O Naufrágios acaba de colocar mais dois textos sobre a exploração do património histórico subaquático nas costas moçambicanas, realizada pela empresa "Arqueonautas". Ecoando o Mediafax de sexta-feira com a posição dos arqueólogos moçambicanos, e um artigo na última Grande Reportagem, onde mais uma vez se denuncia a cumplicidade do auto-proclamado pretendente ao trono português nesta malfeitoria.
Já aqui me referi à hipótese de estabelecer uma política de arquivo bloguístico, tendo ainda voltado de passagem ao assunto a propósito do não-caso da "chacina de blogs".
Nesse primeiro texto que dediquei ao assunto Pedro Guedes do Último Reduto [eis como a "blogosfera" pode permitir que pessoas com tão diferentes pensares se leiam mútua e naturalmente] comentou que José Pacheco Pereira já tinha escrito, alertando para essa possibilidade ou necessidade. Costela de historiador, claro está.
Neste mesmo sentido recomendo o esclarecido texto que o Adufe acaba de dedicar ao assunto, bem como os comentários posteriores, que da polémica retiram esclarecimento.
Por mais que não fosse Eduardo Cintra Torres, cronista/crítico de TV do Público, ganhou direito a nome de rua suburbana e bustozito no passeio com o artigo da semana passada sobre o casamento de Filipe Bourbon e Letízia Ortiz. Agora auto-promoveu-se a praceta via excelente e clarividente "O Futebol como Parte do Sistema Político"
NOTA: os jornais costumam retirar o acesso aos artigos. Como li algures o que nos blogs se consegue fazer são apenas "elos efémeros" (como se isso não fosse a condição de qualquer elo). Assim passo a copiar os artigos que decidir ligar, e a colocá-los no texto, qual (extensa) nota de rodapé.
O Futebol como Parte do Sistema Político
Eduardo Cintra Torres
Público, 30 de Maio de 2004
Na semana passada participei no Rivoli Teatro Municipal do Porto num colóquio incluído no original ciclo cultural Pontapé de Saída motivado pela realização do todo-poderoso Euro 2004 em Portugal. Referi que quase tudo o que sei de futebol sei pela televisão. Não jogo, não frequento, não leio imprensa desportiva, não oiço rádio desportiva, vejo poucos jogos na TV, não sei conversar sobre o desporto. O que sei é pelos noticiários televisivos, pelos jogos que vejo, por pedaços de programas, pelo zapping.
E que me ensina a televisão sobre o futebol? Que o futebol é economia, que é sociedade, que é sociabilidade, que é ideologia. Também é espírito, o sonho do amanhã que canta para a multidão que ganha ou perde. E exemplifiquei dizendo que: os adeptos do Benfica aguentam esperar oito anos pela próxima vitória; os adeptos do Sporting aguentam esperar 17 anos pela próxima vitória; e os adeptos do Futebol Clube do Porto (FCP) aguentam esperar pelo menos uma semana.
Meu dito, meu feito, eis que quatro dias depois o Porto inunda a pátria com a sua fantástica vitória na Taça dos Campeões Europeus. As emissões da televisão portuguesa, em especial o non-stop da RTP1, confirmaram a última dimensão do futebol que referi no Rivoli: o futebol como política.
No excelente artigo "Glória e Servidão" ("DN", 28.05), Manuel Villaverde Cabral sublinhou como a glória do êxito do FCP tem como reverso a servidão da política: "o poder político, cada vez mais desenraizado e distante das populações, faz tudo o que pode, mesmo o que não deve, para tirar partido da paixão popular pelo futebol e da efémera glória colectiva que ele traz de vez em quando. E é assim que o futebol se transforma numa forma de servidão política, como mostram a corrupção nas autarquias e o financiamento partidário."
De facto, a intersecção futebol-política é ainda mais profunda do que o aproveitamento repetido das glórias da bola pelos governantes e oposição e do que a promiscuidade entre o pessoal que ora transita ora se mantém nas duas actividades (Santana, major, Seara, etc).
As intervenções da esfera política no jogo do FCP são sinais de como o futebol foi integrado na esfera política: o chefe do Estado fez-se representar pela mulher e falou cá de imediato pela TV sobre a vitória como metáfora do futuro político do país; o primeiro-ministro adiou uma visita de Estado ao México para fazer uma outra visita de Estado, aliás, uma "visita de estádio" a Gelsenkirschen; a deputada Manuela Aguiar queria dispensa de falta no parlamento, fazendo da deslocação ao jogo uma tarefa de representação política; Ferro Rodrigues, Deus Pinheiro e outros políticos saudaram a vitória numa colagem habitual aos êxitos da nova religião do povo. E não esqueçamos a imagem de Guterres com um cachecol da bola numa reunião da União Europeia e a excursão parlamentar e governamental a Sevilha.
São sinais que resultam de o futebol se ter transformado numa nova religião, uma religião laica, com a sua ideologia, a sua fé, as suas massas, as suas cerimónias e ritos, as suas "catedrais" e clero, a sua economia. Não admira que a Conferência Episcopal portuguesa tenha alertado há meses, em invulgar comunicado, para o peso excessivo que o futebol vem assumindo no país: o futebol é, de facto, a única crença e instituição que pode tomar o lugar do catolicismo na sociedade portuguesa.
Trata-se de uma instituição talhada para assumir proporções gigantescas no Estado e, portanto, inscrever-se como parte do sistema político, precisamente por ter dimensão nacional (a televisão transformou o FCP, bem como outros clubes, em instituição nacional, pelo que a sua vitória foi, segundo políticos e populares, "de todos os portugueses", como Soares dizia de si mesmo; há alguns anos esta nacionalização ideológica de um clube seria impensável).
Apesar dos conflitos entre clubes e seus adeptos, o futebol une a nação: une pobres e ricos em torno do mesmo tema, o único possível para esse diálogo; une os portugueses até nas divergências, pois no futebol mesmo o ódio fornece uma linguagem comum a todos, que substitui a da religião. Ora, ao fazê-lo, o futebol fornece muito do que é necessário para se manter a coesão social. Em democracia, a política precisa dessa única linguagem comum na sociedade, e por isso apropria-se dela.
Além disso, o futebol substitui o debate sobre os problemas sociais, económicos e políticos, o que é um alívio para todos os políticos, nomeadamente para os que estão no poder. Se o povo falasse de política como fala de futebol nem os do Bloco de Esquerda tinham descanso perante a descoberta das suas carecas, quanto mais os partidos da área do poder governativo.
O futebol é tanto mais importante quanto mais alegrias fornece aos adeptos ou à nação, e quanto mais elas forem as únicas: o poder político tem de dar ao futebol gastos mirabolantes com estádios, permitir-lhe incumprimentos fiscais, etc.
Ao ser ideologia nacional, e, por isso, colocar-se acima da própria política, o futebol ganha estatuto de religião política, dado que a fé, como a pátria, não se discute (já dizia o outro). E por isso o futebol ocupa o espaço generalista televisivo sem contestação nem debate. A transmissão que a RTP1 fez em torno do FCP na Taça dos Campeões Europeus, que só por acaso não ocupou 24 horas consecutivas, revela o lugar que o futebol tomou nesta ideologia nacional deliberadamente assumida pelos políticos e pelos responsáveis dos canais, incluindo do Estado. A transmissão da RTP1 foi, como o foram as mais curtas na TVI ou na SIC, uma emissão política. Tratou-se de unir a nação, de aumentar a auto-estima, de iniciar a retoma, como disse Sampaio entre o irónico e o patético, sendo o FCP (e a televisão) o instrumento que o sistema político utiliza para proferir esse discurso.
Em termos históricos, nada disto é novidade. Na Grécia, o desporto era iminentemente político, símbolo e orgulho da cidade e concretização da paz entre as cidades (hoje o futebol substitui as guerras e a luta de classes com enormes vantagens para toda a gente). E em Roma o desporto era "oferecido" pelo Estado ao povo em arenas à época tão perfeitas como hoje a de Gelsenkirschen. A diferença é que hoje se ilude a inserção do futebol no sistema político. Porque hoje o próprio futebol é política, ele faz parte do sistema político. Este facto não foi assumido pelas instituições do Estado e pela reflexão das elites, criando-se contradições aparentemente insanáveis na esfera pública.
