O Naufrágios acaba de colocar mais dois textos sobre a exploração do património histórico subaquático nas costas moçambicanas, realizada pela empresa "Arqueonautas". Ecoando o Mediafax de sexta-feira com a posição dos arqueólogos moçambicanos, e um artigo na última Grande Reportagem, onde mais uma vez se denuncia a cumplicidade do auto-proclamado pretendente ao trono português nesta malfeitoria.
Já aqui me referi à hipótese de estabelecer uma política de arquivo bloguístico, tendo ainda voltado de passagem ao assunto a propósito do não-caso da "chacina de blogs".
Nesse primeiro texto que dediquei ao assunto Pedro Guedes do Último Reduto [eis como a "blogosfera" pode permitir que pessoas com tão diferentes pensares se leiam mútua e naturalmente] comentou que José Pacheco Pereira já tinha escrito, alertando para essa possibilidade ou necessidade. Costela de historiador, claro está.
Neste mesmo sentido recomendo o esclarecido texto que o Adufe acaba de dedicar ao assunto, bem como os comentários posteriores, que da polémica retiram esclarecimento.
Por mais que não fosse Eduardo Cintra Torres, cronista/crítico de TV do Público, ganhou direito a nome de rua suburbana e bustozito no passeio com o artigo da semana passada sobre o casamento de Filipe Bourbon e Letízia Ortiz. Agora auto-promoveu-se a praceta via excelente e clarividente "O Futebol como Parte do Sistema Político"
NOTA: os jornais costumam retirar o acesso aos artigos. Como li algures o que nos blogs se consegue fazer são apenas "elos efémeros" (como se isso não fosse a condição de qualquer elo). Assim passo a copiar os artigos que decidir ligar, e a colocá-los no texto, qual (extensa) nota de rodapé.
O Futebol como Parte do Sistema Político
Eduardo Cintra Torres
Público, 30 de Maio de 2004
Na semana passada participei no Rivoli Teatro Municipal do Porto num colóquio incluído no original ciclo cultural Pontapé de Saída motivado pela realização do todo-poderoso Euro 2004 em Portugal. Referi que quase tudo o que sei de futebol sei pela televisão. Não jogo, não frequento, não leio imprensa desportiva, não oiço rádio desportiva, vejo poucos jogos na TV, não sei conversar sobre o desporto. O que sei é pelos noticiários televisivos, pelos jogos que vejo, por pedaços de programas, pelo zapping.
E que me ensina a televisão sobre o futebol? Que o futebol é economia, que é sociedade, que é sociabilidade, que é ideologia. Também é espírito, o sonho do amanhã que canta para a multidão que ganha ou perde. E exemplifiquei dizendo que: os adeptos do Benfica aguentam esperar oito anos pela próxima vitória; os adeptos do Sporting aguentam esperar 17 anos pela próxima vitória; e os adeptos do Futebol Clube do Porto (FCP) aguentam esperar pelo menos uma semana.
Meu dito, meu feito, eis que quatro dias depois o Porto inunda a pátria com a sua fantástica vitória na Taça dos Campeões Europeus. As emissões da televisão portuguesa, em especial o non-stop da RTP1, confirmaram a última dimensão do futebol que referi no Rivoli: o futebol como política.
No excelente artigo "Glória e Servidão" ("DN", 28.05), Manuel Villaverde Cabral sublinhou como a glória do êxito do FCP tem como reverso a servidão da política: "o poder político, cada vez mais desenraizado e distante das populações, faz tudo o que pode, mesmo o que não deve, para tirar partido da paixão popular pelo futebol e da efémera glória colectiva que ele traz de vez em quando. E é assim que o futebol se transforma numa forma de servidão política, como mostram a corrupção nas autarquias e o financiamento partidário."
De facto, a intersecção futebol-política é ainda mais profunda do que o aproveitamento repetido das glórias da bola pelos governantes e oposição e do que a promiscuidade entre o pessoal que ora transita ora se mantém nas duas actividades (Santana, major, Seara, etc).
As intervenções da esfera política no jogo do FCP são sinais de como o futebol foi integrado na esfera política: o chefe do Estado fez-se representar pela mulher e falou cá de imediato pela TV sobre a vitória como metáfora do futuro político do país; o primeiro-ministro adiou uma visita de Estado ao México para fazer uma outra visita de Estado, aliás, uma "visita de estádio" a Gelsenkirschen; a deputada Manuela Aguiar queria dispensa de falta no parlamento, fazendo da deslocação ao jogo uma tarefa de representação política; Ferro Rodrigues, Deus Pinheiro e outros políticos saudaram a vitória numa colagem habitual aos êxitos da nova religião do povo. E não esqueçamos a imagem de Guterres com um cachecol da bola numa reunião da União Europeia e a excursão parlamentar e governamental a Sevilha.
São sinais que resultam de o futebol se ter transformado numa nova religião, uma religião laica, com a sua ideologia, a sua fé, as suas massas, as suas cerimónias e ritos, as suas "catedrais" e clero, a sua economia. Não admira que a Conferência Episcopal portuguesa tenha alertado há meses, em invulgar comunicado, para o peso excessivo que o futebol vem assumindo no país: o futebol é, de facto, a única crença e instituição que pode tomar o lugar do catolicismo na sociedade portuguesa.
Trata-se de uma instituição talhada para assumir proporções gigantescas no Estado e, portanto, inscrever-se como parte do sistema político, precisamente por ter dimensão nacional (a televisão transformou o FCP, bem como outros clubes, em instituição nacional, pelo que a sua vitória foi, segundo políticos e populares, "de todos os portugueses", como Soares dizia de si mesmo; há alguns anos esta nacionalização ideológica de um clube seria impensável).
Apesar dos conflitos entre clubes e seus adeptos, o futebol une a nação: une pobres e ricos em torno do mesmo tema, o único possível para esse diálogo; une os portugueses até nas divergências, pois no futebol mesmo o ódio fornece uma linguagem comum a todos, que substitui a da religião. Ora, ao fazê-lo, o futebol fornece muito do que é necessário para se manter a coesão social. Em democracia, a política precisa dessa única linguagem comum na sociedade, e por isso apropria-se dela.
Além disso, o futebol substitui o debate sobre os problemas sociais, económicos e políticos, o que é um alívio para todos os políticos, nomeadamente para os que estão no poder. Se o povo falasse de política como fala de futebol nem os do Bloco de Esquerda tinham descanso perante a descoberta das suas carecas, quanto mais os partidos da área do poder governativo.
O futebol é tanto mais importante quanto mais alegrias fornece aos adeptos ou à nação, e quanto mais elas forem as únicas: o poder político tem de dar ao futebol gastos mirabolantes com estádios, permitir-lhe incumprimentos fiscais, etc.
Ao ser ideologia nacional, e, por isso, colocar-se acima da própria política, o futebol ganha estatuto de religião política, dado que a fé, como a pátria, não se discute (já dizia o outro). E por isso o futebol ocupa o espaço generalista televisivo sem contestação nem debate. A transmissão que a RTP1 fez em torno do FCP na Taça dos Campeões Europeus, que só por acaso não ocupou 24 horas consecutivas, revela o lugar que o futebol tomou nesta ideologia nacional deliberadamente assumida pelos políticos e pelos responsáveis dos canais, incluindo do Estado. A transmissão da RTP1 foi, como o foram as mais curtas na TVI ou na SIC, uma emissão política. Tratou-se de unir a nação, de aumentar a auto-estima, de iniciar a retoma, como disse Sampaio entre o irónico e o patético, sendo o FCP (e a televisão) o instrumento que o sistema político utiliza para proferir esse discurso.
Em termos históricos, nada disto é novidade. Na Grécia, o desporto era iminentemente político, símbolo e orgulho da cidade e concretização da paz entre as cidades (hoje o futebol substitui as guerras e a luta de classes com enormes vantagens para toda a gente). E em Roma o desporto era "oferecido" pelo Estado ao povo em arenas à época tão perfeitas como hoje a de Gelsenkirschen. A diferença é que hoje se ilude a inserção do futebol no sistema político. Porque hoje o próprio futebol é política, ele faz parte do sistema político. Este facto não foi assumido pelas instituições do Estado e pela reflexão das elites, criando-se contradições aparentemente insanáveis na esfera pública.
Algumas pessoas têm escrito sobre esta mania dos postais, como adquirir, saudando o gosto, etc. Ora sobre isso eu sou um mísero amador, desprovido de colecção e de conhecimentos. Quem é mestre do assunto e do bom gosto é João Loureiro, autor de vários livros sobre o assunto, já aqui o referi. Descubro, apenas hoje, o seu sítio.
Para os interessados aqui fica: Memória Portuguesa de África e do Oriente.
Não resisto a realçar o excelente gosto do Isidoro de Machede a lembrar(-nos) Fernando Galhano. Bem haja, como antes se dizia.
Algumas ligações a blogs sobre África dos quais agora tomei conhecimento. Colocados nos "Vizinhos" e nos "Dos Tempos...". Sem desprimor para ninguém fico de olho mais atento nas fotos prometidas pelo Madalas de Moçambique (passe o pejorativo do nome).
NOTA: o Carlos Gil informa que o, para mim até agora desconhecido, Madalas de Moçambique é uma continuação, devida a uma mudança de endereço. Diz ele "O blog 'Madalas de Moçambique' (e aceitando como pacífico que o José Esteves não teve intenção pejorativa na escolha do nome) tem, na sua 1ª versão com espaço de MB esgotados pelas fotos, o seguinte link.
Agradeço a informação. E acrescento, já agora, que o meu "pejorativo do nome" apenas se prende com o facto do "madala" (velho) não ser respeitoso se aplicado no tratamento directo. Pelo que a minha pequena ironia teria sido melhor entendida se tivesse escrito "auto-pejorativo do nome". E só!
[aí estão eleições no meu país. Aqui deixo um texto velho - como todos os "Roupa Velha" que aqui ponho, prontos às teias de aranha do "Arquivo". Escrito na noite das últimas eleições legislativas e logo enviado para aquelas dezenas de amigos/conhecidos que costumava então assaltar via email assim despejando-lhes os meus textos, um blog artesanal, um blog ao domicílio, um blog atrevido, um blog sem o saber...
Texto envelhecido, claro está, como qualquer desabafo de época. E poderá levantar a questão: é a administração PSD melhor do que o PS? Francamente não posso julgar em absoluto, mero cidadão emigrante. Quero crer que sim. Os meus votos que o seja, nem que "para pior já basta(va) assim"!
Mas para mim tem pelo menos uma enorme vantagem: viajam menos para Maputo. E chega.]
NOITE DE ELEIÇÕES
É bom o clima por aqui, em especial em Maputo que é temperado o q.b., não arrasa os europeus. E são bonitas as árvores, e então naquele tempo das folhas vermelhas nem vos digo, e mais ainda a baía, com a xefina e a inhaca à frente da varanda. Come-se bem, em especial o peixe que é fresco mesmo que não muito variado, e os mariscos, um camarão recomendável e um caranguejo ímpar. E há tempo, mesmo que em corrida, fica sempre um bocadinho (arrastem o "dinho" s.f.f.) para parar, olhar, disfrutar. As mulheres são muito bonitas, como o devem ser em todo o mundo, mas aqui faz calor e passam gingando, naqueles vestidos quase justos, feitos de chita que o dinheiro não abunda, e tudo isto é belo, e apaixona.
É o burguês em África !(se se cegar à outra enorme face da moeda, mas isso não é para hoje). Tudo isto chama as visitas. Comprendo-os bem, eu fui-me deixando ficar.
Até há uns 30 anos isto foi nossa colónia, toda a gente o sabe. Mas nem todos se recordam que já não o é, quantos o esquecem neste dia-a-dia, e nisso ajuda-os a língua que julgam comum. Diz-se que quando daqui saímos houve notícias na TV e até nos jornais, mas já foi há tanto tempo! Será por isso que todos os que chegam perto do Poder, ou até menos perto, todos os que chegam “lá” sentem a urgência de “cá” vir, “cooperar” dizem, ajudar, realizar, mandar. Terá tudo a ver com esse primeiro parágrafo, ali em cima, mas também tudo a ver com este último.
Pois chegados ao governo é-se lá alguém se não se viajar em África, por lá fazer algo por esses queridos Palops, sempre tão nossos amigos e expectantes? Ou melhor, se não se prometer algo em África? Não há dinheiro para isso?, não há problema, vai-se até lá, assinam-se os protocolos da ajuda, põem-se nos papéis todas as boas intenções, tira-se a fotografia, praxe claro está, e depois, bem depois, ver-se-á lá pela Europa onde deve haver fundos disponíveis. Oops, não veio dinheiro de Bruxelas? Não faz mal, não se diz mais nada, isto vai andando assim até à próxima visita, e então torna-se a assinar o assinado...entretanto manda-se lá fulano, aqui do ministério qualquer ou semelhante, leva as ajudas de custo e ainda há-de trazer o relatório e etc. e tal.
No meio disto tudo passaram-me cinco anos aqui, muitos camarões, imensos caranguejos, milhares de chamussas, alguns gins e afins. E falares distendidos, que o clima ajuda, os comes idem, e os gingares ainda mais. E com essa gente mais do que tudo germinam conversas sobre o Portugal deles, que é certo que cá vêm mas o seu interesse por Moçambique é bem pouco, vê-se bem que à maioria dos que vão chegando a cabeça (e as estratégias, e as estratégias) não saíu de lá, aqui aportam só os corpos, ai, ai, mas não vêm cantar o “Mãe África”, é mais o “ó prima, anda cá!”.
E com isto tudo falam, vão falando, abrem-se enquanto nos olham num “estamos juntos” que aqui aprendem, como se por cá estarmos tenhamos que ser do clube deles, ainda que por estas bandas a jogar nas reservas. E foram assim imensas as conversas sobre aí, com essa gente do poder, a maioria mordomos do poder é certo, mas nem percebem que comem na copa. Gente boa alguma, gente distraída outra, e gente má, muita. Dizia o Padre Américo que não há rapazes maus, e devia ter razão, o problema é que crescem.
Cinco anos, dizia eu, com tanta conversa, sobre eles próprios e os seus. Sobre o país que gerem. E sobre os outros...E nós a ouvir e, claro está, quantas vezes a pagar a conta pois, coitados deles, é tão notório que lhes é pesada a mão quando tem que avançar para a carteira. Analítico, e nunca elitista, ainda me pergunto, será essa uma doença desta gente emergente, agora doutores? Ou apenas um mal socialista?
Por isso tudo nesta noite de eleições, agora que houve o ontem, aleluia, brotam-me as perguntas, algo confusas e até em catadupa. Mas acabam todas nesta:
Mas que raio, será a higiene a última das ideologias? Ou apenas o alívio?
Rejuvenesço-me nesta madrugada, tanto que até me vem à cabeça o que o Bowie cantava (há já tantos anos), “calcem os sapatos vermelhos e dancem o blues”. E lembro-me deles todos e rio-lhes um dancem agora...”Toca a dançar”
Março 2002, dia seguinte às eleições legislativas
No Oeste Bravio Filipe Castro com mais uma achega para desmontar a credibilidade (???) dos piratas Arqueonautas.
Há uns meses o filho de um antigo presidente do meu Sporting foi condenado a pagar uma multa por ter praticado "inside trading": se bem me lembro era cerca de seis vezes menos do que aquilo que tinha lucrado com a operação ("anunciado na TV").
Espantei-me. Pois fiel ao lema "o crime compensa". Pois praticado num país onde a ladaínha da corrupção africana serve de lama no espelho para tapar um pouco do luso-lixo.
Afinal...vá lá, vejo aqui que há (alguns) juízes honestos no meu rincão.
Cabinda e Nigéria em discurso directo no sempre atento Ecletico. Para se começar uma semana com menos futilidades.
Visitando blogs para mim desconhecidos deparo com um interessante: Apenas um pouco tarde, de Manuel Jorge Marmelo.
No qual encontro uma deliciosa contradição, logo ali na página de entrada.
Lamenta o autor com evidente desconforto, e mesmo denotando alguma vergonha, a procissão, coisa pré-moderna e tão de "atraso", ainda por cima nas barbas do vizinho inglês. E aqui soprando até um tique provinciano, que me desculpe o bloguista, tão preocupado com as impressões do dito "vizinho inglês".
E logo salta para a narração, participante e efusiva, da alegria na festa da bola.
A qual, depreende-se nem que por silogismo, de romaria, "atraso", ou pré-moderno nada terá, e nem ofenderá o tal "civilizado vizinho".
Não é crítica, que somos nós senão poços incoerentes? E ainda bem, que cinzento triste o do coerência. E também porque poderia ter sido eu a cometê-la, entre o irritado com o feitiço de fátima, padres deixando (pelo menos) brotar a crença na acção pelo sacrifício, e o eufórico, profunda e absolutamente feliz porque uns tipos foram ganhar 4-0 ao Salgueiros.
Mas não se está a falar do mesmo tipo de fenómenos? E que "atrasos" não servem para os entender?
a Texto vai passar a editar a obra póstuma que Fátima Mendonça está a organizar, assinaram hoje durante a pequena evocação lá na velha casa. O Eduardo disse, e coisa dele ainda, o Jaime Santos também, e trouxe um velho Brecht afiançando que o poeta gostava, pela primeira vez em público foi dito Craveirinha em ronga, tradução ali mesmo, e só por isso teria valido o fim-de-tarde, o Stewart cantou só, o Karingana wa Karingana, e desafiou um disco de Craveirinha, aí tanto cantor a pedir tradução para changana ou ronga, seria boa ideia, Mucavele, Wazimbo, Langa, alguns outros.
Nas traseiras falou-se de atletismo, um bocadinho de algarve também, e de uns outros tempos quando as visitas espontâneas entrávamos ou ficávamos à porta, dependia da hora ou dos humores. Alguns lembraram viagens e o Jaime o facto de um fato, ali presente e já a caminhar para o velho, que dependeu do Fernando Pessoa.
Enfim...
comemoraria hoje o seu 82º aniversário.
Aqui fica a memória. Ilustrada por um pequeno livro, que acarinho, em que se recolhem algumas das suas crónicas de jornal, casadas com as contemporâneas de Rui Knopfli, um "verso e anverso" desses irmãos de letras inventado pelo António Sopa: "Contacto e outras Crónicas" + "A Seca e outros textos".


