, Valdir Peres continua por cá. A comer-me o caranguejo e o camarão, sorrindo, mais para o calado. A ver se se vai embora amanhã. Cabisbaixo.
Mas até agora as pedras nada dizem.
1. O Lutz saíu-se com um gesto "à antiga". Panache, dizia-se. Tiro o chapéu e junto vénia.
2. Já aqui o referi no texto fundamentalismos, mas eis que volta. No Mar Salgado regressam à exigência do comparativismo entre grupos terroristas e a política estatal americana. Julgam ser argumento pró-americano, pró-democracia. Não conseguem compreender (o plural não é desvalorizador por impessoal, refiro textos de diferentes autores) a autofagia da argumentação. Já o referi, é exactamente pela nossa proximidade política, valorativa e ideológica com os EUA (porventura não tanto com a administração actual, mas isso é conjuntural) que os desmandos não podem ser comparáveis com actos de grupos terroristas.
3. Um extremo agradecimento à My Moleskine pelo delicioso Ovídio matinal.
4. O Companhia de Moçambique está em período activissimo. Obrigatório, e não só para quem se interessa por "África". Pois aquele blog é (também) sobre Portugal (colonial).
Gosto muito do Causa Nossa. Inteligente, elegante, oposicionista (por enquanto, nesta última característica). Só qualidades, mesmo que se discorde aqui e ali. Tive até o prazer de integrarem nele dois ou três comentários que lhes enviei via mail, para mim uma elevação.
Ontem Luís Filipe Borges colocou o Ó tempo volta para trás lamentando o desaparecimento da empatia e solidariedade intra-bloguística, assassinadas, ironiza ele, pela introdução dos contadores de visitas (logo uma hora após os blogs). A maldita concorrência, sempre inimiga da harmonia, lá está o paradigma.
Talvez, estou longe e cheguei depois. Não conheci essa Idade (Hora) de Ouro.
Mas ainda noto alguns tiques bloguísticos dessa "comunidade perdida" que LFB lembra. Não só a entreajuda - os malditos sistemas (só cá estou porque o LE interrompeu o seu garimpar poético para me ajudar a desmatar a terra), as referências, os comentários, as ligações, sei lá. Ainda que tudo isso a indique, uma articulação de gente desconhecida em actividade gratuita (grátis e inutilitária).
Falo de traços verbais que denotam igualitarismo entre bloguistas. Visível nas formas de nomeação, de denominação, de tratamento. Notável, no português de Portugal, inchado de títulos e hierarquias explícitas e implícitas.
A maioria dos interlocutores trata-se por "tu", mesmo desconhecendo-se (o que ainda é mais explícito nos "comentários"). Para além da idade (quantas vezes só presumida) ou do sexo. Ou então, mais raro, por um "você" indizível mas com o nome próprio a aproximá-lo (em que outro sítio é que alguém me chamaria "José"?).
As pessoas são conhecidas pelo nome próprio (ou alcunha assumida, o que é denota ainda maior proximidade: em que outras condições é que eu trataria o, obviamente insigne, Dr. ... por "grande besugo"?). E são assim nomeadas (p.ex acabei de falar no LE, numa entrada mesmo anterior no Lutz: nada de apelidos). Quando há maior distância, vá lá, transige-se e junta-se-lhe o apelido, num ó Carlos Gil.
O tratamento é pessoalizado ao extremo. Os habituais "o meu amigo", "o meu querido", etc. surgem com frequência associados a algo como "apesar de não nos conhecermos pessoalmente".
Mas também se pessoaliza a outro nível. Pela utilização do artigo definido. Todos escrevemos "agradeço ao Francisco José Viegas...". Mas se em jornal, rádio, tv, etc os mesmos diremos "agradeço a Francisco José Viegas...". Faltando o artigo, impessoalizámos.
O "tu" (ou o “V”. muito próximo, igualitário), o "nome próprio", o "o/a". Também com isto se constrói uma comunidade, um "estamos a falar" entre iguais, sem hierarquias. Comunidade construída, como todas. Construída porque feita e porque exagerada, ficcionada. Com rivalidades e concorrências (as tais do site meter, como sorri saudoso LFB, e outras) como qualquer outra. Que isso da Hora de Ouro parece concurso da RTP-África.
E é a construir tal ficção de comunidade que eu falo com o Luís, com a Margarida [aqui com o V. da diferença de sexos, coisas da nossa idade], com o Alex, com o Isidoro (no V. porque nunca comemos juntos e ele é mais velho, decide). E com todos os outros. Todos "queridos amigos", "blogoamigos" que desconheço (só conheço nove bloguistas, de outras andanças).
Mas neste moldar de proximidades há excepções. Nunca li ninguém referir-se ao José. Nem ao José. Nem ao Vital
Porque não? Por estatuto. Pois se todos chegam com algum estatuto distintivo [excepto os anónimos, claro] só a alguns é aceite viver in-blog de acordo com esse lugar prévio. E, por isso, são tratados de modo diferente. Em outros, pelo contrário, esse lastro estatutário é "esquecido" pelos interlocutores: atrever-me-ia eu, noutro contexto, a invocar publicamente o Velho, ainda que ele o saiba sinal de admiração bloguística?
Deste modo a minoria a quem é atribuído o seu estatuto anterior (pré-blog) é tratada de modo diferente. Um respeito verbalmente explicitado. Claro que eles são da tal "comunidade" de blogs (e Pacheco Pereira fê-la explodir). Mas não são da tal "comunidade" de blogs, daquela que LFB lamenta o fim. O que não lhes é devido, à sua prática. Mas sim devido a todos nós, outros, porque os tratamos de modo diferente. Todos nós assumimos, de imediato, uma "estratégia de distinção" diante desses alguns. Educação, bons modos, respeito, claro. Mas assumpção de hierarquias, claro. Estratégia de distinção que nos habita.
Porquê este arrazoado? LFB lamenta a concorrência (o mercado) como factor de dissolução de uma era de comunhão. Eu discordo. Entendo "comunidade" uma outra coisa, bem menos ídilica (ai as utopias terroristas). E veja a sua hipotética dissolução com outras causas (ai os paradigmas).
Olho para o Causa Nossa e leio, logo a seguir a LFB um texto de Vicente Jorge Silva (lá está: nome completo e sem artigo): "Apesar da modéstia dos nossos propósitos, a festa do Causa Nossa, ontem à noite, assumiu a dimensão de verdadeiro acontecimento histórico: pela primeira vez, os bloguistas portugueses aceitaram descer do olimpo blogosférico e conviver uns com os outros".
Ora até eu aqui em Maputo sei que já houve uma série de encontros, almoços, reuniões de bloguistas. Vicente Jorge Silva não sabe isso, é normal, terá imenso que fazer na vida, e está a escrever com prazer sobre o encontro que co-organizou. Não vem mal ao mundo com este escrito, nem grande nem pequeno. Nem há ponta de acinte ou ironia no que aqui escrevo. Pego-lhe porque indicativo. Explicativo.
Pois acredito que se fosse o Vicente a escrever não lhe brotaria a ideia de que a sua festa tivesse sido início de algo, causa primeira de coisa primeira. Que se os bloguistas o chamassem, se lhe referissem, em cúmulo de respeito como entre nós, como o Vicente essa compreensão do fazer parte e de não ser motor seria mais fácil, mais imediata. Em suma, se assumissemos também para estes pesos-pesados out-blog o tratamento integrativo, menos a-comunitário seria o seu raciocínio. E a sua ironia (vide LFB).
Onde quero chegar? A que não é a concorrência que disturba a tal comunidade ironizada/imaginada pelo Luís Filipe. São os estatutos (legítimos, porque provenientes da meritocracia. Ainda que esta seja mera ideologia, como sabemos). As ordens. Digamo-las pré-modernas. Não como o mercado (dos site meter). Onde, mesmo que não liberais, nos tratamos pelo primeiro nome. E por tu, ou por um V. igualitário. E onde não somos demiurgos. Porque não temos estatuto para isso. Mas temos consciência disso. De ser apenas homens/mulheres, a estrategizar em comunidade, cheia de concorrências esta. E onde nada começamos, porque não Enormes.
Excelente entrevista de João Nuno Coelho na última Pública. [abaixo transcrita] Mais do que aconselhável leitura. Da futebolização do país Portugal (e do Ma-schamba??). Não resumo, acho que vale a pena ler tudo.
Apenas dois retoques. Ainda que não criticas, pois estamos diante de uma mera entrevista, não é decerto um discurso acabado (se é que os há). Diz JN Coelho:
"O futebol propicia a criação da tal unidade nacional, que é a pedra de toque do nacionalismo, fazendo-nos crer que somos todos iguais, todos portugueses e todos juntos. E esse é o grande perigo, porque esse discurso de unidade facilmente faz esquecer as tais diferenças que são salutares. E porque o futebol faz a tal representação da nação como interesse supremo é que muitas vezes o discurso reproduzido pelos jornalistas e também pelos políticos coloca o interesse da selecção acima de todos os outros interesses, dizendo, em termos simbólicos, que o que interessa é a nação. Aliás, se há ideologia bem sucedida é o nacionalismo, que é apresentado como mais importante do que a própria vida."
a. mas todas as sociedades produzem rituais e/ou festividades, mais ou menos cíclicas, onde se propaga momentaneamente essa igualdade, essa comunhão (muitas vezes até invertendo hierarquias), se sedimenta uma pertença conjunta, esse interesse superior. E esses momentos existirão também porque no quotidiano a comunhão, a igualdade não são totalmente assumidos. Não há aqui particularismo. Portanto, onde está o perigo? Pelo menos, onde está o perigo particular?
b. o discurso dominante é o do reduzido nacionalismo português. Aliás muitas vezes associado à decadência do país, o constante "decadentismo". Ora por um lado encontramos um país que se auto-considera pouco nacionalista (ou que o diz, o que será algo diferente). Ou pelo menos que pouco pratica o nacionalismo, nesta época europeísta. Por outro temos um país radicalmente futebolizado.
Então como manter a equação que o trecho citado afirma?
Gostava de encontrar o homem. Seja ele pouco académico e dará para uma boa conversa.
A Excessiva Importância Social e Política Que Damos ao Futebol É Ditatorial e Asfixiante
Por JOÃO NUNO COELHO
Domingo, 20 de Junho de 2004
Natália Faria Fernando Veludo
Começou por fazer parte da alta burguesia ligada aos ingleses. Depressa se alargou a todas as classes sociais e Salazar não tardou em usá-lo como instrumento legitimador. Hoje, a sociedade portuguesa está totalmente futebolizada, espelhando um país litoralizado e imobilista. O sociólogo João Nuno Coelho diz que há uma total futebolização da sociedade portuguesa e havemos de pagar um preço depois do Euro 2004.
P. Em que momento é que, em Portugal, o futebol deixou de ser um fenómeno de elites para se democratizar e tornar num espectáculo de massas?
Nos anos 1920 e 1930. O primeiro jogo de futebol envolvendo portugueses foi em 1888, promovido pela aristocracia e alta burguesia de Lisboa, que tinham contactos com os ingleses ou alguns filhos a estudar em Inglaterra, e que trouxeram bolas e começaram, no fundo, a convidar os seus pares para jogar futebol. Até ao final do século XIX, é essa a realidade: um desporto praticado de forma desinteressada, sem estruturas, sem clubes, apenas brincadeira de amigos.
P. Mas expande-se rapidamente a toda a sociedade.
Curiosamente, o futebol teve alguma dificuldade de inserção por causa do Ultimato inglês, que levou a que se considerasse mau tudo o que estivesse conotado com os ingleses. O futebol era, aliás, chamado o "jogo do coice" dos ingleses. Só no início do século XX é que surge o primeiro clube de base claramente popular, quando diversos casapianos se juntam para criar o Sport Lisboa e Benfica (na altura Sport Lisboa de Belém). O Sporting e o Porto, que nasceram também nessa altura, foram criados por pessoas de condição social superior e ainda com muitas ligações aos ingleses.
P. O futebol português não ajudou também a alcandorar à condição de heróis indivíduos de classes baixas?
A popularidade do futebol está muito ligada ao associativismo e às identidades locais. Por volta de 1910, o futebol começa a representar o local em competição com outros locais, proporcionando a sensação de pertença, de fazer parte de algo. É a partir do momento em que se tornam legítimos representantes do local (da nossa cidade do nosso país...) que os jogadores são elevados à condição de heróis. Aquilo que eles dão, no fundo, é a validação da nossa identidade.
P. Essa equiparação dos de condição baixa à condição de heróis não baralhava a lógica salazarista, que promovia a conformação social, o viver pobre e alegremente?
Sim, mas até 1960 não havia profissionalismo no futebol em Portugal. Ninguém podia dizer que havia jogadores profissionais a ganhar imenso dinheiro. Não era legal nem assumido. Ou seja, essa ideia do herói não era correspondida por pagamentos e por capital económico. Por outro lado, Salazar não permitiu que vários jogadores fossem para o estrangeiro. O Eusébio podia ter ido jogar para o estrangeiro ganhar imenso dinheiro nos anos 60, mas foi proibida a sua saída, porque era um símbolo nacional.
P. E daí passa-se para o aproveitamento do futebol enquanto instrumento de afirmação do orgulho pátrio?
Apesar de não gostar nada de futebol, Salazar teve a noção de que ele podia ajudar a manipular os processos identitários. O Benfica (não por culpa sua mas pelo facto de ganhar) tornou-se muito apelativo em termos de discurso identitário. Mas Salazar serviu-se muito do futebol sobretudo na questão da multirracialidade do Império, aproveitando o facto de haver muitos jogadores oriundos das ex-colónias.
P. Isso era usado para legitimar a presença portuguesa nas colónias?
Completamente. Numa altura em que havia enorme pressão internacional no sentido do reconhecimento da independência das colónias, o futebol apresentava essa presença de forma positiva, dando a entender que existia respeito pelos colonizados e uma grande multirracialidade, o que não era verdade.
P. Como é que o futebol, na altura como agora, reproduz a ideia de nação?
O futebol propicia a criação da tal unidade nacional, que é a pedra de toque do nacionalismo, fazendo-nos crer que somos todos iguais, todos portugueses e todos juntos. E esse é o grande perigo, porque esse discurso de unidade facilmente faz esquecer as tais diferenças que são salutares. E porque o futebol faz a tal representação da nação como interesse supremo é que muitas vezes o discurso reproduzido pelos jornalistas e também pelos políticos coloca o interesse da selecção acima de todos os outros interesses, dizendo, em termos simbólicos, que o que interessa é a nação. Aliás, se há ideologia bem sucedida é o nacionalismo, que é apresentado como mais importante do que a própria vida.
P. Que consequências é que isso pode ter no viver colectivo?
O caso português é muito interessante porque faz parte de um conjunto de países em que a identidade nacional está muito ligada ao futebol. E isso decorre, como dizia o [sociólogo] Boaventura Sousa Santos, do défice de produção de cultura e de identidade nacional, na escola e a vários níveis, por parte do Estado português.
P. Que se serve do futebol como muleta para colmatar essa falha?
Sim. E chegamos a esse ponto simbólico que é o Euro 2004, que traduz uma grande e quase patética imaginação do centro: estamos nós a tentar fazer parte do centro. E depois vemos os políticos, que detêm as responsabilidades, a falarem permanentemente da sua importância na auto-estima dos portugueses. É algo que a mim me choca profundamente. Sou um grande apaixonado por futebol, mas acho muito grave ver a auto-estima dos portugueses dependente de um evento futebolístico.
P. Até porque o futebol é um jogo todo ele dominado pela arbitrariedade: a sorte e o azar...
... E por uma bola de futebol que bate num poste e pelo mau momento de um jogador. Estamos a atravessar um momento de total futebolização da sociedade portuguesa. E havemos de pagar um preço, nomeadamente depois do Euro 2004, por esta excessiva importância social e política do futebol, que é ditatorial e asfixiante. Não faz sentido que o futebol profissional, que tem supostamente tantas potencialidades económicas, seja apoiado pelo poder político. O que faz sentido é apoiar o futebol amador.
P. Haverá aqui uma inversão da lógica inicial? A nação usava o futebol para se legitimar e agora é o futebol que se impõe à política.
Na medida em que os políticos esperam que o apoio aos clubes se traduza em votos no dia das eleições. E isso também se passa devido à tal simplicidade do futebol que permite que a maior parte das pessoas o compreenda e se sinta capaz de discutir e de manejar os conceitos. Note que a maior parte das esferas mediatizadas surge como complexas e difíceis de interpretar pelas pessoas, enquanto o futebol é muito simples e por isso é que há tantos treinadores de bancada: as pessoas sentem que controlam esses factores. Para os políticos, a colagem ao futebol é também uma maneira de se tornarem compreendidos.
P. O que é que o futebol português, dentro e fora do campo, diz daquilo que somos?
Por um lado, vemos uma concentração do poder à volta de três clubes. E o facto de os três grandes terem ganho 97 por cento dos títulos diz muito acerca de uma sociedade conservadora e imobilista. E mesmo o Belenenses e o Boavista são clubes das grandes cidades (Lisboa e Porto, respectivamente), o que traduz uma litoralização, uma desigualdade brutal em termos territoriais e sociais.
Depois: como é que um fenómeno social que consegue fazer parar o país várias vezes ao ano e abre telejornais e bate recordes de audiência e tem capacidade para vender mais de 300 mil diários desportivos por dia não consegue ter nos estádios mais de uma média de cinco mil espectadores por jogo? O que é que isso diz acerca do processo de mediatização brutal na sociedade portuguesa? O que é que isso diz acerca da participação dos portugueses nas coisas ou da sua acomodação? Acho que diz muito.
P. Então o que é que se está a jogar verdadeiramente no Euro 2004?
O que se devia estar a jogar era um Campeonato da Europa de Futebol, que é realmente uma festa fantástica. O que me parece é que, ao mesmo tempo, se está a jogar essas representações de pequenez e de grandeza, de decadência, de fazer parte do centro...
P. O investimento de dinheiros públicos no evento está à espera de ser justificado com uma vitória portuguesa?
Sem dúvida.
P. O que é que acontece num cenário de derrota?
Há aqui duas coisas diferentes: organização do campeonato e aspecto desportivo. É mais aceitável que corra mal em termos desportivos - embora me preocupe a forma como foi concebida a ideia de que a auto-estima dos portugueses poderá ficar muito melhorada com uma vitória - do que na própria organização do evento. Se a organização falhar, se houver problemas de segurança, então sim, será grave. De resto, não faz sentido que Portugal, com as suas lacunas em termos económicos, organize um campeonato desta dimensão. Os outros países que organizaram campeonatos europeus são centrais: a França, Alemanha, Inglaterra... A Holanda e a Bélgica optaram por organizar juntas o campeonato.
P. A Inglaterra, por exemplo, tem diários desportivos?
Não. Tem imensas revistas e semanários de desporto, mas, em termos de diários, há jornais generalistas com secções de desporto.
P. E como explica o facto de em Portugal haver três diários desportivos?
Talvez porque o futebol cumpre funções muito mais vastas do que seria desejável e racional. Isso decorre também da tal incapacidade de o Estado promover políticas de cultura, de desporto que não só o futebol, de educação. É um factor do nosso subdesenvolvimento.
P. Pode-se dizer que o futebol tem um efeito terapêutico na vida das pessoas?
Não sei se é terapêutico, é com certeza factor de excitação numa sociedade cada vez mais inexcitante, em que as emoções são cada vez mais controladas. Há todo um processo civilizacional que leva ao controlo dos comportamentos e a uma redução cada vez maior dos espaços de transgressão. Nessa medida, o futebol permite um descontrolo controlado das emoções. Mas tenho um cuidado brutal em não me deixar apanhar pelo discurso legitimador, porque o futebol não pode ser tudo na vida, tem que haver outras formas de êxtase.
P. E tem os ingredientes de que se compõe a vida: a arbitrariedade, a sorte e o azar, a meritocracia.
Porque funciona como uma condensação simbólica das sociedades é que o futebol tem tanta popularidade. E tem, além dos factores que referiu, um elemento neutro, o árbitro, que nos permite justificar as derrotas. Se não houvesse esse bode expiatório, seria terrífico, insuportável para algumas pessoas. Aquele senhor que está ali permite que a derrota nunca seja total.
PERFIL
O adepto racional
João Nuno Coelho, 34 anos, foi pioneiro na eleição do futebol como objecto de estudo em Portugal. Sociólogo desde 1993, soube fintar os narizes torcidos da academia e hoje tem três livros publicados sobre a matéria. O primeiro, "Portugal, a Equipa de Todos Nós - Nacionalismo, Futebol e Media", saiu em 2001 e valeu-lhe o prémio do Centro de Estudos Sociais para Jovens Cientistas Sociais de Língua Portuguesa. No ano seguinte, arrisca uma história do futebol português no livro "A Paixão do Povo", em parceria com Francisco Pinheiro. A mesma dupla regressou, no início deste mês, às livrarias, com a publicação de "A Nossa Selecção em 50 Jogos".
Comum às diferentes publicações é um discurso desempoeirado e uma recusa de olhar o futebol enquanto fenómeno limitado ao relvado. Se calhar porque o seu conhecimento sobre o objecto de estudo vai muito para além da mera perspectiva teórica: além de frequentador assíduo dos estádios, João Nuno Coelho é treinador numa escola para miúdos até aos 10 anos de idade. Afinal, como dizia Ernest Hemingway, só quem vive as coisas pode aspirar a compreendê-las e essa é uma máxima que o sociólogo segue religiosamente. Ou não considerasse ele que as investigações académicas só fazem sentido quando partem de inquietações. No seu caso, a inquietação advém da época em que, ainda miúdo, acompanhava os passos do pai até ao Estádio das Antas. Dez anos de estudo, garante, permitiram-lhe racionalizar a sua condição de adepto. A paixão pelo FC Porto, essa, mantém-se intocável.
Destaques:
A identidade nacional está ligada ao futebol devido ao défice de produção de cultura e de educação por parte do Estado
O Euro 2004 traduz uma grande e quase patética imaginação do centro: estamos nós a tentar fazer parte do centro.
não estrutura o futuro, não ensina o passado, não desvenda o presente. Mas a este alegra-o (ou entristece-o).
Daí o prazer que retiro de uma derrota alemã. Sempre. Porque lhes entristece um bocado o presente. Ou muito.
Preconceito meu? Sim, claro. Mas não só. Reacção à arrogância, à superioridade que do alemão desponta. Não lhes é universal? Claro que não. Mas (muito) recorrente. De uma superioridade racional. De uma superioridade de princípios. Talvez não moral, pois o longo século XX alemão não lhes permitirá a reclamação de uma superioridade moral. Mas de superioridade de princípios activos.
Estou no futebol, apenas. Nesse imperfeito espelho das coisas.
O jogador alemão de que mais me lembro é Karl Heinz Rumenigge. O avançado que no Mundial de 1982 dizia aos jornalistas que todas as mães alemãs gostariam de ter um filho como ele: alto, louro, olhos azuis. A FIFA mandou-o para casa, para pensar nos ecos da filhadaputice que tinha dito? Não, nada disso. Foi até à final. (Hoje, com toda a luta contra o racismo no desporto, talvez tivesse sido diferente).
O jogo alemão de que mais me lembro é um Alemanha-Portugal (6.9.97). Apuramento para o Mundial de França, se Portugal ganhasse eliminaria a Alemanha, com todos os prejuízos para a organização que se podiam prever. Este foi o jogo em que Rui Costa foi expulso quando ia ser substituído, Portugal ganhava 1-0. O homem ia saindo algo lento mas nada demais. Nunca tinha visto nada semelhante, nunca mais vi nada assim. O árbitro era (claro) francês: Marc Batta. Ali a corporização explícita do eixo euro-estruturante Berlim-Vichy, perdão, Bona-Paris.
Depois dessa infame roubalheira Batta viria nesse ano a apitar a final da Taça Uefa. Condigna recompensa aos bons serviços prestados. A quem já tinha carregado os anfitriões ingleses às meias-finais do Euro-96, roubando descaradamente a Espanha. Um bom árbitro para as ocasiões, n'est-ce pas? O homem a chamar para os momentos difíceis.
O evento desportivo alemão de que mais me lembro é o da escolha do país hospedeiro do Mundial-2006. No final aparentemente a candidatura alemã estava perdida. Mas na votação supresa geral: o velhote representante da Oceânia votou contrário às instruções da sua federação, favorecendo a Alemanha, assim invertendo o resultado, possibilitando uma vitória tangencial. Logo foi ele suspenso na sua sede, mas qual o problema? Acautelado estava já o final da carreira no dirigismo, tão óbvia e escandalosa malandrice aquilo foi.
Hoje os alemães amantes de futebol estão tristes? (nem deviam, bastava um árbitro honesto no jogo com a Letónia, que marcasse as grandes penalidades contra a Alemanha, e hoje já estariam livres de ilusões). Pois ainda bem! Aleluia. Que merecem todas as tristezas. Das da bola, digo.
Mas preparemo-nos. No próximo Mundial, em casa, sob a capa daquela magnífica organização, dos princípios, do rigor, vai ser um fartar vilanagem. Vilanagem técnico-científica, não o festim amador a que estamos habituados entre a rapaziada.
Viva a Letónia. Viva a Checa. Viva a Holanda.
E viva o Becker, a avisar o mundo que não lhes entregassem os Jogos Olímpicos, que lhes viria o fundo ao de cima. E viva os beckeres que por lá ainda devem ser muitos. Esperemos! Esperemos! Roguemos.
Ainda anteontem estive em gabinete alheio em discussão política, a articular argumentos com colegas moçambicanos. Encalhei no Fernando Rosas, ali defendido como político. Não, não apenas como historiador, apesar de estarmos abrigados em corredores académicos. Abreviei, para quê?, a 11 000 kms de distância a discutir com gente tão amiga o meu ranger de dentes com estes estalinistas/trotskistas mas "livres pensadores", tão giros ao espelho vão eles.
Ficámo-nos pois, os meus amigos com o Rosas do BE e eu sem ele.
Amanhã ou depois vou levar, bem impresso, esta maravilhosa entrada do Jaquinzinhos, dedicado ao ilustre professor e activista político. Para lhes dar durante o cafezito da manhã. Mas sem discussão seguinte.
Que a minha maldade não chega a tanto.
Há meses as declarações de Luís Villas Boas, presidente da Comissão de Acompanhamento da Lei da Adopção, tiveram grande repercussão. Aqui escrevi sobre elas, primeiro criticando-as e em seguida aqui colocando um texto antigo sobre a questão da adopção por homossexuais. Tinha-o escrito em Lisboa, induzido por um artigo de Miguel Vale de Almeida publicado no Público em Junho ou Julho de 2002.
Não me quero repetir. Mas como então tinha o Ma-schamba muito menos visitas deixo curtissimo resumo. Grosso modo achei infelizes e medíocres as ideias expressas por Villas Boas. Quanto ao fundo da questão dizia (e digo) que se a reprodução é um direito individual, ainda que socialmente codificado, como impedir as pessoas de o realizarem? Quanto à reprodução assistida e à adopção já são socialmente (no sentido de institucionalmente) delimitadas e executadas. E nesses casos sou contra o direito dos casais homossexuais. E lá expliquei a minha ideia. Boa ou má. Imbecil ou clarividente. Ou média, talvez acima de tudo média.
Há uma semana o Bota Acima ecoou estar colocado numa lista de homófobos. Tive curiosidade e fui ver que coisa seria.
E lá estou. Uma organização chamada Obra Homossexual incluíu o Ma-Schamba no Index de Homófobos.
Fico-me? Apenas desprezando? Ou resmungo, até insulto? Tratando tal "obra" como outra qualquer destas "obras" coorporativas que por aí pululam? Acho que calar-me seria o cúmulo do preconceito. Esse sim homófobo. Não, não me fico, trato esta baixeza como outra qualquer.
Irrita-me gente que faz listas negras. Neste caso sem discussão nem argumentação. Num apenas "Quem não está ca'gente é inimigo". E logo vai para a lista com o cognome adequado.
Não me interessa que grupo é. O processo mental é sempre o mesmo. Terrorista. Insultável. Seja minoritário, seja maioritário.
Desprezo? Sim, claro. E radical. Mas não por serem homossexuais. Sim por serem assim.
Nota: para que não venham com reduções literais está aqui Homofobia, substantivo, é a rejeição ou aversão a quem seja homossexual ou à homossexualidade.
Sou, assumidamente, "terroristófobo".
ADENDA: Elucidativo do carácter dessa gente, e para quem não vai aos comentários, aqui reproduzo o que o Lutz do Quase em Português comenta/informa (para meu maior espanto): "O que realmente diz tudo sobre os autores deste blogue, é que o Paulo Gorjão, pelo simples facto de ter recomendado a leitura dos teus posts, também consta na lista negra!". Sem comentários.
Há que saber ganhar, bem mais difícil do que aprender a perder. Mas isso não invalida a obrigatoriedade de visitar esta maldade com que o Povo de Baha'i nos brinda.
Machado da Graça! Jornalista. Cronista. Humorista. Crítico. Cáustico. Sacana.
E editor. Tradutor. Escritor. Actor. E decerto mais algumas coisas. Assim o apresento às visitas deste Ma-schamba que não o conheçam. Pois colaborador amigo, o que muito me agrada. E o melhor ainda está para vir, como verão nas próximas semanas.
Mas claro, homem com defeitos, fragilidades. Hedonista materialista Machado é, apesar da sua sábia experiência, cego e surdo às realidades transcendentes. Aos destinos traçados pelas invocações. Que o Ma-schamba vos tem demonstrado. Que o Ma-schamba vos tem proporcionado. A que o Ma-schamba tem apelado.
É esse seu desconhecimento que o fez enviar-me este aviso, "Porque é que Portugal não vai ganhar o Europeu", chama-lhe ele, julga-o ele.
Acolho-o reconfortado. Pois os espíritos escrevem direito por linhas tortas. E estão, via Machado, a anunciar a força dos poderes xamânicos nossos aliados. A acalmar-nos, pois tudo foi tratado.
Aqui vos deixo o "Porque é que Portugal vai ganhar o Europeu", a ver por ordem claro está.