Algumas pessoas têm escrito sobre esta mania dos postais, como adquirir, saudando o gosto, etc. Ora sobre isso eu sou um mísero amador, desprovido de colecção e de conhecimentos. Quem é mestre do assunto e do bom gosto é João Loureiro, autor de vários livros sobre o assunto, já aqui o referi. Descubro, apenas hoje, o seu sítio.
Para os interessados aqui fica: Memória Portuguesa de África e do Oriente.
Não resisto a realçar o excelente gosto do Isidoro de Machede a lembrar(-nos) Fernando Galhano. Bem haja, como antes se dizia.
Algumas ligações a blogs sobre África dos quais agora tomei conhecimento. Colocados nos "Vizinhos" e nos "Dos Tempos...". Sem desprimor para ninguém fico de olho mais atento nas fotos prometidas pelo Madalas de Moçambique (passe o pejorativo do nome).
NOTA: o Carlos Gil informa que o, para mim até agora desconhecido, Madalas de Moçambique é uma continuação, devida a uma mudança de endereço. Diz ele "O blog 'Madalas de Moçambique' (e aceitando como pacífico que o José Esteves não teve intenção pejorativa na escolha do nome) tem, na sua 1ª versão com espaço de MB esgotados pelas fotos, o seguinte link.
Agradeço a informação. E acrescento, já agora, que o meu "pejorativo do nome" apenas se prende com o facto do "madala" (velho) não ser respeitoso se aplicado no tratamento directo. Pelo que a minha pequena ironia teria sido melhor entendida se tivesse escrito "auto-pejorativo do nome". E só!
[aí estão eleições no meu país. Aqui deixo um texto velho - como todos os "Roupa Velha" que aqui ponho, prontos às teias de aranha do "Arquivo". Escrito na noite das últimas eleições legislativas e logo enviado para aquelas dezenas de amigos/conhecidos que costumava então assaltar via email assim despejando-lhes os meus textos, um blog artesanal, um blog ao domicílio, um blog atrevido, um blog sem o saber...
Texto envelhecido, claro está, como qualquer desabafo de época. E poderá levantar a questão: é a administração PSD melhor do que o PS? Francamente não posso julgar em absoluto, mero cidadão emigrante. Quero crer que sim. Os meus votos que o seja, nem que "para pior já basta(va) assim"!
Mas para mim tem pelo menos uma enorme vantagem: viajam menos para Maputo. E chega.]
NOITE DE ELEIÇÕES
É bom o clima por aqui, em especial em Maputo que é temperado o q.b., não arrasa os europeus. E são bonitas as árvores, e então naquele tempo das folhas vermelhas nem vos digo, e mais ainda a baía, com a xefina e a inhaca à frente da varanda. Come-se bem, em especial o peixe que é fresco mesmo que não muito variado, e os mariscos, um camarão recomendável e um caranguejo ímpar. E há tempo, mesmo que em corrida, fica sempre um bocadinho (arrastem o "dinho" s.f.f.) para parar, olhar, disfrutar. As mulheres são muito bonitas, como o devem ser em todo o mundo, mas aqui faz calor e passam gingando, naqueles vestidos quase justos, feitos de chita que o dinheiro não abunda, e tudo isto é belo, e apaixona.
É o burguês em África !(se se cegar à outra enorme face da moeda, mas isso não é para hoje). Tudo isto chama as visitas. Comprendo-os bem, eu fui-me deixando ficar.
Até há uns 30 anos isto foi nossa colónia, toda a gente o sabe. Mas nem todos se recordam que já não o é, quantos o esquecem neste dia-a-dia, e nisso ajuda-os a língua que julgam comum. Diz-se que quando daqui saímos houve notícias na TV e até nos jornais, mas já foi há tanto tempo! Será por isso que todos os que chegam perto do Poder, ou até menos perto, todos os que chegam “lá” sentem a urgência de “cá” vir, “cooperar” dizem, ajudar, realizar, mandar. Terá tudo a ver com esse primeiro parágrafo, ali em cima, mas também tudo a ver com este último.
Pois chegados ao governo é-se lá alguém se não se viajar em África, por lá fazer algo por esses queridos Palops, sempre tão nossos amigos e expectantes? Ou melhor, se não se prometer algo em África? Não há dinheiro para isso?, não há problema, vai-se até lá, assinam-se os protocolos da ajuda, põem-se nos papéis todas as boas intenções, tira-se a fotografia, praxe claro está, e depois, bem depois, ver-se-á lá pela Europa onde deve haver fundos disponíveis. Oops, não veio dinheiro de Bruxelas? Não faz mal, não se diz mais nada, isto vai andando assim até à próxima visita, e então torna-se a assinar o assinado...entretanto manda-se lá fulano, aqui do ministério qualquer ou semelhante, leva as ajudas de custo e ainda há-de trazer o relatório e etc. e tal.
No meio disto tudo passaram-me cinco anos aqui, muitos camarões, imensos caranguejos, milhares de chamussas, alguns gins e afins. E falares distendidos, que o clima ajuda, os comes idem, e os gingares ainda mais. E com essa gente mais do que tudo germinam conversas sobre o Portugal deles, que é certo que cá vêm mas o seu interesse por Moçambique é bem pouco, vê-se bem que à maioria dos que vão chegando a cabeça (e as estratégias, e as estratégias) não saíu de lá, aqui aportam só os corpos, ai, ai, mas não vêm cantar o “Mãe África”, é mais o “ó prima, anda cá!”.
E com isto tudo falam, vão falando, abrem-se enquanto nos olham num “estamos juntos” que aqui aprendem, como se por cá estarmos tenhamos que ser do clube deles, ainda que por estas bandas a jogar nas reservas. E foram assim imensas as conversas sobre aí, com essa gente do poder, a maioria mordomos do poder é certo, mas nem percebem que comem na copa. Gente boa alguma, gente distraída outra, e gente má, muita. Dizia o Padre Américo que não há rapazes maus, e devia ter razão, o problema é que crescem.
Cinco anos, dizia eu, com tanta conversa, sobre eles próprios e os seus. Sobre o país que gerem. E sobre os outros...E nós a ouvir e, claro está, quantas vezes a pagar a conta pois, coitados deles, é tão notório que lhes é pesada a mão quando tem que avançar para a carteira. Analítico, e nunca elitista, ainda me pergunto, será essa uma doença desta gente emergente, agora doutores? Ou apenas um mal socialista?
Por isso tudo nesta noite de eleições, agora que houve o ontem, aleluia, brotam-me as perguntas, algo confusas e até em catadupa. Mas acabam todas nesta:
Mas que raio, será a higiene a última das ideologias? Ou apenas o alívio?
Rejuvenesço-me nesta madrugada, tanto que até me vem à cabeça o que o Bowie cantava (há já tantos anos), “calcem os sapatos vermelhos e dancem o blues”. E lembro-me deles todos e rio-lhes um dancem agora...”Toca a dançar”
Março 2002, dia seguinte às eleições legislativas
No Oeste Bravio Filipe Castro com mais uma achega para desmontar a credibilidade (???) dos piratas Arqueonautas.
Há uns meses o filho de um antigo presidente do meu Sporting foi condenado a pagar uma multa por ter praticado "inside trading": se bem me lembro era cerca de seis vezes menos do que aquilo que tinha lucrado com a operação ("anunciado na TV").
Espantei-me. Pois fiel ao lema "o crime compensa". Pois praticado num país onde a ladaínha da corrupção africana serve de lama no espelho para tapar um pouco do luso-lixo.
Afinal...vá lá, vejo aqui que há (alguns) juízes honestos no meu rincão.
Cabinda e Nigéria em discurso directo no sempre atento Ecletico. Para se começar uma semana com menos futilidades.
Visitando blogs para mim desconhecidos deparo com um interessante: Apenas um pouco tarde, de Manuel Jorge Marmelo.
No qual encontro uma deliciosa contradição, logo ali na página de entrada.
Lamenta o autor com evidente desconforto, e mesmo denotando alguma vergonha, a procissão, coisa pré-moderna e tão de "atraso", ainda por cima nas barbas do vizinho inglês. E aqui soprando até um tique provinciano, que me desculpe o bloguista, tão preocupado com as impressões do dito "vizinho inglês".
E logo salta para a narração, participante e efusiva, da alegria na festa da bola.