No final dos anos 40 o então jovem Zé Craveirinha escrevia, com um tom muito da época, coisas de sempre:
"O movimento que se deseja efectuar-se-á ...quando o homem de cor intelectualmente preparado não desdenhar acintosamente o influxo de correntes culturais de origem africana, num sonambulismo ignaro que se vem prolongando demasiado.
... Trata-se muito simplesmente de não abdicar de uma cultura indígena, nem renegar uma corrente europeia, quando de tal enxerto pode surgir uma beneficiação integral..." (8-9)
Em Maio blogs mil
foi o que foi ... assinale-se o primeiro aniversário à sombra dos palmares, que antologia já é.
Que começou e continuou assim:
(...)
Teu olhar tem a curvatura
terna e feroz de uma grande-angular.
Esse perfil distante de cimento
e argamassa é toda uma geometria
decantada e gostosa molhando os quadris
deleitados no charco doce da baía.
Diacho, que perfil mais bonito, hem?
Então, Rui, que é isso,
não vais agora comover-te?
(Rui Knopfli)
Um texto mais sobre a empresa caça-tesouros "Arqueonautas", que actua nas costas moçambicanas. Da autoria de João Villalobos, publicado na revista Vega neste Maio e colocado no Naufragios: A Ilha dos Tesouros.
Há momentos de sorte! Enquanto descarrego alguns arquivos recém-chegados a várias caixas "postais", visito rapidamente alguns blogs para mim desconhecidos. E deparo com esta pérola: De homossexualidade & preconceitos.
Quem não leu não hesite.

"A Baía de Kionga no delta do Rio Rovuma"
Autoria: Alberto
[não tenho qualquer informação sobre este artista ou sobre a edição]
Alexandre Monteiro envia-me ainda um texto por publicado em 1998 (já!) sobre a questão do património arqueológico subaquático em Moçambique, e iniciativas aqui desenvolvidas por empresas caça-tesouros portuguesas e outras.
Aqui o transcrevo parcialmente, agradecendo ao autor, o envio e a atenção.
***************************
"Há um mês atrás, o Governo Moçambicano assinou um contrato "não público" para a exploração do património arqueológico subaquático jazente nas suas águas territoriais, o qual implica a comercialização de parte desse património.
Há mais de um ano, escrevi nestas páginas - ao concluir um artigo premonitório, referente à sociedade portuguesa Lex Rhodia - que esta empresa de caça ao tesouro teria de se dirigir a um outro país do terceiro mundo que não Portugal para poder pilhar à vontade o património subaquático, que pertence, por definição, à Humanidade e não a qualquer indivíduo mais "empreendedor".
Essa previsão confirmou-se em parte - felizmente para a nossa reputação, como país civilizado - ao ser promulgada a nova legislação nacional relativa a protecção jurídica desses bens, que efectivamente impediu as pretensões da Lex Rhodia. Confirmou-se também, infelizmente, que a empresa se viraria para outros países que não o nosso, quiçá menos despertos para a mesma problemática.
No dia 2 de Dezembro de 1997, o Ministério da Cultura, Juventude e Desportos assinou, em nome do Governo Moçambicano, um contrato "não público" para a exploração do património arqueológico subaquático jazente nas suas águas territoriais, o qual implica a comercialização de parte desse património.
(...) o Comissariado Geral de Moçambique na Expo’98, Jacinto Veloso,(...) fala da realização de um projecto de arqueologia subaquática de prospecção, pesquisa e valorização de bens culturais naufragados na plataforma continental daquele país da África Austral. O próprio Comissário confirmou que o contrato determina efectivamente a comercialização de parte do património encontrado.
Ao que parece, o Governo moçambicano acordou o projecto com um consórcio internacional formado pelas empresas Património Internacional - uma empresa constituída por várias entidades moçambicanas, que deterá 50% do capital do consórcio, que rondará um milhão de dólares - pela Genoux Surveys, pela Maritime Archaeological Explorations e pela Lex Rhodia, Sociedade Portuguesa de Explorações Arqueológicas Marítimas, SA.
... Esta tenciona prospectar cinco locais da plataforma continental - junto ao rio Rovuma, junto a Angoche, no norte da Beira, junto a Inhambane e na zona norte daquela província - não se prevendo que hajam lucros provenientes dessa exploração, visto que a venda de espólio será feita em certas circunstâncias, de modo a repor os fundos investidos e a investir o restante no património cultural do país como, por exemplo, na ilha de Moçambique.
Apesar da lei 10/88 - a lei moçambicana relativa à protecção do património cultural nacional - referir, no seu número 10, que as estações e objectos arqueológicos são propriedade inalienável do Estado (...) o Comissário Geral de Moçambique para a Expo’98 defende o projecto com base no argumento de que o património subaquático moçambicano está a ser pilhado, importando fazer alguma coisa para parar essa pilhagem. No entanto, este argumento parece não convencer a comunidade científica daquele país, que tem protestado vigorosamente contra o que clama ser uma ilegalidade por parte do Estado.
Com efeito, este contrato "não público" deveria ter sido precedido de um parecer da Procuradoria Geral da República, o que não aconteceu. De igual modo, um procedimento destes teria de ser antecedido de uma delegação de poderes da parte do Conselho de Ministros no Ministro da Cultura, que o deveria ter assinado. Tal não aconteceu também, o que confere poderes ao parlamento Moçambicano para exigir que o Governo lhe mostre o contrato.
A liderar o processo de contestação, surge o arqueólogo moçambicano Ricardo Teixeira Duarte, professor no Departamento de Arqueologia e Antropologia da UEM. De acordo com este académico, nem aquele Departamento - a única instituição moçambicana a realizar pesquisas arqueológicas naquele país - nem qualquer outro arqueólogo moçambicano foram consultados sobre o assunto.
(...) A contestação é ainda maior visto que, no entender de Ricardo Duarte, as actividades de comercialização do património arqueológico são rejeitadas pelos arqueólogos moçambicanos em bloco e são actualmente alvo de grande reacção por parte da comunidade científica internacional.
Uma das empresas que surgiu à frente das manobras que levaram à assinatura deste contrato foi a Lex Rhodia, Sociedade Portuguesa de Explorações Arqueológicas Marítimas, SA. Indo buscar a sua designação à antiga lei do direito romano que superintendia a actividade dos salvados por mergulhadores em apneia, esta empresa foi constituída em 1994 por 5 accionistas, cada um deles detentor de acções no valor de mil contos, no intuito de explorar a situação criada em Portugal pela aprovação do decreto-lei 289/93, agora revogado.
Entre os accionistas encontravam-se André Hüsken - antiquário alemão de renome que assegurava os recursos financeiros e que promovia todas as acções de venda do espólio a recuperar; João Ricardo Vasconcellos - relações públicas, agente para a comercialização de imagens e outro material de divulgação; António Camarão - o arqueólogo de serviço; António Emílio Sachetti - vice-almirante da Marinha Portuguesa e ex-presidente do Conselho de Justiça da mesma instituição; e João Filipe Galvão.
João Filipe Galvão, bacharel em Engenharia Mecânica Naval pela Universidade de Rhode Island, colaborou activamente na elaboração do decreto 289/93 e associou à Lex Rhodia toda uma série de instituições - à primeira vista totalmente idóneas - entre as quais se contava o Departamento de História da
Faculdade de Letras de Lisboa, o Instituto Superior Técnico e a Sociedade de Geografia de Lisboa.
Esta empresa, gerida (...) por António Sachetti e João Filipe Galvão, tinha como objectivo primordial a identificação e recuperação de naufrágios de navios ibéricos de reconhecida importância económica, pelo que se voltou para duas zonas principais, a barra de Setúbal - em que supõe haver, pelo menos, 12 naufrágios espanhóis e 4 portugueses nessas condições - e a zona de aproximação ao porto de Lisboa.
Ao que parece, o peso das conexões e dos conhecimentos pessoais, quer de Galvão, quer de Sachetti, facilitaram a assinatura deste contrato. Agora que as atenções dos caçadores de tesouros se voltaram para países menos alertado para esta problemática - o caso do Brasil é paradigmático, já que um diploma em tudo semelhante ao 289/93, se encontra agora em discussão no Parlamento Brasileiro e é mesmo alvo de ataque por parte de um artigo na edição de hoje do jornal O Globo - é necessário que nos unamos e que façamos por eles o que os outros países mais desenvolvidos fizeram por nós, quando passámos por situação idêntica, há quatro anos atrás."

Rua Araújo (hoje Bagamoyo), Lourenço Marques (1910).
[reprodução de postal, oferta de Ricardo Rangel]
Transcrição de texto de Alexandre Monteiro colocado hoje no Naufragios
A Arqueonautas avant la lettre
A 18 de Janeiro de 1972 desembarca no aeroporto das Lajes, ilha Terceira, Açores, o inglês Sidney Wignall. O seu propósito confesso é o de procurar o navio Revenge, afundado na costa da ilha em 1591. Tencionando encontrá-lo num prazo de 5 meses, Wignall, devidamente autorizado pelo Ministério da Educação Nacional, bem pode gabar-se de ter obtido a primeira licença para pesquisas subaquáticas concedida no âmbito da legislação então em vigor sobre os achados no mar.
A 4 de Fevereiro sabe-se pelo Diário Popular que Wignall tenciona passar os próximos cinco a dez anos na Terceira, em escavações. Sabe-se também que o custo da expedição rondará os 4.000 contos e que esta será em parte custeada por canais de televisão britânicos. Wignall deixa a entender que será benéfica para a Terceira toda a publicidade gerada pela sua expedição.
A 12 de Abril chegam os primeiros onze elementos da expedição conjuntamente com o arquitecto Jorge Albuquerque, do Centro Português de Actividades Subaquáticas. A expedição, denominada Azores International Marine Archaeological Expedition terá o seu centro operacional em São Carlos, na quinta Jesus Maria José.
A segunda expedição
A 20 de Abril eis que surge o primeiro golpe de teatro: uma segunda expedição, de cariz pretensamente arqueológico, chega a Angra do Heroísmo.
A vedeta T.S.R. Preston é comandada por Michael Stewart, ex-oficial mergulhador da Royal Navy e ex-braço direito de Wignall. O navio conta na sua tripulação com o comandante da Royal Navy, John Grattan - que participou em explorações na Irlanda com o mesmo Wignall - e com três irmãos de apelido McCormack: John, caixeiro-viajante; Terrence, empreiteiro e Joseph, mergulhador profissional. Este último, com 6 anos de pena cumprida em Hong-Kong por crime violento, para além de ser suspeito de um tiroteio em Liverpool foi também levado por Wignall a comparecer perante a justiça irlandesa por se ter tentado apoderar dos locais por este pesquisados no mesmo país - mais interessante ainda, havia suspeitas de que o barco Grey Dove, que Joseph McCormack comandava na altura, juntamente com o seu irmão Terry, participava em operações de tráfico de armas para o IRA.
Em todo o caso, os recém-chegados invadiram a Quinta Jesus Maria José, logo na noite em que desembarcaram na Terceira, e ameaçaram verbalmente os membros da equipa de Wignall. Este apresentou queixa em tribunal e pressionou os seus contactos em Portugal e em Inglaterra com o fim de se desembaraçar de tão incómodo concorrente.
A equipa de Grattan, que se autodenominava Expedição Arqueológica Submarina Britânica, começou a trabalhar numa zona diametralmente oposta à de Wignall, que operava na Vila Nova. Toda a costa sul, desde a Ponta das Contendas até para além da Serreta, foi pesquisada pela equipa de Grattan tendo este, no dia 9 de Maio, declarado oficialmente o primeiro destroço.
A 19 de Maio a imprensa local, fazendo eco dos jornais ingleses e continentais, começa a interrogar-se sobre a idoneidade das expedições. Aventa-se, finalmente, a hipótese da existência de caçadores de tesouros nas águas terceirenses.
Zangam-se as comadres...
... sabem-se as verdades. A 28 de Maio e em desespero de causa, Wignall presta uma declaração à imprensa. Diz que sua expedição fora planeada há mais de dois anos e que tinha conhecimento de 31 navios afundados nas costas da Ilha Terceira. Confirma a existência de dois galeões na baía de Angra e de um outro, descoberto a 15 de Maio, na baía das Águas durante uma sessão de treino.
Prossegue na sua declaração, qualificando a expedição de Grattan como uma equipa de caçadores de tesouros, por detrás da qual estaria um grupo de investidores de Liverpool. Afirma que os achados noticiados por Grattan já estariam definidos num documento que teria circulado por possíveis investidores seus há cerca de 18 meses atrás. Afirma também que Stewart esteve para ser o seu director de mergulho mas que este teria abandonado o projecto três semanas antes de Wignall ter partido para os Açores. Queixa-se, assim, de fuga de informações e de deslealdade por parte do seu antigo colaborador.
A 12 de Junho, pelas 20 horas, um cargueiro de cor negra passou ao largo do pesqueiro Pedra Velha, a 2 ou 3 milhas do Monte Brasil. Foi abordado pela vedeta de John Grattan, tendo-se mantido as duas embarcações lado a lado durante cerca de 10 minutos. A 16 de Junho, alguns mergulhadores da equipa de Grattan emergiram na baía do Fanal e içaram para o barco pneumático um volume aparentemente pesado. Soube-se ainda que a mesma equipa procedeu a uma hipotética recuperação na baía da Salga, utilizando para tal o guincho que se encontrava instalado na embarcação. No mesmo dia procederam à colocação de pequenas bóias pretas nas águas de uma baía junto de São Mateus.
A 21 de Junho sabia-se que tinha sido recentemente vendido em Madrid um crucifixo em ouro da época filipina. Daí a se chegar à sua provável proveniência foi um passo: acusou-se imediatamente a equipagem do T.S.R Preston e procedeu-se à vistoria da embarcação. Como é óbvio, nada de suspeito foi encontrado. Fazem-se referências a anéis e moedas de ouro supostamente encontrados na baía das Águas.
A 25 de Junho parte definitivamente a vedeta de John Grattan em direcção à Corunha. A 8 de Agosto foi recuperada aquela que viria a ser a única recordação material, deixada nos Açores, da expedição de Wignall: uma meia-colubrina de bronze içada com a ajuda do Destacamento Norte-Americano estacionado na Terceira.
Wignall informa que Grattan terá feito circular em Inglaterra uma carta reservada nela informando possíveis investidores de que a sua expedição descobrira onze destroços nas costas da ilha Terceira e que um deles poderia conter materiais no valor de 6 milhões de libras. A 9 de Maio, o comandante John Grattan é condenado pela justiça portuguesa a 25 dias de prisão, remíveis a multa. Para responder ao processo contra si instaurado encontravam-se apenas John e Terry McCormack. Estes, em declarações à imprensa, declararam estar dispostos a regressar em 1974...
24 anos depois
Vinte e quatro anos depois, ao abrigo da legislação criada para a exploração dos tesouros submersos, uma nova empresa de caça ao tesouro quis ir operar para as águas da Terceira.
A Arqueonautas, SA tinha como director de operações o mesmíssimo John Grattan, que regressava duas décadas depois ao local do crime. A empresa, que tinha (tem ainda?) como accionistas, entre outros, membros do Grupo Espírito Santo, Francisco Pinto Balsemão e José Manuel de Mello, opera actualmente em Moçambique com o beneplácito do governo moçambicano.
Uma das suas arqueólogas contratadas, Margareth Rule, declarou que não se responsabilizava pelos trabalhos da empresa senão como consultora e que não assumia qualquer responsabilidade se a administração da empresa não seguisse os seus conselhos.
O que é mais grave é que pessoas e entidades - como a Fundação Ricardo Espírito Santo e a Faculdade de Letras de Lisboa, com grandes responsabilidades a nível de imagem pública, se associaram a em 1995 a esta empresa com intuitos muito pouco honestos e lesivos do património nacional.
Entre as individualidades referidas contavam-se José Hermano Saraiva, consultor cultural da empresa, e Dom Duarte de Bragança, presidente do conselho de acompanhamento da Arqueonautas, SA. Este último, segundo as suas declarações à agência Lusa aquando da sua estadia no arquipélago cabo-verdiano em Julho de 1995, onde operava a Arqueonautas, teria usado a sua influência para sensibilizar as autoridades locais para a recuperação de cascos abandonados num projecto que envolvia milhões de dólares.
O gabinete de Dom Duarte admitiu mesmo ao jornal Público que o pretendente ao trono participara na reunião havida entre a Arqueonautas e o Governo local, em que foi negociada a concessão de exploração de uma zona marítima junto à ilha do Fogo.
É lamentável que uma personalidade que se quer representativa de uma certa maneira de estar, na cultura e na sociedade, apoie uma empresa que desenvolve uma actividade que vai contra tudo o que se encontra internacionalmente consagrado, no domínio da protecção do património, por organismos tão insuspeitos como a UNESCO.
(Confrontado, aliás, com as posições desta instituição no que toca à exploração selvagem do património subaquático, o presidente do Instituto Nacional de Cultura de Cabo Verde e interlocutor do Governo com a Arqueonautas, SA, à altura afirmou textualmente, a UNESCO não aprova este tipo de operação porque tem uma visão meramente cultural e entende que todos os achados arqueológicos devem ser património da Humanidade. Só que a UNESCO não tem meios para constituir uma alternativa a países pobres como Cabo Verde, obrigados a procurar os meios para restaurar o património”).
Vinte e quatro anos após a caça ao tesouro nas águas açorianas, dois anos após a pilhagem de Cabo Verde, o Rei vai nu para quem o quer ver e Moçambique vai atrás, cantando e rindo.
Reproduzido ontem no Naufragio
Os Tesouros da Ilha
por Boaventura de Sousa Santos
Visão, 22 de Agosto de 2002
A Ilha de Moçambique é um lugar incomparável, tanto pela sua história e pelas marcas visíveis dela na arquitectura e na arqueologia subaquática, como pelas suas potencialidades enquanto centro de reflexão sobre contactos e relações interculturais; um futuro que a Ilha começou, de facto, a construir há muitos séculos, antes e depois de os portugueses ali aportarem no séc. XV.
Fazendo jus a este impressionante conjunto arquitectónico, grande parte dele em ruínas, a UNESCO declarou a Ilha, em 1991, como património cultural da humanidade. Esta declaração faz com que a preservação e o florescimento da Ilha sejam tarefas imperativas tanto para Moçambique como para todos os restantes países do mundo, e nomeadamente para os que, para o mal e para o bem, partilham com Moçambique parte da sua história, como é o caso de Portugal.
O futuro da Ilha reside na valorização do seu riquíssimo património e no contexto único que ele pode oferecer para a promoção de diálogos entre culturas, para além, naturalmente, daqueles de que a Ilha é já testemunho vivo. Nesse futuro querem se activamente envolvidos os habitantes da Ilha e as suas associações como, aliás, decorre do estatuto de património cultural da humanidade. Ora, uns e outros estão preocupados. Temem que o seu património esteja a ser dilapidado se não mesmo pilhado. Ao largo da costa de Moçambique estão identificados e catalogados mais de cem naufrágios de navios, muitos deles à volta da Ilha. Um alvo apetecido para caçadores de tesouros. Desde há algum tempo, a empresa internacional Arqueonautas, em associação com a empresa moçambicana Património Internacional SARL, está a realizar pesquisa arqueológica subaquática à volta da Ilha.
Desconheço os termos do contrato de pesquisa celebrado com o Governo moçambicano e a empresa moçambicana, mas a versão aprovada do contrato-tipo concede a esta empresa o direito de se tornar proprietária de bens culturais cujo valor represente 50% do valor global do total dos bens encontrados. Mesmo que se faça a ressalva de os objectos a conceder à empresa serem semelhantes a outros descobertos na mesma localização e não serem considerados de valor excepcional, fica aberta a porta para a venda do património da Ilha.
Aqui reside a inquietação dos seus habitantes. Como não vêem nenhuma autoridade a fiscalizar os achados, perguntam-se sobre quem define o todo em relação ao qual se repartem os 50% dos achados. Como não são credivelmente informados, vêem ou imaginam ver peças valiosas a serem trazidas para terra embrulhadas em toalhas, vêem ou imaginam ver pequenos aviões a levantar do aeródromo do Lumbo com peças não declaradas, vêem ou imaginam ver peças valiosas exportadas sem controlo alfandegário.
Os habitantes e os amigos da Ilha estão inquietos e a sua inquietação aumenta cada dia que passa, sem que, estranhamente, o Governo moçambicano assine a Convenção da UNESCO sobre a protecção do património cultural subaquático, adoptada em Novembro de 2001, que expressamente proíbe a comercialização desse património. E só por uma via pode o Governo pôr fim a tal inquietação: assinando a Convenção e pondo fim a contratos que envolvam a comercialização do património arqueológico. Há que evitar o risco de a Ilha vir a perder o estatuto de património cultural da humanidade.

