abril 30, 2004

Praça na Beira

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Foi na minha primeira vez na Beira. Numa praça bem central como monumento a estátua da Coca-Cola, ali permitida em troca do restauro efectuado.

Magnífica simbologia. Derrubada a iconografia colonial, então em stand-by os símbolos nacionais, com o abandono do comunismo e o advento do multipartidarismo. E assim o Estado a hesitar nos caminhos rituais, a assumir como seus os símbolos ícones do consumo: a praça da Coca-Cola.

A imagem aqui valendo um ensaio todo.

Publicado por JPT em 04:22 PM | Comentários (5) | TrackBack

Descolonização: ainda e ponto final parágrafo

Nestes últimos meses em Portugal falou-se de descolonização. Também no bloguismo isso soou.

Cada vez menos acredito em sínteses. Cada vez mais acredito em complicações. Ainda mais em matérias como estas, onde tantas "certezas" existem. Ainda para mais em matérias como estas, que para muitos de nada valem a não ser como barro para moldar o presente.

Então, e face a tantas "certezas" e tão pouca importância do assunto, para quê continuar a falar, para quê procurar "complicar", desvendar?

Não há dúvida, há que simplificar, abreviar. Mas como se de tão difícil síntese? Opte-se. Opte-se por uma versão.

aqui, e se quiser consulte ainda aqui. Depois passe por aqui.

É certo que não estão a falar dos mesmos factos, das mesmas épocas históricas. Nem do mesmo mundo, diria. E também que não escrevem na mesma língua.

Mas acredito que o leitor consiga fazer uma analogia e, ainda, seja minimamente poliglota.

Leia e opte. Porque não há conciliação possível.

Estou a falar de qué? Descolonização? Não, isso já era. Agora é coisa séria...estou mesmo a falar da minha ética. E de Razão.

Opte, porque não há ponte possível. E saiba, que é em momentos como estes, até pequeninos, que sabemos, que provamos, que o universalismo é impossível.

Pois "eles" (sejam lá quem forem) não nos (e nós quem somos?) querem compreender. E nós (idem) também não os (aspas) compreendemos.

Vale-me às vezes ser "nós" às vezes ser "eles"! Mas há limites: bem burgueses os meus, os da decência. E, neste caso como noutros, são "eles" apenas e radicalmente indecentes.

Nada mais, tudo isso. E cansam. Enjoam, até. Mas atenção, "estes eles" nunca se enjoam. Mascam...

Adenda: um posteiro veio à liça chamando-me eliptico, querendo chave. Então lá vai, qual antropólogo:

Era uma vez um antropólogo conhecido que escreveu algo como (e vai de memória): "bárbaros são aqueles que acreditam na existência de bárbaros".

Eu sou um bárbaro. Desses.

Publicado por JPT em 12:52 AM | Comentários (3) | TrackBack

Roupa Velha 15: As Estradas do Niassa

Entre Congerenge e Mandimba são 40 kms a subir via oeste, todos entre milho, mato e tabaco, tendo pela frente, intrometidas no caminho para o sol, essas montanhas Malawi. Mas se se estiver a fugir do norte, rumo a oeste também, é ainda mais bela a rota, coisas de descer para as montanhas. Venha-se de onde vier é sempre má a estrada, boa para cautelas e vagares, os quais vão demorando o entranhar desse horizonte azul acastanhado. Convém viajar cansado, pois ali quanto maior for a exaustão mais cada um vai acreditando nos seus deuses, se os tiver, ou pelo menos na felicidade, se daqueles estiver privado. Como se algo fosse existir lá em Mandimba.

Mas não, talvez alguns ídolos quanto muito. Água nos canos, a surpresa por a haver onde é, e electricidade. Abençoada, que ainda refresca as cervejas, e que vai deixando a roufenha discoteca a céu aberto, as ténues luzes chamando milhentos mosquitos, "pagas uma bebida, tio?", putas de fronteira neste ermo, "claro, mana", "pagas também à minha prima?", "vá lá, uma rodada", Castles que são aqui um elixir de velhice, meninas pesadas, tão cansadas já andam elas nestas noites, "vieste viver aqui, tio?", e eu envelhecendo com elas, "vá lá, bebe a cerveja", até que algum assimilado venha dizer para não incomodarem o senhor doutor, que raio sempre são putas de ermo, sem ver que já são fronteiras do meu carinho. "Que andamos a fazer às sobrinhas?" pergunto a um velho chefe de aldeia, e ele a lamentar-se, essas mulheres que não respeitam os ensinamentos, fogem da machamba, vão-se vender nos mercados, os homens que compram, e todos aceitam, "é a democracia", conclui desiludido. "Não será a machamba?", não lho pergunto eu, ou não será tudo a mesma coisa?, respondo-me agora que já ouvi esses jovens, secos, "os nossos estudos acabam no capim!".

Num coito da estrada um colega gringo, quatro anos bem mais a sul em programas de luta contra a doença, resmungando que é uma batalha perdida, que ninguém se protege, são os velhos hábitos e a pobreza, e agora tudo isso reforçado pelo brotar destas igrejas cristãs, elas próprias crescendo também pelo pavor da praga, uma nova morte toda-poderosa, pastores pastoreando contra o fumo, o álcool e as camisinhas, o pacote de pecados. Nem interessa se as estatísticas são exactas ou exageradas, seja como for passeamo-nos por aqui dizendo-nos a desenvolver este mundo, por ora feito de mortos-vivos. É ele mesmo que fala, não o alcool da desilusão, uma mera coca-cola na mão, nega que qualquer campanha valha como prevenção, nada disso está a funcionar e, súbito, desgringa-se todo, que o que resta fazer é distribuir esses novos medicamentos por toda África, é a única forma de aguentar isto até se chegar à cura. "E há dinheiro?", provoca o cínico, e ele de filho-da-puta para cima sobre os gajos do Banco Mundial, a insistirem na prevenção porque isso dos medicamentos lhes sairia caro, mesmo que os indianos se ofereçam para os fazer três vezes mais baratos do que as nossas (dele) indústrias. "Caro?, tanto como uma guerrazinha no Afeganistão", vai acabando ele e o nosso tempo. Que tenha cuidado, se continua com este tralálá ainda o expulsam lá do midwest dele.

Quero surpreendê-lo com novidades aqui do Niassa sobre o assunto, onde a população crê que a doença se apanha mesmo é através das camisinhas, vem nesse líquido que as lubrifica. Bem racional é esta visão, o empirismo do agricultor, pois se antes delas chegarem não havia doença como não lhes atribuir a praga? Encolhe os ombros, lá mais a sul também há a mesma crença, e todos as evitam. O que fazer?, ele vai pagando os novos medicamentos, caros de mil dolares/ano, a dois amigos moçambicanos, outros colegas dele também o fazem: antes as más consciências tinham o seu pobrezinho privativo, agora passaremos a ter o nosso doentezito só nosso. Mas poderemos fazer algo mais do que trocar alguns anos de vida alheia pelo lugar num céu qualquer?

Avanço, saio da terra batida nacional e logo, logo, começam os verdadeiros problemas, como andar por aqui? No Maputo todos, changanas ou expatriados, aconselham cuidados vários com as doenças do Niassa, evitar a água, fugir aos pântanos e rios, às noites e canaviais, que trazem malárias e bilharziose, e outras maleitas. Mas quem assim avisa terá por aqui passado?, como seguir os conselhos se de imediato nos atolamos, e este ano ainda mal começou a chover? E são horas dentro de pântanos, riachos, da lama, e todos a empurrar, sorte que sempre vai chegando o povo, e assim se juntam as dezenas de homens necessários para que se possa avançar mais um pouco, gente tão isolada que ainda de ajuda fácil. Por aqui não há carros a passar, não é apenas o estado das estradas que o diz, são mesmo os condutores, é óbvio que não andam por aqui, tão desabituados que atolam em sítios onde nem mesmo eu me ficaria.

Numa aldeia peço água para lavar toda esta lama. Acorre o intérprete "não vá ao poço", e eu ofendido "claro que não", "achas que sou parvo ou quê?", mas isso já não lho digo. Que raio de ideia, um estranho a ir para o poço local é mesmo pedir problemas. Mas logo ele se desculpa. Que o ano passado por aqui houve uma epidemia de cólera, "sim, eu sei, foi terrível". E claro, logo vieram os prestáveis socorristas, prontos a sensibilizar a população para cuidados variados. Então, ali em Marrupa, um patrício meu, "decerto cooperante", resmungarei, se de ong se de Estado não sabiam, mal chegou onde os aldeões morriam de borrados correu a fotografar o poço, para pôr no relatório ou mostrar à mulherzinha nunca saberei. Claro está que, envenenador, foi bem batido, directo para o hospital. Mas quem manda estes idiotas?

Paro, devagar, numa aldeia Yao, coisas de antropólogo e dos seus velhos livros, lembrando um tipo que andou por aqui há muito tempo a ver e a escrever bem, esse Clyde Mitchell. E há bem menos anos também passaram uns evangelistas ambulantes a projectar filmes sobre a bíblia, como se a imagem em movimento fosse mais forte que o islão local. Enquanto os meus parceiros tratam dos seus afazeres encosto a uma sombra, logo rodeado de dezenas de crianças como por aqui sempre acontece, curiosos que a gente da minha cor não tem aparecido. Olhos bem abertos vão eles murmurando e, de repente, sai uma gargalhada entre os meus acompanhantes, "que foi?", pergunto, e eles com sorrisos do tamanho do mundo a dizerem-me que ali julgam que pareço "iesso", "o quê?", que os miúdos me acham igual a Jesus. Nem preciso do espelho para saber que o meu riso de ateu sai estúpido de ternura.

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Se já a cidadezinha é recôndita o que não dizer destas perdidas aldeias, tudo isto longe do mundo que mexe, dos seus andares e conflitos, este um outro mundo parecendo desprovido de informação e saberes. Em cada sítio logo visito os pobres mercados, o piscar do olho à economia local, a sentir como se é por ali. Por todo o lado à minha passagem raros são os apelos ao negócio que pouco há para vender, e sempre me seguem os mesmos rumores, a mesma ironia espantando o espanto da minha presença, e a qual deixo correr nas minhas costas, o que dizer? Só na noite me confrontam ostensivamente com ela, entrando em casa soa no escuro o grito provocador: "Bin Laden, Áfinal,... você está aqui!?". A globalização?

Uma sede administrativa, mais de trinta casas de alvenaria, quase todas abandonadas porque propriedade dos Caminhos de Ferro de Moçambique, que prefere arruiná-las a cedê-las. Uma delas é a cantina, vazia, de Saíde Jonasse, avantajado machambeiro em região de gente esquálida, mais gordo até do que eu, um barbudo muçulmano de olho em todos estes meticais que me dou ao trabalho de transportar. Entro para almoçar, pôs-nos a melhor toalha, um plástico com uma fotomontagem berrante de colorida. Encimada pelo horizonte de Manhattan está uma praia tropical, coral e palmeiras, uma estranheza made in Japan, "calamidade" decerto, e da qual desconhece o conteúdo. Divertido, pelo absurdo do estampado, e por ver o ignorante orgulho com que me põe a rija galinha sobre as falecidas "Torres Gémeas", digo-lho e sai em alvoroço, lá na cidade já tinha ouvido falar do assunto. Ainda duvida, mas depois pede-me uma fotografia, não lha posso negar, sentado, o cotovelo pousado no coral tropical, a mão nas torres que já não o são.


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A galinha do dia seguinte já a como no tampo de madeira.

O Chitengue, breve afluente do Lugenda, uma pequena picada que o bordeja, estreito caminho de andarilho ou, quanto muito, de bicicleta. Entre o canavial e o bananal um sol de tarde moribunda inunda o amarelo dos frutos enquanto faísca nos charcos. No caminho, barrada pelo carro, surge uma muito bela mulher, chapéu de sol arco-íris como é aqui usual, capulanas garridas ocres e amarelas. Não resisto a roubar-lhe a beleza exótica, todas aquelas cores enroladas em bananas luzidias, mas mal abro a porta logo ela foge, corre desabrida até que a percamos de vista, aos gritos "é a morte, é a morte!!", traduzem rindo os meus companheiros. Serei assim tão feio? que espelho fui aqui encontrar, do físico ou da alma não me apercebi. Um pouco à frente encontramo-la já acompanhada por um homem, e todos a sossegam, desfaço-me em desculpas. Aí, diante dos elogios à sua beldade, digna-se a pousar agora fazendo-se sedutora e eu, nu de tontos pruridos, saio contente com o estereótipo apanhado, como se meu antepassado fosse.


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Marchamos para a aldeia Namicoyo, ladeando um riacho, o capim abraçando a picada, e como sempre que se trata de andar vou ficando para trás. Lá à frente, escondidos por uma curva, os meus acompanhantes cruzam um grupo vindo das machambas, percebo-o pelos inúmeros "salaama" que se trocam. Quando avisto o velho que marcha à frente da sua gente saúdo-o, mas ele estanca sem aceitar este meu "salaama", que "aqui não há salaama", e eu sem perceber, "aqui há fome, ouviu", diz-me em português, "agora há fome!". Eu, institivamente, abro os braços algo aparvalhado pela investida, como que reclamando a minha inocência, desculpando-me da fome, tal como se tivesse quaisquer divinos poderes sobre essa chuva que chegou meio tarde para o milho, e ele insiste, "há fome, vá dizer isso", e eu a ver-me, estúpido, de braços e olhos abertos. Nem lho respondo, mas que tenho eu a ver com o clima?, o "fazedor de chuva" quanto muito é ele ou o seu chefe, nunca eu. Dá-me as costas, e lá vai com a família, deixando-me a resmungar a minha óbvia impotência, mas que raio, maior do que a dele.

Nas estradas campos e campos de tabaco, é aqui que se faz o que me vai matando. Para obterem um pouco de dinheiro os camponeses cultivam-no e descuram o milho, que o trabalho não é elástico e tem limite. Depois, lá mais para a frente, logo antes da época da colheita, gastam esse pouco dinheiro para comprarem, então bem caro, o milho que precisam para comer. Custa gerir o equilíbrio das culturas, o das reservas e ainda mais o das expectativas. Ah, e é aqui impossível gerir o equilíbrio dos preços pagos pelas companhias, ditados por uns tais de mercados mundiais. Enfim, lá vão eles, quase sempre a perder, dir-se-ia, se não parecesse cinismo.

Portanto há que organizar e trabalhar melhor, e para isso lá se chamam os tipos do Desenvolvimento, e eis-me aqui aos dolares. Hoje acompanho um regente agrícola, gente do sul, estudos no estrangeiro, saberes complexos. Jovem ainda, barriguinha quase tanta como a minha, mas um rabo maior, assim sendo um S de cintura mais vincado que o meu. Caminhamos uma manhã pelas machambas a par dos seus cultivadores. Contente, frenético, vai protestando com a falta de qualidade das culturas, o mau trabalho, a fita métrica saindo-lhe amíude do bolso de trás, quase tão rápida como as suas palavras, medindo a incorrecta separação entre as plantas, invectivando a uma melhor organização, e os camponeses sempre aceitando as suas opiniões, ele sorridente, rápido, pedagógico, o seu S mexendo-se mais rápido do que todos nós.

Simpático, partilhamos um cigarro, enquanto lamenta a incapacidade dos camponeses, que este sistema não funciona, nem conseguem articular as produções nem aumentar a produtividade. E para isso é necessário investir, resumindo, há que privatizar a terra para que haja investimento, crescimento. Ainda lhe pergunto se esta gente terá capacidade de o fazer e de o gerir, e ele sorri, veterano já, "Nada, estes não conseguem", e enquanto eu procuro saber o que lhes acontecerá nesses privatizados dias, logo feitos os sem-terra daqui, ele nada diz pois já partiu, a fita métrica de novo aberta entre o feijão-boer, provando numérica e metricamente o erro feito por este homem, o qual com ele vai concordando, acenando a sua anuência, em outra língua é certo: ali, face às colinas, lembro-me da velha expressão "tá bem, abelha!", mas como traduzi-la se nem eu mesmo a compreendo bem.

Por falar em Desenvolvimento alguém passou por Mezito e ofereceu uma moageira a um outro alguém a quem chamou "comunidade". Entretanto houve alguns problemas e a aldeia decidiu afastar os dois moleiros. Fez-se reunião da população e indignados ficaram os acusados, ainda para mais porque o guarda não seria despedido. E do afastamento deste seu colega não prescindiam, como se a vergonha do castigo fosse maior se não fosse este universal. Mas não foi esse o entendimento colectivo e, vingativo, logo ali um moleiro ameaçou publicamente o guarda de que "não passas deste ano, hás-de morrer em breve".

Mas João Bitong não se cuidou do feitiço, ficou no seu posto, que ainda lhe rende algum e será menos pesado do que o dia-a-dia de machamba, e desta se ocuparia a sua mulher. Pois em breve, no regresso a casa, foi atacado por bicho estranho, ouvi dizer que leão-homem, mas ele nega, era antes uma mistura de leopardo e lobo, este último animal por aqui inexistente. Sorte dele, conseguiu lutar com esta fera encomendada e fugir-lhe para a sua aldeia, mas agora desfeado já sem nariz e boca, tal como o vim encontrar meses depois. Grave a situação, logo sete homens o transportaram até ao régulo, de onde seguiu para o hospital onde ficaria vários meses, entre vida e morte. Mas logo nessa noite o bicho, vingativo, assaltou e feriu todos esses sete homens, só sendo apanhado quando sorrateiro penetrava em casa do chefe, aí sendo morto pela população e logo queimado.

Vou falar com Bitong e os outros, que me contam a história, pormenores lancinantes de terror e sofrimento. Fotografo as feridas, ouço os vários intervenientes, como negar a homologia das versões? Prova provada do feitiço, não chega a observação? Ou arvorar o racionalismo contra a empiria? E então regresso, detectivesco, ao moleiro "o que lhe aconteceu"? Pois foi decidido nada fazer, esperar o regresso de Bitong, meses lá na distante Lichinga, sarando uma cara agora irreconhecível. Mas no entretanto alguém, não se sabe quem, não se conteve em vingar a beleza e saúde de sinistrado, e logo o dito moleiro morreu na machamba, ele a desmatar e de uma árvore que abatia caiu-lhe na cabeça um forte ramo, fulminando-o. Espantoso, por aqui nunca nada de semelhante tinha acontecido, nunca se tinha ouvido. Fico-me com esta prova de feitiço, para mim chega, para lá da teoria.

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Mas também me hei-de lembrar, que raio de projecto de desenvolvimento que no seu mau desenho criou um monstro, provocando mortos e feridos entre quem tanto queria ajudar. Metáfora?