A qual, depreende-se nem que por silogismo, de romaria, "atraso", ou pré-moderno nada terá, e nem ofenderá o tal "civilizado vizinho".
Não é crítica, que somos nós senão poços incoerentes? E ainda bem, que cinzento triste o do coerência. E também porque poderia ter sido eu a cometê-la, entre o irritado com o feitiço de fátima, padres deixando (pelo menos) brotar a crença na acção pelo sacrifício, e o eufórico, profunda e absolutamente feliz porque uns tipos foram ganhar 4-0 ao Salgueiros.
Mas não se está a falar do mesmo tipo de fenómenos? E que "atrasos" não servem para os entender?
a Texto vai passar a editar a obra póstuma que Fátima Mendonça está a organizar, assinaram hoje durante a pequena evocação lá na velha casa. O Eduardo disse, e coisa dele ainda, o Jaime Santos também, e trouxe um velho Brecht afiançando que o poeta gostava, pela primeira vez em público foi dito Craveirinha em ronga, tradução ali mesmo, e só por isso teria valido o fim-de-tarde, o Stewart cantou só, o Karingana wa Karingana, e desafiou um disco de Craveirinha, aí tanto cantor a pedir tradução para changana ou ronga, seria boa ideia, Mucavele, Wazimbo, Langa, alguns outros.
Nas traseiras falou-se de atletismo, um bocadinho de algarve também, e de uns outros tempos quando as visitas espontâneas entrávamos ou ficávamos à porta, dependia da hora ou dos humores. Alguns lembraram viagens e o Jaime o facto de um fato, ali presente e já a caminhar para o velho, que dependeu do Fernando Pessoa.
Enfim...
comemoraria hoje o seu 82º aniversário.
Aqui fica a memória. Ilustrada por um pequeno livro, que acarinho, em que se recolhem algumas das suas crónicas de jornal, casadas com as contemporâneas de Rui Knopfli, um "verso e anverso" desses irmãos de letras inventado pelo António Sopa: "Contacto e outras Crónicas" + "A Seca e outros textos".


No final dos anos 40 o então jovem Zé Craveirinha escrevia, com um tom muito da época, coisas de sempre:
"O movimento que se deseja efectuar-se-á ...quando o homem de cor intelectualmente preparado não desdenhar acintosamente o influxo de correntes culturais de origem africana, num sonambulismo ignaro que se vem prolongando demasiado.
... Trata-se muito simplesmente de não abdicar de uma cultura indígena, nem renegar uma corrente europeia, quando de tal enxerto pode surgir uma beneficiação integral..." (8-9)
Em Maio blogs mil
foi o que foi ... assinale-se o primeiro aniversário à sombra dos palmares, que antologia já é.
Que começou e continuou assim:
(...)
Teu olhar tem a curvatura
terna e feroz de uma grande-angular.
Esse perfil distante de cimento
e argamassa é toda uma geometria
decantada e gostosa molhando os quadris
deleitados no charco doce da baía.
Diacho, que perfil mais bonito, hem?
Então, Rui, que é isso,
não vais agora comover-te?
(Rui Knopfli)
Um texto mais sobre a empresa caça-tesouros "Arqueonautas", que actua nas costas moçambicanas. Da autoria de João Villalobos, publicado na revista Vega neste Maio e colocado no Naufragios: A Ilha dos Tesouros.
Há momentos de sorte! Enquanto descarrego alguns arquivos recém-chegados a várias caixas "postais", visito rapidamente alguns blogs para mim desconhecidos. E deparo com esta pérola: De homossexualidade & preconceitos.
Quem não leu não hesite.

"A Baía de Kionga no delta do Rio Rovuma"
Autoria: Alberto
[não tenho qualquer informação sobre este artista ou sobre a edição]
Alexandre Monteiro envia-me ainda um texto por publicado em 1998 (já!) sobre a questão do património arqueológico subaquático em Moçambique, e iniciativas aqui desenvolvidas por empresas caça-tesouros portuguesas e outras.
Aqui o transcrevo parcialmente, agradecendo ao autor, o envio e a atenção.
***************************
"Há um mês atrás, o Governo Moçambicano assinou um contrato "não público" para a exploração do património arqueológico subaquático jazente nas suas águas territoriais, o qual implica a comercialização de parte desse património.
Há mais de um ano, escrevi nestas páginas - ao concluir um artigo premonitório, referente à sociedade portuguesa Lex Rhodia - que esta empresa de caça ao tesouro teria de se dirigir a um outro país do terceiro mundo que não Portugal para poder pilhar à vontade o património subaquático, que pertence, por definição, à Humanidade e não a qualquer indivíduo mais "empreendedor".
Essa previsão confirmou-se em parte - felizmente para a nossa reputação, como país civilizado - ao ser promulgada a nova legislação nacional relativa a protecção jurídica desses bens, que efectivamente impediu as pretensões da Lex Rhodia. Confirmou-se também, infelizmente, que a empresa se viraria para outros países que não o nosso, quiçá menos despertos para a mesma problemática.
No dia 2 de Dezembro de 1997, o Ministério da Cultura, Juventude e Desportos assinou, em nome do Governo Moçambicano, um contrato "não público" para a exploração do património arqueológico subaquático jazente nas suas águas territoriais, o qual implica a comercialização de parte desse património.
(...) o Comissariado Geral de Moçambique na Expo’98, Jacinto Veloso,(...) fala da realização de um projecto de arqueologia subaquática de prospecção, pesquisa e valorização de bens culturais naufragados na plataforma continental daquele país da África Austral. O próprio Comissário confirmou que o contrato determina efectivamente a comercialização de parte do património encontrado.
Ao que parece, o Governo moçambicano acordou o projecto com um consórcio internacional formado pelas empresas Património Internacional - uma empresa constituída por várias entidades moçambicanas, que deterá 50% do capital do consórcio, que rondará um milhão de dólares - pela Genoux Surveys, pela Maritime Archaeological Explorations e pela Lex Rhodia, Sociedade Portuguesa de Explorações Arqueológicas Marítimas, SA.
... Esta tenciona prospectar cinco locais da plataforma continental - junto ao rio Rovuma, junto a Angoche, no norte da Beira, junto a Inhambane e na zona norte daquela província - não se prevendo que hajam lucros provenientes dessa exploração, visto que a venda de espólio será feita em certas circunstâncias, de modo a repor os fundos investidos e a investir o restante no património cultural do país como, por exemplo, na ilha de Moçambique.
Apesar da lei 10/88 - a lei moçambicana relativa à protecção do património cultural nacional - referir, no seu número 10, que as estações e objectos arqueológicos são propriedade inalienável do Estado (...) o Comissário Geral de Moçambique para a Expo’98 defende o projecto com base no argumento de que o património subaquático moçambicano está a ser pilhado, importando fazer alguma coisa para parar essa pilhagem. No entanto, este argumento parece não convencer a comunidade científica daquele país, que tem protestado vigorosamente contra o que clama ser uma ilegalidade por parte do Estado.
Com efeito, este contrato "não público" deveria ter sido precedido de um parecer da Procuradoria Geral da República, o que não aconteceu. De igual modo, um procedimento destes teria de ser antecedido de uma delegação de poderes da parte do Conselho de Ministros no Ministro da Cultura, que o deveria ter assinado. Tal não aconteceu também, o que confere poderes ao parlamento Moçambicano para exigir que o Governo lhe mostre o contrato.
A liderar o processo de contestação, surge o arqueólogo moçambicano Ricardo Teixeira Duarte, professor no Departamento de Arqueologia e Antropologia da UEM. De acordo com este académico, nem aquele Departamento - a única instituição moçambicana a realizar pesquisas arqueológicas naquele país - nem qualquer outro arqueólogo moçambicano foram consultados sobre o assunto.
(...) A contestação é ainda maior visto que, no entender de Ricardo Duarte, as actividades de comercialização do património arqueológico são rejeitadas pelos arqueólogos moçambicanos em bloco e são actualmente alvo de grande reacção por parte da comunidade científica internacional.