Companhia é sábio, desses grandes mesmo.
Nós estamos aqui a viver como animais, estamos à espera das instruções lá da Nação, e é ele que há-de vir transmitir, mobilizar a população.
Ele há-de falar...agora estamos a chorar pelas palavras dele...
Um etnólogo diz ter encontrado
Entre selvas e rios depois de longa busca
Uma tribo de índios errantes
Exaustos exauridos semimortos
Pois tinham partido desde há longos anos
Percorrendo florestas desertos e campinas
Subindo e descendo montanhas e colinas
Atravessando rios
Em busca do país sem mal --
Como os revolucionários do meu tempo
Nada tinham encontrado
Sophia de Mello Breyner Andresen
[Ilhas (1989), in Obra Poética III, Caminho]
No Abrupto, José Pacheco Pereira dá voz a um dos seus leitores, Filipe Castro, Professor de Arqueologia Náutica na Universidade do Texas, o qual, segundo me diz hoje Ricardo Teixeira Duarte, tem assumido papel de relevo na denúncia dos acontecimentos de seguida narrados.
Escreve assim o Prof. Castro: “Vai amanhã (dia 19) a leilão, na Christie’s de Amsterdão, parte da carga de um navio português do século XVI naufragado na Ilha de Moçambique. A carga que agora se vai dispersar foi salva pela empresa de caça aos tesouros Arqueonautas SA.
Em todo o mundo se aperta o cerco contra a actividade das empresas de caça ao tesouro. A aprovação de uma convenção da UNESCO para a proteção do património cultural subaquático da Humanidade é um bom exemplo desta tendência.
Por outro lado, cada vez mais governos de países com um passado ligado a expansão marítima europeia reclamam direitos sobre os restos dos seus navios, perdidos nos quatro cantos do mundo. Assim, o governo espanhol ganhou recentemente um processo em tribunal, contra uma empresa de caça aos tesouros e o Estado da Virgínia, nos EUA, que havia atribuído a concessão de salvados. Acho que temos o direito de saber porque é que o estado português não faz nada para proteger os restos arqueológicos dos nossos navios, à semelhança dos outros países do mundo.".
Este é um tema complexo, abordá-lo em mero apontamento é o típico "Rossio na Betesga". Mas avanço algumas notas:
1. parece-me complicado que Portugal surja reclamando os direitos sobre o património arqueológico subaquático. Não me refiro a questões do direito internacional, abordadas no texto acima, e em devido tempo ecoadas no Naufrágios, que transcreveu (presumo que parcialmente) a sentença do tribunal da Virgínia.
Refiro-me a três pontos essenciais:
a. não creio que o país tenha recursos financeiros e humanos para proceder à pesquisa e recuperação científica desse património;
b. sendo o objectivo fundamental a recuperação científica, e concomitante preservação, dos achados arqueológicos, tal reclamação de direitos (aliada à escassez de meios) iria conduzir a reacções contrárias locais, donde abrindo caminho para a continuação de uma prática de pilhagem sob capa de "salvados" (reparem que até a semântica do vocabulário é dúbia);
c. tenho as minhas dúvidas ideológicas sobre a legitimidade destas reclamações, que não podem ser apartadas da mais vasta questão das reclamações sobre o património histórico transferido [já aqui abordei o assunto]. Mas essa é questão mais vasta, pano de fundo desta problemática;
d. mas uma tendência internacional de aceitar direitos sobre património histórico submerso poderia ser utilizada para uma mais acurada participação portuguesa na campanha da sua preservação e recuperação. Ao nível da sensibilização e da pesquisa.
2. Pelo menos desde 1997 que venho assistindo a tentativas de "pesquisa" dos naufrágios em costa moçambicana por parte de caçadores de tesouros, de início centrada na Ilha de Moçambique. Nesses anos uma campanha de intelectuais moçambicanos obstou à sua realização (lembro Luís Filipe Pereira, Ricardo Teixeira Duarte, José Forjaz, António Sopa, Rafael da Conceição entre outros). Mas passados alguns anos foi concedida à empresa "Arqueonautas" a possibilidade de trabalhar na Ilha.
Creio que esta realidade se prendeu com a inexistência de alternativas palpáveis quanto à exploração destes recursos, bem como à (falsa) perspectiva de aí se encontrarem incontáveis riquezas.
3. O resultado dessas pesquisas está explícito no Naufrágio, com transcrição do jornal Público.
A lógica destas actividades é sempre a mesma. Recolha de alguns bens, considerados mais valiosos e sua venda. O objectivo é lucrativo, veja-se a mero título de exemplo The Christie's auction of part of the Ming porcelain and gold recovered from the 'Fortress San Sebastian Wreck' (IDM-002) in Amsterdam on 19.05.04 was a great success! The total result represents more then twice the price previously stipulated in our sales catalogue.
O resultado universal, a destruição dos sítios arqueológicos e a inviabilização do seu estudo e utilização enquanto recurso cultural e turístico.
4. Tem havido algumas tentativas de sensibilizar o governo moçambicano para o desenvolvimento de um projecto de articulação de pesquisa, preservação e turismo cultural. Há propósitos norte-americanos de estabelecer apoio (público até) a um projecto desse tipo. Nesse sentido uma delegação do Ministério do Turismo esteve nos EUA em 2003 para se inteirar das possibilidades que projectos destes abrem para o desenvolvimento local, com repercussões turísticas, cuja proveitos a médio prazo em muito ultrapassam o falso brilho de algumas centenas de milhares de USD agora arrematados. Nesse programa algo tem colaborado Steve Lubkemann, antropólogo da George Washington University, pois também ele assumiu causa científica e de cidadania cultural.
Também a muito credível Associação dos Amigos da Ilha de Moçambique, bem como prestigiados académicos moçambicanos têm apoiado essa alternativa. Da parte portuguesa Francisco Alves participou no encontro de 2003 em Maputo, organizado pela UNESCO para lançamento deste processo de sensibilização das autoridades moçambicanas, e penso ter acompanhado o programa ocorrido nos EUA.
Em suma, penso ser possível um caminho às autoridades portuguesas. Apoio científico e financeiro na medida das nossas possibilidades e, se necessário, sensibilização diplomática, para uma questão que interessará para a história portuguesa, para a história comum, mas também como item fundamental do desenvolvimento local (e sustentável) a prazo nas regiões moçambicanas onde há vestígios arqueológicos subaquáticos, se considerados como turbos de turismo, cultural, académico e de lazer.
5. Finalmente sobre a empresa "Arqueonautas", que actuaram na Ilha num navio afundado e que estão agora em Angoche. Não têm qualquer credibilidade. Um dos seus responsáveis, presumido conselheiro científico, apresentava um CV como reitor de uma universidade britânica inexistente. O seu objectivo é puro: recuperar, vender, lucrar.
Já estiveram em Cabo Verde, de onde partiram com muito má imagem, segundo consta. Pois não só nada fica para o futuro, como é recorrência nestas expedições, como realmente pouco se lucra em termos locais.
6. Piratas? Talvez, em linguagem de senso comum. Mas, para nós portugueses, enquanto ligados historicamente a este património histórico subaquático, e também como dotados de instituições científicas com responsabilidade cívica, a questão é ainda mais grave.
Ao que consta a empresa, com trabalhadores de vários países, tem registo legal português. E mais, diz-se que conta nos seus membros com a presença (em posições de accionistas ou honoríficas) de vários Almirantes na reserva e do próprio Duarte Pio de Bragança, dotado do capital simbólico de pretendente ao trono e figura, muito justamente, grata na sociedade portuguesa.
A ser isso verdade estou crente que a participação destes indivíduos será de boa-fé, e sustentada por um legítimo interesse na história marítima cruzado por algum desconhecimento. Das práticas científicas actuais e possíveis, das veras práticas da dita empresa.
Mas por parte da sociedade e do Estado português seria urgente um sinal explícito, um abandono público de qualquer associação com este tipo de iniciativas. Em termos administrativos e em termos individuais.
Porque senão poder-se-á dizer (forçando um pouco a nota, é certo) que os "Arqueonautas" não são piratas. Mas sim (nossos) corsários.
ADENDA: via google chega-se facilmente (de que é que o google não é capaz?) à página da empresa Arqueonautas.
Procurei escrever o apontamento com pinças. Mas veja-se isto (o negrito é meu):
[ ARQUEONAUTAS WORLDWIDE - Arqueologia Subaquática, S.A. (AWW) was established on the 10. of August 1995 as private shareholding company in Madeira, Portugal, registered in the 'Conservatoria do Registo Comercial de Zona Franca da Madeira' under registration number 01750/950825. The security registration number is 552 928. AWW has 3,000,000 shares outstanding at a nominal value of EUR 1.00 per share and a registered capital of EUR 3,000,000.00.
AWW's purpose is to preserve the submerged cultural heritage and advance learning through the archaeological survey and excavation of historical shipwrecks, with the aim to structure operations economically viable.
MEMBERS OF THE ADVISORY, EXECUTIVE AND SCIENTIFIC BOARDS
Advisory Board
President HRH Dom Duarte Pio, Duke of Bragança
Vice President Admiral Isaías Gomes Teixeira
Speaker Dra. Rita Delgado
Secretary Dr. Heribert Keil
Finance Dr. António Portugal Catalão
Controlling Dr. Tristão da Cunha
Director Baron Stefan von Breisky ]
É absolutamente lamentável. Absolutamente inaceitável. E absolutamente inacreditável que a sociedade portuguesa possa dar qualquer tipo de relevo e respeito (ainda que meramente simbólico) a cidadãos agentes de malfeitorias.
E, entenda-se, republicano fundamentalista mas de família com longa tradição militar, o que custa mesmo é ver um Almirante a sujar os galões com esta tralha. Que malta...
Sem bater à porta, entrando pela janela dos comentários, anunciou-se um novo blog moçambicano, ainda uma raridade.
É o O País da Marrabenta. Pertence ao Catembeiro.
Magaíça, está algures lá fora. Desejo boa sorte. E que no caminho possa sair do lugar dos Tembe nisso cruzando outros braços de mar e outros rios. Nisso de tantos ritmos.
Há algum tempo fui ali ao Piri-Piri ter com o meu mais que bom amigo Francisco. Esperei-o um pouco, até que ele me surgiu embrulhado numa t-shirt estampada com a célebre cara de Ernesto Guevara. Sabia-o regressado de um qualquer congresso em Cuba, decerto era aquilo um "recuerdo", memórias dessas agradáveis coisas do turismo académico.
Confesso a minha incomodidade de então, ainda que muda. Que raio, que fazia eu ali em plena esplanada com o meu amigo e mais o espírito do argentino? Aqueceu-me a 2M mais depressa, ainda que tudo tenha sido esquecido na conversa.
Mas fiquei-me a pensar, que faz um homem destes, culto como ele o é, com todo o seu espírito crítico, um cáustico quase niilista, carregar aos 40 anos um ícone tão embotado pelo tempo e pelas verdades? Que falso peso o desse "che"?
Passados uns dias ele apareceu de surpresa cá em casa (ele e Idasse são os únicos que surgem sem telefonar, magnífica coisa em sociedade tão formal). Abro-lhe a porta e eis de novo o Guevara, agora portas dentro. Não me contive num "foda-se pá, então vens a minha casa com essa t-shirt!!", resmungo que morreu na gargalhada dele, ali logo embrulhando um dito sobre a beleza das cubanas, lembro algo como o elogio das "bundas grandes", coisas mais importantes que ideologias, e aí todos concordamos.
Estando então eu já de blog armado decidi escrever sobre este Ernesto Guevara por aí. Tive a sorte de encontrar uma fantástica montra na Interfranca com o dito cujo, que logo machambei