Hoje o Machado da Graça enviou-me esta crónica. Deliciosa:
O Xanana Gusmão fez anos aqui em Moçambique. 58. Nascido em 1946 (foi um bom ano para nascer. Eu próprio também o utilizei para esse efeito).
Ontem houve um encontro com ele. Moçambicanos e timorenses todos de fato e gravata (excepto eu, é claro). Ele chegou de Tshirt às riscas. Cantou-se os parabéns e ele cortou o bolo.
Mando-te foto exclusiva do momento.
Machado

Nota: bem que me podiam ter convidado.

[oferta de Machado da Graça]
E muito a propósito, agora que a IURD quer construir uma catedral na Julius Nyerere.
João Tunes do Bota Acima dedicou-me um texto, ainda que não me nomeando explicitamente. Como acho que as pancadas, mesmo que deste calibre, devem ser totalmente às claras aqui fica a ligação. Sem mais...

[Évora, Set. 97]

[Bazar, Ilha de Moçambique, Jul. 98]
(Mais uma dádiva ao Ma-schamba do Tó-Mané Botelho de Melo)
Do Nascer do Metical
António Botelho de Melo
Savana, 18.6.04
As gerações mais jovens que hoje estão aqui connosco, mais de metade das quais nasceram muito depois dos eventos abaixo referidos, pouco ou nada sabem deste projecto, inerente à construção do Edifício Nacional, que foi a introdução do Metical em Moçambique, algo extremamente delicado e sensível, como aliás foi observado quando se introduziu o Euro em partes da União Europeia há cerca de três anos, sendo que aquando da introdução do Metical, não havia praticamente qualquer aparato em termos de meios logísticos, de comunicações, e informáticos que apoiaram, neste caso, a mudança para o Euro.
Foi uma ocasião que ninguém que passou por ela esquecerá, em que se destacou uma enorme capacidade organizativa e participativa, extremamente sigilosa, gerida na altura a partir da direcção do Partido Frelimo e do Governo, por forma a que fosse reduzida ao mínimo a chance insucessos da operação.
Houve autênticas epopeias de sacrifícios consentidos pelos jovens na época e velhos de hoje, muitos deles que já não vivem. Hoje é interessante falar das várias fases ou frentes do processo que nortearam a operação do Rovuma ao Maputo e como tudo foi desencadeado noutras partes do País.
Na altura, quantas histórias não se ouviram. O impacto em toda a população, a nível nacional, foi enorme. O pânico dos que guardavam as suas poupanças nos colchões, os sacos e sacos de dinheiro para trocar e como reagiram ao processo, os constrangimentos psicológicos, a sua abordagem no processo de troca nos balcões da banca nacionalizada, tudo isso todos sentiram na pele.
Em Tete, por exemplo, a troca e a recepção de todos os Escudos e entrega de Meticais provindos das equipas constituídas, foi feita a partir da Cidade de Tete. Esta operação foi do conhecimento antecipado do Gerente da Filial de Tete. Havia apoios por forma a organizarem-se equipas a serem integradas nas brigadas distritais chefiadas maioritariamente por Directores Provinciais do BM. A coordenação da operação a nível nacional envolvia o Governo, a Administração do Banco de Moçambique, o Serviço Nacional de Segurança Popular e a Força Popular de Libertação de Moçambique.
No dia 15 de Junho 1980, um domingo, foram convocados e concentrados em locais pré-definidos todos os elementos das equipas para estudo dos documentos e impressos a serem utilizados no período da troca de moeda. Uma tipografia escolhida para a produção dos impressos foi selada com os operários lá dentro pela tropa durante dois dias, tendo os empregados que dormir no chão, as suas famílias ansiosas pelo que se passava. As restantes pessoas convocadas não tinham conhecimento prévio do que se passava e a apreensão sentia-se naturalmente. Havia tropa por todos os lados para proteger os valores em circulação e a logística. À meia-noite desse domingo, dia 15 de Junho de 1980, todos ouviram na emissão nacional da Rádio Moçambique o discurso do Presidente, Samora Machel à Nação, em que se revelou o objecto das movimentações. Samora Machel formalmente decretou o fim de circulação da moeda em Escudos e a introdução do Metical como moeda de circulação nacional.
A designação da moeda - o Metical - deriva do nome de uma moeda de troca utilizada nas transacções entre as populações em partes de Moçambique algumas centenas de anos antes (aparentemente uma pitada de ouro aluvial enfiada na parte oca de uma pena de ave).
Findo o anúncio presidencial (formalizado nas Leis 2 e 3/80) foram então dadas as instruções a todas as equipas. Durante a noite, fizeram-se os preparativos.
Seguramente, dormiu-se mal nessa noite.
Às sete horas da segunda feira seguinte, dia 16 de Junho de 1980, arrancou o processo junto das populações, algumas das quais haviam sido avisadas previamente pelas estruturas locais da Frelimo. Todas as brigadas estavam já no terreno (nas cidades, distritos, localidades) já prontas para a operação, que consistia em trocar, nos caixas e nos locais de troca, apenas o equivalente, em Meticais, de cinco contos. Assim, cinco mil Escudos de Moçambique colonial (Moçambique tinha as suas próprias notas e moedas, diferentes de Portugal “continental”) dava cinco mil Meticais - que, por tradição, o povo continuou a até hoje a chamar “cinco contos”. Para os restantes Escudos que as pessoas tinham em sua posse, era passado um recibo de entrega do valor, que seria creditado em conta após averiguação da sua proveniência, o que em muitos casos era assunto considerado muitíssimo problemático para quase toda a gente com algum dinheiro, dadas as circunstâncias sociais de “vigilância revolucionária” e possibilidade de acusações de sabotagem, traição, etc. O saldo na conta do titular era automático.
Naturalmente que houve imensos problemas. Houve pessoas, principalmente comerciantes mais abastados da diáspora asiática, que mandavam os seus empregados e familiares trocarem os tais cinco contos, como forma de contornar as restrições e não dar nas vistas. Houve brigadas que, à boleia de carroças de bois com sacos de dinheiro, enfrentaram animais selvagens, leões e elefantes principalmente. Houve o caso de dois cidadãos em Angónia que morreram de ataque cardíaco porque não se recordavam aonde haviam enterrado o seu dinheiro. Houve sacos de dinheiro novo esquecido nos comboios em Mutarara e que acabaram sendo resgatados na Beira. Houve desvios, algumas pessoas penalizadas pelo aproveitamento ilícito da situação.
No entanto, consideraram-se satisfatoriamente concretizados os três grandes objectivos estratégicos: trocar a moeda sem grande impacto no quotidiano das populações, evitar-se a introdução de moeda falsa no processo de troca, e retirar-se a capacidade de manobra a indivíduos ou grupos considerados opostos ao processo em curso e supostamente detentores de vultuosas quantias em notas do tempo colonial, que estariam a utilizar em esforços de desestabilização (o sucesso aqui foi relativo: pouco depois o governo de Ian Smith entregava via Lancaster House o poder a Robert Mugabe e a África do Sul já na era do “Grande Crocodilo” - Pieter Willem Botha - passou a apoiar esses esforços, com as consequências que se conhecem).
Nessa altura houve muita gente boa que, a troco de nada, e face às dificuldades que então havia, aderiram com evidente sentido de patriotismo nesta que foi uma das operações pós independência mais sigilosas, bem organizadas e provavelmente mais bem sucedidas.
Exactamente um ano depois, em 1981, o General Alberto Chipande, em farda militar solene, liderou uma cerimónia simbólica do “enterro” do escudo colonial, incinerando perante uma audiência e um fotógrafo da “Tempo”, uns largos maços de notas de Escudos dentro de um caixão - que hoje, ironicamente, renderiam dezenas de milhares de Euros nas feiras numismáticas em Portugal.
E assim se fez um pouco a História

Irritou-se Luís Figo com as críticas que a ele e a outros dos "mais velhos" são feitas. [artigo abaixo transcrito]
Não gosto da forma, mas concordo em absoluto com o que disse. Nem discuto se deve ou não ser titular (Deve!!!!). Mas irrita-me, enoja-me, essa gente cuja forma de amar os seus ídolos é esgravatar-lhe os pés gritando ser barro o que boa e sofrida carne é.
Mole mesquinha, frustrada. Onanista de alma. Que tanto gozam o sucesso dos seus como se comprazem no seu falhanço, este o bálsamo para a inveja que logo têm de qualquer vizinho que suba um bocadinho para lá da taberna do bairro.
Figo foi há anos para Barcelona. Juntou ao grande talento um grande trabalho. Alma ou raça, chamam a isso. Por lá assumiram o profissional como um deles, reconhecendo-o. Quando ele que era o melhor quis ser pago como os melhores negaram-se. Porque tinham determinado que "ele era um deles". Cumprindo o contrato foi embora, para onde pagam ao profissional como a um dos melhores, que o é. Mercenário, "pesetero" chamaram-lhe os antigos patrões.
Ele explicou, é um português, o seu clube é o Sporting, foi apenas profissional (como sempre o foi, e bem), chamar-lhe ali "traidor" é um contra-senso. Não só porque o futebol é negócio. Mas porque ele não traíu ninguém. Mudou de patrão. A fidelidade que lhe exigiam só em Lisboa o poderiam ter pedido. E ainda assim...
Qual a reacção do tuga de merda? Engrandece-se com estas declarações, num "assim sim"? Não, resmunga-lhe o êxito que ele próprio não tem na vida, a Mariazinha a infernizar-lhe a vida em casa, ou o Sr. Santos lá no emprego. Assume-se ele próprio catalão, chama-lhe pesetero, chama-lhe traidor. Porque todo o Figo lhe dá a alegria do triunfo de um dos seus e a tristeza, horrível, do espelho da sua mediocridade.
E agora dizem-no "prima dona", "acabado". Mas não se lembram da estrela, milionária, carregada de triunfos, a rojar-se no chão lá na anarquia da Coreia, lesionado a correr atrás da bola como mais ninguém? O que mais queria ganhar, ele que tão mais tinha ganho do que todos os outros. "Prima dona"?
Resmungam-lhe os patrícios a inveja que sempre tiveram a todos os campeões. Nem à Rosa Mota perdoavam, despejando diante do marido-treinador. A salvo dessa má-língua apenas o gigante Agostinho. Ainda que se rissem da bicicleta no portão da maison. Mas perdoavam porque ele nunca mais acabava, quarentão sem fraquejar, e depois morreu. E porque tão simples, tão simples, que o julgavam ainda como no princípio, ainda o simplório de brejenjas.
Que isto todos os que sobem acima do seu lugar têm defeito, a cada um como cada qual, tugazinho conservador, tugazinha invejoso, tugazinho "tudo como Deus manda", a ordem natural das coisas.
Viva Figo!!!
E espero, e exijo, que dentro de alguns anos, quando ele quiser, já mais velho, mais lento, mais cansado e magoado de todas as porradas, regresse ao Sporting para terminar a carreira. E que todos nem discutem, libertem logo o nº 7. Para ele. Porque o futebol é ele.
E que eu esteja lá com a Carolina. E com mais alguém se brotar. Para lhes mostrar que há gente. De talento e trabalho. Livre, por isso.
E nesses dias, lá na bola, lhe(s) ensinar o que há de mais precioso: o que desde que se vá em pé "Que se Foda a Taça!!"
Viva Figo!!
Portugal joga amanhã contra a Espanha
Luís Figo pede mais respeito pelos "históricos"
Publico
19 Junho 2004
Luís Figo pediu hoje respeito pelos jogadores mais antigos da selecção portuguesa, na véspera do jogo decisivo contra a Espanha, que Portugal precisa de vencer para chegar aos quartos-de-final do Euro 2004.
"Não tenho razão de queixa de ninguém, pois cada um pode opinar sobre o que bem entender, mas não admito que pessoas de outras actividades não tenham respeito para comigo, pois eu também não opino sobre agricultura, pescas ou cinema", afirmou o jogador do Real Madrid.
"Tento estar um pouco à margem, mas às vezes certas coisas fartam um pouco. Somos ser humanos e queremos algum respeito, eu e vários companheiros que estão há mais tempo na selecção", explicou Figo.
O médio português não estranhou as provocações que vieram de Espanha: "Não me surpreende que isto aconteça, pois é normal em jogos importantes, que podem decidir-se em pequenos pormenores. Estão a tentar desestabilizar e desconcentrar. Há coisas vindas de Espanha e outras de Portugal que tentam criar conflitos entre nós, só temos é de ser fortes", enfatizou o número sete da selecção, que conta 106 internacionalizações "AA".
Do primeiro para o segundo jogo Scolari procedeu a quatro alterações no onze e Figo ficou como único sobrevivente da "geração de ouro" do futebol português, que conquistou dois títulos mundiais de juniores em 1989 e 1991."Em termos tácticos e técnicos não entro, pois não vou comentar as opções do treinador. Estou aqui para jogar e mais nada do que isso", disse.
Quanto à entrada de Deco para o lugar de Rui Costa, Figo considerou que o médio do FC Porto "é sempre uma mais-valia para qualquer equipa, como são todos os elementos que não puderam actuar frente à Rússia."
Já quanto as palavras de Scolari, que utilizou termos como "guerra" e jogo de "vida ou morte" para qualificar o encontro de amanhã frente à Espanha, Figo afirmou que se lhes está a tentar dar a conotação errada: "É apenas uma forma de expressar o grande significado do jogo, nada mais do que isso".
A finalizar, Luís Figo sossegou os jornalistas espanhóis quanto à arbitragem de Anders Frisk diz: "Não têm de recear nada, pois nós não temos tanta força como pensam. Em termos gerais somos sempre prejudicados."
destes que andam cá fora a ganhar a vida. Foi lá nas Arábias, uma dessas minas que por aqui e ali brotam no caminho de quem sai dos trilhos que lhe querem. Dele fico a saber o nome, António José Monteiro Abelha, de Elvas. E imagino-o, decalcando-o de outros nós que nos vamos cruzando. Desses rijos no fazer a vida, sem que tenhamos prosápias ou elogios públicos, sempre prontos ao "isto não há-de ser comigo", numa segurança do "só cá estou a trabalhar", a segurança risonha do esconjuro, segurança também arrogante, a arrogância honesta de quem aprende a torcer o destino.
É o meu minuto de escrita por Você, amigo Abelha.

Muitos desculpam a guerra como favoravel ao progresso humano, e dizem que, por meio d'ella, os homens que gosam privilegio de uma civilisação adeantada, aproveitam a sua força attractiva para arrastar os povos mais atrazados...
Eu admitto, apesar de tudo, esse modo de pensar. Consinto em acceitar que a civilisação conduz em si uma força activa e educadora. Mas pergunto tambem: onde reside a civilisação? Porque razão quereis que eu forçosamente a colloque na Europa?....
Ha quem diga que, na presente guerra, já que um ou outro povo tem de ser o vencedor, a justiça manda que o Japão seja o vencido, pois que os japonezes foram os primeiros a atacar.
Os que assim falam, estarão verdadeiramente certos de que o Japão tenha sido o aggressor?
Qual é o verdadeiro responsavel? O que dispara o primeiro tiro, ou aquelle que tem andado a exasperar o adversario, impellindo-o a uma desesperada violencia?...
E porque razão hão de os japonezes ser um povo inferior, como pretendem alguns? ... Seguem o seu caminho e adquirem a consciencia do que são e do que valem. Ha coisa mais legitima? Com que direito pode o Occidente impedir esse desenvolvimento?...
Á falta de outras razões, allega-se que a raça amarella está muito mais atrazada do que a branca, e accrescenta-se que a sympathia do branco deve estar, portanto, ao lado do combatente branco. Isto é simplesmente falho de toda a razão....
Mas nós, os europeus, conhecemos muito mal o mundo asiatico....
Os povos europeus apparecem em toda a sua barbarie quando intentam colonizar os que consideram selvagens. A França, a Allemanha, a Russia, a Italia, a propria Inglaterra no caso do Transvaal; todas as nações procedem de modo igual. Onde encontrar um pensamento de verdadeira civilisação na obra colonizadora da Europa?...
[Texto de há cem anos ??]

tempo do vinil, esse de casa da mana que eu, tão novo, novinho, ainda nem o tinha.
Tanta canção
"olha a voz que me resta...por favor, deixa em paz meu coração, que ele é um pote até aqui de mágoa..." (Gota d' água)
e, quando era eu menino, tanto estranhava o saber ele tão bem escrever como mulher. Para, afinal, crescer a saber que é assim mesmo, que não há diferença. Dessas...
Tanta canção
deixo aqui duas das tantas letras da minha vida. Da minha alma de vinil. Riscada até...
Com açúcar, com afeto
(1966)
Com açúcar, com afeto
Fiz seu doce predileto
Pra você parar em casa
Qual o quê
Com seu terno mais bonito
Você sai, não acredito
Quando diz que não se atrasa
Você diz que é operário
Vai em busca do salário
Pra poder me sustentar
Qual o quê
No caminho da oficina
Há um bar em cada esquina
Pra você comemorar
Sei lá o quê
Sei que alguém vai sentar junto
Você vai puxar assunto
Discutindo futebol
E ficar olhando as saias
De quem vive pelas praias
Coloridas pelo sol
Vem a noite e mais um copo
Sei que alegre ma non troppo
Você vai querer cantar
Na caixinha um novo amigo
Vai bater um samba antigo
Pra você rememorar
Quando a noite enfim lhe cansa
Você vem feito criança
Pra chorar o meu perdão
Qual o quê
Diz pra eu não ficar sentida
Diz que vai mudar de vida
Pra agradar meu coração
E ao lhe ver assim cansado
Maltrapilho e maltratado
Ainda quis me aborrecer
Qual o quê
Logo vou esquentar seu prato
Dou um beijo em seu retrato
E abro os meus braços pra você