Uma das empresas que surgiu à frente das manobras que levaram à assinatura deste contrato foi a Lex Rhodia, Sociedade Portuguesa de Explorações Arqueológicas Marítimas, SA. Indo buscar a sua designação à antiga lei do direito romano que superintendia a actividade dos salvados por mergulhadores em apneia, esta empresa foi constituída em 1994 por 5 accionistas, cada um deles detentor de acções no valor de mil contos, no intuito de explorar a situação criada em Portugal pela aprovação do decreto-lei 289/93, agora revogado.
Entre os accionistas encontravam-se André Hüsken - antiquário alemão de renome que assegurava os recursos financeiros e que promovia todas as acções de venda do espólio a recuperar; João Ricardo Vasconcellos - relações públicas, agente para a comercialização de imagens e outro material de divulgação; António Camarão - o arqueólogo de serviço; António Emílio Sachetti - vice-almirante da Marinha Portuguesa e ex-presidente do Conselho de Justiça da mesma instituição; e João Filipe Galvão.
João Filipe Galvão, bacharel em Engenharia Mecânica Naval pela Universidade de Rhode Island, colaborou activamente na elaboração do decreto 289/93 e associou à Lex Rhodia toda uma série de instituições - à primeira vista totalmente idóneas - entre as quais se contava o Departamento de História da
Faculdade de Letras de Lisboa, o Instituto Superior Técnico e a Sociedade de Geografia de Lisboa.
Esta empresa, gerida (...) por António Sachetti e João Filipe Galvão, tinha como objectivo primordial a identificação e recuperação de naufrágios de navios ibéricos de reconhecida importância económica, pelo que se voltou para duas zonas principais, a barra de Setúbal - em que supõe haver, pelo menos, 12 naufrágios espanhóis e 4 portugueses nessas condições - e a zona de aproximação ao porto de Lisboa.
Ao que parece, o peso das conexões e dos conhecimentos pessoais, quer de Galvão, quer de Sachetti, facilitaram a assinatura deste contrato. Agora que as atenções dos caçadores de tesouros se voltaram para países menos alertado para esta problemática - o caso do Brasil é paradigmático, já que um diploma em tudo semelhante ao 289/93, se encontra agora em discussão no Parlamento Brasileiro e é mesmo alvo de ataque por parte de um artigo na edição de hoje do jornal O Globo - é necessário que nos unamos e que façamos por eles o que os outros países mais desenvolvidos fizeram por nós, quando passámos por situação idêntica, há quatro anos atrás."

Rua Araújo (hoje Bagamoyo), Lourenço Marques (1910).
[reprodução de postal, oferta de Ricardo Rangel]
Transcrição de texto de Alexandre Monteiro colocado hoje no Naufragios
A Arqueonautas avant la lettre
A 18 de Janeiro de 1972 desembarca no aeroporto das Lajes, ilha Terceira, Açores, o inglês Sidney Wignall. O seu propósito confesso é o de procurar o navio Revenge, afundado na costa da ilha em 1591. Tencionando encontrá-lo num prazo de 5 meses, Wignall, devidamente autorizado pelo Ministério da Educação Nacional, bem pode gabar-se de ter obtido a primeira licença para pesquisas subaquáticas concedida no âmbito da legislação então em vigor sobre os achados no mar.
A 4 de Fevereiro sabe-se pelo Diário Popular que Wignall tenciona passar os próximos cinco a dez anos na Terceira, em escavações. Sabe-se também que o custo da expedição rondará os 4.000 contos e que esta será em parte custeada por canais de televisão britânicos. Wignall deixa a entender que será benéfica para a Terceira toda a publicidade gerada pela sua expedição.
A 12 de Abril chegam os primeiros onze elementos da expedição conjuntamente com o arquitecto Jorge Albuquerque, do Centro Português de Actividades Subaquáticas. A expedição, denominada Azores International Marine Archaeological Expedition terá o seu centro operacional em São Carlos, na quinta Jesus Maria José.
A segunda expedição
A 20 de Abril eis que surge o primeiro golpe de teatro: uma segunda expedição, de cariz pretensamente arqueológico, chega a Angra do Heroísmo.
A vedeta T.S.R. Preston é comandada por Michael Stewart, ex-oficial mergulhador da Royal Navy e ex-braço direito de Wignall. O navio conta na sua tripulação com o comandante da Royal Navy, John Grattan - que participou em explorações na Irlanda com o mesmo Wignall - e com três irmãos de apelido McCormack: John, caixeiro-viajante; Terrence, empreiteiro e Joseph, mergulhador profissional. Este último, com 6 anos de pena cumprida em Hong-Kong por crime violento, para além de ser suspeito de um tiroteio em Liverpool foi também levado por Wignall a comparecer perante a justiça irlandesa por se ter tentado apoderar dos locais por este pesquisados no mesmo país - mais interessante ainda, havia suspeitas de que o barco Grey Dove, que Joseph McCormack comandava na altura, juntamente com o seu irmão Terry, participava em operações de tráfico de armas para o IRA.
Em todo o caso, os recém-chegados invadiram a Quinta Jesus Maria José, logo na noite em que desembarcaram na Terceira, e ameaçaram verbalmente os membros da equipa de Wignall. Este apresentou queixa em tribunal e pressionou os seus contactos em Portugal e em Inglaterra com o fim de se desembaraçar de tão incómodo concorrente.
A equipa de Grattan, que se autodenominava Expedição Arqueológica Submarina Britânica, começou a trabalhar numa zona diametralmente oposta à de Wignall, que operava na Vila Nova. Toda a costa sul, desde a Ponta das Contendas até para além da Serreta, foi pesquisada pela equipa de Grattan tendo este, no dia 9 de Maio, declarado oficialmente o primeiro destroço.
A 19 de Maio a imprensa local, fazendo eco dos jornais ingleses e continentais, começa a interrogar-se sobre a idoneidade das expedições. Aventa-se, finalmente, a hipótese da existência de caçadores de tesouros nas águas terceirenses.
Zangam-se as comadres...
... sabem-se as verdades. A 28 de Maio e em desespero de causa, Wignall presta uma declaração à imprensa. Diz que sua expedição fora planeada há mais de dois anos e que tinha conhecimento de 31 navios afundados nas costas da Ilha Terceira. Confirma a existência de dois galeões na baía de Angra e de um outro, descoberto a 15 de Maio, na baía das Águas durante uma sessão de treino.
Prossegue na sua declaração, qualificando a expedição de Grattan como uma equipa de caçadores de tesouros, por detrás da qual estaria um grupo de investidores de Liverpool. Afirma que os achados noticiados por Grattan já estariam definidos num documento que teria circulado por possíveis investidores seus há cerca de 18 meses atrás. Afirma também que Stewart esteve para ser o seu director de mergulho mas que este teria abandonado o projecto três semanas antes de Wignall ter partido para os Açores. Queixa-se, assim, de fuga de informações e de deslealdade por parte do seu antigo colaborador.
A 12 de Junho, pelas 20 horas, um cargueiro de cor negra passou ao largo do pesqueiro Pedra Velha, a 2 ou 3 milhas do Monte Brasil. Foi abordado pela vedeta de John Grattan, tendo-se mantido as duas embarcações lado a lado durante cerca de 10 minutos. A 16 de Junho, alguns mergulhadores da equipa de Grattan emergiram na baía do Fanal e içaram para o barco pneumático um volume aparentemente pesado. Soube-se ainda que a mesma equipa procedeu a uma hipotética recuperação na baía da Salga, utilizando para tal o guincho que se encontrava instalado na embarcação. No mesmo dia procederam à colocação de pequenas bóias pretas nas águas de uma baía junto de São Mateus.
A 21 de Junho sabia-se que tinha sido recentemente vendido em Madrid um crucifixo em ouro da época filipina. Daí a se chegar à sua provável proveniência foi um passo: acusou-se imediatamente a equipagem do T.S.R Preston e procedeu-se à vistoria da embarcação. Como é óbvio, nada de suspeito foi encontrado. Fazem-se referências a anéis e moedas de ouro supostamente encontrados na baía das Águas.
A 25 de Junho parte definitivamente a vedeta de John Grattan em direcção à Corunha. A 8 de Agosto foi recuperada aquela que viria a ser a única recordação material, deixada nos Açores, da expedição de Wignall: uma meia-colubrina de bronze içada com a ajuda do Destacamento Norte-Americano estacionado na Terceira.