[Fotografia de Fernando Macedo]
como aperitivo de um texto sobre a estranheza face à persistência do mito. Texto que nunca terminei, para aí no meio de tralhas avulsas.
E que nunca terminarei. Pois pouco ficará para dizer depois da prosa que o Comprometido Espectador acaba de dedicar a este assunto. O acutilante suficiente.
Feliz coincidência.
Cada um como cada qual, nisto dos blogs o pior é andar a dizer aos outros o que devem fazer ou o que não devem fazer. Terá limites, já aqui me insurgi sobre o que acho ser uma ilegalidade, e chateia-me o mau gosto. [E, ja agora, irritam-me imenso os blogs políticos anónimos, se mais diplomáticos ou de lacticínios pouco importa. Talvez efeitos do velho mito do cavalheiro de peito aberto, enfim, burguesices...]
Acho um desperdício andar armado em juiz nestas coisas. Um blog é algo pessoal (mesmo se colectivo não surge como instituição). Andar a julgá-los é o mesmo que andar por aí a avaliar pessoas. Há gente de quem gosto (visito), há gente que não gosto (não deveria visitar), a maioria não conheço (a technorati dá mais de 2,3 milhões de blogs...). Pronto, chega.
Mesmo assim achei uma delícia o texto "O salário do pecado é a morte (Romanos 6:23)" inscrito no sempre conciso Voz do Deserto. Sei que é uma contradição com o que digo acima mas assim são as coisas: contraditórias.
Transcrevo-o pois não lhe encontro a ligação directa:
"Os piores blogues são os que defendem causas. Quer sejam democratas invictos, maricas inflamados, evangélicos cheios do Espírito, ou vítimas de outra qualquer patologia semi-filantrópica.
Gente que parece que está a ser paga para fazer um bom trabalho não interessa fora do escritório."
Com vagar, como se pretende nas conversas saborosas, tenho trocado com o Luís Carmelo do Miniscente ditos sobre a lusofonia.
Confesso que fui adiando um apontamento mais "a sério" sobre isto, mas o tempo faltou. A ver se ainda regresso, pelo menos para breves notas. No entretanto aqui deixo referência e ligação para um dos melhores textos sobre o tema que conheço, da autoria do académico francês Michel Cahen: o Des Caravelles pour le future?, um texto publicado na revista Lusotopie 1997.
Implacável, sanguinário até, Cahen recolhe e transcreve trechos da prosa lusófona nos alvores da CPLP. Imperdível.
Para visitantes interessados neste assunto não posso deixar de recomendar dois pequenos livros que muito bem elaboram sobre a noção de "lusofonia": "A Nau de Ícaro seguido de Imagem e Miragem da Lusofonia" de Eduardo Lourenço (Gradiva, 1999) e "A Lusofonia e os Lusófonos: Novos Mitos Portugueses" de Alfredo Margarido (Edições Universitárias Lusófonas, 2000). Analíticos ainda que não tão avassaladores como Cahen.
Boas leituras se for o caso. E bons sorrisos, se com Cahen. Mas cuidado, depois disso dificilmente a mantinha reconfortante da marca "lusófona" vos aconchegará, passarão a precisar da velha escalfeta.

"Ilha de Moçambique" (Julho 1998)

"Praça do Giraldo" (Set. 1997)
"Évora/Ilha de Moçambique" (8 postais; cx. com duas fotos)
Fotografias de José Cabral (1997-1998)
Edição da Câmara Municipal de Évora, s/d (1999?)
Fotografias de José Cabral
[tua oferta]

Sozinho na noite
um barco ruma para onde vai.
Uma luz no escuro brilha a direito
ofusca as demais.
E mais que uma onda, mais que uma maré...
Tentaram prendê-lo impor-lhe uma fé...
Mas, vogando à vontade, rompendo a saudade,
vai quem já nada teme, vai o homem do leme...
E uma vontade de rir nasce do fundo do ser.
E uma vontade de ir, correr o mundo e partir,
a vida é sempre a perder...
No fundo do mar
ja sem os outros, os que lá ficaram.
Em dias cinzentos
descanso eterno lá encontraram.
E mais que uma onda, mais que uma maré...
Tentaram prendê-lo, impor-lhe uma fé...
Mas, vogando à vontade, rompendo a saudade,
vai quem já nada teme, vai o homem do leme...
E uma vontade de rir nasce do fundo do ser.
E uma vontade de ir, correr o mundo e partir,
a vida é sempre a perder...
No fundo horizonte
sopra o murmúrio para onde vai.
No fundo do tempo
foge o futuro, é tarde demais...
E uma vontade de rir nasce do fundo do ser.
E uma vontade de ir, correr o mundo e partir,
a vida é sempre a perder...
-------------------------------------
José Cabral [foto] / Xutos 
Um aparente empobrecimento ideológico...ou será um aparente empobrecimento teórico...ou um aparente empobrecimento mediático...enfim, seja o que for, causou que lá no meu país a (constante) discussão entre o que é direita e esquerda se centrasse em categorizações. Ser pró ou anti-Bush (por lá entendidos como sinónimos de pró ou anti-americano). E também, ainda que por arrastamento, pró-Israel ou contra (cujo critério único é gostar-se ou não de Sharon).
Dá a sensação que há um aparente empobrecimento ... da capacidade de pensar Portugal. E que grande parte das "esquerda" e "direita" (goste-se ou não das categorias, elas usam-se) só podem adubar as suas identidades pensando o exterior. E, só alguém no terreno poderá explicar as causas, fazem-no pobre e bipolarmente.
Mero emigrante, não sou lá muito cosmopolita para discorrer sobre os males do mundo. Mas ainda resmungo:
- não gosto da política de Bush, e há muito, e já aqui o disse. E o Iraque nem é a causa, mas sim sintoma. Como é que isso me faz anti-americano. Ou esquerdista?
Pois da mesma forma desagrada-me, de modo até exagerado, reconheço, António Guterres. Isso faz-me anti-português? Neo-nazi?
- acho errada a política israelita. Serei anti-semita por isso? Pérfido comunista, ou até socialista?
Às vezes lembro-me de um quase recente primeiro-ministro israelita, assassinado. Nos seus últimos anos muito pouco concordante com a tendência deste último governo. Seria ele um anti-semita?
Um aparente empobrecimento...leva a que os discursos tão políticos que do meu país aqui me chegam anunciem uma incapacidade de pensar Portugal porque uma incapacidade de pensar política. Discursos pobres e bipolares, repito. A tomarem a parte pelo todo. A aumentarem episódicos governos em processos longos. Coisas nada.
Decadência? Não! Ignorância e cagança. Ou seja, "pouco mundo" apesar de tanto falatório sobre um "mundo".
E, já agora, como pensar Portugal, se pobre e bipolarmente?
continuam a escrever, apontando-me que muito mal digo eu de Portugal. Talvez. Mas não sou nada decadentista. Considero que Portugal está muito melhor do que antes esteve. Basta comparar com o nosso 1984, do qual ainda tão bem nos lembramos. E isto é sentido e sincero. E vale por cem críticas.
[O sistema indica 344 entradas no Ma-Schamba. Prometo que quando chegar às 444 torno a escrever algo semelhante. Sentido e sincero].
Fotos de soldados norte-americanos divertindo-se junto de cadáveres, telejornal de hoje. As suas caras (já conhecidas) e o cenário indiciam que os mortos eram prisioneiros.
As célebres fotos anteriores mostram um meio semelhante. Tudo permite imaginar (por enquanto, até mais dados, que presumo comprovarão esta ideia) que nestas se tratam de prisioneiros mortos na prisão.
Nos últimos dias têm soado notícias que os norte-americanos têm tido práticas de tortura dos seus prisioneiros no Iraque, em Cuba e no Afeganistão. Talvez sim, talvez não. Parece que sim, mas há sempre muita falsa (contra) informação nestes casos. Mas parece que sim.
Coisa de meia dúzia de soldados mais inconscientes, diz-se por lá. Duvidei, mas talvez.
Mas agora, com mortos na prisão, como acreditar nessa versão? Torna óbvio que isto ultrapassa, e de que maneira, práticas marginais de um grupo de legionários exaltados. Pois se o fossem, como poderiam eles assumir a morte daqueles sobre os quais tinham responsabilidade? Não temeriam eles durissimos castigos?
Os portugueses estão no Iraque. Temos forças lá, poucas é certo, mas estão lá, lado a lado com os americanos. Estes dados, agora conhecidos, só nos dão uma alternativa: ou ficamos, e somos tropas que abatemos os nossos prisioneiros; ou saímos, porque não ombreamos com tropas destas.
E não vale dizer "foram os americanos". Porque se nos mantivermos fomos nós.
Está na hora. Recuar com honra. E deixar os bárbaros no deserto!
(Depois de tantos anos a ver onde ponho os pés acho que posso pôr a pata na poça).
1. Uma mostra colectiva de fotografias obtidas durante o Festival do Baluarte na Ilha de Moçambique, durante a sua primeira edição, no ano passado.
Organizada para publicitar a segunda edição, a ocorrer no último fim-de-semana de Junho. Publicitar e angariar apoios empresariais. O festival é uma iniciativa digna, este ano virão mais de cem artistas da Reunião e de Mayotte. Animação cultural, turismo, criação de um ritmo cíclico de visitas. É o caminho para a vida da Ilha, e para a sua publicitação.
Volto à mostra, um bocado desigual, que isto de misturar grandes profissionais com amadores e ainda com curiosos, fica assim um bazar para pedir apoio. Que o arranje, pelo menos. O grande Sérgio Santimano, com um punhado de belissimas fotos espessas. O Jorge Neto do Africanidades, então por cá (e que pena que não nos tivessemos cruzado) e o meu amigo Luís Abelard, a jogar no movimento. E ainda dois fotógrafos franceses, não retive o nome.
Mostra desiquilibrada. Mas boas fotos, ainda que de campeonatos diferentes. E é sempre a Ilha. Mas mesmo que tenha sido organizada para pedir apoios este já não é tempo para fazer as coisas coisas assim. Nem se distribui uma mísera fotocópia para que saibamos quem lá está nas paredes, que já nem se pede o desdobrável de alcunha "catálogo". Não há dinheiro? Cortassem as chamussas.
2. Uns dias depois exposição de Martin Hansen acompanhado de uma pequena colectiva das suas alunas. Fotografia digital. Nem falo das fotos, que são o mais importante (e por isso aí está o elo para o sítio do fotógrafo, posto no Ma-Schamba há meses, logo que dele tomei conhecimento).
Acho absolutamente inacreditável que se faça uma exposição em Maputo e que toda a informação disponível seja em inglês. Pruridos tardo-coloniais aqui do tuga, temeroso de um Mozambique futuro? Nada mesmo! Nada mesmo! Desgosta-me sim a arrogância de quem aqui expõe e não se digna a traduzir para uma língua nacional: "To whom it is codfish is enough". Não há atrasos que justifiquem isto, apenas desinteresse. Mesmo que a exposição seja virada para um "beautiful people" cuja beleza é (apenas) o esbranquiçado da pele. Haja, pelo menos, o simulacro do respeito. Seja lá onde se expõe.
"An Eye for diversity"? A diferença dos outros...traduz-se por via destes passos.
Nem os franceses por cá fazem isso.
Enfim, o elo está aí, as fotografias são bonitas. Bonitas, pronto.
Hoje, ao volante, lembrei-me da história daquele urânio, empobrecido ou enriquecido já nem sei. Como é que terão ficado? As conclusões, claro.
Ao fim destes meses de blog confesso-me algo cansado. Talvez mais desiludido do que cansado, desiludido com aquilo a que se chama a "blogosfera". Tanta gente a escrever e alguma pequenez de horizontes. Meia-dúzia de temas recorrentes, sistemáticos: bush e iraque (+/-), o governo e o -BE (+/-), uns poemitas ali uns contitos acolá, uns mais afoitos na lenga-lenga africana, gaza e marranos, e o futebol, e pouco mais. P. ex. agora todos falam de bola, da selecção, do Baía, etc.
Acabo de levantar temática interessante, e ninguém liga, presos ao rame-rame. Mas não desisto. Insisto, acho que há espaço para novas problemáticas. Mesmo que limitado pela minha ignorância sobre a matéria: não deveria ser a "blogosfera" um sítio de aprendizagem?
Deste modo aqui coloco o que realmente interessa. Como será? Mais ou menos deste tipo?


Ou um pouco mais moderno?


Terá mangas? Que comprimento terá a cauda? Qual o tom do branco?
Temas prementes. Temas a exigir tomadas de posição, ainda que um pouco tardias. Temas até a apelar a algum risco opinativo, assumir concepções próprias antes do acontecimento. Porque depois, criticar depois, isso é fácil.
Enfim, quem dera uma blogosfera menos entretida com minudências.
[Fotografias e desenhos copiadas de
Madalena Braz Teixeira (coord.), s/d, Traje de Noiva 1800-2000, Lisboa, Instituto Português de Museus ]
já agora, e a propósito de desfile, algum leitor tem informações sobre o vestido da noiva. arde-se de curiosidade por aqui...
Anda animada uma das subsecções da blogosfera que frequento: o Bota incarnou o Richelieu, o Tugir fez-se Athos, e o sangue ameça jorrar por via de amores nobres.
Só temo que as tropas desavindas se aboletem cá pelo albergue, vazando-me celeiro e adega, partindo-me o balcão, cavalgando-me as colheitas, arrebanhando-me as empregadas. Para prejuízo já basta o vestido novo da senhora e o remendo no gibão mais as meias-solas, tudo isso para irmos assistir ao desfile.

"Estes homens da cor de cabrito esfolado que hoje aplaudis entrarão nas vossas aldeias com o barulho das suas armas e o chicote do comprimento da jibóia. Chamarão pessoa por pessoa, registando-vos em papéis que ... vos aprisionarão. Os nomes que vêem dos vossos antepassados esquecidos morrerão por todo o sempre, porque dar-vos-ão os nomes que bem lhes aprouver, chamando-vos merda e vocês agradecendo. Exigir-vos-ão papéis até na retrete, como se não bastasse a palavra, a palavra que vem dos nossos antepassados, a palavra que impôs a ordem nestas terras sem ordem, a palavra que tirou crianças dos ventres das vossas mães e mulheres. O papel com rabiscos norteará a vossa vida e a vossa morte, filhos das trevas".
[O último discurso de Ngungunhanhe, segundo Ungulani Ba Ka Khosa, Ualalapi, Associação dos Escritores Moçambicanos, 2ª edição, p. 118]
Aqui recordo um anterior apontamento com transcrição parcial de recente e clarividente artigo de Tomás Vieira Mário, no qual o autor destapa algumas das armadilhas do conceito de lusofonia.
Para associar aos textos que o Miniscente tem vindo a dedicar ao assunto e ainda ao que eu desencaixotei anteriormente.
(cont.)
Acerca do apontamento anterior a Ana do A Verdade da Mentira acaba de deixar um comentário bem mais eloquente do que o meu pobre textito e até, pelo menos para mim, comovente. Não resisto a trazê-lo para as letras maiores. Agradecendo-lhe:
Aquilo (o "Quando o Telefone Toca") funcionava mais ou menos assim:
«Boa-noite. É o senhor Matos Maia?»
«Sou sim, muito boa-noite, pode dizer a frase?»
«A Farinha Predilecta, dá saúde ao avô e à neta. Posso dizer o meu nome?»
«Faça favor.»
«Sou a Maria da Conceição, da Aldeia Nova. O disco que queria ouvir é o António Mourão em “Ó tempo volta para trás”. Se não tiver pode ser um qualquer do António Calvário.»
«Tenho sim, Maria da Conceição, muito boa noite e muito obrigado.»
[Adorei este regresso à "Farinha Predilecta" que tinha esquecido. Ainda que continue fiel ao espantoso (e mui atrevido para a altura) "Vá à Meca"]
Acabo de receber email de um amigo pedindo que inaugure no Ma-Schamba uma rubrica: "Quando o telefone toca".
Qualquer velho da nossa idade se lembra do extraordinário programa (Rádio Clube Português? Emissora Nacional?), lendário mesmo. Consistia, para incauto jovem aqui aportado, no seguinte: telefona o ouvinte, diz a frase publicitária do dia, pede que uma música particular seja tocada. Quase sempre pedia "posso dizer o meu nome?" e por vezes, lembro, começava por aí e deixava até ao critério do locutor a escolha do "single" a tocar.
Pois o meu afilhado propõe que avance eu com a rubrica, pede aliás uma música, ainda que lamentando não saber a frase. Fica pois sabendo que a frase será a saudosa e celebérrima "Vá à Meca!".
A música pedida foi o hit dançante "Então que achas do Mundial-2010 na África do Sul?". "Pois...", respondo locutor, "essa música não temos" (ah, era muito costume). "Mas temos uma do mesmo cantor", "ai é?, então pode ser", claro que responde o enervado popular (que isto de estar na rádio é coisa séria, mesmo que em diferido).
Então lá vai, um slow:
"Se o Mandela ficou contente então está bem, que o homem merece tudo".
Acabo de receber um convite para a inauguração de uma exposição. Ah, sinal óbvio, ainda que inaudito, de distinção social. Efeitos deste anárquico Ma-schamba?
Hei-de visitar com toda a certeza, e fica aí a reprodução feita cartaz. Pois o autor está também ali nos "Vizinhos", é Martin Hansen onde tem vindo a colocar o seu "eye for diversity".