Bom conselho
(1972)
Ouça um bom conselho
Que eu lhe dou de graça
Inútil dormir que a dor não passa
Espere sentado
Ou você se cansa
Está provado, quem espera nunca alcança
Venha, meu amigo
Deixe esse regaço
Brinque com meu fogo
Venha se queimar
Faça como eu digo
Faça como eu faço
Aja duas vezes antes de pensar
Corro atrás do tempo
Vim de não sei onde
Devagar é que não se vai longe
Eu semeio vento na minha cidade
Vou pra rua e bebo a tempestade
aqui transcrevo a crónica semanal do frequentador e patrocinador da Ma-schamba
António Botelho de Melo
"A Escolha Acertada"
14 de Junho de 2004
Esta semana tornou-se óbvio que, perante o acontecimento quiçá mais histórico para a Europa desde que os exércitos americano e soviético agressivamente marcharam para capturar a Berlim Nazi e, no processo, desfizeram o sonho do III Reich de Adolf Hitler, a reacção mais observável nos cidadãos europeus ao projecto europeu foi entre uma indiferença quase total e um ténue comentário em relação aos partidos políticos no poder nos seus respectivos países.
Refiro-me, especificamente, à eleição no passado fim de semana, para preencher os 732 lugares no Parlamento Europeu, um órgão supostamente primordial – seminal - da legitimidade do projecto da criação de uma versão tribal e sui generis de uns Estados Unidos da Europa – a União Europeia (EU).
Em Portugal, o torpor quase patético de uma campanha essencialmente o mais bocejante e patega possível, completamente inútil e obliterada pelo início do campeonato europeu de futebol, que ali se realiza graças ao avaliante esforço do célebre comunicador televisivo e agora alegado serial pedófilo Carlos Cruz, e por um fim de semana longo com “pontes” por tudo quando é de sítio (parece que foi tudo para a praia e para a casa de campo passar o feriado de 10 de Junho), foi só algo sacudido pelo sentimentalismo oportunista de alguns políticos, quando um candidato do Partido Socialista, o ex-ministro socialista António de Sousa Franco, o tal que entre a certitude das contas e e a emoção das questões sociais escolhia a segunda opção, morreu de um ataque cardíaco.
“Era um santo”, foi o consenso geral imediato. As televisões tentaram explorar o evento ao máximo, sem grande sucesso, pois o foco geral era naquilo que se tornou na inesperada derrota da equipa de futebol portuguesa perante a suposta e tecnicamente pindérica equipa da Grécia (por dois golos a um) e o ritualismo gótico e quase imperial que a viúva de Ronald Reagan, Nancy, achou por bem dar ao funeral do grande ex-presidente norte-americano, e que incluiu andar na CNN ao vivo a passear o caixão para trás e para a frente entre o Capitólio em Washington e a biblioteca presidencial em Simi Valley. Tudo isso vi no conforto abastado de um Holiday Inn em Sandton City, o principal centro do mundo com dinheiro em toda a África.
O que aconteceu foi que, em termos do que os políticos consideram desejável, a eleição em Portugal foi, no mínimo, desinspirada. Isso é confirmado por uma taxa de abstenção quase anedótica face a outros escrutínios. Na Polónia, que acedeu à União há pouco mais que um mês, cerca de noventa por cento do eleitorado escusou de se dignou votar. E supostamente lá não há praias algarvias. Os portugueses votaram mais – diz um artigo do Diário Digital de segunda-feira que se incomodaram nada menos que 3.393.670 eleitores portugueses. A percentagem dos votantes não chegou aos quarenta por cento.
Mais importante, ninguém parecia ler os resultados e tirar deles as devidas ilações políticas. O que parecia claro, sim, é que uma minoria politicamente activa (ou “activada”) achou por bem votar neste ou naquele sentido, tipicamente para mandar recados aos partidos no poder, mas a partir daí a indefinição era quase total. Essa minoria, como vem já sendo típico dos apetites do eleitorado português, achou por bem dar uma “tareia” política à coligação que governa, dando ao Partido Socialista e aos seus parceiros ideologicamente mais próximos, uma maioria qualificada – a maior desde o pronunciamento do 25 de Abril de 1974.
Estando Portugal a ferro e fogo em boa parte devido aos deslizes programáticos e orçamentais do PS do tempo do Engº António Guterres, tal é tão caricato como de esperar. Mais ainda se se tiver em conta que o Dr. Durão Barroso e a sua equipa, nestas circunstâncias particularmente delicadas, vêem-se forçados a ter de desmantelar uma boa parte do edifício socialista-nacional-porreirista que foi sobrevivendo estes anos todos e que tornou Portugal mais pobre e menos competitivo, em particular face à concorrência dos novos membros da UE.
Mas a verdade é que, apesar de imensa legislação comunitária estar já a emanar a partir do aparato que é o Parlamento Europeu em Estrasburgo, a instituição continua a ser vista como uma emanação exótica e obscura do aparelho político, à falta de uma África, Ásia ou Oceania distantes, um bom sítio para mandar políticos no ócio e/ou carecidos, ou merecedores, de uma bendita injecção de cash no bolso, com a vantagem adicional de ficarem também longe da casa para chatearem a sério.
Ou seja, de facto, para metade do eleitorado, a decisão, este domingo, de ir para a praia muito provavelmente foi a escolha acertada.
É no Cartas de Londres que encontro eco (meritoriamente opinativo) de editorial do New York Times [transcrito abaixo] relativo à situação do Sudão.
Que ao actual acordo de paz se suceda um urgente apoio face à situação dramática em Darfur, para o qual finalmente parecem mobilizados alguns governos ocidentais.
À nossa escala não posso deixar de dizer que um Estado que tanto (e bem) investe na organização de conferências UE-Africa poderia e deveria ter um papel mais activo, até sonante, em matérias realmente cruciais como esta o tem sido.
O caso do Sudão, tal como outros recentes e mais mediáticos, vem levantar mais uma vez a questão da delimitação do direito de ingerência dos organismos multilaterais. Que possa essa delimitação vir a impedir este maldito paradigma do super-tardio a posteriori.
Time for Action on Sudan
New York Times
Published: June 18, 2004
The United States and the U.N. secretary general have strongly condemned the vicious ethnic cleansing campaign sponsored by Sudan's government, which threatens hundreds of thousands of people with starvation before autumn. That's not enough. The situation demands strong action.
The civil war of the last two decades between Sudan's Arab Muslim rulers and the partly Christian south now appears to be ending, after a cost of some two million lives. But just as a peace agreement was being worked out, a new war erupted in the mainly Muslim region of Darfur, where non-Arab residents rebelled against Arab domination.
To suppress this revolt, Khartoum's autocratic clique of generals and politicians has backed a thuggish militia known as the Janjaweed, which has terrorized non-Arab communities. Women have been raped and branded, villages razed and crops destroyed. More than 15,000 people have been killed and about a million more driven from their homes.
Bush administration lawyers are busily studying whether this meets the legal definition of genocide, but that misses the point. Whatever you call it, the rising death toll could soon evoke memories of the tragedy in Rwanda a decade ago, when both the United States and the Security Council found excuses to stand aside while 800,000 died. That shameful failure must not be repeated.
Washington and the United Nations are working closely with Sudan to support the north-south peace agreement, for which the Bush administration deserves considerable credit. But both Washington and the United Nations need to convince Khartoum that they will not settle for a peace that permits terror and starvation in Darfur.
Sudan's government should cut off support for the Janjaweed and send its army to disarm these war criminals. It should allow international relief groups and human rights monitors access to the camps where hundreds of thousands of people now live under harsh and insecure conditions. And it needs to arrange emergency food airlifts until Darfur's people can return to their lands and provide for themselves. This will not happen without strong pressure on Khartoum, but in the Security Council, Pakistan, Algeria and China have been more interested in shielding Sudan's government from criticism than in protecting its people from starvation.
Washington can act on its own and with more enlightened partners, like the European Union. So far the administration has talked about imposing travel bans on Janjaweed leaders and freezing their assets. That is meaningless because none of those leaders are expected to try to travel to the United States, and none have assets anywhere Washington can seize them. It would be a more useful start to impose these and other penalties on Sudanese government officials until they move against the Janjaweed. Hundreds of thousands of lives may depend on quick, firm action
Zé Francisco comentou lá em baixo assim.
No meu país não acontece nada
à terra vai-se pela estrada em frente
Novembro é quanta cor o céu consente
às casas com que o frio abre a praça
Dezembro vibra vidros brande as folhas
a brisa sopra e corre e varre o adro menos mal
que o mais zeloso varredor municipal
Mas que fazer de toda esta cor azul
que cobre os campos neste meu país do sul?
A gente é previdente cala-se e mais nada
A boca é pra comer e pra trazer fechada
o único caminho é direito ao sol
No meu país não acontece nada
o corpo curva ao peso de uma alma que não sente
Todos temos janela para o mar voltada
o fisco vela e a palavra era para toda a gente
E juntam-se na casa portuguesa
a saudade e o transistor sob o céu azul
A indústria prospera e fazem-se ao abrigo
da velha lei mental pastilhas de mentol
Morre-se a ocidente como o sol à tarde
Cai a sirene sob o sol a pino
Da inspecção do rosto o próprio olhar nos arde
Nesta orla costeira qual de nós foi um dia menino?
Há neste mundo seres para quem
a vida não contém contentamento
E a nação faz um apelo à mãe,
atenta a gravidade do momento
O meu país é o que o mar não quer
é o pescador cuspido à praia à luz do dia
pois a areia cresceu e a gente em vão requer
curvada o que de fonte erguida já lhe pertencia
A minha terra é uma grande estrada
que põe a pedra entre o homem e a mulher
O homem vende a vida e verga sob a enxada
O meu país é o que o mar não quer
(Ruy Belo)
Aqui fica reprodução de "Carta a Jacinto Veloso", da autoria de Maura Quatorze e Machado da Graça (a quem agradeço a sua partilha), publicada no Mediafax de 16 de Maio de 2004 (nº 3052).
Texto relativo à problemática da exploração do património arqueológico subaquático em águas moçambicanas. E que surge, explicitamente, em diálogo com anterior entrada: Arqueologia subaquática 12.
***
CARTA A JACINTO VELOSO
Em resposta à sua carta, publicada no jornal O PAÍS de 12 de Junho de 2004, gostaríamos de dizer o seguinte:
Em relação aos princípios básicos que enuncia estamos de acordo com as alíneas a) (soberania moçambicana sobre navios e cargas naufragados nos nossos mares); b) (Exploração das estações respeitando as normas da arqueologia marítima e; c) (Recuperação dos bens e realização de estudos). Em relação à alínea d) não podemos estar de acordo por prever algo que, de acordo com a nossa interpretação da lei moçambicana, e a interpretação de juristas por nós consultados, é ilegal.
Na verdade não nos parece que a decisão do Conselho de Ministros, de 5 de Novembro de 1998, possa servir de cobertura à retirada da classificação de peças arqueológicas encontradas vários anos mais tarde.
É nossa interpretação que a retirada da classificação dos bens culturais só pode ser feita, pelo Conselho de Ministros, a posteriori, em presença das peças em causa e, peça a peça, através de uma peritagem que possa determinar se as peças são, ou não, de valor patrimonial. Ora, Segundo a Directora Nacional Angela Kane isso não foi feito. Continuamos, portanto, a pensar que a venda das peças no leilão na Holanda foi feita à margem da lei.
No que diz respeito ao facto de as peças exportadas serem duplicados de outras que ficaram para o espólio moçambicano, parece-nos fraco consolo, na medida em que é muito diferente possuir um prato Ming ou uma colecção de uma dúzia de pratos Ming iguais.
Concordamos que o ideal seria que se conseguissem financiamentos (por exemplo da UNESCO) para realizar o trabalho sem se recorrer à venda dos artefactos. Estará a ser feito algum esforço nesse sentido?
Igualmente nos parece que seria interessante o tal projecto de recuperação da nau portuguesa junto a Inhambane. Não estará o governo português disposto a uma parceria nesse sentido? Mais uma vez gostaríamos de saber se algum esforço está a ser feito nesse sentido.
Surpreendente, também, o facto de terem sido já feitas partilhas dos bens recuperados, na medida em que o próprio relatório da Arqueonautas, de Dezembro de 2002, afirma que “foi decidido que sem uma detalhada publicação das descobertas e escavações era impossível naquele estágio discutir a repartição da porcelana.” Ora não temos conhecimento de que tenha sido feita qualquer publicação sobre este assunto e é óbvio que as partilhas foram já feitas e a parte da Arqueonautas exportada.
Lamentável também que essas peças tenham abandonado o país e sido dispersas, através da venda em leilão, sem que os moçambicanos tenham tido a possibilidade de, ao menos, as verem numa exposição em Moçambique.
Lamentamos igualmente que só agora, depois de toda esta questão levantada, os moçambicanos tenham ficado a saber que possuímos um tão rico espólio de porcelana chinesa, conhecimento até aqui mantido no segredo dos deuses.
E isto introduz a questão geral da falta de transparência com que todo este processo tem sido tratado.
Na verdade o art. 6, ponto 1 do contrato entre o Estado e a Arqueonautas/Património Internacional, refere um segredo rigoroso e completo, muito para além da protecção dos locais prevista no art. 19 da Convenção da UNESCO que cita . Refere-se a todo o conteúdo do contrato. O público tem sido mantido na ignorância do que está a acontecer, com excepção de raros, e pouco informativos, artigos em jornais.
Em relação à questão da fiscalização, o problema nos parece mais grave. Segundo o relatório da Arqueonautas, as escavações propriamente ditas começaram a 25 de Outubro de 2001 e a nomeação do Dr. Leonardo Adamovicz como fiscal só foi realizada em 2003.
A situação atingiu mesmo o ponto, como sabe, de ter sido assinado um anexo ao contrato, a 18 de Junho de 2003, cujo art. 14 afirma que: “O Contratado é irresponsável e o projecto em desenvolvimento mantém-se ininterrupto e inalterável se o Contratante, ou qualquer entidade com ele relacionada, não providenciar a necessária equipa de fiscalização, conforme o estipulado no contrato”. Este anexo ao contrato foi assinado pela Dra. Ângela Kane, por si próprio e por um representante da Arqueonautas.
Ora este artigo, pura e simplesmente, afirma que o Estado moçambicano autoriza, por escrito, que os trabalhos se realizem sem qualquer fiscalização.
Debruçando-nos agora sobre o relatório produzido pelo Dr. Adamovicz verificamos que ele próprio foi colocado perante uma situação em que lhe foram negados elementos essenciais para o seu trabalho. Refere ele a:
a) Falta dos relatórios preliminares;
b) Falta de divulgação dos resultados parciais através dos mass-media;
c) Falta de envolvimento dos arqueólogos e técnicos nacionais;
d) Falta do plano de formação para futuros arqueólogos e técnicos nacionais na área da arqueologia sub-aquática.
Encarando ainda o relatório da Arqueonautas do ponto de vista científico, Leonardo Adamovicz refere ainda a:
a) Falta de documentação fotográfica das pesquisas efectuadas (no laboratório e no campo);
b) Falta dos mapas, ilustrações e exemplos das fichas básicas do registo.
Tudo isto nos diz que a questão da fiscalização é bem mais grave do que o simples ter tido momentos de maior presença no local do que outros, como refere na sua carta.
Isto se não partirmos logo do contrato inicial em que se define que a equipa de fiscalização será paga pelo Contratado. Isto é, por contrato os fiscais são pagos pela parte a ser fiscalizada! Mais uma curiosidade de um contrato tão cheio delas.
Termina a sua carta afirmando: “Fico à disposição”.
Muito lhe agradecemos, na medida em que desde o dia 1 de Junho temos vindo a insistir com a sua secretária no sentido de podermos ser recebidos por si, sem que esse encontro tenha sido possível até ao momento em que escrevemos esta carta (terça-feira 15 de Junho).
Porque achamos que as respostas devem ser dadas nos órgãos de informação onde foram publicados os textos a serem respondidos, enviamos esta carta para o jornal O PAÍS e, igualmente, para o SAVANA e o MEDIAFAX, onde levantámos a questão pela primeira vez.
Os nossos cumprimentos
Maura Quatorze
Machado da Graça
Traço peculiar da retórica falsificadora da III República é o da afirmação da igualdade dos cidadãos.
Desmentida na prática. O que não é estranho. Uma coisa é a lei (a igualdade diante da lei). A visão do mundo dominante, explícita (a igualdade dos cidadãos). Outra coisa são os processos sociais que implicam a distinção, hierarquização, desapossamento dos indivíduos reais. Não é preciso estudar sociologia para o saber. Só os mitómanos do mercado não o entendem. Alguns não o quererão. Mas a maioria destes não é intelectualmente capaz de o entender, não desmentem essa realidade por maldade, é mesmo e apenas incapacidade.
O que é radicalmente denotativo é que o próprio sistema político inscreva nos seus princípios e prática a diferenciação dos cidadãos. Já aqui o abordei: "Desde Abril durante décadas violou-se o princípio de igualdade de cidadania, uma prática anti-democrática devida a (afinal infundadas) querelas partidárias: os emigrantes não tinham direito a voto nas eleições presidenciais. Felizmente isso terminou, mas é bom não o esquecer para não mitificar os sentimentos democráticos, para se perceber quais os, por vezes ímpios, caminhos a que a partidocracia pode descer."
Sabe-se porque estavam os emigrantes privados do voto nas presidenciais. As razões então afirmadas eram vácuas, algo comprovado pela própria mudança da lei. Essa privação devia-se a dois temores: a) que votassem em massa; b) que votassem nos candidatos "errados". (Lembremos o semi-presidencialismo de então).
Duas décadas demonstrando a baixa taxa de votantes e a redução dos poderes presidenciais implicaram que o complexo político-partidário deixou de temer a influência emigrante e concedeu, magestático, o direito ao voto à totalidade dos cidadãos.
Porque regresso a este ponto (o delito da auto-citação)? Pois encontro em casa alheia uma lamento de patrícia sobre a impossibilidade do voto emigrante para o parlamento europeu.
Qual a razão para tal? Já não se poderá afirmar nenhum receio pela influência do voto emigrante.
A causa é a ausência de preocupação. A total falta de vontade, consciência, melhor dizendo, de necessidade em universalizar a cidadania.
A anterior proibição de voto nas presidenciais explicitava que a mesquinhez estratégica da partidocracia suplantava a ideologia igualitária propalada.
A actual proibição, inútil a qualquer estratégia, demonstra à exaustão a dissolução dos fundamentos ideológicos da República. Uma demonstração a dois níveis: conceptual, denotando o desprezo pela cidadania; prático (praxis, diria algum jargão), pois a ausência de capeamento desse desprezo deve-se, apenas, a uma indigente preguiça. A preguiça em legislar o voto universal, pois acredito que tudo isso se deve ao facto de que "ninguém se lembrou". Teria sido um acto nada custoso e que assim poderia esconder a ruptura ideológica deste sistema.
Uma ruptura em que os representantes não se revêem nos representados. E não vice-versa.
a querer-se anónimo, sobre a vitória frente à ex-pérfida Rússia:
"e que tenho para dizer?
que, as nossas mulheres estarão mais felizes e mais bonitas - para quem as cobiça (com ou sem propriedade), que os homens estarão mais machos, que Isto (não ouso escrever País, e muito menos Nação, - senão fujo, ou grito vivas à Globalização, introduzida pela Gabriela, Cravo e Canela) deve estar de alegrete, e com razão (porque os rapazes esforçaram-se, e nós merecemos), mas, o que é que Este Fado tem a ver com estas alegrias fátuas? tudo né?
nunca mais aprendemos a valorizar o trabalho, continuamos a adiar...
por ausência de seleccionador, que tenhamos Tomates para enfrentar a Fúria Espanhola, e que os nossos jogadores disfarcem a incompetencia do treinador e da FPF".
E eu remato, que à falta de coisa mesmo brinquemos às Aljubarrotas. Até à rouquidão, está claro...
Leio Vital Moreira questionando se Bush não deveria sofrer um processo de destituição por ter falseado dados. (artigo transcrito em baixo).
Não sendo cidadão americano não opino. Mas, e ainda que julgue serem casos com diferente enquadramento formal, não posso deixar de sorrir à memória de tudo o que passou Clinton quando foi acusado de ter perjurado naquele caso em que foi vítima de assédio sexual.
Enfim, coisas das leis.
Público (Última Hora)
17-06-2004 - 14h21
Por ter alegado ligações entre Saddam e a Al-Qaeda
11 de Setembro: "The New York Times" exige pedido de desculpas de George W. Bush
O diário norte-americano "The New York Times" defende hoje, em editorial, que o Presidente George W. Bush deveria "pedir desculpas" por ter justificado a guerra contra o Iraque com base na alegada ligação entre o regime de Saddam Hussein e a rede terrorista Al-Qaeda — desmentida ontem pela comissão independente que investiga os atentados do 11 de Setembro.
Sustentando que a comissão foi "o mais clara possível", ao afirmar que "nunca houve provas da existência de ligações entre o Iraque e a Al-Qaeda, entre Saddam Hussein e o 11 de Setembro", o influente diário nova-iorquino afirma que "o Presidente Bush deve agora pedir desculpas ao povo americano, que foi levado a acreditar numa coisa diferente".
O diário sustenta que, "de todas as formas usadas por Bush para convencer os americanos a apoiar a invasão do Iraque", "a mais desonesta" foi a de ligar a guerra com a luta contra o terrorismo internacional. "Se é possível que Bush e os seus colaboradores acreditassem realmente na existência de armas químicas, biológicas e nucleares no Iraque, sabiam durante todo esse tempo que não existiam ligações entre o Iraque e a Al-Qaeda", sustenta o jornal.
"Nenhum perito sério acreditava que essa ligação existisse", lê-se no editorial, recordando que Richard Clarke, antigo conselheiro do Presidente para as questões do contraterrorismo, afirmou publicamente que Bush tinha sido informado disso.
"Mesmo assim, a Administração Bush convenceu uma maioria significativa de americanos, antes da guerra, de que Saddam Hussein estava, de alguma forma, ligado ao 11 de Setembro", critica o jornal, lamentando que ainda esta semana, o vice-presidente, Dick Cheney, tenha afirmado que o ex-Presidente iraquiano "tinha laços estabelecidos há longo tempo com a Al-Qaeda".
Para o diário nova-iorquino, não se trata apenas de "uma questão de diminuição da credibilidade do Presidente, por mais perturbante que isso seja". O jornal vai mais longe e afirma que "a guerra contra o terrorismo foi prejudicada, na medida em que o conflito no Iraque desviou recursos militares e estratégicos de locais como o Afeganistão, onde realmente podem estar as forças da Al-Qaeda".
Há alguns anos escrevi o texto abaixo transcrito. Estava-se no final do consulado guterrista. O orçamento de estado ia para o 3º naquele ano, a lei da programação militar e a lei eleitoral tinham sido aprovadas de modo inconstitucional.
A opinião pública tomava conhecimento da existência de um pacto de décadas entre os partidos parlamentares. O seu objectivo: violar declarada e conscientemente a constituição, em sede de Assembleia da República. Aprovavam-se leis com menos votos do que aqueles que eram legalmente exigidos. Cada partido votava, contando não os votos expressos mas o número dos seus deputados eleitos. O apagamento da figura do deputado era radical. Essencial. Apenas um número. O seu partido votava por ele.
Nada percebo da aplicação de leis. Nem sei em que sede se julgará (ou se se julgará) uma violação da constituição. Nem sei se a imunidade parlamentar poderá ser levantada em tal caso.
Mas nunca li que estes factos tivessem sido invenção. Também nunca li que tivessem sido investigados e julgados (se caso disso). E que alguém tivesse sido punido ou inocentado por tão gravosa violação da lei máxima.
O texto abaixo não é grande coisa. Uma brincadeira ("a brincar a brincar"). Amarga.
Recupero-o agora. Talvez arranque um sorriso a algum leitor. Ganha estará a noite. Faço-o também como base para dois ou três apontamentos seguintes. Sobre o sistema político português.
Apontamentos amargos. De um leigo amargo.
P.S. - já agora, para algum interessado, o texto fala de Ajuda Pública ao Desenvolvimento, vulgo Cooperação.
“ARRANJA-ME UM EMPREGO”
Regresso de umas curtas férias nas montanhosas vizinhanças da África do Sul. Em Maputo deparo-me com os jornais quasi frescos chegados de Lisboa e embrenho-me em conversas de café, estas como é habitual reflectindo as notícias difundidas na RTP-África. E em ambos encontro, finalmente, hipóteses de trabalho em Portugal pelo que aqui estou a pedir-vos apoio para as concretizar, desculpem-me a ousadia e a maçada mas estou longe e há já muito, faltam-me os contactos, esquecido estarei pelos poucos que conheci, e os quarenta anos estão aí à porta, não há tempo a perder nos preparos do retorno à pátria.
Estou para aqui a pensar conforme à realidade que vivo, pelo que terei que me explicar. Sei que a maioria de vocês não tem grande conhecimento de África, para lá de uma ocasional viagem aos parques naturais ou às belas praias, da saudade de alguma estadia mais ou menos recente, ou de um escritor ou filme mais ou menos típico, um Agualusa, um Mogambo [onde a Ava Gardner e a Grace Kelly rivalizam por um caçador velhote, sacana]. Sei também que para muitos são estranhas as questões da Cooperação. E ainda que para muitos de vocês a política não merece mais do que o encolher de ombros que à política é devido. Por isso, e não para me armar em doutor, explico-me do modo mais curto possível.
É saber geral que África é subdesenvolvida, em especial a subsahariana, que antes se chamava Negra, mas agora não por razões de decência moral. Ora para melhorar as condições de vida destes povos africanos os países (mais) ricos fazem Cooperação ou seja, financiam projectos em áreas distintas como a Saúde, a Defesa, os Transportes, a Educação, a Economia, e um enorme Etc. assim procurando melhorar as condições de vida de toda esta gente.
Depois de décadas desta metodologia e face ao seu insucesso constante chegou-se a duas grandes conclusões:
- que o desenvolvimento não é só económico, tem que assentar nos factores culturais e sociais;
- que a democracia é o ambiente óptimo para o desenvolvimento, pela transparência de processos a que obriga e pela equidade da redistribuição das riquezas que implica.
Foi por isso que se aumentaram os estudos sobre as sociedades, suas histórias e culturas, sempre nelas procurando encontrar os obstáculos levantados ao dito desenvolvimento, mas também as forças que o possibilitem e dinamizem. A essas forças, positivas e negativas, chamaram-se sociedade civil.
Por outro lado apoiaram-se as democratizações, com eleições livres, parlamentos activos, separação de poderes. Enfim, tornou-se óbvio que o conhecimento sobre os povos aliado à bondade das instituições que os regem são o meio ambiente adequado para a melhoria das condições de vida.
Mas é certo que a democracia é como a relva britânica, leva uns milhares de anos a ser. E como as elites africanas estão ainda pouco maduras têm pouca experiência de gestão democrática, e às vezes não a querem. Tudo isto vem prejudicando o são desenvolvimento do continente.
Assim a ajuda económica, a Cooperação, está dependente da qualidade dos governos, ela exige e obriga à "boa governação", que não é só uma expressão mas um conceito dessas ciências políticas. Quando os Estados africanos se afastam da boa gestão e não cumprem as leis, logo os países que cooperam exigem mudanças, por via de pressões diplomáticas, económicas e, até, militares. Mas nem sempre esse mau goveno acontece por mal, muitas vezes deve-se apenas à incompetência. Deste modo a Cooperação também faz assistência técnica à governação, chamada Capacitação do Estado.
Nesta Boa Governação exige-se especial atenção às Eleições, para que os parlamentos e suas leis sejam legítimos e façam a paz social, à Defesa, para ultrapassar o descontentamento dos militares e as suas guerras, e às Contas Públicas, para evitar colapsos económicos e a corrupção, que está contra a equidade social, e torna os ricos mais ricos e os pobres mais pobres.
OK, desculpem mas fui longo! Mas era necessário. Pois leio e ouço que aí em Portugal o Parlamento está relapso, que as cruciais leis de Defesa e Eleitoral são anticonstitucionais e portanto ilegais, e que não há meio de conseguir fazer as Contas Públicas. Ora de acordo com o que resumi acima estamos exactamente num momento em que Portugal precisa de Cooperação, antes que comecem os cortes da ajuda económica como pressões externas exigindo a "boa governação". E é visível que em breve chegarão os consultores estrangeiros para ensinar a fazer leis, orçamentos e, até, eleições.
Mas isso não é assim tão rápido. Antes tem que se estudar a tal sociedade civil. Ora é para isso que me estou a oferecer. Decerto que por aí alguma Embaixada ou organização não-governamental estrangeira está já a desenvolver um grande projecto sobre os traços culturais portugueses que obstam à "boa governação": as autoridades tradicionais; o culto mariano; a destabilização identitária; a influência árabe e a tardia cristianização do sul; a genética celta; a diáspora; a etnicidade (perdão, os regionalismos); a personalidade colectiva e a saudade; a complexidade da raia; a catarse tauromáquica; as guerras napoleónicas; o exôdo rural. E, decerto, tantos outros temas pertinentes.
Ora nesta situação, e para além de falar bem a língua local, com toda a franqueza penso que estou capacitado para investigar sobre todos estes temas acima referidos (talvez não tanto no que toca à genética celta, mas aprendo). É por isso que aqui venho pedir-vos que me avisem, e que por mim intercedam, se souberem de consultorias externas para projectos de desenvolvimento nessa África sobresahariana.
Antecipadamente grato, um abraço
Dr. José Flávio Taveira Pimentel Teixeira
Licenciado em Antropologia Social
Pós-graduado em Cooperação e Desenvolvimento
Maputo, Novembro 2001
Há coisa de um ano o meu amigo Zé Guilherme enviou-me um email, lá de Portugal. Nele dizia que deveria eu abrir uma coisa chamada "blog" e colocou uma ligação a uma página chamada "blogger" que mostrava como construir um. Fazia-o, dizia ele, para que substituisse eu os emails colectivos com que ia incomodando gente minha conhecida - alguns deles aqui arrumados em arquivo, disponíveis na coluna da direita na secção "Arca", categoria "Roupa Velha".
[já agora, se há algo de interesse no Ma-schamba para além das reproduções de postais e fotos, é aí que poderá ser encontrado].
[já agora outra vez, é interessante ver que se tinha eu eco desses textos aportados a amigos/conhecidos todos esses se calaram face ao blog - exceptuando um até colaborador. Tinha razão o Zé Guilherme, andava a incomodar caixotes alheios].
Confesso que fiquei então tipo boi face a palácio, sem perceber nada do assunto. Mas passados uns dias, poucos poucos, comecei a ouvir falar de blogs. Por causa da fama do Abrupto e do Aviz, claro, e depois do Pipi. Tentei construir um mas não percebi o sistema. Chamar-se-ia Omaata, machamba em macua. Desisti. E, timorato, até recusei um convite para participar num blog de topo. Ainda levou um semestre a começar esta tralha amontoada, e então porque se constituiu uma equipa para tal, mas logo abortada.
Mas tudo isso foi depois da minha primeira visita a um blog. Essa primeira vez foi com o Aviz. E foi uma boa primeira vez.
Ontem ele fez um ano. Lá enviei postal. Agora faço aqui memória.
exame final, até brutal (que raio me deu?), uma aluna, jovenzinha de recém-chegada, terminado o martírio vem devagar junto de mim carregando alguns dos seus poemas. Caderno de manuscritos ainda rabiscados sob olhar até esperançoso de opinião alheia. Abalizada? Avalizada? Que julgará ela?
Tremo, angustiado. Num repente de fuga. Mas logo caio em mim. Acolho-a, não com o carinho que até julgo, mas sim com coleguice. Pois não é esta menina, ainda que o não saiba, ali uma bloguista amiga? A propôr um link?
Então vou ler e depois a href=....
de aniversário o Comprometido Espectador suicida-se. Lamento o acontecido, ainda que respeitando o direito radical do indivíduo à condução dos seus assuntos.
Ambivalente, fico até emocionado ao saber ter sido o Ma-schamba contemplado nas partilhas do falecido, por via de um elogioso elo mui selectivo. Bem haja tal espectador, um bom além ou seja, felicidades no blog-out.
[com dedicatória especial para o leitor (?) Carlos Morison]