Wignall informa que Grattan terá feito circular em Inglaterra uma carta reservada nela informando possíveis investidores de que a sua expedição descobrira onze destroços nas costas da ilha Terceira e que um deles poderia conter materiais no valor de 6 milhões de libras. A 9 de Maio, o comandante John Grattan é condenado pela justiça portuguesa a 25 dias de prisão, remíveis a multa. Para responder ao processo contra si instaurado encontravam-se apenas John e Terry McCormack. Estes, em declarações à imprensa, declararam estar dispostos a regressar em 1974...
24 anos depois
Vinte e quatro anos depois, ao abrigo da legislação criada para a exploração dos tesouros submersos, uma nova empresa de caça ao tesouro quis ir operar para as águas da Terceira.
A Arqueonautas, SA tinha como director de operações o mesmíssimo John Grattan, que regressava duas décadas depois ao local do crime. A empresa, que tinha (tem ainda?) como accionistas, entre outros, membros do Grupo Espírito Santo, Francisco Pinto Balsemão e José Manuel de Mello, opera actualmente em Moçambique com o beneplácito do governo moçambicano.
Uma das suas arqueólogas contratadas, Margareth Rule, declarou que não se responsabilizava pelos trabalhos da empresa senão como consultora e que não assumia qualquer responsabilidade se a administração da empresa não seguisse os seus conselhos.
O que é mais grave é que pessoas e entidades - como a Fundação Ricardo Espírito Santo e a Faculdade de Letras de Lisboa, com grandes responsabilidades a nível de imagem pública, se associaram a em 1995 a esta empresa com intuitos muito pouco honestos e lesivos do património nacional.
Entre as individualidades referidas contavam-se José Hermano Saraiva, consultor cultural da empresa, e Dom Duarte de Bragança, presidente do conselho de acompanhamento da Arqueonautas, SA. Este último, segundo as suas declarações à agência Lusa aquando da sua estadia no arquipélago cabo-verdiano em Julho de 1995, onde operava a Arqueonautas, teria usado a sua influência para sensibilizar as autoridades locais para a recuperação de cascos abandonados num projecto que envolvia milhões de dólares.
O gabinete de Dom Duarte admitiu mesmo ao jornal Público que o pretendente ao trono participara na reunião havida entre a Arqueonautas e o Governo local, em que foi negociada a concessão de exploração de uma zona marítima junto à ilha do Fogo.
É lamentável que uma personalidade que se quer representativa de uma certa maneira de estar, na cultura e na sociedade, apoie uma empresa que desenvolve uma actividade que vai contra tudo o que se encontra internacionalmente consagrado, no domínio da protecção do património, por organismos tão insuspeitos como a UNESCO.
(Confrontado, aliás, com as posições desta instituição no que toca à exploração selvagem do património subaquático, o presidente do Instituto Nacional de Cultura de Cabo Verde e interlocutor do Governo com a Arqueonautas, SA, à altura afirmou textualmente, a UNESCO não aprova este tipo de operação porque tem uma visão meramente cultural e entende que todos os achados arqueológicos devem ser património da Humanidade. Só que a UNESCO não tem meios para constituir uma alternativa a países pobres como Cabo Verde, obrigados a procurar os meios para restaurar o património”).
Vinte e quatro anos após a caça ao tesouro nas águas açorianas, dois anos após a pilhagem de Cabo Verde, o Rei vai nu para quem o quer ver e Moçambique vai atrás, cantando e rindo.
Reproduzido ontem no Naufragio
Os Tesouros da Ilha
por Boaventura de Sousa Santos
Visão, 22 de Agosto de 2002
A Ilha de Moçambique é um lugar incomparável, tanto pela sua história e pelas marcas visíveis dela na arquitectura e na arqueologia subaquática, como pelas suas potencialidades enquanto centro de reflexão sobre contactos e relações interculturais; um futuro que a Ilha começou, de facto, a construir há muitos séculos, antes e depois de os portugueses ali aportarem no séc. XV.
Fazendo jus a este impressionante conjunto arquitectónico, grande parte dele em ruínas, a UNESCO declarou a Ilha, em 1991, como património cultural da humanidade. Esta declaração faz com que a preservação e o florescimento da Ilha sejam tarefas imperativas tanto para Moçambique como para todos os restantes países do mundo, e nomeadamente para os que, para o mal e para o bem, partilham com Moçambique parte da sua história, como é o caso de Portugal.
O futuro da Ilha reside na valorização do seu riquíssimo património e no contexto único que ele pode oferecer para a promoção de diálogos entre culturas, para além, naturalmente, daqueles de que a Ilha é já testemunho vivo. Nesse futuro querem se activamente envolvidos os habitantes da Ilha e as suas associações como, aliás, decorre do estatuto de património cultural da humanidade. Ora, uns e outros estão preocupados. Temem que o seu património esteja a ser dilapidado se não mesmo pilhado. Ao largo da costa de Moçambique estão identificados e catalogados mais de cem naufrágios de navios, muitos deles à volta da Ilha. Um alvo apetecido para caçadores de tesouros. Desde há algum tempo, a empresa internacional Arqueonautas, em associação com a empresa moçambicana Património Internacional SARL, está a realizar pesquisa arqueológica subaquática à volta da Ilha.
Desconheço os termos do contrato de pesquisa celebrado com o Governo moçambicano e a empresa moçambicana, mas a versão aprovada do contrato-tipo concede a esta empresa o direito de se tornar proprietária de bens culturais cujo valor represente 50% do valor global do total dos bens encontrados. Mesmo que se faça a ressalva de os objectos a conceder à empresa serem semelhantes a outros descobertos na mesma localização e não serem considerados de valor excepcional, fica aberta a porta para a venda do património da Ilha.
Aqui reside a inquietação dos seus habitantes. Como não vêem nenhuma autoridade a fiscalizar os achados, perguntam-se sobre quem define o todo em relação ao qual se repartem os 50% dos achados. Como não são credivelmente informados, vêem ou imaginam ver peças valiosas a serem trazidas para terra embrulhadas em toalhas, vêem ou imaginam ver pequenos aviões a levantar do aeródromo do Lumbo com peças não declaradas, vêem ou imaginam ver peças valiosas exportadas sem controlo alfandegário.
Os habitantes e os amigos da Ilha estão inquietos e a sua inquietação aumenta cada dia que passa, sem que, estranhamente, o Governo moçambicano assine a Convenção da UNESCO sobre a protecção do património cultural subaquático, adoptada em Novembro de 2001, que expressamente proíbe a comercialização desse património. E só por uma via pode o Governo pôr fim a tal inquietação: assinando a Convenção e pondo fim a contratos que envolvam a comercialização do património arqueológico. Há que evitar o risco de a Ilha vir a perder o estatuto de património cultural da humanidade.

Companhia é sábio, desses grandes mesmo.
Nós estamos aqui a viver como animais, estamos à espera das instruções lá da Nação, e é ele que há-de vir transmitir, mobilizar a população.
Ele há-de falar...agora estamos a chorar pelas palavras dele...
Um etnólogo diz ter encontrado
Entre selvas e rios depois de longa busca
Uma tribo de índios errantes
Exaustos exauridos semimortos
Pois tinham partido desde há longos anos
Percorrendo florestas desertos e campinas
Subindo e descendo montanhas e colinas
Atravessando rios
Em busca do país sem mal --
Como os revolucionários do meu tempo
Nada tinham encontrado
Sophia de Mello Breyner Andresen
[Ilhas (1989), in Obra Poética III, Caminho]
No Abrupto, José Pacheco Pereira dá voz a um dos seus leitores, Filipe Castro, Professor de Arqueologia Náutica na Universidade do Texas, o qual, segundo me diz hoje Ricardo Teixeira Duarte, tem assumido papel de relevo na denúncia dos acontecimentos de seguida narrados.
Escreve assim o Prof. Castro: “Vai amanhã (dia 19) a leilão, na Christie’s de Amsterdão, parte da carga de um navio português do século XVI naufragado na Ilha de Moçambique. A carga que agora se vai dispersar foi salva pela empresa de caça aos tesouros Arqueonautas SA.
Em todo o mundo se aperta o cerco contra a actividade das empresas de caça ao tesouro. A aprovação de uma convenção da UNESCO para a proteção do património cultural subaquático da Humanidade é um bom exemplo desta tendência.