Passo pelas aldeias, peço para falar, marca-se o dia e a hora, hei-de regressar sempre atrasado, devido às conversas arrastadas e às tais estradas que demoram. Mas as gentes esperam, esperam, prontos para falar, para assistir ao meu rápido voo para depois ir dizer como se organizam eles. Certo que estão prontos para dizer o que querem dizer, e lá vamos para o jogo de os levar a dizer o pouco mais, xadrez puro. Mas jogando com quem esperou horas, paciência de agricultor, apenas para falar comigo.

Por vezes sou esperado por dezenas de pessoas, como se entrevistam 150 pessoas todas juntas, à espera de uma "brigada" do qual sou brigadeiro e soldado? Não há dúvida, escondido por esta cor, engano à chegada, criam-se expectativas, quantas vezes não esperam que apenas venha perguntar, mas sim que chegue com instruções, benesses, convocatórias para trabalho ou, mais do que tudo, distribuir as sementes que faltam, que faltam sementes aos agricultores. Sinto-me não um investigador, mas mais um desiludidor. Enfim, não há dúvida que para estes trabalhos é fácil ser antropólogo em África, eles esperam. Mas homem, ser homem, é fodido.

Lá mais para a cidade outros falam, os das actuais ou antigas administrações, alguns transitados para as ongs ou empresas, outros nos seus negócios, gente arrastada para aqui e que ficou, por escolha e mulheres, vinte anos e mais numa terra onde se sentem livres e em casa. Parvo, pergunto a um manhambane "o que faz você tão longe da sua terra?", e levo por medida grande, "ora, bolas, e você?", e calo-me rindo. São estes que contam histórias mais antigas, de quando tinham sido jovens, tempos em que chegavam cheios os aviões e camiões, largando as pessoas nas empresas agrícolas, nas aldeias, porque por alguma razão decididas como improdutivas, e toca a transformar esses citadinos em machambeiros, custe o que custar. Mas às vezes, porque não havia sítio planeado para os deixar, ou apenas por fastio, deixavam-nos no meio do mato, grupos de gente lá da cidade, perdidos, depois desaparecidos sem rasto, "pasto de leões". "Porque não contam essas histórias?", digo, entre goles, "para quê?, ninguém quer ouvi-las...", abandonam-nas eles.

E bebemos mais um whisky, bebamo-lo, que chega de neo-realismo.

Março, 2002

Publicado por JPT em 12:51 AM | Comentários (8) | TrackBack

abril 29, 2004

Outros elos

À direita ou abaixo, conforme o ecrã, poderão ver mudanças na aldeia. Chegou gente e alguma mudou de casa.

Publicado por JPT em 06:04 PM | Comentários (1) | TrackBack

Arma da reacção?

O Poder é simbólico. Teatraliza-se, não por falsidade mas por essência.
Discordância com a História sim, desrespeito não. Esta passou das marcas, conscientemente. Tal e qual um menino...ou um arrivista. Ou ambos.


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Publicado por JPT em 05:43 PM | Comentários (0) | TrackBack

Selecção Nacional de Futebol(Bis)

No dia 1 de Abril botei isto e não era mentira; hoje repito-o, pois não tenho mais nada para acrescentar. E juro que não me vou irritar mais com a bola.

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[espero vir a engolir este apontamento...]

1. O futebol é um exagero português. O Euro-04 é uma imbecilidade portuguesa.

2. O presidente da federação é uma incongruência. Sempre o foi, mas a barracada coreana demonstrou aos mais distraídos a sua ridícula incompetência. E a sua indignidade arrogante: não se demitiu e respondeu às críticas com um relatório de 69 pontos. Um insulto para os aficionados, um escárnio para quem lhe financia a aventura organizativa.

Para sobreviver - apenas para isso - foi buscar Scolari. Prova disso é que já tinha outro treinador convidado. A contratação de Scolari foi em desespero de causa.

3. A selecção jogava melhor (e já eram apenas jogos-treino) com Agostinho Oliveira. Jogava melhor, rematava mais (Scolari chegou e disse que era preciso rematar mais, e vê-se o resultado) e até marcava mais.

Mais de um ano depois a selecção joga mal, sempre. Há tontos, como Gabriel Alves, que dizem que em Maio o seleccionador "terá vinte dias para preparar a equipa": vinte dias? E até agora, que se fez?

Se o homem fosse português todos exigiriam a demissão de Scolari. Há muito.
Como é estrangeiro aguentam, na expectativa.

4. Como cidadão e como emigrante prefiro o provincianismo a qualquer xenofobia. Mas não há dúvida, toda esta tontice destapa um país de provincianos.

PS. Madaíl foi governador-civil e deputado da República. E voltará a sê-lo, acredito. Pois opróbrio não é do léxico político.

Publicado por JPT em 01:58 AM | Comentários (4) | TrackBack

abril 27, 2004

Novos Elos láaá

Lá no Láaá acrescentei alguns elos. Por láaá há imensos blogs, por vezes faltam-me as referências para os interpretar - o que prova que só por si a língua não chega. Uma escolha entre alguns que tenho visitado, que poderão também ser pisteiros para quem queira entrar mais para láaá.

Então aí estão desde agora o Erros de Semântica [nome apropriado para as minhas investidas naquele mundo], Cinema Cuspido, o Letteri Cafe, o Bambu Oco, o Nunca Plantávamos Coentros (ideia com a qual esta machamba não concorda, pois desde que medre...) e o Ao Mirante, Nelson. E, para rematar, o completissimo No Mínimo.

Visitem, se quiserem claro está.

Publicado por JPT em 03:43 PM | Comentários (4) | TrackBack

Gente de tarimba

Poder-se-ia dizer a tanto luso-bloguista para ler isto. Tão preocupados andam eles com o Iraque, tão adeptos de um tipo que é apenas o presidente de outro país. E já agora também a alguns jornalistas.

É muito interessante, até porque rarissimo onde é. Um conjunto de experts do funcionalismo, gente com tarimba de terreno a dizerem a Blair que está errado e para abrir olhos.

Estes não serão pró-soviéticos, perdão, anti-americanos. Apenas tarimbados.

Belo início de manhã

Publicado por JPT em 09:30 AM | Comentários (1) | TrackBack

A Idade. A Ignorância

A idade não me fez arrogante, como a tantos. Arrogante fui-o. E depois veio essa idade a rodear-me de espelhos, postados por todo o lado a mostrarem-me. Implacáveis...

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Com a idade deixei de ler as introduções dos livros, passo directo ao autor. Para resumos faço os meus. Erro, mais um dos vários.

Mostra-mo o Jaime Santos, a partilhar o whisky comigo, rouba-me o Gellner que trouxe a passear e lê a primeira frase do "Prefácio do Editor". "Porra" arrasta ele, "grande frase", "hum" digo eu, envergonhado de descobertas alheias nas minhas coisas. Pois cita ele, diseur ainda para mais, o tal Moore a abrir a cena: "A ignorância tem muitas formas e todas elas perigosas".

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Hum, atendendo a muito do que se bloglê é bem adequado para época de efemérides.

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A idade não me fez arrogante, como a tantos. Arrogante fui-o. E depois veio essa idade a rodear-me de espelhos, postados por todo o lado a mostrarem-me. Implacáveis...

Publicado por JPT em 02:37 AM | Comentários (3) | TrackBack

abril 26, 2004

Uma visão de Portugal

[Se não tiver tempo/paciência para ler este texto, que é tentativa de contextualização, siga sff directo à transcrição de parcela de carta de leitor do jornal “Notícias”, “Historieta portuguesa”. Uma pérola, garanto. Hilariante]

Uma das componentes mais interessantes do diário "Notícias" é sua secção "Cartas dos Leitores". Vários assuntos são aí abordados, em especial sociais e políticos. A secção é um belo barómetro da situação política do país, acho-a um universo documental riquissimo para a análise da história recente. Mas a sua interpretação exigirá a análise das estratégias de autoria.

Surgem cartas assinadas pelos leitores, como é óbvio. Muitas outras sob pseudónimos. Alguns recorrentes e até reconhecíveis. Outros incógnitos (ou seja, anónimos). Dizem-me que por vezes esses pseudónimos desconhecidos são utilizados por elementos da própria redacção, ou por colaboradores muito próximos. Não o posso garantir, apenas transcrever uma opinião corrente no público leitor e até no meio profissional jornalístico.

Esta questão da autoria liga-se com os objectivos finais das comunicações. O não assumir público dos escritos prender-se-á com dois factores: o cuidado do cidadão que quer opinar ou denunciar mas que não se quer ver envolvido em questiúnculas; e, bem mais subtil, o possibilitar ao jornal “Notícias” veicular factos e opiniões algo distintas da linha editorial que quer explícita.

Entre outros há dois aspectos que quero aqui realçar:

1. a recorrência com que textos sobre questões políticas surgem assinados por pseudónimos (reconhecíveis ou não) radicalmente bantus. [a questão dos nomes nunca poderá ser entendida se não se considerar a prática de atribuição forçada de nomes “cristãos” por parte da administração colonial]

Não posso deixar de associar esta prática à tentativa de criação de uma autoria especificamente africana, isenta das influências portuguesas-coloniais, insuspeita de qualquer “assimilação” colonial ou pós-colonial. Ou seja, a imagem de uma voz absolutamente africana, uma visão essencial, não contaminada. Em suma, uma africanidade não corrompida pela modernidade “assimilacionista”, de teor colonial ou globalizada. A voz de África, a voz de um Moçambique puro e, portanto, legítima nas suas opiniões.

Entenda-se, ainda que prefira ver os textos identificados acho este recurso retórico legítimo. Mesmo que critique, intelectualmente, a visão essencialista que lhe está na origem.

Mas não posso deixar de notar um facto paradoxal. Alguns destes escritos implicam ainda uma estratégia de simplificação. Não tanto da escrita, mas sim um empobrecimento do conteúdo, algo que o calão moçambicano poderia chamar de “confusionismo”. Ou seja, há uma construída ligação de ignorância e da tal “pureza africana”, que se produz através da diminuição do saber do próprio autor. Que põe o pseudónimo a escrever sob uma espécie de “pretoguês” intelectual, como se o tal “essencial” autor local fosse incapaz de um efectivo conhecimento da realidade global, que ultrapasse os seus limites empíricos.

Involuntariamente decerto, temos nestes textos um dramático exemplo de (auto)racismo, um racismo de classe evidente, no qual os autores, letrados moçambicanos, desvalorizam as potencialidades cognitivas do seu próprio povo, se rural, se não-assimilado

2. a recorrente presença do tema “Portugal”, com o ex-colono surgindo como objecto de polémica. Quanto à História colonial, quanto à actual presença aqui de interesses e cidadãos portugueses. É normal, a relação colonial deixou uma difícil herança, estranho seria o contrário.

Mas o tema “Portugal” serve ainda para a discussão política, é por vezes matéria-prima para a argumentação da vida política interna, e amíude com notório exagero da actual influência portuguesa em Moçambique.

Muito francamente duvido da efectiva eficiência deste tipo de argumentação, o da afirmação de laços particulares de alguns grupos sociais, políticos, religiosos moçambicanos com interesses portugueses. Nem que seja pelo facto da maioria da população moçambicana já não ter como referência existencial o colonialismo. E até pelas dificuldades do quotidiano, este já tão distante dessa realidade histórica.

Vem isto a propósito de uma deliciosa e paradigmática carta de leitor (sob pseudónimo) publicada em duas partes (17 e 19 de Abril de 2004), carta de apoio a um dos partidos políticos e crítica de um outro. Mas também crítica da presença portuguesa e das relações havidas com forças políticas locais. E, também, crítica dos assimilados, considerados como tendencialmente próximos do partido adversário.

Abaixo transcrevo a sua parte introdutória, “Historieta Portuguesa”. Por ela se afirma a raíz das dificuldades moçambicanas, a mediocridade do colonialismo português. E também a dos assimilados. Ambos passíveis de apoiar o partido adversário.

Paradigmática carta pois ao ler a deliciosa prosa é óbvio que o seu autor domina a história de Portugal e que a aprendeu pela cartilha do Estado Novo, percebe-se pelos factos invocados e pela linguagem utilizada. Será portanto, na linguagem local, um “assimilado”. Mas deliberadamente tudo confunde para se livrar desse epíteto, assim ainda legitimando a crítica a essa hoje já abstracta entidade “assimilado”.

[Esta minha conclusão após ler e fruir a carta foi-me confirmada por várias pessoas que identificam o autor. Aliás frequentador habitual da esplanada da Associação de Escritores, pelo que muito provavelmente já partilhámos mesa e até bebidas]

Finalmente não posso deixar de sublinhar um ponto espantoso: a carta, um verdadeiro texto pós-moderno como afirmava uma amiga minha, apresenta uma concepção original da expansão portuguesa (e ibérica, já agora). Tudo derivou da busca de afrodisíacos. Freud não diria melhor.

Façam favor, leiam "Historieta Portuguesa" (minha transcrição, todos os erros que não estejam assinalados com sic são da minha responsabilidade)


Atitudes e Comportamentos Ridículos
Kandayane Wa Matuva Kandiya
Notícias, 17 de Abril de 2004

1. Historieta Portuguesa

Uma das piores senão a pior desgraça que há cinco séculos abateu o Povo Moçambicano, foi o de ter sido colonizado por portugueses.

Oriundos de um pequenino país da Europa, produto da fusão de vários povos, acabaram sendo conhecidos por Lusitanos.

Encravado no extremo sudeste [sic] da Península Ibérica, Portugal foi várias vezes feito colónia ou província Castelhana, depois de ter sido sucessivamente esgravatado por Iberos, Celtas, Fenícios, Gregos, Cartagineses, Romanos, Vândalos, Suevos, Alanos, Visigodos, e por fim ainda hoje se podem encontrar naquele país, vestígios dos seus últimos colonizadores, os Muçulmanos, também conhecidos nessa época por Sarracenos, Árabes, Maometanos e Mouros.

Trazendo consigo recalcamentos de vários sofrimentos não podiam ter encontrado melhor campo para descarregar e semear as suas mágoas, as desilusões e enfim a sua fúria senão no pobre Povo Moçambicano.

Mal se tornou independente da Espanha pelo tratado de Zamora assinado entre D. Afonso Henriques e o Rei de Espanha lá para os anos 1149 por aí, e apercebendo-se da sua pequenez no tamanho e na forma, Portugal decidiu desde logo tornar-se grande à custa de conquistar, subjugar e dividir para reinar outros povos, imitando os seus anteriores suseranos romanos e, pedaço a pedaço, os "Tugas" como hoje são apelidados formaram um "grande império português" que, partindo da praia do Restelo iniciou uma marcha longa cujo destino seria a Índia, contornando e conquistando quase todos os povos da parte ocidental do Continente Africano, desembocando depois em Moçambique.

Quer dizer, o conceito de poder e grandeza para os portugueses de então, não era em termos de possuir ou armazenar riqueza, tal como ouro, carvão ou gás de Moçambique que sempre jazeram no subsolo inexploráveis (sic), muito menos o petróleo ou os diamantes angolanos que também sempre existiram, mas apenas e só apenas descobrir o caminho marítimo para a Índia, para de lá carregar para Europa piri-piri e outras especiarias culinárias, tais como gegimbre (sic), açafrão, colorau servindo apenas de entreposto comercial! Ridículo não é?

Mas foi assim mesmo: a noção de riqueza e grandeza para os portugueses de então, não consistia na busca e/ou descoberta e estar sobre o seu domínio as areias pesadas de Angoche, Moebase e Chibuto em Moçambique, Mancarra, olém de dedém ou borracha da Guiné, cacau em São Tomé e Príncipe, ou pelo menos algumas palancas em Angola que fariam delirar de encanto aos (sic) visitantes do Jardim Zoológico de Lisboa, não senhor!

Apenas e só apenas espezinhar outros povos e levar para Portugal, pimenta, cravo e títulos honoríficos para os seus reis. Por exemplo, um dos seus reis o Rei D. João II, quiçá o mais sanguinário dos reis portugueses, teve a alcunha ou o cognome de "Princípe Perfeito", após ter ordenado o abate de muitos dos seus adversários, mandando igualmente ao cadafalso o Duque de Bragança e apunhalado com as suas próprias mãos o Duque de Viseu e assim ficou Rei e Senhor absoluto de tudo, passando depois a usar pomposamente os títulos de "Rei de Portugal e dos Algarves, d'aquém e d'além mar em África, Senhor da Guiné, da Conquista e Navegação, da Etiópia, Arábia, Pérsia e Índia".

Assim, El-Rei, ficava sumptuoso e altivamente arrogante gabaroso e amalham (sic) ao ponto de "chutar" alguns poderes para os seus "vice-reis" lá para as Índias, após ter descoberto o tão almejado caminho marítimo e levar a Lisboa, malaguetas e outros afrodisíacos!

Com este tipo de colonizadores, outra sorte não podia nos calhar senão a pior.

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Comentário

A propósito do meu anterior e irado apontamento "Espanto" um visitante deixou um comentário que me cumula de "mimos" (sic) do qual o mais incómodo e imerecido é decerto o "amigo" que me dedica (mesmo que irónico).

Não posso deixar de me surpreender: ainda que auto-proclamado "nacionalista" assina em inglês assumindo uma personagem alemã. Não há dúvida, o peso da globalização é implacável. Ou, talvez mesmo, o do europeísmo.

Abençoados sincretismos, assim a minarem os irredutíveis.

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abril 25, 2004

Colónias Balneares

"Da Ilha regressam amigos, mais do que agradados." e narrando o seu passeio. Pelo meio não esquecem de referir, e com entusiasmo apesar de serem gente entendida, o por lá terem encontrado as Férias em Português, montadas pelo Instituto Camões.

Surpreendem-se com o meu esgar, nem o entendem. "Os miúdos estavam todos contentes" afirma-me o meu amigo, cuja presença da mulher, ali a anuir, obviamente torna menos cáustico. Efeitos que elas têm, e ainda bem.

Eu a resmungar, tanta coisa estruturante e tanta coisa festiva a pedirem para serem feitas para articular culturas entre-países, visões assim mútuas, abrir as cabeças. E disso tudo que pensa, que conceptualiza, que executa o meu Estado? Junta as criancinhas, coitadinhas, pobrezinhas, leva-as para as actividades lúdicas ali junto à praia, elas divertem-se, uma comida extra claro está, até leite presumo.

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[Colónia Balnear "Um Lugar ao Sol", sito na Costa de Caparica. Pertença da Fundação Nacional para a Alegria no Trabalho (FNAT). Fotografia do arquivo Inatel]

"Férias em Português", há-de haver fotos várias, hão-de sair nos suplementos institucionais, os pretinhos felizes, e tão agradecidos estão eles. Provando também o quanto se faz pelo ensino da língua pelo mundo fora, claro está, vejam-nos tão bem, fruindo no português apesar das tantas dificuldades que vivem no dia-a-dia, tão apetitosos do saber são eles.