O Luís Carmelo está absolutamente imparável no Miniscente na sua abordagem à lusofonia. Temo (!?) que não fique pedra sobre pedra. Uma pérola.
Sobre o Euro-2004 diz-me, com a simpatia habitual, o LNT no Tugir que "É que, caro JPT, o Euro 2004 fazia sentido num contexto global de desenvolvimento. Deixou de fazer quando o objectivo passou a ser só o próprio campeonato."
Aceito essa afirmação. Que tem lógica. Mas face a essa ideia como debater a pertinência do Euro-2004? Eu só vejo duas formas:
1. aceito a realidade de que "o Euro faz sentido num contexto global de desenvolvimento do país". E parto dessa ideia para a discussão. Cada um terá a sua noção de "desenvolvimento", cada um de nós terá as suas ideias sobre as articulações possíveis entre esse "desenvolvimento" próprio ou um em "abstracto" e o Euro. E cada um de nós botará a sua opinião, somando-lhe umas ideias mais ou menos sonantes a "puxar a brasa à sua sardinha".
Eu tenho uma, apenas exemplo. Em Leiria (ali entre os estádios de Lisboa e de Coimbra) o União de Leiria fez três anos espantosos. Três treinadores do melhor (Manuel José, José Mourinho e Manuel Cajuda), bons jogadores, equipas a jogar futebol bonito, e excelentes resultados desportivos, 5º e 6º lugar, ida à Europa. E uma média de espectadores inferior a 1000. Um estádio de 30 000 espectadores? [repito: entre Coimbra e Lisboa] Para quê se é óbvio que o público não é ali elástico?
Meu caro, este registo é-me absolutamente insuficiente. Daqui eu só posso esperar conclusões muito pouco analíticas, preconceituosas. Tipo encarar a referida articulação com o desenvolvimento concebendo-o como derivado da indústria da construção civil (tipo, crise económica, baixe-se a sisa, conhece?). Ou mais preconceituosas ainda, tipo, um "desenvolvimento" ligado aos complexos câmaras/clubes-construtoras e suas influências nos aparelhos políticos centrais. Aliado a um contexto político onde o mito da "obra" domina. Tudo preconceito, porque tudo proveniente do diz-que-diz. Sem ironia.
Ou
2. "o Euro 2004 fazia sentido num contexto global de desenvolvimento" pois foi estudado enquanto tal. Há (houve) uma reflexão articulada, relativamente sistémica que aponta os efeitos potenciadores de desenvolvimento do Euro-2004 no país. E é essa reflexão prévia à candidatura, ao dossier de encargos, que deverá ser a base para uma discussão sobre a legitimidade (pesei a palavra) desta operação.
Não me refiro a um conjunto de entrevistas ou declarações dos vários responsáveis ("bom para o turismo, bom para a imagem, a afirmação, etc."), no domínio das generalidades. Não me refiro ao caderno de encargos e receitas previstas, que desenvolvimento não é lucro ou prejuízo final.
Refiro-me a um plano conjunto que tenha projectado, detalhada e sistematicamente, o papel do Euro no desenvolvimento do país. Não que acredite num estatuto demiúrgico de um plano prospectivo. Mas porque será sobre esse plano que se poderá discutir da racionalidade ou não da operação. E sobre a sua justeza. E sobre o que falhou ou não. (Até porque senão o seu "o objectivo passou a ser só o próprio campeonato" assume estatuto de infalsificável, donde de nada me serve)
Existe essa abordagem prévia? Esse estudo de desenvolvimento? Essa base para uma discussão séria e o menos preconceituosa possível? Documento único ou plural. Passível de ser criticado à luz da altura. Passível de servir para identificar as articulações que não foram feitas. Passível de ser criticado à luz de hoje.
É que se há, e caro LNT isto é dúvida de emigrante, muito gostaria eu de ter acesso. Para o poder ler como "estudo de caso". Como cidadão e como aprendiz destas coisas do desenvolvimento.
E também para poder discutir entre amigos deixando cair os lugares-comuns e as "bocas" aos grupos mafiosos que mais parecem os feiticeiros, todos falamos deles mas parece que nunca se vêm, donde não devem existir. Ainda que eficientes. Tal e qual os feiticeiros.
Abraço, e desculpe o longo mugir.
Nota final: respondeu o LNT, simpática e venenosamente. Enviando-me ao documento matriz e anunciando-me outros. Eu e a minha mania de botar, lá me fui eu meter numa carga de trabalhos! Se os perceber hei-de voltar ao assunto, dentro de algum (muito, acho) tempo. Porque sobre tais projectos decerto que haverá muito a dizer (para quem saiba da poda, claro está). Os meus agradecimentos (ainda que assustados).
Amável o LNT do Tugir comentou o apontamento que dediquei às declarações do sociólogo António Silva e Costa sobre o Euro-2004, proferidas num recente congresso em Portugal. Impeliu-me a contra-argumentar, o que me levou a reler o que escrevi.
Confesso a sensação de me ter a ironia resvalado um bom bocado, a bordejar mesmo a lamacenta lagoa do sarcasmo. Então antes de mais vou tentar limpar o matope dos sapatos e até engraxá-los:
1. Tenho uma enorme admiração por Santos Silva, e ao longo dos anos tenho aprendido imenso nos seus livros e artigos.
2. Não tenho imagem negativa da sua (longa) passagem pelo governo. Não tenho, aliás, particular informação sobre isso, já que emigrante e pouco atento à area (abissal) da política educativa.
3. Muito me irrita a mania de desvalorizar os profissionais brilhantes que interrompem as suas carreiras (e ainda para mais no seu auge) para ocupar cargos políticos. Por ambição, gozo, missão, ou tudo isso junto, que são coisas boas. É uma mania imbecil, pois tais atitudes são louváveis (o que não isenta de críticas, como é óbvio). E é uma mania anti-democrática, porque a priori avessa à política, aos políticos.
4. Independentemente de Santos Silva pertencer ao governo que patrocinou este Euro, colocar o seu nome naquele apontamento foi deselegante. Ainda que o efeito pretendido fosse opor o seu brilhantismo a uma "boca" um bocado tonta de um seu colega de profissão.
5. Enfim, não foi um bom momento. Não apago o texto, até porque a intenção era elogiosa. Mas preferia não o ter escrito desta forma. Como disse acima, foi uma deselegância.

Edição de Santos Rufino (1928)
[doação de António Botelho de Melo]
Emigrar é isto, desactualizar. Relativamente à santa terrinha, claro está, que outras actualidades se vão ganhando.
Vem isto a propósito de...pois logo neste fim-de-semana em que, decerto desactualizado, me atrevi a aqui elogiar o sociólogo Santos Silva sou confrontado com o desenvolvimento das ciências sociais portuguesas e com as inevitáveis ultrapassagens (teóricas, estatutárias) que isso sempre comporta:
O sociólogo António Silva e Costa fez, em Braga, uma declaração surpreendente. "[O Euro] foi verdadeiramente uma vitória. É, porventura, o acontecimento mais importante que o país tem desde os Descobrimentos, muito mais do que a Expo 98, porque a cultura não move ninguém...", atirou, em jeito de desafio, durante o debate "2004: O Ano Português do Futebol", que decorreu anteontem à noite, em Braga, no âmbito do V Congresso Português de Sociologia.
Deverei apagar o apontamento de sábado? Mascarar-me de muito em cima do acontecimento? Afirmar-me vero académico? Ou desnudar-me assim provinciano, atrasado, ultrapassado? Que grande azar!
Nota: abençoada lógica. Então não é que enquanto escrevia isto me lembrei que foram os governos de Augusto Santos Silva que conseguiram o euro para a Nação. Afinal fica o apontamento. Está concordante. Estou actualizado...

"Rua de Maputo: o vendedor de vernizes e manicure no passeio"
Colecção "Moçambique" (10 postais)
Fotografias de João Costa (Funcho)
Edições Missanga, 2003
[Está aqui a tocar, acústico. E dá para lembrar quando cá estiveram...para mim irónico rock do destino]
Mares convulsos, ressacas estranhas
Cruzam-te a alma de verde escuro
As ondas que te empurram
As vagas que te esmagam
Contra tudo lutas
Contra tudo falhas
Todas as tuas explosões
Redundam em silêncio
Nada me diz
Berras às bestas
Que te sufocam
Em braços viscosos
Cheios de pavor
Esse frio surdo
O frio que te envolve
Nasce na fonte
Na fonte da dor
Remar remar
Força a corrente
Ao mar, ao mar
Que mata a gente
[X]
Para começar uma semana de olhos abertos: um novo choque petrolífero?. Sou leigo, não tenho saberes para criticar o texto, mas parece-me muito interessante para fazer pensar.

Prever (e até planear) o futuro é um desejo de quase todos, metafísicos, filósofos ou cientistas (a acreditar nesta tripartição). Desejo que de tão inalcançado se vai traduzindo em impossibilidade.
Prova que é possível antever e que se o pode fazer de modo acurado e belissimo é este livro: Bilal e Christin em 1983, a perceberem que tudo ia mudar.