[Maputo, data óbvia, meia hora depois. Fotografia de José Dor-de-Cotovelo]

[Maputo, data óbvia, 31 minutos depois. Fotografia de José Dor-de-Cotovelo]
é um organismo complexo: apaixonante e ineficiente. Cultural e preconceituoso. Projectivo e burocrático. Atenção, não estou a utilizar pares antagónicos. Pois nenhuma destas características invalidará outra.
José Pacheco Pereira é uma escolha muito feliz para representar Portugal. Que seja ele feliz no desempenho do cargo são os votos do Ma-schamba.
Foi o atento Miniscente que referiu a questão, há já alguns dias. Com lastro de ironia.
Refiro-me ao resultado da cimeira dos Ministros de Educação/Ensino Superior da CPLP: a assinatura de um protocolo para a criação em dez anos de um espaço lusófono comum de ensino superior (transcrevo abaixo notícia do Público sobre matéria).
Não ironizo aqui. Para tal seria necessário conhecer o documento. Ou seja, entender como estão previstos os mecanismos para "promover a mobilidade de estudantes, professores, investigadores e técnicos" dos países que partilham a língua oficial comum. Mas que têm tecidos universitários tão distintos. Tarefa hercúlea será tirar do papel o protocolo. Mas atenção, passos importantes poderão ser dados sob este guarda-chuva de objectivos. É esse o papel dos protocolos. Valorizemos pois o voluntarismo político. Se ( atenção, se...) for conjugado com a dotação de instrumentos estruturantes eficazes (o que é muito mais do que dotações orçamentais anualmente flutuantes).
Criar um espaço comum, no sentido de homólogo, parece-me algo utópico. Mas é possível criar mecanismos de integração e interacção, com ganhos mútuos. Lembro que a acção do anterior Ministério em Portugal teve bons efeitos, muito potenciando a articulação dos agentes universitários.
Lamentavelmente a actual contenção orçamental portuguesa levou à redução destas ligações. Num campo em que os gastos não seriam excepcionais. E cujos frutos, desenvolvimentistas e de relacionamento futuro, eram importantes. E num caso em que uma legislatura de interrupção implica o desperdício de tudo o que antes se gastou. Pois nestas actividades não há o "voltar atrás", estes são processos que morrem. Lentos a desenvolver, rápidos a morrer.
É necessário lembrar que "intercâmbio universitário" em português de Portugal é uma expressão peculiar. Pois significa professores portugueses alhures e alunos d'alhures em Portugal. É isto o "intercâmbio de docentes" que surge em todos os protocolos. Dir-se-á que diferentes patamares de desenvolvimento académico e científico implicam isso, uma razão intelectual.
Mas não é apenas isso, há razões sociológicas. Pois estas são também formas de sobre-remunerar o funcionalismo público. Atenção, este não é um processo particular do mundo universitário, são sim as modalidades que estruturam o complexo de cooperação em Portugal. Daí o tradicional primado da "assistência técnica", que neste caso se traduz pelo tal "intercâmbio de docentes". Mesmo que o modelo "assistência técnica" seja desaconselhado/criticado pelos organismos multilaterais de cooperação. E pelo modelo actualmente dominante, o "state-building by financial support".
É certo que em muitas áreas a assimetria de recursos humanos é óbvia, e que condiciona as formas de interagir. Mas algo tem que mudar nesta concepção. Dou como exemplo o facto de trabalhar num Departamento que articula uma cooperação de forma simétrica com uma universidade espanhola (professores de cá leccionando lá e vice-versa). E que articula uma cooperação assimétrica (claro) com a universidade portuguesa.
E isso num contexto de raridade de centros de estudos e de cursos dedicados a temáticas africanas em Espanha. E da sua profusão em Portugal. Não há dúvida, é um modo de pensar ainda dominante, aqui sempre muito gozado como o dos "inspectores do cacimbo" (está na altura do ano, diga-se). Injusto muitas vezes. Mas real tantas outras.
Finalmente, a criar esse espaço comum "lusófono" com o objectivo de "promover a empregabilidade, mobilidade..." estarão as universidades e centros de investigação portugueses (já atulhados) prontos a receber em condições de igualdade os parceiros brasileiros e africanos? Este será um interessante problema a prazo.
A ver vamos. No domínio dos instrumentos conceptualizados para construir estes espaço comum. E no domínio das atitudes dos meios universitários. Tão ciosos são eles das suas autonomias e honrarias.
Em jeito de P.S. não posso deixar de saudar um horizonte que deriva desta intenção. Terminarão de vez as "Tordesilhas" universitárias. Pelas quais as velhas universidades portuguesas (as mais recentes trabalham de diferente modo) consideram que têm direitos exclusivos para actuar em determinadas zonas do antigo império, adquiridos por anterioridade de presença. E assim dividindo as zonas geográficas de actividade entre elas. Lutando, com afinco e corredores, por manter tais fronteiras. Convictas e nada envergonhadas desse modo de andar.
Espaço Lusófono de Ensino Superior Dentro de 10 Anos
Por B.W.
Sexta-feira, 28 de Maio de 2004
Daqui a dez anos haverá um espaço lusófono comum de ensino superior. Os ministros da Educação e do Ensino Superior dos países da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP), assinaram anteontem, em Fortaleza, Brasil, uma declaração que prevê a criação de um espaço comum de ensino superior.
A proposta foi feita por Portugal, informou o secretário de Estado Adjunto da ministra da Ciência e do Ensino Superior, Jorge Moreira da Silva. E o objectivo é harmonizar a qualidade dos sistemas de ensino em toda a comunidade e promover a mobilidade de estudantes, professores, investigadores e técnicos, diz a declaração.
A concretização desta declaração vai ser definida no próximo ano, quando os ministros voltarem a reunir, desta vez, em Lisboa, avança Moreira da Silva.
Para já, vai ser criado um grupo de trabalho, constituídos por um elemento de cada ministério e um representante da Associação das Universidades de Língua Portuguesa, que vai procurar explorar quatro áreas: a definição de uma estrutura curricular que permita a comparibilidade entre sistemas; os padrões e instrumentos de avaliação da qualidade da formação; a produção de conteúdos em língua portuguesa e a participação em programas internacionais.
A partir deste trabalho, os países vão organizar-se para que, em 2014, possa estar activo um espaço comum de ensino superior, de maneira a "promover a empregabilidade, mobilidade e qualificação dos sistemas de ensino e competitividade das nações", explica Moreira da Silva.
A CPLP vai ainda aproveitar a experiência que Portugal está a viver com a aplicação da Declaração de Bolonha, assinada por cerca de duas dezenas de países europeus.
Para o secretário de Estado Adjunto, esta é uma "grande oportunidade para a internacionalização dos sistemas de ensino superior" dos sete países que fazem parte da CPLP (Angola, Brasil, Cabo Verde, Guiné Bissau, Moçambique, Portugal, São Tome e Príncipe, Timor).
que no meu país o euro-dabola já vai indo. Agora que as eleições europeias já acabaram talvez seja possível discutir o papel e a prática de Portugal na Europa relativamente à Ajuda Pública ao Desenvolvimento.
(interessante: nem uma palavra sobre a política europeia de cooperação Norte-Sul durante toda a campanha eleitoral).
A cimeira de Maputo dos países ACP é para a semana. A micose lusa não deixa disponibilidade para tomar atenção a isto, claro está.
Em baixo transcrevi o curto artigo do Publico que, à última hora, se refere ao assunto. O qual encontrei no escatológico Porque Morremos, Senhor?.
Não foi avançado 0,7 por cento da riqueza produzida no país
ONU acusa Portugal de falhar compromisso de auxílio a países pobres
Lusa
A coordenadora do Programa de Desenvolvimento das Nações Unidas (PNUD), Evelyne Herfkens, acusou hoje Portugal de faltar ao compromisso assumido em 2000 de ajudar os países mais pobres.
Segundo Evelyne Herfkens, Portugal não honrou o compromisso de contribuir com 0,7 por cento da riqueza produzida para ajudar os países mais pobres.
A responsável do PNUD intervinha num debate promovido pelo festival de música "Rock in Rio Lisboa" sobre a Campanha dos Objectivos de Desenvolvimento do Milénio, uma iniciativa que estabelece metas a cumprir até 2015 em áreas como o combate à pobreza, cooperação com países pobres, saúde ou educação.
Segundo a responsável, a maioria dos países que assumiram em 2000 o compromisso de contribuipara este combate com uma percentagem do seu Produto Interno Bruto "cortaram o seu apoio aos países pobres".
Herfkens apelou, por isso, aos mais jovem para fazerem pressão sobre os seus líderes para que os compromissos sejam cumpridos. "Esta é a primeira geração que pode acabar com a pobreza, falta apenas vontade política", argumentou.
Para exemplificar as assimetrias entre os países pobres e ricos, Evelyne Herfkens afirmou que "o que se gasta na Europa em bonecas Barbie daria para garantir a educação de todas as crianças de África".
Insistindo na crítica aos países mais ricos, a responsável da ONU afirmou que, graças à Política Europeia Comum, os mercados dos países mais pobres de África são inundados com o excesso da produção agrícola europeia, o que "destrói os seus mercados".
O presidente da organização não-governamental Oikos, Luís França, "puxou" também das estatísticas para dizer que, "no fim do dia de hoje, 30 mil pessoas no mundo terão morrido de fome, quase tantas como as que estão neste festival".
Luís França instou Portugal a deixar de ter "a mentalidade do pedinte, de mão estendida", e assuma as suas responsabilidades, como membro "do grupo dos 25 países do mundo mais ricos".
"Não podemos continuar com uma Europa onde uma vaca recebe dois euros de subsídio, quando há mil milhões de pessoas no Mundo que só recebem um euro", sublinhou.
Luís França acusou a classe política de indiferença, argumentando que escreveu "a todos os candidatos a deputado europeu e nenhum ainda respondeu".
alguém de Nampula vem até aqui? Se é o caso importa-se de ir dar um "salaama" a esta minha patrícia, coitada? E, à saída, abandonem-lhe um "asande"/"asante" (nunca acerto na pronúncia), nem que seja por nada, a senhora há-de gostar.

(Morris, Goscinny)
Nisto sou Roy Bean. Alcatrão e penas, já. Esse pezinho-mole Madaíl à frente...
me lembro...o apontamento anterior é a contribuição do Ma-schamba para a retoma da auto-estima portuguesa.
E ainda melhor, porque não planeada, inconsciente até.

Lisbon Falls, Eastern Transvaal (actual Mpumalanga).
(Careful study of these falls would show that there are actually four cascades of water - one main stream, and three smaller ones drops into Lisbon Creek)
Foto: John Hone
Edição: Art Publishers (PTY) Ltd, Durban/JHB/Cape Town
Ref No. 546
"Mourinho bounced into London last week like the cocky kid gunslinger played by Horst Buchholz in The Magnificent Seven. The already irked Sir Alex will have to be at his world-weary, classy Yul Brynner best."
(Ian Ridley, "Foreigners in the pound seats", transcrito no Mail & Guardian, June 11)
De manhã deixo homenagem no Ma-schamba a quem foi e deveria ter continuado a ser seleccionador nacional.
[Já agora treinador de federação! De uma escola de treinadores que já teve mais sucessos do que qualquer outro desporto colectivo português, à excepção do simpático mas paroquial hóquei em patins - acabo de ver a lendária reviravolta no França-Inglaterra, a França há anos vitoriosa com "Treinadores de Federação", uma continuidade! Porque têm uma Politica e não uma mera gestão de cabotagem]
De manhã, dizia eu, singela homenagem. Logo simpática visita deixou comentário pelo qual depreendo julgar que esteja eu a falar de um amigo. Não conheço A. Oliveira. É mesmo questão de princípio. Até porque a bola é espelho da sociedade, daí o seu encanto. O acaso oscilando (n)uma estrutura.
A propósito disto deixo umas notas:
1. Ontem Portugal-Grécia, em desespero entra o menino C. Ronaldo, logo a meter bolas sobre bolas na área, para ninguém. Gritos ao meu lado, que "o puto não larga a bola" (falso, fartou-se de a largar) "egoísta", "lento", "não olha", "é um menino".
Irrito-me, com gente que nem conheço, e pergunto ríspido: "alguém sabe quanto tempo é que o puto já jogou com o Pauleta?", sabendo eu que muito pouco, ele sempre suplente, entrando quando o goleador saía. Claro que ninguém sabia.
Hoje procuro nos jornais: o total de minutos juntos em jogo? Nem o B. Prata do Público, quem hoje melhor escreve sobre futebol em Portugal o diz. Não há estatísticas mas eu arrisco, nem um jogo inteiro. Não se conhecem!
2. Após a final da Taça de Inglaterra (que ainda é o jogo do ano) o Mail & Guardian deu uma página inteira à transcrição deste artigo do Guardian britânico (24.05.04). Entre outras coisas diz-se lá:
Man of Matthews magic makes this the Ronaldo final
Young Portuguese claims title deeds with performance of elusive dribbling and outlandish trickery that evoke memories of 1953
The last time a player with a No7 on his back so compelled the attention during an FA Cup final, the match came to be known by his name. As a competitive spectacle Saturday's contest between Manchester United and Millwall was not in the same universe as the Stanley Matthews Final of 1953. But how glorious it was to watch a right-winger so in love with the game, so inspired by the occasion, so eager to deploy his extraordinary gifts in the service of his team. Cristiano Ronaldo is the latest in a long line of distinguished wingers to have plied their trade in the red shirt of Old Trafford and by the time he has finished he may well find himself standing shoulder to shoulder with the very greatest. (...).
Like Matthews, Ronaldo is a dribbler. He takes the ball to the defender, lets him sniff it and then whips it away. But, whereas Matthews celebrated his 38th birthday in the February before the 1953 Cup final, Ronaldo was a mere 19 last February. The great Englishman, who made his league debut at 17, was relying purely on guile and touch and timing by the time he finally picked up his Cup winner's medal. The swiftness and arrogance of youth were the keys to the Portuguese prodigy's performance on Saturday. (...)"
Ingleses a comparar C. Ronaldo a Stan Matthews? É preciso não conhecer nada de ingleses para não parar tudo, mas tudo mesmo. E deixar passar o menino.
3. Paulo Futre também não era titular no Saltillo Band! Era muito novo...
4. Eriksson (estrondoso e histórico azar hoje, um lugar na história do futebol, bem mais do que qualquer vitória) tem bem mais avançados por onde escolher. Escolheu Rooney para titular. Tem 18 anos. Não é um C. Ronaldo, mas é titular. Da Inglaterra. Conhece e conhecem-no.
5. Meu caro Azenhas do Mar eu não conheço o A. Oliveira. Sou só treinador de bancada.
E tudo isto independentemente das vitórias que a minha selecção venha a ter (que espero venha a ter) nesta maluquice colectiva (e minha) que é o Euro-04.
Retiro do Purprazer, blog de um patrício em Timor, esta citação devastadora mas sábia de José Mattoso.
Aos leigos (como eu) que tenham acompanhado os textos sobre esta matéria que aqui tenho transcrito proponho que vão ler ao Oeste Bravio do arqueólogo Filipe Castro textos que procuram explicar, sucintamente, a diferença entre "Caça ao Tesouro" e "Arqueologia": este e este.
pelo Belo Horizonte a ver casa amiga, quem sabe se futuro refúgio?, a nascer. Depois, e cruzada a barragem só para quem não a conhecia, almoçarada lá na futura KaNoa, ali a Mailane, olhando os libombos ainda pequenos. Até enfartado, já no lusco-fusco regresso à electricidade, acho que veloz em demasia apesar da família. Coisas da consciência colectiva.
No caminho telefone, convite para ver o evento em sessão oferecida por empresa patrocinadora. Hotel Terminus, hei-de ir, ecrã na piscinazita. "Estamos a organizar um concurso, entre quem acertar no resultado sorteamos um scanner". Aposto logo, "0-4". "Se acertares não te entrego o scanner", resposta pronta, ainda que com sorrisos audíveis. Coisas da consciência colectiva.
Produzida. Mesmo que digam o contrário.