Mas não se lhes dá apenas o jogo, o brincar, que eles tanto desconhecem, também têm "formação" em coisas sérias e boas, valores para o pensar e agir, para que venham eles a ser melhores adultos. Para que prossigam mais.

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[Colónia Balnear Marechal Carmona, na Foz do Arelho, pertença da Fundação Nacional para a Alegria no Trabalho (FNAT). Fotografia do arquivo Inatel]

Não há tino? Não há cabeças? As perguntas são inúteis, os anos passam e também as caras. Mas não as ideias.

Pois nada mais conseguem pensar que montar filial da Colónia Balnear "O Século".

E pior, bem pior, é que até estão convictos. E continuam.

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abril 24, 2004

Ilha de Moçambique

Da Ilha regressam amigos, mais do que agradados. E dizendo que está ela melhor, casas recuperadas, algum turismo. É isso, desde os últimos quatro ou cinco anos que a Ilha vem recuperando, devagarinho, das mazelas do tempo e dos homens. Sem grande plano, sem grande intervenção, acima de tudo pelo investimento e trabalho dos particulares. Talvez assim seja melhor, que aos Grandes Projectos - assim Unesco e quejandos - que se querem demiúrgicos Grandes Arquitectos depois lhe falta apoio para continuar, o apoio do dinheiro e das vontades. E, quantas vezes, nada têm a ver com os reais anseios de quem por lá vive ou quer viver, a imporem utopias degenerativas.

[Lembro-me de que em 1999 ouvi um português, um tal dr. Teixeira, anunciar publicamente na conferência organizada pela UNESCO em Maputo, que Portugal iria oferecer 1,5 milhões de contos portugueses para a recuperação das infraestruturas sanitárias da Ilha: o dinheiro viria do ministério do ambiente. Não sei se o homem acreditava ou não no que dizia, mas parecia convicto. Se algum dos leitores o conhecer diga-lhe que o desprezo: nem um desses contos veio, nem uma comunicação sobre a matéria. Mais uma das pérolas vergonhosas dos "socialistas em África". Ricardo Magalhães chamava-se o secretário de Estado que tinha prometido o dinheiro, e que talvez fosse o chefe desse sipaio]

Mas vai indo a Ilha. Talvez que algum apoio no restauro de algum do património dificilmente assumível por pequeno investidor fosse fundamental. Em vez de grandes ideias talvez algum bom senso seja de encetar. Enterradas as grandes manias. A protecção do espólio museológico e arqueológico (subaquático), da flora e fauna marinha. E as infraestruturas sanitárias.

Depois esperar que Nampula e Nacala continuem a crescer. E que o aeroporto internacional de Nacala brote mesmo. Que aí, quem tem Ilha, Mossuril e Cabaceiras não pode temer o futuro. Desde que sem prédios e sem piratas.

Tenho saudades. Da Ilha, claro.

Publicado por JPT em 08:49 PM | Comentários (3) | TrackBack

Sudão

Roubo ao excelente Ecletico. E aproveito para chamar a atenção para o texto Mercenários (I, II, III) que a sua autora tem vindo a publicar.


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No livro de pedra estudo a língua intemporal.
Entre duas mós esbracejo, no turbilhão da pedra,
já as duas dimensões até ao pescoço me sorveram,
minha coluna triturada no moínho da morte e da vida.

Que fazer, bordão de Isaías, da tua rectidão?
É mais fina que cabelo, a casca do grão sem tempo,
sem alto, nem baixo. No deserto o povo entre as pedras
reunia-se; real casula de esteira, refrescava-me, na canícula.


- Arseny Tarkovsky

Publicado por JPT em 07:25 PM | Comentários (0) | TrackBack

Actualização

Somei alguns elos, alguns à Aldeia. Mas em especial na secção Aros, aí exercendo a devida reciprocidade a quem tinha aberto janela para esta machamba.

Destes últimos vários não conheço bem, tenho lido pouco. Mas a todos agradeço a simpatia. Confesso que hesitei em aqui colocar um dos elos, tamanha a diferença que me separa do teor desse blog, tamanha a antinomia de objectivos.

Mas, finalmente, cedi ao padrão e apesar das diferenças aí está o elo com A Chama do Dragão. Mas que ela não nos queime, é o desejo.

Publicado por JPT em 06:56 PM | Comentários (1) | TrackBack

Representação ou apropriação?

São até das mais institucionais as vozes que se espantam: veja aqui e aqui os últimos moicanos. Índios envelhecidos que julgam que isto ainda se trata lá na tenda a fumar umas cachimbadas e a falar bem. Gente do passado, ultrapassada. E até um pouco senil.

Pois o silêncio que envolveu esta revisão é tonitruante e significa uma coisa: morreu a ideia de democracia representativa em Portugal. Morreu de doença, dessa maleita de desprezo que os parlamentares têm por quem os vota.

O senhor eleitor, entretido com a bola e a bola, mais a bola e as bolas, merece evidentemente o desprezo. Também doente é certo, mas não de alienação como se pensou em tempos, confirma-se que é imbecilidade mesmo.

Publicado por JPT em 12:16 PM | Comentários (1) | TrackBack

abril 21, 2004

Time

Entre os alunos correu célere a notícia e logo ma transmitiram. A primeira-ministra Luísa Diogo como uma das cem personalidades mundiais mais influentes.

Estas listas valem o que valem, e não sei se não haverá outros moçambicanos mais influentes. Mas que foi aqui registado foi.

E assim de repente também não me lembro de muitas mais africanas que tenham chegado a tão elevado cargo. S. Tomé logo, e porventura um ou outro caso. Talvez um pouco de "gender" mas porque não?

Publicado por JPT em 05:16 PM | Comentários (3) | TrackBack

abril 20, 2004

Até que enfim! Será desta?

A evolução de 20 de Abril? Ou o golpe de 20 de Abril? Seja como for, dia de Portugal, haja gente.

Já agora, o Apito de Ouro também tem o seu "Portugal e o Futuro". Chama-se "Golpe de Estádio", de Marinho Neves (?), tem para aí 10 ou 12 anos, está muito mal escrito, mas desnudou o que ia nu e assim continuou.

(demagogo?) Um pensamento para todos os soldados que em Angola comeram um pouco menos de batata para que outros fossem "cabritos". E um abraço à família do cidadão morto à bomba na cooperativa Árvore (?) nos idos de 1975.

Publicado por JPT em 05:41 PM | Comentários (6) | TrackBack

Hipócrita

Um leitor deixou aí um comentário dizendo-me hipócrita. Acho que sim, sou-o ciclicamente. Não sempre, não todos os dias, todo o dia. Mas de quando em quando, depende do contexto.

E sou tão hipócrita que nem apago o lixo hipócrita de quem deixa um comentário crítico de modo anónimo: como posso eu contra-argumentar com alguém que aqui se abandona com o nome de "gay" e com o endereço de "bichano69"? Como posso chegar à fala directa com ele?

É isso mesmo, sou tão hipócrita que nem apago o comentário, assim a armar-me em tipo elevado, que aceita as críticas qualquer que seja o teor ou o tom. Não haja dúvida, sou um "Ganda hipócrita"!

Publicado por JPT em 10:47 AM | Comentários (3) | TrackBack

Regras

No penúltimo Savana Machado da Graça [que faz o favor de ser leitor do Ma-schamba, e que lhe deu um filão em breve a ser explorado] narrava um encontro em que esteve, nos arredores de Maputo. Incomodado.

Tinha chegado à reunião, a sala ainda não estava cheia, cadeiras várias por ocupar, mulheres e homens à espera do início. À medida que se aproximava a sessão mais participantes iam chegando, as mulheres levantando-se para ceder o lugar aos homens e indo-se sentar no chão. Incomodado, e lamentando a situação, um seu parceiro logo comentou que se fosse nalgum país europeu o contrário seria a regra, os homens oferecendo as cadeiras às mulheres. A retórica do texto dá-nos esta como a situação correcta. E a sua conclusão também, utilizando o evento para uma defesa das mulheres.

Não pude deixar passar. Porque será positivo que os homens cedam o bom lugar às mulheres, porque será negativo o inverso? Não há absolutamente razão nenhuma para dizer isso. Apenas o costume burguês europeu...nem em tanto campo isso acontece(ia). Costume diferente do que ali se encontra. O incómodo, que é recorrente, não passa de puro preconceito. Sem razão, ainda que nós nos levantemos, claro está.

Ah, quantas vezes fui mal-criado, fazendo questão que as mulheres passem à minha frente...que rudeza, a fazer hesitações, a desfazer em sorrisos desculpabilizadores.

Em Roma sê romano. Veja-se lá onde se está e sentemo-nos ou levantemo-nos consoante...que não é por isso que as coisas mudam para melhor.

Adenda: pois o Machado da Graça veio até cá. E deixou assim,

"Ao contrário do que deduzes da minha retórica, a minha posição não é a que citei no meu artigo. Para te dizer a verdade nem sei se é a da pessoa que fez o comentário, em termos mais factuais e menos opinativos.

Não tenho por hábito levantar-me para dar lugar a senhoras só pelo facto de serem do sexo feminino. Acho que têm tão boas pernas como eu. Levanto-me quando é para dar o lugar a alguém que, por qualquer razão, está diminuido na sua capacidade para estar em pé. Acho que a igualdade entre os sexos passa também por aí.

Uma das minhas passadas companheiras de vida achava, com toda a razão, que eu devia partilhar das tarefas domésticas. O que passei a fazer. Isto ficou prejudicado no dia em que ela chegou a casa e me informou que o carro tinha um pneu furado e estava na praça X onde eu deveria ir trocar o pneu e trazer o carro para casa.

Mas que fazer?"

O teste do pneu, universal, é terrível. Concordo em absoluto. Bem, eu continuo a levantar-me, troco os pneus quando tem que ser. Mas, confesso, a ser um traste na cozinha.

Abraço.

Publicado por JPT em 02:28 AM | Comentários (3) | TrackBack

abril 19, 2004

Da descolonização

Em plenos 30 anos do 25 de Abril o regresso à descolonização é normal. Sobre isso já desabafei e até (semi)botei.

Na semana passada Almeida Santos falou sobre a matéria, anunciando ainda um livro. Será interessante ler a sua versão, enquanto participante activo. Também Mia Couto publicou um artigo sobre o assunto [obrigado ao leitor "Mossuril" pelo pronto envio].

Ambos os textos têm interesse ainda que não avancem novidades ou leituras originais. Principalmente por integrarem algo que deveria ser óbvio. O final do colonialismo foi provocado, e portanto a análise da sua história tem que integrar as práticas de quem contra ele combateu.

Em Portugal o discurso traumático continua. A procura de culpabilização de políticas ou de individualidades não passa de uma leitura autocentrada do processo de então. Autocentrada e orfã de Império. O entendimento do final do colonialismo tem que o encarar como fruto de uma luta local e dos apoios que recebeu. Aliás também o 25 de Abril o foi, dito e redito que está o facto dos militares se terem revoltado contra a situação profissional/pessoal/política que uma guerra anacrónica lhes tinha causado, bem como ao país.

Não se trata de apagar as múltiplas perspectivas que havia então em Portugal sobre a questão. Trata-se de não encerrar a leitura do processo nessas dinâmicas. De certa forma é uma questão de português: Portugal não "fez" a descolonização, "aconteceu-lhe" a descolonização. Tivesse esse facto histórico inultrapassável sido planeado e discutido alguns anos antes outra formulação (linguística, refiro) seria possível.

Ainda hoje se fala muito de "culpa" (até Almeida Santos recupera a palavra, sacudindo-a de si próprio) e até de "traição". Sendo um bocado demagógico, reconheço, apetece perguntar:

- a grande vaga de povoamento colonial ocorreu nos anos 50 e 60. Após a independência das colónias europeias na Ásia, durante e após a independência das colónias europeias em África. Quem "traíu" os futuros "espoliados do Ultramar", de quem é a "culpa" dos seus destinos? Quem os convenceu que era um projecto para a vida, quando era óbvio que não o podia ser? Ou quem, à direita ou à esquerda, pró-soviético, pró-rodesiano ou pró-no meio, muito pouco podia fazer num mundo que já há muito tinha mudado?

Extra: em vez dessa bafienta elaboração de "culpas" e "traições" tão mais interessante estudar aprofundada e extensivamente o efeito social dos retornados no Portugal de 70. Tanto se fala do impacto da democracia, e depois da CEE/UE. E tão pouco do abanão que essa mole humana vinda de outras práticas terá tido aí no rincão.

Publicado por JPT em 03:53 PM | Comentários (3) | TrackBack

Espanto

Ontem visitei alguns blogs para mim desconhecidos, segui a via do Abre-Latas.

Absoluto espanto. Há blogs ilegais. Não tinha noção disso.

Não me venham com as esquerdalhadas do multiculturalismo, tão do agrado de antropólogos indecisos ou artistas anacrónicos, "cada um como cada qual", "o direito à diferença". A liberdade defende-se restringindo os direitos de quem a recusa. Nesse sentido a lei portuguesa proíbe o proselitismo de nojos como Fascismo em Rede. É nojento? É. Mas acima de tudo é ilegal. Feche-se e julgue-se o autor.

Ou então mude-se a lei! E aceite-se esta escória turra, mais os islâmicos turras, mais os otelos turras. A bem dizer não há diferença entre eles, a não ser a retórica. Mas já agora, se existe este desenvolvimento legal porque retroceder e não extendê-lo?

Alguém perguntará, mas quais os limites da inibição? Honestamente, retórica vã. São quase evidentes, evidenciem-se...

Adenda: o leitor Analiticamente Incorrecto fez o favor de comentar, concordando com o desgosto mas afirmando que estes "são os custos da democracia". Agradeço a atenção mas discordo. A democracia rege-se pelo primado da lei. E tem sobre outros sistemas a vantagem de uma maior abertura à mudança das leis: se estas não servem mudam-se. Mas enquanto o são têm o primado. Repito o que disse, se há lei cumpra-se. Se não serve, assuma-se o facto e mude-se.

Pois por enquanto aquilo não é folclore, é crime! Não crime ético, que isso não existe, é crime legal. E não se venha com críticas a um hipotético "patrulhamento ideológico": há limites para o aceitável. Sempre.

Publicado por JPT em 10:36 AM | Comentários (5) | TrackBack

Entrevista

Extraordinário trabalho no Público: entrevista com Omar Bakri, o fundador do "Al-Moujahiroun", uma espécie de "braço político" da Al-Qaeda no Ocidente. Uma pérola. Ligeiros excertos para alguém que não tenha por lá passado

"Nós não fazemos a distinção entre civis e não civis, inocentes e não inocentes. Apenas entre muçulmanos e descrentes. E a vida de um descrente não tem qualquer valor. Não tem santidade." - nem mesmo as de alguns bloguistas lusos, tão dele compreensivo, presumo eu...

"Antes dos atentados de 11 de Setembro, pregava livremente nas principais mesquitas de Londres, como a de Regents Park. Agora está limitado aos "púlpitos" radicais como Finnsbury Park e Tottenham."
(...)
"É juiz da Sharia, tem o seu próprio tribunal, em Londres, à revelia da lei britânica, que despreza por ser "feita pelo Homem". No entanto, garante que não a viola. Foi preso 16 vezes e outras tantas libertado. Só pede às autoridades que sejam coerentes com as suas próprias "leis imperfeitas: "Deixem Omar Bakri beneficiar da democracia"." - nem vale a pena comentar.

Uma bela peça. Não acredito em proselitismos, mas deveria ser obrigatória (não spam, atenção) a qualquer bloguista luso. Ele há cada asneira política por aí, armada de livre-pensamento.

Publicado por JPT em 10:18 AM | Comentários (0) | TrackBack

Dez anos depois

Há dez anos passei 36 horas seguidas assim.

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Publicado por JPT em 02:53 AM | Comentários (1) | TrackBack

abril 18, 2004

Unos?

Crescemos, envelhecemos, a julgar que vamos ser sérios, honestos, rectos. Ou seja, unos! Constantes!

É mentira. E ainda bem que há coisas como o futebol para nos lembrar estes bocados que nos fazem.

Desde há umas duas horas que nem durmo, feito militante dos castigos corporais. Da tortura. Da pena da morte.

Alguém vem sossegar-me, não estou só, até mesmo muitissimo bem acompanhado. Com a veemência ordinária que é a minha, hoje mais que nunca.

A almofada, cobarde conselheira, decerto me acalmará. E amanhã serei de novo tipo decente, até à próxima, e esta bem próxima, está-se mesmo a ver.

Publicado por JPT em 03:54 AM | Comentários (4) | TrackBack

abril 17, 2004

Blog inútil (cont.)

Coincidência, descubro o P.Q. a dizer diferente a mesma coisa.

Publicado por JPT em 10:17 PM | Comentários (1) | TrackBack

30 anos de 25 de Abril, Sempre

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"No 25 de Abril de 74 estava eu bem lançado para fazer a 4ª classe. Algo distante das questões políticas, apesar de lá em casa se falar de um tal Karl May que não era o que escrevia os meus livros de cóbois. Gostei muito da tal revolução, não houve aulas nesse dia, a minha irmã, já jovem mãe, estava esfuziante, acordou-me tarde, quase às 9 horas a dizer "hoje não há aulas, há uma revolução" e devia ser importante pois ainda me lembro dela a dizê-lo, o cunhado ainda em Serpa Pinto na santa guerra, de onde ela tinha regressado para parir a Patrícia, magnífica mas só depois o soubemos. Os manos já eram marinheiros, não sei onde andavam, o João depois contou que ainda foi arrear a bandeira em São Tomé, e então era mesmo o fim daquele império, e esquerdas deles à parte chorou quando a bandeira desceu, e eu não sei se acredite ou não porque ele é assim como eu, um bocado tanguista, mas eu gostava muito que tivesse sido assim, ficava-lhe muito bem a ele e à família. E os pais estavam em Londres num congresso daqueles do pai da engenharia, à espera de voltarem, contentíssimos, a velha Avó acho que sem perceber nada mas lembro-a a dar palmadinhas no ombro do pai quando este chegou, acho que nunca mais o vi chorar, nem quando ela morreu. A rapaziada a comemorar sem entender aquilo, mas a ribombar a felicidade lá das casas, enquanto a futebolada inesperada era cortada pelos peões de transístor (lembram-se?) no ouvido que ia dizendo novas sobre uns tipos que eram Faxistas, e depois que o Marcelo se rendeu, e os Mesquitas do prédio ao lado, que jogavam bem à bola, sem estarem muito contentes (talvez os pais não estivessem) e passaram logo a Faxistas, coitados."

- Está bem menino, mas diz lá, o 25 de Abril foi Revolução? Ou Evolução?

- Não sei, senhor. Para mim o 25 de Abril foi o meu pai António.