Por outro lado, cada vez mais governos de países com um passado ligado a expansão marítima europeia reclamam direitos sobre os restos dos seus navios, perdidos nos quatro cantos do mundo. Assim, o governo espanhol ganhou recentemente um processo em tribunal, contra uma empresa de caça aos tesouros e o Estado da Virgínia, nos EUA, que havia atribuído a concessão de salvados. Acho que temos o direito de saber porque é que o estado português não faz nada para proteger os restos arqueológicos dos nossos navios, à semelhança dos outros países do mundo.".
Este é um tema complexo, abordá-lo em mero apontamento é o típico "Rossio na Betesga". Mas avanço algumas notas:
1. parece-me complicado que Portugal surja reclamando os direitos sobre o património arqueológico subaquático. Não me refiro a questões do direito internacional, abordadas no texto acima, e em devido tempo ecoadas no Naufrágios, que transcreveu (presumo que parcialmente) a sentença do tribunal da Virgínia.
Refiro-me a três pontos essenciais:
a. não creio que o país tenha recursos financeiros e humanos para proceder à pesquisa e recuperação científica desse património;
b. sendo o objectivo fundamental a recuperação científica, e concomitante preservação, dos achados arqueológicos, tal reclamação de direitos (aliada à escassez de meios) iria conduzir a reacções contrárias locais, donde abrindo caminho para a continuação de uma prática de pilhagem sob capa de "salvados" (reparem que até a semântica do vocabulário é dúbia);
c. tenho as minhas dúvidas ideológicas sobre a legitimidade destas reclamações, que não podem ser apartadas da mais vasta questão das reclamações sobre o património histórico transferido [já aqui abordei o assunto]. Mas essa é questão mais vasta, pano de fundo desta problemática;
d. mas uma tendência internacional de aceitar direitos sobre património histórico submerso poderia ser utilizada para uma mais acurada participação portuguesa na campanha da sua preservação e recuperação. Ao nível da sensibilização e da pesquisa.
2. Pelo menos desde 1997 que venho assistindo a tentativas de "pesquisa" dos naufrágios em costa moçambicana por parte de caçadores de tesouros, de início centrada na Ilha de Moçambique. Nesses anos uma campanha de intelectuais moçambicanos obstou à sua realização (lembro Luís Filipe Pereira, Ricardo Teixeira Duarte, José Forjaz, António Sopa, Rafael da Conceição entre outros). Mas passados alguns anos foi concedida à empresa "Arqueonautas" a possibilidade de trabalhar na Ilha.
Creio que esta realidade se prendeu com a inexistência de alternativas palpáveis quanto à exploração destes recursos, bem como à (falsa) perspectiva de aí se encontrarem incontáveis riquezas.
3. O resultado dessas pesquisas está explícito no Naufrágio, com transcrição do jornal Público.
A lógica destas actividades é sempre a mesma. Recolha de alguns bens, considerados mais valiosos e sua venda. O objectivo é lucrativo, veja-se a mero título de exemplo The Christie's auction of part of the Ming porcelain and gold recovered from the 'Fortress San Sebastian Wreck' (IDM-002) in Amsterdam on 19.05.04 was a great success! The total result represents more then twice the price previously stipulated in our sales catalogue.
O resultado universal, a destruição dos sítios arqueológicos e a inviabilização do seu estudo e utilização enquanto recurso cultural e turístico.
4. Tem havido algumas tentativas de sensibilizar o governo moçambicano para o desenvolvimento de um projecto de articulação de pesquisa, preservação e turismo cultural. Há propósitos norte-americanos de estabelecer apoio (público até) a um projecto desse tipo. Nesse sentido uma delegação do Ministério do Turismo esteve nos EUA em 2003 para se inteirar das possibilidades que projectos destes abrem para o desenvolvimento local, com repercussões turísticas, cuja proveitos a médio prazo em muito ultrapassam o falso brilho de algumas centenas de milhares de USD agora arrematados. Nesse programa algo tem colaborado Steve Lubkemann, antropólogo da George Washington University, pois também ele assumiu causa científica e de cidadania cultural.
Também a muito credível Associação dos Amigos da Ilha de Moçambique, bem como prestigiados académicos moçambicanos têm apoiado essa alternativa. Da parte portuguesa Francisco Alves participou no encontro de 2003 em Maputo, organizado pela UNESCO para lançamento deste processo de sensibilização das autoridades moçambicanas, e penso ter acompanhado o programa ocorrido nos EUA.
Em suma, penso ser possível um caminho às autoridades portuguesas. Apoio científico e financeiro na medida das nossas possibilidades e, se necessário, sensibilização diplomática, para uma questão que interessará para a história portuguesa, para a história comum, mas também como item fundamental do desenvolvimento local (e sustentável) a prazo nas regiões moçambicanas onde há vestígios arqueológicos subaquáticos, se considerados como turbos de turismo, cultural, académico e de lazer.
5. Finalmente sobre a empresa "Arqueonautas", que actuaram na Ilha num navio afundado e que estão agora em Angoche. Não têm qualquer credibilidade. Um dos seus responsáveis, presumido conselheiro científico, apresentava um CV como reitor de uma universidade britânica inexistente. O seu objectivo é puro: recuperar, vender, lucrar.
Já estiveram em Cabo Verde, de onde partiram com muito má imagem, segundo consta. Pois não só nada fica para o futuro, como é recorrência nestas expedições, como realmente pouco se lucra em termos locais.
6. Piratas? Talvez, em linguagem de senso comum. Mas, para nós portugueses, enquanto ligados historicamente a este património histórico subaquático, e também como dotados de instituições científicas com responsabilidade cívica, a questão é ainda mais grave.
Ao que consta a empresa, com trabalhadores de vários países, tem registo legal português. E mais, diz-se que conta nos seus membros com a presença (em posições de accionistas ou honoríficas) de vários Almirantes na reserva e do próprio Duarte Pio de Bragança, dotado do capital simbólico de pretendente ao trono e figura, muito justamente, grata na sociedade portuguesa.
A ser isso verdade estou crente que a participação destes indivíduos será de boa-fé, e sustentada por um legítimo interesse na história marítima cruzado por algum desconhecimento. Das práticas científicas actuais e possíveis, das veras práticas da dita empresa.
Mas por parte da sociedade e do Estado português seria urgente um sinal explícito, um abandono público de qualquer associação com este tipo de iniciativas. Em termos administrativos e em termos individuais.
Porque senão poder-se-á dizer (forçando um pouco a nota, é certo) que os "Arqueonautas" não são piratas. Mas sim (nossos) corsários.
ADENDA: via google chega-se facilmente (de que é que o google não é capaz?) à página da empresa Arqueonautas.
Procurei escrever o apontamento com pinças. Mas veja-se isto (o negrito é meu):
[ ARQUEONAUTAS WORLDWIDE - Arqueologia Subaquática, S.A. (AWW) was established on the 10. of August 1995 as private shareholding company in Madeira, Portugal, registered in the 'Conservatoria do Registo Comercial de Zona Franca da Madeira' under registration number 01750/950825. The security registration number is 552 928. AWW has 3,000,000 shares outstanding at a nominal value of EUR 1.00 per share and a registered capital of EUR 3,000,000.00.
AWW's purpose is to preserve the submerged cultural heritage and advance learning through the archaeological survey and excavation of historical shipwrecks, with the aim to structure operations economically viable.
MEMBERS OF THE ADVISORY, EXECUTIVE AND SCIENTIFIC BOARDS
Advisory Board
President HRH Dom Duarte Pio, Duke of Bragança
Vice President Admiral Isaías Gomes Teixeira
Speaker Dra. Rita Delgado
Secretary Dr. Heribert Keil
Finance Dr. António Portugal Catalão
Controlling Dr. Tristão da Cunha
Director Baron Stefan von Breisky ]
É absolutamente lamentável. Absolutamente inaceitável. E absolutamente inacreditável que a sociedade portuguesa possa dar qualquer tipo de relevo e respeito (ainda que meramente simbólico) a cidadãos agentes de malfeitorias.
E, entenda-se, republicano fundamentalista mas de família com longa tradição militar, o que custa mesmo é ver um Almirante a sujar os galões com esta tralha. Que malta...
Sem bater à porta, entrando pela janela dos comentários, anunciou-se um novo blog moçambicano, ainda uma raridade.