deve estar este profissional. Para ele as minhas saudações. E a esperança numa boa campanha para o Mundial-2006.
o Oficina das Ideias um blog encantador. Assim excêntrico (descentrado, entenda-se) em temas e atitude. Agora promete dedicar textos ao coleccionismo de pacotes de açúcar. Fico estupefacto. E deliciado. Porque destas pequenas coisas se fazem as "pequenas histórias" e se dão os "pequenos entendimentos". E os grandes prazeres.
E talvez um caminho para blogs, tão preocupados em reproduzir o estilo jornal.
é redondo, o tapete relvado é verde, são onze jogadores para cada lado...o apito arbitral silva.
Informam os jornais portugueses (e também sucedâneos webloguísticos) que grassa surto de bandeirismo em Portugal.
Felizmente não tenho notícias de doença na minha família e amigos mais chegados. Mas isso não reduz a minha preocupação e solidariedade. Espero que o clima mude rápido e que as febres deixem de atacar.
Espero também política de saúde pública. Que sejam tratados os pântanos, assim afastando as condições para a propagação da doença. Têm a palavra e a responsabilidade as autoridades competentes, as primeiras das quais serão os Ministérios da Saúde e o do Ambiente. E caso falhem deverão ser responsabilizados os seus titulares. Sem delongas.
De blog em blog, a hesitar, gostar ou largar. A chocar com radical exemplo de cagança culturalesca.
É gente desta, "recém-chegados" ao que querem mostrar neles "tããããão" secular, que me agita o palito da azeitona, escarafunchando a dentuça, raspando-lhe as aparas do torresmo, ali caindo-se estas sobre a pelugem do peito, essas já cãs libertas na camisa aberta e repousando-se, flácidas, no tecto deste meu umbigo protuberante, sempre oscilante ao arroto, pois ainda me é desmedida a sede de imperial, enquanto a caralhada me adjectiva toda a política do defeso da bola, fragilizando-me o meu Sporting. Rematado num foda-se rotundo, desiludido no não haver jogadores novos.
Que nojo, estes malteses, armados em guardiões de não-sei-o-quê. Mestres do gosto, guardiões do clube, polícias de classe, querem-se. Apenas pirosos eles próprios, no ritual da "intelectualeira". Querendo-se donos, imaginando-se entre-lombadas no topo de uma qualquer pirâmide. Criados, é o que são...mas meros criados de fora, atenção.
Ainda há túbaros? Venham então, uma dose, com a molhanga. Caralho!!, não há nada como uns petiscos...é isto que levamos para o túmulo, isto e o convívio, foda-se.
Eles morreram, estes guerreiros famosos,
Convencidos de que, em si mesmas, morte e vida
Não são bens de que possa ter-se alguma inveja
E só é belo morrer e viver com virtude
- Epitáfio espartano, em Pelópidas e a Supremacia de Tebas, de Plutarco (Tradução de Lobo Vilela, Editorial Inquérito, s/d)
Reprodução de comunicação de Nikolaus Sandizell, Administrador Delegado da "Arqueonautas", relativa à polémica sobre o destino do património arqueológico subaquático. Recolhida no Naufrágio.
Associada ao artigo do "País" abaixo transcrito estarão apresentados os principais argumentos da "Arqueonautas" e seus associados. Os dos seus oponentes foram-no nas anteriores entradas "Arqueologia Subaquática".
Este parece ser assunto pouco interessante para as visitas do Ma-schamba (quiçá resmungando com o tamanho de todas estas entradas). Ainda assim a ele voltarei para a semana para botar a minha opinião. Se com tempo para tal, e se tiver obtido a documentação da UNESCO sobre a matéria.
Entretanto, apelo a que reparem na desconexão entre discursos e aparentes contextos sociopolíticos dos locutores. Que isto das estratégias retóricas faz dizer cada coisa...
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Arqueologia Marítima vs. Caçadores de Tesouros
Ladies and Gentlemen,
Please apologize for this un-solicited email, your kind attention concerning this issue is greatly appreciated.
Recent articles published in the Internet and through the national and international press, make it necessary to clarify Arqueonautas involvement in maritime archaeological projects. Most of the articles were based on information, not always correct, distributed by a small group of Portuguese marine archaeologists. This group is known already for some time in the international academic community for their extreme views.
We believe it only to be faire to "look at both sides of the coin" to better understand the polemic of this issue. Kindly open the attached word document, in either English or Portuguese language, to read our statement.
The scientific publications concerning our work in Cabo Verde and Mozambique are currently being prepared. Please do not hesitate to contact me for any further clarifications required.
Sincerely yours,
Nikolaus Sandizell
CEO / Administrador Delgado
ARQUEONAUTAS S.A.
Representative Office, Av. da Suica, 468, 2765-288 Estoril, PORTUGAL
Tel.: +351.21.4663040; Fax: +351.21.4662769; Mob PT: +351.93.4663040
Mob MZ: +258.82.897699; Mob DE: +49.172.1303994; Website: www.arq.de
A História repete-se mais uma vez – a discussão da arqueologia marítima vs. “caçadores de tesouros” faz-nos lembrar a famosa história contada por Luís de Camões acerca do “Velho do Restelo”, quando um pequeno grupo de conservadores/reaccionários, sem qualquer tipo de visão e de conhecimentos, tentou levantar uma polémica no sentido de impedir a Coroa de enviar a sua frota na continuação da epopeia dos descobrimentos. Ignorando a polémica, Portugal tornou-se num dos maiores impérios na história da humanidade! Tão importante lição ... mais de uma vez esquecida – é a de que por vezes temos de assumir pequenos sacrifícios para pudermos atingir grandes objectivos. Ora para realizar um grande objectivo é importante mantermos o olhar na floresta apesar das árvores que nos toldam a vista.
Infelizmente o assunto da arqueologia vs. “caçadores de tesouros” não é tão a preto e branco como nos é feito crer ou como nos possa parecer à primeira vista. Para compreender tão complexa matéria , é necessário analizar:
1. Formas de protecção da herança maritíma;
2. Diferenças de objectivos dos grupos envolvidos;
3. Causas reais de preocupação.
1. Como proteger a herança marítima cultural
A capacidade de protecção da herança marítima nacional depende exclusivamente das capacidades da nação para controlar as suas águas territoriais. Infelizmente, países industrializados e do terceiro mundo são em termos económicos, ainda mundos á parte e, por vezes, substimamos os problemas que muitos dos países em desenvolvimento têm para assegurar, as necessidades básicas como alimentação, saúde e educação para a sua população. A protecção da herança cultural marítima destes países torna-se consequentemente uma segunda prioridade, somente uma de muitas áreas a necessitar de atenção. A maioria destes despreveligiados países, não se conseguem proteger como os “países industrializados” o fazem, os quais têm meios económicos para operar uma marinha, uma guarda costeira ou polícia marítima. A herança marítima cultural destas nações é por isso uma preza fácil para caçadores de tesouros, pescadores sem instrução, mergulhadores desportivos desonestos e sem educação e, ocasionalmente, burocratas corruptos que facilitam a venda ilegal de artefactos recuperados.
O conceito teórico da Unesco, presente na sua recente “Convenção da Herança Cultural Subaquática” promovendo a protecção dos naufrágios “in situ” (registar a localização do naufrágio mas deixando o local intacto), poderia funcionar em tempo limitado, se medidas de segurança apropriadas, fossem tomadas. Contudo, mesmo nos países desenvolvidos, alguns deles não podem controlar e proteger as suas vastas costas e águas territoriais, a protecção dos seus naufrágios “in-situ” não passa de um “wishful thinking”, com muitos destes locais quer registados quer não registados, a ser destroçados e destruídos a uma velocidade alarmante. E que podem estes países fazer sem peritos arqueológicos, sem fundos apropriados, sem meios para proteger a sua herança marítima?
a. Fechar os olhos e perder a sua herança cultural marítima para “caçadores de tesouros”;
b. Ter esperança de que, talvez um dia, alguma instituição, ONG ou um patrocinador que apareçam e desenvolvam um programa arqueológico que permita o controle a longo termo pela nação ribeirinha;
c. Tomar uma atitude que lhes permita adiantarem-se a “caçadores de tesouros” e salvarem a sua herança marítima com a ajuda de grupos privados de arqueologia marítima, antes que os seus mais importantes naufrágios sejam pilhados, destruídos e perdidos para sempre. Apesar da alternativa b. ser a solução perfeita ela é infelizmente irrealista.
O tempo de execução de um projecto é da maior importância, pelo que concessões institucionais podem ajudar no desenvolvimento de um projecto específico, mas não suportarão ilimitadamente um projecto de larga escala, o qual é muito difícil de definição prévia e pode demorar décadas a ser correctamente executado. A opção c. é pois, a única solução viável. Um grupo auto sustentado e experiente de arqueologistas marítimos podem treinar especialistas locais, fornecer informações compiladas dos naufrágios, estabelecer prioridades nas decisões de intervenção, e gerar rendimento e, assim, como consequência, a herança marítima cultural da nação obterá a desejada protecção a longo termo.
2. A diferença de objectivos dos grupos envolvidos e a necessidade em definir o que é a arquelogia marítima versus “caçadores de tesouros”
O preto e branco da visão fundamentalista dos “Velhos do Restelo” vê somente dois grupos e define-os como “os bons” e os “maus” Num mundo em que a política tradicional (esquerda e direita) deixou de ser suficiente tivemos de optar pelo meio termo, uma “terceira via”; o equilíbrio entre a consciência social e uma economia saudável.
Se este mesmo compromisso for utilizado na resolução do nosso problema torna-se necessário em primeiro lugar, analizar quem são as partes envolvidas:
- Grupo I – Arqueólogos pagos pelo estado ou patrocinados por instituições estatais (Ex. CNANS ou a Universidade do Texas)
- Grupo II – Arqueólogos não pagos e que trabalham com o único propósito da edição de uma publicação cientifíca (Ex. Margarete Rule ou Mensun Bound)
- Grupo III – Arqueólogos, pagos por uma fundação ou patrocinados de outra forma (Ex. Frank Goddiot)
- Grupo IV – Arqueólogos que trabalham para uma empresa privada, auto sustentada e, cientificamente organizada. (Ex. Arqueonautas S.A.)
- Grupo V – Caçadores de tesouros, portanto ilegais, que trabalham com fins comerciais sem qualquer interesse científico.
A existência destes diferentes grupos leva-nos a reflectir em dois pontos:
a. O financiamento necessário para a condução de um projecto marítimo arqueológico;
b. A capacidade científica para documentar a recuperação de um naufrágio, com a finalidade da sua publicação;
Se a utilização do dinheiro dos contribuintes ou de patrocínios de longo termo não forem uma opção, temos de procurar alternativas comerciais estando atentos à natureza repetitiva das cargas, sejam elas, moedas, porcelanas, armas, objectos comercializáveis ou qualquer outro artefacto. Não existe qualquer dúvida ou discussão de que só é aceitável trabalhar comercialmente com grupos de arqueologia marítima consolidados, e de que todos os achados únicos ou repetidos, classificados por peritos neutrais em arqueologia marítima, como herança cultural marítima permanecam no país para serem expostos em museus nacionais ou para integrarem exposições itinerantes. A venda de objectos repetidos, já representados na herança cultural marítima nacional permite, todavia, o financiamento consequente da protecção da herança marítima nacional – o segundo príncipio juntamente com a recomendação teórica “in-situ” embora contrário à convenção da UNESCO UCH.
Existem alguns conhecidos arqueólogos marítimos independentes com larga experiência, que estão interessados em suportar comercialmente grupos de arqueologistas marítimos, com a condição de que estes grupos:
a – Sejam contractualmente obrigados a que a parte da herança selecionada e a informação científica recolhida permaneça no país onde foi encontrada;
b – Que operem de acordo com uma metodologia arqueológica específica, permitindo a preparação da documentação relativa ao naufrágio em causa, sua localização e os artefactos recuperados.
Os grupos II e IV podem assim trabalhar em conjunto, com melhores resultados para todas as partes envolvidas:
- A nação em causa recuperará a sua herança perdida;
- O grupo privado terá o potencial para pagar aos seus investidores;
- O arqueólogo responsável poderá enriquecer a colecção das suas publicações científicas e aumentar o conhecimento e o lazer do público.
3. As causas reais de preocupação
Para o funcionário público de um país ocidental, empenhado na preservação da herança marítima cultural do seu país e que beneficia de um sistema o qual, através da marinha ou da guarda costeira, permite a protecção da sua herança marítima nacional, é fácil criticar os países mais pobres, os quais vivem uma realidade completamente diferente.
Algumas pessoas oriundas de países de antigos impérios coloniais e que exploraram países do terceiro mundo durante centenas de anos, ainda hoje se arrogam o direito de dizer a estes países como devem conduzir os seus interesses. Pior ainda, algumas destas pessoas estão a tentar com que a herança marítima cultural destes países, a qual pela lei marítima internacional é pertença das nações onde ocorreu o naufrágio, vá para os seus próprios países, reclamando que esses barcos eram barcos de guerra e, consequentemente, sob a soberania da sua bandeira.
Quando acusados muito justamente por estes países, pela sua postura neo-colonialista, reagem sem compreensão e tentam encontrar razões para acusar estes países de estarem errados e que eles “os únicos que são peritos por inteiro” estão certos. Que melhor forma que utilizar o nome da UNESCO e impor uma doutrina em que a única forma correcta é a de (a) a protecção de naufrágios “in-situ” e (b) a proibição da venda de quaisquer objectos recuperados num ambiente marítimo?
Quando da ractificação destas duas regras, essas pessoas estariam então em posição de reclamar a “sua” herança marítima, declarando a outra nação como incapaz na sua protecção – uma vez que estas não jogam de acordo com estas ractificações.
Quando o mundialmente famoso arqueologista George Bass, em 1979, publicou “O homem que roubou as estrelas” ao explicar a triste perda de alguns naufrágios para companhias de salvados, que não tinham qualquer noção acerca da importância histórica e cultural destes naufrágios, que vieram a ser completamente destruídos no processo de recuperação de bens valiosos – ele estava cheio de razão.
Hoje – cerca de um quarto de século mais tarde – uma terceira forma está ela própria a eatabelecer-se, para o benefício da protecção da herança marítima cultural, em países em desenvolvimento. A vida não ficou mais fácil desde então, e por vezes temos de olhar para além do nosso pequeno mundo e tentar arranjar soluções pragmáticas – que tal lembrar “os Velhos do Restelo”!
(de Conde Nikolaus Sandizell, Estoril Junho 2004)
Marcelino dos Santos acaba de comemorar o seu 75º aniversário. Por essa ocasião Fátima Mendonça produziu este texto sobre o poeta e político, apresentado na homenagem que a Associação dos Escritores de Moçambique então promoveu.
Muito agradeço à Fátima Mendonça a intenção de aqui o reproduzir, ainda para mais sendo este um texto de arcaboiço académico. A dar brilho ao Ma-schamba.
O entrelugar da escrita: entre Marcelino ideólogo e Kalungano poeta
Por Fátima Mendonça
Em 14 de Janeiro de 1950 publicava o jornal O Brado Africano, uma carta enviada de Lisboa por um jovem estudante moçambicano em que se lia : "( …) Há dois anos que me encontro aqui em Portugal. Tenho constatado que o jornal se tem transformado lentamente (leio avidamente). É claro que o jornal é o exemplo. É por isso que devemos trabalhar juntos. É necessário que nos instruamos, cultivemos, eduquemos, para que o nível de vida e cultura se eleve; É necessário que os interesses particulares se subordinem aos interesses gerais, colectivos (…)". A carta era assinada por Marcelino dos Santos, então com 19 anos, e nela se pode vislumbrar já o "timbre" combativo e convicto que viriam caracterizar o militante político. Terá sido porventura esta curta missiva o marco fundador de uma vida dedicada à causa da luta anticolonial e do nacionalismo africano, favorecida pelo seu próprio contexto familiar e vivência social.
De facto teve Marcelino dos Santos em seu pai Firmino dos Santos, membro da direcção de O Brado Africano nos finais da década de 40, o exemplo de posicionamento de grupo que permitiu que, desde a década de 20 se tivessem produzido nos diversos espaços colonizados em África, um conjunto ainda disperso de idéias reinvindicadoras assentes em dois núcleos: pertença a um espaço Outro (africano, fora do quadro civilizacional europeu) e estatuto de cidadania (por onde perpassavam exigências de igualdade de direitos cívicos e acesso à instrução para os africanos). Esta seria a geração de autodidactas letrados que Mário Pinto de Andrade viria a designar por Protonacionalistas, os quais no seu entender produziram um corpo de ideias que, embora contraditórias e discontínuas representavam a primeira forma colectiva de estar com o seu tempo. Fossem eles, activistas políticos como João Albasini, jornalistas com Estácio Dias ou Tomé Agostinho das Neves de São Tomé, romancistas como o angolano Assis Júnior, poetas como Rui de Noronha ou operários dos Caminhos de Ferro como Firmino dos Santos, foi toda uma geração que participou na empresa de consciencialização pan-africana, primeira forma de modernidade do mundo afro.
Que a geração que se lhes seguiu, e da qual emerge a personalidade singular de Marcelino/Kalungano, problematizasse as suas opções e lhes opusesse uma nova visão de África - a das independências -, não foi mais do que o resultado da dinâmica subjacente a todos os conflitos geracionais e ao desenvolvimento da própria História.
Creio pois que é desse substrato que resulta o desdobramento que me parece existir no percurso deste poeta que aqui homenageamos: por um lado a personagem política, o da estratégia e acção, orientadas pelos princípios que regeram os nacionalismos em África, que o conduziram à participação e a um relevante protagonismo em todas as organizações que antecederam a constituição dos Movimentos de Libertação (refiro-me ao MAC, FRAIN e CONCP), a qual por sua vez já tinha sido antecedida pela ligação com o MUD Juvenil (Organizacão unitária controlada pelo Partido Comunista Português) e Partido Comunista Francês. Finalmente, como todos sabemos, a sua participação na fundação da FRELIMO e subsequentes papéis desempenhados no interior do movimento até à Independência e nos anos que se lhe seguiram, até à sua quase retirada da vida política oficial (eu diria que ele é hoje um político informal). Estamos aqui com a a persona, no sentido que lhe atribuiram os trágicos gregos, Marcelino dos Santos a quem nem os seus detractores negam a virtude da coerência.
Do outro lado temos Kalungano a personagem que se exprime poeticamente, mas que tal como o Platão de há quase 3 000 anos parece ter tal consciência do poder incontrolável das palavras que se deixa vigiar pelo seu Outro, obrigando-se a conjugar real e imaginário, de tal forma, que por vezes se torna difícil distinguir o ideólogo do poeta.
Esta opinião poderia ser tida como especulação da minha parte se a legitimá-la não estivesse algumas declarações suas dispersas em entrevistas e até nas conversas informais que pratica e a que não se furta que, de resto, o distinguem do formalismo da maioria das personagens políticas deste país.
Duma dessas conversas, tidas com estudantes da Universidade Eduardo Mondlane, retenho uma frase sua (relativamente recente) a propósito do poeta francês Louis Aragon: "De Louis Aragon ficou-me aquela frase: "acreditar no céu ou não, o que interessa é amar a mesma bela França"; isto para mim resumiu-se em ser ou não ser, o que interessa é lutar". Recuando um pouco mais no tempo vem-me ainda à memória uma sua metáfora mais antiga (Tempo, 26/6/85) : "A Arte deve fuzilar todo o inimigo da revolução".
Os antecedentes desta visão utilitária da arte remontam a passados remotos. Mas se considerarmos como ponto de partida o mundo moderno, podemos dizer que é a revolução francesa quem a desencadeia com as primeiras canções revolucionárias dos "sans-cullottes". Mais tarde a Comuna de Paris e Vitor Hugo, pai fundador da poesia como arma e do poeta como soldado do futuro, que nas literaturas portuguesa e brasileira vão repercurtir-se em Antero de Quental e Castro Alves. O Império dos Czares é extinto em 1917 e assiste-se à criação do primeiro Estado chamado de poder popular, onde a literatura aparece a legitimar a revolução. Maiakowski futurista torna-se Maiakowski militante. Maximo Gorki (de vida errante e boémia) ocupa-se em dar forma ao realismo socialista ("A Mãe"). Esta nova atitude sobre a arte como elemento participante das transformações sociais, base sobre a qual assentaram os princípios do realismo socialista viria a influenciar o aparecimento de movimentos como o neo-realismo, tal como este se manifestou em Alves Redol, Gracilano Ramos ou Jorge Amado, ou ainda mudança de perspectiva, como aconteceu com Paul Eluard, e Louis Aragon que passaram de surrealistas a poetas da resistência ao nazismo.
Finalmente já em plena guerra fria será Mao Tse Tung, o último timoneiro da arte programática, quem invade, a partir dos anos 60, o imaginário ocidental.
De toda esta herança se apropriaram muitos escritores africanos que, desde o final da II Guerra Mundial, integraram a sua produção artística no discurso nacionalista africano, atitude que se prolongou para além das independências políticas e que em alguns casos combinou essa herança de forma original.
Portanto essa visão da arte, privilegiadora do ético, assumida pela personagem Marcelino dos Santos vai interferir permanentemente na voz do esteta Kalungano o que poderia ser problematizável [à luz de outros conceitos de Artel, se à sua poesia e faltassem virtualidades reconhecidas como pertencentes ao campo literário.
A sua identificação negativa com não poesia (que por vezes transparece em mal alinhadas críticas) só pode ser entendida pelo facto de formas atrofiadas de percepção de algumas das correntes estéticas relacionadas com o conceito de arte pela arte, e com as teorias criticas oriundas do formalimo russo, terem elegido durante algum tempo o conceito de literariedade como condição única a absoluta o reconhecimento da obra literária. Tem razão Carlos Reis quando, a propósito de Gaibéus de Alves Redol (que, pelas suas intenções programáticas pode equivaler ao que entre nós se convencionou designar por poesia de combate, onde se insere a poesia de Kalungano) ao chamar a atenção para o facto de quando Roman Jakobson afirma a literariedade como condição essencial do discurso verbal de cunho estético, se estar a colocar num plano de generalidade que só pode convir a uma aproximação igualmente global do fenómeno literário.
Considero que tem havido ligeireza na forma como se passou a identificar esse conceito vago de literariedade com valor, o que trouxe como consequência a confusão entre gosto (que é sempre relativo e determinado pelo espaço cultural e ideológico em que nos situamos) e competência literária isto é a capacidade discernir num texto os elementos estruturantes, que só uma organização orientada para a produção de um efeito (aquilo que num jargão académico se designa como sobredeterminações) torna possível. Estas são passíveis de análise com o auxilio de instrumentos operatórios e critério próprios da teoria literária a que os textos devem responder.
Esta promiscuidade entre literariedade e gosto tem levado à marginalização de correntes estéticas, géneros literários, ou formas de expressão individuais, que em determinados momentos históricos não se enquadram nos cânones vigentes, o que de resto, está suficientemente comprovado na ainda curta história literária de Moçambique.
É este quadro que pode ajudar a explicar a razão por que a produção poética de Kalungano (tal com a de Noémia de Sousa e a de José Craveirinha) foi praticamente ignorada em Moçambique durante o período colonial (a sua não inclusão em manuais e programas escolares até 1975 é significativa), contrastando com a projecção que lhe foi dada nos países que apoiaram os Movimentos de Libertação.
Essa ocultação tinha por base a estruturação temática dessa poesia a qual vinha trazer à superfície dos textos a imposição de novos sentidos às sucessivas imagens desqualificadoras de África produzidas até então pela literatura ocidental.
No caso da Kalungano destes novos sentidos é possível deduzir alguns núcleos de significação: identificação com as forças genesíacas da terra, recuperação de um passado mítico, tópicos preferenciais da poesia da negritude, rapidamente ultrapassados pela construção utópica da nação e de um modelo de sociedade modeladas pela prática revolucionária. Em geral estes feixes de significação estratificaram-se naquilo que me parecem ser os principais vectores temáticos da sua poesia associados à forma como se processa a enunciação, quiçás a sua mais original característica.
Desta conjugação resulta ora uma vertente lírica, marcada pela subjectividade, pouco assinalada pela crítica, de que resultam poemas como Tempo Amargo, uma vertente épica em que o sujeito da enunciação se confunde com o seu próprio objecto dando forma a uma voz colectiva, de que é paradigma o extenso Para uma Moral ou ainda uma fusão das duas atitudes em poemas como Canto de Amor Natural ou os posteriores Cancão do Amanhecer ou Nampiali.
Se ainda tivesse algumas dúvidas sobre o que acabo de propor como leitura da relação entre o ideológo e o poeta entre Marcelino e Kalungano, bastava-me a imagem que a TVM me devolveu deste "adolescente" de 75 anos (como diria José Craveirinha), erguendo a sua voz solitária em defesa de um projecto derrotado - o Socialismo - contra as novas barbáries dos nossos dias. A um poeta tudo é permitido, principalmente construir Utopias, e Kalungano está aqui para o provar.
1. Carlos Reis - Da literariedade em Gaibéus". In A construção da leitura. Coimbra: Instituto Nacional de Investigação Científica , 1982 p. 171- 175.
2. Cf. Marcelino dos Santos - Canto do amor natural: Maputo:AEMO, 1984.
Associação dos Escritores Moçambicanos
Maputo, 26 de Maio de 2004
Artigo no jornal "O País", edição nº 79, 5 de Junho de 2004
(minha transcrição)
"Ilha de Moçambique. A Venda de Objectos Arqueológicos é Legal"
(...)
Jacinto Veloso, presidente do Conselho de Administração da Património Internacional, empresa que está associada à Arqueonautas Worldwide no projecto de investigação, divulgou o seguinte esclarecimento que transcrevemos:
O "Mediafax" com o número 2039 de 28.05.04 publicou um artigo com o título "Património Arqueológico Nacional Exportado ilegalmente". Sobre o seu conteúdo gostaria de tecer as seguintes considerações:
1. As peças arqueológicas foram legalmente exportadas por aprovação do Conselho de Ministros no quador do contrato que é referido no citado artigo do Mediafax: a Lei 10/88 dá esta competência ao Conselho de Ministros (...).
2. O projecto arqueológico realizado pela Arqueonautas e pelo Património Internacional Sarl (sociedade maioritariamente estatal, sem fins lucrativos) não é de "Caça ao Tesouro" ; é sim um projecto que respeita rigorosamente o prescrito na lei, no seu Art. 14, isto é, realizou-se segundo as normas científicas e obedecendo a princípios internacionais aplicáveis; me parece assim que as opiniões que contrariam a de Teixeira Duarte são as mais correctas;
3. Declara o arqueólogo moçambicano que "foi a primeira vez que objectos de Monumento do Património Cultural da Humanidade foram vendidos em hasta pública...". É verdade. Mas tudo legal, Até agora todos os objectos de monumentos do Património Cultural levados e/ou vendidos no estrangeiro saíram ilegalmente do país, foram literalmente pilhados e as estações arqueológicas correspondentes destruídas. Foram muitas e muitas! Será que o arqueólogo e a UNESCO não se deveriam preocupara mais com a pilhagem dos bens culturais e com a melhor forma de a proteger?
4. Mais grave ainda é a atitude da UNESCO que "inventou" uma Convenção de Protecção do Património Cultural Subaquático que apenas protege os países ricos e aqueles que dizem ter sido no passado os proprietários das cargas afundadas: algumas delas roubadas e que são hoje consideradas património cultural; ao mesmo tempo, a dita convenção prejudica os países do terceiro mundo que são legalmente e pela lei geral os legítimos proprietários das cargas afundadas nas suas águas territoriais e também os donos actuais dos destroços dos navios que as transportavam.
5. Sabiam os leitores do "Mediafax" que até hoje nenhum país ratificou a mencionada Convenção da UNESCO, aprovada em 2001?
6. Terão os leitores do "Mediafax" sido informados que no processo da Convenção da UNESCO, a 4 de Novembro de 2001, se abstiveram ou votaram contra os seguintes países: Noruega, Rússia, Turquia, Venezuela, Brasil, Alemanha, Grécia, Guiné-Bissau, Islândia, Israel, Holanda, Paraguai, Suécia, Suíça, Reino Unido e Paraguai?
7. Conhecerão a existência de países que são favoráveis, ainda que sob certas condições, à comercialização de bens do património cultural subaquático? São eles entre outros: Cuba, Indonésia, Filipinas, Reino Unido, EUA, Cabo-Verde, Colômbia, Uruguai, Vietname, Bahamas, Malásia, Seychelles, Maurícias, China, Madagascar, Barbados, República Dominicana e outros do Caribe."


Acho muito porreiro que os Xutos tenham comendas da Ordem de Mérito.