(roubado ao Bota Acima)

Publicado por JPT em 12:03 AM | Comentários (1) | TrackBack

abril 16, 2004

Para amigo velho

Eh, se algum amigo velho passar por aqui hoje à noite, sexta-feira, embora ali à esquina escura fumar um charro, mesmo como aquele antes...marroquina, ok...

No regrets Coyote
We just come from such different sets of circumstance
I'm up all night in the studios
And you're up early on your ranch
You'll be brushing out a brood mare's tail
While the sun is ascending
And I'll just be getting home with my reel to reel...
There's no comprehending
Just how close to the bone and the skin and the eyes
And the lips you can get
And still feel so alone
And still feel related
Like stations in some relay
You're not a hit and run driver, no, no
Racing away
You just picked up a hitcher
A prisoner of the white lines on the freeway

We saw a farmhouse burning down
In the middle of nowhere
In the middle of the night
And we rolled right past that tragedy
Till we turned into some road house lights
Where a local band was playing
Locals were up kicking and shaking on the floor
And the next thing I know
That Coyote's at my door
He pins me in a corner and he won't take "No!"
He drags me out on the dance floor
And we're dancing close and slow
Now he's got a woman at home
He's got another woman down the hall
He seems to want me anyway
Why'd you have to get so drunk
And lead me on that way
You just picked up a hitcher
A prisoner of the white lines of the freeway

I looked a Coyote right in the face
On the road to Baljennie near my old home town
He went running thru the whisker wheat
Chasing some prize down
And a hawk was playing with him
Coyote was jumping straight up and making passes
He had those same eyes - just like yours
Under your dark glasses
Privately probing the public rooms
And peeking thru keyholes in numbered doors
Where the players lick their wounds
And take their temporary lovers
And their pills and powders to get them thru this passion play

No regrets, Coyote
I just get off up aways
You just picked up a hitcher
A prisoner of the white lines on the freeway

Coyote's in the coffee shop
He's staring a hole in his scrambled eggs
He picks up my scent on his fingers
While he's watching the waitresses' legs
He's too fat from the Bay of Fundy
From Appaloosas and Eagles and tides
And the air conditioned cubicles
And the carbon ribbon rides
Are spelling it out so clear
Either he's going to have to stand and fight
Or take off out of here
I tried to run away myself
To run away and wrestle with my ego
And with this flame
You put here in this Eskimo
In this hitcher
In this prisoner
Of the fine white lines
Of the white lines on the free, free way

Publicado por JPT em 10:24 PM | Comentários (0) | TrackBack

Blog inútil

[Com dedicatória especial para alguns comentadores e, em particular, para alguns correspondentes d' aquém e além-mar]

Um blog é óptimo. Não se publicita: não anuncia na tv, no email, não tem folhetos na caixa de correio, não tem miúdos nos semáforos. Não se vende, não se intromete. Existe, passa de boca em boca, de "links" em "links" (eu prefiro "elos"), de referência em referência. E tal como se acede logo se sai. Não magoa, não vicia. Quem quer regressa, quem não quer vai.

Talvez uma utopia comunicacional (ainda que eu desconfie de utopias). Pelo menos por enquanto - o episódio do encerramento e apagamento de blogs pela Globo brasileira talvez indicie futuros constrangimentos.

Um blog é gratuito. Entenda-se, grátis e inútil. Magnífica inutilidade.

Há blogs com agenda. Entenda-se, blogs especializados. Humorísticos, artísticos, políticos, literários, de auto-edição, de divulgação científica. Etc. E há blogs com agenda. Entenda-se, blogs com mensagem. Que querem veicular um corpo mais ou menos sistémico de opiniões (mesmo que colectivas).

Óptimo e legítimo. Concorde-se ou não com o conteúdo, goste-se ou não da forma. Porque liberdade. E há blogs sem agenda. Óptimo e legítimo. Concorde-se ou não com o conteúdo, goste-se ou não da forma. Porque liberdade.

O Ma-schamba é um diário. Não intimista, mas é um diário. É radicalmente inútil. Tem as minhas opiniões. Pobres ou não, não volte ou volte. Tem as minhas sensações. Pobres ou não, não volte ou volte. Tem o meu quotidiano. Pobre ou não, não volte ou volte. Mas não tem qualquer agenda, não há sistema, não há temática. Fosse eu melhor talvez tivesse, reconheço-lhe e reconheço-me essa incapacidade.

O Ma-schamba é a minha casa. Há gelo e bebidas, refresco também, amendoim e talvez castanha, às vezes um empadão de restos mas bem feito, e até mesmo um camarãozito. Pode-se mandar vir uma pizza ou galinha take-away.

Se gosta de ouvir a conversa fique e volte. Se ao regressar trouxer uns comes e bebes, como as pessoas de bem, óptimo. Mas se não venha na mesma, talvez desvalido ainda que asseado sff. Põe-se mais água na sopa: "água e sal", se mais não houver.

Se fica para ouvir, belo. Se quiser conversar fantástico. Apoie ou critique, resmungue, some, subtraia, divida, multiplique. Porque liberdade. Ponha texto, ponha foto. Ponha comentário. Ponha email.

Mas não venha cá para me dizer que não posso falar disto ou daquilo!

Que não posso falar de Moçambique porque não sou moçambicano, que não tenho legitimidade para tal, que sou tuga e que não percebo nada disto. Porque liberdade, porque o real não é pertença de ninguém.

Que não posso falar de Portugal porque vivo em Moçambique, e devo mostar algo a quem cá não está, memorialista de memórias alheias, guia de turistas falidos. Porque liberdade, porque o real não é pertença de ninguém.

O Ma-schamba é a minha casa. Não venha cá para me dizer que devo falar disto ou daquilo, que não devo falar disto ou daquilo. Se é para isso ponha-se no olho da rua!

Publicado por JPT em 10:24 AM | Comentários (11) | TrackBack

abril 15, 2004

Leões e homens

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Há anos que me dizem grassar epidemia de tuberculose entre os leões do Kruger. Acredito, ainda que nunca tenha procurado informação científica. Dizem que será preciso abater grossa percentagem da população para a controlar. Uma dor de alma, imensa.

Veterinário cruzado na Gorongosa dizia do perigo para a disseminação de doenças e para o stress dos animais que a excessiva concentração de indivíduos na reserva (aparentemente enorme) significa.

Ninguém nunca me explicou a origem da epidemia. Diz-me agora, amigo veterano e vero amante do local, que a causa aparente deste surto de tuberculose felina se prende com a introdução de plantas exógenas aglutinadoras de insectos transmissores.

É uma fala de leigo, esta minha. Mas tem moral...a incomensurável capacidade de destruição, mesmo que involuntária. E, para mais, o quão rara é esta invontade.

Publicado por JPT em 11:34 PM | Comentários (0) | TrackBack

Vá Vai até

Publicado por JPT em 03:15 PM | Comentários (1) | TrackBack

Visitor Time Zone Share

Vou ali ao visitor time zone share do site meter (este é jargão de bloguista, está-se mesmo a ver) e dou com 20% de visitantes provenientes do Alaska. É óbvio que é um erro qualquer, só pode.

Mas nego a evidência e dou-me cinco minutos de Jack London.

Publicado por JPT em 02:49 PM | Comentários (0) | TrackBack

Humor em Portugal

Deve ser óbvio para quem frequenta este e outros blogs. Irrita-me o blog Barnabé, deixei até de visitar, irrita-me a esquerdalhada pueril. Tanto como a direitada arrivista. Ou vice-versa. Estou no meio, virtuoso? Nada disso, apenas idade, o cansaço com tantas certezas moldadas na ignorância. Estou no meio, sábio? Nada disso, apenas idade, o cansaço com tantas certezas moldadas em nada. Ou se calhar é a inveja, eles tão sábios e eu ignorante, aceito a hipótese ainda que com angústia.

Mas acaba-me de chegar um mail, enviado por insuspeito amigo. Uma maravilha de humor Barnabesco. Vénia, e elo mais que merecido a algo desnudando grossa borregada.


Publicado por JPT em 01:58 PM | Comentários (4) | TrackBack

Reserva Natural do Niassa

O Niassa é deslumbrante. Esta é afirmação dogma. E digo-o sem sequer ter chegado à reserva natural, uma verdadeira reserva com pouquissimo turismo, em área inóspita. A única vez que estive realmente próximo, com tempo e dinheiro para me chegar até lá precisava de dois dias de estrada, que a chuva tinha caído. E mais dois para sair. Era-me então quase impossível e prescindi: ainda hoje estou arrependido.

Metade do tamanho de Portugal. Enorme população de elefantes, já agora. Fauna e flora única. Enfim, estou a falar de uma área realmente selvagem.

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Vem isto a propósito do que se discute neste momento. O desenvolvimento do turismo local, como forma de preservação da região. Assim seja. Entretanto foi elaborado um relatório que preconiza como solução ideal o reassentamento da população aí residente - uma solução não dogmática, pois propõe alternativas. Cerca de 20 000 pessoas ao que consta.

Num país que conheceu tão traumáticas experiências de reassentamento forçado ou induzido (os aldeamentos coloniais, as aldeias comunais, e os campos de refugiados da guerra) causa sempre algum desconforto este tipo de proposta.

Mas como conciliar a vida selvagem com a população? Por um lado a depradação causada pela agricultura itinerante e pela recolha de lenha combustível. Por outro lado a caça (e pesca) artesanal - ainda que esta tenha efeitos muito reduzidos face à caça furtiva com armas de fogo. Questão crucial levantada na transformação do Kruger em transfronteiriço e ainda mais neste território intocado do Niassa.

Em abstracto defenderia um reassentamento que fosse economicamente positivo para esta população. Mas é um abstracto, pois duvido da capacidade actual em tal realizar. A ver vamos. Mas a preservação desta região natural deveria constituir uma prioridade internacional/nacional, atendendo à escassez de ecossistemas similares.

Quanto à complexa questão da convivência da população com a vida selvagem não resisto a transcrever aqui uma história verídica, que me foi narrada por um ex-amigo que a presenciou:

Há uns quatro ou cinco anos o então governador provincial visitou a área da reserva e fez um discurso à população, apelando à preservação do meio ambiente, da vida animal, chamando a atenção para a riqueza que isso significava e para os proventos que poderiam advir do turismo se tal fosse cumprido.

Eis que se levantou um velho, pedindo licença para intervir, queria colocar uma pergunta. E assim questionou ele, sábio:

"Excelência, quer ser governador de gente, ou governador de leão?".

Dizer mais?

Publicado por JPT em 01:26 PM | Comentários (2) | TrackBack

abril 14, 2004

Já agora, uma adivinha

Once in a Lifetime
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And you may find yourself living in a shotgun shack
And you may find yourself in another part of the world
And you may find yourself behind the wheel of a large automobile
And you may find yourself in a beautiful house, with a beautiful
wife
And you may ask yourself-Well...How did I get here?

Letting the days go by/let the water hold me down
Letting the days go by/water flowing underground
Into the blue again/after the money's gone
Once in a lifetime/water flowing underground.

And you may ask yourself
How do I work this?
And you may ask yourself
Where is that large automobile?
And you may tell yourself
This is not my beautiful house!
And you may tell yourself
This is not my beautiful wife!
Letting the days go by/let the water hold me down
Letting the days go by/water flowing underground
Into the blue again/after the money's gone
Once in a lifetime/water flowing underground.

Same as it ever was...Same as it ever was...Same as it ever was...
Same as it ever was...Same as it ever was...Same as it ever was...
Same as it ever was...Same as it ever was...

Water dissolving...and water removing
There is water at the bottom of the ocean
Carry the water at the bottom of the ocean
Remove the water at the bottom of the ocean!

Letting the days go by/let the water hold me down
Letting the days go by/water flowing underground
Into the blue again/in the silent water
Under the rocks and stones/there is water underground.

Letting the days go by/let the water hold me down
Letting the days go by/water flowing underground
Into the blue again/after the money's gone
Once in a lifetime/water flowing underground.

And you may ask yourself
What is that beautiful house?
And you may ask yourself
Where does that highway go?
And you may ask yourself
Am I right?...Am I wrong?
And you may tell yourself
MY GOD!...WHAT HAVE I DONE?

Letting the days go by/let the water hold me down
Letting the days go by/water flowing underground
Into the blue again/in the silent water
Under the rocks and stones/there is water underground.

Letting the days go by/let the water hold me down
Letting the days go by/water flowing underground
Into the blue again/after the money's gone
Once in a lifetime/water flowing underground.

Same as it ever was...Same as it ever was...Same as it ever was...
Same as it ever was...Same as it ever was...Same as it ever was...
Same as it ever was...Same as it ever was...

Publicado por JPT em 08:36 PM | Comentários (1) | TrackBack

abril 13, 2004

Tomei e embrulhei

Num comentário ao "kilo de arroz..." o meu amigo Zé Francisco dá-me uma porrada. Tomei e embrulhei...que só digo mal daí, que só digo bem daqui.

Sobre o aqui já escrevi algo mais ou menos "A árvore e o lixo". Sou emigrante, se me sentir mal vou-me embora. Os emigrantes não têm direito à crítica pública, à actividade política, à reclamação? Têm. Os explorados magrebinos, os tipos do Burkina Faso e da Serra Leoa, que atravessam o sahel sabe-se lá como, que se arriscam como boat people, e que se sobrevivem disso arrastam uma vida do caraças para que os filhos não tenham fome aí na Europa. Os refugiados afegãos, as prostitutas do caucaso, toda essa gente feita cáfila em países ricos. Têm todo o direito a criticar, a protestar, a defenderem os seus direitos.

O "patrão" acomodado no Sommerschield? O emigrante de luxo? Tenho as minhas opiniões, tenho as minhas críticas. Mas também sei que se as tenho é porque as vivo, no meio dos privilégios. Estou mal? no meio do bem-bom, então Mavalane (aeroporto internacional de maputo). Rumo ao T2 de Telheiras ou T3 de Alverca.

É a minha disciplina. O meu respeito para o que me rodeia.

E é também a minha sobrevivência. Porque deixar-me mergulhar na incomensurável miséria que me rodeia é suicidário. Não o será para todos. Sê-lo-á para mim. Aqui morre-se, Zé. Morre-se como o caralho!

Hipócrita? Cobarde? Colaboracionista? Tudo isso. Sei-o bem.

O único respeito que retiro, fora do que posso fazer pela minha família. Insistir insistir para 100 tipos lá fora: saber humilde é poder! Poder fazer algo. Mas devagar também, que ser professor não é doutrinar (deontologia).

E para os que aqui passam, 50-100 (?). Mais ajuda para África com outra atitude. Mais comércio com África (e isto tem que ser redito à exaustão).

Ou seja, meu amigo, e porque o grande capital [que existe e tem rosto e alma] não vai desistir amanhã: menos privilégios, menos boas consciências, para as famílias aí a norte.

Este é o meu padrão. Erróneo? Mas o único que encontrei, e chego agora aos quarenta.

Abraço, até esses restaurantes em Julho ou Setembro. Para se falar do tal bom Portugal. Existe: sete anos é muito tempo, pá. Mas:

há o Lobo Antunes, mas não vou escrever sobre isso - não sou crítico literário.
há o João Magueijo, ando a lê-lo - mas achas que percebo aquilo tão bem que o possa escrever?
há o Siza Vieira - mas e as torres que já não são do Abecassis?, e os nossos Mateus, ok, mas nem conheço o que fazem
há o Porto - que é grande empresa, e disse-o
há as melhorias aí - vê o último apontamento

Mas sete anos são muito tempo. Para a paixão, para o pormenor que serve de indução. Para os amigos. Fica a imagem cá de longe. E, desculpa, um enorme fastio com o que cá chega. Pela comunicação. Por avião.

PS: e já agora Zé, e isto tu não podes perceber porque nunca o viveste, há algo abaixo de Tânger que nos faz mal, que nos envenena, que nos torna a nós portugueses em piores. Chama-se paternalismo. Que, felizmente, muitos perdem quando aqui vivem. Mas que quando é só visita vem em estado bruto. E cansa tanto...

Parafraseando o outro o paternalismo é a doença infantil do racismo. Não tenho paciência! E digo-te, sem falar em nome de ninguém, não têm paciência. Os nossos patrícios e os "donos da terra".

Abraço grande

Publicado por JPT em 02:47 PM | Comentários (6) | TrackBack

Eleições presidenciais

Em alturas de Abril, de trinta anos de democracia no meu país, venho lembrar um aspecto anti-democrático do sistema político que vigorou até há pouco. (1) Por um lado para lembrar a tantos escatológicos do país que a democracia se vai enriquecendo, e esta mudança é um clarissimo sinal disso. (2) Por outro para fazer uma declaração antecipada de voto.

(1) Desde Abril durante décadas violou-se o princípio de igualdade de cidadania, uma prática anti-democrática devida a (afinal infundadas) querelas partidárias: os emigrantes não tinham direito a voto nas eleições presidenciais. Felizmente isso terminou, mas é bom não o esquecer para não mitificar os sentimentos democráticos, para se perceber quais os, por vezes ímpios, caminhos a que a partidocracia pode descer. E também é bom não o esquecer para se perceber que, afinal, a democracia vai melhorando, como é de sua essência, e que os discursos catastrofistas não têm sentido que não seja o da pequena estratégia.

(2) E já que os emigrantes podem votar anuncio aqui o meu voto. Tenho por Pedro Santana Lopes o imenso respeito devido a quem foi presidente do Sporting Clube de Portugal. Ainda que o não coloque no altissimo patamar devido ao Senhor João Rocha ou ao Dr. José Roquette.

Toda a imprensa o aponta como presumível candidato às futuras eleições. E a própria retórica de PSL o indica.

Votei no PSD nas duas últimas eleições legislativas.

Li no Expresso que

"A transferência do actual hipódromo do Campo Grande para o «pulmão de Lisboa», que está a ser negociada com a Câmara, visará desafectar aquela área da capital para projectos urbanísticos. Recorde-se que, nos últimos anos, o Parque de Monsanto tem vindo a servir de moeda de troca para investimentos imobiliários, dando abrigo a instalações localizadas na cidade e deixando áreas livres para a construção civil. Assim, está em curso a instalação da Feira Popular dentro do perímetro florestal, depois dos cortes praticados pela CRIL, pela construção do pólo universitário ou pelos «avanços» de condomínios privados, como a Quinta de Santo António, em Caselas.

Assim venho aqui afirmar, ajuramentado, que caso o dr. Pedro Santana Lopes se candidatar nas próximas eleições presidenciais votarei em qualquer outro candidato. Seja ele quem for.

Até mesmo no eng. António Guterres.

Publicado por JPT em 01:41 PM | Comentários (0) | TrackBack

Cônjuges presidenciais

Em alturas de Abril comemora-se a democracia em Portugal. Lembra-se o péssimo anterior (que muitos querem reduzir e alguns negar). E elogia-se o bem posterior. E há muito para elogiar, apesar do que se possa criticar.