Foi-me muito simpático descobrir que tinha sido ligado pelo Azenhas do Mar.
A minha praia preferida já desapareceu, de modo abrupto, destruída pelas mutações geológicas da costa (ou terá sido o "poder local"?). Era São Martinho do Porto, o em tempos célebre "bidé das marquesas". Cresci tudo lá.
Depois dessa desaparição fiquei viúvo de praias. Mas arranjei amizade, muito episódica que nelas pouco fui e nada tive, com duas delas: as Azenhas do Mar e a Adraga. Só uns bons anos depois ganhei a costa vicentina, ainda antes das modas da Carrapateira e afins. Baseava-me em Alfambras e a costa era minha.
Esta foi mesmo uma ligação directa às saudades. E ainda por cima feita por alguém que gosta de postais antigos (será que os pode colocar um bocadinho maiores?). A acompanhar. E a agradecer.
"Mamã, aqueles meninos maus ainda não disseram mal do mal que os outros meninos maus fizeram...".
(não, não foi a Carolina. Ela ainda não sabe onde fica os iraques, israeis ou euas. Nem Gaza ainda reconhece, coitadinha da minha menina)
Velho aforismo aqui dedicado ao Doi-me +, que decerto o conhece. A acompanhar desejos de pioras:
"A vida é uma doença mortal sexualmente transmissível"
O Luís Carmelo abordou no seu Miniscente um tema que me é caro (bem, para uma escrita literal seria melhor "que me é barato"): a lusofonia. Não resisti a botar pequeno comentário, que já teve complemento do dono da casa. Confesso que gostaria de por lá ler outras opiniões - nem que seja porque o assunto não é o Iraque.
E enquanto não volto à liça permito-me deixar aqui referência a um velho texto meu sobre o assunto, posto no Ma-schamba quando este era ainda mais marginal. Está aqui o Fragmentos de Lusofonia.
[Sei bem que a auto-referência é pecado de soberba. Ou será de gula...de leitores? Enfim pecado é, escolha a visita de que espécie será]
A melhor aguardente que já bebi na vida foi um medronho de Monchique, envelhecido doze anos. Nenhum hidromel se terá comparado a tal néctar, verdadeiramente divino. E nenhuma aguardente cerealífera a poderá ombrear em excelência e dignidade.
Nota: Pelo menos dois leitores deste blog a compartilharam comigo, o ilustre comentador Zé Francisco e o silencioso Bill. Foi há mais de quinze anos que morreu o dito garrafão. Terá secado a fonte?
Nos últimos dias o incontornável colectivo Causa Nossa como que rejuvenesceu. Será este o significado da críptica palavra "sinergia"?
Augusto Santos Silva, cuja dimensão de sociólogo não esgota superlativos, não está mesmo nada mal aqui.
Lateralmente, algum passante me poderá traduzir um "plafonamento" que lá está, nítido jargão que os meus dicionários não integram.
POEMA DA PERGUNTAÇÃO
Não somos todos, os envergonhados, os verdadeiros culpados?
Não somos nós, os indignados, os verdadeiros carrascos?
O que antes e agora julgamos, não foi apenas uma pequena evidência? O que nós prendemos não foi a mão obscura de uma consciência? E mesmo o que matamos, não foi tão somente uma ínfima parte da verdade?
E procuramos grades? E procuramos muros altos e seguros? E procuramos homens obtusos para que os possamos vigiar? E procuramos armas para os tornarmos intransponíveis? De nada nos valerá, de nada nos adiantará. Não há ferro, nem betão, nem servilismo nenhum que nos possam salvar da luz da verdade.
Uma mentira não tem sempre sede de liberdade? Uma mentira não é a cela da verdade? E quantas vezes a pretendemos prender? E com quantas grades a desejamos ocultar? E com quantas mãos a ameaçamos estrangular?
Não vale a pena. Desistamos. Em nenhum maciço de betão podemos esconder o que a nossa consciência sabe. Em nenhuma anedota, em nenhum boato, em nenhuma suposição, em nenhuma imparcialidade e em nenhum juiz e em nenhum desmentido nos jornais e em nenhum país. Nem de nós, nem dos outros.
Somos todos nós os verdadeiros culpados, são nossos os muros e as grandes onde escondemos a verdade. E deles ninguém se evadiu, somos todos nós os verdadeiros evadidos.
Eduardo White
(Eduardo, agradeço-te o envio. Que é dádiva. Abraço. Até já)
Há dois meses fui avisado pelo Periscópio-Quatro [salaama Tiago] do BBC Radio 3 Listeners Award. Do dito submarino alertava-se para a presença de patrício candidato. Ecoei o facto.
O prémio foi agora atribuído a Thomas Allen. Fica aqui a conclusão de tal notícia, e assim o filho do meu irmão não ganhou.
Já agora, e como isto é, tal como disse acima, "mais para a família..." a "Wasteband" da minha sobrinha não foi esquecida pelos prémios "à séria". E eu que nunca assisti, nem vou assistir. Coisas do cá longe...
Uma manada de búfalos espantada, momentos de extremo perigo, atravessa o rio e carrega indomável sobre a aldeia, pujante na sua imbecilidade, na sua força de grupo. Pânico...
Um homem só, sangue-frio, corre para diante dela, crendo que ele e seus espíritos protectores a acalmará. Assim salvando parentes e vizinhos. Destemido. Homem.
Consegue-o. Os búfalos espantados estancam, retrocedem. Quase que envergonhados.
Poucos dias passam. Vizinhos, e parentes até, resmungam. Suspeitosos. Como aconteceu tudo aquilo? Feitiço, diz-se. O homem é perigoso, feiticeiro. Chamado o nyamussoro, velho, barbudo, confirma-o, pois isso lhe dizem conchas, pedras e espíritos mais antigos ainda.
Pois foi esse homem que espantou os búfalos. E só assim podia ter o poder de os domar. Um pacto maldito para se fazer grande, coisas da ambição.
O homem é feiticeiro, tem que abandonar a aldeia. Malévolo, é condenado a partir com a sua família. Há-de caminhar lá para onde a terra é mais seca. E hão-de chegar notícias um dia, se teve ele poderes para fazer crescer mandioca que seja, lá onde acampar, se para isso encontrar água. Que seja maldito feiticeiro por lá, ele entre os seus.
É assim o feitiço, a vida nas aldeias. O obscurantismo que esmaga o dia-a-dia.
Alvalade XXI, a velha povação do visconde, terras onde manda o ngonhamo (esse leão dos mulungo), lá entre Tejo e Trancão, distrito de Lisboa, Portugal, nos tempos de princípio do milénio.
Desde a minha primeira visita ao então já célebre Pipi que não me ria tanto com leituras: o maluquinho.
Presumo que não virá a ser tão célebre - e espero que não, que a fama causar-lhe-ia maiores maleitas. Mas é delirante, literalmente.
Quando eu era miúdo quando a equipa perdia o treinador mudava. O hábito era tão arreigado que até quando a equipa ganhava era assim, que o disseram o campeão Mário Lino e o gigante e exemplar Malcolm Allison.
Agora muda o administrador-delegado da empresa...
Não há dúvida, os velhos são sempre conservadores e saudosistas.
Ai, que saudades, ai, ai...
(lembram-se do Carlos Pinhão?)
O Paulo Querido montou um arquivo dos textos referentes ao episódio "morte aos blogs", avisou o sempre atento Tugir. Para lá enviei os dois (vergonhosamente excitados) "Ultramontanos" que aqui escrevi.
Pelo que tenho lido em alguns blogs a história da "estagiária incompetente do Expresso" cheira-lhes a "esmola grande" e estão como os pobres, "desconfiados". A imaginarem perfídias expectantes, uma conspiração anti-blogs, o mano velho a silenciar as vozes libertárias. E talvez esta concentração de textos tenha a ver com essa desconfiança, que "bloguista avisado vale por alguns".
Mas custa-me muito crer em tais nuvens no horizonte (talvez esteja enganado, acontece-me tanto, e cada vez mais):
- pelo que conheço do Mário Carvalho (director do Expresso on-line), dos anos que aqui passou, não o estou a ver nas catacumbas conspirativas; e ainda havemos de comer uma lagosta e peixe fresco no Tofinho, rindo/lamentando o episódio. Estou certo...
- e pelo que (não) percebo da internet, não estou a imaginar como é que um Estado poderá trancar o acesso aos blogs, nesse espaço a que chamamos virtual, mas é acima de tudo internacionalizado. Não me parece caber em cabeça inteligente. Bem, sempre poderá haver uma Santa Aliança anti-blogs. Mas pensar isso não será um bocado "bloguistas em bicos dos pés"?
Mesmo assim envio os vetustos "ultramontanos" (1) e (2) para o P.Q. Pela simpatia e respeito devidos a quem acolhe esta Ma-Schamba de modo tão competente, e às iniciativas que promove.
Mas também porque me parece importante estar com qualquer iniciativa que promova algo sobre o qual já aqui escrevi, uma preocupação com a memória futura disto tudo, uma estratégia de arquivo bloguístico.
E se alguém souber algo sobre este assunto será que me poderá informar?
...
E as bolas macias do algodão
vão embeber-se todas, com volúpia;
Do vermelho do sangue jorrado
da boca do homem que morreu escravizado
na terra negra do algodão...
E vão ficar rubras, rubras, em sangue ensopadas,
as nuvenzinhas brancas, brancas do algodão!
Noémia de Sousa, "O Homem Morreu na Terra do Algodão", Sangue Negro, Associação dos Escritores Moçambicanos, 2001, organização de Fátima Mendonça, Nelson Saúte, Francisco Noa
(poema escrito em 1949)
EXAMES FINAIS
Pois eis-me perorando, tipo converseta por altura da bem-vinda aguardente, rodando entremãos o balão aquecido. Sai-me um desabafo, SÓ para vocês caros amigos, e ainda bem que estamos apenas entre professores, pois quero, neófito face a vós, partilhar uma recente historieta, a qual talvez vos divirta mas que decerto muito vos pode ensinar.
Vamos ao que interessa. Na semana passada fiz um exame aos meus alunos. Quatro turmas juntas, mais de 100 pessoas, eu e um colega “vigiando” o trabalho de grupo em marcha. Diz-me o Américo a páginas tantas: “então o Cossa é teu aluno?”, e eu neutral e paternal “sim, mas não é grande aluno o homem, tem ali algumas dificuldades, já o chumbei o semestre passado, agora trouxe-o a exame, já chega de lhe estragar a vida”.
“Ouve lá, tu não sabes quem é o Cossa?”, percebe ele pelo meu ar displicente, “Claro que sim, aquele mais velho ali em cima”, como se eu não reconhecesse os meus alunos, bom trabalho isso me dá. “Porra Teixeira, aquele Cossa? O gajo é grande na Renamo, é general, desses que mandam nas Forças Armadas”, “Hé, com um caralho”, digo eu, o lisboeta, “então e ninguém me avisa!”, “Foda-se pá!”, que o Américo antes de ir para Inglaterra ainda estudou no Porto, e nisso tornou-se-lhe pesada a língua, “o gajo era um Killer pá, um Killer!”.
Sento o cú no bordo da mesa, murmuro o refilar sobre a vida, enquanto me vai dizendo o colega, “que assim é que é, tratar todos os alunos como iguais, os tipos até apreciam isso”, e eu que o gajo se fosse lixar, “tu deves ser mas é da Frelimo, estás a gozar o prato”. Rememoro as aulas, “então e você como se chama?” “Alcino Cossa?, importa-se que lhe chame Alcino?”, “Ó Alcino, diga-me lá como é na sua terra”, “e qual é o seu povo? - calma meus amigos, eu depois discuto o que é isso de povo e etnia e etc. e tal, apesar de os alunos quererem mesmo são as definições para poderem despejar no teste -, e “qual é a sua língua?”, “o português? tá bem, tá bem, mas em que língua é que sonha”, e nisto tudo de aula em aula para culminar “e você foi à tropa?” (meu Deus!) “e você fez a guerra? E estava tratado?” - entendam isto como esses tratamentos mágicos, vacinas, para a invulnerabilidade - “Não? Desculpe mas não acredito!". E é claro que estaria, basta ouvirmos do povo como morreu Matsangaíssa, o fundador da sua Renamo, dizem-me por esse mato fora que caíu em combate individual com o general Mabote, quais heróis homéricos, também ele narrado pelo povo como bem “tratado”, este que agora morreu afogado no Bilene, congestão ao que parece, imerecida infelicidade para final de vida em homem de tanta história.
Mas deixem-me, regresso ao meu General, e a pauta no Natal mostrando-lhe o chumbo final, para lá das notas nos testes. E eu, estúpido, mesmo assim sempre a apelar, "diga-me lá, ó Alcino, como é que é….?", que o homem, arguto e sempre tão cordato, é bom na fala, nada estúpido mesmo, mas esta de andar para aqui a repetir gregos e iluministas mais as críticas aos etnocentrismos, caramba, por esta não esperava ele, até sem tempo entre trabalho e família, mais os livros de direito, para todas aquelas leituras que lhe peço eu. E assim insisto, ele ali tão a jeito, o único da turma que discorre a saber sobre a vida (pudera, digo eu agora), feito minha muleta para o diálogo, tão preciosa ajuda para mim quando defronte dos outros alunos, mais ou menos jovens, envergonhados a forçarem o esquecimento de todo esse velho campo deixado para trás, por eles ou seus pais, gente agora urbana sem ainda terem percebido que não há meta sem partida. Mas enfim, isso já serão coisas para sociólogo questionar.
E a colega dele, bonita, em final de semestre, “ó professor, a situação do Alcino é que é uma chatice”, mas porquê, refilo eu, “não lhe pode dar uma hipótese, uma pessoa na situação dele, é tão desagradável”, e eu a pensar que a situação é a do homem com dificuldades no estudo, nos seus 50 anos, a querer subir no aparelho de Estado, ou o sonho de ser doutor, e a família em casa à espera, e por muita solidariedade que eu tenha, nada a fazer, o homem foi fraco nos testes, há limites, e a justiça, avaliação igual para todos não é?. E o raio da colega, dengosa no seu 15, não se descose. Ou acharia que eu sabia quem era o mais velho? Talvez, talvez...
Esfumaço um cigarro, ali dando a mim mesmo o estatuto de fumador nas salas de aula. Relembro num ápice todo este destratamento que fiz ao general, igual diante dos outros, mas um igual que para homem daqueles parecerá sempre desrespeito, apenas em meu favor a educação e alguma solidariedade (!, mas que solidariedade se o fui chumbando?) face a um quasi cinquentão até baixinho, alguma barriga, simpático e mesmo calado se não interpelado, tipo bom chefe de familia, chefe da repartição do bairro notarial, uma simpatia de pessoa. Porra, o que a paz faz a um killer! Hi, o que ele se deve ter sentido humilhado, chefe africano no meio dos putos, destratado pelo sacana de um branco!
Volta o Américo, “olha, também és professor do Camilo”, “quem?”, estou quase ausente, “o Camilo Caldas, o gajo também é da Renamo, fez parte da comissão de acordo de paz, parte militar”. Não!, não!, outro a quem chumbei, mais letrado, mais novo, mas mais calado, talvez menos sagaz que o anterior, ou talvez apenas menos atrevido na sala de aula, porventura hoje mais assustadora do que um mato bem palmilhado! “Aquele da Renamo? Mas até tem um ar assustadiço”, traduzo-lhe eu a timidez, pois é com esses é que tem de se ter cuidado, aceita o meu colega concordar comigo, e aqui já estava eu a inventar intenções.
São 9 h da manhã, eu nunca bebo antes do almoço e mesmo assim…Mas com um caraças, ando para aqui a chumbar as estruturas da Renamo, a impedir a sua formação, a retardar-lhes todo esse esforço. Estou lixado, apesar da solidariedade do Américo, algo gozona cheira-me.
Saio com os exames. Espero pelo almoço para beber o gin, e bem devagar, na varanda sobre o Índico, essa que é o meu laço primordial com este país, e vou dizendo-me do quão estúpido sou, tantos anos aqui, senhor encarregado, bem integrado, depois senhor director, porque bem integrado, entretanto senhor professor, porque o rapaz até parece inteligente e deve ser culto e não é má pessoa, e agora esta, tenho o célebre Cossa nas mãos e ando a dormir, nem sei quem seja. Que balde de água fria, o gelo da humildade. E antropólogo, expert do reconhecimento, pisteiro das relações. Que vergonha, que embaraço. E puta de arrogância, o que interessa que os alunos não saibam o que se lhes tenta ensinar, será que tenho algum saber assim realmente tão importante? E quem sou eu para barrar a vida às gentes que me rodeiam?
Hei-de cruzar o Beto, patrício amigo aqui nascido, também aluno tardio, mas de outra turma, “ó meu cabrão então tu não me avisas quem é aquele meu aluno?”, "ó pá, nem sabia que eras professor dele". Conto-lhe rápido o acontecido, diz-me que assim é que tem que ser, todos são iguais, não é?, e lembra-me que muito amigos somos mas que o levei a exame, "seu sacana, estou-me nas tintas para essa antropologia, ando aqui pelo Direito e tenho tão pouco tempo para estudar", logo ali a resmungar. Também ele se ri do meu desconforto. "Ah, por isso é que o gajo me dizia no dia do exame: Eh pá, este professor, não sei… é muito complicado, o gajo dá umas notas lixadas. E, pior, tem umas cenas…diz umas coisas…, o tipo é racista, tem umas coisas de racista!". Oops, e agora Joe? (que sou eu). Intolerante racista apesar do Beto, "que não Alcino, o gajo é meu amigo, gajo porreiro, dos copos, nem penses nisso, o pessoal até lhe chamava Maquiavel ao princípio, de tanto nos chatear com esse cabrão (que é o sinónimo que aqui se usa para florentino), mas afinal portou-se bem com a rapaziada". Enfim, diz ao magno general que sou meio louco mas porreiro e colour blind. Ainda bem, mas o patrício Beto tem a cor dos algarvios, não vai aqui convencer ninguém da presunção da minha inocência.
Não vos maço mais, até porque tenho que sair para lançar as pautas. Apenas quis partilhar convosco este pequeno episódio, constituído em ruptura existencial, nunca mais chateio ninguém quando tiver a faca e algum queijo na mão.
Mas tem moral esta pequena história: nunca confundas uma perdiz com um pombo.
Setembro 2001
Pois muito obrigado ao Tugir que teve a amabilidade e o cuidado de enviar notícia (boa) que o apontamento sobre a ANACOM e a proibição de blogs se baseava num absurdo mal-entendido, numa notícia incongruente.
Fica portanto sem efeito o apontamento "Ultramontanos", e ainda bem. Fica ainda um pedido de desculpas a Pedro Amorim, tão mal citado no jornal em causa: imperdoável, condenei-o sem sequer ouvir/ler o que teria a dizer. Terei uma atenuante, sou do tempo em que o que se lesse no Expresso era para acreditar. Mas é fraco atenuante para tão imperdoável (e impetuoso) preconceito, saio com pena suspensa e daqui em diante obrigado a passar a mão sete vezes pelo teclado antes de escrever.
Entretanto a leitora Mafalda comentou, citando-me apontamento anterior e questionando-me "em que ficamos?", quanto à legalidade de blogs. Procurei ser explícito, antes e agora. Se um blog tiver conteúdos considerados ilegais deve ser penalizado por isso. Tal como nos outros domínios sociais. Porque há-de ser este um domínio específico?
Limites à liberdade? Claro, já por aí o pus, com irritação de alguns leitores. O exercício da liberdade pressupõe, sempre e essencialmente, a sua limitação. Quais esses limites? Aqueles que "nós" entendermos. Fácil, e vão, é passar a vida a protestar com essa estranha entidade "eles" e depois protestar que "eles" limitam a liberdade. Cara Mafalda "eu" sou "eles", tal como "V." (ou és "tu"?) o é.
Em suma, repito as minhas desculpas e toda a minha solidariedade (o que se deve ter irritado...) a Pedro Amorim. E também à ANACOM. E o agradecimento ao amigo Tugir
Leigo, repito, nã percebo grande coisa disto "legalizar patentes sobre modelos de negócio e algoritmos implementados em computador", até o português se me torna difícil de entender. Mas se é o que parece que raio andam a pensar em Lisboa? E a favor de quê? ou de quem? ou é mera distracção? Mas, seja como for, a precisar de alguém que venha dar a cara. A explicar, se possível. Ou a negar!
1. Cá por mim estou no estrangeiro, irei alojar-me noutro sítio. Aliás é interessante a noção deste "especialista", até eu que sou totalmente leigo nas "netices" me interrogo sobre a capacidade de um Estado encerrar algo na net, emigrava tudo ali para o Paulo Querido de Marrocos ou quejando. É que isto de "estrangeiro" terá que se lhe diga. Ou então o "especialista" tem outros saberes que eu não tenho, é provável.
2. Sou um bocado leigo. Não sei bem o que é a Autoridade Nacional de Comunicações. É o regulador? Então será estatal, presumo. Se é estatal, então tem tutela, presumo.
Se é estatal e tem tutela então urge a informação: estou a violar alguma lei portuguesa? Se estou que saia aviso público para que de imediato eu exporte o Ma-Schamba para onde seja este legal, não quero cometer ilegalidades.
Mas se isto tudo não é ilegal este modesto cidadão desejaria um desmentido formal do responsável dessa Autoridade. Um desmentido efectivo, ou seja um compromisso assumido da falsidade das declarações, um desmentido com implicações futuras. E logo pela manhã.
Se demorar até à hora de almoço, "por aquela hora das treze", se se engasgarem, então não quero qualquer desmentido. Qual Salomé quero mesmo uma travessa contendo a cabeça ensanguentada do responsável da tal Autoridade.
E, se assim, que dizer do ministro da tutela, que assim seria responsável político de tamanho ardil contra a liberdade de botadura? No mínimo que será indigno de ser ministro do meu país democrático.
3. Há difamação? Decerto que haverá. Mas lembro que quando surgiu um tal de "Muito Mentiroso" José Pacheco Pereira referiu, e muito bem, que qualquer polícia minimamente apetrechada deveria poder traçar o seu autor.
Há difamação? Sob nome próprio ou anonimato? Que se resolva isso tal e qual se faz nos outros meios de comunicação.
Nada disso tem a ver com o meu anseio...um "afinal não" matutino ou uma cabecinha a menos.
Exagero? Nada! Acho absolutamente espantoso que se digam barbaridades destas no meu país. Chega de ultramontanos.
Nos blogs assim para o político há dois mais do meu agrado, aos quais não costumo faltar. Um, e estou farto de o dizer, é o Bota Acima, um sítio bem à minha esquerda, onde o Patrão exerce o corrosivo misturado com humor. O outro é o Ecletico, um sítio um bocado à minha direita, e cuja Dona tem um olhar especial sobre África (e não só), de profunda informação (e excêntrica, no sentido de externa ao mainstream lusófono), um blog muito ponderado e exigente para o leitor.
Não digo que sejam os melhores blogs das praças, quem sou eu, mas são blogs onde aprendo um pouco, desperto outro tanto, e discordo também. Sítios aprazíveis. São, acima de tudo, pessoas livres a pensarem.
Visito-os quase diariamente. E neles me comporto de modo diferente, como o fazemos quando nas casas dos diferentes amigos, "a cada um como cada qual". No Eclético, entro respeitoso, bem comportado, leio com a atenção possível, raras vezes envio mensagem para não incomodar. Também a Dona é uma senhora, isso é óbvio, e há que ter a atitude correspondente.
Já no Bota Acima sou outro, rejuvenesço-me boémio e desbragado, intrometo-me, boto faladura, provoco, por vezes o homem deve querer ir-se deitar e o convidado não lhe abandona a garrafa e o sofá, a falar alto a acordar-lhe mulher e filhos, enfim, quiçá serafim lampião. Também ninguém mandou ao gajo dar-me uma medalha, agora leva comigo.
Vem isto a propósito de um comentário que deixei por lá o outro dia, assim desbragado, a propósito de um texto que...enfim, presumi bisnaga vira-bicos e que afinal não era. Mal-comportado pus-lhe isto de rajada: "maxambei o sudão por causa do sudão (1º ao 99º que tudo), maxambei o sudão a ver se se calavam com a merda do iraque, esquerdalhada ignorante somente à volta do prato fast-food do telejornal, direitada enlabuzada com o PR dos Eua como se fosse primo deles (100º que tudo). Porra, todos preocupados com "a democracia no mundo" mas sem olhar para ele mais longe do que os piolhos que têm no umbigo" . Um bocadinho pró inconveniente, confesso, o que vale é que o homem tem paciência, coitado.
Vem isto a propósito de um texto hoje posto no Abrupto, o Formas de economia da indignação. Ó JT, era isso que eu queria dizer, mas não sabia como.
Excelente avatar, à eterna pergunta "Qual é o objectivo do teu blog?" a excelente resposta "Obviamente, para não ter que me aturar sozinho!". Assim vistas as coisas, ser leitor deste blog é também uma espécie de baby-sitting.".
Subscrevo integralmente, apenas lamento não ser minha a prosa. Daí o roubo.