Acho é que lhas deviam entregar no 1º de Agosto.
E, ainda que as visitas habituais já o saibam, o telhado desta machamba está concluído. Quando me fartar deixo-a assim. E vou para norte.
Há dias deixei aqui um confuso texto. Para descentrar o Ma-schamba da política portuguesa. Porque esta não me faz bem, irritações a potenciar saudades. Para estas já me bastam e sobram os velhos pais, a pequena família por lá, e a (meia?) dúzia de amigos que lá me restarão, esses que têm a maldita qualidade de serem insubstituíveis.
Sem política é o lema (falhado) deste blog. Imaginado para tentar olhar o que me rodeia, falar disso se me tocar, calar-me se nada me soar (o melhor/menos mau estará mesmo na ARCA "Roupa Velha", para quem tiver paciência para texto longo).
Para mais em Portugal não faltam blogs políticos. Decerto mais entendidos, mais habilitados, mais informados. Para quê rivalizar ou complementar?
Mas LNT do Tugir ripostou, o que obriga à resposta, por elegância e porque houve algumas incompreensões.
1ª - a ideia de que me centrei na "corrupção" como centro da vida política aí. Ora eu falei em “inintelectualização” "Mas nestes dias de futebolês e asneirada o que surge nem é a imoralidade/amoralidade. É mesmo a inintelectualização. Falta inteligência.", uma degenerescência: “Porque é que uma sociedade incomparavelmente mais rica, mais educada, mais desenvolvida, mais vivida do que a de algumas décadas atrás expulsa da política a inteligência?”.
Sim, acho que o actual patrimonialismo é uma causa deste processo, mas não A Causa (o que é isso de monocausalidade?). Porque manieta a racionalidade política. Porque leva ao recuo de alguma elite (política/intelectual e [mais do que tudo] moral, que também a há) desta actividade.
Diante das eleições europeias o Presidente tem que lamentar o teor do debate. V. Moreira aponta temas cruciais não abordados. J. Pacheco Pereira lamenta a resistência ao debate europeu (eu acho que os jornalistas são sistema político, mas isso é para outros textos), e desvaloriza (literalmente) os políticos mais trauliteiros.
Tudo isto após uma alteração à ordem constitucional que passou quase em silêncio no país do Euro e da Casa Pia, e que até este mísero emigrante resmungou um Representação ou Apropriação?.
O que é isto? Mediocridade ou maquiavelismo? Eu voto mediocridade, hoje. Mas não só! Voto também muito engenho, muita corrupção. Não inteligência, mas muita esperteza, para seguir a distinção popular.
Porque referi o caciquismo no poder local V., LNT critica-me "O poder local é o elo por excelência dos cidadãos com os seus representantes. Porque mais próximo, porque mais acessível, porque mais comunitário... Não o vejo como apropriação partidária dos recursos públicos. Se o for, tem de ser punido, como tudo o que é usado em fins diversos daqueles para que foi criado".
Tirando a palavra "comunitário" (porque pejada de pressupostos moralistas/igualitários) concordo em absoluto. E, imagine LNT, até por razões profissionais, em demanda de processos que desenvolvam a “accountability” dos sistemas estatais.
Mas também acho que há décadas que não há política estrutural de controle desse poder local. E porque em seu torno se montam núcleos que "formatam" os partidos nacionais, devido às suas características organizativas. Calados
aquando da gestão do poder (o recente congresso do PSD, os últimos do PS, são meros exemplos), aquando da "estabilidade", em frémitos noutros momentos.
Em suma, V. LNT valoriza o poder local como ferramenta fundamental. Também eu. Mas teoricamente. O meu ponto é a sua prática, des-controlada. E, creio com veemência, desejavelmente des-controlada.
Mas não só, pois a nível central/nacional esta deriva se vem impondo. Como mero exemplo, porque para si decerto insuspeito, chamo este texto. Pois acho que a sempre dita sacrossanta "separação de poderes" é falsa, e que a praxis do sistema jurídico é siamesa do político, interdependentes. Absolutamente.
[E por isso, leigo embora nessas coisas jurídicas, custa-me crer que seja possível um dia fazer a História da III República sem perceber quem foi e porque foi o Procurador-Geral da República, e porque eterno. E como foi, se houver verdadeiros arquivos...]
2: "Recuso entrar na perigosa conversa de que todos os políticos são maus, incompetentes e perigosos. Na política, na advocacia, na medicina, na antropologia, na sociologia e em todas as outras ciências ou profissões, existe o bem e o mal, o competente e o incapaz, o sério e o corrupto."
Discordo totalmente da associação que faz com outras profissões. Para o político não tenho Ordem, Sindicato, Deontologia. O político não é uma profissão como as outras. E a sua legitimidade é-lhe alheia, não como as outras. Ou vamos começar a votar para todas as outras funções sociais? Há uma especificidade. Radical. De acesso, de legitimação, de função social, de âmbito de alcance. Um profissional serve-me, não me representa. O político serve-me e (repito, e...) representa-me.
Mas mais: não considerei todos os políticos corruptos. Isso é minar um argumento, LNT!. O que disse é que os há. E que as confederações de interesses têm capacidades organizativas para vincularem os partidos nacionais às suas agendas. E que os partidos precisam dessas articulações, nem que seja para seu auto-financiamento e reprodução na esfera do poder.
3. Diz ainda V. "A política, local, nacional ou internacional é uma forma nobre de servir, é um meio ao alcance de todos, repudiado por muitos que preferem não se envolver para poderem livremente comentar, e prescindem do seu dever de participação na comunidade por comodismo. Primeiro abdicam da participação na construção de soluções e acabam como abstencionistas delegando nos outros o poder das escolhas em que, por sua vontade, se não revêem."
Concordo com o início e já aqui, em diálogo consigo, o afirmei (ponto 3).
Mas há um ponto em que discordo radicalmente. E como dogma. O voto e a participação cívica é um Direito e não um Dever. Senão estariam consignados enquanto tal na lei. E não estão! O não-jurista questiona-se, onde está o dever se não há sanção? E não me convencem obrigações morais: pois aqui apelo a um PM da III República: "A moral da República é a Lei".
Mais, como tal, a não participação não retira nenhum direito fundamental. E como tal não retira o direito à critica. Em momento nenhum. E qualquer tentativa de sinal contrária, mesmo que o habitual argumento que V. utiliza é de uma inadmissível inadequação à Lei, e portanto à moral. Mesmo que irónica é anti-democrática, entenda. Ainda que alimentada na vergonhosa e ritual expressão de ilegalidade que os vários PRs e outras autoridades repetem, inconscientes da mediocridade de raciocínio, de que temos o dever de ... Temos o direito de! Parágrafo final sobre a matéria, indignado já por três décadas de políticos ignaros repetindo esta imbecilidade sem que ninguém lhes abra a constituição ou o dicionário.
Mas V. refere isto atendendo à minha expressão de desprezo pelo estado das coisas. Repito-lhe o cerne do meu argumento: o desprezo não é pela dita corrupção (que é obviamente parcelar); não pelo patrimonialismo. Nem mesmo pela degenerescência intelectual. Disse-o a propósito de uma teatralização supra-hipócrita, que se vai repetindo, que se vai potenciando. O exemplo escolhido da troca de elogios públicos entre António Guterres e Sousa Franco, anos após tamanhos dislates públicos (e privados) entre ambos. O exemplo podia ser outro qualquer (DB vs PSL; DB vs PP, etcs).
A tese, caro LNT, é que esta supra-teatralização hipócrita sobre o humus do patrimonialismo craxiano que Portugal vive mina a representatividade do sistema político. Mina a democracia. O corolário da tese é que o grande inimigo da democracia é o inimigo interno. E esta, como sabe, é uma tese dramática porque autofágica. E, queira V. ou não, o vírus dessa doença não se chama JPT, abstencionista ou preguiçoso. Chama-se, com sotaque português, Betino Craxi.
Finalmente, meu caro blogoamigo, falemos de coisas mais comezinhas. Já foi V. atropelado por apparatchiks? Rosas, rojos, laranjas, verdes às pintinhas, rainbows, brancos ou negros?
Porque, tal como a vida não é um blog também não é (só) política! E formas múltiplas e criativas de participar no destino de um país são extra-políticas: profissionais, associativas, caritativas/solidárias, sei lá. Olhe à sua volta LNT, e veja, mas veja bem, quantos de nós abstencionistas, fomos atropelados nessas comezinhas coisas do viver por venais, medíocres, imbecis mas participativos indivíduos cuja legitimidade lhes advém pura e simplesmente de uma conexão qualquer, mas qualquer mesmo, com um partido qualquer.
Há outros grupos de interesses, também condenáveis? Sim. Mas isso não justifica nada! Nada mesmo. Muito pelo contrário, obriga a que, pelo menos, na política isso não surja.
"O raio do homem hoje está rude" dirá V. Talvez, mas deixe-me que lhe diga. Depois de tanto desmando socialista, mas tanto caramba, quis crer que algo melhor viria aí, "que para pior já basta(va) assim"! Mas com uma semana espantosa, de manobras nos organismos de regulação (contrariando em absoluto as tendências europeias, portanto sem qualquer justificação que não seja a mais tacanha das partidocracias) e com este final na Judiciária no Porto...olhe, nem sei que lhe diga. Isto já não vai para melhor no meu tempo de vida. E eu fico-me, estrangeirado. E (bis) isso custa.
E que fique claro, o fel que está para aqui neste mugir não é com o tugir. Antes o fosse, antes o fosse...
Até breve, mas que seja mais apolítico o esgrimir. Qu'isto também cansa
JPT
NOTA: o TUGIR cita a constituição, explicitando que o voto é aí considerado um dever cívico. Retiro portanto a expressão "sem que ninguém lhes abra a constituição ou o dicionário". Apenas. O resto mantenho. Farto até de três décadas de políticos que me dizem ser o voto um dever. Quanto é um direito. E, mais do que tudo, farto de políticos (e seus apoiantes) que analisam as coisas de uma forma nos dias (que lhes são) bons e de uma forma diferente nos dias (que lhes são) maus. Chega.
Um blog é também um instrumento para fazer perguntas.
Acho que pela Europa há um esvaziamento político. Velhas divisões prescreveram. Novas não terão surgido (ou não compraram orgãos de comunicação, pelo que não se ouvem). Pelo meu rincão idem, até mais. Estou, é claro a falar de democratas, aqueles que gostam de democracia representativa, não dos que apelam à democracia dos "movimentos sociais" (quais? perguntava há tempos um sábio inquiridor, e tão inteligentemente o fez), esses para os quais "representação" é mero novo nome para o velho "formal". Desta "democracia formal" os mais novos não se lembram, aqui vos fica a memória de que era a alcunha da democracia que os fascistas ambidextros usavam.
Daí que as velhas divisões reestabeleceram-se usando polos americanos. O que dantes era a esquerda europeia agora é quasi-"democrata" (e antes não gostava dos gringos), o que dantes era a direita europeia agora é mesmo-"republicana" (e antes não gostava dos gringos).
Empobrecimento? Hollywood? Sei lá, vou vivendo em África.
Mas há uma pergunta que me aflige. Toda a gente no meu país fala em despesa pública, em gastos estatais. Os "euro"-republicanos odeiam o Estado, apupam o despesismo; e gostam de Bush o despesista-mor. Os "euro"-democratas adoram o Estado, exigem a despesa; e gostam de Clinton, o poupador-mor. Mas mesmo assim são muitos veementes, assertivos. Por vezes até mal-criados com os outros.
Em suma, alguém me consegue explicar isto? Alguma visita bondosa deixa aí comentário para que possa eu sossegar este meu não-saber como pensar?
Peço desculpa pelo complemento: não será "curiosamente", é um traço estruturante, em particular do posterior regime colonial.
Pois aqui estou eu para prestar o meu testemunho. E não contido, farei o retrato fiel do “Rock in Cambodja”, para os emigrados daí. O pior não foi o Cambodja, que aí nós, os Olivalenses, até somos muito miscíveis ... glórias das pedradas e alianças entre tribos. E era ver a atalhar caminho pelo meio do bairro J. …lá ia eu todo lampeiro: vamos em frente, não há que ter medo, é nem olhar para o lado, que estas beiras conheço eu. Há muito tempo que não sentia assim tão espampanante a minha (ainda que franzina) masculinidade. Mas dizia eu, o pior não foi o Cambodja, foi o que eu achava antes e achei depois de lá ter ido. E como sou o único que deve ter tal opinião, irei resguardar-me no recato do meu anonimato, pois “Zé Francisco” não será como é óbvio o meu verdadeiro nome, até porque de “Zé” ninguém se chama.
O que eu achava (pequena nota sobre o evento): Uma Patranha ! Irritou-me logo de princípio essa coisa de se colarem a causas humanitárias, e de tornarem aquilo um evento do estado. Causa humanitárias ??? 2% das receitas líquidas(!), podendo chegar a 5% (?). Vão fazer humor negro para outro lado!!! E pronto, achei que a dar qualquer coisinha, antes ao arrumador aqui á frente, que ao menos a esse sei para onde vai o dinheiro. Mas no último instante, nas últimas horas, casal amigo viu-se com 2 bilhetes a mais e com enorme esbanjo de amabilidade. E lá fomos.
O que eu achei (pequena nota sobre o cartaz): mas aquilo era um espectáculo dos anos 80, ou apenas uma exposição de seres embalsamados? Mas falarei apenas do Sting, que foi o que com expectativa vi, pois o resto do cartaz terei sempre hipótese de encontrar num desses arraiais que aí vêm por estes dias de santos. Havia lá um Carlos Sainz (acho que não era Carlos mas era Sainz de certeza), que devo poder ver de novo ali na tendinha mesmo em frente à casa dos bicos que por esta altura lá se encontra montada a vender superbocks quentes e farturas frias. Ora sobre este ícone (e volto ao ex-polícia) leio hoje nos jornais que ele apenas tocou o imprescindível. Opinião de quem certamente não esteve lá, ou então estava naquela coisa branca, a 1 kilómetro de distância, que tinha o nome distinto de Tenda VIP, e onde se vendiam vaidades mas certamente não se ouvia música. Aquilo até corria bem, uma mole de 100.000 pessoas, bom som, apesar do vento que varria o vale pelo lado oriental. Às tantas entrou o Roxanne (pela reacção diria que toda aquela gente há-de ter estado no Restelo, naquele memorável concerto dos Police - enfim, admito que nem todos tenham tido a sorte de assistir ao show erótico no final, dançado por entre os arames, com que nós fomos agraciados, mas mesmo tirando isso, foi daquelas recordações que se guardam). Fiquei na expectativa de ver entrar o refrão, luzes sobre o público, era ver pular, pular….pular, uma massa inacreditável de cabeças, floresta de braços no ar, pensamentos estranhos e dispersos “e agora se largassem aqui uma …”, varrido de imediato pela orgulhosa sensação de que de facto a gente até somos muitos e “venham de lá os espanhóis”. Mas aqui é que as coisas complicaram! Olho para trás, e que vejo? 200.000 patas batendo desenfreadamente no solo. O pó levantando-se numa enorme nuvem, de todos os quadrantes do recinto. O vento soprando, metódico, fraco o suficiente para não dispersar aquela nuvem cremosa, disciplinadamente empurrando-a na nossa direcção. Aos poucos uma espessa nuvem, daquelas que nos deixam o nariz em bola e os olhos a fazerem lama no canto, eleva-se e vai sendo empurrada de mansinho, justamente de encontro ao palco. Vejo-a passar por cima da minha cabeça. Juro que vejo a cara do Sting encher-se de pânico. Segunda vez o refrão, a mesma coisa. Claro que a seguir o gajo cantou um swing, e depois outro. Ainda puxou umas rockadas pelo meio. Mas quando saiu não foi por ter cantado o imprescindível como os jornais contam, saiu corrido pelo pó.
Mas houve um final do melhor que já vi até hoje…. Eheheh. Ora bem, o homem acaba, o cartaz diz-nos que ainda aí vem o Abrunhos. Começo a pensar que aquilo será a noite de glória para o gajo do bigodinho. Já viste, o gajo a fazer voz grossa para 100.000 pessoas ? mas logo vou adiantando para quem comigo está que o melhor era o tipo entrar logo, logo. Meio dito, meio feito. Assim que nos viramos para a porta, intenção declarada de sair, constatamos que todos, mas todos mesmo, se encontravam virados na mesma direcção. Lá em cima olhei para baixo, e por detrás da manada, ainda pude ver a plateia, cheia…. de copos de plástico. Li hoje que foi um belo concerto, com mais de 15.000 pessoas. Enfim, podia ter sido pior!
E pronto, aqui tens a minha crónica, propositadamente ácida para te tirar a pena de por cá não teres estado. Muito melhor que aquilo foi a festa do Sonyman na sexta. Casa bonita, gente amiga cada vez mais cota cada vez mais igual, anfitriões do melhor. Essa é sim, perdeste.
Um abraço
******
POSFÁCIO do JPT: essa no Restelo...! Lembras-te quando o S. Copeland se levantou e veio dançar, deixando a caixa de ritmos a tocar, e o pessoal quase que lhe arrancava o escalpe, sacana tanguista, a gente a julgar que aquilo era tudo ele?
Essa do Sonyman (private, private) é que custa.
Questão final: e lá no Cambodja, afinal ainda fumaram charros? Ou o fumo todo era do pó? Bem, e sobre este nem pergunto, ainda me fecham o blog!
A propósito do Sudão uma pequena lembrança. O ano passado, não lembro bem quando, li uma Time (portanto, estava eu em viagem) com chamada de capa sobre o assunto e aprofundada reportagem. Com as ligações às grandes empresas petrolíferas ali postas letra na página. Na Time, repito.
Da revista nem traço, não costumo guardar revistas noticiosas. E esta deve ter ficado no banco de um avião, presumo.
Lembrança para fugir às tradicionais e redondas explicações "culturalistas". Que tudo explicam. Pelo que nada explicam. Mesmo quando se lhes chamam "étnicas".

"Mulheres Pilando"
Autoria: Alberto
Esta é imagem constante na produção do exótico africano.

"Eu já era bebedor de vinho de palma desde os dez anos de idade. Não fazia outra coisa senão beber vinho de palma. Naquela época não conhecíamos outro dinheiro a não ser o cauri, de maneira que tudo era muito barato, e meu pai era o homem mais rico da nossa cidade. (...)
Quando o meu pai percebeu que eu não sabia fazer outra coisa além de beber, contratou um excelente vinhateiro cujo único trabalho seria preparar-me vinho de palma diariamente"
Assim começa O Bebedor de Vinho de Palma, de Amos Tutuola (Edições 70, 1980). O vinhateiro virá a morrer e como ninguém se lhe equipara na preparação do vinho, o protagonista, um Hércules local, lançar-se-á durante dez anos pelas matas do Fantástico em busca da Cidade dos Mortos para o resgatar.
Um livro delicioso. Para quem resmungue ao realismo fantástico, o livro é de 1952. Não só prévio ao boom literário, mas imune ao seu capeamento poético. Espanta pela naturalidade e pela modernidade, ríspido mesmo.
Q: O Presidente da Internacional Socialista diz que não pensa em regressar à política activa [Forum sobre a Europa, campanha eleitoral PS. Via TV].
R:
a. A Internacional Socialista morreu.
b. "A Social-Democracia nunca existiu" (ver bibliografia).
c. É um político que mente.
d. O bloguista é estúpido
Um bom texto "Desmontar o Preconceito" num blog nada defenestrável.
Ocorreu-me um comentário, mas não tanto ao seu conteúdo. É que o próprio autor considera-o "talvez demasiado longo para os parâmetros blogosféricos". Percebo-o, por muito sítio se diz que o texto curto é O texto de blog. Mas lá deixei algo como "porque não deixarmos os parâmetros para onde nos pagam?".
No rules, dizíamos em jovens. Não é toda esta inutilidade um resquício de juventude?
o Rock in Rio foi no Cambodja?
(entre o vietname e o cambodja deve ter sido uma festa. Nem imagino lá pela aldeia dos macacos - que dirá o leitor amigo Zé Francisco?).
(23.3.04, como o tempo passa):
"No Sudão a guerra dura há décadas. Rezam as notícias que há agora novidades, e nada boas. No Sudão a guerra dura há décadas. Rezam crónicas que as razões são petróleo, "oil". No Sudão a guerra dura há décadas. Rezam de saber feito que por lá fazem "etnocídio"/"genocídio" - que imberbes palavras. No Sudão a guerra dura há décadas. Nem sei detalhes para aqui deixar. Apenas que no Sudão a guerra dura há décadas. Que há novidades, e nada boas. Que as razões são petróleo, "oil". Dito em inglês, em malaio, em francês, em norueguês (oops, em norueguês, não são estes tão finos?).
No Sudão a guerra dura há décadas. Não há manifestações, não há televisão, nem discursos, nem Haia, nem partidos, nem tão pouco seus lideres. Ou até intelectuais. Nem mesmo esses bloguistas. Não há exaltação, não há atenção, não dá tesão.
Mas é claro como petróleo, "oil". É que são pretos os que morrem no Sudão."
Roubo ao excelente Ecletico.

No livro de pedra estudo a língua intemporal.
Entre duas mós esbracejo, no turbilhão da pedra,
já as duas dimensões até ao pescoço me sorveram,
minha coluna triturada no moínho da morte e da vida.
Que fazer, bordão de Isaías, da tua rectidão?
É mais fina que cabelo, a casca do grão sem tempo,
sem alto, nem baixo. No deserto o povo entre as pedras
reunia-se; real casula de esteira, refrescava-me, na canícula.
- Arseny Tarkovsky
Há dias enviaram-me transcrição de um texto desvalorizando as críticas às torturas dos norte-americanos no Iraque (muito provavelmente violando a convenção de Genebra) por não serem acompanhadas de denúncias sobre as torturas e ilegalidades do PREC. Estranhei tal mistura de alhos e bugalhos, imprópria ao refogado, o qual se quer atinado para correcta satisfação do palato e pacificação digestiva. Que nisto da alimentação ele há o devorar e o saborear.
[não que a história PRECquiana seja desprezível. Ainda que a sociedade portuguesa tenha optado por sombrear muitos dos desmandos. Com alguns custos, como a vergonhosa sentença dos FP-25 (alguns ainda andam por aqui). E a espantosa condecoração a Isabel do Carmo. Já para não falar na influência em partidos nacionais de gente como Ferreira Torres e Valentim Loureiro. Enfim, talvez seja altura de escrever e divulgar mais sobre essa época.]
Nesse mesmo dia dei com um texto bloguístico do mesmo teor, gozando as sensibilidades de quem se preocupa com tais minudências lá pelo Iraque. Irritei-me, depus longo comentário. E pensei em botar por cá sobre o assunto. Entre tantas coisas passou-me.
A este respeito queria então abordar dois pontos: 1. as implicações da violação (posteriormente confirmada) da convenção de Genebra; 2. os fundamentos do raciocínio que produz estes textos.
1. A aplicação da convenção ainda se liga à classificação de "forças armadas" legítimas porque formalizadas. Ou seja, legitima as partes inimigas segundo a presença de um Estado ou sistema político-militar algo centralizado. Implicita a velha distinção entre sociedades estatais e não-estatais (o art. 4º, ponto 2, poderá indiciar isso).
Mas o ponto fundamental é outro, mais perceptível via história. Até porque para des-politizar nada melhor do que des-actualizar. Lembro a II G.M. com a sua aplicação (em versão anterior), pelo menos relativa, entre alemães e aliados ocidentais (não esquecer que sou da geração do Colditz - via BBC e Livros do Brasil)