Em alturas de Abril, quero chamar a atenção para dois aspectos anti-democráticos do exercício do sistema político. Que as efemérides sirvam para lembrar e melhorar.

O primeiro actual; o segundo histórico, felizmente já passado e que abordarei, interesseiramente, no próximo apontamento.

O actual é um que trai a República, provável que inconstitucional, decerto que imoral: a existência de uma chamada "primeira-dama", com direito a gabinete e a colaboradores, e de quem se espera e aceita uma actividade pública enquanto tal.

Deslize monárquico, mas não sobrevivência - gostaria de ver alguém conhecedor escrever sobre as "primeiras-damas" da I República para poder sedimentar esta ideia da reconstrução subreptícia de um ideal de "família presidencial". Ou seja, não se trata de uma mera continuidade da imagem do casal real, é um recurso "monarquizante" devido, muito provavelmente, às pressões do marketing político e a influências externas (First Lady americana como paradigma?).

Nunca nada me moveu contra as Senhoras cônjuges dos Presidentes da República. Mas não lhes posso aceitar nenhum papel público enquanto tal. Como cidadãs sim. Como mulheres de não.

Dir-se-á que têm obrigações de representação. Não é nada de natural, é uma opção política. Mas até a aceito. E também que se gaste muito e bom dinheiro com a sua representação.* Mas nada mais.

Nenhum outro papel se lhes poderá aceitar. Na República vota-se num cidadão para exercer funções. Apenas isso - e é um enorme, respeitadissimo e, lembre-se em alturas de efemérides políticas, conquistado "Apenas"! Tudo o resto são desvios, graves, à lógica, à moral, à ideologia republicana.

Ainda mais me espanta a cega aceitação de que as Senhoras cônjuges dos Presidentes tenham particular atenção e acção pública em áreas determinadas: a saúde materno-infantil, os desvalidos, a segurança social, o apoio aos idosos, as catástrofes, a educação básica e, aggiornamento óbvio, as minorias étnicas. E, claro, as modas e bordados, perdão, a moda.

Na sua (ilegítima, repito) acção nunca surgem elas ligadas à investigação científica, aos mineiros, à questão das pescas, ao desporto de alta competição, à indústria, à reforma da administração pública e enissimos etcs.

Ou seja, no seu (ilegítimo, birrepito) papel as Senhoras cônjuges dos Presidentes nada mais fazem do que repetir a velha divisão sexual de trabalho, as dicotomias de género da família burguesa de XIX-XX: o doméstico, a socialização das crianças, os desvalidos, os doentes e idosos.

Esta é já uma dimensão sobrevivência que uma sociedade em franca transformação das relações de género assiste complacente.

Para os trinta anos de exercício democrático da República bem que se poderia romper com este atavismo de género. Mas mais do que tudo romper com esta traição ao ideal republicano.


*Li algures que é costume os costureiros portugueses emprestarem vestidos às cônjuges dos presidentes (ou pelo menos deste último: o qual muito prezo, e de quem sou eleitor, para que não se pense que há aqui qualquer ataque pessoal). Que tal acontece principalmente aquando de visitas ao estrangeiro, para divulgação da moda portuguesa.

Não sei se isto é verdade. Li e espero que não seja. Porque seria semelhante ao Presidente andar a pedir roupa emprestada nos alfaiates. Ou costumar usar t-shirts da Sumol ou Super-Bock para defesa da indústria portuguesa.

Portanto decido-me, dogmático. O que li é mentira! Se não for, pague-se, pague-se o que for preciso para que a representação do casal presidencial seja o melhor possível. Mas não os usem, nunca, para publicidade empresarial. Qualquer que seja ela.

Publicado por JPT em 01:01 PM | Comentários (0) | TrackBack

Trecho do apassarado

O Eduardo White deixou este bocado nos comentários. Vem para aqui, para o pé da janela. A mostrar como é todos os dias, lá no Apassarado dele.
Abraço Eduardo, obrigado


HOJE É AZUL

Ao Zé Flávio, obrigado pelos desejos.

Hoje acordei um pouco mais feliz. E por isso o azul das calças e da camisa e da gravata e das meias. Um pouco dele por dentro, também. Lá fora, um ténue Sol faz da manhã um milagre divino. Que bom, num País tão escuro há um tranquilizador azul. Dia bom para andar de avião, entre as nuvens, entre as micoses de Deus. Eu moro alto. Num décimo primeiro andar da capital. Tem janelas largas, tem o frémito constante dos chapas pela avenida, tem mulheres negras esbeltas, lavadas e matinais na sua beleza. Ha, e a chata da vendedora de cigarros da qual me esquecia. Quero aquela minha parte, ameaçou-me logo pela manhã. A mulher no banho e eu a tremer no intercomunicador. Eu que nunca fui de putas onde é que me fiquei a dever? Mas há o azul dentro e fora da flat e a calma que ele transmite. Quem é? Disse com a voz armada de um Eduardo que não tenho. A senhora dos cigarros. Patrão está-me dever noventa mil meticais. Descansa-me o coração. Ok, ok. Só logo à tarde, digo como se falasse do Clube de Paris. E parto novamente rumo ao quarto. O desodorizante de almíscar e uma água de colónia barata ajudam a compor o meu poeta fardado de empregado bancário. A Guta veste-se e a casa fica mais azul ainda. Cheia de estrelas espalhadas pelo chão. Está bonito o Mundo, está tranquilo e mágico como uma mulher que se veste. Respiro o poeta na cor achocolatada da Guta. Aveludada mulher que me atura. Sinto que há gente dentro de mim, gente, muita gente feliz. Aceno a todos eles um bom dia. É imperioso que o faça. Quando estamos azul por dentro além de vermos o País assim, também temos um dentro de nós. Que bom que é este o meu, todo verde, igualmente. Arborizadamente limpo. A dona Francisca é que não está azul, apesar de eu a ver dessa maneira. Lá terá as suas razões. Noto pelo rosto carrancudo e pela maneira como me pergunta: Patrão vai tomar o café? Eu recuso-me, não quero tornar mais cinzento o dentro da dona Francisca. Poupo-o à obrigação de me servir. Um homem que é azul não precisa de ninguém a servi-lo. E ainda bem, porque senão não era azul. Descemos o elevador, eu e a minha bela esposa. Ela menos azul porque lhe dói uma costela, resquícios que não deixam o azul impor-se. Mas, mesmo assim, a cor achocolatada da pele empresta o azul ao dia todo. E os olhos grandes e quase fugitivos que tem. E os dentes brancos e acertadinhos com que sorri. E o cabelo crespo e dourado como uma coroa sobre tudo isso. E ela, meu Deus, e ela toda, ali, como uma dádiva do azul ao lado de mim. Rumamos ao emprego pelo País rasteiro que agora divisamos. Os carros das mordomias que nos ultrapassam em tudo, os carros do desenrasca que se parecem com a gente, as motas magras dos trabalhadores suburbanos, as mamanas sem o banho pelas bancas, os buracos lunares das estradas, os estudantes coloridos a caminho das escolas, as crianças enrameladas, que lindas, que maravilhosas, que fábulas elas são. E o Sol, amarelo e forte a brilhar para nós. A Guta deixa a sua cândida voz soltar-se, tilintar pelo espaço exíguo do carro, emudecer o motor: Já não tem combustível a viatura. Olhamo-nos. Afinal a realidade não é tão azul como parece. Não temos dinheiro no bolso, nem no banco, nem em lado nenhum. Não faz mal, arranjar-se-á. Digo eu ainda azul. É preciso que não morra tão cedo esta cor que tenho, pelo menos enquanto a Guta aqui estiver. E ela tranquiliza-se, elegante, conduzindo o seu dourado coche. Até os cavalos brancos eu vejo. Imponentes no trote.

Mas pronto. Chegamos. O beijo despede-nos para os empregos. Mas ainda ssim o beijo é azul. Que bom sentir os meus lábios dormentes e escuros do baton dos da Guta. Deixo a tristeza partir pendurada à matrícula do carro. Gostava de ter ficado com ela em casa. A sentir-lhe o calor do corpo, a lisura da pele, o hálito fresco da saliva acabada de acordar, os olhos maiores do sono, os carinhos a cantarem-lhe pelos dedos. Vou rumo ao elevador do banco. Azul eu. Eu azul. Azulando todos. E subo subido pelo ascensor. Um bom dia aos colegas mais sonante. Eles notam. Eu sorrio-lhes. Mas não lhes digo mais nada. Este azul é meu. Ligo-me ao Bill Gates num coreanico computador. Os e-mails depressa. Então, um recado do Zé. Um amigo que me ajudou em tempos a publicar poemas em livro. Um gesto azul, se atendermos que foi com o dinheiro dos outros. Magnífico mecenas. Penso. O Zé a dar uso indevido ao dinheiro. É azul também. Agora o compreendo. Vou a correr até à sua Ma-Shamba. Tomar o pequeno almoço. Mandioca cozida e chá adocicado com açúcar amarelo. Numa velha lata de azeite doce. Leio-lhe o recado: Apassarado, um longo voo é o que te desejo. Sai um abraço mano, que não seja ele lastro. Fiquei mais azul ainda. Que bom um recado assim. Por isso, sigo assobiado aos e-mails. Aos jornais por fax . E pumba. Explodiu-me o azul. Todo fragmentado em mim, pelo open space onde trabalho. O azul explodido só por causa disto: governo vai cortar mordomias dos administradores das empresas públicas. Tudo isto desta maneira, escrito, a abrir a primeira página do jornal. O meu azul fugiu. Explodiu. Fragmentou-se. Eu ainda lhe disse: AZUL, EU ACREDITO QUE EXISTES. De nada me valeu. Com uma notícia daquelas, ficou provado, para o azul, que no meu País é todos dias 1 de Abril. E face a isto, não há azul que resista.

Publicado por JPT em 11:16 AM | Comentários (0) | TrackBack

O kilo de arroz e etc

Para quem passa por aqui encontrará os apontamentos mais de sorrisos, mais exóticos, mais desinteressantes, mais informativos, sei lá. Um mais franco para variar, como o anterior?

E face a cada apontamento quem comenta é livre de dizer o que quer. No anterior está um comentário que diz "Aqueles que dão o pouco que tem não merecem esta desconsideração".

Escrevi exactamente sobre quem acha que a caridadezinha se chama solidariedade, quem acha que "tem pouco" e "que o dá" - fosse eu cristão e gritaria o "pecado" que é pensar-se que se tem pouco no meio deste mundo: soma de gula e de soberba. Ou será mera hipocrisia?. E enquanto tudo fazem (mesmo que encerrados no não-fazer) para se manterem nos seus privilégios, que não são nada pequenos. São exactamente esses que merecem toda a desconsideração.

E não me falem dos excluídos sociais. Pois não são esses que fazem o folclore de que falo. E não merecem ser biombo do umbiguismo geral.

Já agora olhar em volta, nem que seja para tentar perceber quantas décadas é que podem restar disto assim, não vá algo mudar apanhando-nos ainda nos lares de depósito. Será uma maçada, alguém terá que pagar o meu subsídio de funeral, e o resto que se lixe.

"Já agora, Zé Flávio, que tens feito para melhorar tudo isso?", pergunta o Abstracto Comentador. Hesito, até reflicto, e digo francamente "mas quem te disse que me estou a considerar?"

Publicado por JPT em 08:56 AM | Comentários (1) | TrackBack

abril 12, 2004

O kilo de arroz amais o livro usado

O Africanidades também se cansa das missõezinhas benfazejas na africazinha dos pretinhos coitadinhos.

Ele é mais boa pessoa do que eu. Dá-lhes com a ironia.

A mim só me mete nojo, o nojo que tenho dessas famílias todas a aderirem às campanhas periódicas, a entregarem lá na paróquia, a da igreja ou da associação que para o efeito é o mesmo, o kilito de arroz (até já com bicho, mas antes isso que nada não é assim?, coitadinhos, tanta fome) e mais o livro usado, aquele de capa rasgada que o que interessa mesmo é o texto, para que aprendam eles o português, coitados tanta miséria.

A mim só me mete nojo. Não os grandes poderes, essa muito na moda "globalização". Estou a falar das famílias. A manta velha, o mono, o livrito. E todos de volta à vidinha, que o mundo é a minha marquise...

Publicado por JPT em 11:59 PM | Comentários (4) | TrackBack

Blog Ilustre

Sussurrada a notícia de blog, em breve ilustre, casa nova do poeta Eduardo White.

Apassarado, um longo voo é o que te desejo. Sai um abraço mano, que não seja ele lastro.

Para quem venha doutros lados, e assim não saiba, Eduardo é o poeta em Moçambique.

Publicado por JPT em 07:01 PM | Comentários (0) | TrackBack

Arquivos

Não sei se isto do bloguismo é uma moda mais ou menos breve ou se é um meio de comunicação que veio para ficar, ainda que com progressivas transformações.

Mas quando leio existirem milhares de blogs em Portugal (para lá dos milhões!! mundiais que a technorati traça) não posso deixar de me surpreender com a sua dimensão. Não falo de importância - por vezes penso que muito exagerada: à excepção dos blogs de autores mais famosos e dos cómicos presumo que a maioria dos leitores sejam eles próprios autores de blog. Um ciclo fechado, que tenderá a esgotar-se com o tempo.

Mas a dimensão impõe-se. Assim sendo gostaria de saber como está a ser feito o arquivo de tudo isto, deste fenómeno relativamente importante do princípio do século e que virá a dizer algo sobre a sociedade de agora.

Há uma política de arquivo bloguístico? Tem a instituição central de arquivos (digo a "Torre do Tombo" pois não me lembro do exacto nome) uma política, uma lei e um instrumento de arquivo - o qual presumo que só poderá ser robótico?

Ou ainda não se pensou no assunto?

E em desenhando essa vertente arquivística não deverá incluir de imediato uma cooperação com os arquivos nacionais dos países africanos da cplp? Pois começada esta logo de início não será muito mais fácil, barata e profíqua do que se só lembrada dentro de alguns anos?

Publicado por JPT em 11:03 AM | Comentários (5) | TrackBack

Memórias 2

A referência anterior à escassez da produção de memórias escritas é mais do que sublinhável aqui em Moçambique. Que me lembre, e sem grande pesquisa, só retenho as memórias do pai Honwana, de Simeão Cuambe e de Hélder Martins.

É natural que tal aconteça. Uma sociedade menos letrada implica obrigatoriamente um menor uso da leitura e portanto da escrita (la palisse não estaria melhor).

E uma sociedade de maiores silêncios também, onde as obrigatórias diferentes versões, pois cada um não só tem os seus olhos como as suas lembranças, são ainda olhadas com tamanhas desconfianças que mais vale o calar.

Seria pois interessante o recolher oral dos testemunhos dos vultos da história moçambicana. Os célebres e os incélebres. Organizados de modo sistemático. Alguma coisa tem sido feita no domínio dos antigos combatentes. Pequenas entrevistas biográficas no domínio dos escritores (Saúte, Laban, Chabal publicaram livros nesse sentido). Mas muito haveria para fazer - linhas de financiamento (escasso) e de orientação não estarão disponíveis?

Há alguns anos soube da ideia de desenvolver um projecto de pesquisa sobre biografias de membros do MPLA, que uma ong portuguesa acalentava. Não terá sido desenvolvido. Há meses Agualusa esteve em Maputo e em conferência na Associação de Escritores (hei-de voltar a esta, tamanha a minha irritação nesse dia) partilhou deste anseio de história oral e anunciou integrar um projecto nesta área em Angola. Se com sucesso talvez origine efeitos noutros países, nunca se sabe.

Mas urge fazer esta recolha, há uma geração a desaparecer todos os dias.

Publicado por JPT em 11:00 AM | Comentários (2) | TrackBack

Memórias 1

Uma característica da bibliografia portuguesa é a reduzida tradição memorialista. Basta entrever a loja de algum modesto alfarrabista em país anglo-saxónico para cobiçar as pilhas de memórias ou livros de viagens, monos tantos deles. Mas em Portugal não. E tantos anos de viajantes, colonos, emigrantes não cimentaram essa corrente, que nestes casos até poderia ter sido alimentada por esses exotismos biográficos.

Não se pede a estas obras grandes relevos literários ou extraordinário rigor histórico. Acima de tudo poderiam dar-nos esclarecedores ambientes de época ou factos da "pequena história" interessantes, esclarecedores, aqui e ali pepitas desgarradas a dourarem as "grandes narrativas" que sempre surgem.

Este é um dos campos onde este bloguismo poderá ser bem interessante. Pois permite a composição fragmentada das memórias avulsas e sua divulgação (e até comentários recompositores). Sem a preocupação do calhamaço à hora da morte, sem a demanda do editor de quase óbvio futuro mono.

Hoje Vital Moreira dá um pequeno exemplo disso. Mas não é ele um bom exemplo do que quero afirmar, pois sobre figuras da sua nomeada são recorrentes biografias autorizadas ou auto-biografias (ou começam a ser recorrentes, pequena diferença).

Nesta nota, neste reparo de ausência, eu refiro-me em particular às memórias dos cidadãos incélebres* os quais, em especial se de excêntricas (em sentido literal) biografias, nos podem trazer contributos tão mais interessantes à ilustração e compreensão das épocas.

É também por isso (e lá vem o elogio semanal) que tanto aprecio e recomendo o Bota Acima. Não só pela sua simpatia, pelo aparente desalinhado do autor (um meu "mais velho") e pela elegância do teclado. Mas também porque lá se intervala o humor caústico sobre o presente com trechos bem ricos de memórias, que botadura a botadura ali vão constituindo tomo que se quer não mono.

Refiro ainda a galáxia de blogs em torno do Abre Latas, com os seus múltiplos sovietblogs, onde o autor revisita a sua experiência como estudante na URSS nos anos 80. Onde o objectivo memorialista se cruza com uma espécie de monografia de época.

Enfim, caminhos que acho exemplares, não como obrigatórios mas sim como real e literalmente exemplares.

[Se alguém conhecer outros blogs que tenham esta dimensão avise, sff]

[* não é uma miacoutada, é mesmo ignorância: como definir alguém não célebre sem o desvalorizar de "desconhecido", "mediano", "incógnito" ou algo similar? avisem, sff]

Publicado por JPT em 10:32 AM | Comentários (1) | TrackBack

Até que enfim...?

Referrer tracking anunciou presumível chuabo.

Um blog moçambicano? Até que enfim.

Bem-vindo, boa colheita.

Publicado por JPT em 03:58 AM | Comentários (1) | TrackBack

Peixes ao preço a que os comprei

Dizem-me (e até eu, em alguns dias) a caminhar para a direita. Mas nego-o. Pois não é de direita ficar com os cabelos em pé quando se lê o que aqui transcrevo, via Mar Salgado:
Fausto Bertinotti, convidado ... do 5º aniversário do Bloco de Esquerda: "...para enfrentar o novo capitalismo é preciso uma nova língua que incorpore o apelo dos indígenas, dos homossexuais, das lésbicas, dos presos, dos palestinianos".