Leio que fez ontem 20 anos! Agostinho foi meu ídolo, puto de jogar à carica, dezenas delas com as camisolas dos ciclistas, paciência de menino não há dúvida. Puto de ir comprar "A Bola" (a sagrada, a do Miranda, Farinha, Pinhão, Santos e esses, não o asco clubístico em que se veio a tornar por "razões de mercado"), ainda aquela da tinta que se soltava, para saber as suas aventuras lá pelo Tourmalet e isso, uma Bola que ninguém lá em casa alguma vez leu para além de mim. Achavam piada, era isso, um puto na primária a ler o jornal.
Agostinho, percebi-o mais tarde, ídolo de um país tão mais pequeno do que o é hoje, onde ninguém vibrará por nenhum atleta "lá fora" como se vibrou por ele, campónio feito gigante lá nas franças então tão longínquas, terra do sucesso miragem de então. Meu ídolo, ídolo de um povo que já nem há. E que, também ele, terá começado a morrer no mais pungente funeral público de que tenho memória.
Agostinho e Damas, os meus gigantes de menino morreram-se quase novos. Deixando-me um pouco só, ainda hoje.

Ainda que lhe falte o capítulo final, um anúncio tão antecipado, tão evidente, que será desnecessário parafrasear Gabriel Garcia Marquez.

Rua Valsassina (Beira)
Edição The Newman Art, Publishing Co., Cape Town (cerca de 1930)
Reproduzido de João Loureiro, Memórias de Moçambique, Lisboa, 1997
Postal aqui colocado por razões da minha infância (ainda que não esteja certo da ligação, se não estiver correcta fica a intenção)
Patético, entenda-se comovente. Após anunciar o seu abandono eis o homem de novo. Nem um dia depois. Agora, bem disposto, a partilhar as suas memórias, sobre riquexós, sobre Moçambique e alhures, sobre tempos que passaram e que lhe foram, nitidamente, agradáveis. Como se este lhe fosse, afinal, um sítio aprazível para conversar e debater.
"Inácio de Loyola", "Inácio Ma' Conde", "J. Silva", "Dino" (este nome assumido desde que o Eduardo White cá veio, uma piscadela de olho para se afirmar de um qualquer meio, conhecedor até do carinhoso diminutivo do poeta), IP 81.84.140.19, é óbvio que não é o que você (ou vocês, que isso é decerto muito fragmento a partilhar um mesmo) diz que desagrada, não é o se vem em dia bom ou mau, participação, complemento ou crítica.
O que me desagrada é o facto de não ter eu paciência para o aturar, esta minha impaciência irredutível. Não é bem-vindo. Daí que ficam os comentários do fim-de-semana para os hipotéticos leitores conhecerem o bicho. A partir daqui apago, sem ler sequer.
Não vou fumigar a casa, não haverá estratégia de extermínio. Abrirei o blog e usarei, até cansado, o mata-moscas. Mas sem pressas, que a rede mosquiteira da indiferença (ainda que comovida, repito) está aí.
E "juro, palavra de honra, sinceramente", desejo que você, IP 81.84.140.19, seja feliz, aquilo que ainda conseguir, porque "não quero morrer assim" como se ficou você!
E "prontos", não falo mais em comments, sobre o assunto passa a valer o lema do Ma-Schamba (infelizmente tantas vezes esquecido) "o que é que me interessa quanto pesa a prima!".
Nas andanças de fim-de-semana deparei, que surpresa, ali no Centro Cultural Português, na Nyerere, com uma bela exposição sobre a Ilha, da autoria de sete artistas da Lugar do Desenho/Fundação Júlio Resende: Armando Alves, Francisco Laranjo, Júlio Resende, Manuel Casal Aguiar, Marta Resende, Victor Costa e Zulmiro de Carvalho.
Inaugurada já a 28 de Abril passado, disse-me a menina da porta que para integrar a agenda da conferência dos ministros da cultura da cplp, e por cá até ao próximo dia 15 de Maio. A ver. Depois as obras serão mostradas na Ilha, e ainda bem, é assim que deve ser, levar o fruto do trabalho ao sítio onde este nasceu é obrigação moral nem sempre cumprida.
E diante da exposição não posso deixar de recordar este episódio.
Em 1999 estava eu na Ilha e, pura coincidência, deparei-me com este grupo de artistas e seus acompanhantes, entre os quais a equipa da RTP em Maputo, os meus conhecidos Paulo Dentinho e Rui Assubuji. Tinham eles exposto em Maputo (simpáticos, logo me ofereceram o pequeno catálogo) e ali estavam para preparar uma nova exposição dedicada à Ilha, esta que longos cinco depois agora por cá aportou.
A Ilha pequena e os conhecimentos comuns foram suficientes para que me aproximasse eu do grupo, tive a honra de uma ou outra refeição comum e até o prazer de lhes poder ser útil, alguma boleia em hora mais solarenga. Gente bela, um olhar límpido, talvez necessário para quem cria observando.
Entre outras duas imagens especiais me ficaram, e que por vezes me regressam sem que eu dê conta do porquê. Mestre Júlio Resende, então com infatigáveis 82 anos, absorto, desenhando de cócoras, sob o inclemente sol. E Zulmiro de Carvalho saltando-me do carro, entusiasmado, como se reconhecesse algo querido, ao deparar-se com uma casa de pau-e-pique mal maticada, se ainda incompleta ou já decadente não lembro, essas que oferecem espantosas texturas aos passantes (e ainda mais profundas quando à luz da fogueira).

(à esquerda): Zulmiro de Carvalho, "Sulcos" (1999); 70x50 cm; Argila c/ resina acrílica [Exposição Desenho como Dizer, 1999]
(à direita): Zulmiro de Carvalho, "Muipíti"; 40x30 cm; Fotografia preto e branco
[Exposição Viagem. Ilha de Moçambique, 2004]
Não há dúvida, há momentos de conhecimento que são de reconhecimento. Sensações, se se quiser.
Gente grande, soube ainda que organizaram uma exposição no Porto de jovens artistas moçambicanos. Tive ecos, funcionaram os amigos comuns, do grande agrado destes: Gemuce, Sitoe, Kheto, Zandamela (hoje doente) e Miro, já falecido e que por isso mesmo aqui recordo.

A esperança é a última a cair. Ainda que quase desesperada...
Para descomprimir este dia (final) nada como a auto-paródia. Para isso peço ajuda ao Elias, o sem Abrigo, um "must" in blog (ligação permanente na Aldeia dos Elos, lá no alambique).

Alguns comentários desagradáveis estão aí. Ainda que o “anónimo agreste” tenha anunciado a sua retirada quero referir o assunto.
1. Anteontem apaguei comentários. “Censura” foi dito. Não repito o que já foi discutido noutros blogs. Mas que fique claro: não se trata de censura, um blog não é um orgão de comunicação social, não tem as mesmas regras e princípios, nem a mesma responsabilidade social. Não confundamos, não sobrevalorizemos.
Mas mesmo que o fosse. Um “comentário” é, por analogia, uma “carta de leitor”. E nenhum orgão de comunicação social é obrigado (por deontologia ou legalidade) a divulgar todas as que recebe. Em especial se anónimas.
2. Foi dito que apagar críticas implica tornar os “comentários” num coro de bajulações.
Este é um ponto a abordar. Neste e noutros blogs (talvez com excepção de alguns mais politizados e polémicos) a maioria dos comentários são positivos. Mas isso tem mais a ver com a dinâmica de leitura, não tanto com os autores.
Por um lado porque os leitores tendem a visitar os blogs com que simpatizam. Gostam do que está escrito ou subvalorizam algo menos concordante. E os leitores ocasionais ou desgostosos saltam, rápida e gratuitamente para outro. Nem deixam a sua impressão enquanto os anteriores a vão repetindo. E assim criando o que não é um coro de “bajulações” mas mais uma rede de simpatias, interesses e sensibilidades comuns. Normais. Mas, e acima de tudo, legítimas. Até porque não molestam ninguém.
[a net não é a vida, mas permito-me mais uma analogia: será que um grupo de amigos com hábitos convivenciais é um “grupo de bajulação”? Caramba, que mundo seria esse?]
Por outro lado porque é mais fácil e rápido para o leitor, habitual ou episódico, deixar um “gostei”, “bom post” do que o “não concordo, porque...”, e exactamente por esse “porque...” a que a discordância apela, e que em princípio se realizará apenas em casos mais extremos. Digo-o por mim, mas presumo não ser por demais arriscada a extrapolação.
3. Isto nota-se nos “comentários” ao Ma-schamba. É óbvio que o elogio é agradável, mas as críticas são bem-vindas e algumas estão por aí. Entre elas lembro uma, radical, e que me deliciou (masoch?): uma leitora que pegou na epígrafe do Nassar dizendo do seu pesar por não ser ela cumprida (até que enfim que alguém pegou no paradoxo).
Na anterior morada do Ma-Schamba não havia comentários e eu não sabia como colocá-los, tinham-me “mobilado” a casa. Os comentários (poucos) chegavam via email. Um dia um leitor (adivinhem quem) denunciou-me um erro ortográfico, eu tinha acentuado “cajú” (erro que vim a repetir, ainda para mais). Agradeci, emendei e anunciei. Cometo crimes ortográficos? Sim, culpado.
4. Um leitor escreve, desabrido, criticando-me os temas abordados e dizendo que nunca mais voltará devido a esse péssimo critério, e que partirá para mais cultos blogs. Aceito, respondo com a elegância possível. Que fazer? Passados tempos ei-lo que volta, de novo reclamando sobre...os temas abordados.
Se não gosta porque vem? O Ma-Schamba não é orgão oficial, não se reclama de nada a não ser o meu diário público. Não tem mais nenhuma representatividade, não reclama outras responsabilidades ou legitimidades. Não está a ocupar o espaço de ninguém, é isso.
Apesar dos temas fica e critica. O conteúdo? Não. As opiniões? Não. Critica o que entende serem erros, erros ortográficos, sintácticos, semânticos, e deles retira (e publica, anónimo) conclusões sobre a minha legitimidade profissional, sobre as minhas características pessoais: um arrivista, um bêbedo, um incompetente. Escritos que aí vão ficar, desisto de apagar! Para quê?
Mas não vou deixar passar, mesmo que possa parecer auto-justificação. Porque o meu nome está aí a levar com os ditos do “anónimo agreste”. E porque há pessoas a passarem por aqui (o webalizer diz cada vez mais, 380/dia, o site meter diz cada vez menos, 70/dia, contagens esquizofrénicas, mas nem que fosse só uma visita).
Posso ser professor? Que o julguem os pares e os alunos. Não um anónimo. Sou um cidadão respeitável? Que responda alguém, mas não anónimo.
Sou um verme por escrever “doacção”? Olhe bem para a palavra, veja se lhe é estranha, sff. Quem perceba um bocado de psicologia, quem escreva a sério num teclado não se interrogará? E, já agora, quem tenha escrutinado todo o Ma-schamba com “cajús” e tudo não se poderá interrogar? Ou concluirá de imediato que é um imbecil ou um ignorante a escrever? E mesmo que erro seja, será critério definitivo?
Sou um verme por escrever “tão mais”? Que me desculpem até os comentadores concordantes. O Ma-schamba não é um texto oficial, académico. O Ma-schamba está cheio de coisas destas. Eu falo assim quando quero (e posso), uso o tão mais para enfatizar (já agora, arrasto o “tão”) e aquilo está ali a narrar uma conversa, em casa. Onde falo como quero, cheio de coisas destas. Que é isto, polícia cá dentro?
Sou um verme por escrever “lembrando e usando” e de seguida “Hoje aqui invoco, lembrando-lhe ainda...” para alguém aqui vir dizer que não sei a diferença entre evocar (lembrar) e invocar (apelar – donde para uso), quando é óbvio e explícito que estou a apelar? E dessa sua (tres)leitura permitir-se a retirar públicas conclusões morais?
Que sanha persecutória é esta que nem permite compreender os textos? A que se deve? Conhece-me o homem, fiz-lhe alguma? Que o diga, mas não anónimo!
5. Está o “anónimo agreste” preocupado com erros ortográficos, sintácticos, semânticos? Desvarios temáticos? Ou com a minha pérfida influência nos cidadãos moçambicanos? Ou com o desgaste por mim provocado na imagem nacional?
Talvez não tanto. Aí regressado de Moçambique está mesmo preocupado comigo porque estou por aqui, porque “Prefere o camarão descascado a preceito, acompanhado da cervejola - ao bom modo do tuga que de repente se vê vivendo à tripa forra...”, até porque “dono de 4x4”.
Basta. Porque chega. Porque evidente. Porque ainda que o caso possa ser humanamente compreensível e até lamentável transfigura-se aqui numa indignidade. Inadmissível.
Censura? Não. O direito ao bom nome.
Fim. E Foda-sse (e agora digam-me que não é com dois "ss")!!!

Nos trinta anos do 25 de Abril de 74 pouco ou nada se falou do almirante tão presente no processo de garantia da democracia.
O qual hoje aqui invoco, lembrando-lhe ainda as palavras dedicadas à turba frustrada. Porque há limites para a compaixão face aos pobres diabos. E para médio entendedor chegará.
Pequeno comentário de emigrante ao entrever o telejornal da RTP, a dizer à mulher: sabes, há tão mais informação sobre Portugal nos blogs do que na tv ou jornais.
Talvez não, mas daqui de longe parece.
PS (não resisto): no final do telejornal José Alberto Carvalho continua (estóico?) a despedir-se de "todo o mundo português". Valerá a pena continuar a protestar?
Há já uma dúzia de anos frequentei um curso universitário interdisciplinar. Um dia o professor de sociologia, hoje bom amigo e que tem memória do episódio, passou-nos um exercício: que nos auto-classificássemos quanto à classe ou estrato social (era optativo) a que considerávamos pertencer. Foi bonita de ver a elevada auto-percepção que alguns colegas tinham. Face à panóplia de indicadores que nos davam para proceder à classificação eu, e muito apropriadamente como o futuro veio a comprovar, apresentei-me como lumpen-burguesia.
Lembrei-me disso hoje ao ler esta interessante pequena reflexão sobre classe sociais americanas colocada por Luís Nazaré no Causa Nossa. Texto (re)citado e (re)comentado [no Causa Nossa entendo que a mera citação é por si só comentário, e não me parece forçada a consideração] no Liberdade de Expressão, de João Miranda.
Se tiver paciência vá ler o pequeno textp. Interessante em si mesmo, mas também pelas múltiplas e legítimas leituras que um mero trecho permite.
Por isso mesmo, e se o leitor gostar da dicotomia analítica "esquerda-direita", permito-me desafiá-lo para um pequeno exercício (sem querer emular o tal meu antigo professor): leia a este propósito os dois blogs e encontre "Onde Está a Esquerda"?
Na Aldeia dos Elos tinha já as minhas "missões". E eis que hoje encontro um literal blog de missão, o LMC Tanzania, escrito a partir da Missão dos Missionários da Consolata em Mgongo, por Teresa Silva. E publicado em forma de News Letter. Ainda só li as últimas mas apresto-me, "ateu confesso", a elá-lo. Interessante como janela para uma missão, aqui literal. E não tão habitual como isso, ainda para mais em português.