É o O País da Marrabenta. Pertence ao Catembeiro.
Magaíça, está algures lá fora. Desejo boa sorte. E que no caminho possa sair do lugar dos Tembe nisso cruzando outros braços de mar e outros rios. Nisso de tantos ritmos.
Há algum tempo fui ali ao Piri-Piri ter com o meu mais que bom amigo Francisco. Esperei-o um pouco, até que ele me surgiu embrulhado numa t-shirt estampada com a célebre cara de Ernesto Guevara. Sabia-o regressado de um qualquer congresso em Cuba, decerto era aquilo um "recuerdo", memórias dessas agradáveis coisas do turismo académico.
Confesso a minha incomodidade de então, ainda que muda. Que raio, que fazia eu ali em plena esplanada com o meu amigo e mais o espírito do argentino? Aqueceu-me a 2M mais depressa, ainda que tudo tenha sido esquecido na conversa.
Mas fiquei-me a pensar, que faz um homem destes, culto como ele o é, com todo o seu espírito crítico, um cáustico quase niilista, carregar aos 40 anos um ícone tão embotado pelo tempo e pelas verdades? Que falso peso o desse "che"?
Passados uns dias ele apareceu de surpresa cá em casa (ele e Idasse são os únicos que surgem sem telefonar, magnífica coisa em sociedade tão formal). Abro-lhe a porta e eis de novo o Guevara, agora portas dentro. Não me contive num "foda-se pá, então vens a minha casa com essa t-shirt!!", resmungo que morreu na gargalhada dele, ali logo embrulhando um dito sobre a beleza das cubanas, lembro algo como o elogio das "bundas grandes", coisas mais importantes que ideologias, e aí todos concordamos.
Estando então eu já de blog armado decidi escrever sobre este Ernesto Guevara por aí. Tive a sorte de encontrar uma fantástica montra na Interfranca com o dito cujo, que logo machambei

[Fotografia de Fernando Macedo]
como aperitivo de um texto sobre a estranheza face à persistência do mito. Texto que nunca terminei, para aí no meio de tralhas avulsas.
E que nunca terminarei. Pois pouco ficará para dizer depois da prosa que o Comprometido Espectador acaba de dedicar a este assunto. O acutilante suficiente.
Feliz coincidência.
Cada um como cada qual, nisto dos blogs o pior é andar a dizer aos outros o que devem fazer ou o que não devem fazer. Terá limites, já aqui me insurgi sobre o que acho ser uma ilegalidade, e chateia-me o mau gosto. [E, ja agora, irritam-me imenso os blogs políticos anónimos, se mais diplomáticos ou de lacticínios pouco importa. Talvez efeitos do velho mito do cavalheiro de peito aberto, enfim, burguesices...]
Acho um desperdício andar armado em juiz nestas coisas. Um blog é algo pessoal (mesmo se colectivo não surge como instituição). Andar a julgá-los é o mesmo que andar por aí a avaliar pessoas. Há gente de quem gosto (visito), há gente que não gosto (não deveria visitar), a maioria não conheço (a technorati dá mais de 2,3 milhões de blogs...). Pronto, chega.
Mesmo assim achei uma delícia o texto "O salário do pecado é a morte (Romanos 6:23)" inscrito no sempre conciso Voz do Deserto. Sei que é uma contradição com o que digo acima mas assim são as coisas: contraditórias.
Transcrevo-o pois não lhe encontro a ligação directa:
"Os piores blogues são os que defendem causas. Quer sejam democratas invictos, maricas inflamados, evangélicos cheios do Espírito, ou vítimas de outra qualquer patologia semi-filantrópica.
Gente que parece que está a ser paga para fazer um bom trabalho não interessa fora do escritório."
Com vagar, como se pretende nas conversas saborosas, tenho trocado com o Luís Carmelo do Miniscente ditos sobre a lusofonia.
Confesso que fui adiando um apontamento mais "a sério" sobre isto, mas o tempo faltou. A ver se ainda regresso, pelo menos para breves notas. No entretanto aqui deixo referência e ligação para um dos melhores textos sobre o tema que conheço, da autoria do académico francês Michel Cahen: o Des Caravelles pour le future?, um texto publicado na revista Lusotopie 1997.
Implacável, sanguinário até, Cahen recolhe e transcreve trechos da prosa lusófona nos alvores da CPLP. Imperdível.
Para visitantes interessados neste assunto não posso deixar de recomendar dois pequenos livros que muito bem elaboram sobre a noção de "lusofonia": "A Nau de Ícaro seguido de Imagem e Miragem da Lusofonia" de Eduardo Lourenço (Gradiva, 1999) e "A Lusofonia e os Lusófonos: Novos Mitos Portugueses" de Alfredo Margarido (Edições Universitárias Lusófonas, 2000). Analíticos ainda que não tão avassaladores como Cahen.
Boas leituras se for o caso. E bons sorrisos, se com Cahen. Mas cuidado, depois disso dificilmente a mantinha reconfortante da marca "lusófona" vos aconchegará, passarão a precisar da velha escalfeta.

"Ilha de Moçambique" (Julho 1998)

"Praça do Giraldo" (Set. 1997)
"Évora/Ilha de Moçambique" (8 postais; cx. com duas fotos)
Fotografias de José Cabral (1997-1998)
Edição da Câmara Municipal de Évora, s/d (1999?)
Fotografias de José Cabral
[tua oferta]

Sozinho na noite
um barco ruma para onde vai.
Uma luz no escuro brilha a direito
ofusca as demais.
E mais que uma onda, mais que uma maré...
Tentaram prendê-lo impor-lhe uma fé...
Mas, vogando à vontade, rompendo a saudade,
vai quem já nada teme, vai o homem do leme...
E uma vontade de rir nasce do fundo do ser.
E uma vontade de ir, correr o mundo e partir,
a vida é sempre a perder...
No fundo do mar
ja sem os outros, os que lá ficaram.
Em dias cinzentos
descanso eterno lá encontraram.
E mais que uma onda, mais que uma maré...
Tentaram prendê-lo, impor-lhe uma fé...
Mas, vogando à vontade, rompendo a saudade,
vai quem já nada teme, vai o homem do leme...
E uma vontade de rir nasce do fundo do ser.
E uma vontade de ir, correr o mundo e partir,
a vida é sempre a perder...
No fundo horizonte
sopra o murmúrio para onde vai.
No fundo do tempo
foge o futuro, é tarde demais...
E uma vontade de rir nasce do fundo do ser.
E uma vontade de ir, correr o mundo e partir,
a vida é sempre a perder...
-------------------------------------
José Cabral [foto] / Xutos 
Um aparente empobrecimento ideológico...ou será um aparente empobrecimento teórico...ou um aparente empobrecimento mediático...enfim, seja o que for, causou que lá no meu país a (constante) discussão entre o que é direita e esquerda se centrasse em categorizações. Ser pró ou anti-Bush (por lá entendidos como sinónimos de pró ou anti-americano). E também, ainda que por arrastamento, pró-Israel ou contra (cujo critério único é gostar-se ou não de Sharon).
Dá a sensação que há um aparente empobrecimento ... da capacidade de pensar Portugal. E que grande parte das "esquerda" e "direita" (goste-se ou não das categorias, elas usam-se) só podem adubar as suas identidades pensando o exterior. E, só alguém no terreno poderá explicar as causas, fazem-no pobre e bipolarmente.
Mero emigrante, não sou lá muito cosmopolita para discorrer sobre os males do mundo. Mas ainda resmungo:
- não gosto da política de Bush, e há muito, e já aqui o disse. E o Iraque nem é a causa, mas sim sintoma. Como é que isso me faz anti-americano. Ou esquerdista?
Pois da mesma forma desagrada-me, de modo até exagerado, reconheço, António Guterres. Isso faz-me anti-português? Neo-nazi?
- acho errada a política israelita. Serei anti-semita por isso? Pérfido comunista, ou até socialista?
Às vezes lembro-me de um quase recente primeiro-ministro israelita, assassinado. Nos seus últimos anos muito pouco concordante com a tendência deste último governo. Seria ele um anti-semita?
Um aparente empobrecimento...leva a que os discursos tão políticos que do meu país aqui me chegam anunciem uma incapacidade de pensar Portugal porque uma incapacidade de pensar política. Discursos pobres e bipolares, repito. A tomarem a parte pelo todo. A aumentarem episódicos governos em processos longos. Coisas nada.