E ele que me desculpe, se aqui algum dia chegar, mas lembro-me de imediato de um bom amigo moçambicano a contar-me um episódio de uma das suas deslocações (militantes, frise-se) ao Forum Social Mundial de Porto Alegre: desfilavam várias organizações e tudo ia gritando "Viva o Movimento X", "Vivam os ...Ys" quando passou uma organização lésbica e todos avançaram num "Viva as lésbicas!" e ele, claro, também mas a interromper-se, caído em si no resmungo "porra, vivam as lésbicas? qu'é que estou para aqui a fazer a gritar isto?".

Optima memória esta, porque me acalenta a ideia de que independentemente de onde se estiver nem todos estarão loucos por ali.

[nota para quem me achar homófobo: sê-lo-ei, comerei o meu chapéu até, se algum iluminado me conseguir provar que um palestiniano não é um indígena. Ou até mesmo se me mostrar uma lésbica ou homossexual (perdão, repito-me...) que não o seja também, indígena digo. Quanto aos presos nem digo nada, coitados, como se não lhes bastasse estarem presos e ainda aparece um blog a chamar-lhes coisas]

Publicado por JPT em 03:39 AM | Comentários (0) | TrackBack

Diário de Pai-Mãe 7

Pic-nic de Páscoa, cascata da Naamacha. Assustas-me até, de onde vem esse não olhar para tantos outros meninos, esse querer da água, esse não medo das pedras que te dão um chão de escorregar, esse andar andar que me estoira breve breve...de onde vem esse não olhar para tantos outros meninos, esse querer da água, esse não medo das pedras...

Publicado por JPT em 01:30 AM | Comentários (1) | TrackBack

Diário de Pai-Mãe 6

Esse "auga" "auga" "auga" repetido à exaustão, de beber, do banho, da piscina, da chuva, da "praia" "praia" "praia", da baía que te rodeia, esse "auga" que se tornou agora em pleno fim-de semana "acqua" "acqua" "acqua".

Invertes a etimologia...?

Publicado por JPT em 01:01 AM | Comentários (1) | TrackBack

Diário de Pai-Mãe 5

Quem te ensinou todos esses "não..." à roupa que te escolho, no ensonado da manhã? Quem te ensinou esses risos e palminhas às jardineiras cor-de-laranja, às t-shirts rosas, e a tudo isso de adolescente?

Quem te ensinou as festinhas na minha cara enquanto te corto as unhas das mãos?

Publicado por JPT em 12:56 AM | Comentários (1) | TrackBack

abril 10, 2004

Sexta-feira Santa

Tarde de Café com Letras, perdido no lugar dos Tembe.

Publicado por JPT em 01:13 AM | Comentários (3) | TrackBack

já agora (para os mais novos)

YOU CAN’T ALWAYS GET WHAT YOU WANT

I saw her today at the reception
A glass of wine in her hand
I knew she would meet her connection
At her feet was her footloose man

No, you can't always get what you want
You can't always get what you want
You can't always get what you want
But if you try sometime you find
You get what you need

We went down to the demonstration
To get your fair share of abuse
Singing, "We're gonna vent our frustration
If we don't we're gonna blow a 50-amp fuse"

You can't always get what you want
You can't always get what you want
You can't always get what you want
But if you try sometimes well you just might find
You get what you need

I went down to the Chelsea drugstore
To get your prescription filled
I was standing in line with Mr. Jimmy
And man, did he look pretty ill
We decided that we would have a soda
My favorite flavor, cherry red
I sung my song to Mr. Jimmy
Yeah, and he said one word to me, and that was "dead"
I said to him

You can't always get what you want
You can't always get what you want
You can't always get what you want
But if you try sometimes you just might find
You get what you need

You get what you need--yeah, oh baby

I saw her today at the reception
In her glass was a bleeding man
She was practiced at the art of deception
Well I could tell by her blood-stained hands

You can't always get what you want
You can't always get what you want
You can't always get what you want
But if you try sometimes you just might find
You just might find
You get what you need

You can't always get what you want
You can't always get what you want
You can't always get what you want
But if you try sometimes you just might find
You just might find
You get what you need

Publicado por JPT em 12:22 AM | Comentários (2) | TrackBack

abril 09, 2004

Máquinas do tempo

Anteontem à noite zapping e "Rocky Horror Show". Ixe...
Hoje à noite blog-in, blog-out com Love You Live...
Veeelho!

Publicado por JPT em 11:53 PM | Comentários (0) | TrackBack

Publicidade a blogs

Aí nos elos coloquei há dias o esquema de publicidade da weblog, uma rotação de dísticos de blogs, a que intitulei Roleta. Acho simpático (ainda que os dados afigurem que não serve de muito, mas enfim..). Reparo agora que lá está um blog, para mim desconhecido, o Margem Esquerda que se apresenta com a frase (de quem será??, de quem será??): "Já não basta compreender o mundo; agora, o que importa é transformá-lo!".

Foda-se, não seria melhor primeiro tentar compreender? Evitar-se-ia muita asneira. E muito trá-lá-lá que anda por aí! Caramba, já vamos em 2004! Ou não?

[se calhar o blog é porreiro, hei-de ir lá depois de botar isto]

Publicado por JPT em 11:42 PM | Comentários (0) | TrackBack

Estou de pé a bater palmas e a gritar Bravo.

Tenho com Marcelo Mosse uma relação ambivalente. Gabo-lhe a inegável coragem intelectual e física, que faz deste ex-puto um tipo a respeitar. Torço o nariz a alguns desvarios que nem a ex-puto se deveriam perdoar (e sei muito bem do que falo, que até a mim já me calharam). Mas enfim, acho que o positivo se impõe e bastante.

Mesmo assim fiquei surpreendido com o artigo de hoje do Público. Surpreendido porque muito pela positiva, pela excelência. Repito o título "Estou de pé a bater palmas e a gritar bravo".

[A ler obrigatoriamente, esteja lá onde estiver o leitor. O negrito é meu]


O Outro Problema de Cahora Bassa
Por MARCELO MOSSE
Sexta-feira, 09 de Abril de 2004

O futuro da Hidroeléctrica de Cahora Bassa (HCB) não pode ser visto apenas pela perspectiva da maximização do lucro com a venda de energia eléctrica e do saneamento financeiro em função da dívida pública portuguesa, como pretendem os governos de Moçambique e de Portugal. Há uma componente social e ambiental quase catastrófica que, porventura, é pouco conhecida em Portugal e que, no seu auto-elogio enquanto negociador do intricado diferendo tarifário com a Eskom sul-africana, Luís Mira Amaral descurou completamente, num texto publicado na última edição do semanário "Expresso" (3 de Abril de 2004).

Convenhamos que as tarifas que a Eskom (companhia de electricidade sul-africana) vem pagando pela energia da HCB (durante muitos anos situadas em 2 cêntimos de rand/kwh) eram absurdas do ponto de vista custo-benefício (sendo fundamental a subida para 12,5 cêntimos de rand/kwh em 2007, em função do acordo recente, louvando-se, por isso o esforço negocial). Convenhamos também que continua a ser absurdo que Moçambique compre à Eskom a energia que produz, situação herdada do perfil colonial, que hoje perdura, de economia ao serviço da República da África do Sul.

Também foi absurda a destruição das torres de transmissão durante a guerra, como é absurdo que cerca de 90 por cento da população moçambicana não tenha ainda acesso à sua própria energia eléctrica. É igualmente absurdo que o empreendimento da Mozal tenha preferido comprar energia térmica e mais cara à Eskom, ao invés de usar Cahora Bassa, numa jogada estranhíssima engendrada pelas elites políticas e económicas de Maputo.

De acordo com Mira Amaral, a única coisa que preocupa Portugal relativamente a HCB é a garantia das condições para a sua viabilização económico-financeira, e apenas isso, e só depois é que haveria condições objectivas para a transferência da posição accionista de Portugal para Moçambique. Todo o perfil negocial sobre Cahora Bassa, na visão de Mira, assenta nessa maximização dos "cash flows", pois esse é o "grande problema nacional" português.

Por outro lado, Portugal, daqui para frente, estará apenas interessado a "negociar questões jurídicas, técnicas e económicas de grande complexidade e também discutir qual a percentagem com que Portugal com que ficará na HCB em nome da cooperação Portugal-Moçambique".

É terrível esta ditadura de cifrões à volta da HCB.

É imensamente terrível quando sabemos que a HCB é também uma grande fonte de problemas para Moçambique, fonte de pobreza e instabilidade social, uma vergonhosa externalidade contra o sistema ecológico local e regional e mundial. Esta é uma componente que tem vindo a ser esquecida nos longos anos da HCB e que não mereceu uma linha sequer, uma palavra por mais que escassa, do brilhante negociador.

Se o seu texto no "Expresso" é uma espécie de prestação de contas sobre essas negociações quase que secretas à volta de um empreendimento público luso-moçambicano (um secretismo que leva os moçambicanos a interrogarem-se sobre se a HCB vai, no futuro, continuar propriedade pública ou será "alienada" por interesses político-privados do eixo Maputo-Pretória), é ensurdecedor o silêncio de Mira Amaral quando à gestão ambiental da hidroeléctrica.

E Portugal tem responsabilidades a este nível.

A conclusão de Cahora Bassa em 1974 interrompeu as cheias anuais do rio Zambeze, os fluxos normais, e mudou os hábitos da população que vivia nas proximidades das várzeas. Antes de Cahora Bassa, o Zambeze inundava vastas áreas da sua bacia, incluindo o delta, as quais permitiam uma série de actividades de subsistência beneficiando mais de um milhão de camponeses. Com a sua conclusão, a bacia e o delta passaram a receber apenas 80 por cento das águas, estas reguladas através de comportas e com um caudal muito abaixo da média normal do período antes da regulação.

Como consequência, o regime hidrológico natural alterou-se completamente. O actual cenário no delta é de seca generalizada em longos períodos do ano. Estudos recentes mostram que as mudanças na hidrologia resultaram na perda de mais de 25 por cento dos habitats naturais do delta em 30 anos, causando uma queda drástica na ordem dos 95 por cento da fauna. Por outro lado, estima-se que a pesca industrial do camarão num distrito da Zambézia, junto ao delta, se reduziu drasticamente, dadas as dificuldades de regeneração da sua população em função da alteração ecológica causada.

Sabe-se que durante duas décadas, a barragem operou como uma anomalia permanente no "continuum" do rio Zambeze e, em 1996, logo que a paz o permitiu, um reconhecimento aéreo evidenciava claramente o impacte ecológico da sua negligente administração. Não mencionamos os prejuízos na pesca semi-industrial e artesanal em outras regiões sob a influência da hidrologia do Zambeze; da pesca artesanal nas terras húmidas, restringida agora aos leitos dos rios; da agricultura de subsistência a montante e a jusante.

A organização ambientalista moçambicana Justiça e Ambiente considera que a perda do padrão das cheias no Zambeze resultou da "má administração das águas da albufeira da Cahora Bassa". Um estudo realizado por Richard Beilfuss para a World Comisson of Dams refere que, depois de longos anos de má gestão, a situação no delta é dramática e muito terá de ser feito para se restabelecer os seus equilíbrios

Mas isto passa por uma transição das abordagens meramente económicas para um quadro analítico que considere o profundo valor cultural e ecológico que o Zambeze representa para Moçambique, para a bacia do mesmo nome, que cobre oito Estados da região e para o mundo. Passa por negociadores brilhantes como Mira Amaral demonstrarem um pequeno pedaço de consciência ambiental.

Numa época em que as questões ambientais têm manifestações locais mas repercussões mundiais e em que as sociedades civis actuam transversalmente à escala internacional, dado o carácter internacional da gestão económica e dos seus efeitos no equilíbrio ecológico global, parece-nos justo exigir um esclarecimento público por parte da administração da HCB, e dos governos português e moçambicano uma informação actualizada sobre a gestão ambiental da hidroeléctrica.

Como membro da União Europeia, que se rege por princípios de economia ecológica e de governação sustentável, estabelecidos justamente em Lisboa e donde ressalta o princípio da responsabilidade ("o acesso aos recursos ambientais acarreta a responsabilidade de os utilizar de um modo ecologicamente sustentável, economicamente eficiente e socialmente justo"), Portugal é obrigado a dar uma explicação sobre todo o historial de degradação ambiental proporcionada pela HCB. Eis, pois, uma belíssima oportunidade para que os eurodeputados portugueses em Bruxelas, que levantaram questões sobre o tráfico de órgãos humanos em Moçambique, também chamem a atenção para este assunto. Em nome dos princípios de Lisboa.

jornalista moçambicano

Publicado por JPT em 11:14 PM | Comentários (1) | TrackBack

diário de Pai-Mãe 4

Early Morning Blogs (destes)

"Papá, cocó" "Papá, cocó" (risos)
"Papá, cocó" "Papá, cocó" (risos)
[bis]

(acordando) "Tens cocó?"

"Papá, cocó" "Papá, cocó" (risos)
[bis]

"Mamã?!", "Mamã?!"
"Vovó" "Vovó"
"Mamã?!" "Vovó"

***

Um antropólogo diria: fisiologia e relações de parentesco.

***

Publicado por JPT em 12:23 AM | Comentários (2) | TrackBack

Nampula e o Público (outra vez)

O leitor "Mossuril" colocou nos comentários um artigo do Fernando Amado Couto sobre este caso. Muito lhe agradeço a colaboração, simpática e informativa. E que espero venha a ter continuação, sobre esta ou outras matérias.

Já agora, foi o próprio Fernando A. Couto que me chamou a atenção para o artigo do Público que ali refere e a que eu também aludi em apontamento anterior. Mal sabia eu que iria ele escrever.

Escrevi várias vezes sobre o assunto. Quero ainda deixar dois apontamentos. Este e um próximo (já a seguir):

O último texto que dediquei ao assunto recebeu passados dias um comentário explicativo da própria jornalista Ana Cristina Pereira. Confesso a minha estupefacção: como é que alguém que é lido por (para aí) cem mil leitores vem perder o seu tempo num blog de mil vezes menos leitores? (Já nem falo do "como é que ela soube disto?"). Respondi-lhe, dizendo das minhas razões. E contra-respondeu ela, explicando o seu ponto de vista. Ou seja, explanei eu as minhas ideias, e ela as dela.

Explico-me. Quase aos quarenta a última ideologia que me resta é a higiene.

Sendo assim ao ver alguém vir, e era-lhe desnecessário dada a pouca monta deste eco, argumentar sem arrogâncias, sem acinte, mas apenas frisando discordâncias, tiro-lhe o meu chapéu. Continuo a discordar do trabalho que ali foi feito. Do tom, acima de tudo. Mas aceito-lhe a boa fé. No fundo reconheço-lhe apenas as armadilhas provocadas pelo espanto do exótico. Quem não as sofre? Espero que no futuro as evite com maior sucesso. Mas, mais do que tudo, que se mantenha assim Senhora.

É isso mesmo, a sua a sua dona, aqui saúdo a elegância da Ana Cristina Pereira, rara até. E assim...

Ponto final parágrafo.

Publicado por JPT em 12:11 AM | Comentários (1) | TrackBack

abril 08, 2004

Prosa

Por onde anda esta prosa


"...afora os curandeiros que afirmaram, depois, aos que os quiseram ouvir, que o cimento é o refúgio dos espíritos dos brancos, e que passarão ainda muitas luas antes dos pretos se apropriarem desse mundo compacto, cheio de compartimentos e de segredos e de locais onde se caga sem que a casa cheire a merda" ?

(Ungulani Ba Ka Khosa, "A Solidão do Senhor Matias", Orgia dos Loucos)

Publicado por JPT em 03:20 PM | Comentários (1) | TrackBack

Questão profissional

É para mim a questão fundamental, principalmente desde ontem.

Pode um profissional observar uma, apenas uma, demonstração de um fenómeno social, sobre o qual nada sabia anteriormente, e produzir um interpretação explicativa. Ou será mera retórica? Ou tudo será retórica?

Publicado por JPT em 01:51 PM | Comentários (2) | TrackBack

Relações entre portugueses e moçambicanos

Se alguma das visitas tiver curiosidade sobre o que penso eu das relações entre portugueses e moçambicanos pus um texto de vinte páginas sobre o assunto aqui.

Just in case...como dizem os outros

Publicado por JPT em 11:26 AM | Comentários (0) | TrackBack

Roupa Velha 14: uma cerveja no Piri-Piri

A gastar mais uma tarde sento-me no inabalável Piri-Piri, a vendedora de castanha traz-me o prato suficiente, vem a Amstel habitual para o dr. Texeira, o sol bonito de Dezembro a despedir-se por hoje, aqueles livros que percorro legitimando a preguiça e de cujas páginas nada recordarei quando chegado a casa. Vazias estão ainda as mesas, à minha direita dois clientes palradores vão invectivando as muitas belezas que passam, à esquerda outros dois, estes apenas entre eles. Como sempre vou-me deixando perder no crescente bulício do fim do dia, hora de todos saírem para a vida, verdadeira ou falsa já é assunto de cada um.

Brusco irrompe um tiro, fugaz como é sua natureza, surpreendendo o barulho da avenida. Balanço com o estampido, como se fosse o próprio alvo. Depois, com algum vagar julgo eu, levanto-me para confirmar o ocorrido e mesmo defronte, do outro lado da rua, no meio da venda de batiks, ainda vejo o fumo da arma. Um silêncio esbateu-se sobre a avenida, por ora parecendo parada. Algo incrédulo interrogo-me à direita para os agora mudo palradores “isto foi um tiro, não foi?”, e eles só acenos, que se lhes secou a verve, então repito-me para a esquerda, aí patrícios de olhos abertos e circulantes, e “é pá, sim…foi um tiro, se calhar é melhor sentar-se…”, pois só eu estou em pé.

Entretanto lá vai surgindo um par de polícias, correndo bem devagar para a ocorrência, de onde vendedores e arrumadores não arredaram, e alguns guardas de chamboco caído também se aproximam. Tudo isto sem que haja pressa pois o assunto há-de ser conversado durante algum tempo, e não se chegando a qualquer exactidão sobre o acontecido tudo findará assim mesmo, o que não deixa de estar certo pois o atirador há muito que partiu e ninguém foi atingido.

Nisto o empregado já se arrisca à esplanada, mas diz-me que de nada se apercebeu, não vá a confirmação que lhe peço ser de mau agoiro. Face ao seu silêncio resta-me ironizar para os patrícios, “é pá, isto é desagradável, ainda se morre na esplanada!”. E, que fazer?, remato num encolher de ombros verbal, “Olhe, traga-me mais uma Amstel…e amendoins”, e fico-me, nem sequer a remoer.