Faróis de Moçambique, de António Sopa e Laura Chirindja, editado pela Ndjira em 2000. Um levantamento histórico e exaustivo sobre os faróis do país. Lembro-me que alguns anos antes da edição deste livro visitei uma exposição realizada pelo incansável Sopa sobre este assunto. Será talvez obra para marítimo ou coleccionador, mas é belissima. E também talvez metafórica, tanto mar para iluminar.

As Duas Sombras do Rio, de João Paulo Borges Coelho. Uma edição simultânea Ndjira/Caminho de 2003. Uma primeira obra ficcional que é, em minha opinião, a melhor prosa de toda a literatura moçambicana. Um cruzar de personagens sobre o Zambeze, um cruzar de contista com cinema. E, já agora, sem realismo mágico. Inventei-lhe um magicismo realista que muito mais me dá (a mim claro, falo só de mim) prazer.
Sobre este livro aqui tombou, com a excepção do texto do Francisco Noa à altura da sua apresentação, um radical silêncio. Interessante, mas nada intrigante, coisas da sociologia. Mas vai-se vendendo o que indicia o mais importante: vai-se lendo.
Gosto imenso do começo, aqui o transcrevo. E é um despudorado aviso às visitas para que vão ler o livro, se ainda o não fizeram:
"Leónidas Ntsato piscou os olhos. A fita negra da margem alongava-se na vertical: à esquerda, o céu azul brilhante; à direita, com uma cor quase idêntica, o rio fugindo para o alto. Subindo essas íngremes águas avançava penosamente uma almadia mas estava demasiado distante para que ele pudesse reconhecer o remador. Só o seu casco escuro cuja nitidez contrastava com o reflexo trémulo que fazia nas águas - tudo vertical, as duas manchas solidárias trepando para o alto"
Dentro de uns meses será editado um segundo livro, "As Visitas do dr. Valdez" (?). Ainda melhor, se se pensar em consistência literária. E um belissimo traçado sobre o final de uma era, sem o ser ostensivamente, uma bela maneira de avançar sobre as coisas.
De quando em vez o Isidoro de Machede apanha o teclado para Moçambique, em curta torna-viagem. Vão lá partilhar-lhe a mesa, hoje está na Namaacha.
O guiar para longe tem isto, o deixar pensar, bem rápido e até consistente, consistente com a rotação do motor, pensar atalhos imprevistos, picadas mesmo daquelas das rudes, semi-destinos ali abruptos, atrevimentos por vezes e, sem querer, derrapagens. (e que nunca se me rebente um pneu no entretanto...)
Neste quase ontem, a terminar semana pouco-pouco, dei-me conta nessa via dos quase amigos, coisas mais acontecidas a quem se viajou, assim longe do cúmplice lá de jovem, esse que, ainda que nos custe, pode cansar e mesmo aborrecer mas não trair, tem lá ele como?
São estas coisas de quem andou, aqui e ali, a reconfortar-se em mesas, as do come mas mais as do bebe, deixando-se por quem há-de par parecer talvez só porque vindo lá de onde viemos. Para só depois lembrar que origem não é sítio, nada disso, digamo-la outra qualquer coisa (que nem olhar limpo será, tanta lente obscura afinal por aí).
E vejo-me a cair nas covas, direcção até empenada, óleos desperdiçados, pois que afinal dos “nossos” não estão só aqueles dos melhores. Que o caminho parece difícil e, sem dúvida, tanto temem eles que não lhes chegue o seu quinhão de estrada ou, se calhar, é mesmo só medo que o “dono” nem a todos venda o diesel.
São batidas estas para as quais não há seguro, e que o houvesse pois a franquia seria decerto elevada. Destas têm-me sucedido no ano a ano. Distracção ou as artérias já rijas a demorarem reflexos? estupidificado ou no quase-doença? Pois como explicar este assim, tantos anos de carta e tão iludido na estrada?
Paro no caminho, Malelane que é quase lá, um novo Rothmans exigido e, já agora, o café de malga, e ainda o jornal “lá de cima”. Que está ali ladeado de revista tão colorida que logo esta me acompanha até à mesa para me deixar distrair, página a página regressando-me a um tão novo.
Tenho ainda que voltar à estrada. Chego-me ao carro, este musso já velho, meu burro de pança nem mais. E não deixo agora de sorrir a todos estes seus amassados, todos os riscos, mesmo peças em falta, afinal tão pequenos tudo isso. Todos nós. Tão mesmo que só merecemos sorriso, para quê algo mais sob este céu,

ainda para mais céu num hoje de tantas fotos para que não o esqueçamos se no nosso bulício.

Para quem tenha apreço pelos postais antigos que aqui vão sendo postos de modo avulso (e serão) quero lembrar o belissimo livro "Memórias de Moçambique" de João Loureiro, editado pelo próprio autor em 1997.
Uma cuidada edição que inclui 313 postais sobre Moçambique datados entre 1895 e 1975. Excelente trabalho, tal como as outras obras de semelhante teor que este autor vem publicando.
Como era Lourenço Marques há 50 anos , memórias do colono José Correia da Veiga pela mão do jornalista A. Rosado (1949). Fotos de Louis Hilly, Lazarus, e do dr. Ângelo Ferreira
O início da cidade colonial, um retrato da sociedade à época. E aí presente a iconografia da conquista. Eis um grupo de cidadãos integrantes de uma "legião estrangeira defensores da cidade contra o Gungunhanha". Nele pontifica o fotógrafo Louis Hilly (1º à esquerda), presumo que a foto seja um auto-retrato encenado, ou gostaria que assim fosse.
Daí que aqui fica pois os fotógrafos, tal como os vencidos, quase nunca são (re)vistos.


Como era Lourenço Marques há 50 Anos, texto de A. Rosado sobre as memórias de José Correia da Veiga. Edição do jornal "Notícias", integrada na série "As Grandes Reportagens do Notícias". Composta por um conjunto de textos inicialmente publicados no jornal. Edição de 1949.
Um detalhe sobre o início da cidade colona, arquitectura e vida nos finais do século XIX e alvores de XX. Pena que a impressão das várias fotos seja frágil, o que obsta à sua reprodução aqui. Aqui fica memória do início da cidade automobilizada

Em adenda a anterior desabafo: não há dúvida que olhando para o percurso passado da indigitada se poderá perspectivar uma inflexão pró-cultural, mais até do que seria imaginável. Assim seja.
Vá ler isto, que é uma delícia e uma ternura (e não lhe tomará muito tempo).
Mais difícil ainda do que o saber perder é a virtude do saber ganhar. Horrorizam-me aqueles que somam à vitória o rogar de praga futura.
...Os que nada tinham olhavam para os outros e refugiavam-se no interior das cubatas, esperando que melhores dias chegassem. Luandle, que nada tinha além da terra seca e morta, olhava com dó o filho que se alimentava de areia e ervas nunca comidas que mataram famílias inteiras e obrigaram os homens idosos a voltarem à prática dos tempos imemoriais em que tudo experimentaram, autorizando depois as mulheres e as crianças a comerem antes de descobrirem que os macacos bem serviam de guias em certos produtos. E já que os macacos emigraram os homens tiveram que experimentar tudo, arriscando-se à morte ou a uma diarreia interminável...
(Ungulani Ba Ka Khosa, Orgia dos Loucos)
Já aqui antevi a conferência de ministros da cultura da CPLP. Aconteceu em Maputo a semana passada.
Por isso Gilberto Gil esteve cá. E deu-se ares de intervalar o seu ministério, com espectáculo de ambiente bem descrito por este normando.

Lá fui eu, feito penetra no "todo o maputo" ver o concerto do músico que também é ministro. Por meros 50 usd direito a um bilhete que me disse VIP.
Uma maçada afinal, quatro grupos antes, mais discursos ao princípio, criancinhas a agradecer o apoio mais senhoras bem intencionadas e tudo o mais. Um festival, que fui suportando fugido no vizinho África bar, este primeiro vazio depois enchendo-se de enfastiados.
Para mais o pior som que já ouvi em alguma produção Conga. Mas finalmente, já quase pela madrugada o músico que também é ministro. Ainda mexe um pouco-pouco apesar de pré(?)-sexagenário, a voz ainda vai lá, algum requebro. Dia dos grandes êxitos, mais o Marley aqui e ali. Música um bocado arrockada, um guitarrista cheio de tiques, mas isso não é coisa nova no Gil que eu (des)conheço. Enfim, aqueceu um bocadito, sem deslumbres, até porque o sentido crítico se vai desvanecendo na escassez de espectáculos.
No final, e como é aqui o costume (e bonito, acho eu), o representante do poder subiu ao palco para saudar os artistas. Pode confundir alguns estrangeiros, mas aqui é assim. Nesse dia foi a primeira-ministra, Luísa Diogo, subiu para saudar o músico que também é ministro.
Aí, e contrariamente ao que aqui é costume, o artista deu-lhe o microfone para que pudesse ela "falar ao seu povo". Ah, afinal ali estava mesmo o ministro que também é músico - e não o contrário.
Luísa Diogo foi uma senhora, apenas agradeceu o concerto. E isso deve ter lembrado a Gil que já foi só músico. E que ali o era. Talvez!
A fazer as malas (a tal ida para o Mpumalanga) entrevejo no telejornal a demissão da presidente do instituto camões, logo seguida das declarações "socialistas" criticando a falta de uma política de cooperação.
No regresso leio no JN e no Público desenvolvimentos do assunto. Interesses de emigrante, está-se mesmo a ver.
É madrugada e o apontamento não pode sair burilado. Mas ficam alguns esquiços (nunca de Mileto, Francisco, nunca de Mileto!).
1. não tenho nada a ver com os critérios jornalísticos do Público. Mas se repararem a notícia dessa demissão vem na secção "Cultura". Erro ou sobrevivência? Pois deveria ter sido integrado na secção "Educação". Pois há muitos anos que o Camões não é um instituto de cultura, mas quer-se sim como um instituto de língua.
Dirá algum leitor: mas como é possível distinguir língua de cultura, que bloguista imbecil. Pois o bloguista também pergunta.
2. quem não se quer "de cultura" não faz cooperação cultural. Isso é óbvio, silogismo. Aliás nem sequer sabe o que é cooperação. Nem procedimentos, nem ideologia, nem atitude. Ou seja, desprovido de tecnicidade e de ética (ou cultura profissional se o leitor se assustar com a "ética")
3. se não faz cooperação cultural que faça acção cultural externa - o que é absolutamente outra coisa. Produza ou induza. Por aqui vindo daí nada! E por aí?
4. a dirigente socialista Ana Gomes critica ainda o camões porque tem muitos funcionários e não funciona contrariamente às fundações que com meia dúzia de pessoas obram imenso.
Terão os funcionários brotado expontaneamente? Ou foi a Prof. Stock que os impingiu?
Não sei se a ex-presidente foi bem ou mal, não tenho meios de o saber, nem a minha opinião sobre o assunto interessará.
Mas a este propósito só posso espantar-me diante desta gente, desprovida de retrovisores, tão lestos a esquecer (pintar?) o passado, como podem eles querer guiar algo, e ainda para mais um país?
5. fugindo ao instituto camões, apenas uma nota, que nem um blog inteiro chegaria para esgotar o assunto. Como podem vir os socialistas criticar a falta de "uma política de cooperação"?
Quem quis centralizar tudo no Instituto da Cooperação Portuguesa (hoje IPAD) (o que seria "o caminho") e não o conseguiu em legislatura e meia.
Mas também quem quis centralizar tudo no Instituto da Cooperação Portuguesa (hoje IPAD) e o dotou de uma lei orgânica impeditiva.
Mas também, e mais do que tudo, quem quis centralizar tudo no Instituto da Cooperação Portuguesa (hoje IPAD) e fundou paralelamente a APAD, agência que tinha os fundos financeiros disponíveis, inibindo, impossibilitando, cerceando todo o caminho que apregoavam.
Esquizofrenia governamental? Autofagia?
Perguntas que um blog a céu aberto não pode responder. Pelo menos o meu. Basta-me, ligado à cooperação, arrepiar-me. Não de luto, mas do seu sinónimo. Mas limpo, pois para tal basta nunca poder ser "socialista".
É tardissimo, vou dormir. Mas o descontraído do fim-de-semana morreu-se. Caramba, maldito blog!
Cooperante contratado, era o que me faltava botar discurso sobre medidas tomadas no ministério que me abona, ainda que noutro organismo que não aquele ao qual respondo. Suicidário não!
Entenda-se, acredito que o Estado português é democrático. Posso, se assim o entender, criticar o governo, os ministros, o estado da arte. Posso resmungar, no café, no partido (se o tivesse), no blog, no jornal, até "anunciar na TV". Pequenino, ninguém se aborrecerá. Mas botar faladura sobre assuntos e gentes mais próximos de quem me manda, mesmo assim pequenino, nada feito, há-de sobrar algo.
Entenda-se, e bem, falo do Estado, não de um qualquer governo.
São as coisas de blogar a céu aberto.
[O Ma-schamba começou incógnito (mas não anónimo, era só perguntar o nome) para não ficar clube de amigos. Quando me irritei com umas politiquices portuguesas e botei opinião assim tipo resmungo meti-lhe o nome.
Acho que é legítimo escrever anónimo ou mascarado. E mais, acho óptimo.
Mas também acho legítima a minha irritação com quem está dentro dos sítios a escrever anonimamente (apenas incógnito para os amigos?) botando faladura sob agenda própria ou partidária. É legítimo? É! Mas, e repito-me, irrita-me. Por isso me irritam esses blogs pré-socráticos - que me desculpe a discordância o professor da aldeia, se aqui vier]
Exagero? Não, conheco duas pessoas que perderam os empregos nos últimos anos por terem escrito ou reenviado emails criticando as suas tutelas. [É um facto que surge horrível. Mas também me pergunto, como se pode trabalhar em/com se se está visceralmente contra? Enfim, teias que o funcionalismo público tece]
É bonito? Nada, mas são as regras do jogo. Qual jogo? O jogo do leite da Carolina e da ração da Joana. E do meu whisky novo. Vá lá que a Inês se amanha sozinha, e bem melhor do que eu, valha-nos a sua cabeça.
Fim de preâmbulo.
É sabido que na África do Sul se come mal. Ou seja, come-se muito. E coisas boas. Bela carne, sim senhor. E toda a outra tralha, sim senhor, que tudo aprenderam a copiar com o bloqueio, e com honesto arreganho. E com tamanho apetite são generosos na oferta.
Mas, coitados, não são muito dados à cozinha. É mais botar na grelha e alongarem-se em molhos lá para cima. Químicos, claro. Não são muito dados a preliminares. Na cozinha, pelo menos.
Daí que ando há meses para notar uma muito honrosa excepção. Ali à capital do Mpumalanga, um vale que tem vindo a crescer a olhos vistos, regionalização de lá, alguma paz racial ainda, e o dinheirinho aqui de Maputo, tudo isso a fazer crescer essa Nelspruit.
É chegar via Maputo, nem entrar, virar à esquerda entre o Mr. Price e o Valência. E subir poucochinho ao Bambu Azul. Comida cozinhada, imaginação até, paciência também, um toque de exótico. E sala arejada, decoração assim modernaça, quase como lá na Europa. E, dizem, bar à noite com ar de divertido. Ah, adega. Adega. Requinte por estas zonas.
The Blue Bamboo. Em terra boer, quem diria.

Pois, agora que já tomei o duche, que estou mais calmo...
Pois, agora que já tomei o duche, já posso pensar no futuro. Na próxima época.
Algo terá que mudar. Ou sairão o Carlos Martins e o Rodrigo Tello, por não terem valor para ser jogadores do Sporting. Ou então não sairão, porque têm esse tal valor. Nesse caso tem que sair quem anda enganado. Por mais "ingrato" que seja...
[Prognóstico de meio do jogo, e absolutamente nada original. Que coisa, a meter-se pelos olhos dentro, todos nós Gabriel Alves]