e a sua não-aplicação entre alemães e eslavos inimigos.
Assim a aplicação da convenção traduz classificações que graduam a Humanidade do inimigo. Obrigatoriamente aplicável aos mais próximos ("racial/cultural", mas também "politicamente" - por comunhão de "civilização", donde de Humanidade acrescida). De mais fluída aplicação no confronto com inimigos desvalorizados. Enfim, pela atitude face à convenção de Genebra regressam os marcos distintivos do "Nós" e do "Outros" (desculpem o antropologês), os quais se imaginariam hoje ultrapassados entre "Nós".
Porque é essa ultrapassagem do "Nós/Outros", essa universalidade, que julgamos (julgávamos?) traço central do nosso "Nós".
2. O desvalorizar destes acontecimentos, este radical filoamericanismo, pode parecer estranho, uma sobrevivência de tempos recuados. Mas não. Na prática é um modo de pensamento/argumentação igual ao seguido durante décadas pelos comunistas. Óbvio em tantos textos de verdadeiros homens de cultura, de meros crentes, ou de apenas apparatchiks.
Essa gente tudo aceitava aos russos, todas acções, invasões, crimes, mentiras. Ou negando-as, como falácias da "contra-informação" burguesa (que sorriso ao lembrar essa arenga). Ou justificando-as, em nome de um objectivo final, de uma ideologia. Acríticos sempre. Ainda que prontos a ligeiras calibragens consoante os ventos de leste (e mesmo assim...).
O modelo de pensamento político é o mesmo, um fundamentalismo escatológico. A sua impotência cognitiva idem. E também partilham uma inadequação às respectivas epistemologias, marxista e liberal.
Mas acima de tudo surpreende-me algo mais que os ex-filorrussos e os actuais filoamericanos partilham: essa crença mágica no poder dos textos.
Acreditam que escrever coisas assim, acríticas, indubitáveis, influencia o real. Pois haverá outra razão para pessoas cultas (medianamente que sejam) serem tão facciosas? Tão indubitadas? No fundo acreditam-se feiticeiros escatológicos, com poderes de intervirem pela palavra no destino do mundo.
E como qualquer feiticeiro, dependente do poder dos seus antepassados, presos aos particularismos. Ditos irracionais.
Confesso que esta crença no poder mágico/feitícico da palavra escrita, que esta superstição me espanta.
E a esse propósito lembro-me sempre do meu espanto lá pelos meados dos anos 1980, quando li "Margarita e o Mestre" (aquela velha edição, Estúdios Cor?) e "Novela Teatral" do Bulgakov: "como é que o comunismo resistiu a estes livros?".
Hoje pergunto, se nem um Bulgakov mexeu com um regime político como poderá ambicionar um mero mortal escrevinhador reforçar um desses poderes do mundo. Que vaidade! Vã, como sempre.
Mas porque é que voltei a isto? Pois estreei-me num blog e lá reparei num texto sobre a questão ("Miséria") o que me levou a recuperá-la (se um blog não tem função também não tem actualidade). E a morte de Reagan ainda para mais, a lembrar o tempo em que os russos eram os nossos inimigos.
dois apontamentos referindo modesta gripe, dois comentários ecoando-a. Interrogo-me, será de encetar concorrência com o já célebre Doi-me +?. Deverei iniciar as análises? Telefonar ao curandeiro?
O blog Forever Pemba reanimou. E, para os apreciadores dessas coisas, apresenta-se ao serviço com uma mão cheia de postais antigos. E logo sobre a minha cidade de eleição: "my kind of town", como cantava o outro.
A Glória é isto! Até que enfim...
Alguém que foi ao Google em busca de chamussas [http://www.google.pt/search?hl=pt-PT&ie=UTF-8&q=chamussas&meta=cr%3DcountryPT] e veio aqui parar.
Uma machamba que produz chamussas.
(lembrar-me-ei que sou apenas humano)
Transcrição do artigo publicado na última edição do "Savana" sobre a problemática do património arqueológico subaquático em águas moçambicanas. E agradecendo o seu envio a Machado da Graça.
Arqueologia em águas turvas
Maura Quatorze e Machado da Graça
Savana, 4 Junho 2004
A 19 de Maio, em Amsterdão, a conhecida empresa Christie's organizou um leilão de porcelanas chinesas, da dinastia Ming, e peças de ouro, retiradas de um navio naufragado em frente da Fortaleza de São Sebastião, na Ilha de Moçambique. Tratou-se de 125 objectos de porcelana e 21 peças de ouro, que renderam no leilão 117.289 Euros.
Calcula-se que o navio, um galeão português, tenha naufragado na segunda metade do século 16. Uma das peças de porcelana continha uma data chinesa que corresponde, no nosso calendário, ao ano de 1553. De acordo com o estilo das peças de porcelana, a maior parte delas pertence à época do imperador chinês Wanli (1573-1619).
Segundo um press release da Chistie's, cerca de 1500 peças de porcelana foram encontradas nos restos do navio, bem como 12 quilos de ouro. Muitos arqueólogos nacionais e estrangeiros condenam este leilão. Se foi ou não legal, de acordo com a lei moçambicana é outra questão em debate. Mas como é que essas peças de porcelana e ouro chegaram a Amsterdão para serem vendidas em leilão?
A sua exportação para fora de Moçambique é um dos aspectos que mais polémica tem levantado tanto a nível nacional, como por especialistas no estrangeiro, que têm acompanhado o processo e muito têm comentado sobre o assunto.
De acordo com o artigo 15 da lei 10/88 - lei de protecção dos bens materiais e imateriais do património cultural moçambicano -, sobre a importação e exportação de bens culturais, "é proibida a exportação de bens classificados do património cultural".
Aquela lei define, no seu artigo 7, que são, com efeito imediato, considerados como bens classificados do património cultural "a) todos os monumentos e elementos arqueológicos; ...". Complementando o anterior, o artigo 10 estabelece que "são considerados propriedade inalienável do Estado os seguintes bens do património cultural conhecidos ou que venham a ser encontrados no território nacional: a) estações e objectos arqueológicos".
Contudo, numa conferência de imprensa realizada na última quarta-feira, a Directora Nacional do Património Cultural, Ângela Kane, defendeu que a lei moçambicana estabelece a existência de objectos arqueológicos alienáveis e inalienáveis, e garantiu que apenas os bens considerados não classificados passaram para as mãos da Arqueonautas.
O fiscalizador nomeado pelo governo para controlar a actividade da Arqueonautas, Leonardo Adamovitz, defendeu na mesma ocasião que todos os bens considerados raros, exclusivos, em bom estado de conservação e, portanto, de grande valor patrimonial, ficaram com o Estado moçambicano.
Para sustentar a tese de que existem bens culturais alienáveis e inalienáveis, Ângela Kane apontou o artigo 18 da lei 10/88, que diz que "o uso ou exploração de bens classificados do património cultural para fins industriais ou comerciais carece de autorização expressa em termos a definir pelo Conselho de Ministros".
É precisamente ao Conselho de Ministros que cabe determinar que objectos considerados como bens patrimoniais inalienáveis podem passar a alienáveis (artigo 7). Contudo, ainda segundo a Directora Nacional, o assunto nunca foi levado àquele organismo.
Ademais, e embora o destino dos objectos fosse o referido leilão, segundo o contrato firmado entre o Governo, a Património Internacional e a Arqueonautas, ao levar as peças encontradas no galeão português para fora de Moçambique, a Arqueonautas tem o direito a isenção de todos os encargos fiscais.
Sobre isto, estabelece o contrato que "o "Contratante" providenciará para que os bens culturais atribuidos ao "Contratado" sejam, no momento da sua exportação, isentos de pagamento de qualquer taxa, direito, emolumento ou imposto, mercê do benefício previsto na Lei de Protecção do Património Cultural (Lei n. 10/88, Artigo 16)".
Ora o referido artigo 16 da lei moçambicana refere a tal isenção "desde que os bens se destinem a ser utilizados para fins culturais, científicos ou, de outro modo de utilidade pública, no âmbito de acordos com Estados, organizações internacionais e entidades públicas e privadas de outros países."
Dificilmente se pode incluir a exportação para venda em leilão entre as várias categorias que o artigo refere.
Mas, afinal, como começou o projecto que culminou com o leilão de 19 de Março?
Em Dezembro de 1997, segundo o jornal METICAL, o Governo acordou o projecto com um "consórcio internacional" com as seguintes empresas: Património Internacional, Genoux Surveys, Maritime Archeological Explorations e Lox Rhodia- Sociedade Portuguesa de Exploração Arqueológica Nautica.
Segundo o mesmo jornal a Património Internacional detinha 50% do consórcio. O montante de despesas previsto era, na época, de 1 milhão de dólares e previam a exploração de cinco zonas: Junto ao rio Rovuma, Junto a Angoche, A Norte da Beira. Junto a Inhambane e a Norte de Inhambane.
Jacinto Veloso, Presidente do Conselho de Administração da Património Internacional, disse ao METICAL que a venda do espólio seria "em certas circunstâncias" para, entre outros objectivos, "repor os fundos investidos" e investir o resto no "património cultural do país" como a Ilha de Moçambique. "Não se prevê que haja lucros" afirmou Veloso. Pressionado pelo jornal a falar sobre a legalidade do empreendimento, Jacinto Veloso respondeu que "se o contrato for ilegal será anulado".
Na opinião de Adamovitz, a assinatura por Moçambique do contrato com a Património Internacional e a Arqueonautas significa que "o governo moçambicano escolheu o mal para não ficar com o pior". Neste caso foi escolher entre o pior "uma anarquia em que não havia nenhuma fiscalização e em que cada um, incluindo muitos piratas, tirava o que queria dos barcos" ou "assinar o contrato com uma empresa, embora às vezes a sua reputação seja duvidosa", disse o arqueólogo. "É melhor ter um ladrão do que cem ladrões", acrescentou.
Actividades decorreram sem fiscalização durante 2 anos
Embora o contrato firmado entre o governo moçambicano e as duas empresas refira claramente a necessidade de que todas as actividades sejam acompanhadas de um trabalho de fiscalização, durante cerca de dois anos a Arqueonautas agiu livremente, sem que o Estado tivesse um fiscalizador que zelasse pelos seus interesses.
As actividades iniciaram, de acordo com dados na posse do SAVANA, no ano 2001. Numa primeira fase, o Departamento de Antropologia e Arqueologia da Universidade Eduardo Mondlane (UEM) ficou responsável pela fiscalização mas a sua colaboração não durou muito.
E só em 2003 foi nomeado o arqueólogo Leonardo Adamovitz, representante do Comité ICOMOS (Conselho Internacional dos Monumentos e Sitios), em Moçambique, que assumiu o papel de fiscalizador pelo Estado moçambicano.
De acordo com a Directora Nacional do Património Cultural, Ângela Kane, não constitui verdade que a empresa Arqueonautas tenha estado a trabalhar sem fiscalização durante dois anos.
"O Ministério da Cultura nomeou a UEM em 2000. Eles contribuiram numa primeira fase mas depois deixaram de o fazer, e foi aí que recorremos à ICOMOS", disse a responsável numa conferência de imprensa realizada na última quarta-feira.
Contudo, diversos documentos na posse do SAVANA indicam que a Arqueonautas esteve a trabalhar sem qualquer fiscalização durante um período considerável de tempo. Aliás, num encontro de trabalho com a liderança municipal da Ilha de Moçambique, em Junho de 2002 o Ministro da Cultura, Miguel Mkaima, aludiu à falta de fiscalização.
Já em 2003, num relatório do Ministério da Cultura sobre a arqueologia subaquática no país foi classificado de urgente a nomeação de uma equipa de fiscalização para garantir "um controle rigoroso da actividade de pesquisa subaquática", como prevê o contrato de concessão
E, segundo a fonte documental, tanto a Património Internacional como a Arqueonautas já haviam solicitado em mais de uma ocasião que fosse nomeada a tal equipa de fiscalização.
Sobre este assunto diz o contrato que:
"Os encargos financeiros decorrentes do trabalho de fiscalização deste programa serão custeados em partes iguais pela PATRIMÓNIO INTERNACIONAL, SARL, e pela ARQUEONAUTAS WORLDWIDE, ARQUEOLOGIA SUBAQUÁTICA S.A., que serão posteriormente reembolsadas quando o "Contratado" vier a usufruir dos prémios e indemnizações previstos no Artigo 20 do presente contrato.
1. Será constituida para este programa uma equipa de fiscalização, que será designada pelo Governo em coordenação com a Universidade Eduardo Mondlane. O responsável da equipa de fiscalização deverá ser de preferência um arqueólogo moçambicano e poderá contratar assessoria especializada sempre que se revele necessário.
2. A equipa de fiscalização deve manter uma presença permanente no local dos trabalhos."
E o artigo prossegue explicando as tarefas dos fiscais.
No entanto, numa adenda do contrato de concessão, assinada de 18 de Junho de 2003, diz, no seu artigo 14, "O Contratado é irresponsável e o projecto em desenvolvimento mantém-se ininterrupto e inalterável se o Contratante ou qualquer entidade com ele relacionada não providenciar a necssária equipa de fiscalização conforme o estipulado no contrato".
Ou seja, este documento autoriza a Arqueonautas a trabalhar sem qualquer fiscalização, o que, de qualquer forma, só passou a poder acontecer a partir da data da sua assinatura.
POLÉMICA
O anúncio de que o consórcio cirado se preparava para retirar do fundo do mar objectos existentes em navios afundados, que seriam apresentados no pavilhão moçambicano da Expo 98, em Portugal, deu lugar a uma grande polémica lançada por alguns arqueólogos nacionais, com destaque para Ricardo Teixeira Duarte, que contestavam os fins e os meios a adoptar pelo referido consórcio, bem como a um protesto da Comissão Científica da participação moçambicana na Expo, que declarou nada ter a ver com tal projecto.
A polémica baseava-se em duas posições opostas: para uns, os bens arqueológicos recuperados eram pertença inalienável do Estado. Para outros era defensável um contrato com empresas privadas que fariam o trabalho de recuperação, dividindo-se os resultados de forma a ser regulada no dito contrato, sendo as empresas livres de venderem a sua parte como forma de obter lucros.
Na altura, ainda segundo o METICAL, o reitor da Universidade Eduardo Mondlane, Brazão Mazula afirmou que o contrato era "uma aberração" e que dava razão a Ricardo Teixeira Duarte. Igualmente o Departamento de Arqueologia e Antropologia da UEM condenou o projecto considerando-o ilegal e desvantajoso para Moçambique.
O Ministro da Cultura e Juventude na altura, Mateus Katupha, defendeu o contrato dizendo que, como era legalmente obrigatório, este foi elaborado após consulta ao Conselho Nacional do Património Cultural. No entanto o próprio Ministro afirmou, ainda segundo o METICAL, que o parecer foi de que os contratos não deviam ser assinados.
Não obstante, o referido consórcio andou pelas costas do Norte de Moçambique.
O PROCESSO CONTINUA
Após esta polémica deixou de se falar publicamente no assunto e na empresa criada pelo governo moçambicano, nessa altura, para lidar com o projecto, a Património Internacional SARL, com cerca de 80% de capital estatal e o resto na mão de privados.
Isto não quer dizer que as actividades de arqueologia submarina não se tenham iniciado e continuado até hoje desembocando agora no leilão de Amsterdão. A Património Internacional SARL colabora nestes trabalhos com a Arqueonautas Worldwide, Arqueolologia Subaquática S.A., uma empresa criada em 1994. (Ver abaixo: Quem são os Arqueonautas ).
Esta colaboração é feita ao abrigo de um contrato assinado entre o Governo e aquelas duas empresas, a 11 de Novembro de 1999, em que se concede uma área, à volta da Ilha de Moçambique para o desenvolvimento das actividades de arqueologia submarina. Contrato estabelecido por um período de 3 anos e que terá sido, segundo informações em nosso poder, recentemente renovado até 2006.
CURIOSIDADES DO CONTRATO
Um dos aspectos mais curiosos do contrato é o facto de ele ser considerado confidencial. Na realidade, há todo um artigo no articulado sobre a questão do secretismo que deve rodear o projecto. Senão vejamos:
Art. 6 (CONFIDENCIALIDADE)
1. Com o objectivo de assegurar uma verdadeira protecção ao "Contratado" beneficiário da autorização e de preservar o resultado do programa decidido de comum acordo, as partes abaixo assinadas comprometem-se a observar, em relação a terceiros que não fazem parte do presente Contrato, um segredo rigoroso e completo.
2. Serão particularmente guardadas confidenciais todas as indicações, mesmo indirectas, sobre as coordenadas dos lugares onde estariam situados, ou presumivelmente situados, os destroços de navioas afundados e sobre todos os bens culturais encontrados ou apenas presumivelmente encontrados.
3. As partes poderão, no entanto, de comum acordo, divulgar aspectos específicos da realização do programa a um certo nível da sua execução e decidir de medidas adequadas de protecção das zonas de investigação.
Art. 20 (INDEMNIZAÇÕES E PRÉMIOS POR DESCOBERTAS ARQUEOLÓGICAS)
1. o "Contratante" reconhece à sociedade ARQUEONAUTAS WORLDWIDE, ARQUEOLOGIA SUBAQUÁTICA S.A. do "Contratado" o direito de receber e tornar-se proprietária de bens culturais cujo valor apreciado representará cinquenta por cento (50%) do valor global do total dos bens culturais encontrados, que só poderá cobrir elementos semelhantes a outros itens descobertos na mesma localização em termos de natureza dos seus materiais, tipo, características, originalidade, história artística e que não sejam considerados de valor excepcional. O "Contratante" reconhece também que a sociedade PATRIMÓNIO INTERNACIONAL, SARL, tem igualmente o direito de receber e tornar-se proprietária de bens culturais cujo valor apreciado representará os restantes 50% (cinquenta por cento) do valor global dos bens encontrados ao qual será posteriormente deduzido o valor dos bens escolhidos pelo "Contratante" e que este seleccionou como sendo parte do "Património Inalienável do Estado".
Neste artigo a expressão "Contratante" refere o Estado Moçambicano e a "Contratado" refere o consócio entre as duas empresas.
UNESCO
Na primeira semana de Maio de 2003 realizou-se em Maputo uma conferência, patrocinada pela UNESCO, com o tema PROTECÇÃO DO PATRIMÓNIO CULTURAL SUBAQUÁTICO. Era objectivo dessa conferência pressionar as autoridades moçambicanas para que fosse ratificada a Convenção da UNESCO, aprovada em Paris, em Novembro de 2001. A Arqueonautas WW esteve representada no encontro pelo seu arqueólogo chefe Alejandro Mirabal.
No entanto Moçambique ainda não o fez, bem como alguns outros países, nomeadamente o Brasil, Cuba e os Estados Unidos.
Um dos aspectos que torna esta questão importante é o facto de a Ilha de Moçambique ter sido considerada, pela UNESCO, Património Mundial da Humanidade, incluindo, logicamente, os materiais arqueológicos que lá se encontram.
Se Moçambique já tivesse ratificado a Convenção da UNESCO a organização das Nações Unidas teria força para agir de forma a impedir a exportação dos achados arqueológicos para fora de Moçambique e a sua comercialização em Amsterdão.
E a posição da UNESCO sobre esta matéria está exposta de forma clara na Convenção. O documento define que "a exploração comercial do património cultural subaquático para comércio ou especulação, ou a sua dispersão de forma irrecuperável é fundamentalmente incompatível com a protecção e a correcta gestão do mesmo. Os bens do património cultural subaquático não devem ser negociados, vendidos, ou comprados como objectos comerciais".
INTERESSES DE OUTROS PAÍSES
Em Outubro de 2003 as duas empresas pediram autorização para a entrada em Portugal e posterior reexportação de parte das peças recuperadas. A intenção era que elas fossem apresentadas a público em exposições, mas o governo português recusou essa entrada, argumentando com a diferença existente entre a legislação portuguesa e a moçambicana sobre esta área. Em carta assinada pela Chefe de Gabinete do Ministro Português da Cultura, Rosário Calvão, destaca-se "o facto de o pedido apresentado pelos requerentes ser equívoco no que respeita à nacionalidade da nau naufragada".
Esta questão da nacionalidade é importante na medida que há quem defenda que os navios e os bens que contêm continuam pertença dos seus anteriores donos seja qual for o local onde naufragaram e o tempo decorrido.
Não é essa, no entanto, a posição das autoridades moçambicanas, que se baseiam na Convenção da UNESCO que, no seu art. 7 afirma que: Os Estados Partes no exercício da sua soberania têm o direito exclusivo de regulamentar e autorizar actividades dirigidas ao património cultural subaquático nas suas águas interiores, nas suas águas arquipelágicas e no seu mar territorial.
Segundo o Dr. Leonardo Adamovitz, responsavel no nosso país do ICOMOS que, no entanto, lamenta a realização do leilão, o dinheiro obtido destina-se à formação de arqueólogos sub-aquáticos moçambicanos, à fundação do Instituto de Arqueologia Subaquática na Ilha de Moçambique e à preparação da exposição permanente da cerâmica chinesa na Ilha. Ele refere que já existe alguma cooperação com a China e alguns portugueses nesse sentido.
Ainda segundo Leonardo Adamovitz, o ICOMOS testemunhou a deposição da documentação e das melhores peças únicas ou colecções completas no Museu da Ilha de Moçambique e tem a certeza de que esta colecção não foi objecto de exportação e nunca será comercializada.
A ver vamos...
Quem é a Arqueonautas?
Segundo Paulo Alexandre Monteiro, da Archport, "A Arqueonautas, AS é uma empresa de caça ao tesouro formada em 1994. Tinha como director de operações John Grattan, ex-oficial da Royal Navy e protagonista de vários desacatos e crimes na ilha Terceira, onde operou em 1972. A empresa que tem (ou tinha) como accionistas, entre outros, membros do Grupo Espírito Santo, Francisco Pinto Balsemão e José Manuel de Mello, opera (ou operou) em Cabo Verde com o beneplácito do Ministro do Mar, depois de ter visto frustrada a sua intenção de proceder a prospecções e recuperações nos mares dos Açores, ao abrigo do revogado dec.lei 289/93.
A sua arqueóloga contratada, Margareth Rule, declarou em público não se responsabilizar pelos trabalhos da empresa, servindo apenas de consultora, não assumindo, portanto, quaisquer responsabilidades caso a administração da empresa não seguisse os seus conselhos.
Existem – ou existiam – algumas pessoas e entidades – como a Fundação Ricardo Espírito Santo e a Faculdade de Letras de Lisboa – associadas a esta empresa. Entre as individualidades referidas contam-se José Hermano Saraiva, consultor cultural da empresa, e Dom Duarte de Bragança, presidente do Conselho de Acompanhamentos da Arqueonautas, AS. Este último, segundo as suas declarações à Agência Lusa aquando da sua estadia no aerquipélago cabo-verdiano, em Julho de 1995, teria usado a sua influência para sensibilizar as autoridades locais para a recuperação de naufrágios históricos, num projecto que custaria milhões de dólares. O gabinete de Dom Duarte admitiu mesmo ao jornal Público que o pretendente ao trono participara na reunião havida entre a Arqueonautas e o governo cabo-verdiano, reunião na qual foi negociada a concessão de exploração de uma zona marítima junto à ilha do Fogo".
Segundo o seu próprio site na Internet, a Arqueonautas foi fundada a 10 de Agosto de 1995, na ilha da Madeira e registada na Conservatória do Registo Comercial da Zona Franca da Madeira. Apresentava, em 2003, um capital totalmente realizado de 3 milhões de Euros. No site da empresa não foi possível detectar nenhum endereço físico, mas em outros sites aparece um endereço no Estoril, perto de Lisboa. Como face representativa da empresa aparece um conde Nikolaus (Nikky) Sandizel, como presidente do conselho executivo. Os outros dois membros desse conselho são o Barão Howard Strouth e o Barão Reinout Sloet to Everlo.
Através de outras informações fica a saber-se que o governo de Cabo Verde terá rescindido o seu contrato com a Arqueonautas por razões que não foi possível conhecer.
Ainda na Internet surge um comunicado da Marinha Americana informando que os objectos leiloados pela Arqueonautas, retirados de um barco de guerra americano naufragado junto a Cabo Verde, são pertença do governo americano e não podem ser comercializados.
O QUE DIZ A LEI
A Lei 10/88 define com clareza, no seu artigo 3, ponto 5 b) que: Elementos arqueológicos (instrumentos líticos, cerâmicas)... são bens culturais móveis.
No seu artigo 7, ponto 2, afirma: "São, com efeito imediato, declarados bens classificados do património cultural: a) Todos os monumentos e elementos arqueológicos; ..."
No seu artigo 10 afirma que: "São considerados propriedade inalienável do Estado os seguintes bens do património cultural, conhecidos ou que venham a ser encontrados no território nacional: a) Estações e objectos arqueológicos ..."
No artigo 15 a mesma lei afirma que: "É proibida a exportação de bens classificados do património cultural".
O artigo 16, no seu ponto 1 afirma que: "Importação ou exportação temporária ou definitiva de bens culturais poderá ser isenta de direitos de importação e exportação desde que os bens se destinem a ser utilizados para fins culturais, científicos ou, de outro modo, de utilidade pública, no âmbito de acordos com Estados, organizações internacionais e entidades públicas e privadas de outros países."
No artigo 24 diz que: "A exportação de bens classificados do património cultural será punida nos termos do art. 21, sem prejuízo da responsabilidade civil ou criminal a que o infractor ficar sujeito."
O Regulamento de Protecção do Património Arqueológico, decreto n. 27/94 define, no seu artigo 2, que: "Património arqueológico é o conjunto de bens móveis e imóveis de valor arqueológico, paleontológico, antropológico ou geológico, relacionados com as gerações antepassadas, encontrados por meio de descobertas fortuitas, prospecções ou escavações arqueológicas, bem como os que venham ainda a ser descobertos ou escavados...".
No seu artigo 7 este regulamento afirma que: "1. Quem descobrir um elemento arqueológico, consoante o valor que se prove que ele tenha sob o ponto de vista artístico, histórico, científico ou de preciosidade dos seus materiais, pode requerer ao Ministro da Cultura e Juventude um prémio que compense o valor do achado. 2. O requerente, sujeito às condições definidas no art. 6 do presente capítulo, pode requerer ao Ministro da Cultura e Juventude que o prémio pela descoberta dos elementos arqueológicos seja substituído pelo direito a se tornar proprietário de parte do espólio recolhido durante a realização de trabalhos arqueológicos. (...) 4. Para os casos previstos nos parágrafos anteriores a alienação é precedida do processo de anulação da classificação dos respectivos bens, ao abrigo do n. 1 do artigo 7 da Lei 10/88, de 22 de Dezembro e podem os mesmos ser exportados temporariamente ou definitivamente ao abrigo da isenção prevista no parágrafo 1 do artigo 16 da Lei n. 10/88, de 22 de Dezembro."
O artigo 18 refere que: "1. A anulação de elementos arqueológicos como bens classificados do património cultural é da competência do Conselho de Ministros. 2. O processo de anulação de elementos arqueológicos como bens classificados do património cultural é realizado através de uma proposta feita pelo depositário e entidades responsáveis pela elaboração dos inventários de elementos e estações arqueológicas, após o que é enviado à DNPC que o submete ao Ministro da Cultura e Juventude. 3. A proposta de anulação da classificação deve referir o insuficiente valor patrimonial do elemento arqueológico, com base na análise e estudos efectuados."
Analisando o presente leilão à luz desta legislação pode concluir-se que a única forma de as peças leiloadas terem saído legalmente do país era mediante a sua prévia desclassificação, pelo Conselho de Ministros, ao abrigo do art. 18 do regulamento.
Terá isso sido feito?
E, se foi, como é que o Conselho de Ministros considerou ter "insuficiente valor patrimonial" uma colecção de 125 peças de cerâmica chinesa da dinastia Ming? Peças que acabaram por ser leiloadas por mais de 100 mil Euros?
Há pouco mais de um ano, quando se preparava a invasão do Iraque, o ministro dos negócios estrangeiros (?) francês, Villepin (?), apelou a um cuidado extremo com o destino dos fabulosos sítios arqueológicos e bens museológicos desse país.
Correu então as caixas de email um delicioso texto de Vasco Graça Moura, dedicado ao citado ministro. Entre outras coisas pedia-lhe a devolução dos bens pilhados em Portugal pelas tropas napoleónicas. O argumento não podia ser mais explícito, as preocupações do governo francês eram meramente políticas, o argumento cultural era instrumental (hipócrita).
Muito me ri com o texto, bilioso o q.b. diante da administração chiraquiana, absurdamente imperialista, absolutamente fora de prazo. Ri e divulguei.
Sabe-se o que aconteceu. Bárbaro, o comando militar americano não garantiu a segurança do Museu de Bagdad, assim criando objectivas condições para a sua pilhagem. Bárbaros pilharam o Museu. Bárbaros, alguns escribas portugueses afirmaram que tendo sido a pilhagem realizada por iraquianos isso significava não respeitarem eles a sua história. Porque haveriam outros de o fazer (confesso que li este argumento algumas vezes mas não me lembro de quem e onde)? Civilizado, o secretário da cultura (?, não estou certo do nome do cargo) da administração Bush, demitiu-se. Talvez ele próprio feroz "anti-americano" à luz desses escribas.
Depois o silêncio. Confesso que algumas vezes pensei o quão elevado teria sido se Vasco Graça Moura escrevesse de novo sobre o assunto. Ímpar homem de cultura, excelente poeta, apreciável prosador, grande divulgador de cultura, excelente administrador cultural, quem mais habilitado do que ele para "nuancear" argumentos (será que escreveu e tal se me escapou?)?
Depois do silêncio a negação. Lembro que há algum tempo li no Abrupto que a pilhagem do Museu tinha sido "contra-informação". Espantei-me, mais do que duvidei, mas muito quis acreditar. Se encenação então o fundo museológico estaria a salvo.
Vã esperança que A Natureza do Mal se encarrega agora de matar, ao ecoar artigo do Público [elo temporário, daí que artigo copiado e posto em baixo].
Para além do lamento pelos prejuízos arqueológicos (quantos bens se terão danificado) fica ainda, e mais uma vez, a conclusão: o fundamentalismo é imbecil. O do outro lado. O do nosso lado. E o do meio. O de todos os lados.
Mas diante das memórias da história tal conclusão política é poeira. Daqui a cem anos, estupefactos diante das sobrevivências sumérias e de tudo o que se lhe seguiu, alguém se lembrará de nós?
Publico
2.6.06
Irão e a Turquia insistem em não cooperar
Quinze mil antiguidades do Museu de Bagdad continuam desaparecidas
Mais de um ano depois do saque, quase 15 mil peças da colecção do Museu de Bagdad, Iraque, continuam desaparecidas. Países como o Irão e a Turquia insistem em não cooperar nos esforços de recuperação das antiguidades roubadas, disse ontem à AFP o director do museu, Donny George, à margem de uma conferência de dois dias que levou a Amã, capital da Jordânia, responsáveis pelas fronteiras e segurança de diversos Estados.
No encontro, em que estão ainda presentes agentes da Interpol e representantes dos Estados Unidos e de países europeus, Donny George aproveitou para sublinhar o esforço da Síria, Jordânia, Arábia Saudita e Kuwait, cujas autoridades recuperaram já centenas de peças traficadas. "Sabemos com certeza que há antiguidades iraquianas a passar pela Turquia e pelo Irão, mas nunca recebemos notícias desses países".
O director-geral do departamento de antiguidades da Jordânia, Fawwaz Khraysha, garantiu que 1046 peças roubadas no Iraque estão já nas suas mãos à espera que os responsáveis iraquianos as reclamem. Segundo o director do museu de Bagdad, a Síria recuperou 200 artefactos e o Kuwait 35. "A Arábia Saudita informou-nos que tinha alguns objectos mas não sabemos quantos", disse. "Mas 15 mil peças do museu estão ainda desaparecidas". Entre elas encontram-se a estátua de um rei sumério (cerca de 2400 a.C.) e uma peça em marfim e ouro com pedras preciosas que representa uma leoa a atacar um núbio (720 a.C.).
Muitos outros artefactos terão desaparecido dos milhares de sítios arqueológicos espalhados pelo país, onde os saques continuam "impunemente".
No Iraque há "cerca de 100 mil sítios arqueológicos, dos quais apenas 10 mil estão registados, daí a impossibilidade de proteger todos", explicou um alto responsável da Interpol, Karl Heinz Kind. "O maior problema actualmente são as pilhagens contínuas de sítios arqueológicos e a destruição da história de uma civilização inteira."
O Museu de Bagdad, considerado o quinto mais importante do mundo, foi saqueado a 12 de Abril de 2003, quando a capital iraquiana estava já "controlada" pelos EUA. Algumas das suas peças mais divulgadas, como o Tesouro de Nimrud - um magnífico conjunto de jóias que data de 900 a.C., considerada uma das maiores descobertas arqueológicas do século passado -, a cabeça (na foto) e o vaso de Warka (3200-3000 a.C.) estão a salvo. O museu está neste momento em remodelação.
Pus aqui um desestruturado texto, procurando com ele encerrar a atenção sobre a política portuguesa no Ma-schamba.
Porque não me faz bem, potenciar saudades com irritações. Para aquelas já me bastam e sobram os velhos pais, a pequena família por lá, e a (meia?) dúzia de amigos que lá me restarão, esses que têm a péssima qualidade de serem insubstituíveis.
Fugir às políticas é também lema deste blog. Imaginado para tentar olhar o que me rodeia, falar disso se me tocar, calar-me se nada me soar.
Para mais em Portugal não faltam blogs políticos (todos podem ser políticos, uma questão lá da Antiguidade). Decerto mais entendidos, mais habilitados, mais informados. Para quê estar rivalizar com eles ou complementá-los?
Larguei o fel, e pronto! Mas LNT do Tugir ripostou, articulada e assertivamente. De tal modo que me obriga a ensaiar resposta, o silêncio seria deselegância. E porque me parece que deixei algumas incompreensões.
Acima de todas, uma. A de que eu escrevi sobre a "corrupção" política. E que a vejo como cerne da vida política. Ora não é esse o aspecto. Eu escrevi sobre a "inintelectualização" da vida política. A sua decadência. E vejo a corrupção de parcela da vida política como causa dessa decadência. Por isso a referi.
Diz LNT, em preâmbulo, que teve que imprimir o texto para o entender, tão incompreensível se apresentou. Aí concordo. Mas era uma fuga, não uma tese (fraca justificativa).
Cansado, vou recorrer a citações de LNT para contra-argumentar e explicitar. Cito longamente, que esse truque de "picar" frases para as descontextualizar não é para mim. Das separações exigíveis espero que não desvirtuem o que não o merecerá.
1. "O poder local é o elo por excelência dos cidadãos com os seus representantes. Porque mais próximo, porque mais acessível, porque mais comunitário. Tem de ser dotado de meios que lhe permitam actuar e resolver os problemas das populações que o elege. Não o vejo como apropriação partidária dos recursos públicos. Se o for, tem de ser punido, como tudo o que é usado em fins diversos daqueles para que foi criado. (LNT)
Tirando a palavra "comunitário" (que abomino, porque cheia de falsos pressupostos moralistas e igualitários) concordo em absoluto. E imagine, LNT, até por razões profissionais.
O que considerei é que, durante décadas, não houve uma política estrutural de controle do poder local. [não tenho nenhum file no meu computador cheio de provas, mas será preciso abrir um blog para botar o imenso desconchavo português nessa matéria? Em todos os partidos?]. Ou seja, as evidentes malfeitorias não têm sido punidas com a pertinência que seria de exigir. A nível local e não só [acho aliás que recentes acontecimentos em torno do folclórico "Apito Dourado" o indiciam. Chamo a sua atenção para o que está escrito aqui. São apenas exemplos]. Acho também, e admito que possa estar errado, que não se poderá fazer uma história política da III República sem se olhar atentamente para os arquivos, para a acção e para a missão do Procurador-Geral da República eterno (se houver arquivos consistentes).
Disse-o porque acho serem as formas organizativas dos maiores partidos favorecedoras do peso estrutural das organizações concelhias, e portanto das interacções entre os complexos político-económicos em torno das câmaras, na condução dos destinos partidários. Calando-se aquando da gestão do poder (o recente congresso do PSD, os últimos do PS, são meros exemplos), imprimindo as suas influências noutros momentos. E sendo factor da degenerescência da vida política nacional. Não por causa do Poder Local, sim por causa da realidade do "poder local". Um factor, não O factor.
Digo existirem formas de apropriação partidária dos recursos sociais. Porque nem todos os políticos são pessoalmente corruptos. Mas todos os partidos têm que se financiar. Porque todos apelam e reproduzem clientelas. Mas também porque o exercício do poder é considerado como passível se instrumento de apropriação privada ou colectiva de recursos. LNT, não vou aqui escrever atoardas sobre presedis notoriamente integrados em esquemas de enriquecimento ilícitos. Não tenho provas, seriam calúnias pois então. Mas existem e muitos. E, era esse o meu ponto, reproduzem-se ao longo dos anos com o beneplácito das suas direcções nacionais que, quantas vezes, deles precisam, deles dependem. E se isto não é verdade, não vale a pena continuar a ler.
Pois V. considera que teoricamente o poder local é um instrumento fundamental na gestão da coisa pública. Também eu, nada arauto do Terreiro do Paço. Mas também acho que a prática não corresponde a esse ideal. E, em suma, é muitas vezes estruturante dos destinos partidários globais.
2."Recuso entrar na perigosa conversa de que todos os políticos são maus, incompetentes e perigosos. Na política, na advocacia, na medicina, na antropologia, na sociologia e em todas as outras ciências ou profissões, existe o bem e o mal, o competente e o incapaz, o sério e o corrupto."
Também não considerei todos os políticos corruptos. Aliás o meu texto procurava ser um descentramento na questão da corrupção, dos desmandos, do moral. O desprezo a que aludi não provinha da hipotética corrupção. Mas sim de uma falta de princípios no estabelecimento da comunicação com os eleitores, com a população. O meu desprezo é simétrico. Não porque me roubam, mas porque me desprezam com os seus iniquos teatros, vazias e mal-criadas afirmações.
Discordo completamente é na associação que faz com as profissões. Claro que há bom e mal, competência e incompetência nas outras actividades. Mas são de outra ordem. O político não é uma profissão, não há Ordem, não há Deontologia, não há Código. Vota-se neles, provêm de várias áreas, entram e saem. Ou vamos começar a votar para o sociólogo da Câmara, para o médico do Hospital, para o polícia do bairro? Peço desculpa, mas aqui há um desvio conceptual. A grelha de análise é (tem que ser) diferente. Um profissional serve-me, não me representa.
3. "A política, local, nacional ou internacional é uma forma nobre de servir, é um meio ao alcance de todos, repudiado por muitos que preferem não se envolver para poderem livremente comentar, e prescindem do seu dever de participação na comunidade por comodismo. Primeiro abdicam da participação na construção de soluções e acabam como abstencionistas delegando nos outros o poder das escolhas em que, por sua vontade, se não revêem."
Concordo com o início e já aqui, em diálogo consigo, o afirmei (ponto 3).
Mais, acho que Portugal muito se desenvolveu nas últimas décadas. Enriqueceu, melhorou. Pelo fim do Império, que canalizou o investimento social para o país; pela democracia (bem em si, mas também instrumento de desenvolvimento); pela intervenção de centenas de milhares de retornados, a abrirem novos polos económicos; pela integração europeia. E, claro, também pelo trabalho dos políticos, de um sistema político que, com erros e falhas é certo, integrou todo este processo e o direccionou.
Mas que parece em decadência. A minha questão é o do porquê desse esvaziamento.
Aqui temos uma discordância. O voto e a participação cívica é um Direito e não um Dever. Senão estariam consignados enquanto tal na lei. E não me convencem obrigações morais: pois aqui apelo à mais vergonhosa expressão que um PM da III República proferiu "A moral da República é a Lei".
Mais, a não participação não retira nenhum direito fundamental. Nenhum. E portanto não retira o direito da crítica.
Para além disso há várias formas de participar. Posso ter uma participação política como profissional? Acho que sim. Ou até como amador (p.ex. como bloguista). Talvez de modo profíquo do que enquadrado num partido político. Sobre estes deixei aqui um ponto, já há meses: acho-os feridos de inconstitucionalidade. E o "comboio descendente" vai rindo sem saber porquê.
Depreendo que para si a única forma de ter direito a opinião sobre os assuntos é
http://jornal.publico.pt/2004/06/05/Nacional/P69.html
Jorge Sampaio Apela ao Debate em Torno das Questões Europeias
Por LUSA
Sábado, 05 de Junho de 2004
O Presidente da República lamentou ontem que o debate da campanha eleitoral esteja afastado das questões europeias e escusou-se a comentar o anúncio de boicote em Canas de Senhorim, sublinhando que conhece "demasiadamente bem o dossier". "Conheço demasiadamente bem o dossier para fazer qualquer comentário", disse Jorge Sampaio aos jornalistas, durante um passeio no eléctrico de Sintra.
O líder do Movimento de Restauração do Concelho de Canas de Senhorim, Luís Pinheiro, anunciou ontem que mais de três mil habitantes subscreveram um abaixo-assinado a enviar ao Presidente da República anunciando o boicote e responsabilizando Jorge Sampaio pelo "descalabro da vida pública" local. A 31 de Julho do ano passado, o Presidente da República vetou a lei-quadro da criação dos municípios, impedindo a elevação a concelho de Fátima e de Canas de Senhorim, que tinha sido aprovada pela Assembleia da República.
Quanto à sondagem SIC/RR/Expresso ontem divulgada e que aponta para uma abstenção de 56 por cento nas europeias, o Presidente da República reconheceu que esse é um dado que "se sabe que existe". "Temos é que fazer todos os possíveis para que as pessoas vão votar, mas para isso é preciso que saibam a importância que tem o Parlamento Europeu", afirmou.
Jorge Sampaio lamentou ainda o facto do debate político da campanha eleitoral estar muito centrado na política interna e pouco na política europeia: "Em todos os países há uma componente de debate interno muito acentuada. Está a ser difícil passar do debate da política interna para a política europeia, o que é pena porque estamos a caminho de decisões que nos vão afectar no dia a dia", disse.
"Não há ainda a nível europeu um espaço que sirva para que as pessoas se apercebam que fazem parte de uma grande comunidade de Estados e que está a votar para algo que nos representa a todos", acrescentou.
No Savana (sem ligação ao texto referido) trabalho aprofundado sobre a acção da "Arqueonautas" em Moçambique: "Arqueologia em águas turvas", de Maura Quatorze e Machado da Graça. Acentuando a ilegalidade face à legislação moçambicana. E sublinhando o facto da empresa caça-tesouros não trabalhar sob nenhuma fiscalização estatal, como foi contratualizado (nem isso, nem isso). Destaque acentuado, ocupa as páginas centrais.
(Para quando o Savana na internet?).
Há 15 anos na praça da paz celeste