Só depois, e talvez porque a nova cerveja me refresca, é que me apercebo que não é natural toda esta minha indiferença. E para mais com estes recentes assaltos a gente conhecida, alguns agora mortos, outros para sempre aleijados, e outros ainda, sorte sua, apenas de bolsa aliviada. Fico-me então a resmungar entredentes, e com os impropérios alumia-se-me a memória.
De súbito sinto que cheguei a Moçambique há já muitos anos, tantos que percebo agora não ter sido só eu que encaneci anafado ao lado da Inês, zangas tão passadas que agora até aí vem uma nova alguém, e que é tão bem-vinda. Nisso fui mudando, para além dos dolares no banco, que nem tantos assim, também nas andanças, nas gentes conhecidas e até nalguns patrícios que sofri. Mas, e só hoje reparo, também o anfitrião envelheceu, e apenas por distracção isso me pode surpreender.

Quando cá cheguei os tempos eram outros, uma jovem paz a caminho de eleições. Mas era ainda um país violento para o recém-chegado, a pouco perceber apesar dos olhos bem abertos. Nessa altura aboletei-me numa casa sita na avenida lenine, toponímia que recebi com um sorriso aberto cuja ironia aumenta hoje, habitando há anos uma outra resistente, a engels. Esperando partir rumo a um Norte para mim totalmente desconhecido passei as primeiras noites ouvindo sucessivas rajadas de tiros mesmo ali em baixo.

Nesse tempo as metralhadoras eram usadas pela polícia, instalada nas suas barreiras ali defronte, entre os nossos prédios e o chamado "complexo dos russos", um enorme bunker-sobrevivência que também me fazia sorrir. Todas as noites mal começavam os disparos o meu irmão, que entretanto também mudou com o tempo, morreu-se, lá se postava na varanda a observar os eventos na minha companhia, comentando os despistes, as prisões, os espancamentos, com a calmaria de quem tinha visto muito mar e muita terra. Eu ia fumando, postado ali a seu lado e montando o ar de irmão mais novo, é certo, mas também com alguma estrada atrás de mim.

Para os dias, e como estrangeiro em terra estranha, procurei o melhor balcão da cidade, onde sempre se conhecem as pessoas que se devem conhecer. Aquele que me indicaram, lamentavelmente falho do varão de pés que é o que dá a verdadeira dignidade a estas casas, foi este mesmo, o do Piri-Piri, restaurante esplanada ao cruzamento das avenidas ricas, o qual não só surgia como instituição local mas também brilhava na ausência de uma verdadeira concorrência. Porque mesmo se então a cidade fervilhava de estrangeiros instruindo a paz, a sensação era de que o dinheiro não abundava, tanto escasseavam os sítios onde o gastar.

Nesse tempo eu era andarilho e caminhava as longas avenidas para terminar os dias entremeando cerveja e castanha, deixando-me meter conversa para que me explicassem onde estava, sem recurso a investigadores ou livros. Depois regressava a casa, sempre evitando o anoitecer, não por causa do que me diziam de indizíveis perigos, pois para isso bastava-me o que ia vendo do alto do décimo andar. Foram esses cuidados que me impediram de assistir ao célebre assalto ao Piri-Piri, acontecimento que correu mundo e que veio a entrar na mitologia da cidade. Num final da tarde, que aqui é já o princípio da noite, coisas da geografia, irrompeu um bando aos tiros pelo restaurante, ataque com toque de "western", ferindo assim uma boa meia dúzia de clientes e matando dois, um dos quais refugiado atrás do já citado balcão. Caixa roubada, e pobre colheita ao que constou, puseram-se os assaltantes em fuga, deixando a cidade em polvorosa, que isto das zonas burguesas serem atacadas amplifica sempre, e muito, o ruído, ainda para mais quando há baixas estrangeiras entre os consumidores.

Lembro agora a minha apreensão nesses momentos, ainda assim muito relativa. Havia alturas em que resmungava desiludidas conjecturas sobre o quão acolhedor deveria ser o meu destino, lá no mato, sendo a zona nobre da capital assim tão animada. Mas o mais das vezes ficava-me descansado, não por qualquer laivo de inconsciência, mas é certo que um tipo dos Olivais vai sempre relativizando a violência a que assiste, ainda para mais nessa época, saído da agitação de Hillbroad, das matanças no Bop, e de viver o absurdo na queda do Gkozo. Um encolher de ombros de neófito armado em veterano, um "são cenas de África...", e estava tudo dito, alguns cuidados e toca a andar.

De qualquer modo não estava imune à excitação, tiros são tiros, mortos são mortos, e assim tudo tão evidente não deixava de me ser novidade. E havia mais! Corria que, fora do alcance dos meus olhos, nos “bairros de caniço”, que é como aqui as gentes da baía chamam à cidade de Maputo, também aumentavam os crimes. Aí, diziam-me e nunca o confirmei, a própria população tinha organizado eficazes esquemas de vigilância e justiça. Com um para mim surpreendente relativismo moral, nacionais e estrangeiros anuíam na competência da “técnica do pneu”, que por lá amíude ia sendo executada, pois o flagrante delito até o ordálio dispensava.

Mas o que mesmo me surpreendia era a azáfama com que família e desconhecidos comentavam tais assuntos, pois se saídos de uma guerra civil pensava-os mais habituados a semelhantes episódios. Querendo-me analítico, ia matutando que por mais terrível que tivesse sido a guerra esta cidade intra-muros tinha passado algo incólume, pelo menos esta gente com que me cruzava, que por aqui as geografias sociais são bem mais delimitadas do que na minha terra. Decerto por isso tanto estranhariam todos aqueles tiroteios.

Aqui e ali todos coincidiam nas explicações para tais inabituais acontecimentos. Às barreiras policiais viam-nas como procurando guerrilheiros infiltrados com suas armas, prontos para a sublevação pós-eleitoral. E era desses mesmos que provinha o crime dos “bairros”, dessa gente do mato ignorante da vida industriosa das urbes, então aqui deslocados e procurando sobreviver pela pilhagem própria à guerra. Mas, e recordavam-mo, essa bandidagem tinha ainda uma agenda política como bem o mostrava o assalto às zonas ricas, a de destabilizar a capital, fazer descrer na paz e no germinar da democracia. Sabendo-me das antropologias, alguns afirmavam as divisões étnicas, seculares conflitos agora irmanados na cidade. E sempre alguém lembrava o regresso dos soldados, desmobilizados ainda sem nada, traumatizados quantas vezes, habituados a anos de receber ou tirar, e tantos deles “tratados” para nada recear, todas essas vacinas imortalizantes.

Assim sendo, naqueles dias eu estaria a assistir ao estertor final da guerra. Às dores de parto de um país pacífico e democrático misturadas com a ânsia nervosa face às eleições das quais era o país virgem, verdadeiro e assustador rito de iniciação. Tudo o que então se passava, toda a excitação que o rodeava era política. A política tudo explicava!

Em breve lá segui para Norte, para um mundo feito por uma gente pacífica tão pobre como dizem que diz a Bíblia, a viver das sua pequena machamba, feliz com uma paz que não encerra nem rapinas nem minas, e que a deixa ir até à estrada comerciar o tão pouco que tem. E face a isso logo esqueci sem mais dúvidas todas aquelas citadinas questões.

De curva em curva, eis-me agora aqui. Nestes anos fui assistindo a alguns assaltos, mas onde os não há? Fui gozando uma pacífica cidade, sem muito me interrogar, burguês na calmaria do meu bem-bom. Por isso de repente, enquanto pago a conta, reparo no envelhecimento do meu caro anfitrião, de novo violento, tiroteios desabridos na própria rua, mas agora sem motivos políticos, atávicos tribalismos ou quejandas respostas, nada que fale do futuro do país.

Apenas ladroagem, criminosa, assassina. O conflito seco e duro do “dá cá…”, mais irracional e inesperado do que qualquer outro. E velho como o mundo.

Hoje janto mal. E penso em Mavalane.


Maputo, Dezembro 2001

Publicado por JPT em 10:44 AM | Comentários (1) | TrackBack

Horizontes portugueses

Apesar deste assunto não potenciar críticas ao governo. Apesar deste assunto não potenciar loas ao governo. Que tal uns resmungos que sejam, nem que seja para parecerem actualizados, qual gente do mundo?

Publicado por JPT em 09:57 AM | Comentários (0) | TrackBack

Diário de Pai-Mãe 3

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30 anos depois Wacki Races continuam a ser incríveis.

E o Muttley um ícone!

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Publicado por JPT em 02:19 AM | Comentários (1) | TrackBack

Diário de Pai-Mãe 2

Fim do dia já, ela entra divertidissima aos berros (n)"o popó do papá!!!" "o popó do papá!!!" "o popó do papá!!!". O "guarda", recebida a "quinhenta", diz sorridente "o patrão sabe cuidar do moral da criança" (sic, juro).

"Vamos a ver, vamos a ver", digo eu, deliciado apreensivo. Vamos a ver, nestes dias que se seguem, nestes anos que se seguem.

Publicado por JPT em 02:04 AM | Comentários (0) | TrackBack

Diário de Pai-Mãe 1

A primeira vez que se vê um avião a levantar voo é algo de extraordinário, esfuziante. Inesquecível mesmo que nunca se vá lembrar disso.

Publicado por JPT em 12:49 AM | Comentários (0) | TrackBack

Da actividade do Ma-schamba

O Francisco José Viegas passou cá por casa e teve a amabilidade de o referir no seu blog. Uma espantosa caixa de ressonância, chegaram visitas às catadupas. Agora, passada a semana, os números regressaram ao mais normal.

Normal que não percebo bem. O site meter anuncia cerca de 100 visitas diárias. Número espantoso (ainda que menor do que a soma dos meus alunos neste semestre). Mas também anuncia que a esmagadora maioria nem um segundo fica. Vêm ao engano e saem. Daí que eu preveja que cerca de 10 a 15 pessoas por dia leiam algo do que aqui boto. Não está mal, uma turma de finalistas.

Neste mundo pequeno é-me particularmente agradável notar que um blog brasileiro criou um elo com o Ma-schamba, ainda para mais um que me era anteriormente desconhecido e, já agora, bem interessante: Kafka Sumiu em Belo Horizonte. Agradável por provar que há alguém de um país que tão mal conheço e onde não tenho conhecidos que vem aqui ler. Óptimo.

Adenda: o PrimaDesblog veio elucidar-me sobre a contabilidade do tempo pelo site meter. Ou seja, desbloqueou-me da ignorância.

Publicado por JPT em 12:05 AM | Comentários (2) | TrackBack

"Quarta-feira europeia": Viva Morientes

Gosto de futebol. Ontem e hoje foi quarta-feira europeia, velha noção agora desvalorizada pela profusão de jogos. Gloriosa.

1. Deliciei-me com a derrota do Real Madrid. Apesar do Figo e do Carlos Queiroz - o macua galáctico, como aqui lhe chamam, por ter nascido em Nampula -, até porque a este até já lhe perdoei aquela substituição do Paulo Torres.

Porque tendo a torcer pelos mais fracos, desde que não anti-joguem? Um pouco. Porque gosto das surpresas e das reviravoltas que "ficam para a história"? Também um poucochinho.

Mas acima de tudo por Morientes. Desprezado, dispensado, emprestado. E agora devastador, "tomem lá pinhões!". !

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Quem nunca se sonhou Morientes? Olé

2. Deliciei-me com a derrota do Milan. E nada a ver com o Berlusconi. Pela reviravolta, pelo "milagre", pela fúria. Futebol.

3. Torço sempre contra o Porto. Excepto quando joga com o Benfica.

Acho risível quem diz que os clubes representam o país e que os devemos apoiar. Um clube português representa tanto o país como uma empresa, como a CGD ou o BCP aqui ou o Santos que tinha o restaurante Encontro em Pemba, e depois abriu a Tasca, e hoje anda por Nacala.

Posso simpatizar com os meus patrícios, ou não. Mas eles não "representam o país"! Ninguém lhes outorgou esse direito e dever. Representam-se, e a quem os apoia.

Acho uma falta de sentido nacional, uma parvoíce, uma barrasquice, confundir a representação nacional com um clube, empresa ou indivíduo. Uma imbecilidade repetida à exaustão, como se fosse um dogma, por gente que não pensa. Ou pelo menos, não pensa sobre isto, e fala enfatuada e até crítica.

Futebol é identidade e competição. Respeito o suficiente o Porto e (por enquanto) o Benfica para torcer sempre contra eles. São os rivais.

Hoje torci pelo Porto, jogam que se fartam.

4. Como é possível meter um brasileiro na selecção nacional e depois não meter o Maniche que joga o que joga e com ele se entende de olhos fechados?, pergunta o sportinguista ferrenho.

5. Não sou treinador de bancada. Não sei de futebol o suficiente. Sei sim duas coisas:

- as regras: mas estas devem ter mudado - o mês passado ouvi um comentador da RTP, dinheiro público então, a dizer que um árbitro tinha feito muito bem em não marcar um penalty pois tinha dado a lei da vantagem. Pena que não tivesse sido golo. Disse-o, contei, três vezes. É pago com dinheiro público. Espero que as leis tenham mudado. Ou então que mudem o indivíduo.

- e que ver um jogo ao vivo é diferente do que na televisão. O que se pede a quem comenta é que nos diga o que se passa no campo, em especial como jogam as equipas. Isso não se vê bem no ecrã. Tenho seguido a Liga dos Campeões com comentadores americanos (sim, os do soccer), franceses, sul-africanos, angolanos.

Não é mania de dizer mal, mas todos são incomparavelmente melhores do que os da RTP.

Publicado por JPT em 12:04 AM | Comentários (0) | TrackBack

abril 07, 2004

Onde está a esquerda?

Citação encontrada no Blasfémias:

"Como é capaz de defender a Política Agrícola Comum e dizer que apoia a ajuda a África? Não reformar a PAC significa ser responsável pela morte de fome dos pobres do mundo!" (Tony Blair)

"O senhor foi muito mal-educado! Nunca ninguém me falou dessa maneira!" (Jacques Chirac)

Transcrição, hoje, no Público de um "diálogo" de 25/10/2002

Para além da delícia que é o ridículo da resposta de Chirac (o das bombas atómicas, nunca esquecer), este pequeno diálogo lembra-me a esquerda europeia, tão coorporativa (ainda que gira) é ela. E agora ainda mais lembra, pois afinal o Labour é de direita.

Publicado por JPT em 03:18 AM | Comentários (1) | TrackBack

Chuvas Tardias...Malárias

À minha volta quase todos com malária. Nem durmo, imaginando os mosquitos de volta da menina.

(não há-de ser nada)

Publicado por JPT em 02:28 AM | Comentários (1) | TrackBack

Voto em Branco?

Não sei se para os outros. Mas para quem já se deslocou três ou quatro vezes à escola Damião de Góis (ter-lhe-ão mudado o nome entretanto?) para votar em branco é reconfortante ler este excelente artigo de Vital Moreira:


Além disso, o voto em branco é uma maneira perfeitamente democrática de exprimir descontentamento político, designadamente a rejeição das opções eleitorais em presença e a crítica dos "défices democráticos" existentes. Deste modo, ele é susceptível de uma função democraticamente virtuosa, a saber, um alerta contra o "mal-estar democrático" ou "crise da representação democrática", ideias que constituem um lugar-comum em muitas análises das democracias contemporâneas e que se traduzem na crescente taxa de abstenção, no desinteresse pelos partidos políticos, na hostilidade larvar contra os políticos, no apoio a forças populistas, etc. Ora essas análises não relevam de nenhuma posição antidemocrática, mas sim, pelo contrário, de uma preocupação em relação à qualidade da democracia e à sua redução a um ritual de selecção periódica dos dirigentes políticos, por mais importante que esta seja.

Votar em branco ainda significa utilizar instrumentos democráticos (justamente o voto) para mostrar uma posição política...

Atenção. Digo-o excelente e reconfortante. Não legitimador. Pois ilegítimos são os intérpretes que têm desvalorizado o voto branco.

Acrescento que não concordo com a desvalorização efectiva dos votos nulos. Numa população tão maioritariamente alfabetizada (iliteracia é outra coisa, como sabemos) e já com bastantes eleições no currículo não se pode considerar o nulo como falho. Até porque os eleitores mais passíveis do falhanço devem engrossar os abstencionistas, especulo. Seria interessante uma análise aos votos nulos, procurando entender se resultam de erros ou de efectiva recusa das propostas em compita. Não sei se a lei o permite, mas é uma curiosidade minha.

Ah, nos últimos largos anos tenho votado explícito. Não sei se bem, mas optei. Não estou aqui na onda literária.

Adenda: no mesmo Público o colunista José Vitor Malheiros diz que "O problema do voto em branco é a sua utilidade. O voto em branco consciente, de alguém que recusa todas as opções que lhe colocam na bandeja e que clama pela possibilidade de outra escolha é exactamente igual ao voto em branco analfabeto, ao voto em branco imbecil e ao voto em branco enfastiado.".

Sempre me irritaram os imbecis que apelam ao voto útil.

Publicado por JPT em 01:15 AM | Comentários (2) | TrackBack

25 de Abril

Aqui Posto de Comando.

Excelente janela abriu o Paulo Querido, saudações reformistas. E abraço, devido a quem tem ideias.

Já agora, e porque aqui: imagine V. imagina tu a blogosfera em português sem que tivesse sido 25 de Abril.

Sei que alguns dirão "Bem, seria evolutiva?". E logo outros os apoiarão com um "Até na continuidade".

Mas talvez não chegue...A ver vamos

Publicado por JPT em 12:56 AM | Comentários (0) | TrackBack

Livros

O trabalho, a preguiça, a Carolina, a blogomania, e vários etcs. têm-me reduzido a leitura. Diria melhor, e porque tudo o resto já existia, a blogomania reduziu-me a leitura. Os livros acumulam-se cada vez mais, a pedirem uso, uns oferecidos. A resolver isso, que há capas bem bonitas...

Publicado por JPT em 12:17 AM | Comentários (0) | TrackBack

abril 06, 2004

Citar para mais tarde recordar

“Confesso que não li e não gostei do último livro de Saramago”.
João Pereira Coutinho, Expresso 3-4-2004.

Vem isto a propósito do último Saramago. Que ainda não vi em Maputo. Que não irei ler logo que chegue. Porque não sou grande apreciador. No país do Sporting-Benfica dizer isto levanta logo interpretações políticas e pessoais. Como se o homem não fosse escritor, e de livros se tratasse, histórias contadas, visões mais ou menos parcelares do mundo.