Decadência? Não! Ignorância e cagança. Ou seja, "pouco mundo" apesar de tanto falatório sobre um "mundo".
E, já agora, como pensar Portugal, se pobre e bipolarmente?
continuam a escrever, apontando-me que muito mal digo eu de Portugal. Talvez. Mas não sou nada decadentista. Considero que Portugal está muito melhor do que antes esteve. Basta comparar com o nosso 1984, do qual ainda tão bem nos lembramos. E isto é sentido e sincero. E vale por cem críticas.
[O sistema indica 344 entradas no Ma-Schamba. Prometo que quando chegar às 444 torno a escrever algo semelhante. Sentido e sincero].
Fotos de soldados norte-americanos divertindo-se junto de cadáveres, telejornal de hoje. As suas caras (já conhecidas) e o cenário indiciam que os mortos eram prisioneiros.
As célebres fotos anteriores mostram um meio semelhante. Tudo permite imaginar (por enquanto, até mais dados, que presumo comprovarão esta ideia) que nestas se tratam de prisioneiros mortos na prisão.
Nos últimos dias têm soado notícias que os norte-americanos têm tido práticas de tortura dos seus prisioneiros no Iraque, em Cuba e no Afeganistão. Talvez sim, talvez não. Parece que sim, mas há sempre muita falsa (contra) informação nestes casos. Mas parece que sim.
Coisa de meia dúzia de soldados mais inconscientes, diz-se por lá. Duvidei, mas talvez.
Mas agora, com mortos na prisão, como acreditar nessa versão? Torna óbvio que isto ultrapassa, e de que maneira, práticas marginais de um grupo de legionários exaltados. Pois se o fossem, como poderiam eles assumir a morte daqueles sobre os quais tinham responsabilidade? Não temeriam eles durissimos castigos?
Os portugueses estão no Iraque. Temos forças lá, poucas é certo, mas estão lá, lado a lado com os americanos. Estes dados, agora conhecidos, só nos dão uma alternativa: ou ficamos, e somos tropas que abatemos os nossos prisioneiros; ou saímos, porque não ombreamos com tropas destas.
E não vale dizer "foram os americanos". Porque se nos mantivermos fomos nós.
Está na hora. Recuar com honra. E deixar os bárbaros no deserto!
(Depois de tantos anos a ver onde ponho os pés acho que posso pôr a pata na poça).
1. Uma mostra colectiva de fotografias obtidas durante o Festival do Baluarte na Ilha de Moçambique, durante a sua primeira edição, no ano passado.
Organizada para publicitar a segunda edição, a ocorrer no último fim-de-semana de Junho. Publicitar e angariar apoios empresariais. O festival é uma iniciativa digna, este ano virão mais de cem artistas da Reunião e de Mayotte. Animação cultural, turismo, criação de um ritmo cíclico de visitas. É o caminho para a vida da Ilha, e para a sua publicitação.
Volto à mostra, um bocado desigual, que isto de misturar grandes profissionais com amadores e ainda com curiosos, fica assim um bazar para pedir apoio. Que o arranje, pelo menos. O grande Sérgio Santimano, com um punhado de belissimas fotos espessas. O Jorge Neto do Africanidades, então por cá (e que pena que não nos tivessemos cruzado) e o meu amigo Luís Abelard, a jogar no movimento. E ainda dois fotógrafos franceses, não retive o nome.
Mostra desiquilibrada. Mas boas fotos, ainda que de campeonatos diferentes. E é sempre a Ilha. Mas mesmo que tenha sido organizada para pedir apoios este já não é tempo para fazer as coisas coisas assim. Nem se distribui uma mísera fotocópia para que saibamos quem lá está nas paredes, que já nem se pede o desdobrável de alcunha "catálogo". Não há dinheiro? Cortassem as chamussas.
2. Uns dias depois exposição de Martin Hansen acompanhado de uma pequena colectiva das suas alunas. Fotografia digital. Nem falo das fotos, que são o mais importante (e por isso aí está o elo para o sítio do fotógrafo, posto no Ma-Schamba há meses, logo que dele tomei conhecimento).
Acho absolutamente inacreditável que se faça uma exposição em Maputo e que toda a informação disponível seja em inglês. Pruridos tardo-coloniais aqui do tuga, temeroso de um Mozambique futuro? Nada mesmo! Nada mesmo! Desgosta-me sim a arrogância de quem aqui expõe e não se digna a traduzir para uma língua nacional: "To whom it is codfish is enough". Não há atrasos que justifiquem isto, apenas desinteresse. Mesmo que a exposição seja virada para um "beautiful people" cuja beleza é (apenas) o esbranquiçado da pele. Haja, pelo menos, o simulacro do respeito. Seja lá onde se expõe.
"An Eye for diversity"? A diferença dos outros...traduz-se por via destes passos.
Nem os franceses por cá fazem isso.
Enfim, o elo está aí, as fotografias são bonitas. Bonitas, pronto.
Hoje, ao volante, lembrei-me da história daquele urânio, empobrecido ou enriquecido já nem sei. Como é que terão ficado? As conclusões, claro.
Ao fim destes meses de blog confesso-me algo cansado. Talvez mais desiludido do que cansado, desiludido com aquilo a que se chama a "blogosfera". Tanta gente a escrever e alguma pequenez de horizontes. Meia-dúzia de temas recorrentes, sistemáticos: bush e iraque (+/-), o governo e o -BE (+/-), uns poemitas ali uns contitos acolá, uns mais afoitos na lenga-lenga africana, gaza e marranos, e o futebol, e pouco mais. P. ex. agora todos falam de bola, da selecção, do Baía, etc.
Acabo de levantar temática interessante, e ninguém liga, presos ao rame-rame. Mas não desisto. Insisto, acho que há espaço para novas problemáticas. Mesmo que limitado pela minha ignorância sobre a matéria: não deveria ser a "blogosfera" um sítio de aprendizagem?
Deste modo aqui coloco o que realmente interessa. Como será? Mais ou menos deste tipo?


Ou um pouco mais moderno?


Terá mangas? Que comprimento terá a cauda? Qual o tom do branco?
Temas prementes. Temas a exigir tomadas de posição, ainda que um pouco tardias. Temas até a apelar a algum risco opinativo, assumir concepções próprias antes do acontecimento. Porque depois, criticar depois, isso é fácil.
Enfim, quem dera uma blogosfera menos entretida com minudências.
[Fotografias e desenhos copiadas de
Madalena Braz Teixeira (coord.), s/d, Traje de Noiva 1800-2000, Lisboa, Instituto Português de Museus ]
já agora, e a propósito de desfile, algum leitor tem informações sobre o vestido da noiva. arde-se de curiosidade por aqui...
Anda animada uma das subsecções da blogosfera que frequento: o Bota incarnou o Richelieu, o Tugir fez-se Athos, e o sangue ameça jorrar por via de amores nobres.
Só temo que as tropas desavindas se aboletem cá pelo albergue, vazando-me celeiro e adega, partindo-me o balcão, cavalgando-me as colheitas, arrebanhando-me as empregadas. Para prejuízo já basta o vestido novo da senhora e o remendo no gibão mais as meias-solas, tudo isso para irmos assistir ao desfile.

"Estes homens da cor de cabrito esfolado que hoje aplaudis entrarão nas vossas aldeias com o barulho das suas armas e o chicote do comprimento da jibóia. Chamarão pessoa por pessoa, registando-vos em papéis que ... vos aprisionarão. Os nomes que vêem dos vossos antepassados esquecidos morrerão por todo o sempre, porque dar-vos-ão os nomes que bem lhes aprouver, chamando-vos merda e vocês agradecendo. Exigir-vos-ão papéis até na retrete, como se não bastasse a palavra, a palavra que vem dos nossos antepassados, a palavra que impôs a ordem nestas terras sem ordem, a palavra que tirou crianças dos ventres das vossas mães e mulheres. O papel com rabiscos norteará a vossa vida e a vossa morte, filhos das trevas".
[O último discurso de Ngungunhanhe, segundo Ungulani Ba Ka Khosa, Ualalapi, Associação dos Escritores Moçambicanos, 2ª edição, p. 118]