Foi o Quase em Português que mo recordou, dele roubo a foto. Ainda há dias escrevi aqui sobre ícones. Haverá algum maior e mais sentido do que este "democrata anónimo"? Mais emotivo e corajoso?
Um obrigado ao bloguista Lutz pela memória. Comovente ainda. Sempre.
E para lá do simbolismo ver eco da Amnistia Internacional no sempre eficiente Blog 19.
Os arqueólogos Filipe Castro do Oeste Bravio (via email) e Alexandre Monteiro do Naufragios tiveram a amabilidade de agradecer o eco que aqui tenho dado à questão do património arqueológico subaquático.
Agradeço os agradecimentos. Aliás, retribuo os agradecimentos. No sentido em que tal questão não é dos arqueólogos, é de todos. Os arqueólogos são (apenas) os "nossos" especialistas nesta(s) matéria(s). [piscadela de olho]
Mas talvez alguns leitores do Ma-schamba estejam até cansados/surpresos com tanta atenção [é o 9º apontamento longo sobre o assunto]. Então, e principalmente para os menos ligados a estas questões, aqui deixo um texto que o Alexandre Monteiro me enviou sobre o assunto pois poderá contextualizar melhor a importância da matéria em causa.
Tanto no texto como nos emails recebidos fala-se de princípios. Que são fundamentais. Mas eu gostaria de lhes somar algo, mais pragmático, ainda que com voz de não-especialista. Portanto hei-de fazer 10º apontamento.
Então aqui transcrevo o texto do Alexandre Monteiro:
""O tipo de património com que trata a arqueologia, neste caso a subaquática, encontra-se, no mínimo, em ampliação constante à medida que as escavações se vão realizando e à medida que os achados fortuitos se vão multiplicando, um pouco por todo o espaço nacional e internacional.
Cabe aos órgãos governativos de cada país - a quem compete legislar, estudar, defender, animar e classificar o património cultural - a definição de uma política de intervenção esclarecida, responsável, orientada pelo sentido das prioridades e assente em estruturas de futuro, desde que esta seja devidamente suportada pela comunidade académica e amadora.
Finalmente todas estas premissas nada serão se não gozarem do apoio da população directamente envolvida nos processos de gestão arqueológica.
O primeiro passo a dar, será sem sombra de duvida, a elaboração de uma carta arqueológica subaquática, com todo os sítios da área considerada marcados e posicionados.
Ora, a necessidade de conhecer os sítios arqueológicos de uma região implica a obrigatoriedade de se obter um vasto número de dados arqueométricos e geofísicos. O trabalho de prospecção torna-se assim, uma ferramenta essencial para a colecção desses dados, ao mesmo tempo que corrobora ou amplia as informações fornecidas pelas fontes escritas, sendo de destacar a importância da fidelidade de prospecção , bem como o aumento da importância do conceito de sítio.
A definição de "sítio arqueológico" está intimamente ligada com os limites das conclusões que se podem tirar dos trabalhos de prospecção, já que é uma definição necessariamente aproximativa devido ao carácter restrito das interpretações cronológicas e funcionais.
A arqueologia e a história constroem imagens que retratam, de uma forma verosímil, o que se passou anteriormente em determinado espaço, imagens essas que são validadas diferencialmente por diferentes públicos. Estas imagens, consumidas pelos próprios utentes do território, atribuem ao património arqueológico um valor de recurso corrente e de primeira necessidade porque, sem ele, a paisagem perde qualidade e transforma-se num vasto deserto desmemoriado. É, pois, fundamental a abertura do debate e do diálogo entre as forças sociais e políticas sobre o que realmente se pretende como política cultural para este tipo de património.
No caso de Moçambique e da putativa polémica que se tentou levantar relativamente à reclamação dos achados, no meu entender, esse património, tal como o seu congénere em terra, é inalienável, indivisível e único.
Logo, a questão da propriedade deixa de se colocar. O património cultural subaquático das águas de Moçambique passa a pertencer, não à região ou ao país, mas sim à Humanidade. Como a Ilha de Moçambique, Património Mundial.
O fundamental agora é saber quem é que vai assumir as responsabilidades inerentes à sua gestão, com todos os custos que isso implica... até porque se pode sempre optar pela opção zero: afinal, um património afundado há 500 anos, poderá esperar outros 500 anos em condições de estabilidade ideais..."
O Naufragios colocou um texto do arqueólogo moçambicano Ricardo Teixeira Duarte sobre a venda do património arqueológico.
Aqui o transcrevo. O negrito é meu....
Caça ao Tesouro em Moçambique
Ricardo Teixeira Duarte
E lá foi leiloado o património da Ilha de Moçambique.
Na minha qualidade de arqueólogo lamento o facto. Lamentam-no igualmente todos os meus colegas arqueólogos Moçambicanos. Lamenta o povo da Ilha, indignado pelos seus tesouros terem ido parar às colecções de meia dúzia de capitalistas diletantes.
Em Novembro de 1997 encontrava-me a trabalhar na Ilha de Moçambique, num projecto financiado pela cooperação Sueca (ASDI), juntamente com um biólogo do Museu de História Natural, o José Rosado, num mergulho, mesmo em frente à fortaleza da ilha, a cerca de 20 m de profundidade encontrámos um conjunto de jarrões enterrados na areia e uma grande âncora, em direcção à superfície pelo declive acima uma profusa quantidade de vestígios arqueológicos misturavam-se com corais e peixes num magnifico espectáculo que se ia proporcionando em direcção à plataforma de coral, mesmo em frente à fortaleza da Ilha, onde repousavam as pedras de lastro e o resto do casco de uma antiga nau portuguesa. Estava descoberto o naufrágio cujo espólio agora foi leiloado pela Christie´s em Amesterdão.
Em Fevereiro de 1998 com a ajuda dos arqueólogos Steve Lubkmann e David Colin do Serviço Nacional de Parques dos Estados Unidos iniciei o estudo deste importante naufrágio com grande entusiasmo. Numa primeira campanha de 15 dias fizemos um reconhecimento do local e o levantamento da zona dos jarrões. Os resultados foram apresentados numa conferência no centro cultural Americano em Maputo. Um dos jarrões foi retirado e depositado no museu da Marinha da Ilha de Moçambique. Sobre este assunto foi feito na altura um documentário para a televisão Moçambicana (TVM) pela saudosa jornalista Teresa Sá Nogueira.
Os trabalhos estavam devidamente autorizados por uma licença da Direcção Nacional do Património Cultural. Programávamos um importante projecto de pesquisa da Universidade no local. Mas este entusiasmo foi “sol de pouca duração”: no mesmo ano o Governo assina um contrato de exploração comercial de achados arqueológicos com a empresa Arqueonautas, precisamente para a zona onde estávamos a trabalhar. E assim traçou o destino dos restos da nau portuguesa que durante séculos tinha sido conservada no fundo do mar e cujo espólio foi agora parar às colecções privadas de meia dúzia de ricaços na Europa.
No meio de toda esta tristeza que nem vale a pena discutir, somente deixo um comentário e uma pergunta:
O comentário:
Foi a primeira vez que objectos de um Monumento do Património Cultural da Humanidade foram vendidos em hasta pública !! Isto perante a passividade da UNESCO !! Como é possível?
A pergunta:
Como autoriza o Governo a venda de objectos de uma estação arqueológica quando a lei nº 10/88 de 22 de Dezembro no seu artigo 10 considera “Estações e objectos arqueológicos” propriedade inalienável do Estado ?
A empresa Arqueonautas cometeu assim uma infração flagrante à lei. Quem vai fazer justiça, quem vai zelar pelo cumprimento da lei neste caso?
to imagine that there is any strict dividing line between the waking world and the world of dreams. N. and I, for example, are confused by the sense of several contemporaneous lives being lived inside us; the sensation of being mere points of reference for space and time"
(L. Durrell, Prospero's Cell, Faber & Faber, p. 2)
[jeremiada desgarrada (se calhar ilegível, mas que se dane isso): Ou, ensaio para libertar o Ma-schamba da política portuguesa, de uma vez por todas]
Por vezes, "ele há dias", em que leio Portugal e me sinto um "estrangeirado". E isso custa.
A futebolada nacional sublinha-me isso: "o cartão amarelo", "a força portugal"! E a mescla "tãããão giiiiirá" trostkoestalinista.
E, agora, pior que tudo, mais horrível, mais vergonhoso, e tudo isso sublinhado pela indiferença futebolizada de todos em vez da indignação geral, do ostracismo moral e político que seriam merecidos e exigíveis numa democracia consciente, a
candidata comunista para quem o Iraque de Saddam era uma democracia ainda que os próprios comunistas fossem aí abatidos (Ou voltámos ao Komintern?).
Há muito que se afirma a imoralização/amoralização da política aí. Sobre isso já aqui entrei em suave contenda com o simpático socialista Tugir, na qual tive que constatar pública derrota (mas não convencimento).
O meu argumento então, nada original, resmungava o peso determinante do complexo concelhio/camarário/imobiliário nas vidas partidárias, uma pérfida alquimia. Uma República partidocrata subordinada ao lema do "Todo o poder aos poderes locais". A via para a apropriação partidária dos recursos públicos (seria melhor dizer recursos sociais). Grave, gravissimo, e como dizia há pouco Vasco Pulido Valente (perdi o aonde) prenhe de sidonismos - interessante como esse esclarecido artigo não teve tanto impacto como a sua escatológica intervenção no "Portugal Positivo"! Quando muito mais profundo. Sem querer ser escatológico, foi-o realmente, ameaçando-se prenúncio.
Mas nestes dias de futebolês e asneirada o que surge nem é a imoralidade/amoralidade. É mesmo a inintelectualização. Falta inteligência. Talvez não esperteza. Mas falta "massa crítica" (pirosa expressão). Aos oradores. Aos assessores, esses que escrevem discursos, esses que deveriam ser batedores e não carregadores.
Talvez devido a essa inversão ande tanta asneira no ar: a um carregador exige-se fidelidade, debaixo da carga; a um batedor pede-se lealdade, lá à frente solitário-solidário.
Porque é que uma sociedade incomparavelmente mais rica, mais educada, mais desenvolvida, mais vivida do que a de algumas décadas atrás expulsa da política a inteligência?
Da política! Porque não do resto. "Ele" há gente. Rui Curado Silva deu-nos um belo texto sobre as não-eleições europeias. O por ora ditirâmbico João Tunes oferece-nos um excelente elo a esclarecido artigo de Augusto Mateus.
Há gente, repito. Mas que se passa aí?
Roubalheira dessa cacicada? Sim, gente enriquecida com a Ajuda Externa (disfarçada em fundos estruturais), mas sempre lestos na crítica aos "pretos ladrões". Gente e partidos enriquecidos num sistema que se esqueceu de prever o final do mandato do Procurador-Geral da República. Puro "Cabritismo" como aqui se diz: "o cabrito come onde está amarrado".
Mas acima de tudo um teatro imoral, imoral de cacofonia. Cujos actores, cujos encenadores, cujos dramaturgos (se os há, se os há) só julgam legítimo e eficiente porque desprezam o eleitor, a população, sua memória e inteligência. Porque me desprezam a mim. E porque o desprezam a si, leitor de blogs, leitor bloguista.
Não porque todos sejam ladrões, nada disso. Mas porque se vêm belos ao espelho, a tesão do poder, em espasmos de arrogância em seu torno. Assim conspurcando-nos.
Antropólogo, creio na heurística da história de vida. E da etnografia.
Daí que narre um pequeno episódio, recente. Não só sobre os socialistas. Mas a partir de socialistas também sobre socialistas. Dedico-o, com simpatia, ao blog amigo Tugir, [acabo de ver que me enviou uma prenda musical, cruzámos lembranças], bem como aos outros blogs assumidamente socialistas que me têm elado nos últimos dias. Elos que agradeço. E que retribuo.
Dedicatória sem ironia. Sem acinte. Apenas porque poderá esclarecer o que nos divide muito melhor do que qualquer texto estruturado que para aqui ensaie. Então aí vai, sem requebros de forma:
Coisa de uma semana atrás. Mais ou menos a ver o telejornal (RTP-África). Surge a notícia de um qualquer Forum sobre a Europa, campanha eleitoral do PS. Guterres e Sousa Franco no palco, o primeiro (rabiando as questões presidenciais) cumulando o segundo de elogios, este idem no vice-versa.
Alguém, ali ao lado, diz-me "estás a ouvir?" e eu distraído com o movimento "hum, hum". Insistem-me, agora alertando-me, "mas estás a ouvir? mas estes tipos não andaram a dizer o pior um do outro? e agora estão para ali assim?", e eu "já nem lhes ligo" e, súbito, Alguém irrompe num brutal, ríspido "estas tipas são umas putas!". Assim mesmo. No feminino, como nós, os rudes, fazemos para incrementar o desprezo. Um Alguém que conheço para aí há uma dúzia de anos e a Quem nunca lhe tinha sequer ouvido a palavra "P...". Apenas por vezes aquele "zééé" arrastado, tangível crítica quando a língua se me desbraga.
Ali, face à TV, a irromper o desprezo. Incontido. Apartidário. Moral. Político. O desprezo. Tanto que me fez parar.
Que fazer?, diria Lenine, esse mongol sanguinário. Que fazer diante deste "teatro imoral, imoral de cacofonia" (bis)? Uma teatralidade cuja convicção provém do desprezo para com a plateia? E à qual, caro LNT não há CVs rutilantes que limpem.
Aos quarenta anos só aprendi uma coisa: nunca votar em ninguém que (fora de campanha eleitoral, claro está) nos aperte a mão sem nos olhar nos olhos, dizendo o seu nome se for a primeira vez. Como os homens fazem! Não só não voto como o mando, mesmo que mudamente, para a puta que o pariu. Ou, mais literário, um "hei-de cuspir-vos na campa"! A eles. Só a eles. Nunca a quem neles acredita. Pois muito respeito os amantes da nobre arte do Teatro.
Conhece V., leitor amigo que até aqui chegou, algum desses? Eu conheci dois. Não está mal. Já posso dizer que não é ontológico...
E (A PARTIR DE) AGORA ALGO COMPLETAMENTE DIFERENTE....
A propósito de um dos meus "resmungos de estimação", parafraseando um dos grandes momentos do MEC, o Marco Oliveira, outro bloguista olivalense (já somos pelo menos 3, "onde quer que se vá encontra-se um gajo dos Olivais", dizíamos assim confiantes, lembras-te L.E.?) teve a bondade de me enviar este email:
No sábado fui à feira do livro. Eu e minha esposa. Eu lá ia com a mochila às costas, para carregar a livralhada. A certa altura deparei com o José Rodrigues dos Santos a dar autógrafos do livro qualquer. Não tinha ninguém à volta dele de modo que abordei o gajo.
- "Sabe tenho uns amigos lá em Moçambique que ficam chateados quando o telejornal termina com a frase 'Boa Noite a todo o mundo português!'"
- "Mas eu nunca digo isso"..., respondeu logo ele.
- "Pois não. É um colega seu... Mas para os moçambicanos dá a impressão que todos temos tiques colonialistas... Se puder dar o recado ao seu colega..."
- "Com certeza...", sorrindo.
E foi assim. O teu recado foi entregue.
******
Obrigado Marco. A ouvir vamos...
De local em local caí há uns dias numa polémica inter-blogs, até pungente. A vida não é um blog, ocorreu-me comentar, entre meia dúzia de palavrões, dedicados é certo a gente obviamente mais nova do que eu. Palavrões, não insultos. Hóbi (já se diz assim?) sim, vício não, vida nunca!
E já agora também não diário noticioso. Ocorrem-me coisas para meter e depois largo-as "porque perderam actualidade". Meu erro, isto não é site jornalístico. Assim segue o próximo comentário político...(aparentemente o anterior)
NOTA: janela aberta a escrever, uma outra a ler. E caindo no Mar Salgado onde se ecoa um artigo do New York Times transcrito no BdE mais ou menos sobre este primeiro parágrafo. Dá para ler.
ADENDA À NOTA: também nesta via leio agora um belo texto do P. Querido sobre porque blogar. Belo e certeiro.
Pois já não conheço o meu país. Não as estradas e isso, não os restaurantes e lojas e isso. Não os canais múltiplos e isso. Não as meninas e meninos já velhos das revistas e isso.
No país de onde saí nunca, mas nunca, se diria que a polícia era controlada pelo PCP. Nesses bons velhos tempos, comunistas e polícia eram (dizia-se) cão e gato. E era assim a ordem natural das coisas, porventura falsa como qualquer ordem natural...
Saí em 1997. Décadas se passaram, decerto.
Mas espero que seja verdade. Sê-lo-á? Espero que sim, senão como posso eu justificar-me o meu voto em Durão Barroso? Os dois passados e o futuro (vade retro José Socrates)...
Comecei o Ma-schamba em Dezembro. Em data incerta, pois os primeiros apontamentos foram congelados para que Mr. mpundzu.com, Ken Hansen, ultimasse melhorias no "main index". Deste modo, e muito africanamente, o Ma-schamba não tem verdadeira data de aniversário. O registo (o primeiro "post") foi algo posterior ao nascimento.
Enquanto esteve no mpundzu.com não tive acesso a contador de entradas, instrumentos de cuja eficiência muito desconfio.
Em meados de Março alojei-me no weblog.pt do senhor Querido. Passei a ter contadores: o webalizer interno, e instalei o site meter e o extreme tracking externos. Estes têm-se mantido relativamente estáveis, ainda que um pouco ascendentes. São notoriamente falíveis, os IP dos poucos comentadores nunca são reconhecidos.
O webalizer não é bem assim, tem vindo a subir. Em Março 114 visitas diárias. Não foi mau, um blog escrito por um tipo desconhecido, em Moçambique onde poucos leitores surgem [menos computadores, menos banda larga, menos hábito bloguístico e, last but not the least, pouco interesse nas minhas coisas]. Em Abril subiu para 176 visitas diárias, muito por efeitos da chamada de atenção que o Francisco José Viegas fez. Foi ele que me fez lembrar a imagem do "turbo-leituras".
Em Maio a colheita de leitores em muito aumentou, diz-me o tal webalizer: 447 visitas diárias. Muitas serão minhas, mas eu não alterei o modo, daí que alguma coisa terá crescido o Ma-schamba neste mês.
Porquê? É nítido. Turbo-leituras outra vez. No princípio do mês o Luís Ene desafiou os bloguistas a mostrar a cara. Eu não a meti lá, mas botei um texto longo Roupa Velha 15: as Estradas do Niassa em que, narciso, coloquei uma foto minha. E avisei o Luís Ene que, gentil, ecoou o facto.
A partir daí as visitas quase quadruplicaram. Portanto não há dúvida: são os "turbo-leituras" que determinam o crescimento dos blogs.
Haveria explicação alternativa: o efeito apelativo da minha carinha laroca. Mas com este trombil não me parece muito credível a hipótese.

Ultimamente muito tenho escrito/ecoado sobre a Ilha de Moçambique. Então aqui fica a Ilha segundo o Zé Cabral. Ou, uma lição sobre como desmontar o exótico.
"Ilha de Moçambique",
"Évora/Ilha de Moçambique" (8 postais; cx. com duas fotos)
Fotografias de José Cabral (1997-1998)
Edição da Câmara Municipal de Évora, s/d (1999?)
Via O País da Marrabenta chego a mais um novo blog moçambicano. Começam a surgir, não há dúvida.
Então aqui fica o Crónicas Semanais, de Luís David. Por enquanto transcrevendo as crónicas publicadas no Domingo. Boa sorte. Ou, como quer o jargão bloguístico, "bons posts"!
Em minha opinião era o melhor blog político português. Pela fantástica prosa, de uma concisão cristalina. Pela extraordinária capacidade em desnaturalizar argumentos. Inteligência. E até, tão rara na política, estética. Nestes casos que interessa concordar ou discordar? Melhor pensar.
João Miranda fechou o Liberdade de Expressão. E juntou-se ao Blasfémias. Neste último já deixei o meu lamento, que "um caçador solitário não se junta ao grupo". Western, pois claro. O grande mito liberal!