Não é o meu caso. Como pessoa conheci-o cá, e foi-me até muito amável. Ouvi-o e muito gostei. Duas intervenções brilhantes, um improviso não escrito na Associação de Escritores em 1999 sobre várias coisas, e acima de tudo sobre Portugal e África, que achei extraordinário. Voltou a Maputo para lançar a Caverna e falou, corrosivo, do mundo que se vive. Até para meu escondido agrado aplicou, defendeu, uma expressão que muito usava eu no quotidiano do privado, o delenda Cartago est - pode parecer pedantice dizer isto, mas não é, até porque a frase é património milenar.

Aprecio-lhe ainda o mau-feitio, a irritação, que até parece constante. Pode ser atitude ou pose. Mas também pode ser genuína. Idade, se calhar. Vaidoso? Parece, mas quem não o seria se já velho chegasse onde chegou? Ok, é comunista

Vem isto a propósito da barulheira acerca do voto em branco. Talvez seja redução do público, todos compram os 100 mil livros e depois não os lerão? Talvez seja culpa do escritor, e da Caminho, que jogam na polémica e não no livro para mais rápido o venderem. Mas não é aquilo um livro

Publicado por JPT em 02:48 PM | Comentários (0) | TrackBack

Chuvas tardias

Publicado por JPT em 12:25 AM | Comentários (0) | TrackBack

Khosa, já agora

"Que papel terá um grão de areia na construção da duna, no uivar das areias, no tumulto que se levanta no deserto? Que papel terá a folha que cai sem amparo e é calcada impiedosamente por ignotos que passam? (...)" perguntava ele, Khosa, nas Histórias de Amor e Espanto. Perguntas de sempre e de todo o local, e de tão difícil resposta. Mas também perguntas de um sempre especial neste local, e nesse aí, nesse então, bem mais difíceis do que qualquer resposta.

Tempos locais onde quando Khosa escreveu lá no Ualalapi:

"-Dizem que morreu de doença, pois há várias noites que não tirava os olhos do tecto da sua casa.
- Uma morte desumana para um nguni.
- Há quem afirme que o pai morreu da mesma forma.
- Não era o desejo deles, Mputa.
- Conheço poucos reis que morreram em batalhas.
- Mas todos afirmam que é a melhor morte.
- Quando se dirigem aos guerreiros.
- Pensas muito depressa
.
(...)"

Publicado por JPT em 12:06 AM | Comentários (0) | TrackBack

abril 05, 2004

Khosa

O Khosa reeditou o Ualalapi e, ainda bem porque há muito esgotado, o Orgia dos Loucos.

Publicado por JPT em 07:23 PM | Comentários (0) | TrackBack

Atropelamentos

Há uns meses participei numa missão internacional aqui decorrida. No briefing, longo diga-se, sobre a situação, objectivos e cuidados logísticos os organizadores sublinharam que em caso de atropelamento os membros da missão deveriam afastar-se do local o mais rápido possível, dirigindo-se à esquadra mais próxima. Tudo isso devido ao perigo de linchamento popular em que os condutores envolvidos incorrem.

Insurgi-me na altura. Referi a ausência de dados efectivos sobre situações semelhantes. Sublinhei a escassez de ambulâncias no país, salientando a importância de acompanhamento dos feridos aos hospitais e centros de saúde, ainda que quebrando a regra de ouro dos serviços de saúde alhures, não tocar num acidentado.

Hoje telefona-me um colega amigo, abatido. Durante o fim-de-semana teve a infelicidade de atropelar mortalmente um peão, uma situação malfadada que lhe foi completamente impossível de evitar. E, em pleno grande Maputo, após alguns minutos no local do acidente, esperando os socorros já então inúteis, teve que fugir do local aproveitando a boleia do primeiro carro que passou, pois o linchamento ia iniciar-se.

Sem leituras apressadas logo me surgem estes episódios como demonstrativos do profundo hiato existente entre uma população desapossada e todos os seus patrícios que, pelo menos, partilham da benesse de uma viatura, desse extraordinário signo de distinção. Gente de um outro mundo, culpada de imediato. Atropelamentos feitos catarse de uma extrema estratificação?

Publicado por JPT em 05:12 PM | Comentários (1) | TrackBack

Blogs outros

Aumentei lista de elos com blogs. Alguns já na aldeia, outros lá do Atlântico Sul, e outros para completar aros.

Nisto visitei vários blogs brasileiros. Tivesse eu tempo para pesquisa sistemática e seria interessante comprovar o quão diferente surgem eles, em média, dos blogs portugueses. Mais pessoalizados - profusão de imagens próprias e tudo, cvs de autores, etc -, mais ilustrados (por vezes até jogando no kitsch), a vida pessoal à solta, e menos políticos e sisudos. Mais esoterismo, aqui e ali, também. E ainda, pelo menos no núcleo em que caí, qual salta-pocinhas, com autores mais jovens. Mas enfim, apenas uma passagem num universo enorme, nada que permite grandes discursos generalizantes.

Já agora permito-me chamar a atenção para um blog que elenquei há algum tempo e que acho uma ternura: O Meu Filho e Eu. Se calhar por andar eu próprio babado. Mas, e repito porque não há sinónimo que valha, é uma ternura.

Publicado por JPT em 02:37 AM | Comentários (3) | TrackBack

abril 04, 2004

Apontamento apagado

Acabo de apagar um apontamento. Acho que nunca o tinha feito. No blog, claro, que na vida sucedem-se os apontamentos que gostaria de poder apagar e, ainda mais, aqueles que gostaria de ter botado e não o fiz. Por medos ou preguiças, por lentidão de cabeça também.

Este era um elo elogioso a uma bela boutade de blog amigo. Mantenho o sorriso, incoerente ambivalente como sou.

Mas hoje acordo mal-disposto, leia-se sisudo. E lembro-me de um radical dogma: um homem é inocente até se provar o contrário; e também me lembro de um outro algo - um homem esteve preso um ano e, afinal, agora dizem que indevidamente.

Por isso, e apesar da paráfrase até me parecer pedante, hoje "ich bin ein Jorge Ritto".

Publicado por JPT em 11:50 AM | Comentários (5) | TrackBack

Texto de Mia Couto no Savana

O leitor "Mossuril" (bom gosto de alcunha) usou os comentários de apontamento anterior para reproduzir um texto de Mia Couto, publicado no jornal Savana de 2 de Abril, anteontem. Dedicado à questão do eco jornalístico dos acontecimentos de Nampula. Trago-o para a página principal, enquanto agradeço ao citado leitor.

Há no texto uma frase problemática, que não quero transcrever sem referir: "O as­sunto é a capacidade que é reconhecida a um país para ser o produtor da sua própria informação".

Assim descontextualizada pode parecer apelo a uma radical autarcia informativa. Não concordaria. Mas estou mais do que certo que é uma frase/argumento a ler no contexto, e que não é passível de leitura literal. Mas sim como crítica a este tipo de abordagem e às interpretações que provoca. Crítica a uma informação desinformativa.

Assim sendo aqui segue o

A ASA DA LETRA (Mia Couto)

Desastres

— Então aquilo em Mo­çambique é que está um de­sastre!?

O meu coração congela, empalidecido pelo susto. Estou em Lisboa, numa manhã fria de Março. Amanhã vai ser lançado o meu livro de contos. Acordei tarde, o homem do táxi tira proveito do meu cansaço. Mal digo que sou fora, ele dispara a observação sobre o estado desastroso do meu país. Agito-me no banco de trás enquanto as perguntas se atropelam na minha cabeça: Um desastre? Que tragédia abalou o meu país? Novas cheias?

— Desculpe, estou fora há alguns dias, não tenho acesso ao noticiário. Que desastre é que se está a referir?

— Andam por lá a cortar tudo o que é órgão e a vender miúdos. Que barbaridade, no nosso século, ainda aconte­cerem coisas dessas !

Entendi, então. O homem falava de Nampula, do caso do alegado tráfico de órgãos humanos. Ou por outra: ele não falava de Nampula. Mas de Moçambique. Esse mundo que ele ignorava mas que imaginava como um universo onde todas as atrocidades são possíveis. As notícias que ele não entendia bem eram prova desse palco natural de selva­jaria.

— Não acredita, meu sen­hor? Está em tudo que é jornal !

Quando me retirei da viatura fui, de imediato, com­prar jornais para beber da fonte onde o taxista poderia ter bebido. E lá estavam, de facto, os ca­beçalhos, as grandes re­por­tagens, as chamadas de pri­meira pági­na. Li as principais reportagens. E fiquei surpre­so. Nenhuma delas era con­clu­siva sobre fosse o que fosse. Sem factos, sem provas. Mas cada um dos artigos alimen­tando esse doentio desejo do es­cândalo. Equipas inteiras de repórteres exportadas para Nampula com o pomposo título de “enviados especiais” reme­xendo em neblina, poeira e em ecos de rumores. Era como se, de repente, as mais elemen­tares normas daquilo que é o bom jornalismo tivessem sido esque­cidas. Falei, nesse ins­tante, com outros jornalistas portu­gueses que confirmaram a minha impressão sobre esse empolamento.

No regresso, apanhei o mesmo taxista. O homem quis saber se eu tinha lido os jornais. Respondi que sim, que os tinha lido. Não disse mas apeteceu--me perguntar-lhe:

— Então, em Portugal, isto é que vai um desastre !?

E poderia falar da pedofilia que atingiria tudo e todos, envolvendo até os mais altos dirigentes da nação. Fazendo tábua rasa de tudo aquilo que as autoridades de justiça portu­guesa pudessem ou não ter comprovado. Porque a lógica do escândalo não se destina a comprovar factos, mas a alimen­tar um.

Não defendo que não exis­tam problemas a serem escla­recidos em Nampula. Como existirão em outras províncias de Moçambique. E em outros países. Mas o assunto não é esse. O as­sunto é a capacidade que é reconhecida a um país para ser o produtor da sua própria informação. O direito soberano das suas legítimas instituições de produzirem confirmações ou desmentidos. Senão o que fica desta cam­panha histérica é a sedimen­ta­ção do mito da gente diabólica, a desacreditação das auto­ridades moçambicanas, a pro­moção da instabilidade e da xenofobia. Um investidor, me­nos avisado, acredita que algo de nebuloso pode sempre ocorrer num país tão vulne­rável. Um turista, menos informado, risca da sua agenda a ideia de escolher Moçam­bique como destino.

Talvez alguns dos jornalis­tas portugueses possam re­pen­sar este assunto à luz da sua própria experiência domés­tica. De tanto elegerem o lado escabroso da história da pe­dofilia, algum do jornalismo em Portugal agrediu profun­damente o seu próprio prestígio dentro e fora do país. Se tomássemos por certo o trata­men­to que fizeram do assunto da pedofilia acreditaríamos, nós em Mo­çambique, que Portugal fosse um país de abusadores de crianças. Mas Portugal não é a Casa Pia. Nem Moçambique é um territó­rio de selvagens traficantes.

Publicado por JPT em 10:45 AM | Comentários (0) | TrackBack

abril 03, 2004

Mulher

"(...) Fanisse trabalhava a terra, curvada, os grandes seios suspensos como papaias. Sonto às costas ou escarranchado na ilharga, a mamar. E nunca palavras que fossem de raiva contra a sua vida de mulher e nunca seu corpo rendido ao peso do chicomo nas mãos calejadas. (...)"


José Craveirinha, "Mamana Fanisse", Hamina e Outros Contos, Maputo, Ndjira

Publicado por JPT em 11:39 PM | Comentários (1) | TrackBack

abril 02, 2004

Numa missão

Há dez anos (já?) cheguei a Moçambique e fui andando para o norte, boleias, chapas e mochila às costas.

Fiquei-me em Montepuez. Uma malako no restaurante do João, tempos em que não havia electricidade daí que cervejas várias e quentes para ganhar embalo, uma noite no Geptex onde, vá lá, havia água no balde. No dia seguinte visita à administração, “para saudar” e informar ao que vinha, e logo avançar à procura de aldeia onde viver. De preferência junto a estrada com carros, pois então ainda temia que a malária se pegasse fulminante. Mas antes, porque era obrigatório, visitei a célebre missão, padres holandeses há décadas no distrito.

Fui bem recebido, mas por aquele que era já o último, os outros três, velhos, tinham morrido recentemente. Todos de cancro, “se calhar contagioso”, ironizou o padre, alto, rijo nos seus cinquentas, bem-humorado. Lamentou não me ser muito útil, só tinha chegado há dois anos, depois de décadas de Zâmbia (ou Malawi, já não estou certo e o diário está em Lisboa). Os mortos, esses sim, tinham muitos anos daqui, este nem falava bem macua.

Foi buscar as cervejas, até quase frias do gerador, e discorreu sobre macuas e macondes, sobre o fim da guerra (recente então). Tudo ali na varanda, mosquiteiros remendados, casa pobre como sempre o são as missões. E por todo o lado bolas de futebol a remendar e equipamentos puídos. Surpreso indaguei o que era tudo aquilo, riu-se bem lá do fundo, e explicou-me o seu trabalho. A evangelização fazia-a pelo futebol, tinha organizado equipas de jovens em cada aldeia, transportava-as no velho 4X4 da missão e o campeonato lá se realizava: “a minha missão terminará quando Montepuez tiver uma equipa na I divisão nacional”, sorria, quase sonhador. Tal como eu, a ouvir-lhe o rumo, da passagem da ideia de entreajuda, da competição saudável, rasgando ainda um bocado de horizontes a todos aqueles miúdos encerrados em vidas de machamba. Já agora, mas já agora, ligava-os à missão, à sua fé católica, num “a Bíblia vem depois”.

Surpreendi-me, ali original e mesmo algo heterodoxo. Até pelo tom. Disse-lho e aí sim começou a falar, naquele tom irónico da desilusão que vamos aprendendo com a vida. Invectivando os erros da igreja católica em África, resmungando com um Vaticano tão cheio de certezas mas sem nada perceber das realidades, assim incapaz de perseguir os objectivos propalados. Ainda hoje o ouço, certeiro, eu cujo Vaticano é outro mas tão semelhante nas certezas enfatuadas.

E lá seguia ele, criticando o Papa e sua hierarquia, enquistados de rigidez. Sem sentirem os contextos locais e como neles trabalhar, ainda que com todos estes séculos de experiência de evangelização. Sem olharem com olhos de ver as possíveis misturas, numa fé católica ela própria feita de sincretismos outros e aqui apenas a exigirem serem actualizados. Incapazes de actuar na pobreza radical tão ricos se tornaram. E exemplificava com a atitude face à poligamia, que tanta gente afasta da igreja, e já me falava da Sida, num país então pouco alerta, que os refugiados estavam a chegar, carregando-a claro está.

Fiquei atónito. Ateu, ali recém-chegado e a escutar um discurso daqueles. Quase à saída confessei-lhe um “nunca pensei encontrar aqui um discurso destes”. Riu-se, olhos brilhantes, rematando como se tudo justificasse “I’m a dutch!”.

Nunca mais o vi, nesses meses seguintes procurei-o algumas vezes quando regressava a Montepuez mas sempre o desencontrei.

Todos estes anos passados fui até lá. Perguntei por ele, revisita que se me impunha. Alguém, até atrapalhado, disse-mo já partido, que tinha saído à pressa há coisa de dois anos. “À pressa?”, lamentei, logo lembrado do tal cancro (se calhar contagioso), “estava doente?”. Mas não, teve que partir, e diziam-no constrangidos, pois havia muitas queixas de pedofilia. “O Qué?”, recusei, sem poder acreditar, que agora todos o são, não pode ser mais que uma moda. Mas não, infelizmente não eram boatos, queixas muitas, a sua própria hierarquia o mandou embora.

Fico-me na minha desilusão. As belas ideias, a bela palavra. E, afinal, homem como os outros. Como nós.


[Esta vai para o blog amigo Tugir]

Publicado por JPT em 03:16 PM | Comentários (4) | TrackBack

Pale

Será que para apanhar um homem a Nato atacaria uma igreja católica? Já nem digo em Lourdes, a dúvida extendo-a até à terra do Trudjman!
E uma capela protestante? Entrariam de tiros na mão? Para apanhar um homem, por crápula que fosse?
Ou, porque uma igreja é coito, prefeririam deixá-lo morrer de velho, na cama? Já nem digo o Trudjman...

Publicado por JPT em 02:06 PM | Comentários (1) | TrackBack

Excelente

Excelente José Manuel Fernandes.
Até porque andei por aqui a criticar o seu jornal, bimerece a chamada de atenção.


Publicado por JPT em 01:48 PM | Comentários (1) | TrackBack

De manhã cedo...

...leio o O Jogo e vejo-me completamente de acordo com Pinto da Costa. Havia de chegar o dia, é a teoria do inimigo principal. Real Politik, talvez. Mas tem que ser, urge, apesar de tudo..."Mourinho à selecção, já!".

Publicado por JPT em 01:43 PM | Comentários (1) | TrackBack

Guiné-Bissau

Há meses escrevi sobre o pouco que sei da Guiné-Bissau e do que acho sobre o lendário PAIGC e dos seus chefes reformados em Portugal.

Considero que a única ex-colónia onde Portugal tem alguma legitimidade para protestar o rumo é aquela.

Mas agora que o novo dirigente do PAIGC se apresente também ele de barrete é que não esperava. Que coisa...

Publicado por JPT em 12:45 AM | Comentários (3) | TrackBack

abril 01, 2004

Novo blog

Até o Noam Chomsky...

Publicado por JPT em 01:58 AM | Comentários (0) | TrackBack

Provincianos

[espero vir a engolir este apontamento...]

1. O futebol é um exagero português. O Euro-04 é uma imbecilidade portuguesa.

2. O presidente da federação é uma incongruência. Sempre o foi, mas a barracada coreana demonstrou aos mais distraídos a sua ridícula incompetência. E a sua indignidade arrogante: não se demitiu e respondeu às críticas com um relatório de 69 pontos. Um insulto para os aficionados, um escárnio para quem lhe financia a aventura organizativa.

Para sobreviver - apenas para isso - foi buscar Scolari. Prova disso é que já tinha outro treinador convidado. A contratação de Scolari foi em desespero de causa.

3. A selecção jogava melhor (e já eram apenas jogos-treino) com Nelo Vingada. Jogava melhor, rematava mais (Scolari chegou e disse que era preciso rematar mais, e vê-se o resultado) e até marcava mais.

Mais de um ano depois a selecção joga mal, sempre. Há tontos, como Gabriel Alves, que dizem que em Maio o seleccionador "terá vinte dias para preparar a equipa": vinte dias? E até agora, que se fez?

Se o homem fosse português todos exigiriam a demissão de Scolari. Há muito.
Como é estrangeiro aguentam, na expectativa.

4. Como cidadão e como emigrante prefiro o provincianismo a qualquer xenofobia. Mas não há dúvida, toda esta tontice destapa um país de provincianos.

PS. Madaíl foi governador-civil e deputado da República. E voltará a sê-lo, acredito. Pois opróbrio não é do léxico político.

Publicado por JPT em 12:12 AM | Comentários (3) | TrackBack